domingo, março 09, 2008

Sobre o português Vítor Hugo

por Ferreira Fernandes

jornalista
ferreira.fernandes@dn.pt

O jornalista Jean-Pierre Langellier publicou no dia 6 um artigo no jornal Le Monde com este título: "'Merci Napoléon', Dizem os Brasileiros". E o artigo começa com a mesma tecla: "Todos os brasileiros vos dizem: o seu país existe graças a ... Napoleão." E acaba batendo no mesmo: "No último Carnaval, várias escolas de samba fizeram disso [a chegada do D. João VI, ao Rio] o tema do seu desfile. Um dos refrãos, acompanhado em coro pela multidão, acabava com um alegre: 'Adeus, Napoleão!' Adeus e obrigado."

Portanto, Le Monde mandou avisar: o pai da criança é Napoleão, não é D. João VI. Lula devia ter convidado, em vez de Cavaco e Maria, Sarkozi e a Bruni. Vão dizer-me, o artigo de Langellier é a brincar. Pois, pois. Mas um tema tão extraordinário (a primeira viagem de um rei europeu para, e não à, para a América, o único país do mundo que se fez independente com um príncipe colonial...) - e tema em que a França é secundária - eu preferisse que fosse tratado sem o tradicional umbiguismo gaulês. Sublinhado no título, primeiro e último parágrafo, quer dizer nos lugares mais nobres do artigo.

Desde já, essa da causa efeito - Napoleão é que empurra D. João VI para o Brasil - parece a do brasileiro que diz que quem protagonizou a final do Mundial de 50 foi o guarda-redes Barbosa, que deixou entrar o golo. Não, o campeão do mundo foi o Uruguai porque Ghiggia enganou Barbosa num chuto perfeito e porque os uruguaios foram a equipa superior comandados pelo grande capitão Obdulio Varela. Sobre o nascimento do Brasil, portugueses e D. João VI e D. Pedro foram protagonistas, só ultrapassados pelos brasileiros; Napoleão, grande noutras coisas, nesta foi mero comparsa histórico.

Aliás, entre os dois parágrafos francófilos, Langellier lembra: "Sobre D. João, Napoleão escreverá: 'Ele é o único homem que me enganou'." Esta parte do miolo do artigo é a melhor, recheada de informação. Eu gostei muito, já tinha lido tudo no soberbo 1808, do brasileiro Laurentino Gomes, livro que eu (mas isso sou eu) digo que li. A Laurentino o que é de Laurentino, a João VI o que de João VI, cher Jean-Pierre.

E naquele último parágrafo, o do desfile carnavalesco com o "Adeus, Napoleão", seguido no texto do Monde por "Adeus e obrigado", diga-se que o sujeito está mal atribuído. Não, não são os brasileiros a piscar o olho ao imperador francês. O desfile foi o do Grupo Imperatriz Leopoldina e o samba-enredo, depois de mostrar a discussão no palácio real de Lisboa, põe D. João VI a tomar a decisão. Que saiu nestes versos cantados no Sambódromo: "Ou ficam todos/ Ou todos se vão/ Embarcar nessa aventura/ e 'au revoir, Napoléon'"... Já nos chega os franceses terem melhores patés e agora querem ter melhores passés... Perdoem a piadola à Le Monde.

In Diário de Notícias, hoje.

Cenhora menistra

Ora expliquem lá...

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão

Em 1975, quando o Partido Comunista tomou o poder em Portugal, a massiva infiltração de militantes seus não se ficou apenas pelas Forças Armadas, os meios da comunicação social, os transportes, os sindicatos, a banca e por aí fora. Também era um facto no sector da Educação. Com resultados práticos chocantes e, muitas vezes, grotescos.
Escolas havia, um pouco por todo o país, em que as aulas passaram a ser verdadeiros comícios de lavagem de cérebro aos estudantes. O aproveitamento escolar foi a pique, ao mesmo tempo que a política de admissão de docentes atingiu níveis de bandalheira nunca igualados. Ninguém precisava de ser competente, ou sequer convenientemente letrado, bastava ser militante ou simpatizante. Em todos os patamares da vida pública, incluindo a dirigir o Ministério da Educação. E até a dirigir o Ministério do Trabalho, em que os donos do partido colocaram um salta-pocinhas, de cabelos compridos e t-shirt foleira, que sabia tanto de questões laborais como eu de lagares de azeite. Dizia-se, no entanto, que isso não tinha importância porque o flausino tinha atrás dele Álvaro Cunhal a dar-lhe as ordens. Estudantes que fossem suspeitos de pertencer a famílias bem instaladas na vida, eram descaradamente maltratados por esses professores. Aconteceu até, no Porto, um caso repugnante: um garoto que, numa briga de recreio, deu uma estalada num filho dum general de aviário do MFA, um tal Corvacho, viu-se preso, por denúncia telefónica dos professores, por uns tipos da Polícia Militar que logo apareceram num jeep. Ainda estão vivos, e creio que de boa saúde, os que viveram esse episódio.
Sempre me causou estranheza e lástima que os professores não tivessem saltado à rua, gritando por liberdade, dando largas à indignação, como outros fizeram, em manifestações nunca mais igualadas, quando foi preciso dizer ao Partido Comunista, e ao mundo, que o povo português, saído de uma ditadura de extrema direita de 48 anos, não estava disposto a sofrer a ditadura sangrenta que sofreram milhões de pessoas, durante 70 anos, na União Soviética (e que ainda sofrem os povos de Cuba, China, Coreia do Norte e Vietname do Norte). Essa que, através de fomes programadas e de gulags de inferno, matou 20 milhões de pessoas. Mas a verdade é que nunca houve uma manifestação de professores nesses tempos de tentativa boçal de amordaçar o nosso povo.
Para mim é ponto assente que os comunistas não têm lições a dar de democracia a ninguém, visto que servem uma doutrina de prática totalitária e criminosa. E causa-me espanto que pessoas normais possam ir atrás das loas de dirigentes sindicais que, embora se afirmem professores, já não dão aulas há vários anos e, de desfasados que estão, serão os primeiros a recear uma avaliação profissional. Dirigentes sindicais que, sem saberem pensar pela sua própria cabeça, bebem da fonte inquinada de uma confederação e de um partido onde pontificam os últimos dinossauros do estalinismo. Causa-me desgosto ver professores do meu país feitos Maria-vai-com-as-outras, sem se darem ao respeito aos seus estudantes, aos pais destes, ao país todo, alinhando numa passeata que teve 100 mil porque, como é de regra nas campanhas de agit prop, incluíram maridos, esposas, sogros, pais, irmãos, filhos, amigos. Tudo professores... Tudo tal qual as passeatas que vêm da margem sul do Tejo ou aquelas, de negregada memória, que o Salazar encomendava...
Sou eu contra manifestações e greves? Pelo contrário, sou a favor. Sou democrata. Bati-me, e por que preço, pela Liberdade e continuo a bater-me. Mas sou muito crítica e cautelosa nestas rebanhadas. Estou eu a passar um cheque em branco à ministra da Educação? Nem pensar, que nem simpatizo com ela. Mas entendo que é necessária, e urgente, uma avaliação de professores, que seja o princípio do fim da rebalderia que foi introduzida no ensino há 30 e tal anos. É caso para perguntar: são assim tantos os que têm medo da avaliação? Como explicam que, havendo avaliações a correr em vários sectores, privados e públicos, esses não venham para a rua gritar? É que esses trabalham, produzem.
Remato com a peixeirada que uns quantos armaram em Chaves, chamando “fascista” aos militantes socialistas que iam reunir em privado. E remato lembrando que, em 1976, me apareceu em Lisboa um jornalista da revista francesa LE POINT, a quem amigos comuns de Paris tinham dado o meu contacto. O nosso homem fez uma excelente reportagem, que incluia uma saborosa conversa que teve, em Bragança, com pessoas de acaso: “Vocês têm aqui muitos comunistas?”. Resposta pronta: “Não, senhor. Ainda temos aí uns gajos do PPD, mas vamos acabar com eles”. Clarinho como água.
Senhores professores, expliquem lá ao país, que inclui os portugueses residentes no estrangeiro, donde vem esta cega confiança nos dirigentes sindicais que organizam passeatas a peso de ouro.

Ciclo de Conferências "Dom Carlos"

A Real Associação de Viseu tem estado a promover um ciclo de conferências com especial referência ao rei Dom Carlos.

Eis o calendário das próximas conferências:

• 12 de Março – Lançamento, em Viseu, da primeira edição do livro “REGICÍDIO – 1908”, da autoria do Senhor Professor Doutor Aníbal Pinto de Castro.

• 25 de Março – Tema: Real Confraria de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa – Coroação, por Dom João IV, de Nossa Senhora como Rainha e Padroeira de Portugal. Apresentado pelo Senhor Dr Simão Pedro de Aguiam

• 9 de Abril - “DOM CARLOS, MEMÓRIA DUM REI”, pelo Dr. José Valle de Figueiredo


As conferências terão lugar na BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VISEU (junto à loja do cidadão), com início às 18 horas e 15 minutos, com tolerância de 15 minutos, e terminarão pelas 19 horas e 30 minutos.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Meditação de Aljubarrota

Uma das visões mais fecundas e promissoras de António Sardinha foi sem dúvida a da Aliança Peninsular.

Para se poder realizar tal Aliança, colocava no entanto António Sardinha como condição imprescindível a existência de dois Estados fortes na Península. Não apenas de um, mas de dois Estados fortalecidos pela Monarquia.

Com a Monarquia, o Estado português não apenas ficaria mais fortalecido perante o perigo de uma absorção espanhola, como lhe daria acrescida capacidade para se projectar no Atlântico; com a Monarquia em Espanha, o Estado espanhol manter-se-ia unido e em condições de se projectar também no Atlântico (como aliás se tem verificado desde a Restauração da Monarquia).

Porquê é que são indispensáveis duas Monarquias para que os Estados peninsulares se possam projectar de forma profícua e duradoura no Atlântico? Porque só através das Instituições Reais de Portugal e de Espanha, instituições nacionais por excelência, ao abrigo das disputas político-partidárias, é possível irmanar num projecto comum os povos de língua portuguesa e espanhola.

Cumpre-nos restaurar quanto antes a Instituição Real na Chefia do Estado. Enquanto a União Europeia faz hoje a dificil digestão do lauto repasto do Leste, é chegada a hora de portugueses e espanhóis se lançarem numa nova empresa espiritual capaz de dar lugar a uma nova idade do Mundo.

Vem aqui à tona o fecundo paralelismo do período áureo vivido pelas duas monarquias peninsulares na primeira metade do século XVI. A existência de duas monarquias volta a ser hoje uma condição imprescindível à projecção atlântica dos dois Estados peninsulares.

Como introdução ao tema, o espaço Unica Semper Avis, acaba de editar um texto de António Sardinha, escrito em 1920, intitulado "Meditação de Aljubarrota".

Eis os excertos em destaque:


"De dois acontecimentos deriva a civilização moderna em todo o seu alto significado construtivo: do Cristianismo e das Descobertas. Os Descobrimentos deslocaram o eixo da cultura humana dum mar interior - o Mediterrâneo - para a bacia imensa do Atlântico. Esse esforço sem igual, que fez filhas de Portugal as idades vindouras do Mundo, não seria possível sem Aljubarrota.

"E porquê? Porque, unido Portugal com Castela, ou Castela seguia o pendor da vertente Atlântica e abalava connosco ao domínio do Mar, deixando pelas espaldas o Aragão, a política do Mediterrâneo e com ela o pesadelo do Turco e do Luteranismo, ameaçando dentro de século e meio a ordem cristã na Europa - e a epopeia ultramarina da Península resultaria incompleta, deficiente e mesmo estéril; ou então, cedendo ao impulso da vertente mediterrânica, o atalaiado reino da meseta volver-se-ia unicamente para os problemas do continente, incapacitando Portugal, anexado e amordaçado, de chegar até onde chegou a dilatação da Fé e do Império.

(...)

"A hegemonia de Castela na Península, como Estado interior, duraria enquanto durasse a Reconquista. Para lhe resistir à tendência absorvente, o Aragão procuraria na Itália e no domínio do Mediterrâneo tanto ocidental como oriental, o seu eixo de apoio.

"Outro tanto sucederia ao nosso país, evitando a consolidação do bloco castelhano (...)

"...passada a Reconquista, Castela, como uma grande nau balanceando, teria que escolher um dos dois caminhos marítimos: o do Mediterrâneo, ou o do Atlântico, para que não se sufocasse na sua clausura.

(...)

"...é preciso amar a Castela, porque Castela é, como Portugal, o pelicano sangrando!

"Se nós tivessemos triunfado em Toro, isso equivaleria a perdermos Aljubarrota.

"Deus reservava-nos a cruzada do Mar, como reservava para Castela a cruzada da Terra.

(...)

"É desde então que o Tosão-de-Oiro circunda o escudo da Espanha unificada. E o que é o Tosão-de-Oiro senão o enlace simbólico da Casa de Borgonha com a dinastia que se fundou em Aljubarrota e que cavou para sempre, como individualidades políticas autónomas, a separação de Portugal e de Castela?!"


http://www.lusitana.org/il_as_1920_medita_aljubarrota

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Santo Agostinho definiu «verdadeira laicidade»

A «verdadeira laicidade» é um conceito antigo que já havia sido definido por Santo Agostinho, recorda Bento XVI, ao declarar a diferença entre a esfera política e a esfera da fé.

Joseph Ratzinger, que dedicou ao teólogo e filósofo do norte da África sua tese doutoral, dedicou a quarta das audiências gerais a este «padre da Igreja que deixou o maior número de obras», algumas delas «de importância capital, e não só para a história do cristianismo, mas também para a formação de toda a cultura ocidental».

Entre outras, o pontífice recordou «De civitate Dei» [A Cidade de Deus], «obra imponente e decisiva para o desenvolvimento do pensamento político ocidental e para a teologia cristã da história, foi escrita entre os anos 413 e 426, em 22 livros».

A ocasião de sua redação foi o saque de Roma por parte dos godos no ano 410. Ante a queda de Roma, alguns pagãos punham em dúvida a grandeza do Deus cristão, que parecia incapaz de defender a cidade.

«A esta objeção, que também tocava profundamente o coração dos cristãos, Santo Agostinho responde com esta grandiosa obra, ‘De civitate Dei’, declarando o que deveriam esperar de Deus e o que não podiam esperar d’Ele, qual é a relação entre a esfera política e a esfera da fé, da Igreja.»

«Ainda hoje este livro é uma fonte para definir bem a autêntica laicidade e a competência da Igreja, a grande esperança que nos dá a fé», declarou.

Como vem explicando Bento XVI em seu pontificado, a laicidade não significa repressão da liberdade religiosa (isso seria mais o laicismo), mas a garantia para que os crentes das diferentes religiões possam exercer seus direitos fundamentais.

Como o Papa explicou, esta obra de Agostinho de Hipona se baseia em uma interpretação fundamental de história, «a luta entre dois amores: o amor próprio, ‘até chegar ao menosprezo de Deus’ e o amor a Deus, ‘até chegar ao desprezo de si mesmo’».

O Papa repassou outros dos escritos que deixou o santo africano, um dos autores mais prolíferos da história (depois de sua morte se contabilizaram ao menos 1.300 escritos, ainda que se considera que escreveu entre 3.000 e 4.000 homilias).

Como é lógico, comentou seu livro mais publicado, as «Confissões», autobiografia na qual «a própria miséria à luz de Deus se converte em louvor de Deus e em ação de graças, pois Deus nos ama e nos aceita, transforma-nos e nos eleva para si mesmo».

«Graças às ‘Confissões’, podemos acompanhar, passo a passo, o caminho interior desse homem extraordinário e apaixonado por Deus», declarou o Papa.

Citando o amigo e biógrafo de Agostinho, o Papa concluiu explicando que o grande santo e teólogo está «sempre vivo» em suas obras.

«Está realmente vivo em seus escritos; está presente em nós e deste modo vemos também a permanente vitalidade da fé pela qual ele entregou toda a sua vida», concluiu.

As considerações de Bento XVI sobre Santo Agostinho, nas quais não deixou de confessar sua admiração por este pensador, fazem parte da série de catequeses que está oferecendo sobre as grandes figuras dos inícios da Igreja.

(Fonte: Zenit.org)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Espanha é diferente...?


Dentro de poucos dias, precisamente no dia 9 do mês de Março,
Espanha vai de novo a votos. Os seus Bispos,
numa Nota (30.01.2008) que merece leitura integral,
recordam as palavras do Papa:

«É necessário enfrentar, com determinação e clareza de intenções, o risco de opções políticas e legislativas que contradizem valores fundamentais e princípios antropológicos e éticos radicados na natureza do ser humano, de modo particular no que se refere à tutela da vida humana em todas as suas fases, desde a concepção até à morte natural, e à promoção da família fundada no matrimónio, evitando introduzir no ordenamento público outras formas de união que contribuiriam para a destabilizar, obscurecendo o seu carácter peculiar e o seu papel social insubstituível.» (Verona, 19.10.2006.)

Sentem ainda necessidade de apelar: a que seja respeitado o direito dos pais a educar os seus filhos de acordo com as suas convicções religiosas e morais; a que a própria Igreja seja respeitada e lhe seja reconhecido o direito a evangelizar na vida pública,
a propor livremente à comunidade a sua visão das coisas.

Qualquer observador atento sabe como,
especialmente nos últimos tempos,
e especialmente aqui ao nosso lado, em Espanha,
têm sido violentamente atacadas
a Vida humana, a Família, a Liberdade, a Igreja.

Portugal é diferente...?
Não dispomos, talvez, da mesma capacidade de resistência.
Qualquer Português consciente sabe como certos ventos de Espanha
não tardam em tornar-se fortes ameaças para Portugal.
Portugal é diferente.
Espanha não nos é indiferente.

Até 9 de Março, recordemos diariamente a Igreja de Espanha.
E rezemos por todo o Povo Espanhol, para que saiba escolher.
Quando receber esta mensagem, reze um Pai-Nosso ou uma Avé-Maria.
Na Santa Missa e no Terço, tenha presente esta intenção.
Por favor, passe a palavra.

domingo, fevereiro 17, 2008

Que energias para o nosso futuro?

por Dom Duarte de Bragança


Há a impressão generalizada que o problema dos recursos energéticos é tratado de modo pouco coerente com o interesse nacional .

Desistimos de acabar a barragem de Foz Côa, com a louvável preocupação de salvar as gravuras? Ou terá sido por motivos político-eleitorais? Poderiam deslocar as principais gravuras e cobrir as outras com uma camada protectora. Quando no futuro essa fonte de energia for dispensável, a barragem poderia ser esvaziada e as gravuras expostas, se tal for o desejo dos portugueses dessa época...

Quanto à “opção nuclear”, deveria ser abordada não de modo emocional, mas após um amplo debate científico, considerando a experiência dos países mais avançados e as inovações tecnológicas que tornaram as centrais mais seguras, apesar de não terem resolvido todos os problemas. Por essa opção de lado por ser incómoda, não é inteligente.

O gás natural nos automóveis é menos poluente e mais vantajoso? Pois não somos encorajados nesse sentido, as bombas são difíceis de encontrar e os estacionamentos discriminam os seus utilizadores, por motivos discutíveis...

Nas regiões rurais seria fácil e barato produzir o gás metano através da fermentação de resíduos agrícolas e florestais, tanto de modo artesanal como industrial, mas não tem havido encorajamentos nesse sentido, pelo contrário…

Em todo o caso para os automóveis a melhor solução parece ser a dos motores eléctricos, mas não recebem qualquer apoio fiscal que os torne mais baratos .

Quanto à electricidade eólica a situação é pouca clara. Ela é paga em Portugal de uma forma exageradamente favorável às empresas e fica muito cara. Até pode ser uma boa solução, se cuidarmos da defesa de algumas das nossas paisagens.

A produção da matéria-prima para os "biocombustíveis" vai competir com a produção de alimentos, levando à escassez destes e ao aumento da fome no Mundo, e o seu uso produz a mesma quantidade de CO2 que a gasolina.

A médio prazo a solução preferível seria melhorar a eficiência energética.

Nos transportes os mais eficientes são claramente os navios e os comboios.

Mas por cá encorajamos o transporte rodoviário e individual, dando sempre prioridade às auto-estradas antes de melhorar os transportes ferroviários.

Segundo o Professor Delgado Domingos, do Partido da Terra, vivemos acima das nossas possibilidades.

Gastamos, por habitante , apenas menos 10% de energia que no Reino da Dinamarca, mas consumimos cerca do dobro da energia para produzir a mesma unidade de riqueza.

Graças à U.E. vemos alguns encorajamentos para que a indústria economize, mas a construção civil moderna pouco se preocupa com isso e depende cada vez mais do ar condicionado altamente consumidor de energia.

Temos que nos preparar para as alterações climáticas que virão em breve . Precisamos de uma “revolução cultural“ para que o bem comum, a “respública“, possa passar à frente dos interesses privados. Essa mudança de atitudes terá que partir dos portugueses mais lúcidos e interessados no nosso futuro colectivo !

Dom Duarte de Bragança

(escrito para o próximo número da revista Magazine)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Relembrando um texto de Augusto Ferreira do Amaral

A respeito do livro recém publicado sob o título «O usurpador», aconselhamos a releitura do texto de Augusto Ferreira do Amaral "Dom Duarte é o sucessor dos Reis de Portugal", aqui pela primeira vez publicado em Junho de 2007, depois transcrito em Unica semper avis.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

A lei e a alma

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

A notícia de um idoso de Godim que, depois de secar na urgência hospitalar de Vila Real, foi mandado para a sua aldeia, de táxi, sem roupa, apenas com uma fralda, deixou-nos cá por este mundo de Cristo além, onde vivem 5 milhões de portugueses, sem fala. A notícia posterior da sua morte, regressado que foi à mesma urgência, deu-nos o sabor da magoada revolta.
(Primeira reflexão: é por estas, e várias outras, que os portugueses emigrados têm medo de voltar à Pátria, tal é a sensação de abandono que se exala dela).
Ouvimos depois, entre impacientes e incrédulos, a gritaria contra o ministro da Saúde. Chamaram-lhe tudo menos santo. E santo ele não é, tem pecados públicos, é um desorientado nas suas declarações, precisa mesmo de saír do palco e ir descansar uma temporada. No entanto, neste caso específico, creio que não mereceu os insultos. É que, em Portugal, nenhuma lei ordena que os doentes vão para casa nús, ainda por cima em Janeiro, ainda por cima no norte do país. Essa decisão, depois de um diagnóstico apressado e optimista de um médico de serviço, foi tomada por pessoal da enfermagem. Alguém, com uma pedra em lugar do coração, determinou que assim fosse. Fê-lo na maior impunidade porque, pela certa, não houve um superior a inspeccionar. Acreditar que houve supervisão e deixada passar uma desumanidade destas, poderia levar-nos a pensar que o país estaria perdido. Recusamos acreditar que assim seja.
As leis são disposições obrigatórias que garantem o funcionamento justo e regular das sociedades. Abaixo delas, as sociedades têm regras fundamentadas na generosidade, no bom senso, no respeito pela dignidade, em suma, assentes na moral. Muitas vezes as regras não estão escritas por serem óbvios os seus objectivos. Com toda a certeza, naquele hospital, não há uma regra a indicar que os doentes regressam a casa vestidos, porque nunca passou pela cabeça dos responsáveis que alguém pudesse praticar acto tão selvagem.
Quantas falhas idênticas a esta se verificam nos hospitais portugueses? Porquê? Pode ser por muitas razões: pessoal admitido, não por critérios de competência e idoneidade, mas por cunha ou favor partiário, porque passou a grassar no país uma grande onda de permissividade e ganância, e só assim se compreendem os abandonos de idosos por parte dos seus familiares. E por aí fora.
As maldades acontecem com idosos, crianças, mulheres e doentes em geral, porque Portugal está doente e a sua parte sã, cala-se. Não sai à rua, não para gritar nas arruadas das greves mal explicadas, mas para, de olhos nos olhos, pedir a a todos, e a cada um, que parem para pensar, que regressem à bondade, à dádiva, ao amor. Só assim será possível redimir a Pátria espezinhada por aqueles que, com o nome do povo na boca, trataram de governar a vidinha.
A emigração está com os olhos postos na terra distante.

sábado, janeiro 05, 2008

O estranho facto de uma celebração pela família

No passado dia 30 de Dezembro, na Plaza Colón, em Madrid, centenas de milhares de pessoas (um milhão e meio de pessoas segundo os organizadores) participaram no encontro “Por la familia cristiana” presidido pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, e que contou com uma mensagem especial de Bento XVI no decorrer do Angelus, ao meio dia, a partir da praça de S. Pedro.

Nenhuma TV ou jornal português noticiou que em Madrid se realizou uma manifestação pela família com a presença de um milhão e meio de pessoas. Presume-se que se achou normal, trivial, sem importância alguma, a dimensão daquela manifestação em Madrid.

Em Espanha e por essa Europa fora, porém, estranhou-se e noticiou-se. A estranheza da enorme adesão é comentada neste artigo pelo padre Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, publicado no jornal El Mundo de sábado passado:


O estranho facto de uma celebração pela família

por Julián Carrón

Estamos perante um facto estranho. Indiscutível. A convocatória para a celebração deste domingo na Plaza Colón de Madrid suscitou um movimento de adesão em muitíssimas pessoas que quiseram reunir-se gozosas para expressar publicamente o bem que significa para eles a família. Não deveríamos menosprezar esta resposta.

Desde há décadas que continuamente recebemos mensagens que vão na direcção oposta: muitas séries de televisão, filmes e muita literatura convidam ao contrário. Ante esse impressionante emprego de meios, o normal seria que a família tivesse deixado de interessar. Porém, há algo que temos que reconhecer quase surpreendidos: essa impressionante maquinaria não mostrou ser mais potente que a experiência elementar que cada um de nós viveu na sua família, a experiência de um bem. Um bem de que estamos agradecidos e que queremos transmitir a nossos filhos e partilhar.

De onde nasceu este bem do qual estamos tão agradecidos? Da experiência cristã. Nem sempre foi assim, como testemunha a reacção dos discípulos a primeira vez que ouviram Jesus falar do matrimónio. “E aproximaram-se d’Ele alguns fariseus para o porem à prova, dizendo: “É lícito a um homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?”. E, respondendo, Ele disse: “Não lestes que, no princípio, aquele que os criou os fez homem e mulher?”. E acrescentou: “Por esta razão o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne. Por conseguinte, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu nenhum homem pode separar”. Os discípulos disseram: “Se é assim a relação do homem com a mulher, não convém casar-se (Mt 19, 3-6,10).

Não temos, pois, que nos surpreender.

O mesmo que a tantos de nossos contemporâneos e muitas vezes mesmo a nós próprios, aos discípulos também lhes parecia impossível. Só a graça de Jesus Cristo tornou possível viver a natureza original da relação entre homem e mulher.

É importante olhar para esta origem para poder responder aos desafios que temos que enfrentar. Os católicos não são diferentes dos outros; muitos de nós temos problemas na vida familiar.

Constatamos com dor como entre nós há numerosos amigos que não perseveram perante as numerosas dificuldades externas e internas que atravessam. Mesmo entre nós não nos basta saber a verdadeira doutrina sobre o matrimónio para poder resistir a todas as tentações da vida. Recorda-nos o Papa: “As boas estruturas ajudam, mas por si sós não bastam. O homem nunca pode ser redimido somente a partir do exterior (Spe Salvi, 25).

Necessitamos fazer nosso o que recebemos para poder vivê-lo na nova situação que se nos depara, como nos convida Goethe: “O que herdaste dos teus antepassados/deves reconquistá-lo de novo/para verdadeiramente o possuir”.

Para reconquistar de novo a experiência da família necessitamos aprender que “a questão da justa relação entre o homem e a mulher funde as suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar a sua resposta a partir desta”, como disse Bento XVI. Com efeito, a pessoa amada revela-nos o “mistério eterno do nosso ser”.

Nada nos desperta tanto e nos faz tão conscientes do desejo de felicidade que nos constitui como o ser querido. A sua presença é um bem tão grande que nos faz cair na conta da profundidade e verdadeira dimensão deste desejo: um desejo infinito. As palavras de Cesare Pavese sobre o prazer podem aplicar-se à relação amorosa: “O que um homem busca no prazer é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de conseguir esta infinitude”. Um eu e um tu limitados suscitam-se reciprocamente um desejo infinito e descobrem-se lançados pelo seu amor a um destino infinito. Nesta experiência desvela-se a ambos a sua vocação.

Por isso os poetas viram na formosura da mulher um “raio divino”, quer dizer, um sinal que remete mais além, para outra coisa maior, divina, incomensurável em relação à sua natureza limitada. A sua beleza grita ante nós: “Não sou eu. Eu sou só um sinal. Olha! Olha! Quem te recordo?”. Com estas palavras o génio de C. S. Lewis sintetizou a dinâmica do sinal da qual a relação entre o homem e a mulher constitui um exemplo comovedor. Se não compreende tal dinâmica, o homem sucumbe ao erro de deter-se na realidade que suscitou o desejo. Então a relação acaba por tornar-se insuportável.

Como dizia Rilke, “este é o paradoxo do amor entre o homem e a mulher: dois infinitos encontram-se com dois limites. Dois infinitamente necessitados de ser amados, encontram-se com duas frágeis e limitadas capacidades de amar. E é só no horizonte de um amor maior que não se devoram em pretensão, nem se resignam, antes caminham juntos até uma plenitude da qual o outro é sinal”.

Nesta situação pode-se compreender a proposta inaudita de Jesus para que a mais bela experiência da vida, enamorar-se, não decaia até se converter numa pretensão sufocante. “Quem ama a seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á; aquele que a perder por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10, 34-37, 39-40). Com estas palavras Jesus desvela o alcance da esperança que a sua pessoa constitui para quem o deixa entrar na sua vida. Não se trata de uma ingerência nas relações mais íntimas, mas da maior promessa que o homem alguma vez pôde receber: sem amar a Cristo – a Beleza feita carne – mais do que à pessoa amada essa relação murchará. Ele é a verdade dessa relação, a plenitude a que os dois mutuamente se remetem na qual a sua relação se cumpre. Só permitindo-Lhe entrar nela é possível que a mais bela relação da vida não decaia e, com o tempo, morra. Nós sabemos bem que todo o ímpio com que nos enamoramos não basta para impedir que o amor se oxide com o tempo. Tal é a audácia da sua pretensão.

Aparece então em toda a sua importância a tarefa da comunidade cristã: favorecer uma experiência de cristianismo para a plenitude da vida de cada um. Só no âmbito desta relação maior é possível não ser devorado, porque cada um encontra nela o seu cumprimento humano, surpreendendo em si uma capacidade de abraçar o outro na sua diferença, de gratuidade sem limites, de perdão sempre novo. Sem comunidades cristãs capazes de acompanhar e sustentar os esposos na sua aventura será difícil, se não impossível que a culminem com êxito. Eles, por sua vez, não se podem eximir do trabalho de uma educação da qual são os protagonistas principais, pensando que pertencer à comunidade eclesial os livra das dificuldades. Deste modo desvela-se plenamente a vocação matrimonial: caminhar juntos até ao único que pode responder à sede de felicidade que o outro desperta constantemente em mim, até Cristo.

Assim se evitará ir, como a Samaritana, de marido em marido (Jo 4, 18), sem conseguir apagar a sua sede. A consciência da sua incapacidade para resolver por si mesma aquele drama, nem sequer mudando cinco vezes de marido, fê-la perceber a Jesus como um bem tão desejável que não pode evitar gritar: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede (Jo 4,15).

Sem a experiência de plenitude humana que faz possível Cristo, o ideal cristão do matrimónio reduz-se a algo impossível de realizar. A indissolubilidade do matrimónio e a eternidade do amor aparecem como quimeras inalcançáveis. Estas, na realidade, são os frutos de uma intensidade da experiência de Cristo, tão gratuitos que aparecem aos mesmos esposos como uma surpresa, como o testemunho de que “para Deus nada é impossível”. Só uma experiência assim pode mostrar a racionalidade da fé cristã, como uma realidade totalmente correspondente ao desejo e à exigência do homem, também no matrimónio e na família.

Uma relação vivida assim constitui a melhor proposta educativa para os filhos. Através da beleza da relação de seus pais são introduzidos, quase por osmose, no significado da existência. Na estabilidade dessa relação a sua razão e a sua liberdade são constantemente solicitadas a não perder semelhante beleza. É a mesma beleza, resplandecente no testemunho dos esposos cristãos, que os homens e mulheres do nosso tempo necessitam de encontrar.

Julian Carrón é o presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação