Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Uma dúvida
European Finance Chiefs See ‘Worrying’ Trends in Bond Markets
By Meera Louis
Feb. 9 (Bloomberg) -- European finance ministers are increasingly concerned that certain governments are finding it harder to borrow in financial markets as budget deficits mount and economies slump, according to a confidential report prepared for this week’s Group of Seven meeting.
The widening gaps between the interest rates different euro-area nations must pay bond investors are “worrying developments,” according to a “speaking note” prepared for Luxembourg Finance Minister Jean-Claude Juncker. Ministers also are concerned about weak demand at some government bond auctions, according to the document. Juncker will represent counterparts from the euro-area nations at the gathering of G-7 finance chiefs on Feb. 14 in Rome.
The split between the rates Spain, Italy, Greece and Portugal must pay in financial markets to borrow for 10 years and the rate charged to Germany ballooned this year to the widest since before they joined the euro. That is threatening to hobble the recovery of the region’s weakest economies and even raising doubts about the future of the single currency bloc.
(...)
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Duas palavras de D. António dos Reis Rodrigues
Universidade Católica
2008 07 14
… E permitam que acrescente mais duas palavras.
Um dia, quando Jesus iniciou a sua pregação, encontravam-se a ouvi-lo dois discípulos que O haviam seguido. E o Senhor voltou-Se e, notando que eles O não largavam, perguntou-lhes: “Que pretendeis?” E eles responderam: “Mestre, onde é que moras?” Jesus respondeu-lhes. “Vinde e vereis”. Os discípulos seguiram-nO e viram aonde Aquele com quem falavam residia. Ficaram com ele nessa tarde e, desde então, para o futuro.
André era um dos que O seguiram. Encontrou primeiro o seu irmão Simão e disse-lhe: “Encontrámos o Messias”. Levou-o até Jesus, o qual, fixando nele o seu olhar, declarou: “Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas”, que significa Pedro. Este Simão, este Cefas, veio a ser o primeiro Papa.
Estavam assim encontrados os dois primeiros discípulos. Outros, pouco a pouco, vieram, até constituírem os doze Apóstolos, chamando-se uns aos outros, com este simples convite, que era para qualquer um deles uma aventura: “Vinde e vereis”. E com estas palavras nasceu a Igreja.
Foi este chamamento que, à distância de tantos anos, eu também, surpreendentemente, ouvi: “Vem e verás!” Larguei o que tinha e, sem nada, apresentei-me no Seminário e, depois, servi onde o meu Prelado, os senhores Cardeal Cerejeira e depois o Cardeal António Ribeiro, que lembro todos os dias, tinham necessidade da minha presença. Anos depois, com estranheza minha, fui Bispo, onde continuei a servir a Igreja. E hoje, com noventa anos, continuo a servir a Igreja, como penso que sempre a servi, com as graças que Jesus me tem dado ao longo de uma vida inteira, deixando de lado os meus pecados e a triste consequência da miséria que nasce deles.
Foge-me o tempo e muito apreciaria, agora que já não sirvo para o ministério, publicar mais algumas páginas, a somar às que já foram tornadas públicas. O que não fiz na minha vida activa seria compensado com o trabalho que eu ainda poderia ter. Mas todos os dias me vem faltando a saúde e penso, a cada momento, que me aproximo da morte. “A terra produz por si, primeiro o caule, depois a espiga e, finalmente, o trigo perfeito na espiga. E, quando o fruto amadurece, logo ele lhe mete a foice, porque chegou o tempo da ceifa” (Mc. 4, 28-29).
Que posso mais dizer? O meu espírito abre-se de novo ao futuro, mas o futuro a Deus pertence. Talvez Deus tenha para mim algumas páginas ainda por escrever, apesar do peso dos anos que vou tendo.
Muito obrigado!
________________________________________
Nota biográfica
D. António dos Reis Rodrigues nasceu em Ourém em 24 de Junho de 1918.
Enquanto estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, onde se formou em 1941, foi presidente geral da Juventude Escolar Católica (JEC), dirigente das Conferências de São Vicente de Paulo, fundador e director da Flama, jornal de estudantes.
Em 1942, entrou para o Seminário dos Olivais, sendo ordenado sacerdote em 1947 e nomeado cónego da Sé Patriarcal em 1955.
Durante 18 anos (1947-1965) foi assistente nacional e diocesano da Juventude Universitária Católica (JUC) e durante 16 anos (1947-1963) capelão da Academia Militar.
No Instituto de Serviço Social foi professor de Doutrina Social da Igreja e durante alguns anos responsável pelo programa religioso da Radiotelevisão Portuguesa, programa de que resultou o volume O Tempo e a Graça, publicado em 1967.
Em Julho de 1966, foi nomeado Vigário-Geral Castrense, pouco depois Director Nacional da Obra Católica Portuguesa das Migrações e, em Outubro do mesmo ano, eleito Bispo titular de Madarsuma, tendo recebido a ordenação episcopal em 8 de Janeiro de 1967, na Igreja dos Jerónimos, em Lisboa. Desempenhou as funções de Pró-Vigário Castrense e Capelão-Mor das Forças Armadas entre 1967 e 1975, ano em que foi nomeado bispo-auxiliar do Patriarcado de Lisboa.
Na Conferência Episcopal Portuguesa, exerceu, de 1967 a 1981, o cargo de Presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo; de 1975 a 1981, o de Secretário da Conferência; e, de 1981 a 1984, o de Vice-Presidente. Fez parte, por vários mandatos, do Conselho Permanente da Conferência. No quinquénio de 1972-1977, foi, por designação pontifícia, membro da Comissão Pontifícia das Migrações e Turismo.
No Patriarcado de Lisboa foi Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico (de 1990 a 1995) e Vigário Geral, funções que exerceu desde 1983 até à data da sua jubilação em 5 de Setembro de 1998.
Foi membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa e da Sociedade Cientifica da Universidade Católica Portuguesa. É autor de diversos livros, nomeadamente o estudo Pessoa, Sociedade e Estado; Nuno Álvares, Condestável e Santo; Vidas Autênticas; O homem e a ordem social e política; Sobre o uso da Riqueza e A palavra de Deus saída do Silêncio.
Testemunho
D. António dos Reis Rodrigues deixa o seu nome ligado a gerações de jovens universitários pela formação que lhes ofereceu e pelo cunho de compromisso humano e cristão na sociedade com que impregnou as suas vidas. A homenagem que, há cerca de cinco anos, esses numerosos militantes da JUC lhe prestaram, foi um sinal público e eloquente do muito que lhe ficaram a dever. Muitos deles ocuparam e ocupam ainda, nestas três décadas de democracia portuguesa, lugares de particular relevo, em variadíssimas áreas da vida nacional, o que atesta o grau de empenhamento, adquirido através da acção do seu assistente religioso.
Como bispo-auxiliar de Lisboa, D. António dos Reis Rodrigues dedicou especial atenção à organização pastoral do Patriarcado de Lisboa, distinguindo-se pelo acompanhamento dos sacerdotes, párocos e responsáveis de outras estruturas eclesiais, zelando pelo cumprimento das suas obrigações e oferecendo perspectivas renovadas, impostas pelos novos tempos que entretanto surgiram.
O Patriarcado de Lisboa fica ainda devendo a D. António o enriquecimento cultural do espaço museológico de São Vicente de Fora, com justa e particular referência à criação do Museu dos Patriarcas.
D. António morreu no dia 3 de Fevereiro de 2009.
Fonte: Patriarcado de Lisboa
terça-feira, fevereiro 03, 2009
O novo partido do outlet
Nos últimos meses tem sido aventada a possibilidade de estar em gestação mais um partido ideológico na chamada “esquerda da esquerda”.
Há com efeito uma receita alemã, criada por Oskar Lafontaine, ainda por experimentar em Portugal. Em Maio de 2005, Lafontaine abandonou o SPD para formar com os ex-comunistas da Alemanha de Leste o chamado “Partido da Esquerda” (Die Linkspartei). A receita permitiu-lhe obter 8,7% dos votos nas eleições federais, mas tem estado a levedar nas sondagens, hoje com 12% a 13% das intenções de voto. Vai daí, a receita acaba de ser traduzida para francês por Jean-Luc Mélenchon, que lança agora o “Parti de Gauche” em dissidência com o PSF. Mélenchon pretende obviamente atrair as mais díspares irmandades das “esquerdas da esquerda” francesa, para conseguir garantir um bom número de assentos no próximo Parlamento de Estrasburgo.
Em Portugal, há uma “esquerda da esquerda” congénere da irmandade de Mélenchon, e que tem estado sobretudo dentro do PS, tal como em França estava dentro do PSF. As receitas dessa “esquerda” que fala português têm estado sob o signo da Alemanha desde o quadriénio de 1969-73. No entanto, e por uma quase atávica limitação linguística que vem desde o século XIX, para que adopte as receitas alemãs, tem o figurino que ser primeiro apresentado em Paris. Ora com o "Die Linke" agora traduzido para francês, já não deve faltar muito para surgir também em Portugal um novo “Partido da Esquerda”.
O que é que se tentará com esse novo partido? Juntar sob o mesmo tecto, em comunhão de mesa, as mais díspares irmandades da “esquerda da esquerda”. Com a crise que aí está, creio que os planos da irmandade do PS português, ávida por mais assentos em Estrasburgo, podem no entanto ainda vir a ser perturbados pelas outras irmandades da “esquerda”.
É muito antiga a irmandade que, nos arredores de Paris, acaba de lançar o “Parti de Gauche”. Tem dimensão europeia e, tal como os seus irmãos portugueses, vem do “socialismo republicano” saído das Luzes e do jacobinismo da Revolução francesa. A tabuleta e o figurino do outlet não enganam: já se vestiram sem coullotes, com cravatte, sem cravatte, com jaquetão de operário e, em Itália, até com camisas negras de tipo militar, quando os “socialistas revolucionários” de Mussolini fizeram a dissidência dos fasci no PS italiano.
Hoje, a moda do outlet é obviamente outra, com figurinos e slogans adaptados a estes tempos do cosmopolitismo financeiro. Nos dias que correm, tanto podem pôr gravata de seda, como enrolar um keffiyeh (lenço palestino) à volta do pescoço, ou ainda sair amarrotados e despenteados para ir à vernissage.
Esta irmandade tem sido um verdadeiro prodígio nas habilidades coreográficas, mas os slogans estão aí e, como a seu tempo se verá, não deverão ser muito diferentes dos alemães e franceses: “fazer prevalecer o interesse geral perante os interesses privados”; “combater o neoliberalismo”; a “economia de casino”; “ousar mudar de sistema”, “civilizar o capitalismo”, etc., etc.
Entre nós, na irmandade que fala português, ainda não há muito tempo se diziam “republicanos, laicos e socialistas”. Os mais calvos e grisalhos, manterão decerto a gravata de seda, e o tique da “ética republicana” e do “laicismo”, mas, pelo novo figurino do outlet, os restantes tenderão agora a usar cada vez menos a gravata e a dizer cada vez mais que são contra o “pensamento único” do “produtivismo capitalista". Para atrair outras franjas, dirão também, é claro, que são contra as “discriminações”, pelo “feminismo”, e pela “urgência ambiental”. Enfim, apresentar-se-ão como sendo a "Esquerda”, com maiúscula - a “Esquerda autêntica”.
Há porém por aqui outras irmandades, forjadas nos “movimentos operários” e nas “tradições revolucionárias" que fizeram viver o movimento comunista. O sucesso da tradução para português do Parti de Gauche, da irmandade jacobina do PS português, vai pois depender da adesão que conseguir obter junto dessas outras irmandades. Nestes novos tempos de convulsão e crise social, há cumplicidades e afinidades geopolíticas - com russos, sírios, palestinos, cubanos, bolivianos, venezuelanos – que não deixarão, a exemplo do que sucede na Alemanha e em França, de ter aqui também o seu papel.
Dir-me-ão que bastará juntar o “Bloco de Esquerda” com os futuros dissidentes do PS, para que a coisa produza uma apreciável quantidade de assentos em Estrasburgo. Sim, mas para se aplicar aqui a fórmula do outlet, terão ainda que lhe juntar ao menos alguma parte do PCP, e da sua base “sindical”, ou o que dela resta. Só então teremos no cadinho os ingredientes da receita alemã, recentemente traduzida em francês.
A continuarem por muito tempo estes dias cinzentos do outlet do Freeport, creio que, lá mais para diante, até mesmo “um novo socialismo científico” é bem capaz de conseguir aterrar no aeroporto da Portela.
--- ... ---
Outlet - Loja onde são comercializados produtos a preços mais baixos, por pertencerem a colecções passadas ou por apresentarem pequenos problemas.
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Miguel Sousa Tavares e a rapariga dos vinte e tal
in Expresso, Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009.
Não sei se neste excerto MST reincide no assunto. Confesso que tenho lido muito pouco os seus textos e raramente vou além dos títulos e dos primeiros parágrafos. Desta vez, porém, levado pela melancolía do letreiro - «E este céu sempre cinzento» -, avancei ao ponto de encontrar o que aqui fica citado. Nunca é demais recordar estes verdadeiros testemunhos para prova de como em todos os tempos e em maravilhosa unidade, as flores do espírito nacional sempre vigorosamente desabrocham, mesmo nas suas mais remotas inteligências.
Dentro de um lusismo de sabor medievo, aqui e além penetrado de influxos renascentistas, cabe aqui salientar o alto sentido crítico e moralizador, em palavras dignas de registo como título de nobreza de uma inteligência afinal farta. Com tão inspirada fé e esperança, que a prancheta dos historiadores as venha a recolher entre as melhores flores de linguagem do seu hinário; aqui se depreendem e agitam conceitos que tocam ao problema do destino do homem, na difícil harmonia moral dos planos da vida e da morte. Ao sacrifício de uma rapariga de vinte e tal, princesa das seduções, ficam as letras portuguesas desde hoje devendo um título da mais alta nobreza e glória imortal.
...
domingo, fevereiro 01, 2009
Merkel no papel de Ângela
O que não tem sido muito notado por esse mundo fora – talvez com a excepção do Canadá - é que o uso de aço estrangeiro ficou proibido. Oh Yes, They Can... Foi-se o "hard power" de Bush, e veio o "smart power" de Obama, mas nem por isso a pancada vai fazer doer menos aos vizinhos do norte.
A China, a Índia, e a Rússia, entre outros, foram a Davos criticar o proteccionismo dos EUA. Sim, mas todos eles já tomaram medidas de protecção e, no caso da Rússia, mesmo de ataque, desde a moeda às energias.
Enquanto isto, a sra. Merkel representou em Davos o papel de Ângela, lançando um grande e eloquente apelo à concórdia universal, com muitas loas ao comércio livre e à regulação monetária internacional. O lado mais escuro das suas palavras foram dedicadas às “experiências de direcção económica” dos EUA, dizendo a dado passo, com salivosa energia teutónica, que estes estão a “distorcer o comércio” com o seu plano de salvação da indústria automóvel. É claro que a Sra. Ângela não falou do seu próprio plano para o sector, e deve ter sido por isso que l’Osservatore Romano a colocou hoje a caminho dos altares.
Quando é assim, não será preferível dar aplauso a uma francesa como a Sra. Christine Lagarde que, candidamente, foi a Davos dizer que o proteccionismo se tornou um “mal necessário”?
Não sei se a Sra. Lagarde é crente, mas folgo em saber que não é hipócrita, e acredita, como eu, crente e pecador, que há valor nos peditórios que se fazem pelas almas dos que pagam os impostos no seio da sua tribo.
...
Subscrição pública?
Em Portugal, porém, o assunto continua a ser tabu. Por aqui, só se fala dos milhões em falta nas contas dos donos do "outlet". Compreende-se. A actual classe política, e não apenas o actual primeiro-ministro, parece ter jogado todo o seu destino no "euromilhões" dos "outlets".
Hoje, há quem proponha uma subscrição pública - uma "colecta" - para "limpar" a honra portuguesa (Medeiros Ferreira, no Correio da Manhã). Pode ser uma solução para o caso, e talvez mesmo a melhor solução. Mas, quando é que começa a colecta pública para salvar o Estado português da bancarrota?
É que ainda há aqui muitos portugueses que nunca tomaram qualquer decisão acerca dos milhões de "outlets" europeus em Portugal, e a quem não saiu nem vai sair o "euromilhões" para pagar os calotes do "Estado a que isto chegou".
Ter-me-ei transformado num lunático, ao preocupar-me com o calote das futuras gerações de portugueses?
Recuperar a dignidade da Política, continua a ser a nossa mais urgente necessidade.
...
A benção de Ramalho
"A benção de Ramalho", por Hipólito Raposo. Eis o excerto que lhe dá o título:
[Ramalho Ortigão] "referindo-se então às desgraças, violências e crimes da República, entrava a acusar fortemente a sua gloriosa e nefasta geração [de 70]:
- Fomos demolidores, negativos e dissolventes. Nada respeitámos, nada soubemos salvar; e as ruínas que hoje deploramos, ao desvario mental, aos erros dos homens do meu tempo devem ser atribuídas. Vejo agora [por vós, jovens integralistas lusitanos] aberto o caminho da salvação nacional: sigam por ele, para bem da Pátria cega e martirizada. Neste exame de consciência, sinto remorsos, com grande pena de não vos acompanhar. Cheguei tarde, só a tempo de vos dar a benção para a jornada..."
...
Hipólito Raposo, "A benção de Ramalho" in Oferenda, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1950, pp. 144-156.
...
sexta-feira, janeiro 30, 2009
1º de Fevereiro de 2009
PARTICIPAÇÃO
A Direcção da Real Associação de Lisboa comunica que, com a assistência da Família Real, a Santa Missa por alma de Sua Majestade El Rei Dom Carlos I de Portugal e de Sua Alteza Real o Senhor Dom Luiz Filipe será celebrada na Sé Patriarcal de Lisboa, sendo presidida pelo Reverendissimo Deão do Cabido, Cónego Doutor Manuel Lourenço, no domingo dia 1 de Fevereiro de 2009 às 19 horas. A alteração ao local habitual deve-se às obras em curso na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora.
16.00 horas: Homenagem de S.S. A.A. R.R. os Duques de Bragança a S.M. El Rei Dom Carlos I e S.A.R. Dom Luiz Filipe, no Panteão Real.
17.00 horas: Deposição de coroa de flores no Terreiro do Paço.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Futuro do "euro" - esboçam-se cenários
No dia 26, o tema da desagregação da UEM foi abordado nas páginas do Financial Times:
Gideon Rachman, "When Europe starts to melt at the edges", FT, January 26 2009
Motivo: alguns entusiastas da UEM, têm vindo a analisar vários cenários, entre os quais, a desagregação:
A number of scenarios are possible.
The most straightforward – accelerated political integration within the eurozone and a move to some form of fiscal federalism – is the least likely.
Another would be a bail-out of the affected member-states by the rest of the eurozone. This is unlikely, but not totally inconceivable, especially if a bail-out were accompanied by IMF-style conditionality. An insolvent member-state could also default on its debt, but remain in the eurozone, or go for the ‘nuclear option’, which would be to default and leave the eurozone.
However, the most likely outcome is that the hardest-hit countries will be forced into wrenching fiscal adjustment and that Germany and others with large external surpluses will take modest steps to rebalance their economies. Eurozone economic growth will be weak, and some member-states will experience prolonged stagnation.
Governments will struggle to manage the political strains caused by fiscal austerity at a time of anaemic economic growth, and political tensions between the member-states will rise.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Encerramento do Centenário da morte do Rei D. Carlos
Esta Sessão, que contará com a presença dos Senhores Duques de Bragança , terá como conferencista o antigo Presidente do Parlamento Europeu D. José Maria Gil-Robles que falará sobre a «A Monarquia Constitucional na Europa de hoje». Ao longo do dia e associado a este evento, terá lugar, no mesmo local o Colóquio da Universidade Católica Portuguesa, subordinado ao tema O Rei D. Carlos e a Monarquia Constitucional.
...
domingo, janeiro 25, 2009
À espera do caos
O que na altura não se explicava, e ainda não tem sido suficientemente explicado, é que o subprime tinha revelado a crise, mas não era a sua causa. Por detrás do subprime estava um longo período de baixas taxas de juro combinado com um enorme afluxo de capitais resultantes dos lucros obtidos na China, Singapura e nos petroestados do Golfo Pérsico. O mecanismo do subprime levou à explosão, foi o seu detonador, mas não foi a matéria explosiva. À superfície havia banqueiros em busca de lucros, mas no fundo havia investidores em busca de altas rentabilidades.
Em resultado da crise financeira dos últimos meses, os pessimistas dão como certo um cenário de generalizada “stag-deflation”, i. e., uma situação em que surgirão combinadas a estagnação/recessão e a deflação (queda de preços). Para estes, a dúvida parece centrar-se hoje em saber qual a forma do gráfico depressivo: será um gráfico em “U” ou será um gráfico em “L”? Um gráfico em “U” quer dizer que, quando se atingir o fundo, haverá uma assinalável recuperação; um gráfico em “L” quer dizer que, ao atingir-se o fundo, seguir-se-á um longo período de estagnação. Os mais pessimistas não descartam a hipótese de um “L” bem alongado: “L__”.
Todos os mercados globais – mercados de acções, mercados financeiros, de matérias-primas, de bens de consumo, e de trabalho – estão na verdade a apresentar sinais negativos: há um excesso de oferta (queda na procura) em todas as frentes (com a excepção do emprego, obviamente), e o cenário mais plausível começa a ser o da “stag-deflation”.
Durante muito tempo, a preocupação principal na zona euro foi com a inflação. A avaliar pelas palavras de Trichet, essa é ainda a sua preocupação, quando diz que estamos ainda, e apenas, em “desinflação”. Apesar dos sinais de deflação, parece haver a expectativa de que, mais adiante, a inflação acabará por ressurgir, ajudando a reduzir as dívidas dos particulares e dos Estados. Os governos têm estado a injectar quantidades enormes de dinheiro no sistema financeiro e isso pode vir a converter-se em inflação. É um cenário ainda possível, se as rotativas – a impressão de dinheiro em notas de banco – forem aceleradas.
Há economias que estão a sofrer fortes pressões financeiras, como a Rússia e a Ucrânia, mas há ainda, além dos países do Báltico, outras economias muito vulneráveis na Europa, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, a Grécia, a Espanha (a economia portuguesa pertence-lhe, e o Estado português está a caminho da falência), e a Irlanda; na América, a Argentina, Venezuela, Equador e México; e na Ásia, o Paquistão, a Indonésia e a Coreia do Sul.
Mas, sem acelerar as rotativas, os EUA, não têm outra saída que não seja o de pagar as dívidas com mais dívidas. Ali não se podem dar ao luxo de alimentar expectativas de inflação, pois seriam forçados logo adiante a adoptar uma severa política de restrição monetária. Seria o fim do EUA, quando têm vários Estados já à beira da falência. Não têm pois outro caminho que não seja o de baixar os impostos e lançar grandes obras públicas. O que aponta para uma nova e fulgurante subida dos enormes deficits dos EUA.
Nos anos 80, o Japão e a Alemanha eram os grandes financiadores da dívida pública dos EUA, hoje a China já está à frente do Japão, numa dívida de mais de 5.500 biliões de dólares nas mãos de outros investidores estrangeiros, com a Rússia e os países exportadores de petróleo do Golfo em lugar de destaque.
Em 2005, a China abandonou a taxa de câmbio fixa em relação ao dólar, e a sua moeda apreciou-se em cerca de 20%. Em Novembro de 2008, a China deixou-a deslizar um pouco e, depois disso, tem estado a seguir uma evolução estável em torno de uma taxa de câmbio quase fixa em relação ao dólar.
Os optimistas dizem que não se põe a hipótese de um sério conflito entre os EUA e a China, porque esse conflito levaria a uma nova MAD (destruição mútua assegurada), não já apenas numa guerra nuclear, mas também numa guerra económica. Em linguagem positiva, diz-se que a China e os EUA atingiram o patamar da completa interdependência. Não estou tão certo disso, por três razões principais: 1º - A China e os EUA têm estruturas do PNB completamente diferentes, podendo levar os EUA a pensar que podem vencer a China atacando as suas exportações e reduzindo drasticamente o investimento; 2º - Sob o ataque dos EUA, a China pode ser forçada a fechar a torneira (deixar de financiar o défice dos EUA) para acorrer ao seu próprio deficit; 3º - A duração de um conflito financeiro entre os EUA e a China pode ser um factor determinante: se os chineses forem pacientes, e costumam sê-lo, podem conseguir despromover drasticamente a economia dos EUA, bem antes da sua economia entrar em depressão; o seu mercado interno tem muito mais espaço para crescer do que o dos EUA e, por isso, uma maior capacidade para absorver o impacto da queda das suas exportações.
Antes da crise, o mercado em Wall Street era o maior e mais globalizado do mundo. Continua a ser, mas esta crise já veio demonstrar que os EUA não fogem à lógica de todos os Estados capitalistas. Em última instância, quem manda em Wall Street é Washington, tal como se vai ver que, com a crise na China, quem manda em Xangai é Pequim, tal como quem manda em Mumbai é Nova Deli, e quem manda no Dubai é Abu Dabi. Os mercados e as moedas não têm fronteiras mas, em situação de crise, quem manda são os Estados. Na União Europeia, tem mandado Londres, Paris e Berlim, e na UEM, cada vez mais, e apenas, Berlim. Esta é uma lógica mortal para a UEM.
A retórica saída da última reunião do G20 dizia que todos iriam para casa preparar pacotes de salvação a aplicar de forma coordenada. Não é o que está a acontecer, nem é provável que venha a acontecer. Cada um dos Estados irá actuar de acordo com as suas próprias necessidades e, se possível, explorando as fragilidades dos mais directos competidores.
E o que é que os EUA querem?
Manter a sua moeda como a referência, fortalecer-se através do fortalecimento do FMI, rever o “Basil II”, decretar a morte do G8, e instituir o G20. Recusam a possibilidade de um novo Bretton Woods, i. e., regulação internacional e taxas de câmbio fixas, em relação a um padrão que não seja a moeda americana. Querem, evidentemente, continuar a ser o centro do mundo e a parasitar as periferias.
Esta é uma situação que pode vir a ser alterada em resultado da actual crise: a dívida dos EUA está hoje nas mãos dos Chineses, dos Russos, e dos instáveis países produtores do petróleo. O único Estado que os EUA quase conseguiram criar para servir o seu projecto de governo mundial foi a “União Europeia”. E, esse, corre hoje já um sério risco de vida.
E o que é que querem os outros Estados (os que ainda não deixaram de contar, por mérito e vontade própria)?
O que é que quer a França? - Um novo Bretton Woods, e a União do Mediterrâneo.
E o Reino Unido? - Um novo Bretton Woods (ainda que diferente do que é proposto pelo francês Sarkozy), e manter a Comunidade Britânica.
E a Rússia? – Um novo Bretton Woods, no qual não acreditam. O seu plano parece ser mais o de atrair a União Europeia para um projecto Euroasiático. Alguns russos julgam ser possível realizar com a União Europeia o que os EUA não têm conseguido – encontrar ali um único interlocutor. Com a União Europeia a pender mais para o lado da desagregação do que para o lado da União, com ou sem União Europeia, os Russos contam atrair parte do Leste. A Rússia continua destinada a ter uma palavra decisiva, se não mesmo a última palavra, no futuro da Eurásia.
O que é que a China quer? - Um novo Bretton Woods, e arredondar o seu território (manter o Tibete, e recuperar Taiwan). E não lhe peçam para adoptar o sistema político ocidental, que para ela representaria a fragmentação interna. Tal como está, o futuro pertence-lhe. E foi por isso que os EUA já lançaram para dentro da China a “Carta 08”.
Os restantes países do mundo, alguns dos quais se sentem hoje muito importantes por pertencer ao G20, ainda estão longe de contar de forma decisiva para a equação geopolítica global.
Resumindo: todos os grandes, com a excepção dos EUA, querem um novo Bretton Woods. Os EUA querem manter o que está, e continuar o seu projecto de “governo mundial”.
- Até quando vai ser mantido este impasse? Era a pergunta que me tinha colocado ao começar a escrever estas linhas. Hoje, ao abrir o jornal, encontrei o que parece ser a resposta americana para a depressão - acusam a China de estar a manipular o valor da sua moeda. Se for essa a resposta, o impasse terminou. Vem aí o admirável mundo novo da administração Obama. Se a mão de Timothy Geithner não for corrigida, se for essa a política da administração Obama, não haverá meio-termo: os EUA estão dispostos a perder tudo, ou a ganhar tudo. Nesse caso, seria o caos.
Sobre as palavras de Geithner, ver artigo em WSJ:
http://online.wsj.com/article/SB123275567586511815.html
sábado, janeiro 24, 2009
sexta-feira, janeiro 23, 2009
O «hispano»?
Isto é o que diz o editorial de ABC - "Lisboa-Madrid, más cerca" (23.1.09) -, e sem tirar nem pôr palavra.
"Crescente dinâmica de integração política e económica"?...
Será que ainda não estamos suficientemente integrados? O que é que nos falta para estarmos completamente integrados? Mudarmos em Portugal para a bandeira vermelha e amarela e ter um primeiro-ministro que fale espanhol na "Assembleia da República" em Lisboa?
Não, não devem ser esses os problemas. Se na Catalunha se fala em Catalão, na Galiza em Galego, em Madrid em Castelhano, no Euskadi em Basco, aqui também se pode decerto continuar a falar em Português… E se na Catalunha, Galiza, etc., há bandeiras próprias, porque é a região portuguesa da Ibéria não haveria também de ter a sua bandeira?
Pus-me a pensar nas palavras do editorialista do ABC, e cheguei à conclusão de que em Madrid se pretende algo mais.
Talvez que aceitemos o Bourbon Juan Carlos como rei de Portugal, como nos tempos dos Habsburgos. Se for essa a ideia, então é porque, para aquelas bandas da meseta, a crise económica lhes está afectar os neurónios.
Mas, ideia puxa ideia, e dei comigo a pensar que talvez, digo apenas talvez, estejam a começar a pensar sair do euro, e criar o hispano com o qual nos comeriam a sós, na privacidade de quatro paredes. Ora isso tem bem mais sentido. As economias de Portugal e Espanha estão perfeitamente integradas e, com os principais centros de decisão já em Madrid, só lhes falta mesmo uma moeda comum que seja exclusiva da Ibéria.
Se é nisso que estão a pensar aí em Madrid, então avancem com propostas concretas. Pela nossa parte, aqui junto ao Atlântico, já está tudo preparado. Só nos falta dar um último passo, para que o hispano seja possível: restaurar a dinastia de Bragança. Tenham paciência, mas precisamos da dinastia, da nossa dinastia, da dinastia portuguesa, para não ficarmos fechados dentro de quatro paredes. Um "hispano a sós", é que não. Nós temos um mar imenso para navegar, e uma prol já adulta espalhada pelos quatro cantos do mundo.
A vossa prol também não é nada pequena - de que é que estão à espera para avançar com o hispano? Querem derrubar primeiro Juan Carlos, para que não tenhamos ensejo de restaurar Portugal?
***
quinta-feira, janeiro 22, 2009
As "doutas" opiniões do Dr. Júdice sobre as Forças Armadas
“Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”
Aforismo popular
O conhecido causídico que um dia ao ver-se ao espelho se deve ter achado o mais bonito e inteligente dos seres, assumindo desde então uma importância que só ele julga ter, veio num curto espaço de tempo escrever duas catilinárias sobre as FAs e os militares. Referimo-nos aos artigos “Um golpe de estado dos pequenitos”,de 7/11/08 e “O cilindro de comando”, de 9/1/09, no jornal “O Público”.
Como ainda estamos no reino do disparate e não no das ofensas (embora o primeiro artigo a coisa lá roce) vamos responder às diatribes com palavras em vez de bengaladas como tão bem sugeriria a ramalhal figura.
Não o faço com a finalidade de lhe iluminar o bestunto, que já vimos ser duro, mas para proveito dos leitores menos esclarecidos, bombardeados que são por papagaios que bolçam sobre o que não sabem sem terem a humildade de antecederem os seus ditos com pelo menos um “parece-me”.
Lá dizia o saudoso Comd.Virgilio de Carvalho que a ignorância era atrevida...
Lendo com algum cuidado os escritos nota-se uma diferença de estilo, mais cautelosa de um para o outro, que talvez a “moderação na exaltação” explique – devolvo-lhe a acintosa dos bêbados no romance do Lartéguy.
Quanto ao primeiro artigo vou deixar para alguns visados (gen. Loureiro dos Santos e cor Vasco Lourenço, por ex.) a incumbência de se defenderem e quero dizer-lhe claramente que não vou discutir as aleivosias que disse relativamente à extinção do Exército, da F.A. e quejandos. O senhor mostra ser demasiado incompetente e ridículo neste âmbito para que se possa ter consigo uma conversa séria. A sua visão do país deve resumir-se à Quinta das Lágrimas e ao escritório de advogados. Por isso a PSP chega-lhe.
Aceite um conselho e tenha cuidado com os alvitres que eventualmente lhe dêem entre duas garfadas no “Eleven”. A avaliar pela patética defesa que fez do Aristides Sousa Mendes no concurso sobre o melhor português de sempre, não devem ser grande coisa.
A única coisa acertada que diz nos artigos citados é a afirmação de que "a qualidade da formação dos militares é superior à da média nacional". De facto assim é, supondo-se por isso que os licenciados em Direito também estejam abrangidos nesta assumpção. Mas o nosso comentarista diletante invoca esta evidência como argumento para tentar reconverter os militares para outras funções públicas e assim diminuir os efectivos que ele está seguro – vá-se lá saber porque bulas – serem excessivos!
É caso para perguntar porque é que S. Exª quando era bastonário da ordem dos advogados não se lembrou de pôr em prática tal medida com os excedentes de licenciados que as 27 - leram bem! – faculdades de direito lançam no mercado todos os anos...
E para o caso de andar distraído sempre lhe lembro que os militares não são propriamente funcionários públicos, embora a maioria dos políticos desejem que passem a ser. Mas isso já é outra história.
Vamos então tocar nalguns pontos que aborda cujo nexo justifica umas linhas. As suas atoardas – não me atrevo a apelidá-las de críticas, pois estas subentendem alguma substância, objectivo e fio condutor – focam-se muito no alegado excesso de efectivos, nomeadamente generais; na desproporção que diz existir no número de oficiais, sargentos e praças e na reforma que é preciso fazer. E claro queixa-se do custo que tudo isto comporta.
O senhor acha que há efectivos a mais, mas qual é a sua referência? Estão a mais relativamente a quê? E baseados em que estudos? Ou é simplesmente porque o senhor acha e pronto? Depois afirma que há generais a mais, porquê? Já analisou a estrutura das FAs e os compromissos externos – que os governos sempre subscrevem e depois não dão meios para se cumprirem? Já lhe ocorreu que em vez de haver generais a mais (e há três tipos de generais) pode é haver soldados a menos? E já lhe passou pelas suas moléculas pensantes que as coisas devem também ser vistas em termos relativos? Isto é, considera que ter cerca de duas centenas de oficiais generais é muito, e não é muito existirem vários milhares de directores gerais e equiparados?
E já alguém lhe explicou que há dificuldade em recrutar soldados, sobretudo para o Exército que é onde a sua falta mais se faz sentir, porque se acabou (mal) com o serviço militar obrigatório, que os voluntários são muito mais caros e que não há dinheiro nem vontade politica para o arranjar?
Quando afirma que há mais generais agora do que quando o país estava em guerra, porque não compara também o ministério da defesa da altura com o actual? Pensa por acaso que a complexidade das relações internacionais, a gestão de conflitos e a maneira de fazer a guerra, parou no tempo? A matriz da sociedade de uma época para a outra tem alguma comparação?
O senhor tem alguma consciência daquilo que diz?
Quando fala da desproporção que supõe existir entre oficiais, sargentos e praças tem alguma noção de que na Marinha e FA, dado o modo como operam e a tecnologia envolvida a necessidade de praças se faz sentir em termos expressivos, apenas nos fuzileiros e na policia aérea? E no Exército este tipo de realidade também aumentou muito? E nunca lhe passou pela massa encefálica que os governos não podem andar a mudar de ideias relativamente ao que querem das FAs, como quem muda de camisa e que aos militares tem que se lhes proporcionar uma carreira cujas características não têm paralelo em mais nenhum grupo profissional? E que as carreiras, bem como as missões, o dispositivo e o sistema de forças, não são propriamente um bocado de plasticina que os políticos, no mais das vezes ignaros e nem sempre com boas intenções, que estão de passagem, podem moldar a seu belo prazer? - Para já não falar em advogados ociosos que se armam em comentaristas...
Será assim tão difícil de entender que decisões tomadas no âmbito da gestão de pessoal vão ter consequências nos próximos 10, 20 e 30 anos? Que um Exército não se improvisa, que é necessário garantir valencias, capacidades e conhecimento?
Ah, e as reformas, ele quer mais uma!
O senhor tem vivido cá? É que só pode! Desafio-o a apontar um único ministério, órgão do estado, empresa pública ou seja o que for que se tenha reformado tanto e reduzido tanto, como as FAs nos últimos 30 anos. Tendo, ao mesmo tempo, nos pretéritos 15 anos, visto os seus orçamentos diminuírem em termos reais. Não me venha, pois, falar em época de contenção, os militares estão fartinhos de dar para esse peditório. Nada lhes deve pesar na consciência tanto a nível de instituição como a nível individual. Pelo contrário tenho consciência nítida de que se tem apertado o cinto continuamente com espírito de serviço – embora não de cara alegre – enquanto a generalidade do país e sobretudo o estado e os políticos, que deviam dar o exemplo, têm andado no forrobodó da cigarra.
O senhor tem ainda o despautério de afirmar que os militares contribuem muito pouco para a produtividade nacional. Como é que é que entende que a Instituição Militar deve contribuir para a produtividade? Quer que produza automóveis? Cultive batatas? Promova o turismo? O senhor ignora por acaso que o produto acabado da força militar se chama defesa, segurança, dissuasão, afirmação de soberania, garante da unidade do estado, ser elemento fundamental da política externa do estado e seguro de vida da Nação? Possui indicadores para aferir tudo isto? O senhor tem ideia de que os sucessivos governos têm sistematicamente asfixiado as FAs em termos financeiros, em pessoal, em estruturas, em equipamentos, em autoridade, em termos legislativos, enfim, em tudo, e ao mesmo tempo aumentaram-lhes as missões? Ao passo que nos últimos 20 anos já foram empenhados em acções fora do território nacional cerca de 30000 homens em mais de 30 países diferentes? E que todas estas missões foram cumpridas e de um modo que não deslustra os nossos maiores? E que a Nação ignora tudo isto e os sacrifícios que tem acarretado?
Se o senhor não sabe nada disto peça contas aos responsáveis políticos, não aos militares, que ainda por cima não podem falar publicamente. Mas se o senhor não sabe e não sabe que não sabe, só tem que se queixar a si mesmo.
Finalmente, acha V. mercê que as FAs são caras. Pois, olhe, custam cerca de 1.1% do PIB, talvez a taxa mais baixa de todos os países da NATO à excepção do Luxemburgo. Mas, como já vimos, ao menos os militares ainda vão cumprindo razoavelmente as suas missões, que tem justificado o dinheiro.
Mas se tanto o preocupa os gastos do estado, dou-lhe um alvitre para uma acção patriótica: proponha na Ordem de que já foi bastonário que todas as firmas de advogados recusem as encomendas de pareceres jurídicos, resolução de contencioso, consultadorias e afins, que diferentes ministérios continuam a fazer em catadupas e que suposto seria serem tratados pelos respectivos serviços. Aceita o desafio?
Agora sempre lhe quero dizer que caro, caro, e injusto, injusto, é o facto de todos os cidadãos – militares incluídos – verem um ror de dinheiro dos seus impostos ser vertidos no ministério dito da Justiça, que tem certamente mais funcionários do que a Marinha, o Exército e a FAP juntos e um número de juízes conselheiros muito superior ao dos generais – e a ganharem o dobro daqueles – e nada funcionar.
De facto os tribunais só têm duas velocidades, que é devagarinho e parados; ninguém consegue dar conta do número de casos que prescrevem ou são mal instruídos; numerosas leis são desadequadas ao âmbito e pessoas em que se aplicam; as prisões estão a abarrotar e os presos não são postos a trabalhar nem regeneram; a impunidade campeia (bem como as providencias cautelares); a deontologia forense já conheceu melhores dias, etc. Em suma, o sistema é caro, burocrático, gerador de injustiças, revolta, sensação de insegurança, desmotivador das forças policiais e de investigação. Quanto à confiança dos portugueses, essa exauriu-se há muito.
Mas o Dr. Júdice está é preocupado com generais a mais, sendo duvidoso que conheça sequer os postos! O senhor já é crescidinho, falta agora tornar-se responsável.
Poderá até, como alega no fim do segundo artigo, gostar mais de pirâmides do que de cilindros, mas a mim parece, pelo que escreve, que se aproxima mais da esfera: não tem ponta por onde se lhe pegue.
Espero ficar por aqui, já estou velho para dar recrutas.
João J. Brandão Ferreira
Tcorpilav (Ref.)
