segunda-feira, julho 19, 2004


"O meu princípio é tudo e só por ele é que minha pessoa vale"
Conde de Chambord.

  
 
FARIAS BRITO E A FILOSOFIA DO ESPÍRITO
Por Fernando Rodrigues Batista 
  
 
Um personagem de Chesterton, em "A Esfera e a Cruz", quebrava a bengaladas
as vidraças de um jornal que ofendia a Mãe de Cristo, era uma forma de fazer
frente a seus opositores e do cristianismo.

 
Nesta linha de raciocínio, no Brasil, Raimundo Farias Brito (1862-1917),
notável filósofo cearense, hoje tão olvidado dos meios intelectuais,
espancava seus antagonistas com o vigor de sua pena, sobretudo àqueles
pertencentes ao que ele alcunhou de "filosofia do desespero", a saber, o
fenomenismo de Hume; o criticismo de Kant; o positivismo de Augusto Comte.

A obra erigida pelo portentoso pensador pátrio contribuiria em nosso tempo,
para por cobro à faina demolidora, esse insulamento trágico do existir –
conforme expressão de Elias Tejada – que é a regra dos desbocados
existencialismos moderno, seja o cristão de Soren Kierkegaard, ou o
heideggeriano, ou mesmo o existencialismo ateu de Sartre.

Farias Brito entendia que, a filosofia, fornecendo uma interpretação da
existência, dá-nos ao mesmo tempo a compreensão do nosso destino.
Novalis, de uma certa feita, ensinou que, só um artista pode adivinhar o
sentido da vida. Nesse sentido, Carlos da Veiga Lima, em estudo referente à
obra de Farias Brito, dizia em certa altura: "E haverá maior artista que o
filósofo?... A filosofia é a arte suprema... arte para nosso filósofo, não é
senão, energia criadora do ideal".

A realidade é uma afirmação do espírito, e só o espírito atrai o pensamento,
dando-lhe força pragmática, modelando como IDÉIA FORÇA que coordena o
obscuro mecanismo da nossa personalidade e da realidade à nossa consciência
e eficácia a idéia (Carlos da Veiga Lima). Somente através da filosofia se
pode alargar o horizonte humano da vida moral e chegar ao heroísmo da vida
religiosa. Acerca do assunto, consoante a lição do insuspeito Willian James,
filosofo do pragmatismo, "... é no heroísmo bem sentimos, que se acha
escondido o mistério da vida... é abraçando a morte que se vive a vida mais
alta, mais intensa, mais perfeita, profunda verdade de que o ascetismo foi
sempre no mundo campeão fiel. A loucura da Cruz conserva uma significação
profunda e viva". (W. James, in L´experience religiouse).

Farias Brito foi um inovador, um paladino do espírito, se colocou em combate
num campo onde se encontravam adversários do estofo de um Tobias Barreto e
de uma plêiade de intelectuais seguidores de Augusto Comte e Herbert
Spencer, merecendo a justa homenagem do conspícuo professor Câmara Cascudo,
que com a loquacidade que lhe era peculiar, definiu o homem e autor de
"Finalidade do Mundo", como, "singular operário, obstinado e tranqüilo,
batendo uma silenciosa bigorna, um aço que resistiria à ferrugem de todas as
indiferenças, destinado a relampejar, ao calor do sol, como uma aura de
esplendor e sucesso".

É notório verificar, não sem preocupação, que a juventude, pensante ou não,
ainda sofre os influxos da putrefação filosófica, se deleitando nas leituras
dos próceres do pensamento materialista, Hegel, Marx, Feuerbach, Heidegger,
Kant... se tornando infensos a vigorosidade da "Filosofia do Espírito" do
saudoso pensador cearense. Cabe proclamar com exaustão, que para Farias
Brito, é o Espírito que elabora idéias, produz o pensamento, cria a ciência,
interpreta o universo.

Entendemos que tudo quanto escreveu, foi para os olhos de nossa geração, que
caminha como fardo sem endereço, em busca de um relâmpago interior que seja
inoculado em suas almas, impulsionando-os às culminâncias mais elevadas,
dando significado e dignidade ao seu destino.

Corroborando com tudo quanto dissemos, cabe ressaltar a indelével sentença
de um ilustre pensador lusitano: "... os homens passam com o seu tropéu de
ódios, com o seu cortejo de violências, mas que não passa jamais toda
afirmação que é feita com amor e servida com sinceridade".
 
 

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