terça-feira, dezembro 23, 2008

A lição Tailandesa

Por FERNANDA LEITÃO

Recentemente, o mundo foi surpreendido pela revolta generalizada do povo tailandês, esse povo educado e doce que serviu, entre outras obras de arte, de inspiração ao filme O REI E EU, mais tarde em versão teatral interpretada pelo inesquecível bailarino Nureyev, que deste meio se serviu para, em tournée mundial, se despedir do público antes de o pano descer sobre a sua própria vida. Num país de beleza e doçura, donde vinha essa revolta? Contra o quê e contra quem? O que se propunha?

E o mundo ficou boquiaberto: a revolta era contra a corrupção, contra o governo que permtiu e incentivou a corrupção. Exigia-se o derrube e julgamento do governo. O povo em massa cerrou fileiras em volta do seu rei e da sua democracia. Num mundo em que a corrupção se tornou moeda corrente e rotineira em tantos países, velhos e novos, já causa espanto que povos recusem viver na lama que leva à ditadura.

Mas foi o que aconteceu. Durante semanas, o povo esteve nas ruas a bater o pé à minoria corrupta, a sofrer a repressão dos que, para além da culpa, tinham o mando. Aguentou tudo sem desarmar nem desanimar. Quando chegou a sentença do tribunal, condenando sem apelo nem agravo os mentores da corrupção, a taça transbordou. O governo caíu. O partido do governo ficou na valeta da credibilidade. Passou-se a um período de transição rumo a eleições democráticas.

Feliz Tailândia, feliz terra em que o povo abomina a corrupção e faz um corpo só com o seu rei. Ali, a chefia do estado não é pretexto para, de tantos em tantos anos, se jogarem as pessoas umas contra as outras, se escolher um partidário para a cabeça do estado e depois se assistir ao espectáculo degradante de os partidos da oposição fazerem do escolhido o bode expiatório das suas frustrações, e o escolhido ficar entre a espada do seu partido e a parede da opinião pública.

sábado, dezembro 20, 2008

sexta-feira, dezembro 19, 2008

A ratoeira

Ambrose Evans-Pritchard

The Telegraph 18 Dec 2008

Federal Reserve is damned either way as it battles debt and deflation

We know what causes a recession to metastasize into a slump. Irving Fisher, the paramount US economist of the inter-war years, wrote the text in 1933: Debt-Deflation Theory of Great Depressions.

"Such a disaster is somewhat like the capsizing of a ship which, under ordinary conditions is always near stable equilibrium but which, after being tipped beyond a certain angle, has no longer this tendency to return to equilibrium, but a tendency to depart further from it," he said.

Today we call this "Gladwell's tipping point". Once it goes, you can't get back up. This is why the Federal Reserve has resorted to emergency measures that seem mad at first sight.

It has not only cut rates to near zero for the first time in US history, it is also conjuring $2 trillion of stimulus out of thin air. This is Quantitative Easing, or just plain 'QE' in our brave new world.

The key is the toxic mix of high debt and deflation. An economy can handle one at a time, but not both.

The reason why it "departs further" from equilibrium is more or less understood. The burden of debt increases as prices fall, creating self-feeding spiral. This is what Fisher called the "swelling dollar" effect. Real debt costs rose by 40pc from 1929 to early 1933 by his count. Debtors suffocated to death.

Brian Reading from Lombard Street Research has revived this neglected thesis and come up with some disturbing figures. US household debt is now $13.9 trillion, down just 1pc from its peak last year. Meanwhile household wealth has fallen 14pc as property crashes, a loss of $6.67 trillion. The debt-to-wealth ratio is rocketing.

Clearly the US is already in the grip of debt-deflation. "The obvious conclusion is that the Fed should print money to purchase private sector assets so as to drive up their price," he said.

Fed chief Ben Bernanke does not need prompting. He made his name as a Princeton professor studying the "credit channel" causes of depressions. Now fate has put him in charge of the channel.

Under his guidance, the Fed has this week pledged to "employ all available tools" to stave off deflation - and damn the torpedoes. It will purchase "large quantities of agency debt and mortgage-backed securities." It will evaluate "the potential benefits of purchasing longer-term Treasury securities," i.e, printing money to pay the Pentagon.

Put bluntly, the Fed is deliberately stoking inflation. At some point it will succeed. Then the risk flips quickly to spiralling inflation as the elastic snaps back. There will be a second point of danger.

By late 2009, if not before, the bond vigilantes may start to fret about the liquidity lake. They will worry that the Fed may have to start feeding its holdings of debt back onto the market. The Fed's balance sheet has already risen from $800bn in September to $2.2 trillion this month. It will be $3 trillion by early next year.

"The bond markets could go into free fall," said Marc Ostwald from Monument Securities.

"The Fed went into this all guns blazing just as the Neo-cons went into Iraq thinking it was a great idea to get rid of Saddam, without planning an exit strategy. As soon as we get the first uptick in inflation, the markets are going to turn and say this is what we feared would happen all along. Then what?" he said.

New Star's Simon Ward said all three measures of the US broad money supply are flashing recovery. M2 has risen at annual rate of 17pc over three months.

"It has all changed since the Fed began buying commercial paper in October. If the money supply is booming at 20pc in six months, inflation will become a concern. Given that public debt ratios are already on an explosive path, we risk a debt trap," he said.

For now, the bond markets are quiet. Futures contracts are pricing five years of deflation in the US. Yields on 10-year US Treasuries have halved since early November to 2.09pc, the lowest since the Fed's data began. Three-month dollar LIBOR has plummeted to 1.53pc.

It is the same pattern across the world. 10-year yields have fallen to 1.27pc in Japan, 3pc in Germany, 3.2pc in Britain, and 3.49pc in France.

The bond markets seem to be betting that emergency action by central banks will take a very long time to work, if it works at all. By cutting to zero, the Fed has come close to shutting down the US 'repo' market that plays a crucial role in providing liquidity. It has caused havoc to the $3.5 trillion money markets - as the Bank of Japan, burned by experienced, had warned. It has become even harder for banks to raise money. Some argue that extreme monetary policy is already doing more harm than good.

Mr Bernanke is known for his "helicopter speech" in November 2002, when he nonchalantly talked of the Fed's "printing press" and said it was the easiest thing in the world to "reverse deflation."

Less known is his joint-paper in 2004 - "Monetary Policy Alternatives at the zero-bound". By then doubts were creeping in. He admitted to "considerable uncertainty" as to whether extreme tools will actually work. Liquidity could fail to gain traction.

Put another way, the Fed is flying by the seat of its pants. It should never have let debt grow to such grotesque levels in the first place.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Pesadelos americanos

I.


Fonte: A New Era of International Cooperation for a Changed World: 2009, 2010, and Beyond, a Report by MGI-The Brookings Institution, November 2008.

II.
O comentador político da RIA Novosti, Dmitry Kosyrev, publicou hoje um artigo em que diz que poucas pessoas sabem o que é que Henry Kissinger estava a fazer no passado fim-de-semana em Moscovo. Aparentemente, Kosyrev não pertence aos que sabem, mas sabe o bastante para dizer que o "republicano" Kissinger pertence ao grupos dos magos da política externa da Casa Branca, seja qual for o presidente. Terá Kissinger ido apaziguar Dmitry Medvedev depois da sra. Clinton ter sido indicada por Obama para a secretaria de Estado? Afinal, não foi Bill Clinton quem criou a actual trapalhada entre a Rússia e os EUA? Será suficiente a mediação de Kissinger? Em Dezembro do ano que vem expira o acordo de redução de armas estratégicas (Strategic Arms Reduction Treaty - START I). E como é que, na próxima Primavera, se irão passar as coisas lá para as bandas do Cáucaso?

domingo, dezembro 14, 2008

Esperança apesar de tudo

CARTA DO CANADÁ
Fernanda Leitão

A sopa de grão com espinafres, quentinha, a saber a lar de família, saboreada por centena e meia de pessoas, na sua maioria idosas, sentadas ao longo de mesas decoradas com sóbrio gosto. Os pequenos papo-secos portugueses com manteiga a anularem dietas de quem carrega contenciosos com a tensão arterial trepadora. O perú recheado e um puré de batata a trazer recordações de juventude. A tarte de maçã com sorvete, à boa moda canadiana. O café, fraquinho, mas saboroso, a acompanhar aquele lado a lado sem formalismo de quem aprendeu, a milhares de quilómetros da Pátria, que somos, de facto, irmãos. Para o que der e vier, seja almoço de Natal, seja doença ou luto, pouca sorte ou alegria a celebrar.

Lá fora soprava um vento polar e arauto de neve a vir. Mas aquele salão da Saint Christopher House, no coração da comunidade portuguesa de Toronto, aquecia como um bom abraço. Instituição de solidariedade social que tem as suas portas abertas desde os anos 20 do século passado, prestando muitos e relevantes serviços a idosos e doentes, é um verdadeiro centro de dia para muitos portugueses que se viram na contingência de emigrar e, neste país imenso, muito trabalharam, lutaram e envelheceram. Ali tomou corpo o grupo Mulheres Portuguesas 55 + que, entre outras actividades meritórias, faz teatro mudo, que nem por sê-lo deixa de ser uma forte denúncia das injustiças, e até violências, a que os seniores podem estar sujeitos, quantas vezes no seio da própria família. Tanta força tem esse meio de comunicar que o grupo é frequentemente convidado a exibir-se nos centros comunitários das muitas etnias emigradas na cosmopolita Toronto. A Casa atingiu o seu ponto alto pela mão de duas senhoras portuguesas, a directora e a coordenadora, Odete Nascimento e Isabel Palmar, respectivamente vindas de Moçambique e de Benavente.

À medida que foram chegando os artistas que animaram a tarde, foi a curiosidade, a festa. E todos eles cumpriram galhardamente, incluindo uma antiga fadista que, na sua cadeira de rodas, aos 80 anos, empolgou a sala com a sua ainda forte voz a soltar as cantigas que foram cantadas por gerações. Comovente, pela beleza e espiritualidade de algumas canções, e sobretudo pela ternura com que abraçou e se deixou abraçar, enquanto cantava, o artista Belmonte, que pôs toda a sala a dançar, a cantar, a marcar com palmas o compasso.

Por todas as razões que sabemos, pelos jornais e pelas contas que temos de fazer diariamente, este bem podia ser o Natal do Nosso Descontentamento. Mas não ali, na sala grande daquela Casa. Porque ali, todos aqueles rostos curtidos pelo tempo, todas aquelas cabeças embranquecidas pela vida, que já viram muitas recessões e muitas carências, e tudo ultrapassaram, todos detinham o segredo da resistência: o amor. É que só por amor se resiste a maus fados de Pátria que nos atiraram para longe, só por amor nos damos as mãos onde quer que estejamos, só por amor mantemos a esperança contra ventos e marés. Um amor que não se explica e mal se soletra, que nos foi legado por um carpinteiro pobre.

Tenha um Santo Natal, meu caro leitor. E acredite que vai vencer o ano que aí vem.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Página Oficial da Casa Real



Com o alto patrocínio dos Senhores Duques de Bragança abriu-se hoje, dia de Nossa Senhora da Conceição, um novo canal de comunicação com os portugueses do Continente, das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, e com as Comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Com este espaço graficamente renovado, dotado com novas secções e conteúdos, pretende chegar-se mais perto de todos aqueles que partilham com Portugal uma herança histórica e cultural ou que nutrem por Portugal simpatia, admiração ou respeito. Ali se poderá conhecer e seguir a actividade da Casa Real Portuguesa e das Instituições a ela ligadas.

É um novo ciclo que se abre, um novo Serviço que se oferece. A visitar regularmente - Página Oficial da Casa Real Portuguesa


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quinta-feira, dezembro 04, 2008

Pedro Teotónio Pereira e a «pretalhada»



Através do espaço Caminhos da Memória tive conhecimento de um interesante documento histórico. Na sua apresentação, o editor escreveu o seguinte:

"Este texto insere-se num conjunto de cartas e documentos trocados entre Salazar e Pedro Teotónio Pereira. João Miguel Almeida concretizou a recolha de correspondência trocada entre estas duas figuras do regime de 1945 a 1968. Esta carta não se encontra datada mas foi certamente escrita em 31/10/1961 ou pouco depois."

Eis o texto da carta:

EMBAIXADA DE PORTUGAL

WASHINGTON

Senhor Presidente

Escrevo de corrida porque a mala vai partir.

Muito lhe agradeço o telegrama ontem recebido. O caso dos Metodistas precisa de séria consideração. Não podem ser postos em liberdade depois de todas estas semanas na cadeia e da tempestade que eu tenho aguentado aqui, sem a conclusão natural que só pode ser o julgamento. Temos de os libertar depois de bem provada a culpabilidade, até para a política futura a seguir com esta qualidade de «missionários».

A fita aqui, continua mas mais atenuada e com o Departamento de Estado guardando silêncio prudente.

Com a maior alegria mando a V. Excia o texto do discurso de Williams anteontem à noite em New York. Não o posso traduzir porque chegou agora mesmo o texto completo. Representa indiscutivelmente uma grande mudança. Deixou de falar em self-determination e só usa a expressão self-expression. Tudo indica que estamos em face dum princípio de evolução na sua vinda a público. E é bem significativo que seja o Williams a fazê-lo. Compare V. Excia os termos deste discurso com a conversa de há um mês!

Já deve ter sido transmitido pelas agências mas os resumos são sempre muito insuficientes. Este texto precisava de ser habilmente usado aí em Lisboa sem levar muito longe a nossa satisfação mas aparentando certa confiança num melhor entendimento.

Se não surgir um incidente, pode dizer-se que está estabelecida a ponte.

A pretalhada vai dizer que o Williams os está a atraiçoar.

Vou já prevenir o Franco Nogueira em N. York. Ele vem para aqui em 6 e começará as conversas em 7.

Tenho recebido uma nuvem de cartas de apoio ao meu artigo do United States News de todos os pontos da América.

Jantei anteontem com o Sr. Mikinski que manda cordiais saudações a V. Excia.

Fez excelente serviço aqui a declaração de Delgado acerca de Galvão. A parte relativa ao caso do Santa Maria foi especialmente construtiva.

Respeitosos cumprimentos
PedTheoPereira


(In João Miguel Almeida, António Oliveira Salazar - Pedro Teotónio Pereira. Correspondência Política (1945-1968), Lisboa, Instituto de História Contemporânea. Círculo de Leitores. Temas e Debates, 2008, p. 660.)


Esta carta é na verdade um documento muito interessante, revelando-nos que bastava a um membro da administração americana mudar um pouco a sua linguagem para que um agente diplomático do governo de Lisboa logo pensasse que se estava perante uma importante mudança de política.

A fraqueza estrutural da política externa do governo de Salazar está aqui bem patente. Pela carta se depreende que Teotónio Pereira está de braço dado com o seu Ministro, Franco Nogueira, numa política em que se confundiam os alhos com os bugalhos: os "alhos" eram a política americana de substituição das potências europeias na África Austral, longamente pensada e preparada, e em clara execução pelo menos desde a administração Eisenhower e a independência do Ghana (1957); os "bugalhos" eram as pequenas mudanças de linguagem dos americanos que, naquela conjuntura, não podiam deixar de ser interpretadas à luz dos recentes reveses sofridos em Lisboa e no norte de Angola, num momento em que tinham entre mãos uma nova crise em Berlim.

No segundo semestre de 1961, os americanos estavam com efeito a aliviar a pressão que tinham vindo a fazer sobre o governo de Salazar no sentido da "descolonização", mas havia elementos suficientes para se perceberem as razões dessa nova atitude. Em Abril de 1961, falhara o golpe (com patrocínio americano) do ministro da Defesa, Botelho Moniz, e, em 31 de Outubro (data provável desta carta), os americanos já sabiam que, com as tropas portuguesas a dominarem de novo o norte de Angola (Nambuangongo fora retomada à UPA em Agosto), só depois de ficar aberta a "frente" de Moçambique (e aí as coisas estavam muito atrasadas, com Eduardo Mondlane ainda em Nova Iorque) poderiam voltar a pensar no derrube do governo de Lisboa. Humberto Delgado, bem a salvo no Brasil depois do incidente do «Santa Maria», ficava a aguardar uma conjuntura mais propícia para a detonação. Não tinha Teotónio Pereira informação sobre o que se passava em África e no Brasil?

A "grande mudança" na política americana, assinalada por Teotónio Pereira, não era afinal nenhuma mudança de fundo, limitando-se Williams a substituir a palavra "autodeterminação" por "auto expressão". Se Teotónio Pereira fosse um diplomata atento, teria percebido as implicações militares da crise de Berlim, que estalara em Julho: os americanos poderiam vir a necessitar de utilizar os Açores para transportarem tropas e armas entre os EUA e a Europa. Em 30 de Agosto, com efeito, Kennedy ordenara a mobilização dos reservistas e de mais de 148 mil homens da Guarda Nacional. Naquela altura, bastava ler os jornais para se saber que tinha sido já iniciada a mobilização dos esquadrões de aviação de caça, reconhecimento, e transporte, que vêm a participar na operação "Stair Step".

Outro aspecto interessante desta carta está na linguagem que Teotónio Pereira utiliza a respeito dos nacionalistas negros. Uma linguagem de desprezo, e que afinal escondia um outro erro grave de avaliação. Para o caso, não tinha grande importância o que os dirigentes negros – a "pretalhada" como lhes chama Teotónio Pereira – pudessem dizer. Em 1961, os chamados "movimentos de libertação" estavam ainda sem outros recursos para além daqueles que lhes eram fornecidos por, entre outros, americanos, russos, e chineses; que importância tinha o que dissessem? Era no Conselho de Segurança da ONU que estavam os seus principais patrocinadores. A influência sobre os "movimentos de libertação", e os novos estados africanos, era porém objecto de acesa disputa entre as potências. Se o governo de Portugal pretendia ter alguma influência em África, não seria importante subtraí-los a esse domínio e dependência? Só em finais de 1972, quando estava já perdida a guerra na ONU, é que Spínola enceta contactos com Amílcar Cabral. Foi tarde demais, e de forma bem desajeitada, fazendo com que o nacionalista Cabral pagasse com a própria vida.

Teotónio Pereira escreve que "se não surgir um incidente, pode dizer-se que está estabelecida a ponte." Em finais de 1961, uma ponte ficou na verdade estabelecida entre os governos de Washington e de Lisboa, mas apenas porque os americanos precisavam de uma outra "ponte": a que permitia realizar, sem percalços de maior, o trânsito de aviões e tropas entre os EUA e Berlim Ocidental. Mais tarde, aquela ponte será ainda necessária para o Médio Oriente. Durante a "crise de Berlim", que vem a terminar no Verão de 1962, as bases na Terceira e em Santa Maria terão já intensa utilização: mais de 14 mil descolagens, atingindo-se uma média de cerca de 40 voos por dia. Não havia qualquer exagero quando no Pentágono se dizia então que "a perda dos Açores degradaria seriamente a capacidade de resposta, a prontidão e o controlo de importantes forças dos Estados Unidos".

A política americana para África e Portugal, essa, vai continuar sem alterações de fundo. Até 1964, não houve incidentes de maior e, depois do assassínio de Humberto Delgado, os americanos tiveram que esperar ainda pela morte de Salazar, para poderem começar de novo a pensar num golpe de Estado em Portugal. A geração política encarregada do "25 de Abril" só começa verdadeiramente a despontar em 1969. O apoio americano à UPA e à formação da FRELIMO, esse, vai ainda continuar por muitos anos; até ao fim, no caso da UPA; no caso da FRELIMO, talvez até bem perto do assassínio de Mondlane.

A publicação da correspondência entre Teotónio Pereira e Oliveira Salazar é na verdade um importante contributo para a compreensão da catástrofe que representou a 2ª República portuguesa. Ali existe pelo menos uma carta onde fica atestada a falta de visão e a arrogância de um dos mais destacados membros da sua classe política.


JMQ

(Comentário a carta publicada em Caminhos da Memória)

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terça-feira, dezembro 02, 2008

Fios cortados?

Na imprensa portuguesa comentou-se ontem muito a nomeação de Hillary Clinton como Secretária de Estado de Barack Obama. Com tais comentários, e como é costume, a imprensa perdeu-se no acessório, esquecendo o essencial: a América está em guerra, e Robert Gates, Secretário da Defesa de George W. Bush, vai continuar no cargo. Como conselheiro de segurança nacional de Obama, será nomeado um militar recém-reformado: o general James Jones, ex-comandante do 32º Corpo dos Marines (1999-2003) e ex-Chefe do Comando dos EUA na Europa (2003-2006). James Jones, além de ter sido recentemente cooptado pela Chevron, é actualmente o presidente do Conselho do Atlântico em Washington, mas teve um papel importante na activação do Comando Africano dos EUA, uma activação que foi afinal uma das principais razões pela qual foi escolhido Obama para a presidência (como aqui foi já por diversas vezes salientado). As "novas" prioridades nacionais de política externa e de segurança dos EUA, foram assim anunciadas:
- Terminar com a guerra no Iraque (dentro de 16 meses);
- Fortalecer a luta no Afeganistão;
- Lutar contra o extremismo;
- Lidar com as alterações climáticas globais;
- Restaurar a liderança da América no plano internacional.

A menos que os EUA pretendam, aludindo às alterações climáticas, vir a mudar as datas em que ocorrem o periélio e o afélio do planeta Terra, tudo fica como dantes, quartel-general em Abrantes.




Mas passou também quase despercebida uma outra notícia, com alguma relação com a anterior: no Canadá, toda a oposição está agora reunida em torno de um pacto para derrubar o governo "conservador" de Stephen Harper.

Apesar do partido "conservador" de Harper ter vencido as eleições de Outubro, não conseguiu obter a maioria dos deputados na Câmara dos Comuns. Sob a chefia de Stéphane Dion, os "liberais" conseguiram obter o pior resultado desde a Confederação de 1867; foi o quanto bastou para conseguir reunir toda a oposição em torno de uma “coligação progressista” (de “liberais” e “socialistas”), com o indispensável voto favorável dos “nacionalistas” / "separatistas" do Quebec. Se a governadora-geral do Canadá, Michaëlle Jean, aceitar este pacto e, sem a realização de novas eleições, empossar o pretendido governo de coligação, criará uma situação deveras original: nos próximos 18 meses a Federação do Canadá estará nas mãos dos "separatistas" do Quebec... Com 77 deputados "liberais" e 37 "neo-democratas" (o nome local dos "socialistas") a apoiar a "coligação progressista", serão necessários os votos dos 49 deputados "separatistas" do Quebec para bater os 143 deputados dos "conservadores". Então, sim, será caso para dizer que deverão estar a caminho grandes mudanças na geopolítica global. - Será que os russos e os chineses começaram já a cortar os fios que sustêm o dólar americano?

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segunda-feira, dezembro 01, 2008

Mensagem do 1º de Dezembro: «O rei é livre e nós somos livres»

Mensagem de S.A.R. Dom Duarte de Bragança, de 1 de Dezembro de 2008


Portugueses:

No 1º de Dezembro de 1640, os nossos antepassados devolveram Portugal aos Portugueses. Souberam responder à crise do seu tempo, lutando pela nossa independência. Hoje, olhamos para o nosso país, e vemos que se acentua a dependência externa e a obediência a directivas quantas vezes alheias à nossa própria vontade.

Anunciam-se dias difíceis. Parece evidente que 2009 será pior que os já duros anos recentes, particularmente para os mais desfavorecidos. É nos momentos de provação que se testa a alma de um povo. Para enfrentar a crise e manter a coesão social devemos invocar os valores espirituais da nossa cultura e vivermos em coerência com a nossa identidade e tradição. O reforço dos laços familiares, o sentido de comunidade e de povo são atitudes urgentes e decisivas em alturas como esta.

Enfrentámos muitos problemas terríveis ao longo da nossa História, que o nosso ânimo conseguiu ultrapassar. E daqui apelo aos instintos de iniciativa e solidariedade, de generosidade e de engenho.

É preciso ampliar a visão, ensaiar ousadia, e confiar a nós mesmos a garantia de desenvolvimento sustentado.

Vivemos uma ocasião propícia para rever as nossas prioridades. Devemos aprender a viver melhor consumindo menos, poupando os recursos limitados do nosso planeta. Para isso é importante apoiar a acção pedagógica de cientistas e organizações ambientalistas. Somos o país europeu com a menor percentagem de filiados nestes movimentos, que mereciam mais representação parlamentar.

A hora é de investir no povo português. As grandes opções para o nosso desenvolvimento têm agora uma oportunidade única para alterarem o rumo. Em vez de se deixar bloquear por falta de critérios técnicos ou por pressões de interesses, o Estado, o sector privado e as associações devem dar as mãos para ultrapassarmos as dificuldades. Queremos medidas mais justas e mais equitativas, e não apenas declarações que chegam tantas vezes tarde demais…

Como disse, a hora é de investir no povo português. É o que têm feito as famílias portuguesas que, com muito sacrifício, apostam na educação dos seus filhos. A qualificação dos jovens é indispensável e os movimentos de professores e de pais clamam por melhor Escola, em programas de ensino adequados, e pela dignificação e respeito pela missão dos professores.

A hora é de investir na terra portuguesa. É o que têm feito os agricultores que se recusam a abandonar a terra, contrariando as directivas desencontradas e a concorrência desleal por parte de outros países onde são muito mais apoiados. Portugal não precisa apenas de uma política de comércio livre; precisa sobretudo de uma política de comércio inteligente e justo.

Os nossos agricultores sabem produzir. Falta que saibam melhor associar-se e cooperar para distribuir os seus produtos directamente aos consumidores. Nos últimos dez anos perdemos 180 mil hectares de boas terras agrícolas comprometendo gravemente a nossa capacidade de produção de alimentos, acentuando a nossa vulnerabilidade. Ainda recentemente experimentamos os perigos que daí podem advir.

A hora é de investir no território português apoiando empresas inovadoras que recorram a energias alternativas.

Simultaneamente devemos combater os desperdícios energéticos e dar prioridade a transportes ferroviários e marítimos, como alternativas competitivas. A capacidade de auto-sustentação no plano energético é cada vez mais necessária. Por exemplo, modernizando as barragens hidroeléctricas já existentes, aumentaríamos a produção de energia em 20%.

O Estado deve promover e praticar uma política de gestão rigorosa dos seus recursos de modo a promover a nossa competitividade; deve ter um orçamento equilibrado para poder baixar os impostos de modo selectivo.

O Estado deve desistir das obras faraónicas, aumentar a produtividade da função pública, encorajar os investimentos privados que produzam riqueza, preferindo sempre bens e serviços produzidos em Portugal. Por exemplo, o facto dos fundos da Segurança Social não serem investidos exclusivamente em empresas portuguesas, contribui para a descapitalização nacional e para o desemprego.

Apelo aos partidos políticos para que não se deixem tornar em meros mecanismos de conquista do poder; que se lembrem que têm um papel decisivo nos debates sobre as doutrinas e as práticas políticas. Mas para isso, devem ser uma escola da cidadania, dialogando com as organizações não governamentais.

Este sentimento geral de que a democracia deve ser melhorada entre nós, levou-me a apoiar o recém-criado Instituto da Democracia Portuguesa, que tem já desenvolvido múltiplas e úteis actividades em várias regiões do país, em colaboração com diversas organizações e com as autarquias locais.

Em 1975 recuperámos as liberdades de expressão e de participação política que já existiam antes da revolução de 1910. Mas cada vez mais ouço especialistas e pessoas de bom senso a dizer: Portugal atrasou-se no séc. XX porque prescindiu do poder moderador do seu Rei, ao contrário de Espanha, Inglaterra e Bélgica, e outros países europeus, que prosseguiram na vanguarda do desenvolvimento.

Tenho percorrido o país de lés a lés. Sou sempre cordialmente acolhido pelos autarcas e pelas populações às quais agradeço o carinho que me dispensam. Nessas ocasiões, apercebo-me da grandeza do nosso património cultural, erudito e popular. Basta apreciar as nossas tradições culturais para me dar conta de como se formou a gente portuguesa, nas várias regiões em que se expressa a alma nacional. É este “produto interno bruto” que mantém em alta a bolsa de valores humanos em que nós devemos investir.

Quero aqui lembrar as numerosas homenagens a D. Carlos promovidas por várias Câmaras Municipais, com destaque para a ocasião em que o Chefe do Estado inaugurou a magnífica estátua erigida em Cascais.

Durante todo este ano tiveram lugar inúmeros eventos de carácter cultural em homenagem ao Rei e ao Príncipe Dom Luís Filipe, organizados pela Comissão D. Carlos 100 Anos, integrada na Fundação D. Manuel II. Salientou-se o congresso “Os Mares da Lusofonia” que reuniu representantes de todos os países que falam português. Pelo interesse suscitado, foi lançado o desafio de a realizar cada dois anos, em países diferentes.

Continuei este ano a colaborar com vários dos países nossos irmãos, especialmente a Guiné-Bissau, Angola e Timor, mediante programas de desenvolvimento rural e protecção ambiental.

Aproveito para saudar o Primeiro Ministro Xanana Gusmão, actualmente de visita a Portugal, como líder que soube conduzir o heróico Povo timorense na luta pela liberdade e agora o serve com seriedade e competência no caminho do progresso material e espiritual.

Saúdo o alargamento da CPLP esperando que em breve, Marrocos, o Senegal, as Ilhas Maurícias, a Guiné Equatorial e os nossos irmãos galegos possam fazer parte dessa comunidade. A Galiza procura afirmar a sua identidade cultural através da sua “fala”, que está na origem do português moderno.

Tive a alegria de levar a minha Família ao país de minha Mãe, trineta do primeiro Imperador, Dom Pedro, para participar nas celebrações dos 200 anos da transferência do Governo e do Rei para o Brasil. Finalmente foi feita justiça ao tão caluniado D. João VI!

A crescente importância económica e política do Brasil no Mundo é um motivo de orgulho e de oportunidade histórica para Portugal. Felicito os nossos governantes por a saberem aproveitar.

Deixo para o fim a instituição militar que, desde a fundação de Portugal tem estado intimamente ligada ao nosso percurso colectivo. Hoje, defendendo Portugal “lá fora”, tem contribuído de forma impar para o prestígio e afirmação nacionais e para a paz e a segurança da população portuguesa e das regiões em que tem operado.

A canonização, em 2009, de D. Nuno Álvares Pereira, patrono das Forças Armadas, será uma providencial ocasião para aprendermos com os seus exemplos de valentia e caridade, inteligência militar e política, e defesa intransigente da nossa liberdade e independência. Saibamos aproveitar essa oportunidade!


Do fundo da história vem uma certeza que os monges de Alcobaça redigiram numa das mais belas frases da monarquia portuguesa: “O rei é livre e nós somos livres!”.

Neste convento do Beato, situado na Lisboa Oriental onde se começou a conspirar para o 1º de Dezembro, deixai-me hoje proclamar: “Eu sou livre e vós sois livres!”. “Eu sou livre” e “Vós sois livres” porque ser monárquico é também defender Portugal acima de todos os interesses. Juntos poderemos renovar a democracia portuguesa pela Instituição Real que só poderá vigorar por vontade do povo, com o povo e enquanto o povo o entender.

A minha Mulher, eu, e os nossos filhos Afonso, Maria Francisca e Dinis, a isso nos comprometemos porque Portugal pode, Portugal deve, e Portugal quer continuar democrático e independente!

Todos os que pensarem que o sonho dos fundadores e dos restauradores ainda está vivo, venham ter connosco; e se alguém questionar este crescente sentir do poder do povo, a resposta é hoje, como o foi no primeiro 1º de Dezembro: “O rei é livre e nós somos livres!”


Convento do Beato, 30 de Dezembro de 2008

Fonte: www.lusitana.org