terça-feira, fevereiro 10, 2009

Bernard Lonergan - - Conferências e debates

Conferências e Debates - Introdução ao Pensamento Económico de Bernard Lonergan

Terá lugar na Universidade Católica, próximo sábado dia 14, pelas 9H15, com a presença do Reitor da Universidade.

Esta inciativa do CEFi da UCP em conjugação com o IDP é uma forma de dar conteúdo à tão falada "sociedade do conhecimento".

As conferencias contarão com a participação de economistas como Braga de Macedo Vitor Bento e Acacio Catarino, sendo o curso orientado por Ricardo Gomes da Silva.

Para os interessados em conhecer o pensamento de Lonergan, veja, registe-se, e entre no Arquivo Lonergan, com muitos dos seus textos, e ficheiros audio.

http://www.bernardlonergan.com/index.php


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Lonergan, quem ?
por Mendo Castro Henriques

O CEFi da Universidade Católica vai iniciar no proximo sábado, dia 14, as Conferências sobre o Pensamento Económico de Bernard Lonergan. Lonergan, quem ? Baste aqui indicar que a sua famosa teoria da probabilidade emergente é uma ferramenta que permite demonstrar que a probabilidade de um ciclo de negócio se transformar em um ciclo puro aumentará se (1) o número de empreeendores for maximizado; e se (2) a competição macroeconómica for assegurada. Estes dois factores estão condicionados pelo nível de conhecimento sobre o processo macroeconómico. E a formação eleva a probabilidade do ciclo puro económico.
Esta sequência de condicionalismos é a maneira de Lonergan exprimir o que de há muito se diz: estamos a caminho da "Sociedade do Conhecimento". Vamos crer que é verdade! Ainda temos que aprender a viver pacificamente com o nosso próximo e com a natureza. Mas a Sociedade de Conhecimento tem de começar por um esforço de educação nas complexidades da macroeconomia. Só assim daremos melhores respostas. A primeira etapa é fácil: expandir os bens de produção. Mas quando a desaceleração dos lucros começa a sinalizar a expansão básica para melhorar o padrão de vida da sociedade, o significado da desaceleração é mal entendido, e os investidores (incluindo os banqueiros e os accionistas) ficam frenéticos.
Como Lonergan diz: "A dificuldade surge na segunda etapa, a expansão básica. Os moralistas responsabilizam a ganância, a avidez. Mas a causa principal é a ignorância. Poucos percebem e poucos ensinam a dinâmica da produção. E quando as pessoas não compreendem o que está a acontecer, não se pode esperar que actuem de modo inteligente. Quando a inteligência desaparece, a primeira lei da natureza é a auto-preservação. São esses esforços frenéticos que transformam a recessão em depressão, e a depressão em falência."
Oa Investidores pouco mais têm para racionalizar as suas decisões do que a célebre filosofia de Keynes que "o mal é útil, o justo não é." Há melhor que auto-preservação, mesmo que conduza às guerras e ao terrorismo ? Segundo Lonergan, há uma alternativa racional ainda por adoptar. Num sentido muito real, o ciclo puro é a onda do futuro. Mas perceber exige mais que o fim da ganância. Exige uma conversão intelectual.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A enxerga podre

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão



Guerra Junqueiro nunca foi um poeta na minha mesa de cabeceira nem é figura pública que me seja simpática depois de ter sabido que, estando em Madrid por ocasião do assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe pelos republicanos, teve o mau gosto de lamentar estar longe e não poder beijar a mão dos criminosos. Mas pouco depois, desiludido com aquilo a que Eça de Queiroz chamou a “balbúrdia sanguinolenta da República”, escreveu pelo seu punho que toda a movimentação frenética de partidos, governos e maçonaria, estando o país em estado lastimoso, lhe parecia “uma enxerga podre cheia de percevejos”. Hoje acho apropriado lembrá-lo.
E acho porque, com a internet e a RTP-Internacional, posso, com mais cerca de cinco milhões de portugueses expatriados, ver e ouvir o que vai pela Pátria. Ao que acrescento os jornais que recebo, e outros portugueses receberão, assim como os telefonemas de amigos. Estamos todos cientes. E fartos. Tão fartos que, em relação à programação televisiva, já não estou sózinha a abençoar o remote control que nos permite cortar o pio aos jovens carreiristas de hoje, dignos herdeiros dos lacaios das internacionais de ontem, quando matraqueiam ameaças, arrotam chicanas, bolsam ignorâncias primárias, papagueiam calúnias e intrigas, rebolando-se na enxerga podre a que reduziram Portugal, sem o menor rebuço ou remorso pois só conhecem o seu próprio umbigo, só defendem o seu lugar à mesa do orçamento que o povo, aflito, sustenta. Não os oiço e vejo sem que me lembre de Almada-Negreiros, quando em poema se referiu aos políticos: “maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames”.
O que mais dói neste estado de coisas é o absoluto desamor dessa gentinha por Portugal, o mal que essa gentinha tem feito, e faz, a Portugal, o egoísmo que todos eles mostram pelos compatriotas que sofrem o desemprego, a casa a caír, as dívidas para pagar, os medicamentos que não se podem comprar, os filhos que hão-de ficar com as asas cortadas por não terem meios para continuarem os estudos, e até a fome que já atinge uma substancial faixa da sociedade portuguesa. E poderiam muitos deles compreender se nunca trabalharam, se nunca tiveram de mostrar mérito e empenhamento, já que devem tudo à política? Se lhes falhar a carreira política, ficam sem emprego e sem préstimo. Será por sabê-lo que muitos entram na corrupção, no salve-se quem puder. Problemas deles, que se danem.
Portugal é que não merece o que se passou nos últimos cem anos, às mãos de vilões da política que lhe deram uma ditadura e dois arremedos de democracia, cujo balanço se afigura criminoso.
Que os comunistas desejem um regresso à ditadura, porque só na ditadura o comunismo medra, qual bacilo malfazejo, ainda posso compreender (e, de resto, Álvaro Barreirinhas Cunhal disse-o claramente à jornalista Oriana Fallaci, em 1975). Mas já me causa perturbação ver que, sem coração nem inteligência, sem vergonha nem senso, os outros partidos trabalhem no mesmo sentido. Se o povo português, por resistência activa ou passiva, não puser cobro a isto, se não deitar fogo à enxerga e matar os piolhos que a infestam, então poderemos dizer que tem o que merece.

Uma dúvida

Uma dúvida cresce: quem é que está disposto a emprestar dinheiro à actual classe política portuguesa? E em troca de quê?


European Finance Chiefs See ‘Worrying’ Trends in Bond Markets


By Meera Louis

Feb. 9 (Bloomberg) -- European finance ministers are increasingly concerned that certain governments are finding it harder to borrow in financial markets as budget deficits mount and economies slump, according to a confidential report prepared for this week’s Group of Seven meeting.

The widening gaps between the interest rates different euro-area nations must pay bond investors are “worrying developments,” according to a “speaking note” prepared for Luxembourg Finance Minister Jean-Claude Juncker. Ministers also are concerned about weak demand at some government bond auctions, according to the document. Juncker will represent counterparts from the euro-area nations at the gathering of G-7 finance chiefs on Feb. 14 in Rome.

The split between the rates Spain, Italy, Greece and Portugal must pay in financial markets to borrow for 10 years and the rate charged to Germany ballooned this year to the widest since before they joined the euro. That is threatening to hobble the recovery of the region’s weakest economies and even raising doubts about the future of the single currency bloc.

(...)

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Duas palavras de D. António dos Reis Rodrigues

Discurso de D. António dos Reis Rodrigues na apresentação dos seus livros sobre Doutrina Social da Igreja

Universidade Católica
2008 07 14

… E permitam que acrescente mais duas palavras.

Um dia, quando Jesus iniciou a sua pregação, encontravam-se a ouvi-lo dois discípulos que O haviam seguido. E o Senhor voltou-Se e, notando que eles O não largavam, perguntou-lhes: “Que pretendeis?” E eles responderam: “Mestre, onde é que moras?” Jesus respondeu-lhes. “Vinde e vereis”. Os discípulos seguiram-nO e viram aonde Aquele com quem falavam residia. Ficaram com ele nessa tarde e, desde então, para o futuro.

André era um dos que O seguiram. Encontrou primeiro o seu irmão Simão e disse-lhe: “Encontrámos o Messias”. Levou-o até Jesus, o qual, fixando nele o seu olhar, declarou: “Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas”, que significa Pedro. Este Simão, este Cefas, veio a ser o primeiro Papa.

Estavam assim encontrados os dois primeiros discípulos. Outros, pouco a pouco, vieram, até constituírem os doze Apóstolos, chamando-se uns aos outros, com este simples convite, que era para qualquer um deles uma aventura: “Vinde e vereis”. E com estas palavras nasceu a Igreja.

Foi este chamamento que, à distância de tantos anos, eu também, surpreendentemente, ouvi: “Vem e verás!” Larguei o que tinha e, sem nada, apresentei-me no Seminário e, depois, servi onde o meu Prelado, os senhores Cardeal Cerejeira e depois o Cardeal António Ribeiro, que lembro todos os dias, tinham necessidade da minha presença. Anos depois, com estranheza minha, fui Bispo, onde continuei a servir a Igreja. E hoje, com noventa anos, continuo a servir a Igreja, como penso que sempre a servi, com as graças que Jesus me tem dado ao longo de uma vida inteira, deixando de lado os meus pecados e a triste consequência da miséria que nasce deles.

Foge-me o tempo e muito apreciaria, agora que já não sirvo para o ministério, publicar mais algumas páginas, a somar às que já foram tornadas públicas. O que não fiz na minha vida activa seria compensado com o trabalho que eu ainda poderia ter. Mas todos os dias me vem faltando a saúde e penso, a cada momento, que me aproximo da morte. “A terra produz por si, primeiro o caule, depois a espiga e, finalmente, o trigo perfeito na espiga. E, quando o fruto amadurece, logo ele lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa” (Mc. 4, 28-29).

Que posso mais dizer? O meu espírito abre-se de novo ao futuro, mas o futuro a Deus pertence. Talvez Deus tenha para mim algumas páginas ainda por escrever, apesar do peso dos anos que vou tendo.

Muito obrigado!


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Nota biográfica

D. António dos Reis Rodrigues nasceu em Ourém em 24 de Junho de 1918.
Enquanto estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, onde se formou em 1941, foi presidente geral da Juventude Escolar Católica (JEC), dirigente das Conferências de São Vicente de Paulo, fundador e director da Flama, jornal de estudantes.
Em 1942, entrou para o Seminário dos Olivais, sendo ordenado sacerdote em 1947 e nomeado cónego da Sé Patriarcal em 1955.
Durante 18 anos (1947-1965) foi assistente nacional e diocesano da Juventude Universitária Católica (JUC) e durante 16 anos (1947-1963) capelão da Academia Militar.
No Instituto de Serviço Social foi professor de Doutrina Social da Igreja e durante alguns anos responsável pelo programa religioso da Radiotelevisão Portuguesa, programa de que resultou o volume O Tempo e a Graça, publicado em 1967.
Em Julho de 1966, foi nomeado Vigário-Geral Castrense, pouco depois Director Nacional da Obra Católica Portuguesa das Migrações e, em Outubro do mesmo ano, eleito Bispo titular de Madarsuma, tendo recebido a ordenação episcopal em 8 de Janeiro de 1967, na Igreja dos Jerónimos, em Lisboa. Desempenhou as funções de Pró-Vigário Castrense e Capelão-Mor das Forças Armadas entre 1967 e 1975, ano em que foi nomeado bispo-auxiliar do Patriarcado de Lisboa.
Na Conferência Episcopal Portuguesa, exerceu, de 1967 a 1981, o cargo de Presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo; de 1975 a 1981, o de Secretário da Conferência; e, de 1981 a 1984, o de Vice-Presidente. Fez parte, por vários mandatos, do Conselho Permanente da Conferência. No quinquénio de 1972-1977, foi, por designação pontifícia, membro da Comissão Pontifícia das Migrações e Turismo.
No Patriarcado de Lisboa foi Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico (de 1990 a 1995) e Vigário Geral, funções que exerceu desde 1983 até à data da sua jubilação em 5 de Setembro de 1998.
Foi membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa e da Sociedade Cientifica da Universidade Católica Portuguesa. É autor de diversos livros, nomeadamente o estudo Pessoa, Sociedade e Estado; Nuno Álvares, Condestável e Santo; Vidas Autênticas; O homem e a ordem social e política; Sobre o uso da Riqueza e A palavra de Deus saída do Silêncio.
Testemunho
D. António dos Reis Rodrigues deixa o seu nome ligado a gerações de jovens universitários pela formação que lhes ofereceu e pelo cunho de compromisso humano e cristão na sociedade com que impregnou as suas vidas. A homenagem que, há cerca de cinco anos, esses numerosos militantes da JUC lhe prestaram, foi um sinal público e eloquente do muito que lhe ficaram a dever. Muitos deles ocuparam e ocupam ainda, nestas três décadas de democracia portuguesa, lugares de particular relevo, em variadíssimas áreas da vida nacional, o que atesta o grau de empenhamento, adquirido através da acção do seu assistente religioso.
Como bispo-auxiliar de Lisboa, D. António dos Reis Rodrigues dedicou especial atenção à organização pastoral do Patriarcado de Lisboa, distinguindo-se pelo acompanhamento dos sacerdotes, párocos e responsáveis de outras estruturas eclesiais, zelando pelo cumprimento das suas obrigações e oferecendo perspectivas renovadas, impostas pelos novos tempos que entretanto surgiram.
O Patriarcado de Lisboa fica ainda devendo a D. António o enriquecimento cultural do espaço museológico de São Vicente de Fora, com justa e particular referência à criação do Museu dos Patriarcas.
D. António morreu no dia 3 de Fevereiro de 2009.

Fonte: Patriarcado de Lisboa

terça-feira, fevereiro 03, 2009

O novo partido do outlet

Nos últimos meses tem sido aventada a possibilidade de estar em gestação mais um partido ideológico na chamada “esquerda da esquerda”.

Há com efeito uma receita alemã, criada por Oskar Lafontaine, ainda por experimentar em Portugal. Em Maio de 2005, Lafontaine abandonou o SPD para formar com os ex-comunistas da Alemanha de Leste o chamado “Partido da Esquerda” (Die Linkspartei). A receita permitiu-lhe obter 8,7% dos votos nas eleições federais, mas tem estado a levedar nas sondagens, hoje com 12% a 13% das intenções de voto. Vai daí, a receita acaba de ser traduzida para francês por Jean-Luc Mélenchon, que lança agora o “Parti de Gauche” em dissidência com o PSF. Mélenchon pretende obviamente atrair as mais díspares irmandades das “esquerdas da esquerda” francesa, para conseguir garantir um bom número de assentos no próximo Parlamento de Estrasburgo.

Em Portugal, há uma “esquerda da esquerda” congénere da irmandade de Mélenchon, e que tem estado sobretudo dentro do PS, tal como em França estava dentro do PSF. As receitas dessa “esquerda” que fala português têm estado sob o signo da Alemanha desde o quadriénio de 1969-73. No entanto, e por uma quase atávica limitação linguística que vem desde o século XIX, para que adopte as receitas alemãs, tem o figurino que ser primeiro apresentado em Paris. Ora com o "Die Linke" agora traduzido para francês, já não deve faltar muito para surgir também em Portugal um novo “Partido da Esquerda”.

O que é que se tentará com esse novo partido? Juntar sob o mesmo tecto, em comunhão de mesa, as mais díspares irmandades da “esquerda da esquerda”. Com a crise que aí está, creio que os planos da irmandade do PS português, ávida por mais assentos em Estrasburgo, podem no entanto ainda vir a ser perturbados pelas outras irmandades da “esquerda”.

É muito antiga a irmandade que, nos arredores de Paris, acaba de lançar o “Parti de Gauche”. Tem dimensão europeia e, tal como os seus irmãos portugueses, vem do “socialismo republicano” saído das Luzes e do jacobinismo da Revolução francesa. A tabuleta e o figurino do outlet não enganam: já se vestiram sem coullotes, com cravatte, sem cravatte, com jaquetão de operário e, em Itália, até com camisas negras de tipo militar, quando os “socialistas revolucionários” de Mussolini fizeram a dissidência dos fasci no PS italiano.

Hoje, a moda do outlet é obviamente outra, com figurinos e slogans adaptados a estes tempos do cosmopolitismo financeiro. Nos dias que correm, tanto podem pôr gravata de seda, como enrolar um keffiyeh (lenço palestino) à volta do pescoço, ou ainda sair amarrotados e despenteados para ir à vernissage.

Esta irmandade tem sido um verdadeiro prodígio nas habilidades coreográficas, mas os slogans estão aí e, como a seu tempo se verá, não deverão ser muito diferentes dos alemães e franceses: “fazer prevalecer o interesse geral perante os interesses privados”; “combater o neoliberalismo”; a “economia de casino”; “ousar mudar de sistema”, “civilizar o capitalismo”, etc., etc.

Entre nós, na irmandade que fala português, ainda não há muito tempo se diziam “republicanos, laicos e socialistas”. Os mais calvos e grisalhos, manterão decerto a gravata de seda, e o tique da “ética republicana” e do “laicismo”, mas, pelo novo figurino do outlet, os restantes tenderão agora a usar cada vez menos a gravata e a dizer cada vez mais que são contra o “pensamento único” do “produtivismo capitalista". Para atrair outras franjas, dirão também, é claro, que são contra as “discriminações”, pelo “feminismo”, e pela “urgência ambiental”. Enfim, apresentar-se-ão como sendo a "Esquerda”, com maiúscula - a “Esquerda autêntica”.

Há porém por aqui outras irmandades, forjadas nos “movimentos operários” e nas “tradições revolucionárias" que fizeram viver o movimento comunista. O sucesso da tradução para português do Parti de Gauche, da irmandade jacobina do PS português, vai pois depender da adesão que conseguir obter junto dessas outras irmandades. Nestes novos tempos de convulsão e crise social, há cumplicidades e afinidades geopolíticas - com russos, sírios, palestinos, cubanos, bolivianos, venezuelanos – que não deixarão, a exemplo do que sucede na Alemanha e em França, de ter aqui também o seu papel.

Dir-me-ão que bastará juntar o “Bloco de Esquerda” com os futuros dissidentes do PS, para que a coisa produza uma apreciável quantidade de assentos em Estrasburgo. Sim, mas para se aplicar aqui a fórmula do outlet, terão ainda que lhe juntar ao menos alguma parte do PCP, e da sua base “sindical”, ou o que dela resta. Só então teremos no cadinho os ingredientes da receita alemã, recentemente traduzida em francês.

A continuarem por muito tempo estes dias cinzentos do outlet do Freeport, creio que, lá mais para diante, até mesmo “um novo socialismo científico” é bem capaz de conseguir aterrar no aeroporto da Portela.



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Outlet - Loja onde são comercializados produtos a preços mais baixos, por pertencerem a colecções passadas ou por apresentarem pequenos problemas.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Miguel Sousa Tavares e a rapariga dos vinte e tal

"Eu penso que Portugal não vale muito como nação e como povo - aquilo que nos separa da inviabilidade não é tanto como, por inércia, nos habituámos a pensar. Vejo Portugal um pouco como aquelas mulheres fatais que, entre os vinte e tal e os quarenta e poucos anos, se habituaram a reinar como princesas, seduzindo e cativando tudo à roda e julgando-se eternamente senhoras do jogo. Mas, um dia, olham-se ao espelho, percebem que o seu poder de sedução está a desaparecer e correm para as plásticas, para os ginásios ou para um sem-número de truques com os quais julgam poder enganar eternamente o que, pela natureza das coisas, tem um fim. Um dia, dissipado o nevoeiro do espelho, com a miserável realidade das facturas para pagar, extinto o charme do fado, do sol e do bidonville algarvio, Portugal dar-se-á conta de que está sozinho e de que já ninguém se deixa seduzir pelo seu jogo de mulher fatal da Europa, o país "que deu novos mundos ao mundo", o Infante, as caravelas e toda essa conversa gasta (estive em Sagres no fim-de-semana passado, fui visitar, mais uma vez, aquela "intervenção" na Fortaleza e o que vi não foram rastos da memória do Infante, mas sim uma infame paisagem de terceiro-mundo, que é o verdadeiro e eloquente retrato da suposta 'modernidade' com que os tolos se distraem e nos pretendem distrair). Os países, tal como as pessoas, podem viver da aparência ou da substância. Mas não viverão sempre da aparência se não tiverem substância que a suporte."

in Expresso, Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009.

Não sei se neste excerto MST reincide no assunto. Confesso que tenho lido muito pouco os seus textos e raramente vou além dos títulos e dos primeiros parágrafos. Desta vez, porém, levado pela melancolía do letreiro - «E este céu sempre cinzento» -, avancei ao ponto de encontrar o que aqui fica citado. Nunca é demais recordar estes verdadeiros testemunhos para prova de como em todos os tempos e em maravilhosa unidade, as flores do espírito nacional sempre vigorosamente desabrocham, mesmo nas suas mais remotas inteligências.

Dentro de um lusismo de sabor medievo, aqui e além penetrado de influxos renascentistas, cabe aqui salientar o alto sentido crítico e moralizador, em palavras dignas de registo como título de nobreza de uma inteligência afinal farta. Com tão inspirada fé e esperança, que a prancheta dos historiadores as venha a recolher entre as melhores flores de linguagem do seu hinário; aqui se depreendem e agitam conceitos que tocam ao problema do destino do homem, na difícil harmonia moral dos planos da vida e da morte. Ao sacrifício de uma rapariga de vinte e tal, princesa das seduções, ficam as letras portuguesas desde hoje devendo um título da mais alta nobreza e glória imortal.

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domingo, fevereiro 01, 2009

Merkel no papel de Ângela

O Congresso dos EUA aprovou o plano de salvação de Obama, no valor de 820 biliões de dólares, dos quais 563 biliões se destinam a projectos de infra-estruturas. A velha receita, continua afinal muito viçosa: enterrar-se-á a depressão sob o peso de toneladas e toneladas de cimento e aço.

O que não tem sido muito notado por esse mundo fora – talvez com a excepção do Canadá - é que o uso de aço estrangeiro ficou proibido. Oh Yes, They Can... Foi-se o "hard power" de Bush, e veio o "smart power" de Obama, mas nem por isso a pancada vai fazer doer menos aos vizinhos do norte.

A China, a Índia, e a Rússia, entre outros, foram a Davos criticar o proteccionismo dos EUA. Sim, mas todos eles já tomaram medidas de protecção e, no caso da Rússia, mesmo de ataque, desde a moeda às energias.

Enquanto isto, a sra. Merkel representou em Davos o papel de Ângela, lançando um grande e eloquente apelo à concórdia universal, com muitas loas ao comércio livre e à regulação monetária internacional. O lado mais escuro das suas palavras foram dedicadas às “experiências de direcção económica” dos EUA, dizendo a dado passo, com salivosa energia teutónica, que estes estão a “distorcer o comércio” com o seu plano de salvação da indústria automóvel. É claro que a Sra. Ângela não falou do seu próprio plano para o sector, e deve ter sido por isso que l’Osservatore Romano a colocou hoje a caminho dos altares.

Quando é assim, não será preferível dar aplauso a uma francesa como a Sra. Christine Lagarde que, candidamente, foi a Davos dizer que o proteccionismo se tornou um “mal necessário”?

Não sei se a Sra. Lagarde é crente, mas folgo em saber que não é hipócrita, e acredita, como eu, crente e pecador, que há valor nos peditórios que se fazem pelas almas dos que pagam os impostos no seio da sua tribo.

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Subscrição pública?

O tema do colapso do Euro já deixou de ser uma fantasia de uns quantos lunáticos. Tal hipótese, deixou de ser ignorada pela equipa do Spiegel. E, hoje mesmo, o tema subiu também para a 1ª página do jornal Le Monde (edição impressa). Cumpre saudar o discernimento de alemães e franceses. Enterrar a cabeça na areia, não é de facto a solução.

Em Portugal, porém, o assunto continua a ser tabu. Por aqui, só se fala dos milhões em falta nas contas dos donos do "outlet". Compreende-se. A actual classe política, e não apenas o actual primeiro-ministro, parece ter jogado todo o seu destino no "euromilhões" dos "outlets".

Hoje, há quem proponha uma subscrição pública - uma "colecta" - para "limpar" a honra portuguesa (Medeiros Ferreira, no Correio da Manhã). Pode ser uma solução para o caso, e talvez mesmo a melhor solução. Mas, quando é que começa a colecta pública para salvar o Estado português da bancarrota?

É que ainda há aqui muitos portugueses que nunca tomaram qualquer decisão acerca dos milhões de "outlets" europeus em Portugal, e a quem não saiu nem vai sair o "euromilhões" para pagar os calotes do "Estado a que isto chegou".

Ter-me-ei transformado num lunático, ao preocupar-me com o calote das futuras gerações de portugueses?

Recuperar a dignidade da Política, continua a ser a nossa mais urgente necessidade.

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A benção de Ramalho

O espaço «unica semper avis» acaba de juntar uma nova página ao seu corpus:

"A benção de Ramalho", por Hipólito Raposo. Eis o excerto que lhe dá o título:

[Ramalho Ortigão] "referindo-se então às desgraças, violências e crimes da República, entrava a acusar fortemente a sua gloriosa e nefasta geração [de 70]:

- Fomos demolidores, negativos e dissolventes. Nada respeitámos, nada soubemos salvar; e as ruínas que hoje deploramos, ao desvario mental, aos erros dos homens do meu tempo devem ser atribuídas. Vejo agora [por vós, jovens integralistas lusitanos] aberto o caminho da salvação nacional: sigam por ele, para bem da Pátria cega e martirizada. Neste exame de consciência, sinto remorsos, com grande pena de não vos acompanhar. Cheguei tarde, só a tempo de vos dar a benção para a jornada..."


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Hipólito Raposo, "A benção de Ramalho" in Oferenda, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1950, pp. 144-156.

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sexta-feira, janeiro 30, 2009

1º de Fevereiro de 2009

REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA

PARTICIPAÇÃO

A Direcção da Real Associação de Lisboa comunica que, com a assistência da Família Real, a Santa Missa por alma de Sua Majestade El Rei Dom Carlos I de Portugal e de Sua Alteza Real o Senhor Dom Luiz Filipe será celebrada na Sé Patriarcal de Lisboa, sendo presidida pelo Reverendissimo Deão do Cabido, Cónego Doutor Manuel Lourenço, no domingo dia 1 de Fevereiro de 2009 às 19 horas. A alteração ao local habitual deve-se às obras em curso na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora.


16.00 horas: Homenagem de S.S. A.A. R.R. os Duques de Bragança a S.M. El Rei Dom Carlos I e S.A.R. Dom Luiz Filipe, no Panteão Real.

17.00 horas: Deposição de coroa de flores no Terreiro do Paço.

Onde estão as elites portuguesas?

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Futuro do "euro" - esboçam-se cenários




No dia 26, o tema da desagregação da UEM foi abordado nas páginas do Financial Times:

Gideon Rachman, "When Europe starts to melt at the edges", FT, January 26 2009

Motivo: alguns entusiastas da UEM, têm vindo a analisar vários cenários, entre os quais, a desagregação:


A number of scenarios are possible.

The most straightforward – accelerated political integration within the eurozone and a move to some form of fiscal federalism – is the least likely.

Another would be a bail-out of the affected member-states by the rest of the eurozone. This is unlikely, but not totally inconceivable, especially if a bail-out were accompanied by IMF-style conditionality. An insolvent member-state could also default on its debt, but remain in the eurozone, or go for the ‘nuclear option’, which would be to default and leave the eurozone.

However, the most likely outcome is that the hardest-hit countries will be forced into wrenching fiscal adjustment and that Germany and others with large external surpluses will take modest steps to rebalance their economies. Eurozone economic growth will be weak, and some member-states will experience prolonged stagnation.

Governments will struggle to manage the political strains caused by fiscal austerity at a time of anaemic economic growth, and political tensions between the member-states will rise.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Encerramento do Centenário da morte do Rei D. Carlos

Amanhã, dia 27 de Janeiro, terça-feira , as _18_h_30_, realiza-se, na Universidade Católica em Lisboa (Grande Auditorio da Biblioteca João Paulo II), a Sessão Solene de Encerramento do Centenário da morte do Rei D. Carlos, organizada pela Comissão D. Carlos 100 anos.

Esta Sessão, que contará com a presença dos Senhores Duques de Bragança , terá como conferencista o antigo Presidente do Parlamento Europeu D. José Maria Gil-Robles que falará sobre a «A Monarquia Constitucional na Europa de hoje». Ao longo do dia e associado a este evento, terá lugar, no mesmo local o Colóquio da Universidade Católica Portuguesa, subordinado ao tema O Rei D. Carlos e a Monarquia Constitucional.



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domingo, janeiro 25, 2009

À espera do caos

A teoria que mais tem sido difundida diz que a crise financeira foi provocada pela crise do subprime, em resultado da ganância de banqueiros sem escrúpulos. A teoria ajustava-se bem aos ouvidos da turba de votantes e, como era necessário fazer eleger Obama, servia às mil maravilhas na cruzada contra Bush. Não foi difícil arranjar uns quantos banqueiros como bodes expiatórios.

O que na altura não se explicava, e ainda não tem sido suficientemente explicado, é que o subprime tinha revelado a crise, mas não era a sua causa. Por detrás do subprime estava um longo período de baixas taxas de juro combinado com um enorme afluxo de capitais resultantes dos lucros obtidos na China, Singapura e nos petroestados do Golfo Pérsico. O mecanismo do subprime levou à explosão, foi o seu detonador, mas não foi a matéria explosiva. À superfície havia banqueiros em busca de lucros, mas no fundo havia investidores em busca de altas rentabilidades.

Em resultado da crise financeira dos últimos meses, os pessimistas dão como certo um cenário de generalizada “stag-deflation”, i. e., uma situação em que surgirão combinadas a estagnação/recessão e a deflação (queda de preços). Para estes, a dúvida parece centrar-se hoje em saber qual a forma do gráfico depressivo: será um gráfico em “U” ou será um gráfico em “L”? Um gráfico em “U” quer dizer que, quando se atingir o fundo, haverá uma assinalável recuperação; um gráfico em “L” quer dizer que, ao atingir-se o fundo, seguir-se-á um longo período de estagnação. Os mais pessimistas não descartam a hipótese de um “L” bem alongado: “L__”.

Todos os mercados globais – mercados de acções, mercados financeiros, de matérias-primas, de bens de consumo, e de trabalho – estão na verdade a apresentar sinais negativos: há um excesso de oferta (queda na procura) em todas as frentes (com a excepção do emprego, obviamente), e o cenário mais plausível começa a ser o da “stag-deflation”.

Durante muito tempo, a preocupação principal na zona euro foi com a inflação. A avaliar pelas palavras de Trichet, essa é ainda a sua preocupação, quando diz que estamos ainda, e apenas, em “desinflação”. Apesar dos sinais de deflação, parece haver a expectativa de que, mais adiante, a inflação acabará por ressurgir, ajudando a reduzir as dívidas dos particulares e dos Estados. Os governos têm estado a injectar quantidades enormes de dinheiro no sistema financeiro e isso pode vir a converter-se em inflação. É um cenário ainda possível, se as rotativas – a impressão de dinheiro em notas de banco – forem aceleradas.

Há economias que estão a sofrer fortes pressões financeiras, como a Rússia e a Ucrânia, mas há ainda, além dos países do Báltico, outras economias muito vulneráveis na Europa, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, a Grécia, a Espanha (a economia portuguesa pertence-lhe, e o Estado português está a caminho da falência), e a Irlanda; na América, a Argentina, Venezuela, Equador e México; e na Ásia, o Paquistão, a Indonésia e a Coreia do Sul.

Mas, sem acelerar as rotativas, os EUA, não têm outra saída que não seja o de pagar as dívidas com mais dívidas. Ali não se podem dar ao luxo de alimentar expectativas de inflação, pois seriam forçados logo adiante a adoptar uma severa política de restrição monetária. Seria o fim do EUA, quando têm vários Estados já à beira da falência. Não têm pois outro caminho que não seja o de baixar os impostos e lançar grandes obras públicas. O que aponta para uma nova e fulgurante subida dos enormes deficits dos EUA.

Nos anos 80, o Japão e a Alemanha eram os grandes financiadores da dívida pública dos EUA, hoje a China já está à frente do Japão, numa dívida de mais de 5.500 biliões de dólares nas mãos de outros investidores estrangeiros, com a Rússia e os países exportadores de petróleo do Golfo em lugar de destaque.

Em 2005, a China abandonou a taxa de câmbio fixa em relação ao dólar, e a sua moeda apreciou-se em cerca de 20%. Em Novembro de 2008, a China deixou-a deslizar um pouco e, depois disso, tem estado a seguir uma evolução estável em torno de uma taxa de câmbio quase fixa em relação ao dólar.

Os optimistas dizem que não se põe a hipótese de um sério conflito entre os EUA e a China, porque esse conflito levaria a uma nova MAD (destruição mútua assegurada), não já apenas numa guerra nuclear, mas também numa guerra económica. Em linguagem positiva, diz-se que a China e os EUA atingiram o patamar da completa interdependência. Não estou tão certo disso, por três razões principais: 1º - A China e os EUA têm estruturas do PNB completamente diferentes, podendo levar os EUA a pensar que podem vencer a China atacando as suas exportações e reduzindo drasticamente o investimento; 2º - Sob o ataque dos EUA, a China pode ser forçada a fechar a torneira (deixar de financiar o défice dos EUA) para acorrer ao seu próprio deficit; 3º - A duração de um conflito financeiro entre os EUA e a China pode ser um factor determinante: se os chineses forem pacientes, e costumam sê-lo, podem conseguir despromover drasticamente a economia dos EUA, bem antes da sua economia entrar em depressão; o seu mercado interno tem muito mais espaço para crescer do que o dos EUA e, por isso, uma maior capacidade para absorver o impacto da queda das suas exportações.

Antes da crise, o mercado em Wall Street era o maior e mais globalizado do mundo. Continua a ser, mas esta crise já veio demonstrar que os EUA não fogem à lógica de todos os Estados capitalistas. Em última instância, quem manda em Wall Street é Washington, tal como se vai ver que, com a crise na China, quem manda em Xangai é Pequim, tal como quem manda em Mumbai é Nova Deli, e quem manda no Dubai é Abu Dabi. Os mercados e as moedas não têm fronteiras mas, em situação de crise, quem manda são os Estados. Na União Europeia, tem mandado Londres, Paris e Berlim, e na UEM, cada vez mais, e apenas, Berlim. Esta é uma lógica mortal para a UEM.

A retórica saída da última reunião do G20 dizia que todos iriam para casa preparar pacotes de salvação a aplicar de forma coordenada. Não é o que está a acontecer, nem é provável que venha a acontecer. Cada um dos Estados irá actuar de acordo com as suas próprias necessidades e, se possível, explorando as fragilidades dos mais directos competidores.

E o que é que os EUA querem?

Manter a sua moeda como a referência, fortalecer-se através do fortalecimento do FMI, rever o “Basil II”, decretar a morte do G8, e instituir o G20. Recusam a possibilidade de um novo Bretton Woods, i. e., regulação internacional e taxas de câmbio fixas, em relação a um padrão que não seja a moeda americana. Querem, evidentemente, continuar a ser o centro do mundo e a parasitar as periferias.

Esta é uma situação que pode vir a ser alterada em resultado da actual crise: a dívida dos EUA está hoje nas mãos dos Chineses, dos Russos, e dos instáveis países produtores do petróleo. O único Estado que os EUA quase conseguiram criar para servir o seu projecto de governo mundial foi a “União Europeia”. E, esse, corre hoje já um sério risco de vida.

E o que é que querem os outros Estados (os que ainda não deixaram de contar, por mérito e vontade própria)?

O que é que quer a França? - Um novo Bretton Woods, e a União do Mediterrâneo.

E o Reino Unido? - Um novo Bretton Woods (ainda que diferente do que é proposto pelo francês Sarkozy), e manter a Comunidade Britânica.

E a Rússia? – Um novo Bretton Woods, no qual não acreditam. O seu plano parece ser mais o de atrair a União Europeia para um projecto Euroasiático. Alguns russos julgam ser possível realizar com a União Europeia o que os EUA não têm conseguido – encontrar ali um único interlocutor. Com a União Europeia a pender mais para o lado da desagregação do que para o lado da União, com ou sem União Europeia, os Russos contam atrair parte do Leste. A Rússia continua destinada a ter uma palavra decisiva, se não mesmo a última palavra, no futuro da Eurásia.

O que é que a China quer? - Um novo Bretton Woods, e arredondar o seu território (manter o Tibete, e recuperar Taiwan). E não lhe peçam para adoptar o sistema político ocidental, que para ela representaria a fragmentação interna. Tal como está, o futuro pertence-lhe. E foi por isso que os EUA já lançaram para dentro da China a “Carta 08”.

Os restantes países do mundo, alguns dos quais se sentem hoje muito importantes por pertencer ao G20, ainda estão longe de contar de forma decisiva para a equação geopolítica global.

Resumindo: todos os grandes, com a excepção dos EUA, querem um novo Bretton Woods. Os EUA querem manter o que está, e continuar o seu projecto de “governo mundial”.

- Até quando vai ser mantido este impasse? Era a pergunta que me tinha colocado ao começar a escrever estas linhas. Hoje, ao abrir o jornal, encontrei o que parece ser a resposta americana para a depressão - acusam a China de estar a manipular o valor da sua moeda. Se for essa a resposta, o impasse terminou. Vem aí o admirável mundo novo da administração Obama. Se a mão de Timothy Geithner não for corrigida, se for essa a política da administração Obama, não haverá meio-termo: os EUA estão dispostos a perder tudo, ou a ganhar tudo. Nesse caso, seria o caos.


Sobre as palavras de Geithner, ver artigo em WSJ:
http://online.wsj.com/article/SB123275567586511815.html