segunda-feira, janeiro 28, 2008

A lei e a alma

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

A notícia de um idoso de Godim que, depois de secar na urgência hospitalar de Vila Real, foi mandado para a sua aldeia, de táxi, sem roupa, apenas com uma fralda, deixou-nos cá por este mundo de Cristo além, onde vivem 5 milhões de portugueses, sem fala. A notícia posterior da sua morte, regressado que foi à mesma urgência, deu-nos o sabor da magoada revolta.
(Primeira reflexão: é por estas, e várias outras, que os portugueses emigrados têm medo de voltar à Pátria, tal é a sensação de abandono que se exala dela).
Ouvimos depois, entre impacientes e incrédulos, a gritaria contra o ministro da Saúde. Chamaram-lhe tudo menos santo. E santo ele não é, tem pecados públicos, é um desorientado nas suas declarações, precisa mesmo de saír do palco e ir descansar uma temporada. No entanto, neste caso específico, creio que não mereceu os insultos. É que, em Portugal, nenhuma lei ordena que os doentes vão para casa nús, ainda por cima em Janeiro, ainda por cima no norte do país. Essa decisão, depois de um diagnóstico apressado e optimista de um médico de serviço, foi tomada por pessoal da enfermagem. Alguém, com uma pedra em lugar do coração, determinou que assim fosse. Fê-lo na maior impunidade porque, pela certa, não houve um superior a inspeccionar. Acreditar que houve supervisão e deixada passar uma desumanidade destas, poderia levar-nos a pensar que o país estaria perdido. Recusamos acreditar que assim seja.
As leis são disposições obrigatórias que garantem o funcionamento justo e regular das sociedades. Abaixo delas, as sociedades têm regras fundamentadas na generosidade, no bom senso, no respeito pela dignidade, em suma, assentes na moral. Muitas vezes as regras não estão escritas por serem óbvios os seus objectivos. Com toda a certeza, naquele hospital, não há uma regra a indicar que os doentes regressam a casa vestidos, porque nunca passou pela cabeça dos responsáveis que alguém pudesse praticar acto tão selvagem.
Quantas falhas idênticas a esta se verificam nos hospitais portugueses? Porquê? Pode ser por muitas razões: pessoal admitido, não por critérios de competência e idoneidade, mas por cunha ou favor partiário, porque passou a grassar no país uma grande onda de permissividade e ganância, e só assim se compreendem os abandonos de idosos por parte dos seus familiares. E por aí fora.
As maldades acontecem com idosos, crianças, mulheres e doentes em geral, porque Portugal está doente e a sua parte sã, cala-se. Não sai à rua, não para gritar nas arruadas das greves mal explicadas, mas para, de olhos nos olhos, pedir a a todos, e a cada um, que parem para pensar, que regressem à bondade, à dádiva, ao amor. Só assim será possível redimir a Pátria espezinhada por aqueles que, com o nome do povo na boca, trataram de governar a vidinha.
A emigração está com os olhos postos na terra distante.

sábado, janeiro 05, 2008

O estranho facto de uma celebração pela família

No passado dia 30 de Dezembro, na Plaza Colón, em Madrid, centenas de milhares de pessoas (um milhão e meio de pessoas segundo os organizadores) participaram no encontro “Por la familia cristiana” presidido pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, e que contou com uma mensagem especial de Bento XVI no decorrer do Angelus, ao meio dia, a partir da praça de S. Pedro.

Nenhuma TV ou jornal português noticiou que em Madrid se realizou uma manifestação pela família com a presença de um milhão e meio de pessoas. Presume-se que se achou normal, trivial, sem importância alguma, a dimensão daquela manifestação em Madrid.

Em Espanha e por essa Europa fora, porém, estranhou-se e noticiou-se. A estranheza da enorme adesão é comentada neste artigo pelo padre Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, publicado no jornal El Mundo de sábado passado:


O estranho facto de uma celebração pela família

por Julián Carrón

Estamos perante um facto estranho. Indiscutível. A convocatória para a celebração deste domingo na Plaza Colón de Madrid suscitou um movimento de adesão em muitíssimas pessoas que quiseram reunir-se gozosas para expressar publicamente o bem que significa para eles a família. Não deveríamos menosprezar esta resposta.

Desde há décadas que continuamente recebemos mensagens que vão na direcção oposta: muitas séries de televisão, filmes e muita literatura convidam ao contrário. Ante esse impressionante emprego de meios, o normal seria que a família tivesse deixado de interessar. Porém, há algo que temos que reconhecer quase surpreendidos: essa impressionante maquinaria não mostrou ser mais potente que a experiência elementar que cada um de nós viveu na sua família, a experiência de um bem. Um bem de que estamos agradecidos e que queremos transmitir a nossos filhos e partilhar.

De onde nasceu este bem do qual estamos tão agradecidos? Da experiência cristã. Nem sempre foi assim, como testemunha a reacção dos discípulos a primeira vez que ouviram Jesus falar do matrimónio. “E aproximaram-se d’Ele alguns fariseus para o porem à prova, dizendo: “É lícito a um homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?”. E, respondendo, Ele disse: “Não lestes que, no princípio, aquele que os criou os fez homem e mulher?”. E acrescentou: “Por esta razão o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne. Por conseguinte, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu nenhum homem pode separar”. Os discípulos disseram: “Se é assim a relação do homem com a mulher, não convém casar-se (Mt 19, 3-6,10).

Não temos, pois, que nos surpreender.

O mesmo que a tantos de nossos contemporâneos e muitas vezes mesmo a nós próprios, aos discípulos também lhes parecia impossível. Só a graça de Jesus Cristo tornou possível viver a natureza original da relação entre homem e mulher.

É importante olhar para esta origem para poder responder aos desafios que temos que enfrentar. Os católicos não são diferentes dos outros; muitos de nós temos problemas na vida familiar.

Constatamos com dor como entre nós há numerosos amigos que não perseveram perante as numerosas dificuldades externas e internas que atravessam. Mesmo entre nós não nos basta saber a verdadeira doutrina sobre o matrimónio para poder resistir a todas as tentações da vida. Recorda-nos o Papa: “As boas estruturas ajudam, mas por si sós não bastam. O homem nunca pode ser redimido somente a partir do exterior (Spe Salvi, 25).

Necessitamos fazer nosso o que recebemos para poder vivê-lo na nova situação que se nos depara, como nos convida Goethe: “O que herdaste dos teus antepassados/deves reconquistá-lo de novo/para verdadeiramente o possuir”.

Para reconquistar de novo a experiência da família necessitamos aprender que “a questão da justa relação entre o homem e a mulher funde as suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar a sua resposta a partir desta”, como disse Bento XVI. Com efeito, a pessoa amada revela-nos o “mistério eterno do nosso ser”.

Nada nos desperta tanto e nos faz tão conscientes do desejo de felicidade que nos constitui como o ser querido. A sua presença é um bem tão grande que nos faz cair na conta da profundidade e verdadeira dimensão deste desejo: um desejo infinito. As palavras de Cesare Pavese sobre o prazer podem aplicar-se à relação amorosa: “O que um homem busca no prazer é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de conseguir esta infinitude”. Um eu e um tu limitados suscitam-se reciprocamente um desejo infinito e descobrem-se lançados pelo seu amor a um destino infinito. Nesta experiência desvela-se a ambos a sua vocação.

Por isso os poetas viram na formosura da mulher um “raio divino”, quer dizer, um sinal que remete mais além, para outra coisa maior, divina, incomensurável em relação à sua natureza limitada. A sua beleza grita ante nós: “Não sou eu. Eu sou só um sinal. Olha! Olha! Quem te recordo?”. Com estas palavras o génio de C. S. Lewis sintetizou a dinâmica do sinal da qual a relação entre o homem e a mulher constitui um exemplo comovedor. Se não compreende tal dinâmica, o homem sucumbe ao erro de deter-se na realidade que suscitou o desejo. Então a relação acaba por tornar-se insuportável.

Como dizia Rilke, “este é o paradoxo do amor entre o homem e a mulher: dois infinitos encontram-se com dois limites. Dois infinitamente necessitados de ser amados, encontram-se com duas frágeis e limitadas capacidades de amar. E é só no horizonte de um amor maior que não se devoram em pretensão, nem se resignam, antes caminham juntos até uma plenitude da qual o outro é sinal”.

Nesta situação pode-se compreender a proposta inaudita de Jesus para que a mais bela experiência da vida, enamorar-se, não decaia até se converter numa pretensão sufocante. “Quem ama a seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á; aquele que a perder por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10, 34-37, 39-40). Com estas palavras Jesus desvela o alcance da esperança que a sua pessoa constitui para quem o deixa entrar na sua vida. Não se trata de uma ingerência nas relações mais íntimas, mas da maior promessa que o homem alguma vez pôde receber: sem amar a Cristo – a Beleza feita carne – mais do que à pessoa amada essa relação murchará. Ele é a verdade dessa relação, a plenitude a que os dois mutuamente se remetem na qual a sua relação se cumpre. Só permitindo-Lhe entrar nela é possível que a mais bela relação da vida não decaia e, com o tempo, morra. Nós sabemos bem que todo o ímpio com que nos enamoramos não basta para impedir que o amor se oxide com o tempo. Tal é a audácia da sua pretensão.

Aparece então em toda a sua importância a tarefa da comunidade cristã: favorecer uma experiência de cristianismo para a plenitude da vida de cada um. Só no âmbito desta relação maior é possível não ser devorado, porque cada um encontra nela o seu cumprimento humano, surpreendendo em si uma capacidade de abraçar o outro na sua diferença, de gratuidade sem limites, de perdão sempre novo. Sem comunidades cristãs capazes de acompanhar e sustentar os esposos na sua aventura será difícil, se não impossível que a culminem com êxito. Eles, por sua vez, não se podem eximir do trabalho de uma educação da qual são os protagonistas principais, pensando que pertencer à comunidade eclesial os livra das dificuldades. Deste modo desvela-se plenamente a vocação matrimonial: caminhar juntos até ao único que pode responder à sede de felicidade que o outro desperta constantemente em mim, até Cristo.

Assim se evitará ir, como a Samaritana, de marido em marido (Jo 4, 18), sem conseguir apagar a sua sede. A consciência da sua incapacidade para resolver por si mesma aquele drama, nem sequer mudando cinco vezes de marido, fê-la perceber a Jesus como um bem tão desejável que não pode evitar gritar: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede (Jo 4,15).

Sem a experiência de plenitude humana que faz possível Cristo, o ideal cristão do matrimónio reduz-se a algo impossível de realizar. A indissolubilidade do matrimónio e a eternidade do amor aparecem como quimeras inalcançáveis. Estas, na realidade, são os frutos de uma intensidade da experiência de Cristo, tão gratuitos que aparecem aos mesmos esposos como uma surpresa, como o testemunho de que “para Deus nada é impossível”. Só uma experiência assim pode mostrar a racionalidade da fé cristã, como uma realidade totalmente correspondente ao desejo e à exigência do homem, também no matrimónio e na família.

Uma relação vivida assim constitui a melhor proposta educativa para os filhos. Através da beleza da relação de seus pais são introduzidos, quase por osmose, no significado da existência. Na estabilidade dessa relação a sua razão e a sua liberdade são constantemente solicitadas a não perder semelhante beleza. É a mesma beleza, resplandecente no testemunho dos esposos cristãos, que os homens e mulheres do nosso tempo necessitam de encontrar.

Julian Carrón é o presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Dom Duarte

por Tomaz Dentinho


Dom Duarte veio à Terceira inaugurar as novas instituições da AMI. À noite houve um jantar promovido pela Real Associação da Ilha Terceira. Estive presente no jantar e é sobre o que lá se disse que vale a pena falar.

Primeiro percebi melhor o sentido da obra de Fernando Nobre. Não há dúvida que tem capacidade para mobilizar meios financeiros, materiais e humanos para o serviço social. O segredo que terá é o de adaptar a cada sítio aquilo que é aí necessário. Providenciar dormida aos familiares de pessoas doentes que são internadas em São Miguel é dar resposta a uma necessidade que se fazia sentir de forma crescente, aliás como já comprovavam as iniciativas de alguns municípios mais remotos que tinham apartamentos disponíveis para os seus munícipes em Ponta Delgada. Em Angra essa função já estaria preenchida por outras instituições ou então a política de saúde regional tratou de subalternizar o Hospital de Angra. O facto é que a AMI preferiu orientar a sua actuação para a distribuição de medicamentos e para o apoio aos mais desfavorecidos. A Igreja pode-se ressentir desta intromissão civil naquilo que costuma ser a sua esfera de actuação social mas a verdade é que quem não é contra nós é certamente por nós. De qualquer forma foi bom ter assistido à ligação entre a AMI e a Casa Real.

O segundo aspecto que importa falar tem a ver com o discurso de Dom Duarte, em complemento das palavras de boas vindas proferidas por Valdemar Mota. Do que me lembro disse três coisas importantes. Disse que estavam em preparação as comemorações do assassinato de Dom Carlos onde se iria relembrar a vida e obra daquele marcante rei de Portugal que – conforme disse Dom Duarte - se fosse conhecido pelos assassinos, certamente não o teriam morto. E como os assassinos de Dom Carlos somos de facto todos nós, que vivemos em República e que ainda não pedimos desculpas por termos morto o Rei, o que Dom Duarte quis dizer foi que, se conhecêssemos a monarquia certamente não a teríamos morto. Disse também que fazia pouco sentido criticar as edificações de muitos construtores civis quando basta uma assinatura de um arquitecto conhecido para destruir o ambiente urbano de uma cidade histórica. Basta olhar para a nossa Caixa Geral de Depósitos ou para a famigerada frente marítima de Angra para todos entendermos a mensagem do nosso rei. Terá dito também, assim interpreto, que a Monarquia pode coexistir com a República, aliás como demonstra o seu testemunho de décadas. Bastaria que os Presidentes da República fossem mais seguros da sua posição para que pudessem solicitar e estimular o desempenho do monarca. Mas a verdade é que só conseguem isso no fim dos mandados e na assunção de que ficaram aquém do que conseguiriam fazer em complemento da Casa Real.

O terceiro aspecto que aqui vos reporto já se passou sem o Senhor Dom Duarte. Lamentavam os meus companheiros que a Terceira estava a perder peso para São Miguel, que Angra se estava a transformar numa vila, que qualquer dia nem teríamos o Representante da República, nem Bispo nem Secretarias Regionais. Naturalmente que constatei essa tendência mas demonstrei que a culpa era em grande parte dos terceirenses. Têm um Bispo mas não saem à rua em dia de procissão como fazem em São Miguel. Têm uma Universidade mas nunca se identificaram com ela, a ponto de não haver qualquer placa a indicar o caminho; existe a placa para os Montanheiros, para o Instituto disto e daquilo mas nada sobre a Universidade. Tiveram o porto mais importante dos Açores mas fizeram tudo para o fechar. Têm o melhor aeroporto das ilhas mas admitem que o seu uso seja condicionado para uso militar mesmo quando não há guerra. Têm possibilidade de ter cursos de jornalismo, de arquitectura, de governança e de paisagismo mas preferem condicionar a sua criação. Estão no centro do arquipélago mas preferem a defesa provinciana e inútil da ilha.

Fonte: A União, Quinta-Feira, dia 20 de Dezembro de 2007

sábado, dezembro 15, 2007

domingo, dezembro 02, 2007

Mensagem do 1º de Dezembro de 2007

Por Dom Duarte de Bragança

Há 30 anos iniciei o hábito de comunicar com os Portugueses nos dias 1º de Dezembro. Sei que as minhas mensagens têm sido bem recebidas em todas as esferas da sociedade portuguesa porque nelas chamo a atenção para as prioridades da vida nacional.

Como herdeiro da Casa Real, e daí com especial responsabilidade na preservação do património histórico do povo português, tenho orgulho em comemorar hoje a restauração de 1640 e sinto que, no futuro, essa independência deve ser cada vez mais bem aproveitada. É no passado que ela tem as suas raízes, mas é no futuro que a devemos projectar.

No nosso país, tem faltado debate sobre as vantagens que nos outorga a independência. Em alguns sectores da sociedade, faz-se correr que a soberania é um conceito esgotado e que, com a globalização e iberização dos mercados, só teríamos vantagens na subsequente união política com a Europa

Se queremos conduzir a bom porto o nosso país, acho que, devemos reflectir com independência, antes de prestar ouvidos a tentações e oportunismo políticos.

Neste preciso contexto está o Tratado Reformador Europeu previsto para ser assinado em Lisboa em Dezembro e cujo processo de ratificação começará nos próximos meses.

Começo por saudar o esforço dos diplomatas portugueses que, honrando a tradição da Secretaria dos Negócios Estrangeiros, criada por D. João V, conseguíram que Portugal saísse prestigiado do modo como conduziu a negociação do Tratado de Lisboa.

A sua ratificação deveria preservar a diversidade e a riqueza cultural dos Povos Europeus. Em Portugal, como noutras nações europeias, as personalidades e os partidos debatem se essa ratificação deve ter lugar por referendo ou aprovação parlamentar.

Seja qual for a decisão, deve haver debate para ficarem claras as principais alterações introduzidas, que ficaram por explicar. O modelo da Europa a adoptar deve ser objecto de uma profunda discussão!

Espero que a introdução do Presidente Europeu, a eleger pelo Conselho, não vá minando a diversidade das nações. A verdade é que ao darem-se passos para uma entidade de tipo federal, os Governos nacionais perdem poder.

É minha firme convicção que a melhor resposta dos Portugueses ao Tratado Europeu é trabalharmos para termos um soberano verdadeiramente independente de todas as forças económicas, políticas e regionais. O Estado dá cada vez mais indícios de estar refém de "interesses especiais". Engordou. Está flácido. É necessário reafirmar a sua autoridade e separar o seu papel central, que tem a ver com as funções de soberania, das outras funções que pertencem à sociedade. Ao assinarmos o Tratado queremos dizer que "Pertencemos à Europa". Termos um rei será dizer que " Portugal continua a pertencer aos portugueses ".

No ano que se aproxima, comemoram-se os centenários dos assassinatos de D. Carlos I e seu filho, D. Luiz Filipe, e da chegada da família Real ao Brasil. Para cada um deles, tomei iniciativas consentâneas com o especial relevo para Portugal desses acontecimentos.

Conforme sondagem à opinião pública de 2002, mais de 75% do povo português considera "um crime horroroso" o regicídio. Sabemos que foi levado a cabo por terroristas ao serviço de uma conspiração contra a Monarquia Democrática então vigente.

E contudo, passados estes anos estou convencido que, se os assassinos verdadeiramente conhecessem o seu Rei, não o teriam morto. Mas tão forte era a campanha de ódio e desinformação sobre o Rei e a Família Real, tão grande era o desconhecimento da sua dedicação ao país, da defesa da nossa independência e da nossa posição no mundo, que veio o trágico desenlace que afastou Portugal, durante décadas, do caminho para uma sociedade mais evoluída.

Por o Rei D. Carlos ser uma figura ainda tão mal conhecida, foi criada a “Comissão Dom Carlos 100 anos”. Desde 2008 até 2013, ano do 150º aniversário do seu nascimento, essa Comissão irá apoiar eventos que lembrem a sua obra. É uma tarefa de reconciliação para a qual chamo todos os portugueses e que foi já iniciada pela sociedade civil e pelas nossas Forças Armadas através de exposições, livros, monumentos e conferências.

A 1 de Fevereiro haverá solene Missa de Requiem, em S. Vicente de Fora. Espero que nessa evocação religiosa estejam presentes, com todos os que quiserem honrar a memória do grande rei D. Carlos, as mais altas autoridades do Estado Português numa homenagem ao que foi um Chefe de Estado que projectou a sua Pátria no Estrangeiro...

Fui convidado pelas autoridades Brasileiras a tomar parte nas cerimónias Comemorativas dos duzentos anos da chegada de D. João VI ao Brasil, em Maio de 2008. Quero aproveitar esta ocasião para saudar o presidente Lula da Silva bem como todos os seus diplomatas, que têm sabido conduzir o Brasil para uma prestigiada posição nas relações internacionais. É minha convicção de que, conjuntamente, podemos mostrar ao mundo Iberoamericano a nossa competência técnica e apoiar as acções dos nossos empresários no Mercosul, numa região onde estão situados dos maiores recursos mundiais de hidrocarbonetos.

Neste contexto, saúdo a atitude do Rei de Espanha, defendendo no estrangeiro a honra dos seus compatriotas. Mas também saúdo a Venezuela, onde trabalham mais de quatrocentos mil portugueses. Eles sentem-se naturalmente honrados com a aproximação que o Chefe de Estado Venezuelano fez a Portugal, valorizando a tão prestigiada comunidade portuguesa e abrindo caminhos para uma mais eficaz cooperação.

A celebração da independência de 1640 é também um compromisso para com a Lusofonia e a diáspora portuguesa. No espaço da Lusofonia, as nossas hesitações na política externa resultam em percas de terreno a favor de outros países….

Saúdo aqui especialmente a Guiné Equatorial e a China/Região Autónoma de Macau, que pediram respectivamente a adesão e o estatuto de observador à CPLP. A Lusofonia é uma mensagem cada vez mais vibrante e que acolhe novos povos.

Ao visitar recentemente os Estados Unidos e o Canadá , tive ocasião de contactar e colaborar de novo com as comunidades portuguesas , que lutam para que as novas gerações não se esqueçam das suas raízes .

Creio ter dado exemplos suficientes de como, na minha qualidade de chefe da Casa Real Portuguesa, me tenho pronunciado e agido, para defender os nossos compatriotas e os outros povos lusófonos. Saúdo aqui Timor, com uma mensagem especial na pessoa do bom amigo Dr. Ramos Horta, nesta nova fase da sua vida política.

Não posso deixar de me preocupar com o tema da educação. Ainda recentemente um grande poeta português vivo que é também um patriota, escreveu que.... "Temos muito passado e muita História e cada vez menos memória" E de facto o principal problema está na rejeição de valores como a exigência e o esforço, e as referências de história e de cidadania, seja na escola pública, seja na privada.

O sistema actual prejudica em especial os alunos com menores capacidades, e não prepara bem os jovens para o mercado do trabalho. Por exemplo, as deficiências na aprendizagem da língua portuguesa afectam a compreensão de todas as disciplinas.

Constituindo o ensino um dos principais pilares para o desenvolvimento do País, dever-se-á investir fortemente na qualificação de professores e generalizar a aplicação das melhores práticas nacionais e internacionais ao sistema de ensino português. A educação terá que ser a grande e urgente aposta do País, com objectivos bem definidos e estáveis.

Numa época de grande fragmentação familiar, as escolas deverão exercer um papel na educação cívica muito mais actuante que no passado, adoptando, desde a pré-primaria. Métodos de ensino que incluam hábitos de disciplina e rigor e valores éticos e morais.

O correcto ensino da nossa História assume importância crescente. O conhecimento do papel desempenhado pelos seus principais protagonistas manterá vivas as referências identificadoras das nossas raízes, provocando um efeito estimulador no sentido de futuras iniciativas.

Neste âmbito, o nosso sistema de ensino deverá estimular nos estudantes o espírito empreendedor em todas as áreas do conhecimento e que, mais tarde, será aplicado no reconhecimento e aproveitamento das oportunidades que o mundo lhes proporcionará. Para isso seria de grande utilidade incrementar quanto antes, uma maior cooperação entre Universidades e Empresas, por forma a que o investimento efectuado durante o percurso académico seja consequente sob o ponto de vista de realização pessoal e de desenvolvimento do País

As Famílias portuguesas merecem uma referência particular: fazem enormes sacrifícios, apostando no futuro através da instrução dos filhos, suportando grandes encargos, e se necessário ou possível enviando os filhos para o ensino no estrangeiro. É necessário que o Estado melhor corresponda a este enorme esforço.

Quero ainda saudar todos os que contribuíram para a campanha pelo "Não ao Aborto “.

Creio que a defesa da Família não é apenas boa moral; é também boa política, dado o envelhecimento da população portuguesa. Mas mesmo legitimamente acreditando em determinados valores, como Chefe da Casa Real Portuguesa respeito os que discordam da minha posição; perante o drama do aborto, devemos principalmente proporcionar condições às futuras mães que vivem situações difíceis.

A incapacidade que o Estado vem manifestando de, por si só, conseguir encontrar soluções para lutar contra a exclusão social de pessoas carenciadas e imigrantes torna imperiosa uma maior participação de todos nós através do desenvolvimento de iniciativas inovadoras e solidárias.

É difícil de compreender como é que – segundo dados de um estudo do Observatório da imigração publicado este mês – o País desperdiça o aproveitamento de tantos imigrantes qualificados tanto da Europa do Leste como Lusófonos. Na realidade, apenas 1 em cada 5 imigrantes com um curso superior consegue emprego adequado ás suas habilitações.

Num momento em que se começa a falar da celebração do centenário da revolução de 5 de Outubro, creio dever mencionar os ataques que voltam a surgir à Igreja e aos seus valores, sabendo que a Conferência Episcopal Portuguesa já exigiu ter uma palavra a dizer no âmbito dessas comemorações.

Preocupa-me que o Estado não aproveite devidamente os contributos da sociedade civil em favor do progresso material e espiritual da população, e a Igreja é, na sociedade civil, a principal interveniente nos campos assistencial e cultural.

Temos no entanto assistido a preocupantes ataques ao seu trabalho nos mais diversos domínios: capelães hospitalares e prisionais, património religioso, comunicação social nacional e regional, educação religiosa e moral cristã, ensino secundário e superior. Perante este panorama, creio que a Igreja precisa não de protecção ou favor, mas sim de reconhecimento das suas potencialidades e do seu serviço efectivo à sociedade.

Deixei para o fim uma grave preocupação. Muitos dos Portugueses mais capazes e bem formados afastam-se actualmente da política e preferem usar o seu tempo exclusiva mente em ocupações profissionais. Preocupa-me o afastamento da população em relação à participação eleitoral, como se tem observado

A aprendizagem da democracia moderna começou em Portugal com a monarquia constitucional em 1820 mas foi profundamente perturbada com a balbúrdia sanguinolenta da 1ª república e com o autoritarismo da 2ª república. Temos de assimilar melhor um mecanismo essencial da Democracia, que é a participação na coisa pública.

Sem uma verdadeira "cultura democrática" de participação das pessoas e de responsabilização dos eleitos perante os eleitores cresce a abstenção e a indiferença e em, momentos de crise das instituições democráticas poderemos vir a ser desafiados pela tentação de aceitar ditador "que nos governe".

A independência nacional é também um compromisso com a democracia....

Foram estas considerações que me levaram a fundar em Agosto deste ano o "Instituto da Democracia Portuguesa", que junta personalidades de sectores políticos e culturais muito diferentes, mas unidos na preocupação de que Portugal seja um País livre e independente, numa Europa unida pelos valores que decorrem das suas raízes culturais e espirituais cristãs, gregas e judaicas.

As iniciativas deste Instituto que se preparam sobre o ordenamento do território nacional contam com o apoio de académicos, empresários, quadros e jovens de todo o país. Espero para elas todo o apoio dos que entendem que chegou a hora de um movimento de cidadania que reúna as pessoas pelo que elas têm de melhor e de participação na vida pública mediante resoluções e propostas concretas sobre o ordenamento, a segurança e estratégia nacional, entre outras.

Queria terminar salientando o compromisso da minha Família para com o futuro. Connosco estão aqui presentes a Duquesa de Bragança, e os nossos filhos. Sobre eles já escrevi que "o mais notável que me aconteceu foi ter casado com a melhor mulher do mundo e termos recebido de Deus os nossos três filhos que tanta felicidade nos trazem".

Juntos, comprometemo-nos a desempenhar uma missão importante na construção do futuro colectivo de Portugal e em apoiar a independência nacional com todas as nossas forças.

Dom Duarte de Bragança

quarta-feira, novembro 07, 2007

D. Carlos trouxe o Comité Olímpico para Portugal

e a República atrasou-o.


A carta de aceitação do cargo de “Encarregado de Negócios em Portugal do Comité Olímpico Internacional” escrita por indicação de D. Carlos Rei de Portugal, por António Lencastre em 9 de Junho de 1906 a Pierre de Coubertin, tem a dignidade necessária para ser considerada como a da fundação do Comité Olímpico de Portugal (COP). Segundo julgamos saber, foi pela primeira vez publicada em Portugal pelo Norte Desportivo em 10 de Junho de 2006, quer dizer, cem anos e um dia depois de ter sido enviada. Nela pode ler-se:

“Le Comité Olympic International, dû à votre obligeance, tiendrait à m’elire représentant de mon pays ou sein de votre honorable compagnie. Touché de votre bienveillance je m’expresse de porter à votre connaissance que j’accèpte votre indication avec le plus grand plaisir, soucieux de’apporter mon concours à votre œuvre. ... ”

Contudo, o COP arvorando-se em continuador da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional (SPEFN), tem vindo a insistir na data de 26 de Outubro de 1909 como a da sua fundação, atrasando deste modo, mais de três anos a institucionalização do Olimpismo em Portugal.

Primeiras contestações

No entanto, a data da fundação do COP foi posta em causa em princípios dos anos oitenta. Ao tempo, Orlando Azinhais e João Sequeira Nunes, denunciaram o facto do COP não poder ter sido o continuador da SPEFN na medida em que esta sociedade não se extinguiu a partir de 1912, data em que, segundo o semanário “Sports Illustrado” de 4 de Maio de 1912, foi fundado o Comité Olímpico Português a 30 de Abril, fundamentalmente com o objectivo de se organizar uma representação nacional aos Jogos Olímpicos de Estocolmo.

Entretanto, o jornal “A Bola” (3/4/94) imprimia em parangonas: “COP Festeja Aniversário em Data Errada” indo buscar a notícias do “Sport Illustrados” de 4/ de Maio de 1912 e Carlos Cardoso presidente da Confederação do Desporto de Portugal, num trabalho publicado na “A Bola” (13/6/03), afirmou que a data em que o COP comemora o seu aniversário além de estar errada não era verdadeira na medida em que a SPEFN de facto, foi fundada a 27 de Novembro de 1909.

No semanário “Norte Desportivo” referimos na edição de 10 de Junho que se estavam a passar 100 anos sobre a fundação do Olimpismo em Portugal, mas que passaram completamente despercebidos não só à generalidade da comunicação social como, o que é inaceitável, ao próprio COP.

Recentemente o jornal “A Bola” (19/9/06) voltou ao tema através de Carlos Cardoso e de alguma maneira começou a aderir à tese da importância que deve ser dada à data de 9 de Junho de 1906.

Porque é que não se muda?


Perguntarão porque é que a data da fundação do COP está envolvida em tais confusões? Em nosso entender toda esta confusão ficou-se em grande media a dever a José Pontes e aos livros por ele escritos, como ele próprio diria, “à lá diable”, que no fundo eram verdadeiros instrumentos de promoção pessoal que pouco tinham a ver com o rigor exigido à historiografia. José Pontes, aliás como sublinhou Orlando Azinhais, rodeou sempre a questão da data da fundação do COP.

Pergunta-se então porque é que o COP não adopta a data de 30 de Abril de 1912 como a da sua fundação?
Segundo dizem, para não perder o seu lugar de ordem na lista de membros aderentes ao Comité Olímpico Internacional.

Há necessidade de insistir numa falsidade?

Mas a verdadeira questão que hoje se coloca é a que procura saber se o COP tem realmente necessidade de ir buscar emprestada uma data que justifique a sua fundação em 1909 e não em 1912, quando pode defender com toda a legitimidade 1906?

Quanto a nós, a resposta só pode ser negativa, na medida em que o que é facto é que Portugal entrou no clube Olímpico pela acção do Rei D. Carlos em 9 de Junho de 1906.
E entrou não porque D. Carlos fosse o Rei de Portugal mas porque era, de facto, um desportista e um amante da causa desportiva.

Era D. Carlos I um homem do desporto?

O currículo desportivo de D. Carlos ombreava com o de qualquer “sportmen” da época. A este respeito escrevia o “Tiro e Sport” na sua edição de 15 de Fevereiro de 1905, por motivos da inauguração oficial do Centro Nacional de Esgrima a 6 de Fevereiro do mesmo ano:

“Varios tem sido os aspectos, sob os quaes tem sido biografado S. M. El-Rei, como soberano, homem de sciencia, artista, yacthman. Como esgrimista cabe-nos a subida honra de o fazer e, francamente confessamos, desejaríamos dispor de grandes recursos d’inteligência para que podessemos biographar, como merece, o supremo Chefe da Nação Portugueza. (…) Sua Magestade El-Rei cultiva desde os sete annos a esgrima, tendo sido seus professores, primeiro o celebre professor francez Henri Petit, seguindo-se-lhe Luiz Monteiro e António Martins. Tem sido com este último professor, com quem durante maior lapso de tempo tem trabalhado S. M, e o mestre não se cansa de tecer elogios ás excellentes qualidades que S. M. possue como esgrimista. (…) Anima com a sua presença todas as festas de esgrima, e com a sua palavra incita todos quanto procuram radicar no espírito do nosso povo a prática da esgrima. E, tem sido com o appoio sempre constante de sua Majestade El-Rei, que António Martins, nunca desfalleceu no caminho que encetou, procurando desenvolver o gosto pela esgrima em Portugal. O Centro Nacional de Esgrima, também encontrou sempre sua majestade prompto em auxiliá-lo, e muitíssimo lhe deve essa agremiação, não só pela subida honra da sua presença á festa d’inauguração, e de ser seu sócio protector, como pela rápida solução de varias difficuldades na sua instalação.”

Na realidade, D. Carlos foi um reconhecido praticante e dirigente desportivo, empenhado na causa do desporto, pelo que, bastas vezes, emprestou a sua figura de monarca a diversas organizações e eventos desportivos. Por exemplo, foi Presidente Honorário de várias agremiações entre as quais a União dos Atiradores Civis Portugueses fundada em 16 de Novembro de 1893 e a União Velocipédica Portuguesa fundada a 14 de Dezembro de 1899.

Como escreviam os jornais da época ele foi “o primeiro sportsman portuguez”.

Uma questão de verdade e de justiça


Por isso, quando se faz apelo para que seja reconhecida a data de 9 de Julho de 1906 como a da fundação do Olimpismo em Portugal e, por isso, a data que o COP devia adoptar como a da sua fundação, para além de se estar a repor a verdade histórica possível, está-se a fazer justiça a D. Carlos e à família real portuguesa que sempre demonstraram uma grande dedicação à causa desportiva e o arranque do desporto em Portugal a eles muito se ficou a dever.

Estamos convencidos que só o trágico e estúpido regicídio, bem como a implantação da República em 1910, fizeram com que ao acto conjunto de D. Carlos e Pierre de Coubertin que culminou na carta de aceitação de António Lencastre, não tenha sido dado o devido significado. Entretanto, com o passar dos anos o comodismo instalou-se e o discurso politicamente correcto passou a fazer cátedra pelo que a sociedade desportiva se tem permitido com relativa paz de espírito conviver não só com uma tremenda mentira histórica bem como com uma profunda injustiça.


GP, 7/10/06.


Saiba mais em
http://www.forumolimpico.org/?q=node/251

terça-feira, outubro 30, 2007

Instituto da Democracia Portuguesa


Teve lugar no passado dia 29 de Outubro de 2007 em Lisboa a Assembleia Geral Constituinte do Instituto da Democracia Portuguesa (IDP). Foram eleitos os corpos sociais a apresentado o programa geral de actividades para 2008.

Digno de nota foi a afluência por parte dos associados e que também, no período reservado à sua intervenção, expressaram o seu desejo de que o IDP venha a desempenhar com sucesso um lugar necessário na sociedade portuguesa: uma acção independente que procure soluções para problemas prementes ligados, entre outros, ao ordenamento do território, à indepedência de Portugal no quadro dos nossos compromissos internacionais, das áreas metropolitanas e à ligação com os países lusófonos.

É presidente de honra do IDP Dom Duarte de Bragança, é presidente da Assembleia Geral o Dr. Fernando Nobre, tem como presidente do Conselho de Curadores o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles e como presidente da Direcção o Prof. Mendo Castro Henriques. Entre os seus associados, o IDP conta com vários ex-governantes, académicos, militares, entre outros que, num esforço claro da sociedade civil, aderiram a esta iniciativa para colocar a sua experiência ao serviço deste projecto que se quer que seja, verdadeiramente, um projecto de interesse nacional.

Manuel Braga da Cruz acusa Governo de não reconhecer valor da Universidade Católica Portuguesa

Portugal, o Estado da Europa que pior trata uma Universidade Católica


O reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), Manuel Braga da Cruz, teceu ontem duras críticas à forma como o Governo tem vindo a cortar os poucos subsídios que ainda atribui àquela instituição de ensino superior, numa altura em que a universidade assinala 40 anos de actividade e conseguiu, este ano, a sua maior distinção internacional e sempre.

O catedrático, que falava na cerimónia de abertura solene das aulas do Centro Regional de Braga, não deixou de salientar que o Estado português, comparativamente com o que acontece com outros Estados europeus no relacionamento com universidades católicas, «maltrata » a UCP.
«Surpreende-nos que um subsídio que era atribuído desde meados da década de 70 à UCP, que já tinha sido retirado em boa parte em 2000, tenha sido agora totalmente suprimido, segundo as informações que dispomos», afirmou Braga da Cruz ao Diário do Minho no final da cerimónia.

Ora, o reitor da "Católica" destacou que tudo isto acontece «não apenas num ano em que a universidade completa 40 anos mas, sobretudo, num ano em que a UCP recebeu o reconhecimento internacional mais elevado que até hoje teve, que foi o de ter colocado a sua Escola de Negócios (Business School), de Lisboa, no ranking do "Financial Times", entre as 50 melhores do mundo».

Na sua intervenção na cerimónia o catedrático lembrou que o Governo de José Sócrates colocou entre os seus objectivos criar em Portugal uma Business School e colocá- -la «entre as 100 melhores do mundo», para destacar que a UCP conseguiu colocar a sua escola nas 50 melhores.

«Considero que merecíamos um gesto de apreço, de simpatia e não este gesto – que não pode ser entendido de outra forma – de desatenção e de menor consideração para com a universidade», frisou Braga da Cruz.

Perante uma plateia que encheu o salão de actos da Faculdade de Teologia – uma bela antiga capela do edifício que já foi Seminário Maior – o reitor da UCP disse não compreender como é que o Governo, perante os resultados alcançados pela universidade que preside, «em vez de premiar e estimular, castiga desta forma inexorável». E justificou a abordagem deste tema porque «quem não se sente não é filho de boa gente».

O Estado da Europa que pior trata uma "Católica"

(...) Braga da Cruz defendeu que, apesar do actual corte decretado pelo Governo socialista, «futuramente, este subsídio tem de ser repensado e reposto, até porque a UCP, no contexto europeu, é a que pior é tratada do ponto de vista financeiro pelo Estado».

O reitor indicou, de seguida, que «há muitos países da Europa onde as universidades católicas são financiadas exactamente como as universidades públicas, como são os casos da Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia e Hungria».

Mesmo naqueles países onde esse tratamento não acontece – como é o caso da Itália e França –, Braga da Cruz sustenta que «pelo menos 30 por cento do orçamento dessas universidades católicas é suportado pelo Estado».

«Em Portugal estamos reduzidos quase a zero», lamentou o reitor da universidade. Por isso,diz esperar «que o bom-senso venha a prevalecer e que a UCP, que tão importante papel tem desempenhado na sociedade portuguesa, venha a ser dignamente apoiada pelo Estado, no futuro».

(...)

In Diário do Minho| 24/10/2007

domingo, outubro 28, 2007

Os Mártires de Espanha

La morte rivoluzionaria dei martiri


Juan Manuel de Prada

"Amate i vostri nemici e pregate per i vostri persecutori, perché siete figli del Padre vostro celeste, che fa sorgere il sole sopra i malvagi e sopra i buoni, e fa piovere sopra i giusti e sopra gli ingiusti".

Questo mandato che Gesù ci trasmette nel Discorso della montagna forse è la più improba esigenza che si può far gravare sulle spalle di un essere umano. Come possiamo giungere ad amare fino a questo estremo? Il sacrificio del Golgota è la prova più evidente di questo amore universale che fa "piovere" su tutti gli uomini, anche su coloro che appesero Gesù a un legno, anche su di noi che ogni giorno continuiamo a farlo. Compiere il mandato di amore verso i nemici diviene pertanto la prova massima della imitatio Christi, la più sovversiva e radicale espressione della nostra fede.
I 498 martiri della guerra civile spagnola che saranno oggi beatificati morirono amando quanti strapparono loro la vita. Sono testimoni di questo amore estremo che Gesù ci ha richiesto, testimoni della scandalosa bellezza della fede che professavano. Vi è, in effetti, una sfida e qualcosa di rivoluzionario nella loro morte, qualcosa che interpella l'uomo contemporaneo in modo feroce. Quegli uomini e quelle donne morirono perdonando quanti li uccidevano, morirono amando quanti li uccidevano, sicuri che il loro sangue si sarebbe trasformato in fermento fecondo per quanti, un giorno, nel ricordare la loro morte, sarebbero riusciti a decifrare il loro commovente mistero. Quegli uomini e quelle donne morirono con la gioia di sapersi amati da Colui che stava per accoglierli nel suo grembo, morirono abbracciati allo stesso legno che noi uomini abbiamo innalzato e continuiamo a innalzare ogni giorno per crocifiggere Colui che ci ha redenti con il suo amore. Solo questa identificazione profonda e incrollabile con Gesù spiega il loro sacrificio, e, spiegandolo, lo trasforma in segno universale di generosità e riconciliazione del quale beneficiamo non solo noi cristiani, ma in generale qualsiasi persona che rivolga con occhi puri lo sguardo verso la bellezza profonda di quel gesto. Commemorare quei martiri significa celebrare la possibilità di un futuro di concordia e di perdono che ci includa tutti. Un futuro pasquale, poiché dal seme di quel sangue sparso per amore nasce ogni giorno un raccolto di uomini nuovi, capaci alla fine di esorcizzare l'odio.
Questa è la testimonianza dei martiri: sebbene siamo fatti di fango, una forza sovrumana ci esalta, sebbene attorno a noi la morte passeggi sulla terra, siamo messaggeri di vita. Come Bartolomé Blanco, un giovane cordobese di appena 21 anni, che fa parte di questi 498 martiri che saranno oggi beatificati. Poche ore prima di affrontare i proiettili, Bartolomé scrisse alla sua fidanzata una lettera commovente: "Maruja dell'anima mia, il tuo ricordo mi accompagnerà fino alla tomba e finché vi sarà un battito nel mio cuore, questo palpiterà di amore per te. Dio ha voluto sublimare questi affetti terreni, nobilitandoli quando li amiamo in Lui. Per questo, sebbene nei miei ultimi giorni Dio sia stato mia luce e mio anelito, ciò non toglie che il ricordo della persona più amata mi accompagni fino al momento della morte. Sono assistito da molti sacerdoti che, come balsamo benefico, stanno effondendo i tesori della Grazia nella mia anima, fortificandola; guardo la morte in faccia e in verità ti dico che non mi spaventa né la temo. (...) Ora che mi mancano poche ore per il definitivo riposo, voglio chiederti solo una cosa: che in ricordo dell'amore che abbiamo provato, e che in questo momento sta crescendo, ti prefigga come obiettivo principale la salvezza della tua anima, perché così riusciremo a riunirci per tutta l'eternità in cielo, dove nessuno ci separerà. A quel momento, allora, Maruja dell'anima mia! Non dimenticare che dal cielo ti guardo, e cerca di essere un modello di donna cristiana, poiché alla fine di tutto, a nulla servono i beni e i piaceri terreni, se non riusciamo a salvare l'anima. (...) Sii forte e ricostruisci la tua vita: sei giovane e buona, e avrai l'aiuto di Dio che implorerò dal suo Regno. All'eternità, allora, dove continueremo ad amarci per i secoli dei secoli!".
Con la sua morte, Bartolomé Blanco ha contribuito a far sì che noi uomini continuassimo ad amarci anche sulla terra. La beatificazione di questi testimoni dell'amore che, come Bartolomé, morirono perdonando quanti li uccidevano, coincide con la promulgazione in Spagna di una Legge della memoria storica che semina zizzania perché ha riaperto la ferita del rancore e fatto agitare i fantasmi fratricidi di una battaglia i cui echi continuano a infettare la convivenza degli spagnoli. Contro questi fantasmi s'innalza la testimonianza dei martiri che oggi saranno elevati agli onori degli altari; settant'anni dopo quell'immondo pandemonio di sangue, questi testimoni di Gesù esigono da noi che abbandoniamo il risentimento, esigono da noi che amiamo oltre misura, esigono da noi che portiamo il cielo sulla terra. È, in verità, un mandato sovversivo, una sfida; un mandato così sovversivo e una sfida tale da poter riempire un'intera vita. Volgiamo lo sguardo verso quei testimoni che osarono donare la propria vita per dimostrarci che non si tratta di un compito impossibile; e, nel farlo, scopriremo che il fantasma di Caino fugge umiliato e impaurito, senza un posto nel mondo, fugge per sempre dal nostro cuore, dove non vi sono più nemici.

(© L'Osservatore Romano - 28 Ottobre 2007)

quarta-feira, outubro 17, 2007

Avé-Maria

UMA HISTÓRIA DE D. JOÃO DA CÂMARA

Para prestar o seu exame de admissão, apresentara-se diante do júri do Conservatório, a que D. João da Camara pertencia, uma rapariga pálida e hesitante.

-Diga uns versos, pediu um dos examinadores.

-Não me lembro de nenhuns ...

-Então um trecho qualquer em prosa ...

-Também não sei..., retorquiu sumidamente.

O júri entreolhou-se, surpreso : apenas lhes restava reprová-la !

Por entre o embaraçoso silêncio, ouviu-se a voz suave de D. João da Câmara, de mãos atrás das costas e olhando a rua através das vidraças, murmurar numa inspiração quase divina, cheia de paz :

-Diga a Avé-Maria ...

Quando a rapariga pálida e hesitante terminou a sua vibrante prece, D.João da Cãmara benzeu-se lentamente ...

E no sossego daquela sala, ante a turbação dos comovidos professores, duas coisas tinham acontecido : a jovem Maria Matos - porque era ela, a rapariga pálida e hesitante - iniciava ali uma inesquecível carreira ; e o compadecido escritor, que devido à Arte se imortalizara já perante os homens, pela bondade uma vez mais afiançava à sua alma a vida eterna.