quinta-feira, abril 14, 2011

Na hora do desastre


"Na hora do desastre, só o enraizamento na história pode dar a confiança necessária para transformar o presente" - Ivan Illich

DA COMUNA AO SINDICATO E DO SINDICATO À COMUNA 

por Teresa Maria Martins de Carvalho


Penso que o homem não é capaz de formar no seu espírito projecto mais vão e mais quimérico do que pretender, quando escreve sobre qualquer arte ou qualquer ciência, escapar a toda a espécie de crítica e grangear a aprovação de todos os seus leitores. - La Bruyère


I - A COMUNA

A multidão não deixa de ser multidão mesmo se estiver bem alimentada, bem vestida, bem alojada e bem disciplinada. - T. S. Eliot

O povo é o conjunto de uma multidão racional, associado na comunhão concorde das coisas que ama. - Santo Agostinho

I

                Comuna foi a palavra lançada a desfavor dos ventos e marés dos socialismos abundantes depois do 25 de Abril e eis que ficou enigmática e brilhante como estrela nova em céus desvendados, portadora de múltiplas ressonâncias, tanto revolucionárias como longa e medievalmente tradicionais.
                E esta palavra, assim aparentemente paradoxal que sugere subversão, parece acordar também o eco longínquo de certa liberdade julgada há muito extinta no altar das massas e do Estado: a liberdade de cada um.
                Ao mesmo tempo desperta em nós o desejo e as forças de um amor comum por algo de comum, ainda indefinido mas perto de nós, alcançável, interpretado e açambarcado por sistemas e partidos mas que os ultrapassa sempre, os gasta e corroí porque nasce a cada momento da liberdade de cada momento.

II - O QUE É A COMUNA

Nada queremos da república dos burgueses nem da monarquia dos plutocratas! - António Sardinha

Não há meio termo: a comuna ou será soberana ou sucursal; ou tudo ou nada. - J. Proudhon

                Não nos cabe a tarefa de nos ocuparmos de maneira funda e completa das raízes históricas da comuna, do seu lugar e papel na sociedade anterior à era industrial e sobretudo da sua importância como elemento estruturante do nosso País.
                Outros o fizeram com a competência mais que bastante e necessária e a eles recorrerá quem desejar documentar-se mais fartamente.
                Precisamos, no entanto, de nos referir embora por alto às suas linhas essenciais para desenvolvermos de modo prudente e claro a reflexão que nos compete aqui e hoje. É sempre preciso começar pelo princípio.
                E o princípio foram comunidades há séculos radicadas em vales e montes e ao longo dos rios, com organizações já complexas, pois o aparecimento do homem agricultor tornou automaticamente mais complicada a definição do poder. Anteriormente, aos chefes caçadores ou pastores pouco fora preciso para delimitarem os agregados familiares ou o aglomerado de vizinhança. Mas, em seguida, a atribuição das terras de amanho não se mostrou tão fácil. De todo o malabarismo de contratos, privilégios, direitos, deveres, obrigações, isenções, foros, usos e costumes estabelecidos quer no povo entre si, quer entre este e o dux, o rex ou a Igreja, resta-nos ainda em certas povoações nossas, o sabor ancestral de misteriosas divisões de águas, o uso dos baldios, o cunho de certas romarias e a persistência anacrónica de confrarias.
                Mas não olhemos como puro folclore para estas reminiscências. Elas demonstram sobretudo a profundidade da sua razão primeira, que as fez resistir, não só ao «progresso» actual, televisionado ou não, mas sobretudo, através de séculos, às reformas pombalina e liberal, centralizadoras e de administração burocrática.
                Esta resistência, este apego aos usos e costumes da «sua terra» constitui no povo português o contraponto à sua visceral e eterna desconfiança para com toda e qualquer disposição governamental. A memória persistente de velhos direitos perdidos e profanados, de uma autonomia antiga criadora de dignidade e de cultura, faz com que a maioria dos portugueses, como notou, com espanto, alguém estrangeiro vivendo entre nós, possua sempre a «sua terra» e que não é normalmente aquela em que se vive, eternos exilados dentro da nossa Pátria, por força das conveniências ou inconveniências dos governos centrais, distribuidores arbitrários, desarmonizadores e tecnocratas, de mão-de-obra e de serviços ao jeito do capitalismo.


III - VIDA E MORTE DA COMUNA

Nós somos livres e o nosso Rei é livre. - Proclamação nas Cortes de Lamego em 1143

Assim instituídas, as Cortes, se não foram o fundamento da liberdade municipal, base da única liberdade verdadeira que, em nosso entender, tem existido no mundo, e talvez a única possível, foram por certo desde essa época uma grande manifestação dela e, até certo ponto, uma garantia da sua conservação. - Alexandre Herculano

                Toda a vida medieval portuguesa era um emaranhado de contratos, regalias, corporações, corpos e municípios que tentavam engrenar o poder do Rei com as liberdades de cada comunidade, fosse ela local (município), de corpo social (clero, nobreza, povo) ou de ofício (corporação), e este tecido de vida social não deixava espaços vazios nem para os vagabundos que segundo a lei das Sesmarias já D. Fernando compelia «à batalha da produção».
                O medo e a curiosidade são comuns ao homem e ao animal, mas, se neste são reacções momentâneas, a consciência daquele faz nascer a ciência da curiosidade e do medo, a noção da precariedade permanente da existência.
                Esta insegurança trágica do ser humano não era então de modo nenhum coberta pelos grupos naturais de interesses comuns de vizinhança, cultivo e convívio. Daí a necessidade de recorrer aos poderosos, sobretudo aos do poder legítimo, isto é, à realeza, cuja legitimidade de origem religiosa dava outras garantias do que o simples conde ou barão.
                Pode dizer-se que o homem medieval era um homem sempre integrado. Não havia marginais, nem desocupados, nem desempregados. Esta integração, obra e serviço do Rei, foi a textura fecunda donde nasceram as nações. E se aos nossos olhos modernos apresenta laivos desagradáveis de sujeição, ela foi naquele tempo a única condição de liberdade dentro de uma segurança possível. Mantinha os homens relacionados uns com os outros, em contratos livremente aceites de parte a parte e no jogo dos interesses e direitos, do clero, da nobreza e do povo, o Rei equilibrava-se a si próprio, anulando abusos deste corpo, fazendo prevalecer os direitos deste município ou daquele, protegendo este nobre seu partidário ou aqueles burgueses de quem precisava auxílio. E equilibrando-se a si próprio, trazia em harmonia a nação que se ia consciencializando como unidade.
                Feitas as nações, os preceitos idealistas nascidos da Revolução Francesa sacudiram estas inclementes cadeias de privilégios e contratos pois há muito que o poder real se abstinha de reunir as Cortes, isto é, deixara de lado como supérfluo o conselho dos corpos da nação e assumira a responsabilidade absoluta do seu cargo.
                E assim a Revolução instalou o homem na sua dignidade de homem só, à moda de Jean Jacques Rousseau, mas ao mesmo tempo que libertava as gentes para a igualdade de uma só lei, deixava que a fraternidade fosse engolida rapidamente pela plutocracia, o poder do dinheiro, que já se vinha opondo ao poder da linhagem ou da terra e encontrava assim caminho aberto.
               E os homens libertos de correntes, de contratos e de obrigações, puderam finalmente ficar apenas como mão-de-obra diante do capital. No dealbar da era industrial foi o liberalismo, filho da Revolução Francesa, que inventou o proletário.


IV - COMUNA URBANA E COMUNA RURAL

Na hora do desastre, só o enraizamento na história pode dar a confiança necessária para transformar o presente. - Ivan Illich


IV

                Talvez convenha voltar atrás um pouco e considerar os dois tipos de comuna, aquela que de facto encarnou o nome e o plasmou na História, isto é, a comuna urbana dos burgueses, e a outra, a rural, o concelho dos homens bons e vilões.
                Foi a primeira que ao enriquecer-se no comércio ou tomando poder com as corporações dos ofícios (não esqueçamos aqui os espantosos privilégios dos burgueses do Porto em relação aos fidalgos que na cidade nem sequer podiam pernoitar...) e sobretudo nas cidades portuárias abertas aos ventos da Índia, carregadas de oiro e dispostas à caldeação rápida de ideias novas que mais conviessem a uma reestruturação da sociedade, correspondente ao novo jogo de forças, foi esta comuna urbana, dizíamos, que perdeu o seu carácter comunitário global e se transformou pouco a pouco em grupos de interesses individuais.
                A realeza participou desta preponderância de alguns corpos da sociedade que desorganizava a antiga harmonia e para se manter flutuante por sobre os fidalgos aburguesados e os burgueses afidalgados, acentuou o poder real como direito divino em detrimento da autoridade como serviço. E tornado absoluto, desembaraçando-se das Cortes, o Rei cortou quase completamente a comunicação com os concelhos rurais e as necessidades imediatas das regiões, do povo camponês e do pequeno artesão.
                Deste modo se dividiu Portugal em gente da abundância e gente da carência, geograficamente situadas, um litoral exuberante cortando caminho ao interior decadente, as urbes inchando-se euforicamente na nova liberdade de enriquecer ao lado ou quase sempre à custa dos outros.
                Mas o absolutismo real não era o Estado totalitário. As comunas rurais decerto já não tinham aos olhos do Rei aquela essencial existência que era preciso guardar, acompanhar, vivificar para que todo o Reino crescesse em 1ìberdade equilibrada, o que tantos cuidados e solicitude lhe merecia e pedia, como mostram até ao séc. XVI e à longa noite filipina as inúmeras disposições legais a seu favor.
                O próprio povo disso tinha consciência. A restauração de 1640 ainda foi ele, esse povo que guardava no seu sebastianismo fruste e ingénuo a esperança da liberdade reencontrada na pessoa do Rei escolhido. E embora a partir de D. Pedro II se tenha visto privado de Cortes, ele bem sentia que a nova ordem que a aurora liberal lhe prometia, centralizadora e eficiente, cortando os poderes ao Rei também os cortava às Comunas.
                Daqui o aparente paradoxo da devoção tocante por parte do povo pelo Rei D. Miguel que finalmente viria a reunir Cortes à moda antiga (1828), as últimas. Ele, rei absoluto, era ainda preferível como interlocutor à nudez fria e burocrática do código administrativo do Estado moderno.
                A última Casa dos 24, a do Porto, foi encerrada em 1834. Tinham acabado as lusitanas antigas liberdades, os contratos, os privilégios, os usos e costumes. Agora não mais havia do que pagar os impostos e receber em silêncio as benesses da civilização.


V - NO REINO DO LIBERALISMO

Conseguiram os seus intentos, os homens do partido liberal. Têm governado o país por mais de quatro lustros decorridos mas por maneira tal que nem pretéritos nem vindouros lhe hão-de invejar o nome. - Luz Soriano

No ambiente subtil e esterilizador dessa conspiração permanente que é a essência do parlamentarismo (os partidos) perderam a noção da realidade; e enquanto o mundo se transforma vão repetindo maquinalmente as costumadas teses duma filosofia política caduca e que nem já compreendem. - Antero de Quental


V

                O liberalismo em Portugal foi fértil em revoltas e conspirações entre facções e partidos, na disputa fervorosa do poder dos favores do Rei, maneiras expeditas de acumular riquezas.
                A mística do progresso material, prato forte dos oradores de então, constituía também o único valor com cotação na bolsa da vida pois ele vinha desculpar, disfarçando no bem comum que por vezes era, o crescente desequilíbrio económico da sociedade.
                As antigas liberdades de autonomia, de poder de decisão que disfrutavam os aglomerados municipais ou as associações de classe, enfim, a dignidade política das pessoas e das comunidades, traduzida em participação real e efectiva nos negócios da vida pública local, profissional ou nacional, tinham sido relegados para o esquecimento como coisas de somenos importância, velharias insuportáveis ao pé da novidade progressista do voto universal e directo dado ao povo. A Eça de Queiroz se deve o retrato impiedoso e indelével das eleições desse tempo, manejo de um povo recebendo a aprendizagem da passividade das mãos de caciques e demagogos.
                Não adianta fazer o processo do Liberalismo. Há muito já que foi feito e por contemporâneos seus ilustres, que por sua inteligência e cultura com ele se desiludiram e com lucidez se desenredaram das suas armadilhas, pondo ao mesmo tempo em evidência, como descoberta fundamental e preciosa, o modo como dantes se governavam os portugueses. Damos-lhes portanto a palavra, simplesmente.
                «Desse despotismo é que todos nós receamos, não é do absolutismo da antiga monarquia, é do novo, que, trazendo-nos todos os males que naquele existiam, não nos dá uma só das garantias que as antigas instituições formulavam.
                Sim, mil vezes sim, que, obrigado a escolher, eu sem hesitar optaria antes por esse governo absoluto que fosse regulado por leis e costumes, por um absolutismo que não fosse deste que se faz por portaria e decreto nas secretárias do Terreiro do Paço. Não tenho medo que me acusem de absolutista; rio-me e escarneço dessa acusação.»
Almeida Garrett

                «Os partidos sejam quais forem as suas opiniões ou os seus interesses, ganham sempre com a centralização. Se não lhes dá maior número de probabilidades de vencimento nas lutas do poder, concentra-as num ponto, simplifica-as, e, obtido o poder, a centralização é o grande meio de o conservarem. Nunca esperem dos partidos essas tendências (de descentralização). Seria o suicídio. Daí vem a sua incompetência, a nenhuma autoridade do seu voto na matéria. É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias acabe com o país nominal, inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo que é, do funcionalismo que quer e que há-de ser»
Alexandre Herculano

                “A História do período constitucional entre nós pode definir-se uma administração centralizada, explorando o país no sentido dos interesses dum pequeno número de monopolistas políticos. A primeira consequência deste estado de coisas é a extensão progressiva, incalculável, verdadeiramente fenomenal do funcionalismo. Há uns anos que a consciência e o interesse popular reagem contra esta monstruosidade, este aleijão da nossa sociedade (...) é ele que nos tem assim exangues ê pálidos à beira do nosso sepulcro entreaberto.
                Os reis então (durante a Idade Média) não eram absolutos; e não o eram porque a vida política local, forte e vivaz, não só não lhes deixava um grande círculo de acção, mas ainda, dentro desse mesmo círculo, lhes opunha, à expansão da autoridade, embaraços e uma contínua vigilância.
                Os privilégios da nobreza e do clero, por um lado e pelo outro as instituições populares, os municípios, as comunas, equilibravam com mais ou menos oscilações o peso da coroa. Para as questões sumas, para os momentos de crise, lá estavam as Cortes, aonde todas as classes sociais tinham representante e voto. A liberdade era então o estado normal da Península.»
Antero de Quental

VI - QUANDO O POVO SE DEFENDE

As sete mulheres do Minho
Mulheres de grande valor
Armadas de fuzo e roca
Correram com o regedor

- Quadra popular sobre a Maria da Fonte

O que são as revoluções políticas do nosso tempo? São o protesto contra o Renascimento; uma rejeição da unidade absoluta; uma renovação das tentativas para organizar as variedades. - Alexandre Herculano

VI

                Um dos fenómenos mais curiosos da época do liberalismo e que nos interessa aqui focar é a guerra da Patuleia, vulgarmente também chamada da Maria da Fonte.
                Partindo de um facto insignificante em si mesmo, a resistência no Minho de algumas mulheres à nova lei, mais higiénica e ”progressista”, que proibia a inumação dos defuntos dentro das igrejas, propagou-se no entanto como um rastilho por quase todo o país, pondo em cena de novo, os miguelistas e os setembristas.
                À luz desta revolução popular, sem motivo suficiente para a extrema violência que desde logo tomou e levou D. Maria II a pedir a intervenção estrangeira, vale a pena cavar mais fundo e ultrapassar a simples oposição ao ministro Costa Cabral. Assim, o ressurgimento do miguelismo não significará tanto o oportunismo de políticos frustrados mas antes uma identificação instintiva e imediata com a última razão do descontentamento popular. Sempre os mandões liberais, começando logo por Mousinho da Silveira, pequeno ditador por detrás de D. Pedro IV, se autorizavam a fazer leis «nas costas do povo». O que irritou as mulheres do Minho e fez vir à superfície a irritação latente desses portugueses que tinham passado a ser considerados de «segunda ordem», terá sido sobretudo o peso deste abuso, esta tirania «esclarecida» que abria em Portugal as portas ao progresso. Não interessa tanto saber se a lei era acertada ou não (no caso até seria) mas o modo como fora promulgada. Aliás, como eram promulgadas todas as leis liberais, sem o conselho e a aceitação prévia das comunas populares.

Por outro lado reapareciam no conflito os setembristas, batendo-se pela Constituição de 1822, representando a pureza de um ideal revolucionário que vinha sendo constantemente desvirtuado por compromissos sucessivos. A vitória lógica de 1822 só se concretizaria em 1910 com o advento da República. A instituição monárquica constituía o grande obstáculo à «revolução de cima», burguesa e maçónica, porque no Rei existia sempre latente o defensor legítimo do Povo. Não foi por acaso que os dois únicos reis portugueses do séc. XIX verdadeiramente populares tivessem sido D. Miguel e D. Pedro V, encarnações efémeras, românticas, sebastiânicas de uma outra relação de Iiberdades e de poder.
Não admira portanto, que o povo, deste modo entregue a si mesmo, liberto das antigas garantias tentasse pouco a pouco defender-se, organizando-se à margem dos partidos.
Enquanto que a população rural quando não possuía leiras que lhe garantissem subsistência e se via entalada entre duas soluções extremas a submissão ou o banditismo, abalava para o Brasil, uma indústria incipiente mas já exploradora, desenvolvendo-se sobretudo no eixo Lisboa-Porto aglomerava um povo operário, desenraizado e desintegrado de comunidades naturais e que só despertou para um acordar difícil por volta de 1871. Sentindo-se joguete do mercado de trabalho, a sua reacção primeira tomou a forma de associações mutualistas que sucediam nas suas funções às extintas confrarias pois outra finalidade não tinham do que conseguir certa segurança material para os seus associados. Nasceriam a seguir as associações profissionais ou de classe, herdeiras indirectas das antigas corporações de ofícios que já pretendiam alcançar para os operários e artífices melhoria de salário e de condições de trabalho, possibilidade de melhor instrução e competência profissional. Surgiram até algumas cooperativas de consumo, aliás de vida efémera.
Estas iniciativas tinham carácter reformista, isto é, apenas pretendiam melhorar as condições de vida do proletariado e portanto não tinham ainda cariz revolucionário, ou seja não punham em questão a estrutura social existente. Esta movimentação primeira, quase espontânea, era equivalente à das trade unions, as venerandas organizações operárias inglesas, antepassadas de todas as outras e que nasceram também sob o signo humanitário.
Não tardaria no entanto que o operário português, embora mais tarde que os seus colegas europeus, começasse a tomar consciência da força social que representava e do seu valor no jogo da cena política.

VII - O MOVIMENTO SINDICAL E OS PARTIDOS

O humanitário é sempre um hipócrita - George Orwell

O idealista revolucionário que não sem ironia a gíria social alcunha de puritano, é um tipo curiosíssímo, de rigidez austera, de sentimentalidade extrema, ingenuamente puro e simples, leal e franco, com o horror grotesco do intervencionismo e do que ele chama desdenhosamente o politicantismo. - Manuel Ribeiro

VII

Esta consciência de força social nascida no reencontrar do gesto comunitário, embora ainda e apenas esboçado como defesa e entre-ajuda, desde as mais remotas associações mutualistas de 1840 e 1850, até ao enérgico Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas de 1871, fortificou-se sobretudo a partir da divulgação da Internacional Socialista num opúsculo da autoria de Antero de Quental.
Poucos anos antes tinha o grande poeta aderido à iniciativa de José Fontana na fundação do Partido Socialista.
Os ecos da Comuna de Paris não foram também alheios a certo sopro revolucionário de cariz diferente que ia aparecendo aqui e ali, fortalecendo instituições que se esboçavam em tentativas precoces de cooperativas de produção e consumo ou mesmo de federalismo. Ao mesmo José Fontana, que fora com Andrade Corvo e Santos Silva, um dos grandes entusiastas da ideia das cooperativas, se deve a criação da Fraternidade Operária, organização já nitidamente à margem do estilo reformista e humanitário das associações operárias da época e de cujos cofres se valeram as primeiras greves de 1872 e 1873.
Embora ínfima no contexto político-social da época, a classe operária em Portugal começou então a despertar o interesse e a cobiça dos partidos eleiçoeiros, a coberto de um humanitarismo por vezes bastante suspeito. Se não era grande a quantidade de votos potenciais, representava pelo menos um grupo social coeso que se conquistaria de uma só vez e, o que era mais importante, mostrava tendência para crescer em número e influência.
Era o Partido Socialista aquele que se achava naturalmente com direito a consideração e concessões da parte da classe operária e se, de princípio, preconizava o afastamento desta das disputas eleitorais, esperando que caísse de podre a construção do parlamentarismo liberal com as suas contendas ocas, não tardou a deixar-se iludir pela tentação da conquista do Poder, vendo como este passava tão facilmente de mão para mão, ao sabor de intrigas e combinações à volta das urnas.
O aparecimento em 1876 do Partido Progressista, fusão dos partidos histórico e reformista que trazia no seu programa um esboço de descentralização do poder (que aliás depois não foi cumprido) e a criação meses antes do Centro Republicano Democrático Português que anunciava claramente as suas intenções de pugnar pelo estabelecimento do regime republicano em Portugal, serviram de impulso decisivo e de desculpa doutrinária aos membros do Partido Socialista para se lançarem no jogo eleitoral. E com a adesão prestigiosa de Oliveira Martins em 1885 os socialistas acabaram por se distribuir estrategicamente por outros Partidos com maior probabilidade de êxito.
Não era outra, aliás, a reviravolta dos partidos marxistas europeus, chamados então sociais-democratas. Marx e Engels, cansados de esperar por uma revolução operária que, segundo a teoria que tinham elaborado era cientificamente inevitável mas que, apesar das condições para a sua eclosão estarem cumpridas, nunca mais vinha, tinham enveredado pelo caminho mais longo da conquista do poder por via eleitoral e, assim, os socialistas entretinham-se pacificamente com a caça aos votos.
Entretanto a grande maioria dos operários portugueses, sem pedirem licença aos Partidos, vinham ultrapassando o socialismo reformista e a social-democracia, empurrados por essa outra corrente de exigência mais funda de autonomia e liberdade, e desembocavam com toda a força no sindicalismo revolucionário.
As vozes de Proudhon e de Bakunine que tinham provocado a cisão na Internacional Socialista entre marxistas e anarquistas, depois de horas de glória e prestígio em França e na Alemanha onde começavam a perder influência, ressoavam agora com redobrada energia na Itália, em Espanha e em Portugal.
Várias razões podem ser achadas para este rápido e fecundo enraizamento do anarquismo nestes três países, aliás com populações de índole semelhante.
A mais superficial e mais fácil incide na pouca preparação e uso político destas massas operárias, de tipo temperamental, terreno propício portanto ao primarismo doutrinário anarquista mais emocional do que racional ou científico. Nestes países onde não vingara o protestantismo, jardineiro paciente e longínquo da sociedade liberal, o bloco institucional católico, integrante e global, criaria com mais facilidade o negador total do que o revolucionário metódico.
Outro, mais pertinente pelo menos no caso português, para além da memória antiga de uma liberdade comunal cerceadora do poder central, aponta acusadoramente para aqueles que dizendo-se dedicados à causa operária se enleavam gostosamente nas intrigas eleitorais com a preocupação única de ganhar votos, fossem eles progressistas, socialistas ou mesmo os católicos recém-chegados, que perdida a primitiva colaboração humanitária no Centro Pro motor, começavam a arrancar para a política social depois da publicação da encíclica Rerum Novarum de Leão XIII.
E finalmente o último logro em que o movimento operário caiu quando, já melhor organizado e representativo, acedeu a aderir à implantação da República, nela concentrando esforços e acção militante, julgando contribuir assim para nova reestruturação da sociedade portuguesa. Além da eliminação do Rei que reinava mas não governava e da perseguição à Igreja, a República nada mudou em Portugal. Pode até dizer-se, no campo que aqui nos interessa, que os conflitos com a classe operária e a repressão governamental se agravaram de modo trágico, com prisões, mortes, deportações, indo até à suspensão da Casa Sindical e do Partido Socialista.
Postas assim as coisas, compreende-se que o velho desconfiado que é o povo, no puxa para ali, puxa para aqui das conveniências de grupos e tendências, tenha lançado às malvas eleições e partidos. O operário português militante foi até à Ditadura de Salazar predominantemente anarquista.

VIII - O QUE É O ANARQUISMO?

Não procureis na renúncia a vós mesmos uma Liberdade que vos priva precisamente de vós mesmos. Que cada um de vós seja um eu todo poderoso. - Max Stirner

Eu detesto o comunismo porque ele é a negação da liberdade e eu não posso conceder nada de humano sem liberdade. Não sou comunista porque o comunismo concentra e faz absorver todos os poderes da sociedade no Estado, porque leva necessariamente à centralização da propriedade nas mãos do Estado, enquanto que eu quero a abolição do Estado a extirpação radical desse princípio de autoridade e de tutela do Estado que sob o pretexto de moralizar e civilizar os homens, até hoje só os sujeitou, explorou e depravou.
Bakunine

VIII

É muito difícil lutar contra preconceitos sobretudo quando são simplificadores de realidades complexas. O anarquismo é, para a maioria das pessoas, sinónimo de desordem, de atentado à bomba, de amor livre. Não podemos desistir, evidentemente, diante do obstáculo semântico dessa palavra maldita porque não há outra que a substitua para exprimir o conjunto de ideias, sentimentos e factos que sob ela se abriga.
Vamos tentar por isso uma aproximação tanto quanto possível desapaixonada, livre e lúcida e desenterrar algumas razões do anarquismo que nos darão que pensar.
O seu aspecto mais evidente e até fundamental é a revolta, o grito visceral, instintivo e sadio da reacção natural de defesa contra o poder tornado opressão, contra o afogamento da pessoa na massa, contra a manipulação hipócrita, demagógica dos povos através dos seus legítimos sonhos e anseios, transformados em palavras sedutoras e vazias, promessas aliciantes e falsas.
Daqui se fixou o retrato vulgar do anarquista, exasperado e violento como por vezes é, o sindicalista revolucionário de acção directa, o nihilista russo do séc. XIX ou o alemão de agora. No entanto, esta redução do anarquista ao terrorista é injusta, hoje mais do que no passado. Agora, muitos outros grupos não anarquistas praticam o terrorismo para os mais variados fins e o movimento hippy adverso à violência, é de filiação nitidamente anarquista embora a opinião pública dificilmente o saiba reconhecer, apenas e ainda por causa desse seu carácter pacifista.
E o que é, no fundo o movimento hippy senão o protesto vivo contra uma sociedade de consumo em que os valores humanos são falseados e a pessoa manipulada para produzir e consumir, a fim de que gire a máquina industrial capitalista? A descoberta do valor específico de cada um e a liberdade da sua plena realização pessoal é também uma constante do pensamento anarquista.
Além disso e já que se falou do movimento hippy, notemos também o aspecto comunitário e de entreajuda espontânea que ele apresenta, idêntico na sua motivação natural — o homem não é homem sozinho mas em comunidade — à mais querida e acarinhada das ideias anarquistas: a organização da sociedade em grupos de afinidade, quer profissionais, quer locais.
Porque, apesar do seu nome indicar urna decapitação da autoridade, isso não quer dizer que o anarquismo faça a apologia da desordem. O anarquista odeia o Estado como odeia qualquer poder que não emane das pessoas, minuciosamente relacionadas através dos seus interesses directos. Nada há de mais organizado do que o pensamento anarquista sobre a sociedade, e o próprio Proudhon, que lançou como primeiro desafio ao filisteu a palavra anarquista, gostava de se intitular «mutualista» para acentuar em contrabalanço esta face construtiva do anarquismo.
Outra característica dos hippies é a comunidade dos bens, aquilo que é de um é naturalmente de todos. A partilha é de regra, regra também do anarquismo em que a socialização dos bens de produção, consumo e cultura através da auto-gestão, se processa directamente nas comunidades e entre as comunidades sem intervenção de órgãos estatais centralizadores e dispensadores de comida, conforto e trabalho, sufocando as liberdades e alienando os espíritos para obter mais eficácia na organização.
Não se pretende aqui canonizar cegamente o anarquismo, passando uma esponja sobre os seus excessos, ingenuidades e ambiguidades. Ele é por sua própria natureza excessivo, multifacetado, inconsistente e flutuante como tudo o que procede directamente da intuição, mas fecundo, rico de ideias, descobertas e avisos em que a razão de cada um poderá pescar o seu peixe. Aliás os seus pensadores, muito coerentemente sempre se negaram a sistematizar e muito menos a dogmatizar as suas ilações, invenções, desconfianças e experiências. Não se codifica a indignação nem a imaginação.
Mas, se seria idiotice ignorar propositadamente a rebelião selvagem que o anarquismo é, com as dores e sangue que arrasta consigo, mais idiota seria desperdiçar a bússola crítica que ele representa. Um vulcão quando explode tem as suas razões para explodir.
Depois desta incursão pela densa floresta anarquista em que a palavra liberdade, sem os ouropéis pesados do liberalismo legalista ou do socialismo científico, nos surge multiplicando-se em liberdades sucessivas, com todas as suas implicações políticas económicas e culturais, liberdade da pessoa, liberdade das pessoas em comunidade, liberdade das comunidades nas regiões, liberdade das regiões dentro da Nação, liberdade das Nações por sobre as fronteiras, parece não ter sido de todo escusado o passeio.

X - A RESSURREIÇÃO DA COMUNA

O homem é tanto mais livre quanto mais relações tiver com os outros homens. - Proudhon

O sindicalismo pode e deve bastar-se a si próprio na luta que trava contra a exploração patronal mas não pode ter a pretensão de resolver sozinho o problema social. - Jean Grave

IX

Enfermo da sua própria liberdade que o impedia de construir uma estrutura própria e definitiva, o movimento anarquista depois de muito gritar, esbravejar e revolver, encarnou em algo que andava ali à mão em recusa constante a enfeudamentos políticos: o sindicalismo na sua forma primitiva reformista, isto é, preocupando-se sobretudo com os interesses de classe. A afinidade encontrada entre o sindicato, sistema de autodefesa da classe operária, e o anarquismo, contestação total do poder, residia como vimos na aversão comum ao jogo eleitoral dos Partidos, mesmo daqueles que se diziam defensores dos operários ou instauradores de nova ordem social.
O operário desconfiado, armado com a experiência das suas construções de defesa e ataque, proporcionou ao anarquista a base concreta para uma organização da sociedade autónoma, descentralizada e livre a que ambos confusamente aspiravam.
Desta simbiose a que se chama o anarco-sindicalismo, advêm não só a roupa revolucionária que o movimento sindical passou também a envergar, nomeadamente em Portugal, sobretudo a partir da criação da Confederação Geral do Trabalho em 1919, mas também o esboço da sociedade libertária que os pensadores anarquistas delinearam mais à vontade, com indicações de ordem prática.
De uma harmonia de interesses, instável e sempre precária, entre patrões e empregados, constantemente procurada, achada, perdida e buscada, por entre greves, reivindicações, representações e comissões, em que os sindicalistas centralizavam a sua luta, os anarquistas fizeram-nos passar para a exigência da apropriação imediata dos bens de produção, para a auto-gestão nas empresas, para a recusa de qualquer liderança mesmo técnica na planificação da produção e na circulação dos produtos manufacturados ou das matérias-primas e para a colectivização dos instrumentos de trabalho do mesmo ramo de indústria, através de federações.
Esta revolução proletária de tipo anarquista era evidentemente refractária a todo e qualquer dirigismo por parte de um grupo mais esclarecido, à moda socialista, pois nesse grupo estaria sempre a semente de um Estado sôfrego de poder. O apelo à imaginação dos operários para criarem eles próprios órgãos de poder, se exigia um esforço auto--educativo monumental, não era tão utópico como parecia. Os sovietes ou comissões de trabalhadores que formaram a base indispensável da revolução russa foram uma criação anarquista, falsificada depois por Lenine quando os transformou em simples instrumentos do Partido.
Desde que não saísse do campo económico, a organização anarquista de tipo colectivista e federativo até era fácil de imaginar como exequível, como aliás aconteceu em Espanha em 1936. Mas o próprio sindicalismo é limitado no seu campo de acção. Nem tudo é sindicável na sociedade e querer reestruturá-la à base de sindicatos é um bocado curto...

Esta falha não passou desapercebida à imaginação anarquista, e já Proudhon, ultrapassando o horror à «política», tinha esboçado uma teoria para a administração territorial, lembrando-se que os homens formam entre eles, em base local, o que ele chama e nós chamamos e toda a gente chama um grupo natural, ou seja, a comuna.
Esta descoberta da pólvora, «Para cá do Marão mandam os que cá estão», de comunidades locais, autónomas, federando-se em regiões ou em províncias foi retomada avidamente pelos seguidores de Proudhon, para além da solução prática das Uniões Sindicais, isto é, da associação dos operários dos vários ramos da indústria presentes na mesma localidade, até ao simples reconhecimento de um poder autónomo da comunidade territorial, tanto que hoje os anarco-sindicalistas portugueses falam de comunalismo municipal, à boa moda antiga.
Depois deste longo caminho andado, quando os vemos atracar ao porto antiquíssimo e seguro da nossa melhor tradição de liberdade, em vez de repetirmos descuidadamente que teria sido talvez mais fácil terem logo começado por aí, lembremo-nos de Pombal, do absolutismo e dos liberais que desmancharam Portugal e consideremos com respeito esta descoberta tão duramente conquistada.
A nós, a quem não roem preconceitos viscerais contra o poder, desde que legítimo, defender a reconstrução da sociedade portuguesa com base na comuna autónoma é tarefa estimulante pelo que de criador se adivinha no desenrolar do processo: construir tudo de novo na verdade e na liberdade de cada um e de todos, despertando a imaginação e a criatividade de cada um e de todos, sem esquemas prévios que não sejam a aceitação da competência de cada um e de todos no governo dos seus interesses directos, a consideração da alteridade das pessoas e das comunidades e o seu ajustamento ao bem comum.
E se nos calhar avistarmos as dificuldades dos anarquistas que por fidelidade a uma intuição básica fundamental, a recusa a aceitar o poder de alguns homens sobre os outros, andam ingloriamente à roda de uma solução satisfatória para o problema dos serviços públicos, comuns a toda a Nação, não os olhemos com a comiseração de quem tudo sabe.
Ou ainda quando congeminam, altamente preocupados e com razão, no modo de evitar que a auto-gestão local se torne selvagem e egoísta sem que para isso se tenha de recorrer a processos repressivos ou autoritários, não lhes concedamos o sorriso irritante de quem conhece a solução.
Ou mesmo quando não são capazes de definir o papel do sindicato, sempre ambíguo na sua finalidade dentro de uma sociedade comunalista, defensor de uma classe, sempre à beira de descambar para a hegemonia política dessa classe, o Estado operário, que por ser operário não é menos Estado e menos gerador de opressão, não pensemos que temos muita sorte em não estarmos, assim, coitados, obcecados por lutas quiméricas de classe.
Ou finalmente quando procuram sem esperança o elemento unificador que evite a pulverização das comunidades, que sem ele se tornará inevitável, e no entanto resistem à tentação de um qualquer governo central, mesmo cheio de boas intenções, não cantemos de galo só porque não temos essas pedras no sapato. Lembremo-nos antes que nenhuma intuição certa de descentralização de poder está livre de ser adulterada, viciada, para serviço e glória de ditadores, sejam homens, partidos ou sistemas. E quanto mais a fórmula encontrada estiver próxima da maior liberdade possível, isto é, em distribuição minuciosa e natural, mais fácil será a sua reconversão em rede estranguladora de um poder central, sejam os sovietes anarquistas nas mãos de Lenine, o corporacionismo do Integralismo Lusitano nas de Salazar ou a comuna nossa de agora, noutras que por aí apareçam...
Agradecemos por isso aos anarquistas a sua resistência em acolher de olhos fechados a comuna, com as potencialidades imensas que traz consigo para uma organização razoável da sociedade, sem a passarem primeiro pelo crivo vigilante e implacável do ódio ao poder, tarefa ambígua de meia dúzia de iluminados que rejeitam ao mesmo tempo quaisquer ingerências de grupos de iluminados...
E como não existe neste mundo nenhum sistema político perfeito, pois todos são aproximações, mais ou menos frágeis, mais ou menos poderosas, nem o comunalismo, sairá isento de pecado e a hesitação continuará.
Mas se este idealismo férreo do anarquismo na hora cia escolha nos pode parecer estéril, ele será na hora do desastre, sempre possível e sempre provável, a memória preciosa e exacta do sabor da liberdade.


X - NO MUNDO DESTE TEMPO

Efectuar sábios cálculos para prospectar o futuro já não basta. A casa está a arder, chegou o momento de chamar os bombeiros. - René Dumont

O último impedimento à reestruturação da sociedade não é nem a falta de informação sobre os limites necessários, nem a falta de homens resolvidos a aceitá-los se eles se tornarem inevitáveis, mas é o poder da mitologia política. - Ivan Illich

X

Ao fim e ao cabo, o anarquismo, como facilmente se adivinha, não é só fenómeno datado e circunscrito a determinada época, mas representa fundamentalmente uma recorrência do espírito humano. Podemos detectar traços seus nos cínicos da Antiguidade, nos movimentos cátaro e franciscano da Idade Média, nos Anabaptistas do séc. XVI, não contando já com as inúmeras “jacquerIes” que enxameiam a História, simples tumultos ocasionais de revolta sem projectos de vida subjacentes.
É esta uma das razões por que lhe damos lugar central a desfavor de sistemas políticos seus contemporâneos mas que partem de premissas filosóficas e sociológicas marcadas pela época, como é o caso por exemplo do liberalismo e do socialismo, elaborados sobretudo ao sabor do vento magnífico que começou soprando no séc. XIX e entrou pelo séc. XX, caindo há pouco na hora do ocaso: o mito do progresso, a crença de que, como pensavam uns, a criação da riqueza e bem-estar era uma curva eternamente ascendente, acrescentando outros que a sabedoria política consistiria em saber também reparti-los equitativamente segundo variados métodos.
Este optimismo ingénuo encontra-se hoje num beco sem saída, onde as palavras de ordem que ontem entusiasmavam multidões perderam sentido e justificação. Pelo menos para aqueles que estão acordados e atentos aos sinais dos tempos.
Neste contexto, o grito anarquista permanece, ainda e sempre, actual e oportuno.
Por exemplo, um dos vincos que mais ressaltam na fisionomia do tempo presente é a violenta aparição dos nacionalismos, fenómeno paradoxal se apenas o virmos assim vindo ainda dentro de uma época em que o internacionalismo é palavra-força para a revolução final a caminho do paraíso terrestre.
Não nos queremos referir ao fim do domínio europeu sobre o mundo descoberto, quando nasceram as nações americanas, estão ressuscitando as asiáticas e vêm à luz as africanas. Isto representa um acomodar dos povos no concerto das nações. Era previsível e pertence ainda ao caminho natural da evolução da humanidade.
O que queremos aqui considerar é a sacudidela que sofrem as velhas nações dentro do seu próprio corpo. A revolta do país basco, da Galiza, da Catalunha, dos Ocitanos, da Córsega, dos Bretões, dos Croatas, do Québec, et j’en passe estão evidentemente mais próximas do furor e da razão anarquista do que das reivindicações classistas cio socialismo.
Existe como que uma procura angustiosa de identidade, uma ânsia de restabelecer raízes culturais antigas, de reencontrar a fala-mãe ancestral, de reencarnar na tradição peculiar ligada a comunidades localizadas ou localizáveis, de não deixar perder o passado precioso que explica o presente e prepara o futuro, deixando-o à mercê das mãos frias e burocratas dos governos centralizadores, tanto dos que pretendem criar deste homem antigo, o homem novo, nivelado e socialista, como os que o escravizam a uma sociedade de consumo e bem-estar, entorpecedora e estupidificante.
Esta exigência de uma autonomia cultural e política por parte de comunidades diferenciadas em risco de se perderem na estandardização e imposição de modelos culturais, a recusa portanto de todo o tipo de sociedade desumanizante, encontra eco e parceiros em vários outros fenómenos sociais, alguns não políticos e não localizados como o movimento hippy e os seus antepassados beatniks já nascidos na década dos anos cinquenta, outros que, embora não ligados a comunidades, introduzem a interferência política, como o movimento contestatário dos intelectuais russos ou o dos estudantes de Berkeley, na Califórnia que se espalhou pelo mundo até culminar em França em 1968.
É curioso verificar que, se parte desta juventude violenta, ao arrefecer em frustração, se marginalizou como os seus colegas hippies, não fugiu no entanto para Katmandu mas simplesmente para o campo, na procura de comunidades rurais em que se integrar, procurando relações com os outros homens e com a natureza, mais directas e verdadeiras.
Esta tomada de consciência pacífica ou violenta, de que o resultado da era industrial, ao lado de reais vantagens, trazia males gravíssimos, foi pouco depois coadjuvada por outra, mais alarmista ainda, pois, se a primeira incide em erros de caminho, a segunda aponta para o fim catastrófico desse caminho.
De facto, a descoberta do mundo e das suas riquezas e o desenvolvimento fulgurante da técnica, filha dilecta de uma ciência triunfante, toda poderosa, assassina de deuses inúteis, dera à planetização consequente do viver humano o carácter de marcha ascendente e irresistível, o tom de urna aventura excitante cujas metas brilhavam já como paraísos acessíveis.
O toque a rebate já foi no entanto dado e, se ainda ouvidos moucos o não ouviram, na surdez dos interesses privados ou políticos, não virá longe o tempo, esperamo-lo, em que a maioria de-repente terá consciência do suicídio colectivo a que a espécie humana está condenada pelas mãos da era industrial, criadora de bens e de serviços, cada vez mais opressivos, cada vez mais desumanizantes.
Felizmente já não se prega no deserto quando se alude à poluição, ao esgotamento dos recursos naturais, à degradação da paisagem, ao desaparecimento irremediável de espécies animais, à «morte» de lagos, rios e mares. A ecologia é hoje o traço de união mais forte que une todos os que, por cima de crenças, cores, países e gerações, sobrepõem aos seus Interesses imediatos e egoístas a preservação de um mundo vivível, esta terra dos homens que é de todos e que é só uma.
Temos assim que a condenação violenta ou pacífica da sociedade pletórica e mecanicista da era industrial se apresenta em duas correntes convergentes, uma psicológica, procedendo da recusa da degradação consequente das relações humanas, a outra científica, partindo da consciência lúcida da degradação progressiva e, por fim fatal, da própria terra.
Esta dupla condenação, que é simultaneamente um atestado de óbito, mostra também que é necessário e urgente que cada povo, ultrapassando os sistemas vigentes da mitologia política, redescubra a forma de viver em comum que lhe é peculiar e que possibilite o desenvolvimento harmonioso do homem nas suas relações com Deus, consigo próprio, com os outros homens, com a natureza. Não é outro aliás o sentido bíblico da palavra justiça.

XI - PODER POPULAR E DEMAGOGIA

Aqueles que nada têm aceitam o que lhes prometem mesmo que seja tudo. - Hipólito Raposo

Mas em Utopia onde tudo é propriedade pública, ninguém tem medo de ficar sem nada, desde que os armazéns públicos estejam cheios. Cada um recebe parte suficiente para si; por isso nunca há pobres ou pedintes. Ninguém tem nada mas toda a gente é rica — porque que maior riqueza existe do que a alegria, a paz de espírito e a libertação da ansiedade?
Thomas More

XI

A distribuição equitativa das riquezas é um fim desejável e por ela suspira a população mais pobre e todos aqueles que sofrem com o sofrimento dos outros.
O esforço mais antigo para alcançar este ideal encontramo-lo entre os Hebreus. De cinquenta em cinquenta anos, o ano jubilar marcava uma redistribuição de riquezas, pois todos os bens e propriedades voltavam à posse dos seus primitivos donos e as dívidas eram perdoadas. Deste modo, como sinal religioso do reconhecimento do domínio de lahvé sobre todas as coisas, se procurava tanto quanto possível evitar a acumulação excessiva de riquezas nas mãos de uns, exploradores da miséria ou da pouca sorte de outros.
Este costume, único na História, ressalta extraordinariamente pela sua singularidade, sobretudo quando o comparamos com os sistemas económicos dos grandes Impérios que rodeavam o minúsculo e insignificante povo judeu.
Esta aspiração de comunhão de bens concretizou-se depois, ainda dentro desse mesmo povo, nas comunidades dos essénios, pouco tempo antes de Cristo, e nas comunidades cristãs primitivas da Igreja de Jerusalém. O monaquismo retomou este gesto comunitário que se tornou uso e costume nas ordens religiosas desde a Idade Média até aos nossos dias. Aparece igualmente em algumas seitas protestantes e em comunidades islâmicas, hippies ou similares.
Estes exemplos são, no entanto, de grupos voluntários, minoritários, selectivos e mais ou menos marginais. A concepção de uma distribuição global da riqueza, extensível a toda a sociedade, se vinha há séculos surgindo periodicamente na ficção literária ou na especulação filosófica, só se afirmou como possibilidade concreta na segunda metade do séc. XIX com a doutrina marxista.
A sua realização não se reconhecia executável, no entanto, senão vindo atrás de revoluções sociais que constituíam, aliás, com as guerras -- e ainda constituem — os agentes normais e vulgares de redistribuição da riqueza, quer dentro de um país, quer de povo para povo.
O produto do saque, tanto humano corno material, fazia parte - fará ainda? - do salário do soldado ou do quinhão do revolucionário. Houve, é certo, chefes militares ou cabecilhas de revolta que se opuseram ao saque, chamando roubo ao que outros arvoravam como direito. O saque destrói muito mais do que redistribui, o que sempre acontece quando a «partilha» se faz à força...
Mas repartir está bem, saber repartir melhor ainda. Até é exequível uma partilha suficientemente justa. Sejamos optimistas neste ponto. Repartir, porém, pressupõe algo para repartir. É preciso conseguir produzir já com a intenção de partilhar... Aqui reside a dificuldade. O poder popular chamado à revolução retoma o instinto ancestral do saque, distribuindo, roubando ou delapidando as riquezas existentes, produzidas anteriormente, mas por fim dará por si, inevitavelmente, na penúria e no descontentamento geral porque o fizeram sobrepor a distribuição à produção, destruindo a engrenagem desta sem ter cuidado primeiro em manter funcionando qualquer outra que a não interrompesse de modo a garantir a contínua criação de novos bens distribuíveis.
É aqui que reside a dificuldade, de facto. A partilha põe uma produção comum de riqueza, não é equivalente ao saque até quando este se processa em nome de espoliações anteriores. Mesmo pondo de parte a desilusão do povo a quem foi demagogicamente prometida Ia grande vie para todos e imediatamente apenas com a apropriação das riquezas existentes, método que redunda sobretudo e vergonhosamente em único proveito dos supostos representantes do poder popular, continua enorme como a montanha de Maomé o facto de nunca ser fácil convencer aqueles que nada têm a produzir para todos.
A China parece ter resolvido o problema numa histeria colectiva constantemente alimentada com revoluções culturais ou seja manejando a população contra os perigos reais ou fictícios que dentro dela nascem ou podem vir a nascer. Assim o povo produz com entusiasmo revolucionário sem pensar por si, obedecendo cegamente a directrizes superiores a fim de se salvar dos monstros que vai sempre gerando...
Outros regimes caem francamente no sistema policial e repressivo. O Big Brother de George Orwell, espiando tudo e todos a cada momento é o já hoje clássico e triste símbolo da realidade quotidiana de muitos países em que teoricamente ninguém tem nada, tudo é de todos e todos produzem tudo para todos.
Já Thomas More, na sua Utopia, em que o viajante português descreve a cidade idílica em que tudo está devidamente distribuído, todos têm a parte que lhes cabe e lhes é suficiente, acaba por apontar de-repente que cada um tem mesmo de fazer o seu trabalho «porque há sempre gente que te está a observar». Não há de facto lugar nem para S. Francisco, nem para o monge budista nem para todos os poetas vagabundos à moda de Jack Kerouac...
Este constrangimento inevitável que parece acompanhar qualquer produção quando ela é para todos e para nenhum em particular, mas em benefício de uma entidade distribuidora, essa, nunca cem por cento pura, deriva da desconfiança visceral e antiquíssima que rói o povo em relação a entidades que ele pressente, adivinha e sabe não serem cem por cento puras. Há-de procurar sempre enganá-las, visto que lhes levam o que produz não tendo ele conhecimento directo para onde, para que mãos, para que fins, através de que manipulações, descontos, desvios, bolsos de burocratas, embora essas entidades lhe garantam determinados direitos de serviço de saúde, instrução e habitação.
O poder popular que é capaz de fazer sozinho uma revolução não tem capacidade para impor uma fiscalização por sua conta a qualquer minoria que tomou em seu nome a direcção centralizadora da sociedade igualitária. E até quando consegue um arremedo modesto não escapará à corrupção e ao suborno.
E no entanto o humanismo económico tem de partir exactamente do poder popular porque este não é só palavra de ordem que provoca as verdadeiras revoluções mas é também o único poder sobre o qual se poderá instaurar uma sociedade mais justa para todos e que hoje forçosamente se tem de colocar numa perspectiva ecológica, sem metas utópicas de abundância e num quadro de libertação e desenvolvimento humano que não cabe evidentemente nas estruturas policiais ou repressivas dos estados socialistas nem nas estruturas degradantes das sociedades capitalistas ou liberais.
Poder popular não é sinónimo de arruaça, de motim descontrolado, de massas raivosas, de barricadas intempestivas, de ocupações e saques. O poder popular é qualquer coisa de fundamental, forte, antigo e construtivo, que não deve ser confundido com a desordem, os gritos, a selvajaria. O anarquismo, que é a forma instintiva e contestatária de certo poder popular, assenta, não só na revolta que comporta violência, resposta da violência descontrolada à violência controlada da repressão e da injustiça. Ë algo mais. É o desejo profundo de uma ordem justa e livre.
Este poder popular fundamental exprime-se correcta e eficazmente com todo o seu valor ¡insubstituível quando se exerce directamente naquilo que lhe diz directamente respeito. Comissões de moradores, comissões de trabalhadores, assembleias de aldeia, sindicatos, municípios, comunas, corpos regionais. Aqui, quando o poder popular é efectivo e real, constitui a pedra de toque de uma organização social firme, fecunda e séria, construída sobre a rocha segura da vontade do povo respeitada.
Resumir o poder popular apenas ao sufrágio universal a favor de partidos, ou levar a comissão dos moradores da Picheleira a ter opiniões sobre o imperialismo americano, é o seu desvirtuamento na máquina burocrática e a sua manipulação demagógica.
De facto, se no seu campo próprio nada há de mais forte e sólido do que o poder popular, não só na recusa como na construção, nada há também de mais frágil, nada há de mais lisonjeável, manejável e ingénuo, sempre à beira de ser despedaçado, desrespeitado e de se afundar no desespero e no desalento, quando é arrastado para o campo dúbio das lutas políticas à escala nacional. O triunfo nunca será seu embora aconteça em seu nome, mas será o triunfo camuflado de qualquer facção ou partido que o desalinha e dele se serve e servirá, servidão tanto mais abjecta quanto, levado pelo engano, dificilmente voltará a ter expressão correcta e própria, tomando depois quando muito a forma explosiva do anarquismo ou o apelo e o anseio veemente do tirano salvador.
O poder popular só se subtrairá à pressão demagógica quando lhe for dado exactamente aquilo que lhe é devido, que ele merece e que todos merecemos e precisamos de que se apodere, isto é a liberdade de aconselhar, prevenir, refilar, inquirir, exigir dentro da sua comuna tudo e sobre tudo o que directamente lhe interessa e nela ter autonomia de decisão e execução, opondo-se assim eficazmente a qualquer poder central socializante.

XII - AS COMUNAS E O REI

Se o Estado se desvalorizar na sua forma constrangedora, tornar-se-ão necessárias instituições para arbitrar os conflitos... - René Dumont

A legitimidade da realeza é primigénia, prototípica e exemplar e portanto é a única originária e que larvarmente perdura sob todas as outras formas...
Quando houve em terras da Grécia, da Itália e da Europa plena e pura legitimidade, esta foi sempre a monarquia, quer queiramos quer não. - Ortega y Gasset

XII

Quando confinamos o poder popular à comuna, parecerá aos mais desprevenidos ou prevertidos por vozes demagógicas, que é com certeza nossa intenção subreptícia restringi-lo, diminuí-lo, dominá-lo. Trata-se exactamente do contrário. Dando-lhe a dimensão exacta ao seu valor imprescindível, haverá menos probabilidade de ser adulterado e mais de se exprimir com liberdade e proveito.
Além disso, a capacidade de socialização que possui quando actua na sua esfera própria é muito mais justa, eficaz e humana do que qualquer socialismo de gabinete, exactamente porque se efectua na prática para bem de uma comunidade restrita em que todos se conhecem e se reconhecem e não à maneira teórica, nivelante, rígida e impessoal da sociedade anónima socialista, tantas vezes catastrófica, exactamente por não ter em conta o elemento humano individual, pedra imprescindível nos caboucos de cada comunidade.
A comuna, quando não é completamente despojada da tributação por governos centrais esfomeados, mas pode aplicar como entender a maior parte dos seus rendimentos comuns, proporciona imediatamente aos seus habitantes uma participação política activa, sã e eficaz, consciente e livre de demagogia.
A comuna é um pequeno governo autónomo com a escala suficientemente pequena para não escapar às possibilidades de entendimento e de decisão dos seus habitantes e suficientemente grande para lhes poder prover às necessidades quotidianas sem ter que andar a lisonjear partidos, facções políticas, homens influentes, ou manejar longa e penosamente a papelada burocrática.
O velho refrão, infelizmente tão nosso conhecido, «a Câmara não tem dinheiro», para desculpar escolas sem vidros ou estradas com buracos, falta de água ou de esgotos, seria calado para sempre se não existisse esta jiga-joga de dinheiros em impostos para lá, em subsídio5 para cá. Subsídios é uma palavra humilhante que as comunidades deviam banir, passando a governar-se a partir das suas próprias forças.
Também não está vedado ao poder popular, centrado na comuna, que alargue o seu âmbito e aumente a sua força, se com as comunas vizinhas se concentrar em federações ou províncias para melhor cuidar de interesses comuns regionais, quer hospitalares, escolares, industriais, agrícolas, culturais e outros.
À dimensão comunitária dos casais, aldeias, viras, ruas, bairros, cidades e regiões, o poder popular iria ainda anexar a força sindical dentro das empresas que, vinculadas às comunas, teriam de passar a servi-las directamente e não mais a explorá-las quer em matérias-primas quer em mão-de-obra, e isto fossem patronais ou de auto-gestão, porque para o caso tanto faz. A auto-gestão não é só por si a solução ideal socializante, pois pode tomar formas encapotadas de capitalismo de grupo, se não estiver realmente submetida à comuna.
O sindicato tem de se articular com o poder comunal, quer através das uniões locais de operários de classes diferentes, os chamados sindicatos verticais, quer ainda através dos sindicatos horizontais, isto é, do mesmo ramo de indústria estabelecida noutras comunas. Por este segundo projecto decorrerão permutas de experiência técnica e o incremento da valorização profissional.
O papel das associações sindicais numa sociedade comunalista virá assim a ser a primeira contribuição para o esboço de toda e qualquer planificação industrial correcta, pois terá sempre em conta as possibilidades e as necessidades de cada comuna ou de grupos de comunas e as permutas possíveis ou desejáveis e não se irá basear no lucro absoluto a favor de particulares ou do Estado, seja em nome de uma riqueza nacional distribuível, porque estará sempre à partida eivada de colonialismo interior com os seus aspectos desequilibrantes.
Para quem está habituado a esquemas de desenvolvimento baseados na criação rápida de riqueza será difícil aceitar esta visão restrita, ecológica, comunitária e descentralizada do viver humano, sobretudo por ser evidentemente muito mais lenta e muito menos eficaz no aspecto total do rendimento.
Para quem está habituado a considerar toda a revolução como reivindicativa e classista, esta procura e reencontro das relações exactas entre as pessoas em comunidade parecerá um atalho escusado que não levará a luta nenhuma.
Para quem está habituado a ter o mundo rural como analfabeto e inculto, incapaz de se desenvolver por si até ao maravilhoso nível urbano, meta única desejável apesar de roída por dentro por mil bactérias, esta promoção imediata das comunidades rurais redundará no retrocesso inevitável a formas sociais arcaicas e condenadas.
E no entanto para a sociedade futura que vemos poder desenhar-se por sobre os limites frágeis e doentes da actual existência humana, parece-nos a comuna um dos caminhos possíveis, mesmo e seguramente ao preço de certa austeridade económica, para a recriação entre as pessoas de relações de convívio, cultura, recreio e sobretudo de diálogo para concerto de uma política directa comum, relações perdidas na euforia da produção da riqueza e bens de consumo, na reivindicação social e na urbanização desumanizante, criadora de solidão. O tédio, a fadiga física e psicológica, o ódio e o desengano do homem da era industrial são o resultado de uma secularização de vida, sacrificados que foram de ânimo leve todos os símbolos, os ritos, os usos e costumes ligados a esses valores comunitários afinal essenciais. Na ressurreição comunal ¡remos encontrá-los de novo, pois serão necessários ao próprio funcionamento da comuna.
Esta dimensão comunitária da sociedade não racionalmente global mas humanamente fraccionada é a base do comunalismo que acreditamos ser neste momento e para Portugal o viver político possível e desejável, pois não só corresponde à invenção da sociedade convivial conforme com os dados presentes e futuros da situação actual do homem na Terra mas tem em conta além disso as raízes históricas mais profundas da nossa tradição política.
E se falamos em tradição política não é para logo nos atirarem à cara com a monarquia, chamando-nos retrógrados por assim irmos buscar algo que foi enterrado há mais de cinquenta anos.
Toda a tradição política de um país deixa nele os vincos bem ou mal traçados de feitos, sistemas e ideais. Não renegamos nenhum deles, desde que valorados à luz da sua pureza intencional na procura constante da verdadeira libertação e felicidade dos Portugueses.
Não renegamos nem as Cortes nem o Rei, contrato exemplar entre a vontade popular e o poder legítimo, nem o absolutismo esclarecido, primeiro impulso para a modernização do País ao diapasão da Europa, nem o liberalismo com os seus ideais de fraternidade contra o despotismo dos grandes, nem a luta sindicalista, primeiro assomo da consciência de uma ordem social injusta.
E no entanto não é por amor rotineiro da tradição ou por saudosismo romântico que somos monárquicos mas porque nos parece que o Rei é o elemento unificador mais eficaz para evitar a pulverização da sociedade comunalista e, encarnando-o, libertar o instinto da identidade nacional.
Não é por ambição despótica absolutista que somos monárquicos, mas porque, estando o Rei fora de pressões materiais ou de partidos, é o único poder verdadeiramente independente e livre, base inequívoca da sua legitimidade e nele se acha o árbitro incorrupto para sancionar os conflitos inevitáveis entre os interesses comunais. Do mesmo modo, é serviço do Rei tornar possível a criação por exemplo de serviços nacionais de distribuição de energia, de saúde ou de transportes.
Será por idealismo fraternal que daremos às comunas voz contra o Rei se isso se tornar necessário. O Rei não se discute. Escolhe-se. E essa escolha é um direito contratual de parte a parte que tem de ser cumprido de parte a parte.
Constará ainda do serviço do Rei manter o equilíbrio entre o poder regional e as forças que o possam representar ou que necessariamente terão de o representar. É a justiça social que aqui apela para o Rei, o criador mais apto de uma harmonia entre as comunas ricas e as comunas pobres, quer através da tributação, quer da representação.
Seria jogo inútil e até prejudicial à ideia fecunda da organização comunal, tentar delinear ou definir os órgãos do poder comunal, regional e nacional e como se conjugam entre si.
A comuna e livre e livre é a sua criatividade. Acreditamos que o País liberto em comunas chamaria por si e para si o Rei, como garantia única da sua liberdade própria por sobre qualquer administração nacional que se mostrar imprescindível.
Se o Rei governa mas não administra é no entanto a presença pessoal, o Tu presente e permanente, impedimento constante a qualquer sufocação por parte do funcionalismo.
É evidente que não estamos delineando um sistema político perfeito, sem nódoas nem erros, resultado brilhante da razão e do raciocínio, à moda das futuras e felizes e estagnadas sociedades socialistas.
A vida é por sua natureza variada e variante e de soluções sempre diferentes. Nem os homens são seres impolutos, cobertos de perfeições. Nem o Rei por ser Rei será para sempre impecável. Naturalmente que haverá descontentamentos, desavenças, egoísmos, tensões. Naturalmente haverá também discussão, diálogo, soluções.
A sociedade é algo vivo que se constrói, por vezes em ritmos contraditórios e inesperados.
A sabedoria política consiste em prever-lhe quadros suficientemente maleáveis, à dimensão humana, para que cresça e se desenvolva ao sol da liberdade, sem quebrar nem definhar, em evolução constante.


Teresa Maria Martins de Carvalho

quarta-feira, abril 13, 2011

A pau com a escrita

Carta do Canadá

por Fernanda  Leitão

Vamos hoje analisar o que vai pelo ensino de Português no Canadá.

            É do senso geral que se muda para melhor, ninguém muda seja o que for para que as coisas piorem. Mas, pelo que se tem observado, esse bom senso escasseia sempre e quando os interesses partidários, ou o mais desavergonhado amiguismo, estão acima do interesse colectivo e do respeito que é devido aos que, através dos impostos que pagam, sustentam a coisa pública. É o que se está a passar na comunidade portuguesa residente no Canadá e, também, nos Estados Unidos, que referimos porque, como adiante poderão verificar, tem a ver com o pântano mal cheiroso que se quer criar à viva força.
            Parece que em Portugal a culpa costuma morrer solteira, mas seriam quadradamente tolos os que julgassem acontecer o mesmo no estrangeiro. Aqui, iguais perante a lei, dotados de total liberdade, isto é, vivendo sem medo de políticos e patrões e por isso podendo expressar a nossa opinião alto e bom som, os portugueses sabem que podem dar um murro na mesa e dizer basta ao abuso. Posto isto, considero e afirmo que, depois de dezenas de anos de disparates e corrupções por parte de secretários de estado das Comunidades afectos ao PSD, passámos a ter os mesmos disparates e corrupções vindos do actual secretário de estado, António Braga.  Entenda-se, claramente, que corrupção não é apenas receber dinheiros por baixo da mesa, ainda que em bonificações catitas de investimentos no BPN ou outro antro mal afamado, ou sacar comissões em negociatas que envolvam o estado. Corrupção é, também, favorecer amigos à custa dos dinheiros públicos, usar e abusar de cunhas e compadrios.
            António Braga começou por despedir, à bruta e sem maneiras, muito menos sem motivos, a então conselheira cultural junto da embaixada de Portugal em Washington, Doutora Graça Castanho, actual Directora Regional das Comunidades dos Açores. Trata-se de uma das grandes autoridades em língua portuguesa com que o país conta, professora na Universidade dos Açores há muitos anos e com obra pedagógica publicada, doutorada por Harvard. E de mãos limpas. Foi substituída por uma coordenadora licenciada em Inglês e Alemão, que deixou má imagem e más recordações na África do Sul, mas que tem a grande virtude e mérito de ser amiga do Sr. Braga. Como qualquer medíocre que se preze, rodeou-se a senhora de vários adjuntos que, alegremente, estão a comer do orçamemto do estado português. E tenta, a todo o pano, promover (ou salvar) uma Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá, dirigida por um dos seus adjuntos e por um outro ambicioso sem escrúpulos, ambos clientes vorazes dos subsídios de Portugal. Adianto que está a ser feito o levantamento de todos os dinheiros públicos abichados por estes e sua pandilha, desde há 20 anos. E não será relatório para ficar na gaveta.
            Com a entrega (porque duma entrega se tratou) do ensino básico de Português ao Instituto Camões, velha loja de compadrios e cunhas, foi fácil ao Sr. Braga substituir a coordenadora do ensino de Português para o Canadá, Dra Graça Assis Pacheco, que, de 1997 a 2010, exerceu o cargo com competência, isenção, empenhamento total e um correctíssimo relacionamento com a comunidade portuguesa e as autoridades escolares canadianas.
            Digo que foi fácil esta susbtituição porque o Instituto Camões é presidido por uma senhora que é constantemente desautorizada pelo Sr Braga mas que, pelos vistos, engole sapos como quem come pinhões, que é o que acontece a quem vive da política e dos favores dos políticos. Braga enviou para o lugar uma pessoa da sua simpatia e amizade, também de Inglês e Alemão, sem grande experiência neste campo do ensino da língua lusa.
            Acontece que a nova coordenadora, que no dizer de vários professores mete água por todos os lados, tem vindo a pôr todo o seu empenhamento na promoção de uma editora, uma só editora, a que lhe tem publicado livros, e no assédio aos professores residentes no Canadá para que alinhem com a tal associação de professores que, somadas as contas, existe para serviço de uns quantos nos Estados Unidos e nada mais.  Serviço que pode incluir, entre outras coisas, cruzeiros nas Caraíbas  e congressos da treta para exibição de intelectuais de anedota. Os professores de português no Canadá, salvo um ou outro caso lamentável, são pessoas dignas e de bem, pessoas que têm dado muito da sua vida para que as escolas portuguesas continuem a ensinar crianças e jovens. Não merecem ser manipulados e tutelados por elementos estranhos e suspeitos.  Ao mesmo tempo, a nova coordenadora propagandeia acções de formação e tem o desplante de as fazer com leitores de Português em Universidades, sem o menor treino de formação, e por uma representante da tal editora.
            Se esta senhora não quiser ser acusada oficialmente de conflito de interesses pela comunidade junto de quem de direito em Lisboa, trate de parar com este desconchavo.  Não esqueça que é paga pelo dinheiro dos contribuintes portugueses. Está aqui, mais mal do que bem, para ajudar as escolas e os professores de Português, e não para servir de batedora dos interesses bastardos da coordenadora dos Estados Unidos e dos subsidiodependentes da tal associação de professores.
           

quarta-feira, março 23, 2011

Adeus Artur

Carta do Canadá
por Fernanda Leitão

            Não vou repetir o que, numa assinalável e feliz unanimidade nacional, foi dito de Artur Agostinho, enquanto profissional da comunicação e ser humano, aquando do fim da sua passagem por este mundo. Todos os elogios foram mais do que merecidos por este lutador de 90 anos.  Mas permito-me recordá-lo, no seu esplêndido senso de humor, durante os anos em que convivemos de perto no Bairro Alto, que era então território de jornais e fado e não lugar da moda para  barulho fora de horas, isto é, muito antes de 1974.
            Eu almoçava e jantava no restaurante Rina, na Travessa dos Fiéis de Deus, e comigo faziam o mesmo vários jornalistas, gente da rádio e da televisão, do cinema e do teatro, do fado e das artes plásticas,  das profissões liberais e do corpo diplomático, empresários e despachantes  marítimos, e também os que cabem na misteriosa designação de gente da noite, que é assim uma espécie de morcego boémio.  Rina era a patroa do restaurante, uma mulher bondosa e simpática de São Pedro do Sul que tinha uma paciência angelical para aturar os caturras que todos nós eramos,  muito especialmente os jornalistas sempre furiosos com a censura que faziam uns coronéis da confiança e privança do ditador Salazar. Eramos todos um bocado doidos e  a Rina foi-nos porto de abrigo e teatro de pândegas memoráveis.  Eu morava ali perto, mais para os lados do Príncipe Real, e também vivia por ali o pintor António Soares, um muito engraçado e descarado que, de copo erguido, declamava quando ali jantava a fadista Lucília do Carmo: “Casa comigo!  Com o teu dinheiro e o meu talento, era um sucesso garantido”. Garantido era o riso de Lucília e o ralhete do cartoonist José de Lemos, do Diário Popular, no meio da galhofa da rapaziada.
            Uma vez por semana jantava na Rina o Artur Agostinho e a sua equipa do jornal Record, e logo se lhes juntavam os fotógrafos desportivos Nuno Ferrari e António Capela. Também se pendurava um tipo do teatro, creio que encenador, a quem o Artur Agostinho ajudava e protegia, tendo ficado  na memória de nós todos porque, após a abrilada, o traíu de forma baixa por conta dos fiéis de São Lenine.  Mas como quem adivinha vai para a casinha, essa noite era então de tal reinação, com o Artur a dar o lamiré, que ninguém queria faltar. Um pagode completo.
            Ora num belo dia de verão, atravessava eu o território que vai de Sâo Pedro de Alcântara até à Calça do Combro, rumo à Rina para almoçar, quando dou de caras com o Artur Agostinho. Cumprimentámo-nos e perguntei-lhe se ia para casa do António Soares. E diz-me ele com uma expressão carregadíssima:
            - Vou. Nem sabes o que aconteceu, uma grande desgraça... Morreu o Zé de Lemos...
            Fiquei siderada, aflita, as lágrimas a saltarem-me, e o Artur, sempre compungido, a dizer-me:
            - Nem te digo mais nada... Estou mesmo em baixo...
            E desandou.  Pesadamente, tristemente, cheguei à Rina. E que vejo eu?  O Zé de Lemos sentado à frente de uma bela travessa de bacalhau com grão.  Eramos muito amigos. Cheguei-me a ele de manso, mas a ferver: Zé, não me faças perguntas, é coisa séria. Larga já isto e vem comigo.
            Atarantado, mas confiando sempre em mim, seguiu-me. Na rua, disse-lhe: O safado do Artur Agostinho matou-te há bocadinho e ia-me matando do coração.  O desgraçado está em casa do António Soares e nós agora vamos lá almoçar com eles, pagam eles que devem estar a rir-se.
            E assim foi. Batemos e o António assomou à janela a ver quem era.
            - Abre, António, que estou aqui mais o morto. Põe dois talheres na mesa e diz ao Artur que à sobremesa lhe arranco as orelhas.
            Acabámos, como se calcula, numa bela almoçarada, cheia de riso e piadas.  E o Artur Agostinho deliciado por eu ter caído na esparrela.
            Foram tempos felizes.  Por isso se compreenderá que, anos depois, o Artur e eu nos tenhamos abraçado comovidamente, sem palavras, em pleno Chiado, tinha ele acabado de vir do exílio no Brasil, para onde o ódio mascarado de política o tinha atirado. E se compreenderá que hoje diga adeus ao Artur como quem diz adeus a um pouco de mim.
           
           

sábado, fevereiro 19, 2011

Um forte sinal


CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

            Vendo o desatino que varre a capital do perdido império, facilmente se concorda com o velho ditado popular: casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. É um exercício penoso abordar a chamada grande comunicação social através dos seus meios habituais: televisão, rádio, jornais e internet.  Reina a barafunda, a confusão, o diz-que-diz-que, o boato transformado em facto político, a intriga, a pequena vingança, a maledicência pura e dura, a vaidade e a mediocridade mais confrangedora. Nenhuma ideia que valha a pena agarrar e fazer crescer, salvo raras excepções.  Fico sempre convencida que, para os de Lisboa, o resto do país não existe.
            Com rara teimosia, em pequenos e esporádicos apontamentos, o Portugal Profundo, o País Real, aparece fugazmente depois de muito esbracejar. Receio que, nos estados maiores da política e do jornalismo oficioso, não deiam por isso.  Porque esses fugazes apontamentos dizem-nos que largos milhares de famílias trabalham esforçadamente para se sustentarem e ajudarem os mais precisados, cumprem os seus deveres, não deixam parar o país e apostam no seu ressurgimento sem quererem saber de partidos nem de velhos do Restelo. Milhares de jovens bem preparados aguentam firme o desemprego e esperam, sem hinos de glória à parvoíce e à rasquice, o momento de darem o seu melhor nas empresas e escolas. E sabem que vão dar.
            Recentemente, o Prós e Contras da RTP pôs um grupo de empresários frente a frente com o país todo, incluindo os cinco milhões da emigração. Mostraram-se a nós tal qual são: pessoas competentes, honestas, independentes, cultas, que dão tudo por tudo para que, através de maior produção e exportação, o país vá saíndo lentamente do buraco europeu em que está metido.  Estão a conseguir, porque apostam forte na modernização, na ligação íntima entre a empresa e a universidade (ou a escola de modo geral), na formação profissional, no trabalho árduo e na esperança que não morre. Tenho a certeza que todos eles terão, algumas vezes, críticas a fazer ao governo, mas não duvido, depois de os ter visto e ouvido, que as farão entre pares, de modo discreto e construtivo, tendo em vista a delicada situação do país e as garras afiadas do circuito financeiro internacional.  São educados, têm civismo, não são merceeiros da República com a sua avidez e má criação.
            Foi uma lufada de ar fresco essa noite. Aqueles senhores trabalham no País Real, entendem-no, e vice-versa. Pena é que apareçam tão pouco.  A televisão devia trazê-los ao povo mais vezes, porque são um bom exemplo e um grande motivo de esperança.
           

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Teimosa Esperança

Carta do Canadá
Por Fernanda Leitão

Ao menos uma vez na vida,  há uma hora em que cada um de nós dá consigo a pensar no que podia ter sido e não foi. É como estou,  trinta e sete anos depois da revolução feita por militares e no termo da mais lamentável campanha eleitoral para as presidenciais de que tenho memória.
            Em 1974, o Movimento das Forças Armadas depôs a ditadura e apresentou o seu programa: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. Todos quantos sofreram 48 anos de falta de liberdade e de respeito pelos Direitos Humanos, acharam que era um programa bom e possível.
            Tudo se estragou, porém, com a chegada de líderes partidários vindos do estrangeiro, esfaimados de poder e pressionados por interesses internacionais que hoje se conhecem. À medida que cresciam os interesses partidários, Portugal sumia-se na balbúrdia. E no entanto, tinha sido um acto de bom senso, humildade e amor à Pátria, ter dito a verdade ao povo: Liberdade já temos e agora, devagar, vamos construír a Democracia; temos de ser prudentes com a Descolonização, para evitar guerras, mas ainda assim temos de prever que muitas pessoas quererão regressar a Portugal, e é precido dar-lhes habitação e trabalho; por tudo isso, e porque o país está muito atrasado (e aqui apontavam-se as falhas todas), o Desenvolvimento é a prioridade. Temos de dar prioridade à Educação, com destaque  para o ensino profissional, à Agricultura, Florestas, Pecuária e Pescas, tornando-as modernas e adaptadas à nossa realidade. Temos de fazer indústrias transformadoras. Teríamos de explicar que uma Reforma Agrária não se faz por decreto, de uma hora para a outra, leva anos a concretizar.
            Se tivesse sido assim orientada a revolução, teríamos condições para povoar o interior do país, desfalcado pela emigração,  teríamos criado milhares de postos de trabalho, evitaríamos o encerramento de tantas empresas que os comunistas destruíram à força de saneamentos, julgamentos selvagens, plenários a toda a hora. Os nossos investigadores científicos teriam excelentes condições de trabalho. Pela própria dinâmica desencadeada, a Justiça seria expurgada da tara salazarista e os partidos comunistas seriam obrigados a acertar o passo com o país. E  quando chegasse o momento de negociarmos com a União Europeia,  poderíamos fazê-lo de igual para igual e não de chapéu na mão à espera de milhões para derreter em estradas
a mais, betão a mais, máquina de estado mais pesada, fundos comunitários que desapareceram em bolsos fundos no que foi o princípio da grande corrupção.
            Podia ter sido assim, mas não foi.  Estamos hoje todos a pagar o preço da vaidade, da irresponsabilidade, da incompetência e até da ignorância.  O alto preço do egoísmo dos que pôem os interesses pessoais e partidários acima da Pátria.  Até desaguarmos neste lavadouro público em que  políticos se acham acima do país e do povo que os sustenta, achando que discursos de auto-elogio e de ameaça chegam para desmentir factos.
            Portugal está numa situação embrulhada, graças a esta gente que temos de aturar há trinta e sete anos.  Portugal, agora que o somatório de certas candidaturas, a juntar aos 53,3 por cento de abstenção e aos 4,25 de boletins de voto nulos, tem hoje uma grande maioria que se opõe ao que aí está.  É preciso que essa maioria tenha liderança e comunicação social sem trela nem açaime dos donos.
            É bom lembrar que há centenas de jovens, na força da vida, a trabalhar bem em várias áreas do saber, muitos deles já com prestígio internacional, e muitos outros que, de forma voluntária e generosa, são verdadeiros anjos da guarda dos que o regime atirou para a valeta.
            Por tudo isto, tenho esperança. Apesar de tudo e contra tudo.
           

terça-feira, novembro 30, 2010

Mensagem do 1º de Dezembro de Dom Duarte de Bragança



Na perspectiva histórica de um País com perto de 900 anos, o penoso caminhar numa crise comparável à vivida nos tempos da I República cujo centenário este ano faustosamente se comemorou, permite-nos retirar diversas conclusões.

Comecemos pela circunstância de a República, fundada pela força que derrubou um Regime Democrático, nunca, até aos nossos dias, haver sido legitimada pelo voto popular.

Significativo é, também, o facto de o regime republicano, nas suas várias expressões, não ter tido capacidade para resolver nenhum dos problemas de que acusava a Monarquia e o facto de que as Democracias mais desenvolvidas e estáveis da Europa serem Monarquias.

As nossas três Repúblicas do séc. XX nasceram de três golpes militares após os quais os governantes se lançaram a reorganizar a sociedade, com os resultados que agora estão à vista.

Como herdeiro dos reis de Portugal, eu represento um outro princípio, o princípio da liberdade e não o da coerção. Chegou a hora de a sociedade livremente dizer que Estado quer. Em vários reinos do Norte da Europa ouvi destacados políticos afirmarem que “vivemos em República, mas o nosso Rei é o melhor defensor da nossa República”.
Deixo aqui uma mensagem aos monárquicos, aos convictos que, hoje, são a minoria mas, segundo as sondagens, serão a maioria no futuro que se aproxima.
Quero lembrar que essas sondagens chegam a referir 20%, 30% ou 40% de monárquicos, conforme as perguntas são feitas, percentagens tanto mais valiosas quanto resultam da escolha de pessoas livres e não de propagandas de partidos ou de movimentos sem transparência.

Quero agradecer-vos a generosidade, o entusiasmo, e a dedicação quando içam nas ruas a bandeira das Quinas com a Coroa e quero dizer-vos que continuarei a acompanhá-los, como sucedeu no 5 de Outubro em Guimarães, o dia da independência nacional.

A situação humilhante em que a Nação se encontra perante nós próprios e a comunidade internacional obriga-nos a reflectir sobre novos modelos de desenvolvimento económico e de vida em sociedade, inspirados no bem comum.

Com efeito, a expectativa inicial do projecto europeu que a generalidade dos membros abraçou e que se assumiu, na sua origem, como um projecto de cooperação entre Estados – com os mais ricos a ajudarem os mais pobres – corre o risco de passar, rapidamente, de miragem a tragédia, com os mais fortes a ditarem regras e a impor sanções aos mais vulneráveis.

Neste contexto de incerteza e preocupação, são, por isso, cada vez mais as vozes autorizadas que preconizam a necessidade da reforma do modelo de desenvolvimento económico global. A reactivação estratégica de uma agricultura sustentável e ecologicamente equilibrada é fundamental para enfrentarmos com segurança os desafios actuais, como há pouco tempo lembrou o Papa Bento XVI .

Precisamos de um novo modelo para conseguir maior felicidade e bem-estar com menor desperdício de recursos, que deverão ser melhor e mais justamente partilhados, para que a ninguém falte o essencial.

Havendo tantas necessidades de apoio às populações seria desejável dinamizar as antigas tradições de voluntariado, recorrendo também aos serviços dos beneficiários de subsídios do Estado, como condição para receberem esses subsídios. Receber subsídios sem dar a sua contribuição para a sociedade equivale a receber esmolas, o que não é bom.

Portugal não pode cair no desânimo a que nos conduzem os constantes e confusos acontecimentos políticos nacionais amplamente noticiados.

É fundamental acreditar no Futuro e partilhar Esperança, nunca nos esquecendo de onde viemos e para onde queremos ir.

Para isso há que cultivar os exemplos de competência, seriedade e coragem na defesa de ideais, combatendo a falta de autenticidade que, infelizmente, constitui uma das mais comuns e perversas características do nosso tempo.

Quem está na Política deve ter como primeiro e último objectivo SERVIR a Pátria e, em particular, permitir a valorização dos mais desfavorecidos.

E para esta valorização ser possível, teremos de repensar todo o nosso sistema educativo, do pré-primário ao superior, adaptando os cursos às necessidades profissionais actuais e futuras e criando – com suporte da rede de ensino privado e cooperativo – condições às famílias com menos recursos para poderem escolher os estabelecimentos que gostariam que os seus filhos frequentassem, sem que tal venha a implicar aumento de encargos para o Estado.

Tenho visitado muitas escolas onde me explicam que os programas são desajustados às realidades actuais e às saídas profissionais, e particularmente aos jovens com problemas de adaptação. O “ Cheque Ensino” seria uma solução para estes problemas, permitindo às famílias escolher a oferta escolar mais adaptada às necessidades dos seus filhos, evitando a discriminação económica actual e promovendo a qualidade do ensino através de uma saudável concorrência…

Só desta forma conseguiremos melhorar efectivamente o nível médio cultural, académico e profissional da população com vista ao progressivo desenvolvimento e engrandecimento do País e não com fim exclusivamente estatístico.

Na sua longa História, Portugal foi grande quando se lhe depararam desafios que envolveram projectos galvanizadores de verdadeira dimensão nacional. Nessas alturas, os portugueses sempre souberam responder com criatividade, entusiasmo e coragem.

Hoje, é no Mar e na Lusofonia que a nossa atenção deve ser focada como áreas de eleição para realizar um projecto de futuro para o País e para a Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa. Afinal, são estas duas vertentes que, desde o início da Expansão Marítima Portuguesa, com períodos de maior ou menor brilho, maior ou menor envolvimento, têm vindo a constituir o nosso Desígnio.

O prestigiado Jean Ziegler, meu professor em Genebra, ensinava que existem dois caminhos para desenvolver os povos. O primeiro começava pela educação profissional, académica e ética da população , que iria desenvolver o país e conduzi-lo ao enriquecimento. O segundo caminho consistia em injectar dinheiro estrangeiro na economia. Os governantes criariam grandes infra-estruturas, enriquecendo-se alguns deles no processo, e a população compraria bens de consumo importados, enriquecendo o comércio. Mas no fim, essa nação estaria endividada e a classe média empobrecida porque as capacidades de produção teriam diminuído.
Infelizmente é esta a nossa realidade recente.

Deixo para os especialistas apontarem os factores da crise que nos fustiga, fazerem os diagnósticos acertados, apontarem as vias de solução. Mas não posso deixar de dizer que é urgente arrepiarmos o caminho que nos trouxe à gravíssima crise económica e financeira que atravessamos, como venho denunciando desde há anos.

Foi justamente neste sentido que, este ano, pela segunda vez, promovi, no âmbito da Comissão D. Carlos 100 Anos, a organização do Congresso “Mares da Lusofonia”que permitiu uma participada reflexão, com representantes de todos os Países da CPLP presentes, acerca da valia dos mares e das Plataformas Continentais dos países lusófonos nas vertentes estratégica, de segurança, jurídica, ambiental, científica, tecnológica e económica.

A intensificação do intercâmbio de conhecimentos da sociedade civil e o fortalecimento das relações afectivas entre os nossos países contribuirá decisivamente para a supressão das barreiras que ainda existem.

Recentemente visitei o Brasil, pátria de minha Mãe, onde, em Brasília, tive a feliz oportunidade de contactar alguns membros do seu Governo.

Transmiti os meus sinceros votos de sucesso à recém-eleita Presidente Dilma Russef .

Percebi que lá existe uma grande abertura à ideia de uma futura Confederação de Estados Lusófonos, que muito beneficiaria todos os seus membros e cuja adesão não comprometeria as alianças regionais existentes. O facto do Reino Unido pertencer à Commonwealth não prejudica a sua participação na União Europeia mas valoriza-a.

Ainda sobre a importância da afectividade que naturalmente se cultiva na Comunidade Lusófona, virá a propósito salientar a decisão do Governo de Timor – país a que me ligam relações de profunda amizade – quando, à semanas, declarou o seu auxílio a Portugal na compra de parte da nossa dívida pública, num gesto de fraternal amizade. Do mesmo modo, tenho indicações de que muito nos beneficiaria negociar com o Brasil um empréstimo para resolver a crise da dívida pública soberana em melhores condições do que com o FMI ou a Europa.
Para concluir, gostaria de transmitir a todos os portugueses uma mensagem de ânimo:
Não vos deixeis abater pela situação de dificuldade económica e crise moral que actualmente nos invade.

Lembrai-vos que tivemos momentos bem mais graves na nossa História em que a perenidade da Instituição Real foi suporte decisivo para a recuperação conseguida.

A dinastia, baseada na família, oferece o referencial de continuidade de que Portugal está carente há cem anos.
Viva Portugal!

quinta-feira, novembro 25, 2010

Pátria e partidarite

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

Venho dum tempo e duma gente que tinha por divisa esta norma: Mãe é Mãe, Bandeira é Bandeira, Hino é Hino. Com esta postura queríamos significar que a Pátria não se discutia nem se atirava para o último lugar das nossas preocupações. Sobre isto ficámos democratas antes do 25 de Abril de 1974 e encarámos os partidos como agrupamentos ideológicos em que nunca nos seria pedido, muito menos exigido, que Portugal devesse ser sacrificado aos interesses mais ou menos bastardos da política. A referência do que nunca devia ser feito ou aceite era o que se tinha passado na 1ª República, essa cujos 100 anos a RTP festeja com apontamentos vários e extremamente úteis a quem não queira perder a memória nem a vergonha. Para nós, era ponto assente que nunca mais se devia repetir essa lição de crime, intolerância e estupidez.
Não nos enganámos quanto aos valores em que fomos criados, mas enganámo-nos redondamente quanto à não repetição. A República que se lhe seguiu cometeu a pouca inteligência de manter uma ditadura intolerante, que ia do Minho a Timor, com os resultados sangrentos que todos conhecemos. A chamada direita foi esse abcesso, enquanto a chamada esquerda se ia anquilosando passivamente. Abertura de espírito, nenhuma.
A ditadura caíu de pôdre sem que alguém arriscasse sequer uma unha por ela, ao fim de quase 50 anos de atraso e mau passadio que engrossou a emigração. Tomou o poder uma Junta Militar que entronizou como presidente da República o general Spínola, um homem da direita, que combateu ao lado de Franco e de Hitler. E aconteceu uma coisa que trouxe grandes custos internacionais contra Portugal: sendo o país um dos membros fundadores da NATO, havendo mesmo um comando desta em Oeiras, Spínola meteu Álvaro Cunhal no governo, quando a simples legalização do Partido Comunista chegava e sobrava. Foi aconselhado nesse sentido por dois conselheiros de estado: Isabel de Magalhães Colaço e Diogo Freitas do Amaral, co-fundador do CDS e seu presidente durante uns anos. Atónitos, os governos dos países ocidentais tomaram distâncias e reservas. Esta decisão da direita abriu as portas todas ao Partido Comunista, que logo passou a receber 10 milhões de dólares por mês da União Soviética e assim ficou habilitado a fazer todas as tropelias e crimes, devidamente acolitado por grupelhos da extrema esquerda e uns satélites, verdes e maduros. Foi tão grave que, em muitos aspectos e passado tanto tempo, o país ainda não se recompôs. Todos pensaram nos seus interesses partidários, nenhum pensou em Portugal.
Recentemente, Portugal foi escolhido para uma cimeira histórica da NATO, que teve repercussão mundial e uma cobertura mediática impressionante. Todos os estrangeiros passaram a saber onde é Portugal e ficaram com as imagens de Lisboa na memória. Os dirigentes dos 43 países presentes foram unânimes em elogiar a boa organização e o bom acolhimento. Os portugueses, residentes em Portugal e no estrangeiro, tiveram motivo de satisfação. Mas não todos. De novo a extrema esquerda e a falsa direita que por aí andam a comer à mesa do orçamento, romperam em insultos, em insinuações, em manifes de mau gosto, em silêncios de muito despeito. Quando era preciso dar ao estrangeiro uma imagem de unidade em torno da Pátria que sofre agonias, causadas por TODOS, deu este triste espectáculo.
Parece que tinha razão o meu colega Boavida Portugal quando, lá pelos idos de 1976, em comentário a um desabafo que escrevi por causa do mau comportamento da direita, ele me enviou um cartão que assim dizia: “A direita portuguesa é como a massa dos padeiros: só a murro”.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Alocução de Dom Duarte de Bragança em 5 de Outubro 2010

Portugueses:

5 de Outubro de 1143 é uma data fundadora para Portugal. Durante quase 800 anos a vontade e a determinação do povo, firmemente ancoradas na vontade e determinação dos seus Reis, conduziram os destinos desta comunidade de sonhos, a que chamamos pátria.

Mas 5 de Outubro, agora de 1910, é também a data em que a invasão mental estrangeira ocupou Portugal.
Hoje, como sempre, falarei para todos, sem acepção ou excepção alguma.Mas hoje, como nunca, serei a voz de todos pela boca de alguns.Nenhuma das palavras que Vos irei ler me pertence, porque todas já eram pertença de todos depois de escritas por alguns de Vós. Irei ler-Vos excertos de alguns dos nossos maiores escritores. Evocando Portugal, ou retratando a república. As suas assinaturas declaram os nomes de Camões, Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida, Eça de Queiroz, Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Pe. António Vieira.Por isso em nome de todos a estes as agradeço.

Portentosas foram antigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com que descobristes novos mares e novas terras, e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Esta história era o silêncio de todas as histórias. Os inimigos liam nela suas ruínas, os émulos suas invejas e só Portugal suas glórias. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do género humano e ao particular de todos os homens, e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência, engenho e juízo eminentes, como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos; porque não será igualmente útil e proveitosa, e ainda com vantagem, esta nossa História do Futuro, quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos homens a esperança das cousas próprias, que a memória das alheias? (Padre António Vieira)

O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como partido republicano, lhe cumpriria reclamar, já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. (Eça de Queiroz)

A república francesa que implantaram em Portugal, sem nenhuns pontos de contacto com quanto em nós seja português. Nenhuma reacção do espírito progressivo a instaurou; foi um fenómeno da nossa decadência, da nossa desnacionalização. (Fernando Pessoa)

No dia 5 de Outubro, em Portugal, não havia despotismo, não havia opressão e não havia fome. Os princípios proclamados à custa de tanto sangue pela Revolução Francesa, há mais de um século, ninguém precisava de os tornar a proclamar na Avenida agora, precisamente no período histórico em que quase todos esses princípios se acham refutados pela crítica experimental e científica do nosso tempo. Os famosos princípios da Revolução Francesa, leit-motiv de toda a cantata revolucionária de [5 de] Outubro último, são, precisamente, os que vigoram em toda a política portuguesa, desde o advento da revolução liberal de 1834 até nossos dias. (Ramalho Ortigão)

Os novos revolucionários de 1910, com excepção honrosa dos que não sabem ler, não tiveram por decuriões senão os seus predecessores revolucionários liberais de 34. E daí para trás — o que quer dizer daí para cima — nunca abriram um livro. Tal a razão porque os raros homens de letras, que a nossa República conseguiu mobilizar, dia a dia se desagregam da hoste refugiando-se no anacoretismo filosófico, enojados da crassa ignorância dos sarrafaçais a que o regime os emparelhou. (Ramalho Ortigão)

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. (Fernando Pessoa)

Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos – de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regímen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República. (Fernando Pessoa)

Este regímen é uma conspurcação espiritual. Os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. (Fernando Pessoa)

Desde a proclamação da República que em Lisboa se não faz outra coisa se não pedir. (Fialho de Almeida)

É certo que nunca as classes dirigentes se divertiram tanto em excursões de recreio, nem se banquetearam tão repetidamente, como hoje em dia. Na casa, porém, de cada cidadão, nem o imposto diminuiu nem o passadio embarateceu.Enquanto à prometida barateza a que seriam reduzidos os víveres, ao proporcional aumento a que seriam elevados os salários, ao desenvolvimento que teria o ensino e à perfeição que atingiria a disciplina da sociedade, uma vez sacudido da cerviz do povo o inconfortável jugo ominoso do regime extinto, observa-se que nunca se comeu mais caro, nunca foi mais numerosa a legião dos operários sem trabalho, nunca […] tantas propriedades foram impunemente assaltadas e destruídas como agora as redacções e as tipografias de cinco jornais. A República Portuguesa continua dando ao mundo o mais espantoso e inacreditável espectáculo: – existe! (Ramalho Ortigão)

O predomínio incondicional exercido pelas sociedades secretas em quase todos os actos do governo, como por exemplo na escolha das cores da bandeira, deposição de funcionários antigos e com direitos adquiridos, e imposição d’outros sem mais competência do que as suas cumplicidades carbonárias; Corre que outras medidas de violência serão tomadas no sentido de desarmarem pelo terror as inumeráveis massas de cidadãos que não aderiram à República. (Fialho de Almeida)

Um país não pode ficar assim toda a vida, num pátio de comédia.Quebrámos estouvadamente o fio da nossa missão histórica. Desmoralizámo-nos, enxovalhámo-nos, desaportuguesámo-nos. (Ramalho Ortigão)

Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado, no presente e no futuro, no passado o verá vencido, no presente ressuscitado e no futuro glorioso; e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar os favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira, fazendo-o, na segunda restituindo-o, na terceira, sublimando-o. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do género humano e ao particular de todos os homens, e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência, engenho e juízo eminentes, como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos; porque não será igualmente útil e proveitosa, e ainda com vantagem, esta nossa História do Futuro, quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos homens a esperança das cousas próprias, que a memória das alheias? Têm na memória que também antigamente pagavam, e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade; sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua, e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça, para o prémio do serviço, para o remédio da opressão, para o alívio da queixa; rei que os vê e se deixa ver; que os ouve e lhes responde; que os entende e o entendem; que os conhece e lhes sabe o nome. (Padre António Vieira)

Dispensem todas as teorias passadistas! Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos! Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!

Viva Portugal!

sexta-feira, setembro 24, 2010

A propósito

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

O Dr. João Granada é um mãos largas de generosidade que me estraga com atenções, como posso ver pelo último artigo da série O FOLHA DE COUVE que o Templário publicou. Aludia ele a um tempo conturbado em que, nos cafés de Lisboa, se dizia que havia em Portugal quatro homens de saias: a Vera Lagoa, a Natália Correia, a Fernanda Leitão e o Bispo do Porto (que era, então, D. António Ferreira Gomes, o prelado que ganhou o exílio e ficou para a História com uma carta a Salazar em que, pelo claro, demonstrou que o regime nada tinha de cristão e, assim, foi referência e alento para os cristãos que viviam a incomodidade de certos silêncios que Deus julgará). Por mim, assumo o pouco que fiz e valho. Sempre assumi como passo a relatar.
Em 1975 apareceram-me os velhos capitães Carlos Vilhena e Sarmento Pimentel, este ido do Brasil, a convidarem-me para um banquete da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem. Tentei esgueirar-me, mas eles não me deram folga: ou ia ou ficavam de mal comigo. Ora eu já andava de mal com uns quantos capitães tresnoitados e parvos, não era de ficar a mal com aqueles dois velhinhos idealistas. Lá fui. O jantar foi em Alcântara. Nesse tempo a esquerda caviar fazia questão de aparecer nos sítios badalados de sapatilhas, fralda de fora e jeans rotos, creio que para parecer proletas. Eu desaguei lá toda nos trinques, como se fosse para São Carlos, que era a minha maneira de dizer, sem palavras, que não tinha nada a ver com aquela filarmónica. A receber os convidados estava um cavoberdeano da troupe do Palma Inácio, um que eu conhecia doutros carnavais, e fui direita ao assunto: “Põe-me aí numa mesa com gente de longe, que eu não conheça, porque eu vim só jantar, não vim para me chatiar”. Lá me levou. Pelo caminho pude perceber que aquele jantar parecia uma assembleia geral do PS e da maçonaria, eram só rosas e aventais por todo o lado. Mas todos muito risonhos e cumprimentadeiros. Menos Emídio Guerreiro e José Augusto Seabra, que me olharam de má sombra, e com toda a razão, porque pouco tempo antes eu tinha-lhes pregado uma partida medonha, mas isto conto doutra vez. Fica prometido.
Enfim, cheguei a uma mesa de gente do Alto Minho. Naturalmente, cumprimentei e apresentei-me. De recochete veio a exclamação de uma senhora avantajada e bem servida de idade: “Ah! É tão pequena!”. Por esse tempo, alem de não ter muita altura, eu era magríssima, de modo que respondi em jeito de Egas Moniz com o baraço ao pescoço: “Tem toda a razão, minha senhora, eu não tenho físico para uma gripe a sério quanto mais para escrever o que escrevo”. Acabámos todos a rir que é sempre o melhor remédio.
À saída, Salgado Zenha quis dar-me um abraço, não sei porquê deu-lhe para simpatizar comigo. E caímos os dois na risada, como quando nos encontrávamos, uma vez por ano, na festa de aniversário de casamento da Madalena e do Luís Maia Loureiro, que era a 1 de Dezembro por eles serem talassas.
Em suma, eu não me levo a sério porque sou uma bem pequena pessoa. O João Granada é um exagerado. Como exagerados são os da rapaziada do meu tempo de colégio, que eu guardei para toda a vida, esses de quem a minha amiga Marta Lima Basto dizia que eram “a máfia do Colégio de Tomar”. Porque, dizia ela, alem de estarmos em todo o lado, havia entre nós um não sei quê de cumplicidade. Bendita máfia...

terça-feira, agosto 24, 2010

É de cabo

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

Primeiro foi a lei das uniões de facto. O venerando devolveu a peça ao parlamento por lhe achar defeito num articulado menor. O parlamento, entediado e sonolento, informou que ia estudar o caso. Muitos católicos rejubilaram, esperançados que o venerando afinal tinha pulso firme e sabia o que queria.

Depois foi a lei do casamento homossexual. O venerando caíu num completo mutismo. Diziam alguns que era silêncio de mau agoiro, mas muitos católicos davam largas à esperança ao verem como o venerando quase beijava o caminho por onde pisava o Papa que não esconde como é irredutível em relação ao casamento homossexual, às uniões de facto, ao aborto, ao preservativo, aos métodos anticoncepcionais.

Regressado o Papa ao Vaticano, o venerando, no desembaraço lampeiro do que popularmente se designa por patrão fora dia santo na loja, promulgou a lei do casamento homossexual. Mas fê-lo de forma a ficar bem no retrato, julgando assim agradar a todos: no final do documento esclareceu, pelo seu punho, que dava o acordo sem concordar. Ficasse bem claro: ele não concordava, mas assinava concordando. Muitos católicos ficaram zangados.

Depois de bastante tagarelar e dormitar, o parlamento devolveu a lei das uniões de facto tendo diluído o tal articulado de menor importância de que o venerando não gostava. O venerando, um ser virtuoso que não tem dúvidas e nunca se engana, promulgou a lei. Mas deixou bem claro, no final do texto, que assinava concordando sem concordar. E ficou contente ao julgar que, mais uma vez, ficava de bem com todos.

É de cabo. De cabo Elísio, personagem de uma revista muito antiga, no Parque Mayer, de que os da minha geração ouviram contar aos mais velhos. O cabo Elísio da revista ficou célebre porque dizia sem se rir: "eu não queria fazer mas fízio, e fízio logicamente falando."

Muitos católicos estão zangados. Não vale a pena levarem esta novela a sério. Candidatos a presidentes há muitos. Escolham outro. Mais enganados não podem ser.

terça-feira, agosto 03, 2010

Querido pastel de nata

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Pois bem, confesso: tenho um declarado (e descarado) fraco pelo pastel de nata, desde de que me conheço por gente.
Anos a fio, o meu pequeno almoço em Lisboa foi uma bica e um pastel de nata. A Belmira do pequeno café de esquina, no Bairro Alto, mal me via surgir na rua, olho aberto, olho fechado, punha logo em cima do balcão o pastel de nata ainda quentinho e uma bica a escaldar. Eu acordava e punha-me de bem com o mundo. E subia ligeira aquele pedacinho da Rua do Século que, raspando a porta do SNOB , praça forte de muitos jornalistas, ia desembocar no Príncipe Real. Atravessava a mítica praça onde o coração de uma avó minha parou de repente e onde, muito de manhãzinha, o Prof. Agostinho da Silva ia dar de comer aos pombos e uns dedos de conversa aos operários e varinas que começavam a faina diária. Uma vez ou outra encontrava a minha colega Maria Antónia Palla que levava pela mão o filho à escola, um rapazinho de óculos e calções que hoje é presidente da Câmara de Lisboa.
Ao fim da tarde, como quem cumpre uma promessa, desaguava no Rossio, subia a Rua do Carmo, comia regalada um pastel de nata ao balcão da mercearia Martins & Costa que o incêndio levou, subia a Rua Garrett, metia o nariz na Bertrand, atravessava a rua e parava na livraria Sá da Costa, à porta da qual se encostava o grupo de boémios capitaneado pelo cartoonist José de Lemos, do Diário Popular, e seguia para a bica na Brasileira, naquela mesa onde brilhava Tomaz de Figueiredo, Abel Manta e Jorge Barradas, às vezes visitada por Almada Negreiros e José Régio, apimentada por Jacob Levy, o banqueiro que foi um dos patrões de Fernando Pessoa, e por dois médicos judeus que nos contavam histórias de morrer a rir, o Benoliel e o Ruha. Depois de farta cavaqueira, subia com vários deles para outro lugar mítico, o restaurante Rina, no coração do Bairro Alto. E aí, entre gente dos jornais, da rádio, da TV, do fado, do teatro, das letras e da noite, jantava-se e estava-se até às tantas. Quantas vezes eu não pedia pastel de nata para sobremesa! Bons tempos em que, pele e osso, cheia de saúde, eu não tinha de me escravizar a dietas...
Quando tive de me expatriar, há 27 anos, Toronto tinha muito poucas esplanadas e nenhum café com bica à maneira quanto mais pastel de nata. O que isso me custou! Mas poucos anos depois houve uma viragem e hoje temos vários cafés e pastelarias portuguesas, com toda a nossa esplêndida doçaria . Deus seja louvado! E já o castiço Saint Lawrence Market, considerado um dos dez mais bonitos do mundo, vende pastéis de nata em três bancadas: uma portuguesa, do meu amigo Eugénio de Viana do Castelo, outra de gregos e uma de gente do leste da Europa. Vendem-se todos, todos os dias. Caíram no goto aos canadianos.
E porque eu recebo sempre mais do que mereço, eis que me vêm notícias da Expo de Xangai: os pastéis de nata venderam-se por largas dezenas de milhar e fizeram furor entre os chineses.
Meu querido pastel de nata, tão loiro, tão bronzeado, tão tímido e pequeno, és o melhor embaixador de Portugal. Bem dizia o Prof. Agostinho da Silva, visionário da Pátria a vir, quando aconselhava a que nos deixássemos de missões comerciais caríssimas e abríssemos tasquinhas pelo mundo fora, à conquista do mundo pelo paladar. O tempo veio a demonstrar que, por esse processo, é tiro e queda.