terça-feira, outubro 06, 2009

A República morre pela traição burguesa


A Traição burguesa no caminho da história

Francisco Rolão Preto


O primeiro espírito de traição burguesa sopra bem longe nos confins dos tempos quando a civilização humana que nascera nos Deltas fecundos e crescera no embalar das águas genésicas dos grandes rios, ensaiava os primeiros passos na terra sagrada do Egipto.
Bubastes, Hermopólis, Atríbis, Busíris, Letopólis... Viram bem cedo surgir dentro dos seus muros, e como um bolor alastrar e corromper a consciência virginal dos homens, o espírito do mal burguês, que se alimentava do suor e do sangue de quantos subiram o Nilo até aos confins da Núbia, à procura do marfim, do ébano e do oiro para logradoiro da ganância alheia.
Cedo também é esse sopro maléfico que segreda aos sacerdotes de Osíris ou de Ámon as solicitações de riqueza, tornando uma classe que era poderoso motor vital do país no entrave permanente a todos os grandes esforços que procuram assegurar ao Egipto a sua marcha na História.
E assim dos Faraós das velhas dinastias aos Thotomés e Ramsés do Egipto restaurado, bem como à Era dos Ptolomeus, um longo rasto de lutas, intrigas, pactos com o invasor, assinala a acção dessa classe sacerdotal que um impulso de ambição sem limites conduz, até mesmo nos lances cruciais da vida do povo egípcio. Por ser este o mais poderoso índice da traição do espírito burguês naquele tempo, não era porém a única. A burguesia capitalista propriamente dita, enriquecida pelo comércio marítimo, logo se mostra e mantém oligarquia opressora, especuladora e avara, que em todas as crises graves ajuda a escravizar o país, feudalizando-o e atraiçoando-o tanto como o clero.
É aqui, neste «clima» do Egipto, que os judeus de Jacó se contaminam da ganância burguesa, demudando-se este povo primitivo de pastores de gado, de que fala a Bíblia, em mercadores de tal maneira especuladores que se tornam um quisto para o País, obrigando o Faraó a persegui-los.
Assim soprava o espírito burguês no Egipto.
Mas, já então, na Grécia, essa terra singular onde a consciência humana floresceu nos prodígios de uma revelação nunca mais excedida em claridade e graça - na Grécia onde a sabedoria de Sólon e o génio de Péricles ordenavam instituições, onde Aristóteles e Platão disciplinavam os sentimentos - onde Demóstenes descobria o génio alado das palavras e Fídias descortinava a beleza mística das formas - já então, nessa divina Grécia, como num belo fruto, a traição do bicho que a mina e decompõe - o mal burguês - mesquinhez, susceptibilidade, visão rasteira, inveja, dispersão e ganância - corroía e envenenava os destinos gregos.
Toda a história da Grécia é o testemunho dessa traição que incessantemente renova ou promove rivalidades fatais entre cidades e ligas, numa persistência alucinante e mesmo diante da ameaça bárbara da Ásia ou da Macedónia.
Hípias, ateniense, alia-se com Dario contra Atenas; Demarate, espartano, faz o mesmo contra Esparta; a cidade de Corinto joga na perda de Mileto, como Argos joga na perda de Esparta e Egino na perda de Atenas... O mesmo sucede quando é Filipe quem se propõe dominar o mundo grego. Com efeito, nas cidades gregas divididas, o partido do oiro favorece decididamente o invasor e a Macedónia, apesar de Demóstenes, triunfa.
A traição burguesa está no fundo de todos os desastres do mundo grego, porque é bem o seu espírito que governa as cidades, dita os costumes e orienta os destinos... É ela, evidentemente, quem desvia Atenas de realizar a sua vocação helénica, pela visão de estreito exclusivismo que sempre dominou a cidade perante os povos que de fora a cobiçam, quando os não tinha em suas mãos por lei da guerra. Jamais, nem mesmo com Demóstenes, ela consegue ultrapassar o estreito horizonte do seu ideal de cidade livre, cidade insolidária com os destinos do mundo que a rodeava, cabeça hegemónica e beneficiária, porventura, em qualquer liga efémera das cidades, mas não cidade-mãe, centro-motor de energias imperiais, mão benéfica dispensadora da equidade para quantos topava em seu caminho. Pelo contrário, sempre a dominou o critério de uma motora de negócios ou pertinaz exploradora de indústrias, para quem o verdadeiro mundo era o circuito estreito do seu burgo e para quem os outros homens só em verdade podiam interessar como tristes e míseros escravos.
E é assim que a Liga Achaia condena Cleómene e esmaga a revolução que visava abater o capitalismo; é assim que Agis paga com a vida a sua ousadia de ter abolido as dívidas...
Gente ciosa das suas regalias de cidadãos e capaz de aplaudir Sófocles, mas incapaz de outorgar essas regalias seja a quem for. Anaxágoras não hesita em condenar e fazer beber cicuta a Sócrates...
Um pensamento, porventura, dentre o pensamento grego, pôde exprimir o conceito de vida burguesa daquele tempo e de todos os tempos: é o pensamento de Epicuro.
Epicuro é a expressão suprema da moral burguesa, materialista e egocêntrica; é fundamentada no desejo de encontrar a felicidade - doa a quem doer - dentro dos limites rasteiros e moderados em que não surgem duras contrariedades, e refractária por isso a grandes voos sobre largos horizontes, onde esbarra com a «sabedoria» e a «prudência» do seu próprio egoísmo.
Não está aqui pintada toda a paisagem moral de uma traição que sacrifica à sua «virtude» toda a grandeza do Homem, toda a grandeza da Comunidade, toda a grandeza do vasto Mundo Humano?
Ao contrário da Grécia, Roma nasce, cresce e caminha sob o signo da «terra» - todas as virtudes próprias da aristocracia, das classes médias e da plebe são temperadas no apelo da gleba...
A vocação de Roma é pois, em primeiro lugar, a Conquista, a extensão territorial, a base forte assente na «terra» forte; depois, o mar, como segurança ainda da terra; e só por último o mar como meio de expansão comercial e hegemonia imperial.
Enquanto na Grécia, a não ser Esparta, todas as cidades nasceram ribeirinhas ao mar, e para o mar naturalmente voltadas no seu sonho de expressão mercantil, Roma alicerça-se no interior, no alto de sete colinas, não tem porto natural, e traduz a intenção de uma associação de interesses e aspirações rurais que só na terra apoiavam o seu destino.
Nascidas sob signos tão diversos, bem diverso teria de ser o sentido da sua vocação histórica. A Grécia, encontrando no desenvolvimento da sua evolução económica as reacções da sua evolução social e política, mostra-se naturalmente mercantil e dispersa, sob o comando de uma burguesia rica e gananciosa. Roma, mesmo quando se desenvolve a ponto de abraçar todo o Mediterrâneo, mantém uma convergência, se não uma unidade essencial, o que é o sinal de um limite imposto às ambições, dispersivas e sem tino, de quantos não conseguem antepor o interesse geral ao interesse de cada um.
E, no entanto, Roma bem depressa significa o triunfo das classes médias, o habeas corpus, o direito e a liberdade dos cidadãos, alargando-se a todos e estendia a sua conquista do mundo.
Roma, república popular, suprime a servidão por dívidas, vence a aristocracia, estabelece a igualdade jurídica, organiza um exército de cidadãos. Roma é o primeiro império em que o povo toma consciência de si mesmo.
Democracia e meia fortuna tornam-se sinónimos; os muito ricos perdem pouco a pouco a sua influência política.
Eis, porém, que a Nobreza solicita e obtém o apoio da Burguesia contra as pressões do Povo. Esta primeira traição vai alterar, para todo o sempre, a evolução das instituições romanas.
Pouco a pouco a burguesia passa a ter características capitalistas; e o Senado, dominado por uma oligarquia, sobretudo depois de Canas e das guerras púnicas, seduz em seu proveito a influência do Povo. Roma é já então um centro poderoso de especulação comercial. A traição burguesa surge assim na febre com que a pequena e média fortuna rural trocam o brasão do seu ruralismo pela ganância cómoda das «acções» e do jogo da bolsa.
A República, exactamente porque liberal e universalista, menos armada estava então para se defender da traição capitalista, que não só absorveu rapidamente toda a fortuna romana e imperial, mas também depressa começou a dominar as próprias instituições, servindo-se delas como instrumento dos seus desígnios.
Como sempre, o capitalismo já então se serviu do seu melhor instrumento, que é a guerra, para realizar esses fins. A guerra, com todo o cortejo de especulações na sua preparação, de especulações nos serviços que a mantinham e de especulações nos lucros que ela comportava em escravos e espólio de vencidos - tal foi na verdade o signo sob o qual a sociedade capitalista romana lançou a república pelo caminho de novos destinos.
Ficou célebre a resposta de Catão ao Senado: a guerra pagará a guerra.
Agora Roma, sob a tutela e impulso da oligarquia financeira que a subjuga em absoluto, não é mais do que um povo de rapina sem quaisquer escrúpulos, afogando no sangue a Sardenha, a Macedónia, a Ilíria, para que não surgisse estorvo à plena posse das minas, do comércio e de toda a riqueza que suscitasse cobiças. Da Grécia, onde Perseu sai imolado à febre capitalista romana, até ao Egipto, a Loba austera e generosa passa a hiena insociável, por dura.
Entretanto, o mesmo clima do brutal domínio da Riqueza inspira e orienta as instituições de Roma. As classes médias liquidam totalmente, as massas rurais são contidas e impossibilitadas de obter a terra, que o seu suor fecundava. A tirania do capitalismo por toda a parte as vai esmagando...
A guerra civil e a revolta dos escravos surgem, então, como um aviso.
Caius Grachus é o primeiro tribuno que cai vítima da traição burguesa - assassinado por querer fazer triunfar a justiça.
Drusus, que tenta imitá-lo, tem a mesma sorte.
Mário encabeça a reacção popular, um momento vitoriosa; mas Sila, salvador da ordem burguesa, elaborando fria e inabalavelmente listas de condenados no próprio banquete do triunfo, chega por seu turno, para logo um dia desaparecer no mistério de uma abdicação que parece um remorso.
Espártaco ergue a bandeira dos escravos, outra vez revoltados e outra vez esmagados pela burguesia capitalista, que em Crassus, o riquíssimo Crassus, encontra o algoz que, para salvar os seus privilégios, deixa na História um largo rasto de sangue.
Eis os massacres da Sicília, os massacres de Mário, os massacres de Sila...
O sangue que corre durante o triunvirato é o que sela as lutas do Senado com os Césares. Eis o sangue que rompe do peito de César pela mão assassina de Bruto - desse Bruto que a história burguesa nos pinta como um austero salvador da República, aquele que brande o punhal em nome das liberdades espezinhadas pelo tirano, e que afinal não passa de um mandatário da burguesia capitalista, de um usurário de Salamina, de um defensor das regalias burguesas, a quem o poder de César limitava a extensão gananciosa.
Assim, o povo romano acaba por se divorciar das instituições republicanas, que as traições da burguesia converteram em instrumento de uma oligarquia capitalista e cosmopolita que o oprime e apela para a autoridade libertadora dos Césares, apoio das suas reivindicações sociais e políticas, restituidores das terras e da liberdade perdida.
A República morre pela traição burguesa.
Mas pela traição burguesa mostra-se logo contaminado o próprio Império. Debalde a voz eloquente de Cícero se ergue num protesto de inteligência e de humanismo, desenhando o perfil austero e sereno da República «guardiã de lei, mãe generosa, de universal grandeza e universal justiça... Edifício perfeito e forte construído pela clara metafísica para escalada segura do Direito das Gentes». Ninguém o escuta. A batalha dos interesses sem limites, de especulação sem freio, não tarda em reacender-se. Indiferente a Cícero, ignorando Lucrécio, numa luta sem tréguas, outro aspecto de traição surgiu, ameaça bem evidente para a própria integridade de Roma. A especulação capitalista, dividindo-se em duas correntes, a Continental e a Oriental, foi o ponto de partida da divisão futura do Império.
A traição capitalista não dá entretanto descanso aos Césares e assim, apesar de todos os massacres de Tibério, é ela que assassina Calígula e é ela quem se apodera definitivamente de toda a riqueza do Império: toda a indústria e toda a terra.
E assim, falhada a última tentativa de equilíbrio de forças entre os Imperadores e a oligarquia burguesa, falhada a tentativa de Séneca, a Roma só restaram dois caminhos: a tirania asfixiante do capitalismo ou a tirania dura do Cesarismo.
Por vezes César não foi mais do que um mandatário da tirania burguesa, um aventureiro que a sorte escolheu no jogo das aventuras militares que retalhavam o Império; outras, César foi o aristocrata implacável, que apoiava no povo, e só no povo, o seu domínio. De ditadura em ditadura, de reacção em reacção, o Estatismo tornou-se de cada vez mais um imperativo dos tempos, dominando tudo, intervindo em toda a parte, esmagando as últimas liberdades, vencendo as derradeiras resistências da plebe romana.
Por fim, a última traição da burguesia, foi a traição da sua cumplicidade com os invasores, os Bárbaros, o último recurso contra César. E os Bárbaros destruindo o Templo, não pouparam quem lhes ficou sepultado debaixo das ruínas trágicas.

(In A Traição Burguesa, Lisboa, 1945; Capítulo I)



quarta-feira, setembro 30, 2009

Os ajustes directos da "República"


Há um site que divulga os ajustes directos feitos por organismos públicos e que são de difícil acesso. A Comissão para o Centenário já anda a fazer os seus ajustes directos. Os valores apresentados parecem estar completamente fora do mercado, nomeadamente no que diz respeito as páginas net, papel de carta, etc ...  
Assim vai a "República". Mas, não seria melhor que esse dinheiro (10 Milhões de Euros ! ) fosse gasto em obras de caridade e solidariedade ? 


http://transparencia-pt.org/?search_str=nif:901775797


terça-feira, setembro 29, 2009

A segunda morte política de Cavaco Silva






Cavaco Silva é um homem honesto que acredita profundamente no que diz e no que faz. E é por isso que dói ainda mais assistir a esta sua segunda morte política. Há quem o compare a Craveiro Lopes. É obviamente um insulto: Cavaco Silva poderá ter um pouco de pateta, mas não tem soberba nem a mania das grandezas. É um português honrado e simples, como a maioria de nós.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Sinais de Esperança

Na última década, o actual regime parlamentar - por excelência o regime das oligarquias  - tem vindo a apresentar vários sintomas de derrocada.

As eleições legislativas vieram agora confirmar dois importantes sintomas: em primeiro lugar, a subida da abstenção significa que se continua a aprofundar o divórcio entre a Nação e os Partidos e, em segundo lugar, os dois partidos do poder perderam votos, saindo por isso simultaneamente derrotados.

Tanto o voto como o não-voto dos Portugueses revelam todavia que Portugal pode vir ainda a levantar-se.  Em alternativa, é chegado o momento de afirmar a necessidade de um novo regime de governo presidencial, sem o actual monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos e no qual o poder seja devolvido aos cidadãos e aos municípios.

Os crescentes sinais de esgotamento do actual regime partidocrático dão-nos pois razões de Esperança.

Seguem-se os dados objectivos. Tudo o resto é poeira do caminho.


2005

Inscritos - 8.785.621
Votantes - 5.713.554
Brancos - 103.581
Nulos - 63.789

PS - 2.573.869
PPD/PSD - 1.653.261


2009

Inscritos - 9.337.314
Votantes - 5.658.778
Brancos - 98.993
Nulos - 74.274

PS - 2.068.665
PSD - 1.646.197

Dom Duarte no Colégio Militar

quinta-feira, setembro 24, 2009

Declaração de não-voto

As eleições Legislativas têm como objectivo escolher quem vai ocupar as bancadas da Assembleia da República. A preocupação dos eleitores deveria ser assim a de escolher os seus ilustres representantes mas, na prática, o que está agora em causa é escolher quem vai governar Portugal, Ferreira Leite ou Sócrates.

A minha decisão está tomada - não irei votar. Entre Ferreira Leite e Sócrates, venha o diabo e escolha, e, a manter-se este monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos - essas sociedades de angariação de empregos e de irresponsabilidade ilimitada que por aí andam - creio bem que ao cidadão comum, sem filiação partidária, não interessa continuar a votar em eleições Legislativas.

Ao não votar enfraquecemos a "democracia"? Não, a maioria é já hoje constituída pelos não-votantes. A minoria dos votantes vai pois continuar a contribuir para a partilha do poder por umas tantas fracções e a maior de todas elas é quem vai tomar conta do governo. É isto a "Soberania do Povo"? É claro que não. É todavia claro que sim para aquela ínfima parcela de povo filiada no partido que vai deter o governo.

Está instalada a divergência entre a Nação e os Partidos, e creio que é tempo de fazer acentuar conscientemente esta divergência. Uma vez que estamos ainda em regime de soberania de partidos, a divergência entre a Nação e os Partidos tem algumas consequências lógicas: o acrescido papel das minorias activas e das oligarquias que as corrompem.

Se não votarmos, não vai ser ainda mais dramático o espectáculo da corrupção? Sim, é possível, mas essa é de qualquer forma a consequência lógica deste regime de minorias activas e de corrupção, directa ou indirecta. Não é novidade para ninguém, e a participação dos jornais nesta campanha eleitoral tem-no demonstrado bem, que quem manda em Portugal são poderosas oligarquias económicas e financeiras, agora em acesa disputa pelo domínio da imprensa e dos partidos. Uma coisa é no entanto certa: o nosso voto em nada contribuirá para alterar a actual situação e, bem pelo contrário, ajudará a fortalecer o sentimento de impunidade que reina no seio dos partidos.

Perante o espectáculo de infâmia a que é forçado a assistir todos os dias, o cidadão comum está a deixar de correr a foguetes e de ir em cantigas. Ora, creio chegada a hora de levantar mais alto o clamor que vem dizendo "basta!". Se o não fizermos, os poucos homens-bons que ainda existem dentro dos partidos continuarão a alimentar ilusões acerca desta "democracia". E é tempo de os fazer acordar e de os levar a sair dos partidos em torno de um projecto que ponha fim ao monopólio da representação por intermédio de partidos ideológicos.

É tempo de clamar em alta voz por representantes a quem os cidadãos possam exigir individualmente responsabilidades. As comunidades (freguesias e municípios) é que devem ser os esteios da eleição dos representantes do povo, não os partidos ideológicos. É tempo de voltar a lembrar o conselho dado por Alexandre Herculano aos eleitores de Sintra, na seguinte resposta a dar aos políticos dos partidos que lhes pediam o voto:


«Somos uma pobre gente, que apenas conhecemos as nossas necessidades, e queremos por mandatário quem também as conheça e que nelas tenha parte; quem seja verdadeiro intérprete dos nossos desejos, das nossas esperanças, dos nossos agravos. Se os deputados dos outros círculos procederem de uma escolha análoga, entendemos que as opiniões triunfantes no parlamento representarão a satisfação dos desejos, o complemento das esperanças, a reparação dos agravos da verdadeira maioria nacional sem que isto obste a que se atenda aos interesses da minoria, que aí se acharão representados e defendidos como se representa e defende uma causa própria. Na vulgaridade da nossa inteligência, custa-nos a abandonar as superstições de nossos pais: cremos ainda na aritmética, e que o país não é senão a soma das localidades. Homem do absoluto, das vastas concepções, se a vossa abnegação chega ao ponto de solicitar a deputação do campanário, fazei que vos elejam aqueles que vos conhecem de perto, que podem apreciar as vossas virtudes, o vosso carácter. Certamente vós habitais nalguma parte. Se não quereis abater-vos tanto, arredai-vos da sombra do nosso presbitério, que ofusca o brilho do vosso grande nome. Sede, como é razão que sejais, deputado do país. Não temos para vos dar senão um mandato de campanário.»


A resposta dos eleitores aos politicantes dos partidos parece-me que deveria ser esta.


...

Carta aberta aos pais portugueses, por William Coulson


Expresso - 28 Mai 05

WILLIAM Coulson é investigador em Etnopsicologia. Durante 17 anos foi consultor para as questões das Dimensões Humanas do Programa de Educação Médica da Universidade de Georgetown, nos EUA. Com doutoramentos em Filosofia e em Aconselhamento Psicológico, Coulson foi investigador associado de Carl Rogers. Em conjunto escreveram 17 volumes sobre psicologia e educação humanística. Neste artigo, Coulson conta que as suas teorias e de Rogers ganharam adeptos entre os técnicos de educação da SIECUS, um grupo que desenvolve os currículos de educação sexual enviados às delegações nacionais da IPPF (órgão internacional que reúne as associações de planeamento para a família). Coulson dedica hoje o seu tempo a falar a católicos e protestantes sobre os efeitos nefastos das suas teorias. Esteve em Portugal em Novembro, a alertar para os materiais de educação sexual portugueses que diz serem baseados nas filosofias que agora rejeita.

O MEU nome é William Coulson. Doutorei-me em Psicologia e Filosofia e, nos anos 60 e 70, fui colaborador muito próximo de Carl Rogers, o psicólogo americano de fama mundial. É conhecido que nós os dois coordenámos a edição de uma série de 17 livros promovendo uma nova técnica da psicologia chamada «Clarificação de Valores». O nosso objectivo era aumentar o bem-estar e a auto-estima das crianças, mas o que realmente aconteceu foi algo completamente diferente. A dada altura, desenvolvemos um currículo de educação sexual baseado nos jogos de clarificação de valores, o que incluía actividades em que as crianças eram convidadas a falar abertamente sobre sentimentos e desejos de natureza sexual.
Experimentámos esta nova técnica nas escolas dirigidas pela ordem do Imaculado Coração, na Califórnia. No início da experiência, a ordem tinha 58 escolas e 600 freiras. Em 2002, a BBC exibiu um documentário sobre a nossa experiência e o balanço que fazia era este: «O efeito da experiência foi um verdadeiro cataclismo. Em menos de um ano, 300 freiras - metade do convento - pediram ao Vaticano para serem dispensadas dos seus votos e, seis meses depois, o convento fechou as portas. Tudo o que restou foi um pequeno grupo de freiras… que se tornaram lésbicas radicais». Se o efeito sobre adultos é este, qualquer pessoa pode imaginar qual o efeito sobre crianças. Eu poderia dar-lhes muitos dados e contar-lhes muitas histórias. A título de exemplo, conto a história da Carolyn (não é o seu verdadeiro nome), uma aluna que no sexto ano seguiu um programa de clarificação de valores. Carolyn aprendeu a tomar decisões autónomas sobre todo o tipo de coisas, incluindo algumas matérias sobre as quais ela não devia sequer pensar e muito menos ter a possibilidade de experimentar. Tal como os outros alunos dos programas de clarificação de valores, ela aprendeu a fazer escolhas autónomas e sinceras no seu quadro próprio de valores. Como disse um dos seus colegas no funeral, Carolyn acabou por se convencer que só poderia estar segura de que as suas decisões eram autónomas caso fizesse aquilo que os adultos lhe diziam para não fazer. Acabou por achar que o maior prazer da vida era fazer o que as pessoas proíbem. Como resultado disso, num certo dia de Março, saiu da escola num intervalo com um colega e o seu tio passador de droga. Nas margens de um rio, tomou droga, foi violada e depois lançada ao rio. O corpo da criança encantadora e inteligente (ela era a chefe de turma) só apareceu três semanas depois.
Para nós, desde a experiência nas escolas das freiras, era evidente que a nossa técnica psicológica não era boa nem para as crianças nem para os adultos. Ficou claro que tínhamos desenvolvido um instrumento perigoso para a saúde dos jovens, que em vez de os enriquecer os destruía. Essa não era a nossa intenção, mas foi o que aconteceu. Infelizmente, as nossas teorias (ou uma versão delas, ainda mais extrema, promovida por Louis Raths) tornaram-se muito populares entre os técnicos de educação sexual da SIECUS, um grupo americano que desenvolve currículos de educação sexual que depois são espalhados pelo mundo inteiro pelas delegações nacionais de uma organização chamada IPPF.
Em 1983, num dos seus livros, Carl Rogers descreveu as nossas experiências como um «padrão de fracasso». Contudo, depois da sua morte, o editor (que publica livros para professores e alunos de ciências da educação) reeditou o livro removendo todas as referências ao «padrão de fracasso».
Parte deste padrão é o muro de silêncio que se constrói em torno dos seus resultados trágicos. Ainda assim, tanto hoje como então (embora não tão frequentemente quanto deveria), a realidade por vezes vem à tona. Em 1998, o «The New York Times» publicou um artigo intitulado «EUA acordam para uma epidemia de doenças sexuais». Nesse artigo, a dr.ª Judith Wasserheit, especialista em doenças sexualmente transmissíveis (DST) e ex-directora da Divisão de Prevenção de DST do US Center for Disease Control, disse ao «Times» que aquilo que se está a passar nos EUA é um«desastre nacional». Disse ainda que «a maioria dos americanos nem sequer tem consciência de que está perante uma epidemia».
Na realidade,, lentamente vai crescendo a consciência relativamente a esse facto. E talvez, bem mais cedo do que podem pensar, os portugueses descubram que algo de semelhante se está a passar com os seus filhos. Em Novembro de 2004, estive em Portugal a estudar os materiais de educação sexual enviados para as escolas em 2000. Fiquei aterrado. Talvez não haja em todo o mundo um currículo mais influenciado pelas ideias que eu e Carl Rogers testámos nos anos 60. Escrevo, pois, esta carta como um apelo. Eu sei o que vai acontecer às crianças de Portugal caso se apliquem nas escolas actividades baseadas nos jogos de clarificação de valores. Estou certo de que vocês gostam muito dos vossos filhos. Por isso (e se me é permitido falar com emoção): retirem das escolas esse modelo de educação sexual. Amanhã será tarde demais. Eu ajudei a criar o monstro. Por favor, ajudem-me a matá-lo.
Califórnia, 20 de Maio de 2005

quarta-feira, setembro 23, 2009

O Terrorismo e o Conselho de Segurança da ONU

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http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/americas/8271647.stm




Libya's Colonel Gaddafi has called for reform of the UN Security Council, using regional unions to define the number of seats.
Addressing the United Nations, he also said the power of the veto, currently enjoyed by only the permanent members of the five-strong council, should be reviewed.
At the end he spoke about terrorism.

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Misinformed

The new missile defense plans of the United States may still contain a significant threat for Russia.

“In the first phase, to be completed by 2011, we will deploy proven, sea-based SM-3 interceptor missiles - weapons that are growing in capability - in the areas where we see the greatest threat to Europe,” Robert Gates wrote.

“The second phase, which will become operational around 2015, will involve putting upgraded SM-3s on the ground in Southern and Central Europe. All told, every phase of this plan will include scores of SM-3 missiles, as opposed to the old plan of just 10 ground-based interceptors. This will be a far more effective defense should an enemy fire many missiles simultaneously - the kind of attack most likely to occur as Iran continues to build and deploy numerous short- and medium-range weapons,” he continued.

Therefore, the USA will use dozens of SM-3 missiles instead of only ten interceptor missiles that were stipulated in the previous missile defense program. In addition, the radar station, which was supposed to be deployed in the Czech Republic, will be replaced with air-based, sea-based and ground-based detectors.

"The new approach to European missile defense actually provides us with greater flexibility to adapt as new threats develop and old ones recede. Those who say we are scrapping missile defense in Europe are either misinformed or misrepresenting what we are doing,” Robert Gates concluded.

fonte: Novosti / Pravda

terça-feira, setembro 22, 2009

Entrevista a Dom Duarte de Bragança

A Esperança no Cinema Português

Depois da trilogia debruçada sobre os dramas da Guerra Colonial e da série “Até Amanhã, Camaradas”, adaptação da obra que Álvaro Cunhal escreveu sob o pseudónimo de Manuel Tiago, o realizador português Joaquim Leitão regressa, quatro anos passados, às salas de cinema do país.

Num salto do passado à actualidade, “A Esperança Está onde menos se Espera” reflecte uma outra viragem no registo habitual de Joaquim Leitão: com argumento de Manuel Arouca, o mais prolífico argumentista das séries de ficção nacionais aqui em co-autoria com Tino Navarro, o filme une dois contextos sociais e económicos aparentemente opostos estabelecendo os valores como as pontes entre ambos.

Assim, temos a história de Lourenço, um adolescente que vive a vida luxuosa e confortável que o pai - treinador de futebol do momento- , lhe concede, até ao dia em que este, por desalinhar numa manobra menos idónea a que o dono do clube o quer obrigar, se vê desempregado e irremediavelmente “fora de jogo”.

Com a família desagregada, os amigos a leste e as contas, feitas dívidas, a crescer à volta, Lourenço passa do melhor colégio de Sintra para uma escola pública num bairro periférico e mal afamado. Uma mudança que de início rejeita e o faz rejeitar a atitude do pai, mas que aos poucos o desafia a ver a realidade com novos olhos, a testar os seus valores, a aceitar as boas oportunidades que lhe surgem pela frente e, finalmente, a descobrir nos outros, quer os até aqui incógnitos ou negativamente rotulados, como os amigos que vai fazendo, quer o pai que julgava conhecer, qualidades jamais imaginadas.

Decididamente actual, o filme congrega, numa mensagem simples e em simultâneo, a intensidade do drama da crise que muitas famílias vivem no momento e a frescura do optimismo que revela como as tragédias, bem aproveitadas, encerram em si excelentes oportunidades de mudança... para melhor!

Margarida Ataíde

A Esperança no Cinema Português



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1ª República - jornais assaltados e "empastelados"

Jornais Assaltados e “Empastelados”

Os assaltos a jornais constituíram uma novidade introduzida na vida política portuguesa assim que se proclamou a república. Entre Outubro de 1910 e Maio de 1911 foram destruídos todos os sobreviventes da imprensa monárquica. Depois a fúria assaltante dirigiu-se para a imprensa católica. Alguns dos jornais assaltados voltaram a publicar-se e foram de novo assaltados, sofrendo o material tipográfico o “empastelamento”. Este novo conceito que entrou no vocabulário político da república, o “empastelamento”, consistia em espalhar ou amontoar no chão os caracteres tipográficos, o que impedia o trabalho de composição dos textos por vários dias.

Os directores e colaboradores dos jornais assaltados eram conduzidos ao governo civil ou ao quartel da polícia, onde recebiam, umas vezes ordem de suspensão do jornal, outras vezes ordem de expulsão da cidade ou do país. A prática dos assaltos a jornais vulgarizou-se e estendeu-se aos conflitos entre facções republicanas, que também se assaltavam mutuamente. Esta forma de violência semi-oficial, em que se misturavam bandos de cadastrados e agentes da autoridade, teve desde meados de 1911 a concorrência de outra forma de repressão. Uma rectificação à lei da imprensa permitiu a apreensão de jornais, pondo nas mãos do governo e das autoridades locais o encargo de suprimir publicações incómodas. Mas apesar de se terem multiplicado as apreensões, estas não bastaram para acalmar o zelo das hordas radicais, que continuaram a assaltar jornais até 1927, com a participação cúmplice de forças da polícia. Vejamos um panorama do que foi a atribulada vida de alguns dos órgãos de imprensa mais afectados pelos assaltos:

O Liberal – Dirigido por António Cabral, antigo Ministro da Marinha e deputado do Partido Progressista. Foi assaltado na primeira semana de vida da República Portuguesa, em 10 de Outubro de 1910. O conselheiro António Cabral e todos os jornalistas que se encontravam na redacção do jornal foram conduzidos ao quartel-general, onde ficaram detidos por 30 horas. Em 31 de Outubro de 1910 voltou a publicar-se. No dia 8 de Janeiro de 1911 sofreu novo assalto, desta vez por dois bandos armados de machados, que destruíram todo o material tipográfico. O director do jornal foi então intimado a sair de Lisboa, o que o levou a ausentar-se da capital por um ano. Só em Novembro de 1916 recomeçou a publicação de “O Liberal”, que se apresentava então como “Monárquico Tradicionalista”. Um ano mais tarde, em Novembro de 1917, a publicação do jornal foi suspensa por ordem do governo, e os seus principais redactores foram detidos a bordo do navio “Pedro Nunes”, sendo expulsos do país dois deles, poucos dias depois (Mário Matos e Lemos, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário). Num dos livros de memórias políticas de António Cabral, intitulado “Em Plena República”, conta-se em pormenor o que foram os assaltos de 10 de Outubro e 8 de Janeiro.
O Correio da Manhã – Fundado em 1885 por Manuel Pinheiro Chagas, publicou-se até 1897. Em Março de 1910 volta a publicar-se, tornando-se o órgão do Partido Regenerador-Liberal (franquista), sob a direcção de Álvaro Pinheiro Chagas. De 4 a 26 de Outubro de 1910 esteve suspensa a sua publicação. Desde 27 de Outubro volta a publicar-se, reafirmando-se monárquico.
No dia 8 de Janeiro de 1911 “um dos batalhões de voluntários republicanos, tendo à sua frente um official do exercito, assaltou a redacção do jornal, destruindo o mobiliario e o material typographico, façanha esta ainda hoje impune, e que foi coroada pela prohibição por parte das auctoridades de que se continuasse publicando a folha” (Álvaro Pinheiro Chagas, O Movimento Monarchico – O Correio da Manhã). Quatro dias depois o director do “Correio da Manhã”, Álvaro Pinheiro Chagas, acompanhado de Joaquim Leitão e Aníbal Soares, redactores do mesmo jornal, abandona o país. Regressa no princípio de Fevereiro, preparando-se para publicar de novo o “Correio da Manhã”. Espalhando-se a notícia da sua chegada a Lisboa, é chamado ao Governo Civil, onde recebe ordem de saída do território português, nestes termos: “Governo Civil do districto de Lisboa – Na qualidade de delegado do Governo da Republica Portuguesa, determino ao Sr. Alvaro Pinheiro Chagas que haja de sair do territorio da Republica no prazo de tres dias a contar de amanhã desenove do corrente. – Lisboa 18 de Fevereiro de 1911. – O governador Civil. Eusebio Leão”.

Diário Ilustrado – órgão do partido regenerador-liberal. Interrompeu a publicação em 5 de outubro de 1910. Em Dezembro desse ano volta a publicar-se, afirmando-se “arreigada e convictamente monárquico”. Foi assaltado no dia 8 de Janeiro de 1911 e destruídas as suas instalações, terminando por isso a publicação.

O Dia – fundado em 1887 pelo jornalista e dramaturgo António Enes, que foi mais tarde Ministro da Marinha e Ultramar e Comissário Régio em Moçambique. Nos últimos anos da monarquia tornou-se o órgão oficial do Partido Progressista. Depois de 5 de Outubro de 1910 manteve-se em publicação com algumas interrupções, declarando-se monárquico. Em 30 de Maio de 1911 foi vítima de um assalto, no qual ficou ferido o director, Moreira de Almeida (Mário Matos e Lemos, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário). Em 21 de Outubro de 1913 foi, mais uma vez, assaltado e destruído, tal como “A Nação”. Em Maio de 1915 sofreu novo assalto.

A Nação – Órgão do Partido Legitimista, publicava-se desde 1847, sendo o decano da imprensa diária em Lisboa. Assaltado na manhá de 21 de outubro de 1913, e destruído todo o seu material, na mesma ocasião em que foi assaltado “O Dia” e o desenhador de “O Thalassa”, Jorge Colaço, foi obrigado a pernoitar na prisão. Poucos jornais se atreveram a condenar este assalto. “Os Ridículos” e “O Thalassa” foram dos poucos que mostraram a sua indignação com a violência usada contra a imprensa monárquica. “O Thalassa” publicava o seguinte comentário:

“À “Nação” e ao “Dia”

Sabem bem estes nossos prezados collegas quanto sentimos a violencia de que foram victimas, para que seja necessario dizer-lh´o. Mas isso não impede que publicamente lhes testemunhemos a nossa magoa com os protestos da nossa insignificante mas sempre leal camaradagem.
A correcção usada sempre por esses dois jornaes devia tel-os posto ao abrigo de eventualidades tão tristes como as da manhã de 21 d´outubro, mas infelizmente assim não aconteceu.
Poderiamos mostrar aos republicanos exaltados o que foi a campanha dos seus jornaes no tempo da monarchia (tão differente!) e lembrar-lhes que quando tentaram revoluções contra o regimen, nunca as suas redacções foram assaltadas. Mas não vale a pena, porque estamos certos que intimamente se hão-de ter lembrado de tudo isso.
Nem ao menos os cabelos brancos d´avózinha e os seus 67 annos de vida modelar d´abnegação e fidelidade por uma causa, fez parar os assaltantes!
Mas ha uma coisa que ainda mais compunge do que propriamente o escavaqueamento material: é o escavacamento moral do Sagrado Tribunal da Imprensa, assistindo impassivel, excepção feita ao ridiculos, sem um protesto, sem uma palavra de magoa, à destruição violenta de dois collegas, sendo um d´elles o decano da imprensa portuguesa!
Não, decididamente não podemos tomar esta vida a serio…”

A Palavra – Jornal católico, fundado em 1872. Logo em 6 de Outubro de 1910 sofreu uma tentativa de assalto. Em Fevereiro de 1911 foi assaltado. Em 30 de Dezembro de 1912 foi proibida a circulação deste jornal, “por motivo de ordem pública”. Voltou a publicar-se em 1922, como jornal monárquico. Assaltado e parcialmente destruído em 6 de Outubro de 1922.

Em 20 de Setembro de 1914, pouco depois das 10 horas da noite, um bando de “dedicados defensores” da república inicia uma série de assaltos às instalações dos jornais monárquicos “A Nação”, “O Dia”, “Jornal da Noite” e “A Restauração”, e às dos jornais humorísticos “Os Ridículos” e “O Thalassa”, destruindo tudo o que encontram. As autoridades desinteressam-se dos assaltos, mas prendem os jornalistas de “A Restauração” por se tentarem defender. São impunemente agredidos os directores de “A Nação” e “Jornal da Noite”.

Em 26 de Setembro reuniu-se a Associação dos Distribuidores de Jornais para tratar da crise provocada pelos assaltos à imprensa. Diversos associados protestaram contra o vandalismo.

No dia seguinte reuniu a classe dos compositores tipográficos para apreciar a situação em que ficavam os companheiros dos quadros dos jornais assaltados, condenando os assaltos, a destruição das tipografias, e as violências e prejuizos de que são vítimas os tipógrafos, alheios à política dos jornais em que trabalhavam.

Em Abril de 1915, depois de longos meses de encarceramento, foram julgados os monárquicos presos na redacção de “A Restauração” quando se defendiam dos salteadores republicanos. O advogado de defesa pronunciou um “vehemente discurso”, em que denunciava a cumplicidade das forças de segurança no assalto ao jornal:

“Cada um tem direito de se defender a si proprio e à sua propriedade: constituição nº 15 do art. 3º, Cod. Civil art. 2354 e Cod. Penal artigos 44 a 46.
Não tinham bombas nem armamento porque se o tivessem certamente dele se teriam servido porque momentos houve em que se julgaram impotentes para dominar os milhares de facinoras que enfurecidos procuravam assaltar a redacção do jornal para roubarem tudo o que lá existisse de valor.
Não se podia recorrer à força publica, porque esta apareceu na rua da Emenda não para proteger os assaltados mas sim os assaltantes.
O tenente que comandava uma força da guarda republicana responsabilizou-se perante os defensores da casa por tudo o que lá existia; pois foi o primeiro a facultar a entrada aos “patriotas” que em seguida destruiram tudo o que não puderam levar para casa ou reduzir a dinheiro.
As buscas feitas pelo agente Murtinheira não passaram de uma tratantada como V. Ex.as tiveram ocasião de verificar pelo depoimento das testemunhas (…)

Os accusados não estavam armados como já provámos, mas mesmo que o estivessem?! Não absolveu o ano passado o snr. Dr. Pedro de Castro um formiga que usava arma sem a competente licença? Absolveu-o porque usava arma em defesa da Republica. Pois ha alguma coisa de bem mais sagrado que a defesa da Republica, que é a defesa da propria vida. Numa cidade como a de Lisboa ninguém pode deixar de andar armado, porque nas artérias mais concorridas da cidade, no nariz das autoridades, insulta-se, agride-se e mata-se qualquer pessoa que não pertença à seita”.

Carlos Bobone

fonte: Centenário da República

segunda-feira, setembro 21, 2009

O Inverno Europeu

A política portuguesa estacionou na infâmia e não haverá volta a dar enquanto os portugueses não decidirem administrar-se a si mesmos, a começar pelos municípios.

No próximo domingo, há eleições na Alemanha. Ao contrário do que por aí se diz, são as eleições na Alemanha as que verdadeiramente vão decidir alguma coisa acerca do futuro de Portugal. É assim desde 1968-69 e não nos devemos queixar. Por acção ou por omissão, fomos nós, tanto os da chamada "massa de bronze" como os da elite de lama, a permitir aqui o governo dos partidos alemães. Oxalá nos cheguem boas notícias da Alemanha. Lá é quase Inverno e pode ser que, finalmente, comece aqui a Primavera. Já tarda.