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terça-feira, maio 18, 2010

Os filhos da viúva

O Senado dos EUA aprovou uma Emenda restringindo a transferência de fundos federais para salvar Estados estrangeiros.

http://cornyn.senate.gov/public/?a=Files.Serve&File_id=a06cc378-d824-4a41-b1fe-3cf254a73316

Há quem lhe chame "European Bailout Protection Act" porque o que os EUA estão a dizer é bem claro: têm que ser os Estados europeus e o BCE a resolverem o problema das dívidas publicas na Europa. Ora, hoje, são os bancos alemães e franceses que detêm a maior fatia das centenas de biliões de euros de dívida pública e privada dos "Pigs" (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha).

Para os EUA, a dívida pública da Grécia é preocupante, mas é a dívida da Espanha que pode ameaçar seriamente a sua economia. Segundo o BIS (Bank for International Settlements), os bancos franceses detêm mais de 200 biliões de euros só em Espanha. Não recuperar esse dinheiro seria um desastre para os bancos franceses e, consequentemente, para os EUA: os bancos franceses são os que mais emitem no seu mercado de fundos. Em síntese e na perspectiva dos EUA, a Grécia pode entrar em falência e sair do Euro, mas não a Espanha (incluindo o protectorado português), por causa dos bancos franceses. Protegendo a Espanha, os EUA protegem-se a si mesmos. E é por isso que crescem agora as vozes que dizem que salvar a Grécia é uma "missão impossível".

Perante a hipótese de saída da Grécia da zona euro, os EUA confiam afinal mais nas "instituições europeias" do que muitos "europeus". Existe já um receituário. A proposta de Jacques Mélitz - fazer do BCE o supervisor dos bancos na zona do euro, com poder para emprestar e taxar os seus futuros "chartered banks" - casa bem com o "European Bailout Protection Act" agora aprovado e com a proposta hoje mesmo apresentada por Martin Feldstein: o BCE deverá comprar as obrigações dos "Pigs" e ajudar os bancos da zona euro (ele está a pensar sobretudo nos bancos franceses, é claro) a "digerir" o que têm no bandulho.

http://www.cepr.org/pubs/PolicyInsights/PolicyInsight48.pdf

O Americano Martin Feldstein sugere também aos europeus, naturalmente, o caminho político federal para a Europa.

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2010/05/17/AR2010051702808.html

Curiosamente, descartando também a Grécia da zona euro, o britânico Evans-Pritchard lembrou-se hoje do regime dos protectorados do século XIX, referindo-se explicitamente às "Linhas de Torres Vedras" (Guerra Peninsular) organizadas pelo duque de Wellington:

"The IMF-EU should instead have drawn up its defences in Iberia, along the Lines of Torres Vedras – to borrow from Wellington. Portugal and Spain are at least defensible – arguably – and more deserving."

http://blogs.telegraph.co.uk/finance/ambroseevans-pritchard/100005734/congress-blocks-indiscriminate-imf-aid-for-europe/

Sorte a nossa, sermos afinal ainda merecedores de protecção. Para que os ruminantes europeus continuem a pastar por aqui, os EUA contam naturalmente também com a cultura ainda predominantemente cristã dos Ibéricos. O preceito cristão não é o de pagar sempre as dívidas, mês após mês e custe o que custar?

Nestes dias de crise e incerteza é pois uma vantagem ser cristão e, sobretudo, católico-romano. O que não deixa também de casar bem com os nossos governos teístas: todas as suas esperanças estão hoje no Supremo Arquitecto Europeu, que não deixará decerto de providenciar um marido abastado às nossas viúvas e uma vida confortável aos nossos filhos.


segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Uma dúvida

Uma dúvida cresce: quem é que está disposto a emprestar dinheiro à actual classe política portuguesa? E em troca de quê?


European Finance Chiefs See ‘Worrying’ Trends in Bond Markets


By Meera Louis

Feb. 9 (Bloomberg) -- European finance ministers are increasingly concerned that certain governments are finding it harder to borrow in financial markets as budget deficits mount and economies slump, according to a confidential report prepared for this week’s Group of Seven meeting.

The widening gaps between the interest rates different euro-area nations must pay bond investors are “worrying developments,” according to a “speaking note” prepared for Luxembourg Finance Minister Jean-Claude Juncker. Ministers also are concerned about weak demand at some government bond auctions, according to the document. Juncker will represent counterparts from the euro-area nations at the gathering of G-7 finance chiefs on Feb. 14 in Rome.

The split between the rates Spain, Italy, Greece and Portugal must pay in financial markets to borrow for 10 years and the rate charged to Germany ballooned this year to the widest since before they joined the euro. That is threatening to hobble the recovery of the region’s weakest economies and even raising doubts about the future of the single currency bloc.

(...)

domingo, fevereiro 01, 2009

Subscrição pública?

O tema do colapso do Euro já deixou de ser uma fantasia de uns quantos lunáticos. Tal hipótese, deixou de ser ignorada pela equipa do Spiegel. E, hoje mesmo, o tema subiu também para a 1ª página do jornal Le Monde (edição impressa). Cumpre saudar o discernimento de alemães e franceses. Enterrar a cabeça na areia, não é de facto a solução.

Em Portugal, porém, o assunto continua a ser tabu. Por aqui, só se fala dos milhões em falta nas contas dos donos do "outlet". Compreende-se. A actual classe política, e não apenas o actual primeiro-ministro, parece ter jogado todo o seu destino no "euromilhões" dos "outlets".

Hoje, há quem proponha uma subscrição pública - uma "colecta" - para "limpar" a honra portuguesa (Medeiros Ferreira, no Correio da Manhã). Pode ser uma solução para o caso, e talvez mesmo a melhor solução. Mas, quando é que começa a colecta pública para salvar o Estado português da bancarrota?

É que ainda há aqui muitos portugueses que nunca tomaram qualquer decisão acerca dos milhões de "outlets" europeus em Portugal, e a quem não saiu nem vai sair o "euromilhões" para pagar os calotes do "Estado a que isto chegou".

Ter-me-ei transformado num lunático, ao preocupar-me com o calote das futuras gerações de portugueses?

Recuperar a dignidade da Política, continua a ser a nossa mais urgente necessidade.

...

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Futuro do "euro" - esboçam-se cenários




No dia 26, o tema da desagregação da UEM foi abordado nas páginas do Financial Times:

Gideon Rachman, "When Europe starts to melt at the edges", FT, January 26 2009

Motivo: alguns entusiastas da UEM, têm vindo a analisar vários cenários, entre os quais, a desagregação:


A number of scenarios are possible.

The most straightforward – accelerated political integration within the eurozone and a move to some form of fiscal federalism – is the least likely.

Another would be a bail-out of the affected member-states by the rest of the eurozone. This is unlikely, but not totally inconceivable, especially if a bail-out were accompanied by IMF-style conditionality. An insolvent member-state could also default on its debt, but remain in the eurozone, or go for the ‘nuclear option’, which would be to default and leave the eurozone.

However, the most likely outcome is that the hardest-hit countries will be forced into wrenching fiscal adjustment and that Germany and others with large external surpluses will take modest steps to rebalance their economies. Eurozone economic growth will be weak, and some member-states will experience prolonged stagnation.

Governments will struggle to manage the political strains caused by fiscal austerity at a time of anaemic economic growth, and political tensions between the member-states will rise.

domingo, janeiro 25, 2009

À espera do caos

A teoria que mais tem sido difundida diz que a crise financeira foi provocada pela crise do subprime, em resultado da ganância de banqueiros sem escrúpulos. A teoria ajustava-se bem aos ouvidos da turba de votantes e, como era necessário fazer eleger Obama, servia às mil maravilhas na cruzada contra Bush. Não foi difícil arranjar uns quantos banqueiros como bodes expiatórios.

O que na altura não se explicava, e ainda não tem sido suficientemente explicado, é que o subprime tinha revelado a crise, mas não era a sua causa. Por detrás do subprime estava um longo período de baixas taxas de juro combinado com um enorme afluxo de capitais resultantes dos lucros obtidos na China, Singapura e nos petroestados do Golfo Pérsico. O mecanismo do subprime levou à explosão, foi o seu detonador, mas não foi a matéria explosiva. À superfície havia banqueiros em busca de lucros, mas no fundo havia investidores em busca de altas rentabilidades.

Em resultado da crise financeira dos últimos meses, os pessimistas dão como certo um cenário de generalizada “stag-deflation”, i. e., uma situação em que surgirão combinadas a estagnação/recessão e a deflação (queda de preços). Para estes, a dúvida parece centrar-se hoje em saber qual a forma do gráfico depressivo: será um gráfico em “U” ou será um gráfico em “L”? Um gráfico em “U” quer dizer que, quando se atingir o fundo, haverá uma assinalável recuperação; um gráfico em “L” quer dizer que, ao atingir-se o fundo, seguir-se-á um longo período de estagnação. Os mais pessimistas não descartam a hipótese de um “L” bem alongado: “L__”.

Todos os mercados globais – mercados de acções, mercados financeiros, de matérias-primas, de bens de consumo, e de trabalho – estão na verdade a apresentar sinais negativos: há um excesso de oferta (queda na procura) em todas as frentes (com a excepção do emprego, obviamente), e o cenário mais plausível começa a ser o da “stag-deflation”.

Durante muito tempo, a preocupação principal na zona euro foi com a inflação. A avaliar pelas palavras de Trichet, essa é ainda a sua preocupação, quando diz que estamos ainda, e apenas, em “desinflação”. Apesar dos sinais de deflação, parece haver a expectativa de que, mais adiante, a inflação acabará por ressurgir, ajudando a reduzir as dívidas dos particulares e dos Estados. Os governos têm estado a injectar quantidades enormes de dinheiro no sistema financeiro e isso pode vir a converter-se em inflação. É um cenário ainda possível, se as rotativas – a impressão de dinheiro em notas de banco – forem aceleradas.

Há economias que estão a sofrer fortes pressões financeiras, como a Rússia e a Ucrânia, mas há ainda, além dos países do Báltico, outras economias muito vulneráveis na Europa, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, a Grécia, a Espanha (a economia portuguesa pertence-lhe, e o Estado português está a caminho da falência), e a Irlanda; na América, a Argentina, Venezuela, Equador e México; e na Ásia, o Paquistão, a Indonésia e a Coreia do Sul.

Mas, sem acelerar as rotativas, os EUA, não têm outra saída que não seja o de pagar as dívidas com mais dívidas. Ali não se podem dar ao luxo de alimentar expectativas de inflação, pois seriam forçados logo adiante a adoptar uma severa política de restrição monetária. Seria o fim do EUA, quando têm vários Estados já à beira da falência. Não têm pois outro caminho que não seja o de baixar os impostos e lançar grandes obras públicas. O que aponta para uma nova e fulgurante subida dos enormes deficits dos EUA.

Nos anos 80, o Japão e a Alemanha eram os grandes financiadores da dívida pública dos EUA, hoje a China já está à frente do Japão, numa dívida de mais de 5.500 biliões de dólares nas mãos de outros investidores estrangeiros, com a Rússia e os países exportadores de petróleo do Golfo em lugar de destaque.

Em 2005, a China abandonou a taxa de câmbio fixa em relação ao dólar, e a sua moeda apreciou-se em cerca de 20%. Em Novembro de 2008, a China deixou-a deslizar um pouco e, depois disso, tem estado a seguir uma evolução estável em torno de uma taxa de câmbio quase fixa em relação ao dólar.

Os optimistas dizem que não se põe a hipótese de um sério conflito entre os EUA e a China, porque esse conflito levaria a uma nova MAD (destruição mútua assegurada), não já apenas numa guerra nuclear, mas também numa guerra económica. Em linguagem positiva, diz-se que a China e os EUA atingiram o patamar da completa interdependência. Não estou tão certo disso, por três razões principais: 1º - A China e os EUA têm estruturas do PNB completamente diferentes, podendo levar os EUA a pensar que podem vencer a China atacando as suas exportações e reduzindo drasticamente o investimento; 2º - Sob o ataque dos EUA, a China pode ser forçada a fechar a torneira (deixar de financiar o défice dos EUA) para acorrer ao seu próprio deficit; 3º - A duração de um conflito financeiro entre os EUA e a China pode ser um factor determinante: se os chineses forem pacientes, e costumam sê-lo, podem conseguir despromover drasticamente a economia dos EUA, bem antes da sua economia entrar em depressão; o seu mercado interno tem muito mais espaço para crescer do que o dos EUA e, por isso, uma maior capacidade para absorver o impacto da queda das suas exportações.

Antes da crise, o mercado em Wall Street era o maior e mais globalizado do mundo. Continua a ser, mas esta crise já veio demonstrar que os EUA não fogem à lógica de todos os Estados capitalistas. Em última instância, quem manda em Wall Street é Washington, tal como se vai ver que, com a crise na China, quem manda em Xangai é Pequim, tal como quem manda em Mumbai é Nova Deli, e quem manda no Dubai é Abu Dabi. Os mercados e as moedas não têm fronteiras mas, em situação de crise, quem manda são os Estados. Na União Europeia, tem mandado Londres, Paris e Berlim, e na UEM, cada vez mais, e apenas, Berlim. Esta é uma lógica mortal para a UEM.

A retórica saída da última reunião do G20 dizia que todos iriam para casa preparar pacotes de salvação a aplicar de forma coordenada. Não é o que está a acontecer, nem é provável que venha a acontecer. Cada um dos Estados irá actuar de acordo com as suas próprias necessidades e, se possível, explorando as fragilidades dos mais directos competidores.

E o que é que os EUA querem?

Manter a sua moeda como a referência, fortalecer-se através do fortalecimento do FMI, rever o “Basil II”, decretar a morte do G8, e instituir o G20. Recusam a possibilidade de um novo Bretton Woods, i. e., regulação internacional e taxas de câmbio fixas, em relação a um padrão que não seja a moeda americana. Querem, evidentemente, continuar a ser o centro do mundo e a parasitar as periferias.

Esta é uma situação que pode vir a ser alterada em resultado da actual crise: a dívida dos EUA está hoje nas mãos dos Chineses, dos Russos, e dos instáveis países produtores do petróleo. O único Estado que os EUA quase conseguiram criar para servir o seu projecto de governo mundial foi a “União Europeia”. E, esse, corre hoje já um sério risco de vida.

E o que é que querem os outros Estados (os que ainda não deixaram de contar, por mérito e vontade própria)?

O que é que quer a França? - Um novo Bretton Woods, e a União do Mediterrâneo.

E o Reino Unido? - Um novo Bretton Woods (ainda que diferente do que é proposto pelo francês Sarkozy), e manter a Comunidade Britânica.

E a Rússia? – Um novo Bretton Woods, no qual não acreditam. O seu plano parece ser mais o de atrair a União Europeia para um projecto Euroasiático. Alguns russos julgam ser possível realizar com a União Europeia o que os EUA não têm conseguido – encontrar ali um único interlocutor. Com a União Europeia a pender mais para o lado da desagregação do que para o lado da União, com ou sem União Europeia, os Russos contam atrair parte do Leste. A Rússia continua destinada a ter uma palavra decisiva, se não mesmo a última palavra, no futuro da Eurásia.

O que é que a China quer? - Um novo Bretton Woods, e arredondar o seu território (manter o Tibete, e recuperar Taiwan). E não lhe peçam para adoptar o sistema político ocidental, que para ela representaria a fragmentação interna. Tal como está, o futuro pertence-lhe. E foi por isso que os EUA já lançaram para dentro da China a “Carta 08”.

Os restantes países do mundo, alguns dos quais se sentem hoje muito importantes por pertencer ao G20, ainda estão longe de contar de forma decisiva para a equação geopolítica global.

Resumindo: todos os grandes, com a excepção dos EUA, querem um novo Bretton Woods. Os EUA querem manter o que está, e continuar o seu projecto de “governo mundial”.

- Até quando vai ser mantido este impasse? Era a pergunta que me tinha colocado ao começar a escrever estas linhas. Hoje, ao abrir o jornal, encontrei o que parece ser a resposta americana para a depressão - acusam a China de estar a manipular o valor da sua moeda. Se for essa a resposta, o impasse terminou. Vem aí o admirável mundo novo da administração Obama. Se a mão de Timothy Geithner não for corrigida, se for essa a política da administração Obama, não haverá meio-termo: os EUA estão dispostos a perder tudo, ou a ganhar tudo. Nesse caso, seria o caos.


Sobre as palavras de Geithner, ver artigo em WSJ:
http://online.wsj.com/article/SB123275567586511815.html

domingo, janeiro 18, 2009

Tectónica de placas

Um professor de Economia na Universidade Livre de Bruxelas, André Sapir, disse há algumas semanas que já não vale a pena tentar evitar 1929. O melhor que podemos fazer agora é evitar 1930, 1931 e 1932.

Os acontecimentos estão a precipitar-se no leste europeu. Nos últimos dias, nos países do Báltico e nos do sul dos Balcãs, têm-se vindo a registar os piores motins desde o colapso dos regimes comunistas. As ruas de Riga são uma “zona de guerra”. Na Lituânia, há motins e manifestações acolhidas com balas de borracha e gaz. Na Bulgária, as manifestações estão também a começar a tornar-se violentas.

No velho ocidente “democrático”, a Grécia tem estado a estremecer, e o pior pode ainda estar para vir. O governo já nem se atreve a vender títulos para financiar a dívida pública. Na semana passada vendeu 2, 5 biliões a taxas baixíssimas. Entraram em terreno muito perigoso.

Em Espanha, todos os indicadores económicos estão em queda livre, com a excepção do desemprego, é claro.

A Irlanda está à beira de um ataque de nervos. Depois de nacionalizar o Anglo Irish Bank, verificam agora que o Estado está à beira da insolvência.

Em Itália, os jornalistas começaram já a dizer que vem aí a “crise da tequilha”, aludindo à crise mexicana de 1994, na qual se deu uma fuga maciça de capitais para os EUA.

Em Portugal, nem é preciso lembrar que estamos também em queda livre, e com a violência à espreita. O nível do endividamento público diz o bastante acerca do “futuro colectivo” que nos espera.

Uma breve conclusão se pode tirar – as nações da Europa estão sob prisão, esperando a vez para o sacrifício no altar da união económica e monetária.

A lógica da UEM vai fazer disparar a deflação e, com os actuais níveis de endividamento, a vida económica vai tornar-se impossível para muitos países europeus. A tortura divida-deflação é um tabu para os partidários do euro, mas está a já a colocar em risco a paz social em muitos locais.

Percebe-se o apelo à ditadura, recentemente lançado entre nós por alguns líderes políticos. Para a oligarquia partidária, não há na verdade outra solução, se quiserem ficar dentro do euro. Só a repressão os poderá salvar, como os salvou nas ditaduras dos anos 30.

Como é costume, a “esquerda” francesa já tem um “slogan”, desta vez, aliás, bem apropriado: “É preciso combater a ditadura capitalista do euro”.

A manter-se a UEM, o problema é bem simples e não tem solução: não vão ser suficientes as actuais acções de salvamento invisível do BCE, e antes de mais, porque ao criar-se uma dívida pública ilegal dentro da União, alguém a terá que pagar. O que é que vai acontecer quando os pagantes de impostos na Alemanha descobrirem a tramóia?

A situação actual não está de feição para pequenos tremores de terra. O que a história dos terramotos europeus tem demonstrado, é que não há abanão mais violento do que aquele que é provocado pelo choque da placa da Europa latina com a placa da Europa teutónica.

quinta-feira, junho 26, 2008

O factor "X"



Os sinais de que se pode estar a aproximar uma catástrofe nos mercados financeiros têm vindo a aumentar, e o jornal alemão «Handelsblatt» noticiou recentemente que os empregados bancários detectaram um novo padrão de comportamento nos clientes que vão à caixa levantar dinheiro: os alemães estão a rejeitar as notas de Euro que não tenha o "X" da sua entidade emissora - o Bundesdruckerei, de Berlim.

Cada país que aderiu ao EURO tem um dado peso económico e imprime um número de notas em conformidade, identificando a sua entidade emissora.

Eis alguns exemplos, das letras iniciais dos números de série:

Z - Bélgica

Y - Grécia

X - Alemanha

(W) - (Dinamarca)

V - Espanha

U - França

T - Irlanda

S - Itália

N - Áustria

M - Portugal


Será que, havendo um estoiro, os portugueses vão preferir o "M"?

quinta-feira, junho 12, 2008

O "plano B"


Quando os referendos em alguns países europeus começaram a oxigenar as águas pútridas de Bruxelas, foi criado um "plano B", através do qual a chumbada Constituição Europeia vestiu as roupagens do chamado "Tratado de Lisboa".

Sem poder tocar na Constituição da Irlanda, onde os irlandeses continuam a ter a última palavra em matéria de Tratados, esse "plano B" de Bruxelas teve que sofrer ligeiras alterações, em resposta a um eventual claro e rotundo "não" irlandês. Começa agora a ser conhecido esse novo "plano B" delineado nas reuniões secretas de 7 e 13 de Maio. Pouco importa que os povos europeus queiram ou não um Estado Europeu. Bruxelas quer, e isso parece bastar. Se não conseguirmos travar a loucura de Bruxelas, a guerra civil europeia atingirá também o extremo ocidental europeu.

sexta-feira, abril 11, 2008

Os EUA perante o confronto global - cinco ideias-chave


O último texto de Henry Kissinger, publicado no Washington Post de 7 de Abril - "As três revoluções" - é importante por nos revelar cinco ideias-chave da posição do establishment americano face ao actual confronto global:

1. Estando instalada a desordem internacional, não é ainda possível vislumbrar como é que será configurada a próxima ordem internacional;

2. O plano de retirada estratégica dos EUA do Médio Oriente e do Northern Tier para África ainda pode e deve ser evitado;

3. Os EUA mantêm-se na expectativa a respeito dos efeitos da subida do Euro face ao Dólar sobre a evolução política da União Europeia, importante condicionante da evolução da NATO;

4. Os EUA registam com preocupação uma eventual ressurgência da França e do Reino Unido como actores globais;

5. De momento, a prioridade dos EUA é a de evitar um confronto militar com a China.


Nota: por "establishment americano" deve entender-se o conjunto de forças económico-financeiras que comandam as principais instituições políticas dos EUA. Um ponto de partida para uma séria investigação sobre o tema pode ser encontrado na lista dos fornecedores do Pentágono - " o "outsourcing", em economês". Em alternativa, poderão também ser consultadas as listas dos apoios financeiros fornecidos aos candidatos presidenciais dos dois partidos do seu sistema político - republicano e democrata. Apesar de ser irrelevante saber-se quem é que vai ganhar a próxima eleição presidencial, pensamos que o establishment preferirá Obama, por ser o candidato que melhor poderá garantir o controlo de África - o espaço estratégico onde verdadeiramente se vai decidir o futuro do poder americano no mundo.

terça-feira, abril 08, 2008

Salve-se quem puder...

"Eo creo que ... hay muchos liberalismos. El económico, con su lema: «laissez faire, laissez passer»; su término: capitalismo; y su divisa: libertad. El político, con su lema: «el pueblo es el soberano»; su término: estatolatría; y su divisa: igualdad. El religioso, con su lema: «la religión debe ser razonable»; su término: modernismo; y su divisa: fraternidad. Y, por supuesto, el español, con su lema: «Esperanza sí que tiene huevos»; su término: casticismo. Y su divisa: laicidad, que ha sustituido el bíblico «Dios te salve» por el utilitario «Sálvese el que pueda». - Ruiz Quintano in ABC, Madrid.


O tema do fim do euro voltou à tona. A hipótese começou a ser colocada em 2005 pelo ministro das finanças de Itália, sendo retomada no fim do ano passado quando os mercados financeiros andavam em grande agitação, no The Telegraph. Volta a ser aventado na revista Forbes, mas agora com um prazo: três anos será suficiente para acabar com a "coisa". Um aviso à navegação a ter em conta

Resumindo: na zona do euro, existe um bloco em torno da Alemanha (Áustria, Luxemburgo e Holanda) em clara rota de colisão - económica - com um bloco latino (França, Itália e Espanha). Causa principal: os efeitos da queda do dólar americano nas economias europeias. Quando dentro de três anos rebentar a "bernarda", acho que Portugal devia ficar com a moeda do euro português. Por uma questão histórica e estética: nunca tivemos uma moeda tão bonita, e com a palavra-sinal Portugal de D. Afonso Henriques...