quarta-feira, outubro 17, 2007

Avé-Maria

UMA HISTÓRIA DE D. JOÃO DA CÂMARA

Para prestar o seu exame de admissão, apresentara-se diante do júri do Conservatório, a que D. João da Camara pertencia, uma rapariga pálida e hesitante.

-Diga uns versos, pediu um dos examinadores.

-Não me lembro de nenhuns ...

-Então um trecho qualquer em prosa ...

-Também não sei..., retorquiu sumidamente.

O júri entreolhou-se, surpreso : apenas lhes restava reprová-la !

Por entre o embaraçoso silêncio, ouviu-se a voz suave de D. João da Câmara, de mãos atrás das costas e olhando a rua através das vidraças, murmurar numa inspiração quase divina, cheia de paz :

-Diga a Avé-Maria ...

Quando a rapariga pálida e hesitante terminou a sua vibrante prece, D.João da Cãmara benzeu-se lentamente ...

E no sossego daquela sala, ante a turbação dos comovidos professores, duas coisas tinham acontecido : a jovem Maria Matos - porque era ela, a rapariga pálida e hesitante - iniciava ali uma inesquecível carreira ; e o compadecido escritor, que devido à Arte se imortalizara já perante os homens, pela bondade uma vez mais afiançava à sua alma a vida eterna.

domingo, outubro 14, 2007

POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER

Esta gente cujo rosto
Ás vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
De um tempo justo

Do livro GEOGRAFIA, 1967

sábado, outubro 13, 2007

Centenário do Regicídio - Dia de Luto Nacional



Ex.º Senhor Presidente da Assembleia da República
Excelência:

A 1 de Fevereiro de 1908, pelas 17:20 horas, no Terreiro do Paço junto à esquina com a Rua do Arsenal, foram assassinados o Rei Dom Carlos I e o Príncipe Real Dom Luís Filipe.
Este acontecimento trágico, geralmente reconhecido como um dos mais marcantes da História de Portugal, merece bem ser evocado com a imparcialidade e a clarividência que a distância de um século já permitem.
Sem menosprezo das legítimas opiniões pessoais de cada um dos Portugueses acerca do regime actualmente vigente, consideramos importante e oportuno assinalar o centenário do Regicídio.
Na verdade, trata-se de condenar um acto de terrorismo contra um Chefe de Estado legitimamente empossado e contra o seu sucessor constitucionalmente consagrado, acto planeado e perpetrado sem manifestação de vontade ou participação da esmagadora maioria de um Povo de índole pacífica e tolerante.
Assim, ao abrigo do artigo 52º da Constituição da República Portuguesa e nos termos da Lei n.º43/90, de 10 de Agosto, vêm os signatários solicitar a V.ª Ex.ª o seguinte:
1- que o dia 1 de Fevereiro de 2008, centenário do Regicídio, seja decretado dia de Luto Nacional;
2- que às 17:20 horas desse dia seja cumprido um minuto de silêncio, em homenagem a um dos maiores Chefes de Estado de Portugal e ao seu sucessor constitucionalmente consagrado.


ASSINAR PETIÇÃO

sexta-feira, outubro 12, 2007

O melhor do imperfeito

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Foi entre a sobremesa e o café, num discreto restaurante de Lisboa. Francisco Sá Carneiro, acendendo um perfumado charuto, queixou-se das picardias e pouco sérias partidas de elementos do seu partido. Os seus olhos de gato siamês chispavam de fúria mal contida, ao apontar o que já havia escrito num diário acerca da saloia romaria desses elementos a um sótão da embaixada americana, onde Mrs. Carlucci recebia ao serão com ar conspirativo, e aos que, assanhados como cristãos novos, clamavam contra os que não gostavam da Maçonaria. Eu mesma já tinha posto em sentido certa dama do PSD que se escandalizou com a minha recusa em ir aos serões da embaixatriz, deixando tudo muito claro: essa senhora é uma figura pública como eu, portanto, se tem interesse em falar comigo, podemos almoçar no Grémio Literário, com meia Lisboa a ver-nos, nada há que justifique encontros secretos. Talvez por isso eu tivesse respondido meio a sorrir quando o malogrado político se calou: “o PSD não existe”. Como não?, exclamou ele. Expliquei: o que está aí, o que existe, é a moldura do seu retrato, mais nada. Se um dia deixar o partido, muitos retratos passarão pela moldura até ela se partir. E acaba por se partir porque, com o tempo, aquilo acaba por ser como as Forças Armadas: dantes eram de élite mas, com a guerra, entrou tudo de roldão, até coxos, até tontos, tudo servia. Esses são os que partem tudo. Acabámos os dois a rir.
Tão longe estávamos dum avião despenhado, de tantas mortes, dum processo investigado de maneira a deixar um país inteiro a pensar que era outro caso como o que eliminou D. Carlos e o Príncipe D. Luís Filipe, Sidónio Pais, António Granjo, Carlos da Maia... Mais um caso para arquivar e branquear. E é que ninguém nos tira isso da cabeça.
Certo, certo, é que a moldura por lá anda aos tombos, hoje debruando um retrato, amanhã outro, sempre um pior do que o outro. A moldura a dar de si, a olhos vistos. Cada vez mais.
Sou eu contra partidos? Não sou, apesar de não me rever em nenhum, de não caber em nenhum. Mas acho que Winston Churchill esteve certo quando disse que o regime democrático é o menos mau dos regimes políticos. Apesar dos partidos, da fauna que os povoa, das golpadas internas e externas, a democracia tem a virtude de saber corrigir esses desvios. E como? Denunciando-os, usando em pleno a liberdade de expressão, dando a voz ao povo. Mas isso só acontece quando ao povo é dada educação, incentivo a que exerça a sua acção cívica. Um povo educado, adulto, não aceita comunicação social domesticada, de trela curta e açaime, não tolera bufos nos empregos que enchem os ouvidos a capatazes de roça que se julgam chefes.
Se for essa a situação, cabe aos jornalistas honestos, independentes, corajosos, escrever nem que seja nas paredes e levantar o povo. Como aconteceu em 1975, durante o PREC, quando um partido a soldo da União Soviética ajudava a destruir a economia, a desconjuntar o tecido social, a encher prisões, de modo a impor a 10 milhões de portugueses fartos de ditadura uma outra ditadura, essa sanguinária, boçal, criminosa. Quem queria impor? O mesmo pequeno grupo de corcundas de alma que aceitou sem tugir nem mugir a invasão da Hungria e a da Checoeslováquia, o assassinato de 20 milhões de pessoas em 70 anos de poder. O nosso povo sabia disto? Não sabia, porque a outra ditadura tinha censura também e tudo quanto dizia não tinha crédito. Mas um bom número de jornalistas saíu a terreiro e abriu as arcas encoiradas. É por isso que hoje não tem a menor importância o partido de fantasmas que, a propósito e a despropósito, solta os dinossauros.
Parafraseando António Nobre, direi hoje: onde estão os jornalistas do meu país, onde estão eles que não vêm contar?

domingo, outubro 07, 2007

La sangre de los mártires

Po JUAN MANUEL DE PRADA

LA próxima beatificación de 498 mártires de la Guerra Civil ha levantado ronchas entre los gerifaltes y sicarios del Régimen, que ven en ella un desafío a la llamada Ley de Memoria Histórica. Y vaya si lo es. Se trata, sin duda, del más formidable desafío que se pueda concebir. La beatificación de los mártires nos recuerda, en primer lugar, que la Guerra Civil no fue esa historieta de buenos y malos que el Régimen pretende imponer, donde unos ponían la sangre y otros el plomo. La beatificación de los mártires nos recuerda que la Segunda República, erigida por el Régimen en espejo de virtudes en el que nuestra democracia debe contemplarse, estimuló y exacerbó el odio antirreligioso desde el instante mismo de su fundación y permitió que, tras el alzamiento militar, la cacería indiscriminada del católico se convirtiese en el pasatiempo predilecto de las milicias socialistas, comunistas y anarquistas, a las que los irresponsables gobernantes republicanos proveyeron de armas para que pudiesen traducir en cadáveres el odio que previamente les habían inoculado. Más de siete mil religiosos fueron martirizados en aquellas jornadas de oprobio; el número de seglares que corrieron idéntica suerte aún no ha sido fijado, pero su establecimiento -si es que algún día se logra- dejará chiquitas esas cifras. El Régimen no soporta que tales muertos sean conmemorados, porque deslucen la memoria distorsionada y sectaria de aquel conflicto.
Pero la naturaleza del desafío que supone la beatificación de los mártires es de una naturaleza mucho más honda. La llamada Ley de Memoria Histórica se funda sobre una argamasa de rencor y apriorismos ideológicos falaces. Primero se establece que quienes combatieron en el bando republicano fueron unos luchadores por la democracia y la libertad (cuando lo cierto es que muchos de ellos combatieron por instaurar las más feroces formas de tiranía imaginadas por el hombre); después se trata de mantener viva su memoria para que sirva como acicate del resentimiento, para que ese resentimiento siga infectando la convivencia de los españoles. La sangre de los mártires se alza contra este propósito cainita. Pues quienes ahora van a ser beatificados no fueron asesinados por simpatizar con tal o cual ideología; tampoco lo fueron por batallar en tal o cual bando. Fueron asesinados, única y exclusivamente, por profesar la fe católica, por ser testigos de Cristo. La Iglesia no beatifica a curas trabucaires que se echasen al monte a pegar tiros; tampoco a católicos que fuesen condenados a muerte por haber conspirado contra la República. El reconocimiento de la muerte martirial exige como condición sine qua non que no interfieran motivos de índole política; mártir significa «testigo», y sólo quienes fueron asesinados por dar testimonio de su fe merecen tal reconocimiento.
Y aquí radica, precisamente, la naturaleza desafiante de aquellas muertes. Los mártires que van a ser beatificados podrían haber salvado el pellejo abjurando de su fe; pero su entereza no tembló en aquel trance: entendieron que la fe que profesaban bien merecía el sacrificio del don más valioso que al hombre le es entregado. Y entendieron también que ese sacrificio máximo sólo sería valioso si imitaba el sacrificio redentor del Gólgota. Aquellos hombres y mujeres murieron perdonando a quienes los mataban, murieron amando a quienes los mataban, seguros de que su sangre se convertiría en fermento fecundo. Aquí radica la belleza de su sacrificio, la escandalosa y subversiva belleza de su muerte: murieron con la alegría de saberse amados por Quien iba a acogerlos en su seno, murieron amando a quienes los odiaban, seguros de que ese amor derramado sobre la tierra no sería baldío, seguros de que su sangre acabaría propiciando una cosecha fecunda de reconciliación. Conmemorar a aquellos mártires significa reafirmar su voluntad de amor, significa exorcizar el odio, significa celebrar la belleza de la vida que vuelve a florecer generosamente incluso allí donde ayer se sembró la muerte. Y significa, desde luego, un desafío formidable para quienes se alimentan con el veneno del rencor, los gerifaltes y sicarios del Régimen.

www.juanmanueldeprada.com

segunda-feira, outubro 01, 2007

Uma árvore por cada bebé

A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) felicita o Dr. João Casteleiro, presidente do Centro Hospitalar da Cova da Beira, pela brilhante ideia, secundada pelo Câmara Municipal da Covilhã, de se plantar uma árvore num dos jardins da cidade por cada bebé nascido no hospital da Covilhã, com o seu nome inscrito, (http://www.apfn.com.pt/Noticias/Set2007/240907a.htm) uma ideia extremamente simples, barata e eficaz de saudar publicamente o nascimento de uma nova vida, de que o concelho, como o resto do país, estão tão carentes.

Esta ideia é de realçar em valor absoluto, mas, também, em valor relativo, uma vez que é uma pedrada no charco em que o Ministério da "Saúde" se transformou neste domínio sob a orientação da fúria anti-natalista do actual Ministro que tem levado a "maternidades" se vangloriarem do número de abortos que têm vindo a praticar, que é tão idiota como alguém se orgulhar de ter despejado o seu cantil no deserto!

A APFN recomenda fortemente que autarquias e maternidades merecedoras desta designação sigam estes e outros exemplos, enquanto o Governo não tomar medidas a sério para enfrentar e vencer o Inverno demográfico, que terá que, inevitavelmente, começar por neutralizar a fortíssima política anti-natalista promovida pelo Ministério da "Saúde" e pelo sistema fiscal português.

De novo, realça o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela Câmara de Vila Real, e que pode ser consultado em

http://www.cm-vilareal.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=73&Itemid=55


30 de Setembro de 2007


segunda-feira, setembro 24, 2007

Fernando Quintais

Eu sabia que estava muito doente mas a notícia da sua morte apanhou-me de surpresa, agarrada que estava na cama, por azares da vida e que me impediu de me juntar aos seus familiares, amigos e conhecidos. Resolvi escrever, nem que fossem só duas linhas, para me desanuviar o coração e dizer a toda a gente o que ele era para mim. Para mim e para muitos outros, que há muito mais tempo com ele conviviam.

Era modesto mas estava sempre pronto para ajudar, nas horas difícies, os monárquicos deste país, numa fidelidade forte e segura, que o fazia como desaparecer da cena, dando lugar a outros que ele sentisse mais brilhantes e úteis, mas todos sabíamos que estava ali, firme e atento, com quem sempre se podia contar.

Fidelíssimo, era também de uma sensibilidade extrema e escondida, como que envergonhada mas cuja voz rompeu, de repente, com as consonâncias modestas da sua personalidade.

«Et in Arcadia, ego...» Vindo à tona inevitável, essa sensibilidade, esse amor ao seu cantinho de Portugal, esteio importante do seu monarquismo, transbordou para o livro, o seu livro que ele oferecia a medo aos seus amigos. E em que esmiuçava, com devoção e espanto, os campos e lugares, o imenso amor que lhe ia na alma.

Sinto-me grata a Deus por Ele. Graças a Deus por o ter conhecido, por ele ter existido e por ter sido meu amigo.

Teresa Maria Martins de Carvalho

quinta-feira, setembro 20, 2007

Quem manda

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Como era previsível, a cerimónia de transladação do escritor Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional foi edificante a vários títulos.
Para já, logo no início da transmissão directa pela RTP, a jornalista de serviço a afirmar que o escritor tinha lutado contra três ditaduras: a Monarquia, a de Sidónio Pais e a de Salazar. Chamar ditadura à Monarquia Constitucional é revelador de grande ignorância histórica, se tivermos em conta a liberdade completa de que gozavam os jornalistas, escritores, autores teatrais e opinião pública em geral. As oposições diziam e escreviam o que muito bem lhes apetecia, sem receios de maior. Quanto a Sidónio, vindo das fileiras republicanas e laicas, foi assassinado por republicanos e, ao que se diz, por lhe suspeitarem tolerância em relação aos monárquicos. É da História que o regime republicano, saído do assassinato do Rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, foi de uma completa intolerância em relação aos monárquicos e aos católicos, pelas acções de perseguição atroz que desmentia os ideais democráticos que proclamavam, sobretudo para uso externo. Feitas as contas, Aquilino lutou contra a ditadura anterior ao regime implantado em 25 de Abril de 1974, sendo facto assente que estava ligado à Carbonária, que era o braço armado da Maçonaria, e por tal, para além de conspirar e fazer bombas, participou de forma activa nos preparativos para o crime horrendo do Terreiro do Paço.
Que o actual regime, estabelecido por figuras republicanas e laicas, se desdobre em homenagens a esta figura da luta armada, com os mesmos métodos que usam aqueles que hoje conhecemos por terroristas, é lastimável mas não surpreendente. Um regime que ignora ostensivamente grandes figuras da política, da arte, da ciência, do pensamento, das letras, a acção social, para fazer do Marquês de Pombal o monumento grandioso que se pode ver, tendo sido ele quem matou os fidalgos que lhe faziam sombra, e de morte particularmente cruel e injusta, só pode entender-se pelo facto de Sebastião de Carvalho e Melo ter trazido para Portugal a semente da Maçonaria.
Recentemente, o actual grão mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, um antigo jornalista, declarou numa entrevista, sem reticências nem meias palavras, que a Maçonaria domina a vida pública portuguesa desde a parte final da Monarquia, que está representada em todos os governos e em todos os sectores da vida portuguesa. Pessoalmente, acho que António Reis, com esta declaração formal, prestou um grande serviço ao país. É que, numa terra em que a culpa morre sempre solteira, em que os culpados de crimes sacodem sempre a água do capote e tudo sepultam no silêncio, assume uma inusitada importância haver alguém que mostra à luz do dia os responsáveis pelo estado a que Portugal chegou. Como todos sabemos, as árvores avaliam-se pelos frutos que dão. E quanto aos frutos da República Portuguesa, estamos conversados. De tal sorte estou convencida da veracidade das afirmações do grão mestre Reis que, analisando uma também recente entrevista do grão mestre anterior, António Arnaut, interpreto o seu ataque cerrado a José Sócrates da seguinte maneira: ou é uma uma manobra de diversão, para esconder o que bem lhe interessa, ou José Sócrates, não sendo provavelmente maçon, mas teimoso e atrevido, está a incomodar os maçons que, no governo, querem tomar o poder completo. Seria, assim, um empata.
Seja como for, ficamos agora todos cientes de quem manda em Portugal. Todos agora sabemos a quem pedir contas do que vai no país desde 1908.
A cerimónia em Santa Engrácia foi, de facto, muito interessante. Minutos passados, ficámos a saber que a transladação foi iniciativa do jornalista António Valdemar, pseudónimo de uma alta figura da Maçonaria, oriunda da Ilha de S. Miguel. Para o que, visivelmente, contou com o empenhado apoio de dois micaelenses que são figuras gradas na Assembleia da República: Jaime Gama e Mota Amaral. Não colhe a afirmação estafada, por parte dos três, que a assembleia exerceu a vontade do povo, já que o povo há muito que está de costas voltadas para o parlamento e quem lá opera. António Valdemar, que ali certamente não representava os jornalistas nem a Academia das Ciências, afirmou, muma deliciosa postura queirosiana, que “nós queremos que Aquilino faça novamente parte dos manuais escolares”, dando sibilinamente a entender que Aquilino deixou de ser lido por alguma conspiração de silêncio. Aquele nós, não se referia a todos nós, portugueses, mas à Loja a que pertence e que ali estava representada au complet. Aquilino deixou de ser lido por ser excessivamente regionalista, deixou de ser moda num tempo de quase ausência de actividades rurais e caracterizada pela afirmação tecnológica diária. Vasco Pulido Valente diz que deixou de ser lido por ser “medíocre”, mas sabe-se como VPV é radical.
Também Baptista-Bastos, outro jornalista, vociferou contra o facto de estarem no esquecimento vários escritores, de que citou os nomes, por sinal todos comunistas. Foi pena não ter conseguido ser mais justo do que comunista, enunciando também escritores católicos e anticomunistas como José Régio, Tomás de Figueiredo, João de Araújo Correia, entre outros. BB queixou-se, em tom magoado, da nossa “amnésia histórica”. Que havemos de fazer? Ninguém escapa a essa maleita, nem BB. Nunca mais esqueci, nem esquecerei, a entrevista que ele deu a Artur Agostinho, na RTP, dois ou três dias depois do 25 de Abril: afirmou que já tinha vibrado com a Guerra das Astúrias, em 1934/35, e porque tinha adiantado a sua idade ao entrevistador, todo o país ficou a saber que ele já era revolucionário antes de nascer.
Enfim, puz o relógio no despertador para as 5 horas da manhã e vi tudo de fio a pavio. Ouvi a vaia e os assobios dos monárquicos às figuras republicanas que iam abandonando o Panteão. Se fosse republicana, a esta hora estava furiosa com a RTP por não ter passado as imagens dos talassas a vaiarem, limitando-se a dizer que eram meia dúzia. Então, se eram meia dúzia, não era de mostrar? Parece impossível. O leitor há-de estar pasmado com a minha pachorra, a 5 mil kms de distância da Portugal, de levantar-me àquela hora e ver aquela xaropada. Só encontro uma explicação para o meu comportamento e que está inteira numa anedota que se contava no Rio de Janeiro, quando ali esteve exilado o general Humberto Delgado. Diz que o general, de repente, foi tomado de uma doença misteriosa, mas forte a ponto de lhe pôr a vida em perigo. Reunida de emergência uma junta de sumidades médicas, foi ao general aplicada a violenta, e mal cheirosa, terapia de ser enfiado numa banheira cheia de caca durante três dias. Ao fim desse tempo, o general, depois de tomado um banho perfumado, sentiu-se 20 anos mais novo, cheio de vigor. Grato e curioso, foi-se aos médicos e quis saber que diabo de doença tinha ele tido para tratamento tão ruim. Um dos médicos adiantou, entre o fungar de riso dos outros: “saudades da Pátria, general, saudades da Pátria”.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Uma visão americana da globalização


Depois de publicar aqui a notícia da activação do USAFRICOM (http://jacarandas.blogspot.com/2007/07/usafricom-operacional-em-outubro.html), dei-me conta da ignorância de alguns amigos acerca da importância desse novo Comando militar regional dos EUA, peça importante de um "projecto dos EUA" para o século XXI. Importa conhecer esse projecto e o "lugar" que nele nos não está reservado.

Como introdução ao tema, além de se ir lendo e vendo as campanhas de Barack Obama e de Mitt Romney para a presidência dos EUA (duas faces da mesma moeda), pode também ser útil ver e ouvir com atenção uma "lecture" de Thomas Barnett. No final, creio que ficará claro porque é que Obama deverá ser o próximo presidente dos EUA: África é muito importante para a manutenção do poder americano no mundo.




http://video.google.com/videoplay?docid=4689061169761152025



----

domingo, setembro 16, 2007

Ética para o novo milénio

por Fernanda Leitão

O texto que se segue é, no livro apontado acima, uma profissão de fé e vida da autoria do Dalai Lama, líder espiritual dos budistas. O mesmo que, recentemente, visitou Portugal pela segunda vez e não foi recebido pelo presidente da República e o primeiro ministro, os mesmos que, sem se rirem, proclamam a importância, necessidade e urgência do diálogo inter-religioso. A sua infeliz atitude deriva apenas dos interesses comercais que pretendem intensificar com a China, potência que ocupa violentamente o Tibete e continua a ser comunista. É uma recusa devida a dois pesos e duas medidas, como convém a uma diplomacia de secos e molhados.

FL


Possa eu ser em todos os tempos, hoje e sempre,
O protector dos que não têm protecção
O guia dos que perdem o caminho
Um barco para os que têm de atravessar oceanos
Uma ponte para os que têm de atravessar rios
Um santuário para os que estão em perigo
Uma lâmpada para os que não têm luz
Um refúgio para os que não têm abrigo
E o servidor de todos os que precisam

quinta-feira, setembro 13, 2007

Emigração e chicos espertos

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Quem emigra quer melhorar de vida, o que também implica estar farto dos chicos espertos que costumam (des)governar o país com todo o ar de estar a salvá-lo e de quem espera a gratidão eterna do povo. Em geral, o emigrante melhora de vida. Mas acaba por esbarrar nas comunidades portuguesas com outros chicos espertos, sempre bem relacionados com os outros de quem se livrou em Portugal.
O chico esperto português é um sujeito intrometido e descarado, que vê tudo pela rama, pela superfície, porque isso lhe convém, e fecha os olhos deliberadamente à realidade mais profunda. As águas turvas em que navega parecem-lhe sempre claras e de feição. Joga em vários tabuleiros, vai a todas, vai trepando sem fazer grande esforço. Aparece em toda a parte: nos jornais, na rádio, na TV, nos actos diplomáticos do croquette e do rissol, nas homenagens a outros chicos espertos, na atribuição de medalhas, nas festas, nas angariações de fundos em que possa fazer negócio parecendo um grande benemérito. Sobre isso, o chico esperto dá opiniões sobre tudo, sem saber de coisa nenhuma. Todo ele é pose, discurso, verborreia, gravata à maneira, sapato brilhante.
Em geral, o chico esperto que ficou em Portugal mete-se nos partidos e com facilidade chega a presidente da câmara, a deputado, a secretário de estado e até a ministro. A exemplo do resto do país, não sabe nada de emigração, mas dá-se ares de saber tudo sobre o assunto e está sempre disposto a terçar armas quando se trata da Língua Portuguesa, essa que ele maltrata todos os dias quando a escreve com erros e com aleijada sintaxe. Se calha de ir parar à pasta governamental das Comunidades, cresce um palmo, nem que seja à custa de saltos suplementares nos sapatos, incha, fala de papo, e trata imediatamente de emparceirar com os chicos espertos espalhados pelo mundo.
Como tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado, há que dizer que não só em Portugal existe corrupção. Nas comunidades portuguesas também a há. Quantas vezes disfarçada e benta. E é vê-los, aos chicos espertos, a irem a Lisboa estabelecer contactos, a inventarem mentiras, a servirem-se do apoio local para ameaçar os que, nas comunidades, trabalham honestamente e não vivem de expedientes. Basta não porem uma assinatura onde os chicos espertos querem para melhor esmifrarem dinheiro ao próximo num encadeamento de pequenas (mas rendosas) fraudes que mina a confiança e paciência dos portugueses de folha limpa. Porque, cá por fora, tudo lhes serve para ganhar dinheiro, a esses chicos espertos que, somadas as contas, são o maior estorvo de quem emigra e de quem, em Portugal, quer manter-se honesto.
Que fazer? Varrê-los à mangueirada ou à chapada? Virar as costas e não dizer nada? Não, caro leitor. Sem desfalecimento, doa a quem doer, denunciar caso por caso, pôr-lhes o nome no jornal, reduzi-los ao que são: videirinhos ignorantes, baixa gente.


--

quarta-feira, setembro 12, 2007

domingo, setembro 09, 2007

Momentos de Terror em Cabinda

Milhares de populares, do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 15 e os 60 anos, foram arrancados dos seus lares na madrugada de hoje, 31 de Agosto de 2007, por volta das 4h30, numa mega operação levada a cabo por militares das Forças armadas angolanas (FAA). Em verdadeiro alvoroço, os populares foram surpreendidos nas suas casas, nas aldeias de Lico, Icazu, Cochiloango, Loango, Loango Pequeno, Ntunga, Mbuli, Bichékete, Caio e Mpuela (na região Centro do enclave de Cabinda), por centenas de militares das FAA fortemente armados e munidos de numerosas viaturas, que os levaram à força até à Planície do Cochiloango. De acordo com diversos testemunhos, todos aqueles que tentaram resistir a esta medida das FAA foram espancados, enquanto os outros eram intimidados e ameaçados por militares em cujas caras se podia ler uma grande vontade de apertar o gatilho.
Os populares do sexo feminino (de todas as idades), por seu turno, completamente agastadas com a situação, abandonaram as suas casas e deslocaram-se, a pé, até à Planície do Cochiloango, onde se encontram retidos os seus maridos, pais, irmãos, tios, etc, afirmando estarem dispostas a morrer ao lado dos seus familiares.
Segundo populares fugidos das aldeias visadas, os soldados governamentais acusam as populações daquela área de fornecerem apoio moral e logístico às forças da FLEC, que têm estado a intensificar os seus ataques contra os militares das FAA e da Polícia.
Os populares acreditam que essa onda de terrorismo contra as populações Cabindesas está relacionada com a recente orientação dada pelo Presidente José Eduardo dos Santos, durante a recente visita que efectuou a Cabinda, tendo dado ordens aos seus soldados que "redobrem os esforços" contra aqueles que, no seu entender, desestabilizam Cabinda.
Esta é mais uma entre muitas outras violações dos direitos humanos que fazem o quotidiano das populações Cabindesas.
Recordamos que a vontade do regime de Luanda de silenciar estas flagrantes violações dos direitos humanos, está na base da ilegalização ilegal da Mpalabanda-Associação Cívica de Cabinda.
Até ao momento em que fazemos a presente denúncia mantém-se agonia das populações levadas à Planície de Cochiloango.


Raul Danda, Activista Cívico.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Felisberto Silva, esse, era um herói

por Ferreira Fernandes

Na Cova da Moura, uma associação do bairro organiza visitas. Os turistas vão de peregrinação ao graffito de Tupac Shakur, um rapper americano que cantava os gangsters de bairro e morreu a tiro, na sua limusina. Ao lado, a lista de nomes de jovens da Cova da Moura mortos, diz o guia, pela polícia. Como se ser morto pela polícia fosse critério de quadro de honra. Celé, assassino na Holanda, fugido para a Cova da Moura, passador de droga, organizador de bando, contratador de guarda-costas adolescentes, não é um herói. E foi morto pela polícia. Felisberto Silva, filho do bairro, também negro, foi morto por um bandido quando foi visitar o pai. Esse não está na lista de honra: ele era da PSP. Às 5 da manhã não se visita a Cova da Moura. É pena. É quando ela é mais real: trabalhadoras descem o bairro para entrar nas combis das empresas de limpeza. Partem com um medo: que os seus meninos não entrem nos bandos. Vai ser difícil, com tanta propaganda.

in DN.