quarta-feira, setembro 23, 2009

O Terrorismo e o Conselho de Segurança da ONU

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http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/americas/8271647.stm




Libya's Colonel Gaddafi has called for reform of the UN Security Council, using regional unions to define the number of seats.
Addressing the United Nations, he also said the power of the veto, currently enjoyed by only the permanent members of the five-strong council, should be reviewed.
At the end he spoke about terrorism.

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Misinformed

The new missile defense plans of the United States may still contain a significant threat for Russia.

“In the first phase, to be completed by 2011, we will deploy proven, sea-based SM-3 interceptor missiles - weapons that are growing in capability - in the areas where we see the greatest threat to Europe,” Robert Gates wrote.

“The second phase, which will become operational around 2015, will involve putting upgraded SM-3s on the ground in Southern and Central Europe. All told, every phase of this plan will include scores of SM-3 missiles, as opposed to the old plan of just 10 ground-based interceptors. This will be a far more effective defense should an enemy fire many missiles simultaneously - the kind of attack most likely to occur as Iran continues to build and deploy numerous short- and medium-range weapons,” he continued.

Therefore, the USA will use dozens of SM-3 missiles instead of only ten interceptor missiles that were stipulated in the previous missile defense program. In addition, the radar station, which was supposed to be deployed in the Czech Republic, will be replaced with air-based, sea-based and ground-based detectors.

"The new approach to European missile defense actually provides us with greater flexibility to adapt as new threats develop and old ones recede. Those who say we are scrapping missile defense in Europe are either misinformed or misrepresenting what we are doing,” Robert Gates concluded.

fonte: Novosti / Pravda

terça-feira, setembro 22, 2009

Entrevista a Dom Duarte de Bragança

A Esperança no Cinema Português

Depois da trilogia debruçada sobre os dramas da Guerra Colonial e da série “Até Amanhã, Camaradas”, adaptação da obra que Álvaro Cunhal escreveu sob o pseudónimo de Manuel Tiago, o realizador português Joaquim Leitão regressa, quatro anos passados, às salas de cinema do país.

Num salto do passado à actualidade, “A Esperança Está onde menos se Espera” reflecte uma outra viragem no registo habitual de Joaquim Leitão: com argumento de Manuel Arouca, o mais prolífico argumentista das séries de ficção nacionais aqui em co-autoria com Tino Navarro, o filme une dois contextos sociais e económicos aparentemente opostos estabelecendo os valores como as pontes entre ambos.

Assim, temos a história de Lourenço, um adolescente que vive a vida luxuosa e confortável que o pai - treinador de futebol do momento- , lhe concede, até ao dia em que este, por desalinhar numa manobra menos idónea a que o dono do clube o quer obrigar, se vê desempregado e irremediavelmente “fora de jogo”.

Com a família desagregada, os amigos a leste e as contas, feitas dívidas, a crescer à volta, Lourenço passa do melhor colégio de Sintra para uma escola pública num bairro periférico e mal afamado. Uma mudança que de início rejeita e o faz rejeitar a atitude do pai, mas que aos poucos o desafia a ver a realidade com novos olhos, a testar os seus valores, a aceitar as boas oportunidades que lhe surgem pela frente e, finalmente, a descobrir nos outros, quer os até aqui incógnitos ou negativamente rotulados, como os amigos que vai fazendo, quer o pai que julgava conhecer, qualidades jamais imaginadas.

Decididamente actual, o filme congrega, numa mensagem simples e em simultâneo, a intensidade do drama da crise que muitas famílias vivem no momento e a frescura do optimismo que revela como as tragédias, bem aproveitadas, encerram em si excelentes oportunidades de mudança... para melhor!

Margarida Ataíde

A Esperança no Cinema Português



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1ª República - jornais assaltados e "empastelados"

Jornais Assaltados e “Empastelados”

Os assaltos a jornais constituíram uma novidade introduzida na vida política portuguesa assim que se proclamou a república. Entre Outubro de 1910 e Maio de 1911 foram destruídos todos os sobreviventes da imprensa monárquica. Depois a fúria assaltante dirigiu-se para a imprensa católica. Alguns dos jornais assaltados voltaram a publicar-se e foram de novo assaltados, sofrendo o material tipográfico o “empastelamento”. Este novo conceito que entrou no vocabulário político da república, o “empastelamento”, consistia em espalhar ou amontoar no chão os caracteres tipográficos, o que impedia o trabalho de composição dos textos por vários dias.

Os directores e colaboradores dos jornais assaltados eram conduzidos ao governo civil ou ao quartel da polícia, onde recebiam, umas vezes ordem de suspensão do jornal, outras vezes ordem de expulsão da cidade ou do país. A prática dos assaltos a jornais vulgarizou-se e estendeu-se aos conflitos entre facções republicanas, que também se assaltavam mutuamente. Esta forma de violência semi-oficial, em que se misturavam bandos de cadastrados e agentes da autoridade, teve desde meados de 1911 a concorrência de outra forma de repressão. Uma rectificação à lei da imprensa permitiu a apreensão de jornais, pondo nas mãos do governo e das autoridades locais o encargo de suprimir publicações incómodas. Mas apesar de se terem multiplicado as apreensões, estas não bastaram para acalmar o zelo das hordas radicais, que continuaram a assaltar jornais até 1927, com a participação cúmplice de forças da polícia. Vejamos um panorama do que foi a atribulada vida de alguns dos órgãos de imprensa mais afectados pelos assaltos:

O Liberal – Dirigido por António Cabral, antigo Ministro da Marinha e deputado do Partido Progressista. Foi assaltado na primeira semana de vida da República Portuguesa, em 10 de Outubro de 1910. O conselheiro António Cabral e todos os jornalistas que se encontravam na redacção do jornal foram conduzidos ao quartel-general, onde ficaram detidos por 30 horas. Em 31 de Outubro de 1910 voltou a publicar-se. No dia 8 de Janeiro de 1911 sofreu novo assalto, desta vez por dois bandos armados de machados, que destruíram todo o material tipográfico. O director do jornal foi então intimado a sair de Lisboa, o que o levou a ausentar-se da capital por um ano. Só em Novembro de 1916 recomeçou a publicação de “O Liberal”, que se apresentava então como “Monárquico Tradicionalista”. Um ano mais tarde, em Novembro de 1917, a publicação do jornal foi suspensa por ordem do governo, e os seus principais redactores foram detidos a bordo do navio “Pedro Nunes”, sendo expulsos do país dois deles, poucos dias depois (Mário Matos e Lemos, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário). Num dos livros de memórias políticas de António Cabral, intitulado “Em Plena República”, conta-se em pormenor o que foram os assaltos de 10 de Outubro e 8 de Janeiro.
O Correio da Manhã – Fundado em 1885 por Manuel Pinheiro Chagas, publicou-se até 1897. Em Março de 1910 volta a publicar-se, tornando-se o órgão do Partido Regenerador-Liberal (franquista), sob a direcção de Álvaro Pinheiro Chagas. De 4 a 26 de Outubro de 1910 esteve suspensa a sua publicação. Desde 27 de Outubro volta a publicar-se, reafirmando-se monárquico.
No dia 8 de Janeiro de 1911 “um dos batalhões de voluntários republicanos, tendo à sua frente um official do exercito, assaltou a redacção do jornal, destruindo o mobiliario e o material typographico, façanha esta ainda hoje impune, e que foi coroada pela prohibição por parte das auctoridades de que se continuasse publicando a folha” (Álvaro Pinheiro Chagas, O Movimento Monarchico – O Correio da Manhã). Quatro dias depois o director do “Correio da Manhã”, Álvaro Pinheiro Chagas, acompanhado de Joaquim Leitão e Aníbal Soares, redactores do mesmo jornal, abandona o país. Regressa no princípio de Fevereiro, preparando-se para publicar de novo o “Correio da Manhã”. Espalhando-se a notícia da sua chegada a Lisboa, é chamado ao Governo Civil, onde recebe ordem de saída do território português, nestes termos: “Governo Civil do districto de Lisboa – Na qualidade de delegado do Governo da Republica Portuguesa, determino ao Sr. Alvaro Pinheiro Chagas que haja de sair do territorio da Republica no prazo de tres dias a contar de amanhã desenove do corrente. – Lisboa 18 de Fevereiro de 1911. – O governador Civil. Eusebio Leão”.

Diário Ilustrado – órgão do partido regenerador-liberal. Interrompeu a publicação em 5 de outubro de 1910. Em Dezembro desse ano volta a publicar-se, afirmando-se “arreigada e convictamente monárquico”. Foi assaltado no dia 8 de Janeiro de 1911 e destruídas as suas instalações, terminando por isso a publicação.

O Dia – fundado em 1887 pelo jornalista e dramaturgo António Enes, que foi mais tarde Ministro da Marinha e Ultramar e Comissário Régio em Moçambique. Nos últimos anos da monarquia tornou-se o órgão oficial do Partido Progressista. Depois de 5 de Outubro de 1910 manteve-se em publicação com algumas interrupções, declarando-se monárquico. Em 30 de Maio de 1911 foi vítima de um assalto, no qual ficou ferido o director, Moreira de Almeida (Mário Matos e Lemos, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário). Em 21 de Outubro de 1913 foi, mais uma vez, assaltado e destruído, tal como “A Nação”. Em Maio de 1915 sofreu novo assalto.

A Nação – Órgão do Partido Legitimista, publicava-se desde 1847, sendo o decano da imprensa diária em Lisboa. Assaltado na manhá de 21 de outubro de 1913, e destruído todo o seu material, na mesma ocasião em que foi assaltado “O Dia” e o desenhador de “O Thalassa”, Jorge Colaço, foi obrigado a pernoitar na prisão. Poucos jornais se atreveram a condenar este assalto. “Os Ridículos” e “O Thalassa” foram dos poucos que mostraram a sua indignação com a violência usada contra a imprensa monárquica. “O Thalassa” publicava o seguinte comentário:

“À “Nação” e ao “Dia”

Sabem bem estes nossos prezados collegas quanto sentimos a violencia de que foram victimas, para que seja necessario dizer-lh´o. Mas isso não impede que publicamente lhes testemunhemos a nossa magoa com os protestos da nossa insignificante mas sempre leal camaradagem.
A correcção usada sempre por esses dois jornaes devia tel-os posto ao abrigo de eventualidades tão tristes como as da manhã de 21 d´outubro, mas infelizmente assim não aconteceu.
Poderiamos mostrar aos republicanos exaltados o que foi a campanha dos seus jornaes no tempo da monarchia (tão differente!) e lembrar-lhes que quando tentaram revoluções contra o regimen, nunca as suas redacções foram assaltadas. Mas não vale a pena, porque estamos certos que intimamente se hão-de ter lembrado de tudo isso.
Nem ao menos os cabelos brancos d´avózinha e os seus 67 annos de vida modelar d´abnegação e fidelidade por uma causa, fez parar os assaltantes!
Mas ha uma coisa que ainda mais compunge do que propriamente o escavaqueamento material: é o escavacamento moral do Sagrado Tribunal da Imprensa, assistindo impassivel, excepção feita ao ridiculos, sem um protesto, sem uma palavra de magoa, à destruição violenta de dois collegas, sendo um d´elles o decano da imprensa portuguesa!
Não, decididamente não podemos tomar esta vida a serio…”

A Palavra – Jornal católico, fundado em 1872. Logo em 6 de Outubro de 1910 sofreu uma tentativa de assalto. Em Fevereiro de 1911 foi assaltado. Em 30 de Dezembro de 1912 foi proibida a circulação deste jornal, “por motivo de ordem pública”. Voltou a publicar-se em 1922, como jornal monárquico. Assaltado e parcialmente destruído em 6 de Outubro de 1922.

Em 20 de Setembro de 1914, pouco depois das 10 horas da noite, um bando de “dedicados defensores” da república inicia uma série de assaltos às instalações dos jornais monárquicos “A Nação”, “O Dia”, “Jornal da Noite” e “A Restauração”, e às dos jornais humorísticos “Os Ridículos” e “O Thalassa”, destruindo tudo o que encontram. As autoridades desinteressam-se dos assaltos, mas prendem os jornalistas de “A Restauração” por se tentarem defender. São impunemente agredidos os directores de “A Nação” e “Jornal da Noite”.

Em 26 de Setembro reuniu-se a Associação dos Distribuidores de Jornais para tratar da crise provocada pelos assaltos à imprensa. Diversos associados protestaram contra o vandalismo.

No dia seguinte reuniu a classe dos compositores tipográficos para apreciar a situação em que ficavam os companheiros dos quadros dos jornais assaltados, condenando os assaltos, a destruição das tipografias, e as violências e prejuizos de que são vítimas os tipógrafos, alheios à política dos jornais em que trabalhavam.

Em Abril de 1915, depois de longos meses de encarceramento, foram julgados os monárquicos presos na redacção de “A Restauração” quando se defendiam dos salteadores republicanos. O advogado de defesa pronunciou um “vehemente discurso”, em que denunciava a cumplicidade das forças de segurança no assalto ao jornal:

“Cada um tem direito de se defender a si proprio e à sua propriedade: constituição nº 15 do art. 3º, Cod. Civil art. 2354 e Cod. Penal artigos 44 a 46.
Não tinham bombas nem armamento porque se o tivessem certamente dele se teriam servido porque momentos houve em que se julgaram impotentes para dominar os milhares de facinoras que enfurecidos procuravam assaltar a redacção do jornal para roubarem tudo o que lá existisse de valor.
Não se podia recorrer à força publica, porque esta apareceu na rua da Emenda não para proteger os assaltados mas sim os assaltantes.
O tenente que comandava uma força da guarda republicana responsabilizou-se perante os defensores da casa por tudo o que lá existia; pois foi o primeiro a facultar a entrada aos “patriotas” que em seguida destruiram tudo o que não puderam levar para casa ou reduzir a dinheiro.
As buscas feitas pelo agente Murtinheira não passaram de uma tratantada como V. Ex.as tiveram ocasião de verificar pelo depoimento das testemunhas (…)

Os accusados não estavam armados como já provámos, mas mesmo que o estivessem?! Não absolveu o ano passado o snr. Dr. Pedro de Castro um formiga que usava arma sem a competente licença? Absolveu-o porque usava arma em defesa da Republica. Pois ha alguma coisa de bem mais sagrado que a defesa da Republica, que é a defesa da propria vida. Numa cidade como a de Lisboa ninguém pode deixar de andar armado, porque nas artérias mais concorridas da cidade, no nariz das autoridades, insulta-se, agride-se e mata-se qualquer pessoa que não pertença à seita”.

Carlos Bobone

fonte: Centenário da República

segunda-feira, setembro 21, 2009

O Inverno Europeu

A política portuguesa estacionou na infâmia e não haverá volta a dar enquanto os portugueses não decidirem administrar-se a si mesmos, a começar pelos municípios.

No próximo domingo, há eleições na Alemanha. Ao contrário do que por aí se diz, são as eleições na Alemanha as que verdadeiramente vão decidir alguma coisa acerca do futuro de Portugal. É assim desde 1968-69 e não nos devemos queixar. Por acção ou por omissão, fomos nós, tanto os da chamada "massa de bronze" como os da elite de lama, a permitir aqui o governo dos partidos alemães. Oxalá nos cheguem boas notícias da Alemanha. Lá é quase Inverno e pode ser que, finalmente, comece aqui a Primavera. Já tarda.

segunda-feira, setembro 07, 2009

O Partido Republicano Português

Parte I – Os primeiros passos. Da fundação ao Centenário de Camões (1876/80)

O Partido Republicano Português (PRP) foi fundado em 1876 por um grupo de amigos descontentes com o regime liberal português, e entusiasmado com os recentes triunfos republicanos em Espanha (República instaurada em 1873, mas que cairia nesse mesmo ano de 76) e França (regresso da República em 1870 – III República).
Em comum a estes fundadores do PRP, a inquietação intelectual, a influência e herança dos setembristas que não se integraram na regeneração e, sobretudo, o desejo de dotar Portugal de instituições republicanas, isto é, mais do que alterar o regime, libertá-lo do pequeno grupo que gravitava em redor dos dois partidos que controlavam o poder e o Estado, de forma a permitir a todos os cidadãos iguais direitos de participação cívica. No fundo, o que a maioria deste grupo pretendia era “republicanizar” a monarquia, algo com que muitos monárquicos estavam de acordo.
Claro que estes primeiros republicanos adoptaram também como seus alguns dos temas caros à esquerda monárquica liberal (como o anticlericalismo), e outros ciclicamente agitados por gentes oriundas de todos os espectros políticos (como o iberismo).
A união ibérica (ou dos povos da ibéria) chegava a ser defendido por alguns com o mesmo ardor com que depois combatiam o centralismo de Lisboa. Os republicanos dos primeiros tempos defendiam o regresso às tradições municipalistas, que começaram a perder protagonismo com o advento do Estado Absoluto (séc. XVIII), e foram definitivamente esquecidas com a chegada do regime liberal, de clara vocação centralizadora.
E qual a situação politica portuguesa aquando da fundação do PRP?
Nessa altura (1876), a monarquia liberal navegava por fim em velocidade de cruzeiro. Em 1851, o marechal Saldanha liderou um pronunciamento que terminaria com os conflitos e indefinições entre os liberais, e que se arrastavam desde o fim da Guerra Civil. Os setembristas foram então definitivamente afastados, o exército voltou para os quartéis, e a politica tornou a fazer-se nos ministérios, parlamento, e jornais, e já não tanto na rua.
Apesar de algumas tentativas de regresso a um passado recente (ex. revolta da Janeirinha de 1868), as décadas de 50 e 60 do séc. XIX foram de consolidação da prática politica liberal.
A nova estabilidade permitiu potenciar as qualidades de grandes vultos políticos, como Rodrigo da Fonseca, e o emergir de novos talentos, como Fontes Pereira de Melo, e estimulou a iniciativa privada, que começava timidamente a autonomizar-se da protecção do Estado.
A monarquia liberal era por então um regime que estava a par dos mais progressistas da Europa: fora percursor na abolição da escravatura e da pena de morte, e dispunha de uma legislação protectora e respeitadora dos direitos dos cidadãos (destaque para a o Código Civil do visconde de Seabra, publicado na mesma altura – 1866 – da carta de lei que aboliu a pena de morte).
Portugal era um país onde se gozava de amplas liberdades, e onde se podia chegar ao sucesso pelo mérito (apesar da profusão de novos títulos, estes eram sobretudo conferidos para premiar os homens que se distinguiam no regime e na sociedade, muitos vindos da classe média, e até das classes mais baixas da população).
No referente ao poder executivo, Fontes Pereira de Melo (Partido Regenerador), o politico mais consistente do seu tempo, ocupava desde 1871 a presidência do Ministério, e aplicava com energia o seu programa de fomento.
Finalmente, o pacto da Granja (fusão de históricos e reformistas em 1876, de onde nasceu o Partido Progressista), criara as sonhadas condições para a alternância no poder entre dois grandes partidos, que se assumiam como defensores do regime.
O reino vivia então tempos de estabilidade e progresso material como há muito não conhecia. Tal legitimou que Portugal voltasse a pensar na reconstrução de um império colonial, e numa altura em que toda a Europa começava a ter os olhos postos em África.
A partir da segunda metade da década de 1870, os portugueses entusiasmaram-se com a epopeia da autêntica redescoberta portuguesa do continente africano, liderada pela Sociedade de Geografia e pelo ministro Andrade Corvo, e protagonizada por aventureiros e exploradores como Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, ou Roberto Ivens.
Porém, estes sucessos não conseguiam camuflar por completo as duas principais debilidades do regime: o liberalismo saído da guerra civil de 1832/34 solidificou-se por entre revoluções e pronunciamentos alternados de duas facções antagónicas: os cartistas, defensores da Carta de 1826 e de um modelo conservador, centrado na figura do rei, e os vintistas, logo setembristas (desde 1836), que pugnavam pela reposição da Constituição de 1822, de inspiração radical e base parlamentar, e que sancionava uma verdadeira república com rei.
Contas feitas, entre 1834 e 1851 o regime liberal conseguiu afastar os dois extremos políticos que o ameaçavam: os tradicionalistas, apoiantes do rei D. Miguel e vencidos na guerra civil, e os radicais, defensores da Constituição “democrática” de 1822, e definitivamente vencidos em 1851.
O afastamento de conservadores e progressistas fez com que a base de apoio do regime liberal se alicerçasse num imenso “centrão”. Por seu lado, a prática politica que se desenvolveu graças às particularidades da Carta Constitucional de 1826, levou a que o rei deixasse de ser um árbitro, ou moderador, para se tornar protagonista do jogo politico, com papel decisivo na formação e destituição dos governos.
Tal facto acabou por tornar a figura do rei alvo de todo o tipo de criticas, usadas também pelos partidos do regime como forma de o pressionar politicamente.
Estas particularidades, junto com circunstâncias conjunturais, serão habilmente exploradas pelos republicanos durante a sua incerta mas audaciosa caminhada rumo ao 5 de Outubro.
Mas regressemos à década de 1870. A criação de um agrupamento republicano em 1876 enquadra-se pois, e naturalmente, nas formas permitidas de contestação ao regime. No início da década, já as Conferências do Casino haviam defendido algumas das causas comuns a todos os descontentes da época, e abordado de forma mais ou menos explícita os temas que a estes eram caros: anticlericalismo, iberismo, republicanismo, e socialismo.
Aproveitando a embalagem, nomes como José Fontana e Antero de Quental, fundaram em 1875 o Partido Socialista português. Esta organização nunca conseguirá impor-se com a mesma eficácia dos republicanos, consumindo-se antes em lutas sem fim entre as suas facções socialista e anarquista.
Em 1876, foi a vez do já referido grupo progressista e de simpatias maçónicas, onde pontificavam nomes como Latino Coelho, Oliveira Marreca, e Elias Garcia, fundar o Partido Republicano Português.
Nos anos seguintes, os republicanos conseguiram abrir alguns centros nos grandes núcleos urbanos (Lisboa, Porto e Coimbra). Em 1878, o PRP apresentou-se pela primeira vez às eleições para as Cortes, logrando eleger o seu primeiro deputado, que foi Rodrigues de Freitas, que concorreu pelo círculo do Porto.
Malgrado este sucesso, o PRP permanecia um pequeno grupo de cavalheiros burgueses e respeitadores das instituições. Ninguém os via com hostis ao regime, mesmo porque a causa republicana era apenas apoiada por meia dúzia de excêntricos, e nem sequer era levada muito a sério. Na altura, a mudança de regime era tida como algo tão improvável e desnecessário quanto vestir um sobretudo no deserto.
O próprio PRP contribuía para dar razão aos que o tinham por inofensivo. O partido navegava numa indefinição programática, oscilando entre o federalismo utópico (iberismo, defendido entre outros por Teófilo Braga) e o patriotismo romântico (onde pontificava Manuel de Arriaga).
Será o Centenário de Camões (1880) a dar a primeira oportunidade de protagonismo ao PRP, que então revelou virtudes antes escondidas. Pela primeira vez, os republicanos dariam mostras da habilidade demagógica que os viriam a tornar célebres e eficazes, tomando astutamente como sua uma bandeira cara a quase todos os portugueses: o Patriotismo.

Lourenço Pereira Coutinho

fonte: Centenário da República

sábado, setembro 05, 2009

"Melhor é possível"

Esteve a meia haste, durante a madrugada, uma bandeira monárquica em frente da Câmara do Porto, na praça General Humberto Delgado. O acto foi reclamado pelo blog «Portugal Monárquico».

«Na noite de 3 para 4 do presente mês de Setembro, às tantas da madrugada em ponto, foi hasteada a última bandeira nacional monárquica, a carismática bandeira azul e branca representativa, ainda hoje, dos monárquicos nacionais, que não era vista nesta cidade desde a Monarquia do Norte de Janeiro de 1919. Foi assim, muito embora esta iniciativa não seja comparável à de Henrique de Paiva Couceiro e seus camaradas, restaurada a legitimidade monárquica na cidade do Porto, que rapidamente acolheu de braços abertos o renovado regime», explicam os autores em comunicado.

«Foi colocada nos postes que estão na praça General Humberto Delgado», explicou à Lusa o director municipal dos Serviços da Presidência da autarquia, Manuel Cabral. Os postes em causa são, contudo, utilizados para hastear as bandeiras oficiais da autarquia.

O símbolo monárquico esteve no local até às 6:00, altura em que foi retirado pelo segurança responsável por hastear as bandeiras do município todas as manhãs.

Veja o vídeo da colocação da bandeira:

O cabeça de lista do Partido Popular Monárquico (PPM) pelo distrito do Porto, Alfredo Corte-Real, negou qualquer envolvimento neste acto por parte do partido, embora tenha salientado, em declarações à agência Lusa, que «a vontade seja efectivamente essa: hastear algumas bandeiras azuis no país».

Em Agosto registaram-se incidentes semelhantes em Lisboa, levado a cabo por elementos ligados ao blogue 31 da Armada, e na cidadela de Cascais, um momento que foi exibido em vídeo num blogue «Os Conjurados».

«O Portugal Monárquico consiste num grupo de pessoas que partilham o ideal monárquico e que decidiram continuar a onda levantada por Portugal a dentro divulgando este mesmo ideal», refere o movimento numa resposta escrita ao tvi24.pt. «Para nós é essencial relembrar através destes símbolos monárquicos que a República é uma imposição, que ainda existem muitos portugueses que partilham dos nossos princípios e que a Monarquia em Portugal pode vir a ser uma realidade», acrescentam.

«Defensores de que a população deve, a seu tempo, ser levada a pronunciar-se sobre esta matéria em liberdade e em informação, somos da opinião que jamais alguém poderá representar Portugal, a nossa Nação, os nossos Valores e a nossa História, melhor que o próprio Rei de Portugal».

«Esta pretende ser a primeira de várias iniciativas a realizar ao longo das comemorações do centenário da república com o objectivo de chamar, por um lado, a atenção das pessoas para a realidade que é a opção monárquica e por outro, para mostrar àqueles que concordam connosco, mas que pensam que não vale a pena e que é uma causa perdida, que vale a pena, que afinal somos muitos, que melhor é possível».


http://causamonarquica.wordpress.com/2009/09/04/iol-bandeira-monarquica-colocada-na-camara-do-porto-video/

quarta-feira, setembro 02, 2009

Perigo de abuso a idosos

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

O que se passou em Coruche é abominável e espera-se que a mão da Justiça caia pesada sobre os dois indivíduos que mantiveram presos, em condições desumanas, uma sua familiar idosa e seu filho doente, apenas com o objectivo de viverem à custa das suas pensões. Esse calvário de mais de um ano deve garantir uns anos de prisão a esses energúmenos.
Será ingenuidade pensar-se que existe apenas este caso em Portugal e é uma tolice acusar as autoridades de terem levado muito tempo a descobrir o crime. Os crimes de família, que podem ir da violência à exploração dos idosos, passando pelo abuso sexual de crianças e outros desvios, são muito difíceis de descobrir se não houver alguém próximo que os denuncie , visto todos sermos chamados a respeitar a privacidade do próximo. Portanto, um grande trabalho de informação e apoio tem de ser feito nas escolas, nas associações de recreio, nos clubes desportivos, nas associações profissionais, de modo a alargar a rede dos que podem dar o alerta.
Também seria inaceitável julgar-se que apenas no nosso país esses crimes existem. O Canadá, onde vivo, é um país enorme, civilizado, com uma sólida administração inglesa, onde a Justiça funciona rapidamente e a polícia é de grande eficiência (no caso, a Real Polícia Montada do Canadá, ou RCMP, a única polícia do país, com as subdivisões necessárias que vão da segurança interna e contra-espionagem até à polícia criminal, de rua e de trânsito). Como se pode clacular, a polícia dispõe de grandes meios tecnológicos, de armamento, viaturas e tudo o mais. E no entanto, há idosos no Canadá que são abusados pela mesma razão que levou os meliantes de Coruche a fazerem o que fizeram. Mais uma vez, o respeito pela privacidade, a interdição de invadir a intimidade do cidadão, faz com que a polícia tenha dificuldade em aperceber-se do que se passa. É aí que se conta com a colaboração do pessoal escolar, dos centros comunitários, das agências de apoio social, etc. Aposta-se tudo na educação e na informação. E as coisas vão funcionando porque, sabendo as pessoas onde se devem dirgir e as garantias de sigilo com que podem contar, é mais fácil arranjarem coragem para denunciar os crimes. Além de que é garantida a prisão de quem prevaricou e a família atingida é de imediato amparada e orientada pelos serviços públicos.
Por outro lado, nesta monarquia parlamentar que tem por chefe do estado a Raínha Isabel II de Inglaterra, todos nós, uns milhões provenientes de 160 países, somos chamados a ser parte activa da democracia baseada no respeito, na igualdade perante a lei, na liberdade responsável. E assim se compreenderá que, havendo abuso de idosos também na comunidade portuguesa, um grupo de mulheres idosas portuguesas, o Portuguese Women 55 + , nado e criado numa modelar instituição de solidariedade social do Canadá, a Saint Christopher House, sob a exemplar direcção da moçambicana Odete Nascimento e a coordenação da ribatejana Isabel Palmar, mantenha um grupo de teatro mudo, mas extraordinariamente expressivo, em que esses casos são denunciados.
O grupo, que já leva uns bons anos de vida, não tem mãos a medir, convidado que é a actuar nos centros de outras comunidades étnicas (até na chinesa!) e em hospitais. E a mensagem passa de lado a lado, corre por aí, alerta consciências, encoraja pessoas. É um poderoso meio de colaboração com as autoridades. E nem sequer é caro nem complicado. Qualquer clube, qualquer associação, em qualquer aldeia ou vila, pode organizar o mesmo. Onde a educação não é um dado adquirido, é preciso ajudar com a informação, mobilizando boas vontades de profissionais que, também eles, não sabem de tudo o que se passa.
Creio que é legítimo, salutar e urgente ajudar a acabar com a chaga social do abuso a idosos, crianças e mulheres.

quinta-feira, agosto 27, 2009

«Não me importo que me escutem. Nada tenho a esconder»

''Não me importo que me escutem. Nada tenho a esconder'' - Entrevista de D. Duarte (Jornal I)

D. Duarte de Bragança teme ver o país entregue a uma comissão estranjeira. Sobre escutas é claro: “Não me importo que me escutem. Nada tenho a esconder”

A causa monárquica voltou à ribalta com a polémica da bandeira hasteada na Câmara Municipal de Lisboa (CML). O chefe da Casa Real, D. Duarte de Bragança, desvaloriza o incidente e defende que o episódio até pode ter “um aspecto positivo” se “despertar a atenção para as bandeiras portuguesas”. Sobre a actualidade do país, assume que o caso das escutas em Belém não o preocupa. “Não me importo nada que me escutem. Nada tenho a esconder. E também deve ser esse o caso do Presidente da República”.

Como reagiu à notícia de que Lisboa tinha acordado com uma bandeira monárquica na CML?

É claro que nunca iria apoiar algo de ilegal e considero que se tratou de uma irreverência de juventude que não me parece condenável, porque a bandeira retirada foi devolvida e não houve nenhum desrespeito a símbolos nacionais, ao contrário do que disseram as pessoas que reagiram aborrecidas.

Então não aceita que isto seja tratado como um caso de polícia?
Não foi cometido nenhum estrago ou acto violento, portanto não me parece que exista aqui um caso.

Mas tem simpatia por esta iniciativa?
Nos países que prezam a sua história, as bandeiras históricas são todas consideradas com a mesma dignidade e colocadas muitas vezes em conjunto. Nas academias militares de Portugal, Brasil ou Estados Unidos, há esse culto. Faz parte da cultura cívica do povo. Se este episódio serve para despertar a atenção para as bandeiras portuguesas, pode ser um aspecto positivo. Mas claro que não é legal entrar num lugar público e mudar coisas que estejam lá expostas. É uma pequena ilegalidade, não me parece que se possa levantar um grande problema.

Esta acção também significa que a causa monárquica está viva?
A vitalidade do movimento monárquico em Portugal mede-se de outra maneira: por sondagens de opinião pública, pelas cerca de dez mil pessoas na Reais Associações e muitos outros grupos organizados de monárquicos em grupos de actividades diversas. Não têm é expressão eleitoral, no sentido em que os monárquicos que temos no Parlamento estão dispersos por muitos partidos.

Gostava de fazer uma consulta aos portugueses para saber se preferiam ter um rei como chefe de Estado?
Já foi feita, mas não foi divulgada. E tem resultados muito curiosos: 29% dos portugueses acha que um rei seria melhor do que um PR. Mas a maioria não tem opinião. Era bom que os portugueses tivessem liberdade para exprimir-se sobre esse assunto, mas num contexto honesto e não fazendo uma pergunta como a pergunta do aborto, que era totalmente direccionada para votar sim.

Cem anos depois da implantação da República, que balanço faz à situação actual da democracia portuguesa?
O que me preocupa mais é que ao haver 60% de abstenção numas eleições, damos uma importância excessiva a minorias muito militantes. Isto põe em causa o significado da democracia. Se as pessoas não votam por estarem desiludidas com a política, estão a deixar que alguns falem por eles. Se a política é tomada como um campeonato de futebol, em que se vota num partido por ser “o seu”, então não interessam as medidas que se defendem. A democracia não pode resumir-se a colocar um voto numa caixa de quatro em quatro anos. Tem de haver mais participação cívica, opinião, referendos.

Acha que isso acontece pelo descrédito da classe política junto dos eleitores?
Há gente muito boa e decente a fazer política. O problema é a própria instituição da democracia e o sistema em que estamos a viver, que gera esta situação. Temos um excelente Presidente da Republica (PR), deputados muito bons e pessoas muito decentes no governo. Mas não há uma cultura de participação cívica ou de raciocínio lógico.

Como assim?

Surgiu um movimento para as pessoas comprarem produtos portugueses, e acho muito bem. Mas a maioria das pessoas cujo emprego está em risco, que sabem que as empresas estão a fechar ou que a agricultura está a falir, insistem em comprar tudo estrangeiro. Em todo o Estado ou na administração pública não vejo um único carro fabricado em Portugal. Os alfas pendulares foram todos importados de Itália e depois os ministros vêm chorar porque o capitalismo é horroroso e deixa fechar a fábrica da Bombardier? É uma incoerência chocante e revoltante. E os portugueses deviam revoltar-se contra isso. Não faz sentido estarmos a pagar impostos para sustentar indústrias noutros países.

Está preocupado com a crise económica que vivemos e com o défice do país?
Parece-me perfeitamente claro que isto assim não pode continuar. Qualquer família que gaste mais do que aquilo que ganha vai à falência e isso também acontece com os Estados. Nós estamos a endividar os nossos netos, que vão ter de pagar os desperdícios e disparates que estamos a fazer hoje. O povo português ficou contente com a Expo, o CCB ou as auto-estradas em todos os cantos do país, mas essas coisas pagam-se. E depois falha-nos o dinheiro noutras coisas, como no sistema de saúde, que é fraco.

Como é que avalia a justiça portuguesa?
Os deputados fizeram uma legislação que torna muito difícil a aplicação da justiça, por causa dos procedimentos, recursos e picuinhices que empatam a justiça e dificultam o seu exercício. E depois não funciona para ninguém. Nem nos grandes casos nem nos pequenos.

Que comentário faz ao caso Freeport?


Nenhum. Não foi julgado, portanto não posso dar opiniões. Não quero ser injusto com ninguém.

Acompanhou a recente polémica sobre as alegadas escutas no Palácio de Belém?
O Presidente da República é uma pessoa de bem sob todos os aspectos, portanto não se deve importar nada que lhe façam escutas.

Mas acha normal que o Palácio de Belém possa estar a ser vigiado?
Depende de quem faça as escutas. Se tivermos um serviço de segurança bom e eficiente – e temos, como se prova por não haver terrorismo em Portugal – é preferível escutas e vigilância a mais do que a menos. Onde as escutas são inconvenientes é quando servem para espiar, por exemplo entre empresas ou indústrias, ou para saber escândalos da vida privada que possam ser utilizados em chantagens. O importante em democracia é que tenhamos confiança nos serviços que suportam a nossa segurança. Não me importo nada que me escutem, porque não tenho nada a esconder. E acho que também deve ser esse o caso do PR. Mas não sei se é escutado ou não. O que acho é que quem tem cargos públicos de responsabilidade deve aceitar que a sua vida seja transparente.

Concorda com a ideia de Ferreira Leite de que o país vive um clima de asfixia e retaliação criado pelo governo?
Não sei dizer. Acho é que há um pouco a tendência dos partidos no poder, sobretudo se tiverem maioria, para acharem que têm o direito a privilégios, lugares e vantagens. Isso é muito perigoso. Devíamos seguir mais o modelo inglês, em que a administração é uma coisa e a política outra: as pessoas competentes que estão na administração ficam, independentemente dos partidos no poder.

Acha que um governo minoritário pode ser prejudicial ao país?
Não. Um governo de coligação é benéfico, no sentido em que se cria uma maior dinâmica de diálogo e participação. Mas o importante é que tem de haver um acordo entre as principais forças políticas para que se tomem as medidas difíceis que têm de ser tomadas. Se não houver esse acordo, os partidos que estiverem no poder não tomam medidas duras com medo de se queimarem eleitoralmente. Se essas medidas forem tomadas por consensos, todos se responsabilizam.

É favorável a um Bloco Central?
Não faz diferença se é Bloco Central ou aliança com os pequenos partidos. Quanto mais forças políticas participarem, mais se pode mobilizar o país para que um governo possa governar a sério. Quanto mais tarde forem tomadas medidas, pior, e se não forem tomadas corre-se o risco de ser uma ditadura a tomar conta do poder para fazer o que é preciso. E falo de uma ditadura que não é necessariamente militar. Se o país entrar em bancarrota, o BCE ou o FMI podem dizer que ajudam a salvar o país, com a condição de nos governarmos de determinada maneira, com uma comissão de gestão estrangeira. E caminhamos para aí: se não fizermos o caminho certo, alguém vai ter de tomar conta de nós.

Que opinião tem sobre os dois principais candidatos a primeiro-ministro?
Nunca tomo posições partidárias. Não posso fazê-lo devido à minha condição de chefe da Casa Real portuguesa.

Não vota nas legislativas?
Voto nas eleições autárquicas, porque é uma democracia mais directa, conheço as pessoas. Votar mas legislativas seria tomar uma posição partidária que não posso tomar.



(Adriano Nobre - Jornal I)

sexta-feira, agosto 21, 2009

Bandeiras & Bandeiras

CARTA DO CANADÁ
Fernanda Leitão


Achei graça àquela rapaziada do 31 da Armada que, pela noite, foi à varanda da Câmara Municipal de Lisboa tirar o pendão da cidade e hastear uma bandeira nacional, a monárquica, mais velha do que a republicana. E achei pilhas a terem ido entregar o pendão, devidamente lavado e engomado, o que pressupõe que estava sujo e maltratado, o que não me admira mesmo nada. Os republicanos são desleixados com a sua bandeira: não a mandaram com as tropas portuguesas a combater nas trincheiras da guerra de 1914-18, tendo um conde residente em Paris de pagar do seu bolso as bandeiras que haveriam de cobrir os caixões por lhe parecer ser o mínimo de dignidade a conferir a um soldado que tomba pela Pátria, houve quem a pisasse nas ruas de Londres a pretexto de não gostar da presença de Marcello Caetano (e o nome inteiro do artista foi segredo que levou para a cova o general Galvão de Melo, que apanhou uma fotografia da façanha quando presidiu à extinção da PIDE), e até houve militares que arrastaram a bandeira verde-rubra pelo chão, alguns deles em cuecas, na pressa da descolonização a que um cómico chamou exemplar. Dá que pensar a falta de respeito que alguns republicanos têm demonstrado pela sua bandeira, sem que a polícia os tenha prendido com aquele alarido que convém a quem quer dar exemplos. E ainda dá mais que pensar o nunca ter havido nenhum monárquico que fizesse o mesmo à bandeira dos republicanos.
A única vez que vi um monárquico a afrontar a bandeira verde-rubra foi há uns anos bem puxados. Um amigo meu, monárquico dos quatro costados, que tinha a bandeira branca com as quinas e a coroa hasteada dia e noite na frontaria da sua casa, regressou do exílio no Brasil para onde o mandaram as ameaças de morte duns comunistas que, feitas as contas, apenas queriam palmar-lhe o próspero negócio de que dispunha em Lisboa. Deram com os burros na água, como aliás em tudo quanto essa gente roubou sem saber o que era trabalho e gestão. Ora, quando o meu amigo chegou de novo a sua casa, o povo daquele lugar quis festejar em grande, com banda de música, foguetes, uma grande multidão e à frente a bandeira verde-rubra. Quando tal viu, o meu amigo, a rilhar a boquilha, berrou do alto da escada: “Vocês entram, mas a porca não entra!”. Pronto, foi ali um desassossego, cada qual a procurar o bicho, e nada. E gritaram: “Oh senhor, mas onde é que a porca se meteu?”. E o regressado a explicar: “Essa bandeira! Foi à sombra dela que se perdeu o império e se desgraçou Portugal”. O povo chamou a polícia? Houve tareia e cabeças partidas? Qual quê! Enrolaram a bandeira, deixaram-na encostada fora do portão, e foram-se dali abraçar o amigo de sempre, comeram, beberam, cantaram, foi uma festa em grande. Em tantos anos que já levo de vida, apenas vi este gesto de afronta. Mas, valha a verdade, aquele povo era livre de dar uma sova ao meu amigo, e não o fez, foi livre de escolher e escolheu. Quem sabe se é por sentir que o povo tem lá no fundo “qualquer coisa”, que o actual regime não quer ouvir falar em referendo.
Como se pode imaginar, ainda consegui achar mais graça a isso de terem chamado a PJ e de esta, com fama de lenta, ter aparecido logo e levado os rapazes a perguntas, tendo constituído um arguido. Muito nervoso anda o regime para perder a cabeça por uma rapaziada... Os monárquicos agradecem.
Ainda por cima polémica, a bandeira republicana. Apercebi-me disso quando um velho e honrado bombeiro de Tomar, o Jorge Godinho, me ofereceu a bandeira com que a cidade festejou a chegada da República. Uma bandeira estranha, azul e branca, com uma risca vermelha e a palavra Liberdade por cima das quinas. Feita à pressa, segundo as indicações que o Jorge tinha colhido em Lisboa. Ao tempo rapaz novo, de sangue guelra e atrevido, a gostar de cocar tudo, e daí ter ficado com a alcunha do Jorge Cocão, era ele o mensageiro escolhido pelos republicanos de Tomar para, sem dar nas vistas, ir a Lisboa buscar notícias junto dos maioriais da revolução a vir. Da últina vez que veio de Lisboa, reuniram-se num casebre para os lados do cemitério velho, à luz de candeias. Pequenote, o Jorge subiu a uma mesa, rubro de entusiasmo, abriu a camisa e comunicou: “A revolução está quase a rebentar! E eu dou o meu peito às balas!” Foi nessa altura que rebentaram uns petardos à porta da casa, malandrice dos talassas. E foi um vê se te avias de republicanos a deitarem-se no chão e a meterem-de debaixo da mesa. Depois de serenados, o Jorge contou que tinha visto a bandeira republicana e relatou-a em pormenor. Quando a República foi imposta ao país pelo telégrafo, em Tomar fez-se uma manifestação na que é hoje a Praça da República, e lá estava a bandeira que hoje deve estar entre os meus parcos haveres em Portugal. Uma mulher assomou à varanda da câmara, torceu e vergou uma pena de prata e gritou: “Acabou a Monarquia!”. É o que se chama ficar tudo ela por ela.
Mas eu fiquei sempre muito desconfiada. E apertei com o bombeiro:
- Oh Zorze (eu e Chico Porto chamávamos-lhe assim), mas onde raio é que fizeram a bandeira, os de Lisboa?
- Oh menina, eu cá o que me disseram em Lisboa é que ela tinha sido feita numa loja maçónica em Espanha .
- Pode lá ser, Zorze!.
- Ai não, que não pode, capazes disso e muito mais eram eles. Basta ver o que fizeram a seguir, foram 16 anos de miséria e vergonha. E estes de agora vão pelo mesmo. Sabe que mais, menina? Tudo uma corja!
E realmente isto é tudo mau demais. Tão mau que até o Saragago se esqueceu que tem telhados de vidro. Anda à pedrada e um dia destes fazem-lhe a biografia. Isto é que vai um ano!

sexta-feira, agosto 14, 2009

Fazer a Verdade

14 Agosto 2009 - 09h00 - Correio da Manhã

O Alicerce das Coisas - Fazer a Verdade

É muito fácil para qualquer força partidária a cedência à meia-verdade para servir a lógica do poder.

Proclamar por ética política e exigir atitudes de verdade é bom caminho, mas via difícil na prática real. Tinha prometido voltar à Carta encíclica de Bento XVI para chamar a atenção para algumas ideias mais relevantes. Vem a talho de foice reparar no princípio essencial da Doutrina Social da Igreja, qual seja o da proclamação da verdade do amor na sociedade. Essa base orienta os cidadãos em contextos sempre novos. No actual contexto cultural, apto a relativizar e negligenciar a verdade, o apelo papal soa como alerta: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade." A mensagem não serve apenas aos observadores exteriores da acção social da Igreja, atinge igualmente os servidores internos da caridade. O "risco fatal do amor numa cultura sem verdade" degenera em sentimentalismo, tão corrente e desprestigiante.

Se para os cristãos "a caridade é tudo", não se pode dissociar da verdade. A imediata acção, mesmo de rotina caridosa, deve conjugar-se com procurar, encontrar e expressar a verdade das situações a socorrer. Esse exercício esforçado para chegar à verdade e para a essa luz compreender, avaliar e praticar a caridade não se confunde com leve conversa eleitoral ou pedra de arremesso para adversário político. Pretende ultrapassar opiniões ou sensações subjectivas. A procura da verdade começa por um processo pessoal de cada um sobre si próprio. Tentar descobrir o projecto pessoal de Deus para cada um e aderir-lhe firmemente constituem o primeiro passo do verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade.

Bento XVI, na Caritas in veritate, considera uma forma de caridade defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida. Esta fórmula garante uma visão completa e autêntica, capaz de aliar a busca da substância das coisas com a vivência pessoal do que se defende e propõe. Aliás só esta atitude vital goza de autoridade. Só a verdade da caridade cria comunhão, motiva adesão e provoca imitação.

Realmente, "sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade". Perceber como criar coesão social em tempo eleitoral será agulha no palheiro. É muito fácil e tentadora para qualquer força partidária a cedência à meia-verdade ou à falsidade para servir a lógica do poder e não a lógica do bem comum do povo. Só critérios de verdade garantem sólida liberdade e futuro novo.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa