quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Ou vai ou racha

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

Há dias podia ler-se num editorial do New York Times, todo ele dedicado à situação na União Europeia:

"Porque é que os líderes da Europa se empenham em negar a realidade? A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, e o presidente Nicolas Sarcozy, da França, mostram-se incapazes de admitir que vão por caminho errado. Estão deslumbrados com a sedutora mas ilógica noção de que todos os países devem copiar o “modelo exportador” da Alemanha, sem décadas de investimento público e taxas artificialmente baixas, cruciais para o sucesso germânico? A Sra Merkel também parece determinada a inclinar-se perante os preconceitos dos eleitores alemães, os quais acreditam que o sofrimento é a única maneira de a Grécia, e os outros países da Europa do Sul, entrarem no bom caminho".

Que esses dois líderes pensem de forma tão redutora e pobre, não surpreende quem tem boa memória ou o salutar hábito de ler o que a História ensina. Há países onde as televisões se preocupam em não deixar apagar-se a memória do sofrimento que a Alemanha, por má liderança, e a França, por cobardia das elites, inflingiram a milhões de pessoas. O Canadá é um desses países. Devo acrescentar que a cada passo oiço canadianos dizer a propósito da situação na UE: “A Alemanha, outra vez!”. E anglo-saxónicos puros e duros desabafando: “A França é sempre a mesma doida”. Nestas expressões há receio, há desagrado, há um escondido grito de alarme. Dirão: é a mania da superioridade dos ingleses. Será, mas têm boas razões para isso: se não fossem eles, patriotas, a dar o primeiro grande passo da resistência, a Europa teria sido esmagada e abastardada por um punhado de facínoras.

O sonho da Comunidade Europeia foi, a partir das ruínas, bater-se pelos Direitos Humanos pelos quais várias gerações ansiaram e pelos quais lutaram. Foi um ideal de solidariedade, de partilha, de bem comum, de paz. Mas afastados que foram os fundadores, por morte ou idade avançada, a UE foi, pouco a pouco, caindo na mediocridade, no mercantilismo, na ausência de valores morais e espirituais. Abriu a porta larga a todos os oportunistas.

É um dado adquirido que austeridade sem desenvolvimento económico é um suicídio, como recentemente disse o primeiro ministro de Espanha. E austeridade cega, de cortar a eito, custe o que custar, é a destruição total de um país e de um povo. Então, se já há vários dirigentes europeus a dizê-lo, vai sendo tempo de, em conjunto, dizerem em Bruxelas o que deve ser dito, ao arrepio das ameaças de Merkel e Sarcozy ou das tiradas de Barroso que, coitado, segura pelas pontas o emprego bem pago.

Em Portugal, não conseguiremos sair do beco armadilhado em que nos meteram, como disse Krugman, o prémio Nobel da Economia, com estes dirigentes tão ignorantes da História e da Vida, tão destituídos de patriotismo que deitam a memória da Restauração para o lixo, tão desnorteados que pensam criar riqueza cortando um dia de folguedo ao povo, tão servis perante o estrangeiro que deram à troika uma importância que ela não tem e se rebolam de vaidade quando essa troika os elogia por excesso de zelo.

É hora de mudar. Ou os dirigentes actuais arrancam a pele e vestem outra, bem portuguesa, ou os portugueses de lei mudam de dirigentes. A Pátria vale bem essa ousadia.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Lá fora e cá dentro

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

 Ensina-me a experiência que é prudente não acreditar em pessoas que, para enriquecerem o curriculum, proclamam repetidamente que são “africanistas”. Na prática são colonialistas de mentalidade e actos. Ficou-lhes agarrada à pele, na sua passagem pelas colónias, uma atracção encantada pelo capataz de roça. Em geral, de tudo fazem (ou julgam fazer) uma roça.

O famoso vídeo que deu a volta ao mundo, aquele minuto de conversa sussurrada entre o Ministro das Finanças de Portugal e o seu homólogo da Alemanha, cuja linguagem corporal só por si dizia tudo de servilismo e diplomacia de cócoras, vem confirmar as suspeitas que se agigantam seis meses depois da entronização do actual governo que,dizia ele, vinha para salvar os portugueses das garras da maldade da exploração e da mentira. Escusa o cómico de serviço ao regime, seja o governo qual for, bolsar que é o contrário disto, nos programas que os contribuintes andam a pagar, porque ninguém lhe dá crédito, também a ele. De resto, a confirmação da bajulice vem do chefe do governo, e seus acólitos,quando trombeteia que “nós vamos além da troika”. É o que se chama querer mostrar serviço, “custe o que custar”, e está a custar fome, miséria, privação e desespero a largos milhares de portugueses, que vêem a Pátria a sucumbir às mãos de agiotas. Já pela Europa fora peritos sensatos sublinham que a receita autoritária da chanceleira Merkel não cura países aflitos, antes os mata, mas o primeiro ministro fabricado na jota mantém-se irredutível na sua fidelidade canina. Nem a opinião contrária do FMI o demove na sua obediência babada àquela Adolfa.

Tudo visto e revisto, fácil é concluir que este governo trata Portugal como se fosse a roça dos alemães. Cá dentro, é capataz. Lá fora, é mainato. E sofremos nós uma descolonização apressada, mal feita, até criminosa, para o país ter a subida honra de fazer parte da União Europeia. Quero crer que muitos europeistas eram idealistas e estavam de boa fé, mas foram ingénuos e descuidados no escrutinar regras e tratados linha por linha, palavra por palavra. Nem eles conheciam bem o terreno que pisavam, nem o deram a conhecer ao povo, já que não houve esclarecimento em profundidade e referendo logo de seguida. Um povo inteiro atrás de um punhado de enganados. Foi-se despejando dinheiro por cima do país, o crédito era fácil, os portugueses, como sempre,caíram na vigarice do vigésimo premiado. Porque, afinal, se chegou a este completo desconchavo: na União Europeia quem põe e dispõe é a Alemanha. O resto é cantiga para boi dormir.

Esta situação, já praticamente irreversível por estarmos a tratar com pessoas que devem tudo à ignorância arrogante, vai acabar mal. O que está a acontecer à Grécia, traída por uma clique medíocre de políticos, acaba por acontecer a todos os países que estão na fila para o cadafalso financeiro. Acreditar que não será assim, é como acreditar que o cancro só mata os outros. Não faz sentido gritar “nós não somos a Grécia”. Até ao momento, a única grande diferença é que os gregos batem o pé e os portugueses engolem em seco. O que faz sentido é aprender a lição sofrida pela Grécia e dizer à União Europeia que basta! É juntar-se aos países que já o dizem. A união dos descontentes pode bem salvar a Europa.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Eu não sou Monárquico!

Na babilónia de ideias e de conceitos do actual debate “República versus Monarquia”, eu quero afirmar aqui, sem qualquer subterfúgio, que não sou Monárquico!

A Monarquia terminou em 1820 e não a quero de volta. E não quero também de volta a Monarquia que lhe sucedeu, a chamada “Monarquia Constitucional”, derrubada em 1910. Vivo bem, e creio que os meus concidadãos também vivem bem, sem a verídica Monarquia do século XVIII e sem a Monarquia com alcunha do século XIX.

Sou pela República! Sou republicano! Sou aliás visceral e radicalmente republicano!

A República ( Res publica ou Coisa pública) tem, entre nós, uma longa e nobre tradição, bem viva antes do século XVIII. É com essa Tradição que me identifico.

Eis o que nos diz Duarte Nunes de Leão na “Crónica del-Rei D. Fernando”: “em cortes que para isso ajuntou fez algumas leis muito úteis à república, e naqueles tempos muito necessárias.”

Na orientação que traçou para o seu reinado, escreveu o rei D. Sebastião numa das suas “Máximas”: “Gavar os homens, e cavaleiros que tiverem bons procedimentos, diante de gente, e os que tiverem préstimo para a República e mostrar aborrecimento às coisas a ela prejudiciais”.

Depois da Restauração de 1640, exarou o Doutor Vaz de Gouveia na “Justa Aclamação”: “o poder dos reis está originariamente nos povos e nas repúblicas, que delas o recebem por forma imediata.”

Não julgo ser necessário alongar aqui as citações comprovativas da República portuguesa ao longo dos séculos, mas cumpre lembrar que foi quando as Cortes deixaram de reunir, no século XVIII, que começou a haver cada vez mais Monarquia em Portugal.

Depois, a temática política do século XIX tratou de inventar o antagonismo, colocando, de um lado, os chamados “monárquicos” e, do outro, os chamados “republicanos”. Os primeiros diziam defender o Rei, os segundos defender a Res publica. Estava instalado um pernicioso divórcio. Em abono da verdade, os republicanos tinham motivo para classificar os seus adversários como monárquicos. Não eram outra coisa ou, melhor, eram apenas isso. Pouco lhes importava o bem da Res publica, da Coisa pública. Quando o republicanismo se tornou consciente e organizado, os seus adversários, se bem que adoptando a alcunha de constitucional, aceitaram de bom grado a qualificação de monárquicos. Diziam defender o Rei e era, com efeito, à sombra do poder do monarca, à sombra do suposto “poder de um só”, que eles usufruíam das benesses do poder do Estado. E foi só quando o Rei D. Carlos se opôs à rapina que a coisa deu para o torto. Por isso o mataram e, depois de derrubada a Instituição Real, só às atenções mais distraídas causou escândalo a adesivagem em massa que os ditos monárquicos fizeram à novel “República”. Tinha sido feita uma mudança de tabuleta na mesma droga e não foi difícil abrigarem-se nela. Estamos nisto vai para mais de um século.

Hoje, o que me separa de um “soi-disant” republicano, mas de um republicano que queira mesmo o bem da República, é fundamentalmente isto: ele quer para a República um presidente eleito; eu quero que a República remate pela chefatura dinástica de um Rei. Ele defende a Presidência da República; eu defendo a Instituição Real na chefia do Estado.

Eu não sou Monárquico; sou Realista!

José Manuel Quintas

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

A sabedoria do Povo

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão 

Um insulto de artrite num joelho,  obrigando  a imobilidade, saco de gelo e anti-inflamatórios,  não é pera doce mas tem a vantagem de vermos televisão sem remorsos de roubar esse tempo a tarefas ditas úteis, sobretudo se podemos  dispor de mais de cem canais em várias línguas, isto  é, se entre o lixo podemos escolher o que é bom. Se o leitor está a pensar que considero a televisão um artigo utilitário e nada mais do que isso, acertou.

Mastiguei, pedacinho a pedacinho, um longo documentário sobre o regresso dos gregos à agricultura. Barcos cheios, famílias inteiras deixando Atenas e outras cidades para regressarem aos abandonados campos das suas ilhas. Também eles foram vítimas de políticos de vistas curtas e vasto engodo pelos dinheiros da União Europeia, sem a cultura histórica que lhes daria a prudência de não  porem os seus países a jeito do lobo alemão. Soube-me bem ver a determinação e a coragem com que milhares de gregos pegam nos tractores e nas enxadas,  amanham hortas e pomares, deitam sementes à terra, fazem colmeias, instalam rebanhos  e, ao mesmo tempo, não esquecem o turismo a vir. Não acreditam nos governantes, mas acreditam em si mesmos, que é o mais importante. Se não pagarem a dívida, não se sentirão inferiores como pretende a Alemanha, essa que tem para com a Grécia uma dívida de centenas de milhões, a que foi condenada pelo que roubou e pelos danos causados à nação helénica  durante a II Guerra Mundial, e se permite o abuso de não pagar. Ao contrário da Itália, também condenada por causa das malfeitorias das tropas de Mussolini: pagou tudo aos gregos. Enfim, gostei de ver como os gregos levantam a cabeça, não amocham e estão ali para o que der e vier.  Povo antigo,  povo sábio.

Espero  que estes documentários passem nas televisões portuguesas para nos sentirmos menos sós. Porque também nós havemos de chegar ao momento de levantar a cabeça e não amochar diante dos criados de quarto dos figurões estrangeiros que enchem os bolsos com o nosso empobrecimento. Em Portugal, como em todos os países, há élites.  Que podem ser positivas ou negativas. Por agora, estamos na negativa. Mas a história ensina-nos que,ao contrário das élites negativas, o povo português nunca traíu a Pátria. E há sempre uma élite positiva que se lhe junta na 23ª hora.  Somos um  povo velho e sábio.

Calhei de encontrar um programa português, o Reencontro, filmado em Angola, de que foi pivot Fátima Campos Ferreira. Creio que chamam àquilo “diplomacia económica”, mas a mim pareceu-me diplomacia de cócoras no exclusivo interesse de certos governantes que se consideram africanistas porque em garotos passaram meia dúzia de anos nas antigas colónias. São a martelo como o whiskey de Sacavém. Coisa feia. Mudei logo de canal. Gostava de ter ali a meu lado, naquele momento, patrícios meus, negros e mulatos, velhos amigos, para nos rirmos destes que, talvez para serem dignos herdeiros de papá, são todos da kuribeka.  Precisam de muleta. E havíamos de sorrir recordando velhas histórias das moças do colégio de Sá da Bandeira, naquele tempo dirigido pela Madre Paiva Couceiro, filha do inesquecível capitão das guerras de África e das incursões monárquicas. Contavam elas que, quando sabia que alguma loja maçónica estava a ser construída ou instalada, a Madre ia na noite escura mais as moças pôr medalhas bentas na obra.

E diziam, contentes, que aquelas kuribekas davam em nada.  

terça-feira, janeiro 10, 2012

Olhando o caminho, por António Sardinha

…”Tal é a hereditariedade espiritual a que nos acolhemos filialmente, — nós que em 1914 pegámos do arado, lançando na herdade lusitana um sulco tão profundo que já não há vento daninho que o possa apagar. A nossa faina de semeadores não conheceu mais um minuto de descanso ou adormecimento.

Do que tem sido essa batalha, ou defrontando-nos com a anarquia que nos desagrega, ou fazendo face ao peso morto que ameaça sufocar, no seu pretenso conservantismo, o princípio de renovo em que Portugal parece querer florir, - do que tem sido essa batalha não é para aqui o contá-lo e comentá-lo. Basta que assinalemos com a maior humildade de propósitos o trajecto que já se andou, tanto em extensão como em intensidade. Na desordem geral, dos espíritos, sente-se, apalpa-se uma certeza, uma coesão que se desenha e robustece, e aumenta. Frutifica o sincero entusiasmo do reduzido grupo de vontades que em 1914 se meteu à empresa penosa de restaurar a alma da Pátria, voltando à senda esquecida da sua tradição.


E porque se escreve a palavra "tradição", entendemos dever precisar-lhe o sentido. Não se trata de um regresso — duma suspensão. Filosófica e historicamente o nosso conceito de "tradição" equivale a dinamismo e continuidade. Estamos, por isso, bem longe de nos confinarmos numa ideia saudosista da sociedade que foi ou das gerações que passaram. Pelo contrário, abertos às solicitações clamorosas deste instante de febre, olhamos o futuro com um alto desejo de o prepararmos, melhor e mais belo, do que é a actualidade, tão horizontal e espessa em que vivemos.”


…”Reflectindo no seu conflito o conflito da sociedade em geral, a sociedade portuguesa dissolve-se, vai-se, varrida pelo individualismo nas suas últimas e extremadas consequências. Serenos, no raciocínio das nossas convicções que a fé amplia num fundo de claridade invencível, não há desânimo que nos vença, nem tormenta que nos vergue. Salve-se o que subsista ainda de divino e de humano no amontoado de coisas sem nexo em que Portugal se subverte, incaracterizado e difamado. É obedecendo a tão religiosa obrigação para com Deus e para com a Pátria, criada à sua Semelhança e Imagem, que nós não desfalecemos nem um instante sequer na jornada empreendida, já se completaram nove anos, quando a mocidade nos punha nas veias fanfarras de triunfo. Semeou-se? Pois colher-se-á! E para que resulte em outras colheitas, e a seara cresça sempre, viçosa e farta, de novo entregamos à graça das Estações um pequeno punhado de grão, por acaso guardado no nosso pequeno celeiro.”


Elvas, Quinta do Bispo, Janeiro, 1923.

In http://www.angelfire.com/pq/unica/il_as_olhando_o_caminho.htm

sexta-feira, janeiro 06, 2012

terça-feira, janeiro 03, 2012

Desgosto e Vergonha

CARTA DO CANADÁ
 por Fernanda Leitão

 Nos últimos tempos tem a comunicação social abordado largamente a Emigração. O primeiro ministro, com uma impressionante expressão de dureza e insensibilidade, aconselhou os professores sem trabalho a emigrarem, de preferência para o Brasil e Angola. Este aviso foi entendido por todos os desempregados, professores ou não. Logo de seguida, o ministro Relvas, com a expressão escarninha que lhe é habitual, reforçou a tirada de Coelho com a afirmação de o estado português ter grande orgulho nos emigrantes. Seguiu-se uma cascata de comentários de apoio por parte de senhoritos a quem a Pátria sustenta sem contrapartida de obra feita ou bom serviço e,o que é pior, de alguns sujeitos que são mais católicos do que cristãos, uns “católicos profissionais”, isto é, sujeitos que se dão ares de primos direitos de Nosso Senhor, tu cá, tu lá, detentores da verdade e do nariz empinado, e que, vá-se lá saber porquê, com o seu palavreado e presença afastam os fiéis da Igreja que os protege e promove. Compaixão, nenhuma. Solidariedade, viste-la. Falta de educação, evidente. É uma direita que do Pai Nosso só reza o “venha a nós”. Como seria de esperar, alguns jornalistas de espinha direita, que ainda os há, e um grande número de pessoas de antes quebrar do que torcer que anda na blogosfera, desancou a ideia e os arautos da mesma, e foi o momento de todos ficarmos a saber a trajectória de vida dos que, verbalmente por agora, dão pontapés aos desempregados a ver se eles desaparecem depressa. Que vidas edificantes! Que exemplos de trabalho!

Senti vergonha. Não de ser portuguesa, pelo contrário, que tenho um profundo orgulho em ser portuguesa, mas vergonha, sim, muita vergonha de o meu Portugal ter governantes capazes de aconselharem os desempregados a saírem do país. Devo ter sentido o mesmo que a cientista Irene Fonseca: até pediu que a jornalista lhe repetisse a pergunta com este assunto, nem queria acreditar. Senti vergonha por o Brasil e Angola terem dito claramente que não precisam de professores portugueses, por terem os seus próprios, numa verdadeira bofetada a quem deita pela boca fora tudo o que lhe apetece. 

Também senti desgosto por mais esta afronta aos cidadãos de um país mal governado, injusto e corrupto, que tiveram de optar por ganhar no estrangeiro o pão para a família. Opção dolorosa, mas livre. Nem na ditadura salazarista os governantes tiveram semelhante ousadia e má criação. Talvez seja por esta falta de maneiras que alguns por aí chamam a Outra Senhora ao regime deposto pelos militares em 1974, e Esta Gaja ao regime vigente. Opção livre e dolorosa,repito. Quem emigra sai de coração partido, sabe que não tem lugar na Pátria, que é um rejeitado porque uma camarilha política tomou o poder e abocanha a terra, dividindo-a por familória e parceiros de partido. O emigrante leva consigo, até ao último suspiro, a dor desta rejeição. Não perde o amor por Portugal, mas não tem o menor orgulho em quem governa. Não tem motivos para isso. Mesmo longe, continua a ser explorado, a não ser convidado a participar no desenvolvimento do país. Tudo quanto os políticos lhe pedem é votos e dinheiro. Muito dinheiro. Como foram investidos os biliões que, nos últimos 50 anos, os emigrantes depositaram em bancos portugueses? Não sabem. Apenas sabem, pelos jornais, das fraudes de largos milhões feitas em bancos por sujeitos que não foram julgados, andam a viver dos rendimentos, perante o silêncio do partido do governo e o do presidente que é do mesmo partido, e o de uma magistratura a que ninguém cá por fora dá crédito. Admiram-se de ser de quase 100 por cento a abstenção entre os emigrantes?

Portugal está a caminho de perder a Emigração e a difusão da língua portuguesa por exclusiva culpa da partidocracia que levou Portugal à valeta: estúpida, ignorante, boçal, gananciosa, pimba.

Mas eu acredito que o povo português saberá correr com esta élite negativa que conseguiu pôr a Pátria a receber ordens duns funcionários estrangeiros. Nem que para isso seja preciso transformar as pedras em pão.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Dom Duarte de Bragança - Mensagem do 1º de Dezembro de 2011



Portugal atravessa uma das maiores crises da sua longa vida. Crise que, disfarçada por enganosas facilidades, foi silenciosamente avançando assumindo hoje consequências dolorosas para as pessoas, famílias e empresas. A soberania de Portugal está gravemente ameaçada. A História, na crueza dos seus factos, revela-nos que, sempre que o País ficou enfraquecido, aumentou a vulnerabilidade à perda da sua Independência. Até a razão por que hoje aqui nos encontramos, comemorando a Restauração da Independência de Portugal, pretende, por alguns, ser desvalorizada face à ameaça de extinção do feriado evocativo do Dia que mais devia unir todos os portugueses. Sinal dos tempos…

A actual e humilhante dependência de Portugal dos credores internacionais é comparável à que resultou da crise financeira de 1890-1892, com tão graves consequências para a Nação e que levou ao fim do Regime da nossa Monarquia Democrática.

Tão importante como resolver a complexa situação interna que exige inevitáveis medidas de austeridade, é analisar as razões que nos levaram ao estado em que hoje nos encontramos. Torna-se urgente proceder, através de um amplo debate nacional, a uma rigorosa e descomplexada análise dos modelos económico e político que estiveram na origem do depauperamento do Estado. Cada vez é mais notório que os portugueses não se revêem no modelo de representatividade política em vigor. Será que o Povo se identifica com os seus formais representantes? Será que a nossa Democracia deverá ficar confinada a um modelo que já demonstrou não ser suficiente e eficaz? Porque não considerar outras formas de representação popular complementares, através de outro tipo de representantes mais directamente relacionadas com a população, por exemplo, oriundos dos Municípios, modelo este com raízes profundas nas tradições históricas e culturais de Portugal? 

Também no campo económico, necessitamos trabalhar para melhorarmos a nossa auto-suficiência, através de estímulos e incentivos para o desenvolvimento da indústria nacional e da recuperação prioritária das actividades agrícolas e relacionadas com o Mar. É inaceitável e perigoso que a maior parte dos alimentos que consumimos venha do estrangeiro!

Como repetidamente tenho alertado em anteriores Mensagens e entrevistas, no actual contexto, o aprofundamento consequente das relações culturais e económicas entre os países lusófonos, mais do que um objectivo, constitui uma verdadeira necessidade estratégica que, por natural, reúne todas as condições quer para o sucesso do desenvolvimento dos seus Estados quer para o aumento do bem-estar das suas populações. Do muito que se pode fazer neste domínio cito como exemplo a criação de um espaço económico comum aos países da CPLP, integrando a troca de bens produzidos no seu âmbito e o intercâmbio de jovens universitários ou em formação profissional. Acredito que CPLP deveria evoluir para uma Confederação de Estados Lusófonos. 

Antes da crise económica e financeira, já se encontrava instalada uma crise de ordem moral e ideológica. Os tempos são difíceis mas poderão ser mais facilmente suportáveis se os portugueses estiverem cientes de que o esforço que lhes está a ser exigido se justifica para salvar a Pátria.

É preciso mudar o estilo de vida que artificialmente foi cultivado nas últimas décadas e adequarmos os nossos hábitos à realidade do País.  Exige-se, para tal, uma rigorosa responsabilização moral que começa pelos Governantes que, mais do que nunca, devem esclarecer com verdade as suas acções, começando por informar a Nação sobre o concreto destino dos avultados financiamentos resultantes dos compromissos assumidos pelo Estado Português ao abrigo do Plano de Assistência Económica e Financeira – “As boas contas fazem os bons amigos!”

Perante a herança que as próximas gerações vão receber, é nosso dever, no mínimo, contribuir para lhes facultar as melhores ferramentas para o seu futuro e o de Portugal: educando-os e formando-os com respeito pelos princípios da honra, da responsabilidade e do amor à Pátria.

A dúvida que hoje se coloca não é a de que País vamos deixar aos nossos filhos mas sim que filhos devemos deixar ao nosso País.

Confio na força anímica que, como Povo, sempre soubemos revelar perante os desafios mais difíceis. Especialmente na nossa juventude, que bem preparada, com a sua criatividade, generosidade e determinação, conseguirá restaurar Portugal!

Acredito que os nossos governantes tirem conclusões dos erros passados e que tenham a inteligência e vontade de corrigir o que ainda for possível emendar colocando Portugal acima dos interesses partidários. Assim Deus nos ajude!

 O Chefe da Casa Real portuguesa, D. Duarte Duque de Bragança

sexta-feira, novembro 11, 2011

Aos realistas portugueses - breves reflexões sobre a conjuntura actual


Nesta conjuntura, cumpre-nos continuar a mobilizar os portugueses para a defesa da autonomia do Estado português, o que hoje significa pugnarmos pela saída da Zona Euro e do buraco mediterrânico a que nos destinaram.  
Não podemos continuar agarrados à miragem de uma contrição dos partidos pecadores, exigindo-se-nos a reivindicação clara de um programa de restauração da República em bases populares.
No caso de um súbito agravamento da crise nacional, temos hoje presidentes de Junta de Freguesia eleitos que podem vir a assumir uma ruptura com as oligarquias partidárias reunindo em Assembleia Nacional Constituinte.

I.

O período da hegemonia mundial das potências europeias, iniciado em 1500, entrou em colapso durante as chamadas “descolonizações”, desde o Médio Oriente até à África (1955-1975), para vir a ficar aparentemente concluído, em 1991, com a desagregação da URSS. Porém, dois anos depois, passando a vigorar o tratado de Maastricht, levantou-se a possibilidade da UE poder vir a ter capacidade para contrabalançar a hegemonia dos EUA. Os EUA tinham já deixado de reprimir os nacionalismos europeus e podemos estar agora a assistir ao estertor final do projecto de Maastricht.

Com o tratado de Maastricht, o “projecto Europeu” passou a estar sob o domínio do “directório franco-alemão”, mas é possível que a actual crise da Zona Euro, que não é apenas financeira e económica, venha a danificar seriamente a sua coesão. O que me parece hoje claro, é que a actual crise da Zona Euro levou o projecto de Maastricht para um abismo do qual só muito dificilmente sairá incólume.

Com o fim do projecto de Maastricht, uma nova era mundial pós-europeia pode vir a ter condições para despontar, mas estamos ainda em fase de transição muito indefinida e incerta: os EUA continuam a ser a mais poderosa potência mundial, mas sem ser omnipotente; a Rússia está a recuperar do colapso da URSS, mas continua em busca de um lugar correspondente ao seu poderio; a China tem vindo a emergir no seio de um sistema económico-financeiro e político internacional que não controla; o Brasil e a Índia estão também em emergência, mas permanecem algo indefinidos quanto à configuração de um novo equilíbrio global de poderes.

No espaço da Eurásia, e em particular na península a que chamam “Europa”, não é ainda claro o que vai resultar do colapso do projecto de Maastricht.

A criação da Zona Euro surgiu na sequência lógica de Maastricht, mas foi criada para mitigar os receios da França perante a reunificação alemã. A ideia era a de que a França poderia beneficiar da riqueza de uma Alemanha que não voltaria a estar em posição de ferir os interesses dos outros Estados europeus. A Alemanha reunificou-se e, não obstante a sua retórica em prol do “projecto Europeu”, começou a actuar como um verdadeiro Estado, não gostando que outros falem por si e menos ainda que obtenham vantagens à sua custa. A partir de 2008, ao começar a desenhar-se a crise das dívidas soberanas, a Alemanha passou a utilizar a sua superior posição económica e financeira para obter vantagens políticas no quadro institucional da UE (através do FEEF), com claros desígnios de intrusão nas soberanias residuais dos Estados da Zona Euro. Para os Estados periféricos, permanecer na Zona Euro significa hoje a aceitação de uma ditadura orçamental definida em Berlim, uma austeridade que conduz à sua asfixia económica e a posterior venda, a preço de saldo, de participações em empresas estratégicas. Nas últimas semanas, com o agudizar das crises na Grécia e na Itália, a intrusão e a chantagem subiram de conteúdo e de tom: os governos dos periféricos terão de ser de tecnocratas, em “união nacional”, sob pena de uma “Europa a duas velocidades”. Arcus nimis intensus rumpitur, diziam os latinos - o arco muito retesado quebra.

Entretanto, mesmo que o arco não venha a quebrar, a Alemanha tem estado em claro processo de acomodação com uma Rússia que, depois da guerra na Georgia, espreita oportunidades para a construção da “Casa Comum Europeia” anunciada por Gorbatchov na “Perestroika”. Qualquer que venha a ser o desfecho da presente crise da Zona Euro, é muito provável que o eixo do poder das potências Europeias se desloque para Leste: o eixo franco-germânico tenderá a perder terreno face ao eixo germano-russo.

A França, que queria prender a Alemanha através do Euro, está assim hoje numa encruzilhada e tem permanecido uma incógnita, mas pode vir a sair da esfera alemã e, apoiando-se no Grupo de Visegrado e na Espanha, voltar-se-á para o Mediterrâneo.

A Europa está a caminhar para novos equilíbrios, havendo dois outros Estados com capacidade para influenciar a sua balança de poderes: a Polónia e o Reino Unido. A Polónia tem um mercado interno suficiente para não se deixar submeter à esfera de influência alemã e vai decerto continuar a buscar aliados no Atlântico. O Reino Unido não vai deixar de querer manter-se como uma potência com aptidão para uma projecção global e vai decerto contar com a “Aliança do Norte”.

Na nova configuração de poderes em emergência na Europa, a situação de Portugal na península ibérica tenderá a tornar-se cada vez mais periclitante. A Espanha, muito fortalecida interna e geopoliticamente pelo restabelecimento da Instituição Real na chefia do Estado, vai continuar a ser uma potência com capacidade para se projectar simultaneamente no Mediterrâneo e no Atlântico: no Mediterrâneo, não deverá hostilizar a França; no Atlântico, tenderá a explorar cada vez mais as nossas fraquezas. Após a crise, creio que a Espanha se vai manter com capacidade para vir a integrar económica e politicamente Portugal e mesmo para vir a concorrer com o Brasil no espaço económico da lusofonia.

Em obediência ao projecto de Maastricht, os principais partidos da área da governação (PS e PSD), submetidos às respectivas internacionais partidárias, aceitaram que Portugal ficasse integrado na periferia mediterrânica da Europa, como satélite da Espanha, se bem que numa península ibérica ideal e integralmente submetida a Bruxelas.

Nas últimas décadas, a desatenção de sucessivos governos à sustentabilidade do Estado português, permitindo a destruição de parte substancial da nossa economia (agricultura e indústria) a par de um crescente endividamento externo, conduziram-nos a uma situação de extrema fragilidade. O Estado português está hoje, em obediência ao programa de governo da “troika”, no caminho do suicídio.

A política e a acção dos partidos da área da governação está a pôr em causa a sustentação do Estado português, mas a verdade é que a fronteira com a Espanha ainda é visível nos mapas e, mais importante, continua a haver uma clara maioria de portugueses favorável à nossa autonomia e liberdade.

Nesta conjuntura, creio que nos cumpre continuar a mobilizar os portugueses para a defesa da autonomia do Estado português, o que hoje significa, em termos práticos, pugnarmos pela saída de Portugal da Zona Euro e do buraco mediterrânico a que nos destinaram.

Os realistas portugueses têm que tomar consciência de que não haverá uma Restauração de Portugal sem que antes se realize a restauração da República. A restauração da República é condição prévia, e a base mais segura, a partir da qual os portugueses podem vir a recolocar a Instituição Real na chefia do Estado. Tal como escrevi em 1996 (in “Consciência Nacional”), por ocasião do baptismo do Príncipe Afonso de Santa Maria, “a virtude de uma República restaurada será a de esta ser capaz de se exprimir nos seus mais fundos anseios e aspirações, escolhendo dentre si os seus representantes e pondo à cabeça a sua instituição mais representativa — a Realeza. Só colmatando esse duplo défice de representação — na base e no topo — se poderá fazer a restauração de Portugal.”

O edifício do Portugal Restaurado ter-se-á que levantar começando pelos alicerces; a restauração da República é a nossa prioridade máxima. Se os portugueses não conseguirem restaurar a república, isto é, se o povo organizado não conseguir subtrair o controlo do Estado ao domínio absoluto das oligarquias partidárias, o Estado português pode vir a desaparecer na voragem dos acontecimentos, em submissão total a poderes estrangeiros.

Não excluo a hipótese de uma implosão dos partidos do regime, mas não podemos perder de vista  que, no essencial, os partidos políticos em Portugal têm sempre olhado primeiro para o seu próprio interesse e, só depois, muito depois, para o interesse dos portugueses. É o que a História destes dois últimos séculos nos ensina e que nos cumpre divulgar mais e melhor.


II

O processo de apropriação do Estado pelas oligarquias partidárias iniciou-se na década de 1820, acabando por vencer e consolidar-se após duas intervenções militares estrangeiras (guerras civis de 1831-34 e 1846-47). O primeiro saldo foi terrível: a perda do Brasil, milhares de mortos e a economia nacional destroçada.

Depois de 1851, na chamada “Regeneração”, as oligarquias dos partidos tinham já quase domínio absoluto sobre o Estado. A política dos “melhoramentos materiais” – durante o Fontismo - , quanto à substância e quanto aos efeitos, não foi muito diferente da política do Cavaquismo que marcou estas últimas décadas de integração europeia. Como é que as oligarquias políticas do período da “Regeneração” resolveram as crises financeiras da segunda metade do século XIX? Em verdade, não as resolveram, mas aproveitaram-nas para virem a desenvencilhar-se, em 1910, do último obstáculo ao seu domínio absoluto do Estado - a Instituição Real.

Seguiram-se os anos de “balbúrdia sanguinolenta” da 1ª República profetizados por Eça de Queirós, até que a “Grande Depressão” levou as oligarquias partidárias a fundirem-se num só partido e a institucionalizarem, na prática, uma Ditadura. O problema das finanças públicas ficou então resolvido, mas sem libertar a sociedade civil do espartilho do Estado.

O segundo pós-guerra ofereceu às oligarquias, reunidas sob a protecção de um autocrata, óptimas oportunidades para negócios e excelentes condições para o desenvolvimento da economia, mas persistiram atados a uma visão sem futuro, acabando por desbaratar séculos de vivência ultramarina na miragem de uma “Nação Una” de Minho a Timor. Cumpre-nos lembrar que, na década de 50, ao recusarem o restabelecimento da Instituição Real na Chefia do Estado, não só travaram o lançamento de uma Comunidade de Estados Lusófonos – ideia que, em 1959, D. Duarte Nuno de Bragança, apoiou expressamente - como colocaram os territórios ultramarinos sob administração portuguesa à mercê de antigos e insaciáveis apetites estrangeiros.

Após a derrota de Portugal na ONU, do golpe de Estado em Lisboa e do subsequente abandono do Ultramar, as oligarquias conseguiram firmar-se no retorno ao pluripartidarismo, agora em subserviente obediência às centrais político-ideológicas europeias. O resultado da sua acção governativa nas últimas décadas, ficou nestes últimos anos à vista de todos, provocando a indignação dos portugueses, que têm vindo a deixar de votar, ou a anular o voto, tanto nas eleições presidenciais como nas eleições parlamentares.


III

A crise de legitimidade do actual regime partidocrático é insofismável, atingindo hoje a consciência da maioria dos portugueses. Julgo que não podemos continuar agarrados à miragem de uma contrição dos partidos pecadores, exigindo-se-nos a reivindicação clara de um programa de restauração da República em bases populares.



Nos últimos anos, várias personalidades oriundas do próprio regime têm vindo a público pugnar por alterações no sistema de representação política, reclamando quer o estabelecimento de círculos uninominais quer o fim do monopólio da representação por intermédios dos partidos ideológicos.

Em abstracto, tendo apenas por base o princípio da aproximação entre eleitos e eleitores, a reivindicação dos círculos uninominais tem pertinência, mas não podemos perder de vista que uma representação exclusivamente baseada em círculos uninominais, acarretaria uma diminuição do pluralismo ideológico e, após dois séculos de tão forte centralismo estatal em regime oligárquico, poderia vir a propiciar a disseminação de caciquismos de base local ou regional.

Creio que nos devemos centrar na luta pelo fim do monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos, colocando-a na obediência ao princípio da subordinação do sufrágio inorgânico ao sufrágio orgânico. Em concreto, entendo que se deve pugnar pela subordinação da representação dos partidos ideológicos (sufrágio inorgânico, universal, de preferência em círculo único) a uma representação proveniente dos municípios (sufrágio orgânico, local).

Na minha perspectiva, a República poderá vir a ser restaurada através de um sistema bicamaral de representação, com uma Câmara Baixa de partidos político-ideológicos e uma Câmara Alta de representação dos municípios. A Câmara Baixa deverá ser o órgão legislativo e a Câmara Alta o órgão referendário das leis gerais do Estado, dos programas de governo e dos orçamentos. Em palavras simples e directas, direi que se trata de forçar os partidos político-ideológicos a encontrarem soluções que respondam aos anseios e às necessidades do país real representado através dos seus Municípios. Impõe-se pôr fim a este ciclo de destruição nacional, no qual os políticos dos partidos se têm limitado a procurar seduzir a massa ignara dos que ainda votam.

Estando ainda muito disseminada a superstição do sufrágio, julgo que a escolha dos representantes dos Municípios para a Câmara Alta poderá vir a ser feita por uma eleição realizada entre os presidentes de Junta de Freguesia, mas haveria vantagem em disseminar a memória das nossas antigas práticas de democracia concelhia, em que os pelouros de administração eram sorteados entre os seus homens-bons. O ideal seria que a referida Câmara Alta viesse a ser constituída por presidentes de Junta de Freguesia sorteados nos respectivos Municípios. Os actuais presidentes de Junta de Freguesia, que correspondem afinal aos nossos antigos homens-bons dos Concelhos, poderiam também vir a fazer entre si o sorteio dos órgãos de administração municipal, distrital ou regional.


Em dois séculos de História, a exclusividade do sufrágio inorgânico e o monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos, já deu bastas provas de que não é capaz de servir o bem comum dos portugueses.


IV

A exemplo do que tem vindo a acontecer na Grécia, a crise da Zona Euro pode também vir a provocar em Portugal graves problemas de ordem pública. Não é de excluir que, com o aprofundar da crise, venham a surgir tumultos, situações de desobediência civil e mesmo acções violentas concertadas, propiciadoras de situações insurrecionais.

Em tal ambiente, e sendo a  via referendária ou plebiscitária a que tem a maior e a mais expedita capacidade de resolução nas grandes questões do Estado, não é de excluir que as oligarquias políticas a venham a utilizar para uma entrega aberta ou dissimulada a centros de poder estrangeiros: os referendos são em regra ganhos por quem detém o poder no Estado e/ou nos meios de comunicação. Eis uma razão acrescida para insistir nas virtudes da democracia orgânica e da representação de base municipal: no caso de um súbito agravamento da crise nacional, temos hoje presidentes de Junta de Freguesia eleitos que podem vir a assumir uma ruptura com as oligarquias partidárias reunindo em Assembleia Nacional Constituinte.

Restaurada a República, isto é, libertada a República do monopólio da representação por intermédio de partidos, confio que a nação portuguesa, de novo senhora dos seus destinos, compreenderá  e reclamará a Instituição Real para a chefia do Estado, para assumir as supremas magistraturas da Justiça, Forças Armadas e Diplomacia.

Com a Instituição Real na Chefia do Estado, não só asseguraremos a nossa esplêndida fronteira com a Espanha como estaremos em condições de lançar em sólidas bases histórico-culturais uma fecunda Confederação de Estados Lusófonos.


11 de Novembro de 2011

José Manuel Quintas



terça-feira, agosto 16, 2011

Duas notas do diário de J. F. Rivera Martins de Carvalho


13 de Junho de 1964

«O integralismo era obrigado a escolher entre diferentes tradições».

A crítica de R. P. (1) acerta em cheio. Aliás, já há cerca de quinze anos o escrevi (num caderno).
A minha ideia de então era, se bem me lembra, a de que a História servia sobretudo para esclarecer a essência profunda de cada instituição – Assim teríamos para estudarmos o Município, que determinar qual a tradição municipal; assim, nos sindicatos; assim, na Universidade - sem nunca se poder excluir um período qualquer por não ser espontâneo (iluminismos, liberalismo, república). Para bem ou para mal, todos os períodos históricos conformaram os «factos» de hoje — e são eles que interessa apreender.
Aliás, fazer remontar o estrangeirismo a Renascimento, como o faz P. Rebelo (2), é provar por absurdo que o caminho está errado. Desvios à tradição datados de há quatro séculos são também uma tradição.
E porquê o Renascimento? Porque não os legistas da escola bolonhesa, cheios de noções «imperiais» do poder régio, tão alheio às tradições godas e feudais? Teríamos recuado quase um século e meio em relação ao Renascimento mas teríamos também «excomungado» João das Regras e as Ordenações Afonsinas...
*
Mas a esta luz que fica do Integralismo?
A esta luz, o IL (3) foi o primeiro movimento político português que foi Monárquico, isto é, que defendeu conscientemente a verdade política do princípio do poder pessoal de um rei hereditário.
Foi o primeiro movimento político português que defendeu conscientemente a primazia do facto sobre a ideologia, a primazia da natureza social sobre os sistemas.
Foi o primeiro movimento político português que acusou os defeitos do parlamentarismo sem lhe opor como alternativa o domínio totalitário de uma ideologia oficial, ou o poder pessoal de um César; que buscou realizar a necessária eficácia do governo, procurando não lhe sacrificar as liberdades individuais, nem a genuinidade da representação nacional.
A esta luz o Integralismo está hoje tão vivo como há 50 anos.
É a esta luz-que sou integralista.

(1) Raúl Proença 
(2) Pequito Rebelo 
(3) Integralismo Lusitano


  • Rivera Martins de Carvalho in Diário Político e outras páginas. Biblioteca do Pensamento Político, 1971.

José Fernando Rivera Martins de Carvalho (1927-1964)

José Fernando Rivera Martins de Carvalho nasceu em Madrid a 14 de Maio de 1927, mas logo com 15 dias, veio viver para Portugal.
Licenciou-se em Direito com 19 valores, na Universidade de Lisboa, em 1949. Especializou-se em Direito Internacional em Cambridge e Milão.
Exerceu a advocacia durante dois anos. Foi director geral do Banco Português do Atlântico desde 1959.
Casou em 26 de Setembro de 1959 e teve três filhos.
Faleceu num acidente de aviação, perto de Braga, a 15 de Agosto de 1964, com 37 anos de idade.
A sua acção religiosa desenvolveu-se nas Conferências de S. Vicente de Paulo na J.E.C. (de que foi Presidente Geral) e na revista FLAMA, de que foi um dos fundadores.
No plano científico, devem-se-lhe valiosos estudos jurídicos e económicos dispersos por revistas e jornais portugueses e estrangeiros.
No plano cultural, foi um dos fundadores da Juventude Musical Portuguesa e do Centro Nacional de Cultura (a que chegou a presidir) e publicou, sob o pseudónimo de José Pinto de Miranda, numerosos artigos de crítica musical e alguma obra poética.
No campo da Política, foi dos mais assíduos colaboradores da “Cidade Nova”, participou em actividades do Centro de Cultura Popular e pertenceu-lhe a iniciativa e o principal esforço organizador do Instituto António Sardinha.
À terra dos seus avós — Cinfães — dedicou grande parte do seu espírito de servir.

(Da badana do livro póstumo “ Diário Político e outras páginas” – Biblioteca do Pensamento Político, 1971.)

terça-feira, agosto 02, 2011

Burra me confesso


CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

            No tempo em que era primeiro ministro,  Cavaco Silva acabou com a agricultura e as pescas em troca de ficar sentado em cima de uma pipa de massa vinda daquele clube que deu origem à  União Europeia. Muitos lavradores e pescadores foram pagos  para não exercerem  a sua arte. Foram queimados barcos e as terras ficaram  ao abandono,um pouco  por toda a parte.  O  mato cresceu desarvorado entre pinheiros.  A desertificação  do interior do país aconteceu. Foi o  tempo em que os portugueses que não emigraram começaram a consumir frutas e vegetais vindos de Espanha e outros países da Europa, enquanto iam mirando autoestradas por todo o território, asfalto a dar com um pau  e paquidermes arquitectónicos que o tempo viria a transformar em armazéns de cultura.  Ou nem por isso.
     Agora,  catapultado a venerando no Palácio de Belém,  Cavaco  Silva desdobra-se em apelos ao regresso à agricultura,  à floresta  e às pescas,  sublinhando de modo dramático  a urgência do repovoamento das muitas aldeias abandonadas.  Não  evocou as suas posições passadas  por amor à coerência: é que veio ao  mundo  com o glorioso destino de nunca ter dúvidas e nunca se enganar.  Assim  o declarou urbi et orbi  e o povo, sereno,  compreende.
     No tempo em que era primeiro ministro,  Cavaco Silva acabou com  o escudo e entronizou o euro  por entre hossanas e aleluias  à  União Europeia. Sem reticências,  preocupações ou dúvidas. E sem perguntar aos portugueses se queriam  a nova moeda.  Agora,  sempre coerente, corajoso e oportuno,  critica a União Europeia e louva as moedas nacionais que se podiam desvalorizar em função de interesses de mercado internacional.
     Passos Coelho e os seus amigos deitaram abaixo  o governo anterior e gritaram por socorro à troika porque, afirmaram,  Portugal estava de cofres vazios, à  beira da bancarrota. Os portuguses decidiram acreditar. O  governo aceitou a imposição de vender os anéis para que salvemos os dedos.  A primeira venda foi o BPN, aquele banco que nos tem custado os olhos da cara, defraudado por um gang democrata e social, que parece herdar a mesma impunidade dum outro, o da Caixa Económica Faialense,  que no  tempo de Cavaco Silva desgraçou milhares de emigrantes em França e no Canadá.  Os portugueses acharam boa ideia vender o trambolho pelo melhor preço. Apareceram  dois grupos interessados que pagavam  mais de cem milhões de euros e garantiam os  postos de trabalho.  O governo vendeu por 40 milhões, aceitando que seriam despedidos mais de 700 trabalhadores e  assumumindo os custos desses despedimentos, a um banco angolano de que é   representante em Portugal  um social  e democrata com grande traquejo de governo em tempos idos de farta  estrada e abundante betão.
     Não  percebo nada disto.  E a culpa é só minha, sou eu que sou burra.

quarta-feira, junho 22, 2011

TIMOR A QUEM MERECE


CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

            No inverno de 1975/76 havia em todo o país um silêncio magoado e estupefacto. Centenas de milhar de pessoas vindas das colónias, algumas apenas com a roupa que traziam vestida, eram despejadas em Portugal por uma ponte aérea. Ninguém queria a continuação da guerra colonial, produto da cegueira política opressiva que dominou 48 anos. Excepção feita a alguns obstinados do regime, todos entendiam como legítima a independência das colónias. Mas ninguém estava preparado para aquela debandada sem honra nem dignidade, aquela entrega de territórios e povos, sem referendo, aos partidos de obediência comunista. Manifestamente, era uma entrega nada inteligente como o tempo se encarregou de demonstrar, e era um acto de crueldade como ficou claro aos olhos do povo português.
            Entre os milhares de desgraçados que aportaram a Lisboa, estavam os timorenses, esses que o regime actual abandonou depois de ter plantado no território a árvore de frutos envenenados. Foram jogados ao Vale do Jamor, instalados à trouxe-mouxe em casas pré-fabricadas com que a Noruega generosamente acudiu. Fazia frio, chovia muito, o vale era um mar de lama e aquela pobre gente sem agasalhos.
            O Portugal político remeteu-se a um sepulcral silêncio em torno desta situação. Nunca percebi se era medo, se era indiferença. Má consciência não podia ser porque não a tinham. Só gente sem consciência pode proceder assim e fazer o que fez.
            E eis que o silêncio foi quebrado por um grito de alarme soltado pelo Príncipe Dom Duarte Pio de Bragança. Foram bastantes os que acorreram ao grito e trabalharam para minorar a desolação e miséria dos timorenses. Lembro-me de muitos, entre eles os familiares do General Silva Cardoso, da Força Aérea, que regressou de Angola, onde ocupou  o posto de Alto Comissário, completamente ensopado em amargura e angústia.  Não me lembro de alguma vez ter encontrado, no Vale do Jamor, os homens e as mulheres que eram então os donos do regime. Nem um. Nem uma.
            O Duque de Bragança não mais parou na sua luta em favor do povo timorense. Ramos Horta era presença certa ao seu lado.
            Uma das mais gratas recordações que guardo foi os timorenses do Vale do Jamor terem acedido ao meu pedido de cantarem a missa solene de celebração do aniversário de Tomar, na Igreja de São João Baptista.  Nesse tempo não se celebrava o dia da cidade, porque era herança “fascista”!!!
Nem que o cavaleiro templário Gualdim Pais tivesse andado na escola com estes democratas de fancaria...  Sem pachorra para aturar coisas estúpidas, celebrei eu e muitos portugueses de antes quebrar que torcer.  Presidiu à celebração o Arcebispo Emérito de Luanda, D. Manuel Nunes Gabriel.  O filho de um régulo desfraldou junto ao altar uma bandeira portuguesa que a sua tribo tinha escondido durante a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Foi lindo. E inesquecível.
            Soube agora pela imprensa que a Assembleia Legislativa de Timor decidiu dar a cidadania timorense  ao Senhor Dom Duarte de Bragança.  Ninguém a merece mais nem tanto. É uma decisão feliz e honrosa, este acto de gratidão de um povo que tem todos os motivos para ressentimento e afinal nos quer bem. É um sinal de estarem certos os que, como o Duque de Bragança, procederam de acordo com princípios de Pátria.

sexta-feira, maio 13, 2011

Salve, Rei!, poesia de Camilo Castelo Branco dedicada ao rei Dom Miguel I

ELUCIDAÇÃO
Em 1911, quando faziamos ainda parte da redacção da Nação, reproduzimos naquelle periodico, n.o 15.255, de 13 de Outubro, a poesia “Salve, Rei!”, de Camillo Castello Branco, de que mandámos tirar uma separata, de 32 exemplares numerados, sendo 3 em papel Whatman e os restantes em papel de linho nacional.
Estando todos aquelles exemplares distribuidos, e sendo muitos os camillianistas que desejam possuir a poesia Salve, Rei!, resolvemos, sem nenhuns intuitos mercantís, que tambem da primeira vez não tivemos, pois que a edição foi destinada unicamente a offertas, fazer a presente reedição daquella pouco conhecida producção do Maior de Todos, como justificadamente os seus mais enthusiastas admiradores cognominaram o auctor do Amor de Perdição e de tantissimas obras que honram a litteratura portugueza.
Eis a razão desta nova especie da extensissima bibliographia camilliana.
Novembro de 1915.
Frazão de Vasconcellos


Nótula da nossa 1.a edição
A poesia que se segue, dedicada a El-Rei Dom Miguel I, por occasião do seu casamento, foi impressa originalmente, em janeiro de 1852, em uma folha solta, e reproduzida
no diario legitimista A Nação, n.o 1834, de 22 de novembro de 1853, em parallelo com uma outra poesia do mesmo Camillo, transcripta do jornal O Portuense, de 17 de novembro de 1853, em honra de Dona Maria II, a quando do seu fallecimento.
Na sua preciosa Bibliographia Camilliana, refere-se o nosso presado amigo Sr. Henrique Marques a esta pouco conhecida producção do notabilissimo e fecundissimo espirito que foi Camillo Castello Branco, dizendo que viu um exemplar da folha solta, na Bibliotheca Publíca do Porto, e informando mais que o Jornal da Manhã, daquella cidade, a reproduziu no seu n.o 137, de 19 de maio de 1890.
Frazão de Vasconcellos


SALVE, REI!

Cantor d'outr'ora, quando vi sem flores
Os magicos jardins da phantasia,

Minha lyra depuz.
Não mais pedi inspirações terrenas.
Curvei-me ante o altar, sagrei meu estro

Aos canticos da cruz.

E, sem magoa, quebrei prisões da terra,
Mas uma, se então quiz tambem quebral-a,
Não pude... em vão tentei...

Eram saudades a viver d'esp'ranças,
Saudades, que nem Deus manda esquecel-as,

Saudades do meu Rei!

Ficava-me no mundo um nome grande,
Um symbolo d'amor, de luz radiante,

Sob um manto real...
Imagem do que vi na minha infancia,
Sentado no docel, herança augusta

Dos Reis de Portugal

Christão, pedi com fé - senti que a tinha
Prostrado ante o altar, quando eu pedi

Recursos ao meu Deus...
Recursos, não pr'a mim que nasci servo,
Recursos para Vós, Rei desterrado

Sob inhospitos céus!--

Pulsou-me o coração, senti no labio,
Em vez da oração, soltar-se o hymno

D'um peito portuguez!

Ás lagrimas succede essa alegria
Dos extasis que á mente imprimem vôos

D'energica altivez!

Rei! no dia em que descestes
Do Vosso throno real
Apagou-se a luz da gloria,
Cerrou-se o livro da historia
Do Reino de Portugal.
Surge o anjo do exterminio
Sobre as trevas infernaes!
Traz de fogo a fera espada,
E com mão ensanguentada
Rasgas as purpuras reaes.

Sobre o solio dos Affonsos
Ferreo sceptro esmaga a lei:
Ruge alli o despotismo
Se não verga ao servilismo
Quem lhe diz «Tu não és Rei!»
Não és Rei! és uma affronta
Feita ao povo portuguez!
Não és Rei que não herdaste
Este chão que escravisaste
A quem falso Rei te fez!

Vaga o anjo do exterminio
Como inspiração do algoz!
Corações com Vossa imagem,
Oh meu Rei! são a carnagem
Do punhal que fere atroz!
Foram dias de martyrio,
De terror e maldição!
Mas o martyr, expirando,
Esquecia-Vos só quando
Lhe morria o coração!

Vaga o anjo do exterminio
Do mosteiro sobre a cruz,
E roçando a negra aza
Pela cruz o templo arraza
E do altar extingue a luz.
Cospe injurias e sarcasmo
Sobre a face do ancião,
Porque orava, é réo, e expulso
Foge á morte, e cede ao impulso
De penuria, e pede pão.

Pede o pão que amassa em pranto
De saudades que crê vem
D'uma cella que comprára
Quando o mundo cá deixára
Com as pompas que elle tem!
Pede o pão que lhe usurparam
Com tamanho desamor...
Fraco, ao vêr que chega a morte,
Morre... e então mostra que é forte
Perdoando ao matador!

Lá, no campo da carnagem,
Mutilado um corpo jaz...
Ficaram-lhe alli seus ossos...
Pois que foi um d'entre os Vossos
Real Senhor! não terá paz.
Nem a paz dos que morreram
Sem a nodoa da traição
Nem a paz da sepultura
Ao fiel que honrado jura
Morrer sob o seu pendão

Lá se abraça ao corpo exangue
No abandono da viuvez
A que alli vive arrastada
Mendigando, envergonhada,
Improperios... talvez!
Pobre, e só, mãe de tres filhos
Quando a fome a constrangeu,
Inda assim, um pensamento,
Uma esperança, um grato alento
Foi por Vós que o concebeu...

Vaga o anjo do exterminio
Enverga o manto real;
D'um diadema a fronte cinge,
Mas o sangue que lh'o tinge
Brada vingança fatal!
N'essa fronte ensanguentada
Escreveu a mão de Deus!...
Mas tambem homens puzeram
Inscripções onde se leram
Infamias como tropheus!

Oh Rei de Portugal! Quando a amargura
D'este povo infeliz, é sem conforto,

Valemo-nos do céu!
Pedimos-lhe por Vós, anjo proscripto,
Pedimos-lhe vigor á doce espr'ança

Que em vós o céu nos deu!

Vireis, Senhor vireis, que Deus é justo!
Vireis enxugar lagrimas amargas

Que se choram por Vós!
Sereis de todos Pae, não vingativo,
E nós todos irmãos, e Vós de todos...

O Rei de todos nós!

Fatidica aureola circumda
Nas plagas do desterro dolorosas

Vossa fronte real.
Sentado sobre as rochas da montanha
Lá mesmo na solidão d'amargo exilio

Sois Rei de Portugal!

Deu-vos um anjo a Providencia augusta
Em galardão á dôr que amargurastes

Com Santa intrepidez.
Um dia curvaremos o joelho
Perante Essa que o ceu fadou Rainha

Do povo portuguez.



Camillo Castello Branco

Salve, Rei! - Poesia de Camillo Castelo Branco. Lisboa, Typographia A. J. Ferros & Ferros: 1915.