por Luciano Amaral*
Há quem diga que a II Guerra Mundial começou há 70 anos atrás, em 18 de Julho de 1936, com a revolta de certos militares espanhóis (de que viria a destacar-se o general Francisco Franco) contra o Governo dito da "Frente Popular" da II República.
A revolta deu origem a um dos mais dramáticos episódios do século XX, a Guerra Civil de Espanha, e quando se diz que inaugurou a II Guerra Mundial pensa-se no facto de nela se terem enfrentado alguns dos mais emblemáticos actores do conflito mundial, a Alemanha hitleriana e a Itália mussoliniana, do lado revoltoso, e a URSS estalinista, do lado do Governo. Para além de que, uma vez terminado o enfrentamento espanhol, em 1939, logo começou o mundial.
Há quem no entanto tome esta comparação por superficial. Lembram que a II Guerra Mundial foi lançada por Hitler depois de se ter entendido com Estaline no Pacto Germano- -Soviético. E lembram que da Guerra Civil espanhola estiveram muito conspicuamente ausentes os países democráticos (França, Inglaterra e EUA), os quais viriam, depois, a ser os primeiros a entrar em guerra com a Alemanha e a Itália. A Guerra Civil deveria então ser antes vista como mais uma materialização do conflito revolução vs. contra-revolução inaugurado pela revolução soviética de 1917, que atravessou o século XX e constituiu o seu fio condutor, resultando na impossibilidade de mediação entre extremos radicais.
Há no entanto um sentido mais profundo no qual os dois episódios se ligam. Em ambos ocorreu uma associação espúria entre democracia e comunismo. Assim como os aliados democráticos na II Guerra Mundial acabaram por juntar-se à URSS estalinista em nome da democracia, também na Guerra Civil de Espanha o lado dito republicano, mas na verdade cada vez mais dominado pelo PCE e a facção leninista do PSOE, acabou por ser propagandisticamente identificado com a democracia. A ambiguidade da II Guerra Mundial resultou na prática entrega de cerca de metade da Europa à tirania comunista. A ambiguidade na Guerra Civil de Espanha resultou na grande mentira histórica segundo a qual a vitória de Franco teria significado a derrota da democracia.
A verdade é que a II República e a Guerra Civil são episódios com algo de semelhante ao da República de Weimar: um regime de matriz democrática e liberal revelou-se incapaz de se defender perante os extremos, o fascista, de um lado, e o comunista, do outro. Não há dúvidas sobre os procedimentos democráticos da II República. Mas também não há dúvidas de que, dominada pela esquerda republicana e o PSOE (um partido muito diferente do PSOE de hoje), a República viu esses procedimentos sistematicamente atraiçoados pela esquerda: quando a Confederação Espanhola das Direitas Autónomas (CEDA) ganhou as eleições de 1933, a esquerda inicialmente conseguiu impedi-la de governar. E quando a CEDA finalmente entrou no Governo (embora em pastas secundárias), uma coligação do PSOE com anarco-sindicalistas, comunistas e independentistas catalães e bascos juntou-se para desencadear uma revolta em 1934. Acaso esta revolta (de que resultariam cerca de um milhar de mortos) tivesse triunfado, ter-se-ia instaurado em Espanha uma ditadura de esquerda.
O cálculo do horror gratuito está muito bem distribuído pelos dois lados durante a Guerra Civil de 1936-39. Do lado republicano, aos cerca de sete mil padres assassinados juntam-se os milhares de presos, torturados e assassinados nas famosas tchekas (segundo o modelo estalinista, como o nome indica), não faltando mesmo episódios emblemáticos, como a execução sumária de 2500 presos em Paracuellos de Jarama (diz-se que às ordens do ainda vivo Santiago Carrillo) ou a morte dos escritores Pedro Muñoz Seca e Ramiro de Maetzu. Do lado dito nacionalista, contam-se também os milhares de execuções sumárias, os campos de concentração e mortes famosas como a de Federico Garcia Lorca. Lugar de destaque merece a Guerra Civil dentro da guerra civil que George Orwell celebrizou, na qual PCE, PSOE e esquerda republicana suprimiram brutalmente os seus supostos aliados anarco-sindicalistas e da esquerda radical (o POUM), depreciativamente intitulada de trotskista.
A vitória e a longa sobrevivência de Franco não nos deve fazer esquecer quem estava do outro lado. A vitória de Franco não foi a derrota da democracia, no sentido em que a derrota de Franco seria a vitória da democracia. A Guerra Civil de Espanha é um daqueles episódios que relembram a dimensão fundamentalmente trágica da História: nem sempre é possível escolher um dos lados e ficar de bem com a nossa consciência. A esquerda e a direita que dela procuram tirar lições edificantes para o seu lado respectivo, como ainda hoje tristemente acontece em Espanha ou no Parlamento Europeu, deviam antes tirar lições edificantes acerca daquilo que cada uma fez então. E depois, procurar não repetir.
*Professor universitário
In Diário de Notícias, 13-07-2006.
Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
quinta-feira, julho 13, 2006
segunda-feira, julho 10, 2006
"Obrigado"
por João César das Neves*
A vida tem sentido. A realidade do mundo, a evolução da humanidade, os acontecimentos da nossa história pessoal têm uma lógica, uma sequência, uma finalidade. Só por isso é que, perante algo que não entendemos, sempre perguntamos: "Porquê?" Queremos saber a razão, a causa, o propósito. Se as coisas à nossa volta fossem sempre arbitrárias e fortuitas, ninguém as tentaria compreender.
Até os livres-pensadores, presos a uma visão materialista, cega e efémera da existência, se indignam quando sofrem uma injustiça, ficam confusos quando não entendem o que observam ou vivem. Todos, de alguma maneira, esperamos ordem e equilíbrio à nossa volta. Como se poderia viver num mundo ilógico? Numa sociedade aleatória? Numa história caprichosa? A vida tem sentido.
Esse sentido da vida não é uma lei férrea, um destino predeterminado. Ele pode ser distorcido, oculto, perdido, atacado. Existem naturalmente muitas coisas que não entendemos, acidentes fortuitos, desastres destruidores, factos incompreensíveis, porquês sem resposta. Por isso, naturalmente, nem sempre o sentido é o que nós gostaríamos. Nem sempre a vida encaixa nos projectos que vamos fazendo. Mas tudo isso só confirma a existência do sentido da vida. Tal como a doença manifesta a realidade da saúde e o crime não anula a existência da lei, antes a revela. Por isso continuamos a perguntar "porquê?".
A era moderna nasceu quando esta pergunta "porquê?" ganhou um novo teor. Antes era apenas uma súplica de motivo; depois passou a ser a investigação de uma causa. O ser humano foi sondando e analisando o mecanismo da realidade. Perguntar "porquê?" passou a exigir uma teoria explicativa. Graças à nova atitude, a humanidade ganhou muito. A ciência abriu as portas à técnica e esta trouxe conforto, medicina, progresso, prosperidade. Perguntar "porquê?" permitiu um enorme domínio sobre a realidade. O sentido da vida pare- ceu acessível, decifrável, controlável.
A era contemporânea começou quando este resultado trouxe um novo tom à pergunta "porquê?". Agora, perante algo que não entendemos, assumimos um acento exigente, indignado, reivindicativo: "Porque nos acontece isto? Como é possível que não tenha sido evitado? Não há um estudo, uma política, uma solução?" O ser humano começou a impor direitos, a fazer exigências à realidade. Vivemos, mas sob condições, segundo as regras que reclamamos. Esta evolução, se nos concedeu enormes benefícios, também nos fez perder dois dos elementos fundamentais do sentido da vida.
O primeiro é que a vida é um dom, algo que só temos porque nos foi dado. Recebemo-la um dia, tal como a haveremos um dia de entregar. Até lá temos de seguir o caminho que ela escolhe. Mesmo no mundo da tecnologia, não controlamos o que nos acontece, apenas aquilo que fazemos com o que nos acontece. A existência tem sentido, mas é tudo menos controlável.
O segundo aspecto que a visão actual ignora é que todas as situações, mesmo as mais desesperadas, têm em si sempre algo de bom. O mal absoluto não existe. A vida tem sentido. Os horrores da violência, miséria, desespero são bem visíveis no meio do conforto da modernidade. Chocamos contra as tristes situações em que o sentido da vida é distorcido, oculto, perdido, atacado. Mas há sempre um raio de luz no fundo da maior escuridão.
Muita gente recusa estes aspectos como atitudes passivas, conformistas, medíocres. É preciso, dizem, ser sempre proactivo, exigente, inovador, inconformado. Esses espíritos tacanhos só vêem duas alternativas: a exuberância irrequieta ou a apatia boçal. Mas respeitar o sentido da vida e promover o lado positivo dos acontecimentos, por ínfimo que seja, é a única forma realista de construir a sociedade justa, o desenvolvimento sustentado, a vida com sentido. Os edifícios utópicos bem-intencionados foram causa dos maiores desastres da humanidade.
Esquecendo estes dois aspectos, o ser humano actual, até no meio da prosperidade, sente uma amargura que o passado desconhecia. Para quem exige direitos, a quem impõe projectos, é difícil sentir-se grato por viver no mundo, mesmo quando chove, por ter um corpo, mesmo com dores. "A sabedoria na vida não está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz", como diz o provérbio que o meu pai gosta de repetir. A verdadeira felicidade é daqueles que, perante os obstáculos e contrariedades, não perguntam "porquê?", mas conseguem dizer sinceramente "obrigado!".
*Professor universitário
"Não digas 'porquê', diz 'obrigado'", Diário de Notícias, 10 de Julho de 1996.
A vida tem sentido. A realidade do mundo, a evolução da humanidade, os acontecimentos da nossa história pessoal têm uma lógica, uma sequência, uma finalidade. Só por isso é que, perante algo que não entendemos, sempre perguntamos: "Porquê?" Queremos saber a razão, a causa, o propósito. Se as coisas à nossa volta fossem sempre arbitrárias e fortuitas, ninguém as tentaria compreender.
Até os livres-pensadores, presos a uma visão materialista, cega e efémera da existência, se indignam quando sofrem uma injustiça, ficam confusos quando não entendem o que observam ou vivem. Todos, de alguma maneira, esperamos ordem e equilíbrio à nossa volta. Como se poderia viver num mundo ilógico? Numa sociedade aleatória? Numa história caprichosa? A vida tem sentido.
Esse sentido da vida não é uma lei férrea, um destino predeterminado. Ele pode ser distorcido, oculto, perdido, atacado. Existem naturalmente muitas coisas que não entendemos, acidentes fortuitos, desastres destruidores, factos incompreensíveis, porquês sem resposta. Por isso, naturalmente, nem sempre o sentido é o que nós gostaríamos. Nem sempre a vida encaixa nos projectos que vamos fazendo. Mas tudo isso só confirma a existência do sentido da vida. Tal como a doença manifesta a realidade da saúde e o crime não anula a existência da lei, antes a revela. Por isso continuamos a perguntar "porquê?".
A era moderna nasceu quando esta pergunta "porquê?" ganhou um novo teor. Antes era apenas uma súplica de motivo; depois passou a ser a investigação de uma causa. O ser humano foi sondando e analisando o mecanismo da realidade. Perguntar "porquê?" passou a exigir uma teoria explicativa. Graças à nova atitude, a humanidade ganhou muito. A ciência abriu as portas à técnica e esta trouxe conforto, medicina, progresso, prosperidade. Perguntar "porquê?" permitiu um enorme domínio sobre a realidade. O sentido da vida pare- ceu acessível, decifrável, controlável.
A era contemporânea começou quando este resultado trouxe um novo tom à pergunta "porquê?". Agora, perante algo que não entendemos, assumimos um acento exigente, indignado, reivindicativo: "Porque nos acontece isto? Como é possível que não tenha sido evitado? Não há um estudo, uma política, uma solução?" O ser humano começou a impor direitos, a fazer exigências à realidade. Vivemos, mas sob condições, segundo as regras que reclamamos. Esta evolução, se nos concedeu enormes benefícios, também nos fez perder dois dos elementos fundamentais do sentido da vida.
O primeiro é que a vida é um dom, algo que só temos porque nos foi dado. Recebemo-la um dia, tal como a haveremos um dia de entregar. Até lá temos de seguir o caminho que ela escolhe. Mesmo no mundo da tecnologia, não controlamos o que nos acontece, apenas aquilo que fazemos com o que nos acontece. A existência tem sentido, mas é tudo menos controlável.
O segundo aspecto que a visão actual ignora é que todas as situações, mesmo as mais desesperadas, têm em si sempre algo de bom. O mal absoluto não existe. A vida tem sentido. Os horrores da violência, miséria, desespero são bem visíveis no meio do conforto da modernidade. Chocamos contra as tristes situações em que o sentido da vida é distorcido, oculto, perdido, atacado. Mas há sempre um raio de luz no fundo da maior escuridão.
Muita gente recusa estes aspectos como atitudes passivas, conformistas, medíocres. É preciso, dizem, ser sempre proactivo, exigente, inovador, inconformado. Esses espíritos tacanhos só vêem duas alternativas: a exuberância irrequieta ou a apatia boçal. Mas respeitar o sentido da vida e promover o lado positivo dos acontecimentos, por ínfimo que seja, é a única forma realista de construir a sociedade justa, o desenvolvimento sustentado, a vida com sentido. Os edifícios utópicos bem-intencionados foram causa dos maiores desastres da humanidade.
Esquecendo estes dois aspectos, o ser humano actual, até no meio da prosperidade, sente uma amargura que o passado desconhecia. Para quem exige direitos, a quem impõe projectos, é difícil sentir-se grato por viver no mundo, mesmo quando chove, por ter um corpo, mesmo com dores. "A sabedoria na vida não está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz", como diz o provérbio que o meu pai gosta de repetir. A verdadeira felicidade é daqueles que, perante os obstáculos e contrariedades, não perguntam "porquê?", mas conseguem dizer sinceramente "obrigado!".
*Professor universitário
"Não digas 'porquê', diz 'obrigado'", Diário de Notícias, 10 de Julho de 1996.
Patrioteirismo
por Manuela Salvador Cunha*
Estamos a viver numa bolsa de histeria eufórica e o causador deste estado é o futebol. De repente acordamos para o facto de que somos portugueses, a bandeira nacional recobre as janelas, as varandas, as portas; as senhoras ostentam lencinhos com as cores nacionais, usam saias feitas da nossa bandeira, não sei se brincos com o escudo português – isso não vi, mas quem sabe… –Também vi cães cuja coleira era uma bandeirinha enrolada à medida do pescoço e vi, na televisão, um burro cuja albarda era a bandeira nacional. Não é que não goste de burros. Até têm um olhar meigo e podem ser muito prestáveis. Mas não há dúvida que culturalmente este simpático animal não está propriamente muito bem cotado.
Perante tal exuberância nacionalista recordei o que me havia explicado, aqui há uns anos, um simpático sueco quando lhe mostrei a minha estranheza por muitas casas ostentarem um mastro onde era hasteada a bandeira sempre que um acontecimento mais ou menos importante marcava o dia. “Sabe, nós cá temos muito orgulho na nossa bandeira. E também muito respeito. Imagine que ela nunca pode tocar no chão.“ “Às vezes pode ser complicado…” contrapuz. “Mesmo nos casos difíceis. Olhe, aqui há algum tempo participei num festival de paraquedismo. O primeiro homem a saltar trazia a bandeira sueca desfraldada. Era evidente que desta vez ela teria, inevitavelmente, de tocar no chão no momento da aterragem. Pois bem, enganei-me”. “Como assim?” estranhei eu, curioso. ”Muito fácil. Quando o paraquedista se aproximou do chão, um homem, que já esperava no local, correu ao lado dele durante uns metros e quando a bandeira ficou ao alcance das suas mãos agarrou–a pela ponta que vinha solta e assim, quando o paraquedista pousou no chão, a bandeira flutuava no ar sustentada pelas mãos dos dois homens.”
Um espanto, não é? Um exagero, opinarão alguns. Talvez, direi eu. Mas entre isso e a nossa bandeira no lombo do burro ou no pescoço do cão, não tenho dúvidas para que lado pende a minha opção.
Esta crónica poderia ficar por aqui. Se calhar era o que eu devia fazer. Ficar-me pelo anedótico da questão e deixar no ar um sorrisinho brincalhão.
Mas a tentação de comentar esta bolsa de nacionalismo é mais forte do que eu. Não tenho nada contra o futebol e até confesso que a minha corda patriótica vibrou com as nossas vitórias futebolísticas. Mas um nacionalismo que chega ao rubro por causa do futebol e amornece logo de seguida, um patriotismo que vibra tão intensamente com as proezas no relvado e adormece com as grandes causas nacionais, um nacionalismo que grita que somos os maiores diante das proezas do estádio e se lamenta que afinal somos uns coitados sem auto-estima, quando o nosso nacionalismo está na ponta do pé em vez de ser um modo de estar que nos impulsione para a frente, quando o nosso patriotismo não passa de uma manifestação de histeria colectiva, então, pobre Portugal! Continuaremos a ser o irmão pobre da Europa, com elevados níveis de insucesso escolar, com poucos incentivos válidos para o desenvolvimento tecnológico e intelectual, sem capacidade de resposta para os grandes desafios deste tempo, construtores de estádios, mas sem capacidade de construir hospitais e outras estruturas fundamentais. Continuaremos a ser um povo culturalmente medíocre e ignorante.
O poeta Fernando Pessoa acaba a sua obra “Mensagem” com este verso lapidar:
“ É a hora!”
Parafraseando o poeta, eu diria que está na hora de aproveitar este renascer do patriotismo que avassalou o país para o relançar para as grandes causas nacionais. E então sim, o futebol terá prestado um grande serviço à nação.
* Professora do Ensino Secundário
In O Primeiro de Janeiro, 10 de Julho de 2006.
Estamos a viver numa bolsa de histeria eufórica e o causador deste estado é o futebol. De repente acordamos para o facto de que somos portugueses, a bandeira nacional recobre as janelas, as varandas, as portas; as senhoras ostentam lencinhos com as cores nacionais, usam saias feitas da nossa bandeira, não sei se brincos com o escudo português – isso não vi, mas quem sabe… –Também vi cães cuja coleira era uma bandeirinha enrolada à medida do pescoço e vi, na televisão, um burro cuja albarda era a bandeira nacional. Não é que não goste de burros. Até têm um olhar meigo e podem ser muito prestáveis. Mas não há dúvida que culturalmente este simpático animal não está propriamente muito bem cotado.
Perante tal exuberância nacionalista recordei o que me havia explicado, aqui há uns anos, um simpático sueco quando lhe mostrei a minha estranheza por muitas casas ostentarem um mastro onde era hasteada a bandeira sempre que um acontecimento mais ou menos importante marcava o dia. “Sabe, nós cá temos muito orgulho na nossa bandeira. E também muito respeito. Imagine que ela nunca pode tocar no chão.“ “Às vezes pode ser complicado…” contrapuz. “Mesmo nos casos difíceis. Olhe, aqui há algum tempo participei num festival de paraquedismo. O primeiro homem a saltar trazia a bandeira sueca desfraldada. Era evidente que desta vez ela teria, inevitavelmente, de tocar no chão no momento da aterragem. Pois bem, enganei-me”. “Como assim?” estranhei eu, curioso. ”Muito fácil. Quando o paraquedista se aproximou do chão, um homem, que já esperava no local, correu ao lado dele durante uns metros e quando a bandeira ficou ao alcance das suas mãos agarrou–a pela ponta que vinha solta e assim, quando o paraquedista pousou no chão, a bandeira flutuava no ar sustentada pelas mãos dos dois homens.”
Um espanto, não é? Um exagero, opinarão alguns. Talvez, direi eu. Mas entre isso e a nossa bandeira no lombo do burro ou no pescoço do cão, não tenho dúvidas para que lado pende a minha opção.
Esta crónica poderia ficar por aqui. Se calhar era o que eu devia fazer. Ficar-me pelo anedótico da questão e deixar no ar um sorrisinho brincalhão.
Mas a tentação de comentar esta bolsa de nacionalismo é mais forte do que eu. Não tenho nada contra o futebol e até confesso que a minha corda patriótica vibrou com as nossas vitórias futebolísticas. Mas um nacionalismo que chega ao rubro por causa do futebol e amornece logo de seguida, um patriotismo que vibra tão intensamente com as proezas no relvado e adormece com as grandes causas nacionais, um nacionalismo que grita que somos os maiores diante das proezas do estádio e se lamenta que afinal somos uns coitados sem auto-estima, quando o nosso nacionalismo está na ponta do pé em vez de ser um modo de estar que nos impulsione para a frente, quando o nosso patriotismo não passa de uma manifestação de histeria colectiva, então, pobre Portugal! Continuaremos a ser o irmão pobre da Europa, com elevados níveis de insucesso escolar, com poucos incentivos válidos para o desenvolvimento tecnológico e intelectual, sem capacidade de resposta para os grandes desafios deste tempo, construtores de estádios, mas sem capacidade de construir hospitais e outras estruturas fundamentais. Continuaremos a ser um povo culturalmente medíocre e ignorante.
O poeta Fernando Pessoa acaba a sua obra “Mensagem” com este verso lapidar:
“ É a hora!”
Parafraseando o poeta, eu diria que está na hora de aproveitar este renascer do patriotismo que avassalou o país para o relançar para as grandes causas nacionais. E então sim, o futebol terá prestado um grande serviço à nação.
* Professora do Ensino Secundário
In O Primeiro de Janeiro, 10 de Julho de 2006.
sexta-feira, julho 07, 2006
Salazar e a Rainha, por Fernando Amaro Monteiro
O lançamento do livro SALAZAR E A RAINHA de Fernando Amaro Monteiro decorreu em 6 de Julho, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal (Palácio da Independência).
O Senhor Dom Duarte de Bragança apresentou o Autor. A Obra foi apresentada por Carlos Nuno Pinto Coelho.
Eis o ÍNDICE da Obra:
Um perfil de Salazar, segundo Franco Nogueira……………………………………….
Instantâneos da Rainha D. Amélia…………………………………………………………
Breve perfil biográfico e psicológico da Rainha………………………………………..
Em tempo………………………………………………………………………………………..
CAPÍTULO I : O triste depoimento de Teófilo Braga sobre o valor de “O Marquês da Bacalhôa”, de António de Albuquerque (vulgo “Lêndea” ou “Miqueque”), para a revolução : o veneno sobre a Rainha D. Amélia. Afinal, largos anos depois, o Lêndea pede “perdão notarial” à Rainha!...O texto da última carta de Mouzinho para a Rainha. D.Manuel II descreve o Regicídio: uma “batida” de “malvados animais”. A Rainha para João Franco, “com uma voz que metia medo : Mataram El-Rei. Mataram o meu Filho” (sic, D. Manuel). “Que país é esse?”... pergunta Eduardo VII. Viagem triunfal do Rei ao Porto. Mas desde Julho de 1910 que Jorge V de Inglaterra sabe do que se projectava…A grande manifestação lealista de centenas de Oficiais no Bussaco, em Setembro; de 3 para 5 de Outubro a maior parte foge ou não reage. A imcompetência total do Ministério. O Rei em Mafra, na tarde de 4, encontra 150 homens na Escola Prática de Infantaria : “Vim para aqui por conselho do Governo”. A Rainha na manhã de 5 : tão calma e altiva, até parecia vencedora! A ida para a Ericeira, com a Família Real escoltada por 1 Alferes, 1 Cadete, 1 Sargento e 22 Praças (10 só com espadas)… O embarque no Iate “Amélia”: o povo da terra, respeitoso e triste; as tripulações das barcas deram ainda os três “vivas” do estilo. A bordo , o Rei não conseguiu ou não quis dar uma ordem terminante :”Porto !”. A Rainha, sempre ao longo dos anos: “Os Braganças não fugiram para Gibraltar. Embarcaram para o Porto”. 21 tiros de salva e todo o protocolo real em Gibraltar. Em Inglaterra: um desembarque discreto………………………………………………………………………………………..
CAPÍTULO II: O Rei e a Rainha em Richmond entre 1911 e 1913. D. Manuel II atento às tentativas absorcionistas de Afonso XIII em Londres. A 1ª incursão de Paiva Couceiro : desastre. Os legitimistas, “D.Miguel II”, e o Pacto de Dover; o “poder competente das Cortes”, que o Rei não pode esquecer. O desgaste do Rei e da Rainha, sobretudo dele. Em 1912, o Rei, alarmado por informações de bastidor acerca de actos que se intentam contra Portugal, tenta conjugar valores e apela para João Franco, exilado em Biarrirtz : “(…) a nacionalidade corre tais riscos que julgo meu impretérito dever dirigir-lhe este supremo apelo”. O desastre da 2ª incursão e, em Lisboa, o fracasso de Outubro de 1913, contra as ordens explícitas que o Rei dera a Ayres de Ornellas. A acção da Rainha no casamento do Rei com a Princesa Augusta Victoria de Hohenzollern-Sigmaringen (ramo católico da Família Imperial Alemã). Doença da jovem Rainha logo a seguir : o triunfo do reles em Portugal. D. Manuel II e a Rainha D. Augusta Victoria: residência em Fulwell Park. D. Amélia para França; enfermeira durante a Guerra e condecorada. O Rei na Cruz Vermelha Britânica (1915/1919); desempenho brilhante como Director do Departamento Ortopédico do “Joint War Commiittee”. Sobre a revolta de Monsanto (1919) e Ayres de Ornellas, o Rei escreve :”Um crime que se cometeu contra todas as minhas instruções.” O Integralismo e o Pacto de Paris (1922). D.Duarte Nuno no horizonte da sucessão; friezas familiares. Em 2/Julho/1932: sufocação e morte do Rei em minutos do maior sofrimento ; a premonição da Rainha D. Amélia. O Governo decreta funerais nacionais.Todos os organismos monárquicos aclamam Rei o “sucessor de direito”: D. Duarte II. ………
CAPÍTULO III: No mês da morte do Rei já o seu Lugar-Tenente, João de Azevedo Coutinho, estava às ordens de Salazar… Uma pretensa filha de D. Carlos I começa uma longuíssima agitação histriónica. O apoio da Realeza à Ditadura: “Repetiu-me ElRei as instrucções formaes(…)”, dizia a Rainha D. Amélia em 1932 a Salazar. Começam a mistura da Causa Monárquica com a União Nacional e o desmantelamento do Nacional-Sindicalismo! Salazar em 30/Julho/1934: “(…) morreu El-Rei sem que eu pudesse exprimir-Lhe (…) quanto o Seu apoio e a orientação dada à política monárquica facilitaram a acção da Ditadura e especialmente a minha”. O risível golpe da Penha de França. Os exílios do Comandante Henrique de Paiva Couceiro. A Rainha D. Amélia em 23/Julho/1938 escreve para o Brasil sobre Salazar: “O que o eleva (…) é o seu desinteresse, o grande desprezo que mostra(…)pelas conjecturas desfazedoras dos imbecis”. Em 22/Dezembro/1938, depois de entrevistada, rejubila : “(…) o meu título de Rainha foi restabelecido nos jornaes de Portugal”. As duas Rainhas cortam entre si: D. Augusta Vitória fizera um segundo casamento, luterano, com o Conde Douglas.Em 13/Outubro/1939,face à Guerra, D. Duarte Nuno, Duque de Bragança, manda o Lugar-Tenente manifestar ao Embaixador britânico o seu apoio à Inglaterra. Os Centenários e a representação da Casa de Bragança. A Rainha na França ocupada; correspondência e diligências portuguesas. 1942 e o casamento, no Brasil, do Duque de Bragança com a Princesa D. Maria Francisca, do ramo brasileiro da Casa; a Rainha será madrinha. Salazar: “(…) enlace em que o Governo não podia deixar de ver vantagens nacionais”. Mas que os Duques saiam depressa quando regressarem…………………
CAPÍTULO IV: A situação da Rainha na França em Guerra e as diligências que isso suscita. O interesse do Marquês de Lavradio junto de Salazar pelo assunto representa o de uma Nobreza que ainda se sente protagonista ; Salazar indica a”via competente”. Em 15/Fevereiro/1944 Salazar convida a Rainha para entrar e ela responde em 20/Março, referindo-se ao seu pessoal francês: “É desejo meu , ficar por ora com elles, que tão infelizes são”. Uma diligência diplomática mais esclarecedora reporta todavia, em 12 de Abril, que o verdadeiro problema da Rainha é “(…)a falta em Portugal de pessoa amiga, cauta e competente, em cujo conselho desinteressado pudesse inteiramente confiar”. Salazar: quem? Em 23/Agosto/1944 Salazar comunica com o Lugar-Tenente de D. Duarte Nuno : duas das Infantas estão presas em Viena ; “da Senhora Dona Amélia nada sabemos”. Em 7 de Setembro persiste a falta de notícias da Rainha, que só em 23 se conseguem, avisando-se logo o Lugar-Tenente. Em 23/Abril/1945 a Infanta D. Filipa reporta a Salazar a organização monárquica. A Rainha é convidada a visitar Portugal e desembarca no dia 17 de Maio. Uma estadia estranha: momentos muito altos de triunfo, com multidões, mas entretanto D. Amélia vai-se esfumando… Nasce, na Embaixada de Portugal na Suiça, D. Duarte Pio, primogénito da Casa. O Conde de Barcelona, no Estoril, em choque aberto com Franco. Em 23/Agosto/1947, um espanto : por ordem de Salazar, Santos Costa visita o Presidente Carmona para saber o que pensaria ele da Restauração. Em 3/Dezembro/1948 missão secreta de Nosolini, junto da Rainha, fala-lhe da Restauração e pede-lhe que contemple os Príncipes, sobretudo o afilhado D. Duarte Pio, no seu testamento. A Rainha: “(…) A restauração da Monarquia? Mas pensa-se na restauração da monarquia? Um codicilo……………………………………………………………………………………………………………
CAPÍTULO V : Em 19/Abril/1949, a Rainha anuncia a Salazar que está “(…)disposta a fazer o que me pede sobre o meu testamento e os futuros Herdeiros da Monarquia em Portugal”. Salazar intervém, ele próprio, na redacção do codicilo em Francês. E a Rainha, talvez ainda com velhos ressentimentos familiares, diz no fim: “única e exclusivamente porque o Senhor m´o pediu”. Em 12/Julho/1949 Salazar comenta em apontamento pessoal, referindo-se ao Lugar-Tenente Professor Fezas Vital e ao património da Fundação da Casa de Bragança: “(…)disse que estava convencido não haver oposição a que a Casa de Bragança fosse entregue ao Senhor Dom Duarte. Não respondi nem comentei o dito”. Sem entusiasmo de Salazar (“os Reis no Trono ou no Exílio”) é em 27/Maio/1950 revogada a Lei do Banimento. Em 31/Janeiro/1951 Fezas Vital entrega a Salazar um “projecto preparado para ser presente à Assembleia Nacional”, com vista a resolver o problema dos bens da Casa de Bragança. Mas Salazar só queria para os Braganças, enquanto não reinassem, um razoável conforto… Entretanto, em Bellevue, a Rainha tem curtas alucinações durante as quais confunde o seu Aio, Capitão Júlio da Costa Pinto, com o Príncipe Real, e o “vê” coberto de sangue: - “O que te fizeram, meu filho queridíssimo?” . Recebe enfim D. Augusta Victoria. Entra em calma e perfeita lucidez, despedindo-se em Português e morrendo em 25 de Outubro.
Complicações em torno do Protocolo no funeral nacional, envolvendo o Duque de Bragança. Despacho secreto de Salazar para Santos Costa em 8/Novembro/1951 : “(…) O Fezas, a Causa, os monárquicos não constituem uma fonte de consulta e de orientação. Não sabem nem uns nem outros o que hão-de fazer”.
O Pretendente à espera do “oráculo”. As fúrias do Presidente Craveiro Lopes………………………….
Notas……………………………………………………………………………………
Fontes………………………………………………………………………………….
O Senhor Dom Duarte de Bragança apresentou o Autor. A Obra foi apresentada por Carlos Nuno Pinto Coelho.
Eis o ÍNDICE da Obra:
Um perfil de Salazar, segundo Franco Nogueira……………………………………….
Instantâneos da Rainha D. Amélia…………………………………………………………
Breve perfil biográfico e psicológico da Rainha………………………………………..
Em tempo………………………………………………………………………………………..
CAPÍTULO I : O triste depoimento de Teófilo Braga sobre o valor de “O Marquês da Bacalhôa”, de António de Albuquerque (vulgo “Lêndea” ou “Miqueque”), para a revolução : o veneno sobre a Rainha D. Amélia. Afinal, largos anos depois, o Lêndea pede “perdão notarial” à Rainha!...O texto da última carta de Mouzinho para a Rainha. D.Manuel II descreve o Regicídio: uma “batida” de “malvados animais”. A Rainha para João Franco, “com uma voz que metia medo : Mataram El-Rei. Mataram o meu Filho” (sic, D. Manuel). “Que país é esse?”... pergunta Eduardo VII. Viagem triunfal do Rei ao Porto. Mas desde Julho de 1910 que Jorge V de Inglaterra sabe do que se projectava…A grande manifestação lealista de centenas de Oficiais no Bussaco, em Setembro; de 3 para 5 de Outubro a maior parte foge ou não reage. A imcompetência total do Ministério. O Rei em Mafra, na tarde de 4, encontra 150 homens na Escola Prática de Infantaria : “Vim para aqui por conselho do Governo”. A Rainha na manhã de 5 : tão calma e altiva, até parecia vencedora! A ida para a Ericeira, com a Família Real escoltada por 1 Alferes, 1 Cadete, 1 Sargento e 22 Praças (10 só com espadas)… O embarque no Iate “Amélia”: o povo da terra, respeitoso e triste; as tripulações das barcas deram ainda os três “vivas” do estilo. A bordo , o Rei não conseguiu ou não quis dar uma ordem terminante :”Porto !”. A Rainha, sempre ao longo dos anos: “Os Braganças não fugiram para Gibraltar. Embarcaram para o Porto”. 21 tiros de salva e todo o protocolo real em Gibraltar. Em Inglaterra: um desembarque discreto………………………………………………………………………………………..
CAPÍTULO II: O Rei e a Rainha em Richmond entre 1911 e 1913. D. Manuel II atento às tentativas absorcionistas de Afonso XIII em Londres. A 1ª incursão de Paiva Couceiro : desastre. Os legitimistas, “D.Miguel II”, e o Pacto de Dover; o “poder competente das Cortes”, que o Rei não pode esquecer. O desgaste do Rei e da Rainha, sobretudo dele. Em 1912, o Rei, alarmado por informações de bastidor acerca de actos que se intentam contra Portugal, tenta conjugar valores e apela para João Franco, exilado em Biarrirtz : “(…) a nacionalidade corre tais riscos que julgo meu impretérito dever dirigir-lhe este supremo apelo”. O desastre da 2ª incursão e, em Lisboa, o fracasso de Outubro de 1913, contra as ordens explícitas que o Rei dera a Ayres de Ornellas. A acção da Rainha no casamento do Rei com a Princesa Augusta Victoria de Hohenzollern-Sigmaringen (ramo católico da Família Imperial Alemã). Doença da jovem Rainha logo a seguir : o triunfo do reles em Portugal. D. Manuel II e a Rainha D. Augusta Victoria: residência em Fulwell Park. D. Amélia para França; enfermeira durante a Guerra e condecorada. O Rei na Cruz Vermelha Britânica (1915/1919); desempenho brilhante como Director do Departamento Ortopédico do “Joint War Commiittee”. Sobre a revolta de Monsanto (1919) e Ayres de Ornellas, o Rei escreve :”Um crime que se cometeu contra todas as minhas instruções.” O Integralismo e o Pacto de Paris (1922). D.Duarte Nuno no horizonte da sucessão; friezas familiares. Em 2/Julho/1932: sufocação e morte do Rei em minutos do maior sofrimento ; a premonição da Rainha D. Amélia. O Governo decreta funerais nacionais.Todos os organismos monárquicos aclamam Rei o “sucessor de direito”: D. Duarte II. ………
CAPÍTULO III: No mês da morte do Rei já o seu Lugar-Tenente, João de Azevedo Coutinho, estava às ordens de Salazar… Uma pretensa filha de D. Carlos I começa uma longuíssima agitação histriónica. O apoio da Realeza à Ditadura: “Repetiu-me ElRei as instrucções formaes(…)”, dizia a Rainha D. Amélia em 1932 a Salazar. Começam a mistura da Causa Monárquica com a União Nacional e o desmantelamento do Nacional-Sindicalismo! Salazar em 30/Julho/1934: “(…) morreu El-Rei sem que eu pudesse exprimir-Lhe (…) quanto o Seu apoio e a orientação dada à política monárquica facilitaram a acção da Ditadura e especialmente a minha”. O risível golpe da Penha de França. Os exílios do Comandante Henrique de Paiva Couceiro. A Rainha D. Amélia em 23/Julho/1938 escreve para o Brasil sobre Salazar: “O que o eleva (…) é o seu desinteresse, o grande desprezo que mostra(…)pelas conjecturas desfazedoras dos imbecis”. Em 22/Dezembro/1938, depois de entrevistada, rejubila : “(…) o meu título de Rainha foi restabelecido nos jornaes de Portugal”. As duas Rainhas cortam entre si: D. Augusta Vitória fizera um segundo casamento, luterano, com o Conde Douglas.Em 13/Outubro/1939,face à Guerra, D. Duarte Nuno, Duque de Bragança, manda o Lugar-Tenente manifestar ao Embaixador britânico o seu apoio à Inglaterra. Os Centenários e a representação da Casa de Bragança. A Rainha na França ocupada; correspondência e diligências portuguesas. 1942 e o casamento, no Brasil, do Duque de Bragança com a Princesa D. Maria Francisca, do ramo brasileiro da Casa; a Rainha será madrinha. Salazar: “(…) enlace em que o Governo não podia deixar de ver vantagens nacionais”. Mas que os Duques saiam depressa quando regressarem…………………
CAPÍTULO IV: A situação da Rainha na França em Guerra e as diligências que isso suscita. O interesse do Marquês de Lavradio junto de Salazar pelo assunto representa o de uma Nobreza que ainda se sente protagonista ; Salazar indica a”via competente”. Em 15/Fevereiro/1944 Salazar convida a Rainha para entrar e ela responde em 20/Março, referindo-se ao seu pessoal francês: “É desejo meu , ficar por ora com elles, que tão infelizes são”. Uma diligência diplomática mais esclarecedora reporta todavia, em 12 de Abril, que o verdadeiro problema da Rainha é “(…)a falta em Portugal de pessoa amiga, cauta e competente, em cujo conselho desinteressado pudesse inteiramente confiar”. Salazar: quem? Em 23/Agosto/1944 Salazar comunica com o Lugar-Tenente de D. Duarte Nuno : duas das Infantas estão presas em Viena ; “da Senhora Dona Amélia nada sabemos”. Em 7 de Setembro persiste a falta de notícias da Rainha, que só em 23 se conseguem, avisando-se logo o Lugar-Tenente. Em 23/Abril/1945 a Infanta D. Filipa reporta a Salazar a organização monárquica. A Rainha é convidada a visitar Portugal e desembarca no dia 17 de Maio. Uma estadia estranha: momentos muito altos de triunfo, com multidões, mas entretanto D. Amélia vai-se esfumando… Nasce, na Embaixada de Portugal na Suiça, D. Duarte Pio, primogénito da Casa. O Conde de Barcelona, no Estoril, em choque aberto com Franco. Em 23/Agosto/1947, um espanto : por ordem de Salazar, Santos Costa visita o Presidente Carmona para saber o que pensaria ele da Restauração. Em 3/Dezembro/1948 missão secreta de Nosolini, junto da Rainha, fala-lhe da Restauração e pede-lhe que contemple os Príncipes, sobretudo o afilhado D. Duarte Pio, no seu testamento. A Rainha: “(…) A restauração da Monarquia? Mas pensa-se na restauração da monarquia? Um codicilo……………………………………………………………………………………………………………
CAPÍTULO V : Em 19/Abril/1949, a Rainha anuncia a Salazar que está “(…)disposta a fazer o que me pede sobre o meu testamento e os futuros Herdeiros da Monarquia em Portugal”. Salazar intervém, ele próprio, na redacção do codicilo em Francês. E a Rainha, talvez ainda com velhos ressentimentos familiares, diz no fim: “única e exclusivamente porque o Senhor m´o pediu”. Em 12/Julho/1949 Salazar comenta em apontamento pessoal, referindo-se ao Lugar-Tenente Professor Fezas Vital e ao património da Fundação da Casa de Bragança: “(…)disse que estava convencido não haver oposição a que a Casa de Bragança fosse entregue ao Senhor Dom Duarte. Não respondi nem comentei o dito”. Sem entusiasmo de Salazar (“os Reis no Trono ou no Exílio”) é em 27/Maio/1950 revogada a Lei do Banimento. Em 31/Janeiro/1951 Fezas Vital entrega a Salazar um “projecto preparado para ser presente à Assembleia Nacional”, com vista a resolver o problema dos bens da Casa de Bragança. Mas Salazar só queria para os Braganças, enquanto não reinassem, um razoável conforto… Entretanto, em Bellevue, a Rainha tem curtas alucinações durante as quais confunde o seu Aio, Capitão Júlio da Costa Pinto, com o Príncipe Real, e o “vê” coberto de sangue: - “O que te fizeram, meu filho queridíssimo?” . Recebe enfim D. Augusta Victoria. Entra em calma e perfeita lucidez, despedindo-se em Português e morrendo em 25 de Outubro.
Complicações em torno do Protocolo no funeral nacional, envolvendo o Duque de Bragança. Despacho secreto de Salazar para Santos Costa em 8/Novembro/1951 : “(…) O Fezas, a Causa, os monárquicos não constituem uma fonte de consulta e de orientação. Não sabem nem uns nem outros o que hão-de fazer”.
O Pretendente à espera do “oráculo”. As fúrias do Presidente Craveiro Lopes………………………….
Notas……………………………………………………………………………………
Fontes………………………………………………………………………………….
quinta-feira, julho 06, 2006
NACIONALISMO E BATOTA
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Penso que o nacionalismo, em si mesmo, na forma pura, é bom como todas as coisas naturais. Porque é, ou deveria ser, natural as pessoas amarem, defenderem e exaltarem a sua pátria. E porque assim é, o nacionalismo puro não se trombeteia, vive-se sem alardes nem desfiles, no respeito pela nossa pátria e pelas pátrias dos outros, no respeito pelas nossas tradições e as que nos são alheias, no respeito pela nossa raça e por todas as raças. Numa prática quotidiana eivada de boa fé e rectas intenções.
Porque é que o nacionalismo, enquanto programa ou linha de acção, levanta tantas suspeições, e não apenas em Portugal? Tenho pensado muito nisso e chego sempre à mesma conclusão: porque vários países, e nós com eles, ficámos escaldados dessa profissão de fé nacionalista que afinal era uma desavergonhada batota. Uma capa de toureio que escondia o nazismo, o fascismo, o peronismo, o comunismo. Todos os líderes que usaram essa prática berravam o seu nacionalismo e no entanto, levaram as suas pátrias ao abismo e os seus povos a sofrimentos que a memória não pode esquecer. Quando aparece um movimento que, também ele, berra o seu nacionalismo como programa de acção, apenas um escasso número a ele adere, ficando-se a maioria por uma distância hostil e pronta a saltar se for caso disso. Porque se sente que aquele nacionalismo não é são, puro, natural, antes representa uma mmentira escondida, como que um vício escondido ou um aleijão da alma. Quarenta e oito anos desse “nacionalismo” sofridos em silêncio, com a polícia política à perna e os videirinhos do regime bem instalados, e depois mais uns anos das consequências, nacionais e internacionais, do “nacionalismo” que nos quiseram impor os lacaios da União Soviética, fizeram de nós, portugueses, um povo escaldado.
Ao que parece o mesmo se passa em países onde se viveu o mesmo e por isso se compreenderá que os grupelhos falsamente nacionalistas tendam a juntar-se, para uma ilusão de força internacionali, com todo o seu asqueroso folclore de cabeças rapadas, tatuagens, armas ilegais, paleio de ameaças e violências que, em geral, esconde fraquezas que Freud catalogou. O fenómeno é seguido com a maior atenção por um grande número de países.
A Turquia é um deles. E porquê? Segundo uma extensa reportagem passada recentemente na estação televisiva estadual do Canadá, e nas palavras de autoridades turcas, porque, se as suas comunidades emigrantes sofrerem perseguições por parte de nazis e fascistas na Europa, terão de decidir a invasão militar para defender os seus compatriotas. Nem mais nem menos.
Manter os grupos nazis, fascistas e comunistas, como inócua minoria, é um dever de todos os países cristãos e civilizados. Mas, penso, não é à bastonada que isso se consegue. É através da educação, da informação, da justa distribuição de bens, do respeito por cada ser humano. Só há uma maneira de erradicar os vírus sociais que essas ideologias veiculam: acabar com a fome, a ignorância e a injustiça social. Porque os vírus só medram em corpos doentes. Em boa verdade, só uma pessoa doente de carácter pode afirmar bacocamente, perante um país inteiro, que defende uma Europa apenas para brancos ou que dedica a sua vida a exaltar o sofrimento dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Os doentes não se tratam a pontapé. Internam-se. E tratam-se.
por Fernanda Leitão
Penso que o nacionalismo, em si mesmo, na forma pura, é bom como todas as coisas naturais. Porque é, ou deveria ser, natural as pessoas amarem, defenderem e exaltarem a sua pátria. E porque assim é, o nacionalismo puro não se trombeteia, vive-se sem alardes nem desfiles, no respeito pela nossa pátria e pelas pátrias dos outros, no respeito pelas nossas tradições e as que nos são alheias, no respeito pela nossa raça e por todas as raças. Numa prática quotidiana eivada de boa fé e rectas intenções.
Porque é que o nacionalismo, enquanto programa ou linha de acção, levanta tantas suspeições, e não apenas em Portugal? Tenho pensado muito nisso e chego sempre à mesma conclusão: porque vários países, e nós com eles, ficámos escaldados dessa profissão de fé nacionalista que afinal era uma desavergonhada batota. Uma capa de toureio que escondia o nazismo, o fascismo, o peronismo, o comunismo. Todos os líderes que usaram essa prática berravam o seu nacionalismo e no entanto, levaram as suas pátrias ao abismo e os seus povos a sofrimentos que a memória não pode esquecer. Quando aparece um movimento que, também ele, berra o seu nacionalismo como programa de acção, apenas um escasso número a ele adere, ficando-se a maioria por uma distância hostil e pronta a saltar se for caso disso. Porque se sente que aquele nacionalismo não é são, puro, natural, antes representa uma mmentira escondida, como que um vício escondido ou um aleijão da alma. Quarenta e oito anos desse “nacionalismo” sofridos em silêncio, com a polícia política à perna e os videirinhos do regime bem instalados, e depois mais uns anos das consequências, nacionais e internacionais, do “nacionalismo” que nos quiseram impor os lacaios da União Soviética, fizeram de nós, portugueses, um povo escaldado.
Ao que parece o mesmo se passa em países onde se viveu o mesmo e por isso se compreenderá que os grupelhos falsamente nacionalistas tendam a juntar-se, para uma ilusão de força internacionali, com todo o seu asqueroso folclore de cabeças rapadas, tatuagens, armas ilegais, paleio de ameaças e violências que, em geral, esconde fraquezas que Freud catalogou. O fenómeno é seguido com a maior atenção por um grande número de países.
A Turquia é um deles. E porquê? Segundo uma extensa reportagem passada recentemente na estação televisiva estadual do Canadá, e nas palavras de autoridades turcas, porque, se as suas comunidades emigrantes sofrerem perseguições por parte de nazis e fascistas na Europa, terão de decidir a invasão militar para defender os seus compatriotas. Nem mais nem menos.
Manter os grupos nazis, fascistas e comunistas, como inócua minoria, é um dever de todos os países cristãos e civilizados. Mas, penso, não é à bastonada que isso se consegue. É através da educação, da informação, da justa distribuição de bens, do respeito por cada ser humano. Só há uma maneira de erradicar os vírus sociais que essas ideologias veiculam: acabar com a fome, a ignorância e a injustiça social. Porque os vírus só medram em corpos doentes. Em boa verdade, só uma pessoa doente de carácter pode afirmar bacocamente, perante um país inteiro, que defende uma Europa apenas para brancos ou que dedica a sua vida a exaltar o sofrimento dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Os doentes não se tratam a pontapé. Internam-se. E tratam-se.
terça-feira, julho 04, 2006
SENTIMENTO DE PERTENCER
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Começo por explicar que sou uma portuguesa à antiga, educada a não brincar com coisas sérias e para quem, por isso mesmo, Mãe é Mãe, Pai é Pai, Hino é Hino, Bandeira é Bandeira. Nasci numa antiga colónia portuguesa em que, desde as primeiras letras, cantávamos o hino e rezávamos o Pai Nosso antes de iniciar um dia de aulas, numa sala onde havia crucifixo na parede.
Posto isto, adianto duas coisas: o meu interesse pelo hóquei em patins e pelo futebol resumiu-se sempre à participação internacional de Portugal em competições. A outra coisa foi a amargura indizível quando verifiquei que, por ignorância ou medo de certas forças políticas estrangeiras, umas vermelhas e outras mais descoradas, que tentaram dominar o nosso país depois de 1974, ninguém exibia a bandeira nacional nem cantava o hino.
A minha geração foi sacrificada a uma ditadura de extrema direita, estreita de vistas, farisaica, injusta, que representou um atraso de 50 anos em todos os sectores por, entre outras coisas, ser a autora moral da “descolonização exemplar” que depois fizeram uns políticos enfeudados a interesses estrangeiros. Isso deu uma grande confusão nos espíritos de todos nós, o que foi aproveitado por uns que se julgam politicamente correctos para acusarem os patriotas e os crentes de coisas sujas que só poderiam ser imagináveis por mentes sujas caldeadas no cadinho de pactos germano-russos, em tempos de Hitler e Estaline. Tão bom um como o outro. O que sobrou intacto da minha geração não podia aceitar mais nenhuma ditadura, tivesse ela a cor que tivesse, e alegremente, sem complexos, continuou a acreditar em Fátima, a gostar de fado e de futebol, a comer sardinhas assadas e a beber vinho tinto, a prezar a amizade e a lealdade. É claro que de gente desta não podia saír ninguém que assobiasse ao hino ou pisasse a bandeira. O tempo encarregou-se de demonstrar quem eram os reaccionários e os inimigos da Pátria.
Vamos agora aos finalmente, como dizia o sinhôzinho Malta duma telenovela bréjeira.
Estou a 6 mil quilómetros de Portugal e prestando uma enorme atenção ao campeonato de futebol, a exemplo dos milhões de portugueses residentes no nosso país e espalhados por todo o mundo. Estou radiante com o desparrame de bandeiras portuguesas por todo o lado, com o hino cantado e recantado, até que a voz nos doa, por multidões que precisam de ver Portugal grande em alguma coisa perante o estrangeiro.
Perdido o Império, o futebol foi pretexto para nos irmanarmos no mesmo entusiasmo, de Lisboa a Dili – e há nesta simplicidade qualquer coisa das proféticas palavras de Agostinho da Silva, o banido por Salazar que, com sacrifício de uma vida inteira, foi um missionário da Língua Portuguesa por todo o mundo.
O Portugal-Inglaterra encheu-me as medidas. Ricardo à baliza, foi ali mais do que ele, foi a vontade de todos nós. Cristiano Ronaldo, o menino que beijou a bola como quem diz “tu não me falhes”, foi ali mais do que ele: foi a crença ingénua do povo que somos. O brasileiro Scolari, rubro de entusiasmo, quase dançando, foi mais do que um grande treinador, foi ali o fio invisível que une o mundo lusófono, esse que existe onde dois seres humanos se entendam em português.
Quando o jogo acabou liguei para um amigo de Angola, como eu, o Orlando, que vive na mesma cidade que eu. Respondeu-me com a voz embargada de quem chorava. Eu fui até ao lindo e castiço Mercado de São Lourenço, em frente da minha casa, para esvaziar a tensão. Era o 1 de Julho, Dia do Canadá, e o mercado estava apinhado de pessoas alegres e descontraídas, a comprarem e petiscarem. De repente, dei com os olhos num rapagão todo embrulhado numa bandeira portuguesa, com a cara pintada com as cores da bandeira, que berrava a plenos pulmões em inglês: “O meu Portugal ganhou”. E todos aqueles estrangeiros o felicitavam, lhe davam abraços e palmadas nas costas. Fui direita a ele e disse-lhe apenas: “Lá ganhámos”. O rapagão abraçou-se a mim com as lágrimas a saltar dos olhos. E eu quase chorei. Éramos dois desconhecidos que pertenciam a uma mesma Pátria, com um sentimento de pertença sem reticências a um destino comum.
Uma amiga minha perguntou-me: “E agora?”. Pois, agora que já não temos os estados de alma que pela certa teríamos jogando com o Brasil, vamo-nos aos franceses como Santiago ao mouros.
por Fernanda Leitão
Começo por explicar que sou uma portuguesa à antiga, educada a não brincar com coisas sérias e para quem, por isso mesmo, Mãe é Mãe, Pai é Pai, Hino é Hino, Bandeira é Bandeira. Nasci numa antiga colónia portuguesa em que, desde as primeiras letras, cantávamos o hino e rezávamos o Pai Nosso antes de iniciar um dia de aulas, numa sala onde havia crucifixo na parede.
Posto isto, adianto duas coisas: o meu interesse pelo hóquei em patins e pelo futebol resumiu-se sempre à participação internacional de Portugal em competições. A outra coisa foi a amargura indizível quando verifiquei que, por ignorância ou medo de certas forças políticas estrangeiras, umas vermelhas e outras mais descoradas, que tentaram dominar o nosso país depois de 1974, ninguém exibia a bandeira nacional nem cantava o hino.
A minha geração foi sacrificada a uma ditadura de extrema direita, estreita de vistas, farisaica, injusta, que representou um atraso de 50 anos em todos os sectores por, entre outras coisas, ser a autora moral da “descolonização exemplar” que depois fizeram uns políticos enfeudados a interesses estrangeiros. Isso deu uma grande confusão nos espíritos de todos nós, o que foi aproveitado por uns que se julgam politicamente correctos para acusarem os patriotas e os crentes de coisas sujas que só poderiam ser imagináveis por mentes sujas caldeadas no cadinho de pactos germano-russos, em tempos de Hitler e Estaline. Tão bom um como o outro. O que sobrou intacto da minha geração não podia aceitar mais nenhuma ditadura, tivesse ela a cor que tivesse, e alegremente, sem complexos, continuou a acreditar em Fátima, a gostar de fado e de futebol, a comer sardinhas assadas e a beber vinho tinto, a prezar a amizade e a lealdade. É claro que de gente desta não podia saír ninguém que assobiasse ao hino ou pisasse a bandeira. O tempo encarregou-se de demonstrar quem eram os reaccionários e os inimigos da Pátria.
Vamos agora aos finalmente, como dizia o sinhôzinho Malta duma telenovela bréjeira.
Estou a 6 mil quilómetros de Portugal e prestando uma enorme atenção ao campeonato de futebol, a exemplo dos milhões de portugueses residentes no nosso país e espalhados por todo o mundo. Estou radiante com o desparrame de bandeiras portuguesas por todo o lado, com o hino cantado e recantado, até que a voz nos doa, por multidões que precisam de ver Portugal grande em alguma coisa perante o estrangeiro.
Perdido o Império, o futebol foi pretexto para nos irmanarmos no mesmo entusiasmo, de Lisboa a Dili – e há nesta simplicidade qualquer coisa das proféticas palavras de Agostinho da Silva, o banido por Salazar que, com sacrifício de uma vida inteira, foi um missionário da Língua Portuguesa por todo o mundo.
O Portugal-Inglaterra encheu-me as medidas. Ricardo à baliza, foi ali mais do que ele, foi a vontade de todos nós. Cristiano Ronaldo, o menino que beijou a bola como quem diz “tu não me falhes”, foi ali mais do que ele: foi a crença ingénua do povo que somos. O brasileiro Scolari, rubro de entusiasmo, quase dançando, foi mais do que um grande treinador, foi ali o fio invisível que une o mundo lusófono, esse que existe onde dois seres humanos se entendam em português.
Quando o jogo acabou liguei para um amigo de Angola, como eu, o Orlando, que vive na mesma cidade que eu. Respondeu-me com a voz embargada de quem chorava. Eu fui até ao lindo e castiço Mercado de São Lourenço, em frente da minha casa, para esvaziar a tensão. Era o 1 de Julho, Dia do Canadá, e o mercado estava apinhado de pessoas alegres e descontraídas, a comprarem e petiscarem. De repente, dei com os olhos num rapagão todo embrulhado numa bandeira portuguesa, com a cara pintada com as cores da bandeira, que berrava a plenos pulmões em inglês: “O meu Portugal ganhou”. E todos aqueles estrangeiros o felicitavam, lhe davam abraços e palmadas nas costas. Fui direita a ele e disse-lhe apenas: “Lá ganhámos”. O rapagão abraçou-se a mim com as lágrimas a saltar dos olhos. E eu quase chorei. Éramos dois desconhecidos que pertenciam a uma mesma Pátria, com um sentimento de pertença sem reticências a um destino comum.
Uma amiga minha perguntou-me: “E agora?”. Pois, agora que já não temos os estados de alma que pela certa teríamos jogando com o Brasil, vamo-nos aos franceses como Santiago ao mouros.
segunda-feira, junho 26, 2006
«Raça e cultura: encontro ou choque de civilizações»
Videoconferência mundial:
Organizada pela Congregação Vaticana para o Clero
ROMA, segunda-feira, 26 de junho de 2006 (ZENIT.org).- «Raça e cultura: encontro ou choque de civilizações» é o título da 48ª videoconferência mundial que a Congregação vaticana para o Clero organizou para a terça-feira, 27 de junho.
O encontro mensal reúne, graças às novas tecnologias da comunicação, teólogos de Roma, Nova York, Moscou, Bogotá, Madri, Taiwan, Sydney, Manila, Johannesburgo e Ratisbona.
A conferência poderá ser acompanhada ao vivo a partir das 12:00 horas (de Roma) e através do site do mencionado dicastério (www.clerus.org), cujo prefeito é o cardeal Darío Castrillón Hoyos.
Posteriormente -- desde esse site -- se poderão ler, baixar e imprimir os textos originais pronunciados pelos teólogos em diferentes idiomas.
Para seguir o evento com imagens e áudio, é necessário ter instalado no próprio computador «Real Player». O site do dicastério organizador oferece o link para seu download.
A seguir, oferecemos a relação dos teólogos que participarão e dos temas de suas intervenções, seguindo a ordem do programa difundido pela Congregação Vaticana para o Clero:
- Professor Antoinio Miralles (Roma): «Os esforços do Magistério pontifício a favor da civilização do amor».
- Professor Louis Aldrich (Taiwan): «China: que recursos e que perigos para a paz no mundo?».
- Professor Rodney Moss (Johannesburgo): «Como a Igreja na África enfrentou, em sua história, a questão racial?».
- Professor Igor Kowalewsky (Moscou): «Rússia - encruzilhada de povos».
- Professor Gary Devery (Sydney): «A Igreja na Oceania ante o fenômeno da imigração».
- Professor Michael Hull (Nova York): «Sobre que fundamentos se constrói a democracia?».
- Professor José Vidamor Yu (Manila): «Como a fé ajuda o homem a descobrir suas raízes?».
- Bispo Gerhard Ludwig Müller (Ratisbona): «Perigos de integrismos e fanatismos na sociedade atual».
- Professor Silvio Cajiao (Bogotá): «A contribuição das aparições de Guadalupe ao encontro de civilizações».
- Professor Alfonso Carrasco Rouco (Madri): «A Igreja e a laicidade».
- Professor Paolo Scarafoni (Roma): «A paróquia como lugar de encontro e de convivência».
Organizada pela Congregação Vaticana para o Clero
ROMA, segunda-feira, 26 de junho de 2006 (ZENIT.org).- «Raça e cultura: encontro ou choque de civilizações» é o título da 48ª videoconferência mundial que a Congregação vaticana para o Clero organizou para a terça-feira, 27 de junho.
O encontro mensal reúne, graças às novas tecnologias da comunicação, teólogos de Roma, Nova York, Moscou, Bogotá, Madri, Taiwan, Sydney, Manila, Johannesburgo e Ratisbona.
A conferência poderá ser acompanhada ao vivo a partir das 12:00 horas (de Roma) e através do site do mencionado dicastério (www.clerus.org), cujo prefeito é o cardeal Darío Castrillón Hoyos.
Posteriormente -- desde esse site -- se poderão ler, baixar e imprimir os textos originais pronunciados pelos teólogos em diferentes idiomas.
Para seguir o evento com imagens e áudio, é necessário ter instalado no próprio computador «Real Player». O site do dicastério organizador oferece o link para seu download.
A seguir, oferecemos a relação dos teólogos que participarão e dos temas de suas intervenções, seguindo a ordem do programa difundido pela Congregação Vaticana para o Clero:
- Professor Antoinio Miralles (Roma): «Os esforços do Magistério pontifício a favor da civilização do amor».
- Professor Louis Aldrich (Taiwan): «China: que recursos e que perigos para a paz no mundo?».
- Professor Rodney Moss (Johannesburgo): «Como a Igreja na África enfrentou, em sua história, a questão racial?».
- Professor Igor Kowalewsky (Moscou): «Rússia - encruzilhada de povos».
- Professor Gary Devery (Sydney): «A Igreja na Oceania ante o fenômeno da imigração».
- Professor Michael Hull (Nova York): «Sobre que fundamentos se constrói a democracia?».
- Professor José Vidamor Yu (Manila): «Como a fé ajuda o homem a descobrir suas raízes?».
- Bispo Gerhard Ludwig Müller (Ratisbona): «Perigos de integrismos e fanatismos na sociedade atual».
- Professor Silvio Cajiao (Bogotá): «A contribuição das aparições de Guadalupe ao encontro de civilizações».
- Professor Alfonso Carrasco Rouco (Madri): «A Igreja e a laicidade».
- Professor Paolo Scarafoni (Roma): «A paróquia como lugar de encontro e de convivência».
domingo, junho 25, 2006
O ensino que temos
Nesta semana chega ao fim mais um ano lectivo nas Escolas Portugueses. Os alunos do 12º. e 9º. ano estão já em exames nacionais. Tem sido um final agitado, quer por uma greve de professores, quer por notícias que na comunicação social põem a nu problemas das escolas, como a violência, ou o fracasso do abandono escolar.
Há quem culpe os portugueses de todos estes problemas, como é o caso da senhora Ministra da Educação e vá de alterar o Estatuto da Carreira Docente exigindo exame para se ser professor, exigindo muitas horas nas Escolas porque os professores não trabalham, chamando os pais a classificar os professores, tudo isto no intuito de impedir a progressão na carreira docente, e assim poupar alguma coisa ao Estado.
Há quem culpe as famílias que se desagregam, que não vão à Escola, que não acompanham os filhos, e depois ainda são chamados a avaliar os professores, como prémio destes comportamentos.
Há quem culpe o Estado que vem experimentando reformas atrás de reformas, que não dá possibilidade aos pais de escolherem as escolas para os seus filhos ao não das condições iguais ao ensino público e privado, que não estimula os melhores professores, etc.
Ao quem culpe os grupos de alunos marginais porque são violentos, não estudam, faltam às aulas, espalham a confusão na Escola.
Tudo isto tem um pouco de verdade, e a culpa nunca é só de novo das partes.
Chegou-se onde se chegou, porque a Escola ensina, mas na maioria das vezes não incute valores de pensamento e de uma indispensável plataforma moral que ensinem a viver e conviver numa sociedade toda ela feita de contradições como acabámos de verificar. O problema não se resolve combatendo os professores e dizendo que se ganharam os pais; ou “mimando e protegendo os meninos terríveis e binentos”, para que não vão a engrossar os que abandonam a Escola. O problema resolve-se com exigência, com colaboração activa entre a Escola e a família, com vias profissionalizantes no nosso ensino. É preciso dar autoridade ao professor na sala de aula, e não retirar-lhe toda a autoridade.
Também as Escolas do Ensino Superior estão a chegar ao fim de mais um ano, e já se anunciam reformas profundas neste sector; e não só com Bolonha. Cada Escola terá de anunciar a percentagem de empregabilidade dos alunos que a frequentaram. Se é para castigar as Escolas que não ensinam a coisa parece estar certa. Se é para fechar as Escolas que não têm saída profissional, terão de fechar a maioria, já que são mais de 38.000os licenciados que temos no desemprego por esse país fora: professores, engenheiros, advogados, agrários, etc.
Penso que não é às Escolas que compete criar empregos para os seus alunos; isso é trabalho de empresários e da própria sociedade civil como tal.
A liberdade de ensino ainda não chegou ao nosso país. Só com liberdade de ensino pode haver projectos educativos baseados em valores, cuja prioridade varia de família para família. Um Estado totalitário que não dá aos pais a possibilidade de escolher, em igualdade de condições, a Escola para os seus filhos, não dá possibilidade que haja verdadeiros educadores; provoca “ensinantes”.
A.D.
In "Reconquista", 22-06-2006
Há quem culpe os portugueses de todos estes problemas, como é o caso da senhora Ministra da Educação e vá de alterar o Estatuto da Carreira Docente exigindo exame para se ser professor, exigindo muitas horas nas Escolas porque os professores não trabalham, chamando os pais a classificar os professores, tudo isto no intuito de impedir a progressão na carreira docente, e assim poupar alguma coisa ao Estado.
Há quem culpe as famílias que se desagregam, que não vão à Escola, que não acompanham os filhos, e depois ainda são chamados a avaliar os professores, como prémio destes comportamentos.
Há quem culpe o Estado que vem experimentando reformas atrás de reformas, que não dá possibilidade aos pais de escolherem as escolas para os seus filhos ao não das condições iguais ao ensino público e privado, que não estimula os melhores professores, etc.
Ao quem culpe os grupos de alunos marginais porque são violentos, não estudam, faltam às aulas, espalham a confusão na Escola.
Tudo isto tem um pouco de verdade, e a culpa nunca é só de novo das partes.
Chegou-se onde se chegou, porque a Escola ensina, mas na maioria das vezes não incute valores de pensamento e de uma indispensável plataforma moral que ensinem a viver e conviver numa sociedade toda ela feita de contradições como acabámos de verificar. O problema não se resolve combatendo os professores e dizendo que se ganharam os pais; ou “mimando e protegendo os meninos terríveis e binentos”, para que não vão a engrossar os que abandonam a Escola. O problema resolve-se com exigência, com colaboração activa entre a Escola e a família, com vias profissionalizantes no nosso ensino. É preciso dar autoridade ao professor na sala de aula, e não retirar-lhe toda a autoridade.
Também as Escolas do Ensino Superior estão a chegar ao fim de mais um ano, e já se anunciam reformas profundas neste sector; e não só com Bolonha. Cada Escola terá de anunciar a percentagem de empregabilidade dos alunos que a frequentaram. Se é para castigar as Escolas que não ensinam a coisa parece estar certa. Se é para fechar as Escolas que não têm saída profissional, terão de fechar a maioria, já que são mais de 38.000os licenciados que temos no desemprego por esse país fora: professores, engenheiros, advogados, agrários, etc.
Penso que não é às Escolas que compete criar empregos para os seus alunos; isso é trabalho de empresários e da própria sociedade civil como tal.
A liberdade de ensino ainda não chegou ao nosso país. Só com liberdade de ensino pode haver projectos educativos baseados em valores, cuja prioridade varia de família para família. Um Estado totalitário que não dá aos pais a possibilidade de escolher, em igualdade de condições, a Escola para os seus filhos, não dá possibilidade que haja verdadeiros educadores; provoca “ensinantes”.
A.D.
In "Reconquista", 22-06-2006
terça-feira, junho 20, 2006
Aos Estudantes de Lisboa
Por Hipólito Raposo
Os bons intentos deste centenário não devem reduzir-se ao mérito das representações, nem dissolver-se em ecos de sessões comemorativas, jubilosas ou quási funerárias, em honra de um defunto glorioso que Deus tenha em glória...
Se Gil Vicente estivesse morto, de pouco nos valeria evocar para as consagrações efémeras dos discursos e do palco, um antepassado do melhor espírito português, que fazia rir a côrte e a gente popular, o palácio real e as casas pardas, mas que, findos estes deveres de piedade literária, teria de regressar àquele injusto esquecimento de que alguns beneméritos o começaram a libertar, reabilitando-o pela crítica ou remoçando-o à luz da cena.
Mas, graças ao poder do seu génio e ao sortilégio da sua arte, Gil Vicente permanece vivo, competindo-nos o desígnio de o revelar e impor, agora e sempre, como um dos mais assinalados valores universais com que Portugal, pelo espírito e pela acção, soube afirmar a sua individualidade no mundo, enumerando-o na grande constelação de almas em que brilham Santo António, D. Dinis, Fernão Lopes, Pedro Nunes, Damião de Goes, Camões, Fernão Mendes, o Padre António Vieira, ao lado dos reis conquistadores, dos heróis e dos navegadores, filhos espirituais do Infante D. Henrique.
Dentro do seu lusismo de sabor medieval aqui e além penetrado de influxos renascentistas, couberam temas humanos de alto sentido crítico e moralizador que se registam como títulos de nobreza da inteligência; sobem orações e salmos de tão inspirada fé e esperança que a lira sacra os deverá recolher entre as melhores flores de linguagem do seu hinário; desprendem-se e agitam-se os conceitos que ainda hoje servem de base ao problema do destino do homem na difícil harmonia moral dos planos da vida e da morte.
E à primeira luz crítica do Renascimento, ressurgem com todo o vigor os motivos literários da Antiguidade greco-romana, a fama, a glória cívica e militar, a apologia do esfôrço individual e colectivo, celebrados e cantados com sinceridade e fervor ainda góticos.
Vindo ao mundo entre duas idades do mundo, ele pôde dar expressão sincera à conciliação do antigo com o moderno, realizar a síntese dos ideais mais puros e criadores da civilização: a justiça, a verdade, a beleza, a honra, a santidade, o heroísmo ao serviço da Pátria.
Neste complexo de aspirações morais, ele subordinaria a intuitos discursivos ou apologéticos as próprias figurações do Paganismo, deuses e deusas, fadas e sibilas, tentando a acomodação da mitologia aos efeitos literários e simbólicos, dentro da esfera triunfal em que fulgurava a verdade cristã e portuguesa da era das navegações.
Gil Vicente, por seu e nosso bem, não foi doutor, não andou como peregrino das letras sagradas ou profanas, pelas cidades cultas da Europa, nem talvez se aproveitasse do ensino que a Universidade de Lisboa lhe podia oferecer, enquanto os bolseiros de El-Rei D. Manuel se preparavam para lhe dar o brilho e renome que depois, em Coimbra, viria a ter.
Se fosse doutor ou tivesse nascido quarenta anos mais tarde, outro seria o seu destino literário e menos preciosa se nos mostraria agora a sua herança: Gil Vicente teria sido mais dramaturgo do que poeta cómico e lirico, e perder-se-iam nas exigências formais e estruturais do drama clássico, a espontaneidade, a graça popular, o documentário português e humano em que a alma do nosso povo se retrata e brilha, como nos mil fragmentos de um espelho.
Autodidata que fosse em certa medida, ou, noviço de alguma comunidade religiosa, que, pelos abusos observados, se lhe gerasse a sanha anti-monástica que, de página em página, teimosamente nele se acende, Gil Vicente adquiriu o saber necessário para a sua função de poeta dos reis e do povo, a capacidade de um teólogo-vulgarizador para a todos ensinar o que um cristão pode saber dos mistérios divinos, as fraquezas e pecados, da carne e do espírito, o louvor da virtude, o horror da hipocrisia.
Da leitura das suas obras, recolhe-se um ideário de perfeita vida religiosa, moral e cívica, que em todos os tempos fará de Gil Vicente, um mestre insigne de lusitanidade.
Podemos segui-lo como guia de doutrina cristã no Auto da Alma e na melhor parte das obras de devoção; devemos admirá-lo como fiel depositário de riqueza etnográfica e folclórica, e aceitá-lo para exemplo de independência de carácter, de liberdade de espírito no Auto da Feira e nas cenas das Barcas, essas três audiências em juízos de processo sumário, de que já nem para Deus há recurso…
E se nele buscarmos inspirações de exaltação patriótica, logo nos lembramos da Exortação da Guerra, para ouvir rufar os roucos tambores que há cinco séculos vão marcando o andamento dos soldados que passam para a África; podemos acordar o frémito português do Auto da Fama, de cuja sonoridade, a rodear a Esfera Terrestre em círculo máximo, se ergue o sarcasmo à refulgente metrópole do Adriático, ameaçada de ruína pelas nossas naus do Oriente:
Preguntai ora a Veneza
Como lhe vai de seu jôgo:
Eu vos ensinarei logo
De que se fez sua grandeza.
Depois, nessa fala da Fama Portuguesa, hino heróico em redondilha, antecipa-se a fúria grande e sonorosa do Épico, o canto vai correndo da Guiné ao Brasil, a Mombaça, a Aden, a Ormuz, a Goa, a Cochim e Malaca, e nesta amplitude reboante de orgulho, sente-se que, se Deus criou a Terra, os Portugueses por continentes e mares, lhe descobriram e lhe mediram a redondeza, para o destino de ensinar às gentes bárbaras a unidade moral do género humano nos estreitos caminhos do céu, e às gentes cultas da Europa a arte de navegar pelas rotas oceânicas. Enfim, pelo conjunto da sua actividade, Gil Vicente foi o que hoje chamaríamos um escritor de alta expressão moral e nacional, e talvez para que a sua autoridade não se diminuísse, nem se moderasse o vigor requeimante do seu verbo em nosso conceito de hoje, pela velha contradição de frei Tomás, quis o destino que a sua biografia ficasse embrenhada em genealogias e confusões, a maior das quais é a questão da identidade ou dualidade pessoal do seu nome. Poeta-ourives ou ourives-poeta que ele tenha sido, a rimar o primeiro poema da fé e do império na Custódia de Belém, ou a lavrar autos no ouro ainda em barra da nossa língua, bem parece o mesmo génio que vence o tempo, este irmão mais velho e risonho de Camões. Mas, se a Custódia não fosse dele, teria havido então um ourives que também foi poeta e que neste primor de cinzeladura haveria deixado a parte central de um verdadeiro auto sacramental, em que os serafins, os apóstolos e os outros adoradores precedem o povo português, que não se vê, mas ali se pressente a cantar em coro o Tantum ergo ou o nosso Bem dito, em honra e louvor do corpo de Deus consagrado. Já que aqui vim, por encargo quási protocolar, para vos repetir mal o que os vossos diligentes mestres vos têm ensinado, desejaria que de todo não fôsse inútil para vós o sacrifício de escutar palavras minhas, quando um pouco retardo o aparecimento de Gil Vicente: estando ele à espera de nos falar, a todos rende a obrigação de ficar calados, para o gosto de o ouvir. Mas, se por efémera ficção, aqui fui proposto para vosso professor, quero aproveitá-la para exercer o dever mais grave, sem o qual a nossa missão se destitue do carácter de paternidade intelectual que dignifica o interesse do ensino. Em nome desse zêlo docente, daqui ouso dirigir-me ao senhor Ministro da Educação Nacional, a quem as escolas e o povo ficam devendo este banquete de teatro espiritual, para lhe requerer e rogar que, a par de uma edição erudita, mande organizar sem demora a Selecta de Gil Vicente, com as composições e os trechos de maior interesse nas obras do fundador do Teatro Português. Assim, poderá ele mais facilmente entrar nas famílias, ser lido e estimado por toda a gente e vivificar de espiritualidade, de graça e de saúde moral a alma aberta da juventude. Esse livro, ao lado dos Lusíadas, ficaria nas estantes mais modestas, andaria nos papéis dos portugueses que não queiram desnaturalizar as almas, acompanhando por toda a terra lusitana e estranjeira, para regalo do gosto e mezinha do tédio, os vossos passos de soldados, de juízes, de negociantes, de médicos ou de artistas. Entrando no convívio de toda a gente, desde os pastores de gado aos arcebispos, dos trabalhadores manuais aos dirigentes da Nação, o grande Poeta deixaria de ser, sem ironia, um ilustre desconhecido, para alcançar na consciência nacional o lugar de estima e preço que tem na inteligência do mundo culto.
E agora que estamos em signo de Gil Vicente, completando e ampliando o voto deste memorial, seria necessário que se retomasse o sonho de Garrett, atribuindo ao teatro valor social. (...)
Teatro-escola de língua portuguesa, em que a arte domine a indústria, teatro-livro para os que não sabem ler, teatro vivo para crítica de costumes, para perpetuar as nossas glórias e exaltar as esperanças de grandeza colectiva.
Entre os problemas do espírito em Portugal, devia impor-se a um Poder Público esclarecido, para a encarar de frente, a restauração do teatro nacional, sustando a sua miseranda agonia, dentro do propósito sistemático de prestigiar as letras e dignificar os artistas, para evitar que os comediantes e os músicos aviltem a profissão e que outros, a sonhar paraísos de beleza, se esqueçam de que estão a morrer de fome. Mas nesse intento, como em toda a obra afirmativa, não deveria perder-se de vista que na cura das nações toda a ofensa à continuidade é mutilação, e que o conceito de uma hereditariedade moral deve dominar sempre o impulso das mais profundas transformações.
A árvore da vida espiritual da grei não se nutre de enfeites de papel pintado, nem viceja à claridade de balões venezianos que nela vão acender os melhores cuidados de a aformosear e engrandecer: as flores e os frutos do espírito português criam-se com a seiva de raízes que se alimentam do sangue do sacrifício, oculto na cinza dos mortos.
Com o pasmo de quem admirasse alheias gentes, vimos há três dias passar, cantar e bailar na alegria da sua pobreza, o povo de Portugal, Portugal-português, Portugal gil-vicentino de pastores, cavadores e pescadores, erguendo-se em aparições inesperadas de vivos que pareciam a ressurreição de mortos de todos os séculos e lugares da Nação.
Estes nos ensinam a manter a solidariedade das ideas e dos sentimentos por cima da dispersão do barro humano, porque os vivos são sombras fugidias e só os mortos triunfam da sucessão da vida. Meditando hoje nos exemplos que nos deixaram os crentes e idealistas da linhagem de Gil Vicente, sentimos que o passado em nós se prolonga, em demanda do futuro; e fortalecemo-nos na certeza jocunda de que assim alcançamos a plenitude da consciência da nação, emquanto outros, infiéis da Pátria, negadores e insultadores da história, não partilham da nossa comunidade moral, e verdadeiramente não vivem, apenas subsistem, para mastigar o seu rancor anti-português e deshumano.
E aceitando para inspiração da vossa conduta e reclamando para as realizações colectivas o influxo dos que nos altos céus da Pátria são os nossos tutelares e nos deixaram a herança da terra que temos e da formosa língua que falamos, esteja sempre vigilante o nosso instinto de defesa, certo de que, quando os nossos mortos não falarem através dos vivos, já mandarão nos portugueses os estranjeiros.
Com a crença em tais votos, seja esta a lembrança que de mim vos fique no breve (ou longo) recado que vos dou, por justiça ao Poeta, por amor da mocidade e por honra e louvor de Portugal !
(Palavras proferidas na récita escolar no Teatro Nacional Almeida Garrett, em Lisboa, aos 2 de Junho de 1937.)
Os bons intentos deste centenário não devem reduzir-se ao mérito das representações, nem dissolver-se em ecos de sessões comemorativas, jubilosas ou quási funerárias, em honra de um defunto glorioso que Deus tenha em glória...
Se Gil Vicente estivesse morto, de pouco nos valeria evocar para as consagrações efémeras dos discursos e do palco, um antepassado do melhor espírito português, que fazia rir a côrte e a gente popular, o palácio real e as casas pardas, mas que, findos estes deveres de piedade literária, teria de regressar àquele injusto esquecimento de que alguns beneméritos o começaram a libertar, reabilitando-o pela crítica ou remoçando-o à luz da cena.
Mas, graças ao poder do seu génio e ao sortilégio da sua arte, Gil Vicente permanece vivo, competindo-nos o desígnio de o revelar e impor, agora e sempre, como um dos mais assinalados valores universais com que Portugal, pelo espírito e pela acção, soube afirmar a sua individualidade no mundo, enumerando-o na grande constelação de almas em que brilham Santo António, D. Dinis, Fernão Lopes, Pedro Nunes, Damião de Goes, Camões, Fernão Mendes, o Padre António Vieira, ao lado dos reis conquistadores, dos heróis e dos navegadores, filhos espirituais do Infante D. Henrique.
Dentro do seu lusismo de sabor medieval aqui e além penetrado de influxos renascentistas, couberam temas humanos de alto sentido crítico e moralizador que se registam como títulos de nobreza da inteligência; sobem orações e salmos de tão inspirada fé e esperança que a lira sacra os deverá recolher entre as melhores flores de linguagem do seu hinário; desprendem-se e agitam-se os conceitos que ainda hoje servem de base ao problema do destino do homem na difícil harmonia moral dos planos da vida e da morte.
E à primeira luz crítica do Renascimento, ressurgem com todo o vigor os motivos literários da Antiguidade greco-romana, a fama, a glória cívica e militar, a apologia do esfôrço individual e colectivo, celebrados e cantados com sinceridade e fervor ainda góticos.
Vindo ao mundo entre duas idades do mundo, ele pôde dar expressão sincera à conciliação do antigo com o moderno, realizar a síntese dos ideais mais puros e criadores da civilização: a justiça, a verdade, a beleza, a honra, a santidade, o heroísmo ao serviço da Pátria.
Neste complexo de aspirações morais, ele subordinaria a intuitos discursivos ou apologéticos as próprias figurações do Paganismo, deuses e deusas, fadas e sibilas, tentando a acomodação da mitologia aos efeitos literários e simbólicos, dentro da esfera triunfal em que fulgurava a verdade cristã e portuguesa da era das navegações.
Gil Vicente, por seu e nosso bem, não foi doutor, não andou como peregrino das letras sagradas ou profanas, pelas cidades cultas da Europa, nem talvez se aproveitasse do ensino que a Universidade de Lisboa lhe podia oferecer, enquanto os bolseiros de El-Rei D. Manuel se preparavam para lhe dar o brilho e renome que depois, em Coimbra, viria a ter.
Se fosse doutor ou tivesse nascido quarenta anos mais tarde, outro seria o seu destino literário e menos preciosa se nos mostraria agora a sua herança: Gil Vicente teria sido mais dramaturgo do que poeta cómico e lirico, e perder-se-iam nas exigências formais e estruturais do drama clássico, a espontaneidade, a graça popular, o documentário português e humano em que a alma do nosso povo se retrata e brilha, como nos mil fragmentos de um espelho.
Autodidata que fosse em certa medida, ou, noviço de alguma comunidade religiosa, que, pelos abusos observados, se lhe gerasse a sanha anti-monástica que, de página em página, teimosamente nele se acende, Gil Vicente adquiriu o saber necessário para a sua função de poeta dos reis e do povo, a capacidade de um teólogo-vulgarizador para a todos ensinar o que um cristão pode saber dos mistérios divinos, as fraquezas e pecados, da carne e do espírito, o louvor da virtude, o horror da hipocrisia.
Da leitura das suas obras, recolhe-se um ideário de perfeita vida religiosa, moral e cívica, que em todos os tempos fará de Gil Vicente, um mestre insigne de lusitanidade.
Podemos segui-lo como guia de doutrina cristã no Auto da Alma e na melhor parte das obras de devoção; devemos admirá-lo como fiel depositário de riqueza etnográfica e folclórica, e aceitá-lo para exemplo de independência de carácter, de liberdade de espírito no Auto da Feira e nas cenas das Barcas, essas três audiências em juízos de processo sumário, de que já nem para Deus há recurso…
E se nele buscarmos inspirações de exaltação patriótica, logo nos lembramos da Exortação da Guerra, para ouvir rufar os roucos tambores que há cinco séculos vão marcando o andamento dos soldados que passam para a África; podemos acordar o frémito português do Auto da Fama, de cuja sonoridade, a rodear a Esfera Terrestre em círculo máximo, se ergue o sarcasmo à refulgente metrópole do Adriático, ameaçada de ruína pelas nossas naus do Oriente:
Preguntai ora a Veneza
Como lhe vai de seu jôgo:
Eu vos ensinarei logo
De que se fez sua grandeza.
Depois, nessa fala da Fama Portuguesa, hino heróico em redondilha, antecipa-se a fúria grande e sonorosa do Épico, o canto vai correndo da Guiné ao Brasil, a Mombaça, a Aden, a Ormuz, a Goa, a Cochim e Malaca, e nesta amplitude reboante de orgulho, sente-se que, se Deus criou a Terra, os Portugueses por continentes e mares, lhe descobriram e lhe mediram a redondeza, para o destino de ensinar às gentes bárbaras a unidade moral do género humano nos estreitos caminhos do céu, e às gentes cultas da Europa a arte de navegar pelas rotas oceânicas. Enfim, pelo conjunto da sua actividade, Gil Vicente foi o que hoje chamaríamos um escritor de alta expressão moral e nacional, e talvez para que a sua autoridade não se diminuísse, nem se moderasse o vigor requeimante do seu verbo em nosso conceito de hoje, pela velha contradição de frei Tomás, quis o destino que a sua biografia ficasse embrenhada em genealogias e confusões, a maior das quais é a questão da identidade ou dualidade pessoal do seu nome. Poeta-ourives ou ourives-poeta que ele tenha sido, a rimar o primeiro poema da fé e do império na Custódia de Belém, ou a lavrar autos no ouro ainda em barra da nossa língua, bem parece o mesmo génio que vence o tempo, este irmão mais velho e risonho de Camões. Mas, se a Custódia não fosse dele, teria havido então um ourives que também foi poeta e que neste primor de cinzeladura haveria deixado a parte central de um verdadeiro auto sacramental, em que os serafins, os apóstolos e os outros adoradores precedem o povo português, que não se vê, mas ali se pressente a cantar em coro o Tantum ergo ou o nosso Bem dito, em honra e louvor do corpo de Deus consagrado. Já que aqui vim, por encargo quási protocolar, para vos repetir mal o que os vossos diligentes mestres vos têm ensinado, desejaria que de todo não fôsse inútil para vós o sacrifício de escutar palavras minhas, quando um pouco retardo o aparecimento de Gil Vicente: estando ele à espera de nos falar, a todos rende a obrigação de ficar calados, para o gosto de o ouvir. Mas, se por efémera ficção, aqui fui proposto para vosso professor, quero aproveitá-la para exercer o dever mais grave, sem o qual a nossa missão se destitue do carácter de paternidade intelectual que dignifica o interesse do ensino. Em nome desse zêlo docente, daqui ouso dirigir-me ao senhor Ministro da Educação Nacional, a quem as escolas e o povo ficam devendo este banquete de teatro espiritual, para lhe requerer e rogar que, a par de uma edição erudita, mande organizar sem demora a Selecta de Gil Vicente, com as composições e os trechos de maior interesse nas obras do fundador do Teatro Português. Assim, poderá ele mais facilmente entrar nas famílias, ser lido e estimado por toda a gente e vivificar de espiritualidade, de graça e de saúde moral a alma aberta da juventude. Esse livro, ao lado dos Lusíadas, ficaria nas estantes mais modestas, andaria nos papéis dos portugueses que não queiram desnaturalizar as almas, acompanhando por toda a terra lusitana e estranjeira, para regalo do gosto e mezinha do tédio, os vossos passos de soldados, de juízes, de negociantes, de médicos ou de artistas. Entrando no convívio de toda a gente, desde os pastores de gado aos arcebispos, dos trabalhadores manuais aos dirigentes da Nação, o grande Poeta deixaria de ser, sem ironia, um ilustre desconhecido, para alcançar na consciência nacional o lugar de estima e preço que tem na inteligência do mundo culto.
E agora que estamos em signo de Gil Vicente, completando e ampliando o voto deste memorial, seria necessário que se retomasse o sonho de Garrett, atribuindo ao teatro valor social. (...)
Teatro-escola de língua portuguesa, em que a arte domine a indústria, teatro-livro para os que não sabem ler, teatro vivo para crítica de costumes, para perpetuar as nossas glórias e exaltar as esperanças de grandeza colectiva.
Entre os problemas do espírito em Portugal, devia impor-se a um Poder Público esclarecido, para a encarar de frente, a restauração do teatro nacional, sustando a sua miseranda agonia, dentro do propósito sistemático de prestigiar as letras e dignificar os artistas, para evitar que os comediantes e os músicos aviltem a profissão e que outros, a sonhar paraísos de beleza, se esqueçam de que estão a morrer de fome. Mas nesse intento, como em toda a obra afirmativa, não deveria perder-se de vista que na cura das nações toda a ofensa à continuidade é mutilação, e que o conceito de uma hereditariedade moral deve dominar sempre o impulso das mais profundas transformações.
A árvore da vida espiritual da grei não se nutre de enfeites de papel pintado, nem viceja à claridade de balões venezianos que nela vão acender os melhores cuidados de a aformosear e engrandecer: as flores e os frutos do espírito português criam-se com a seiva de raízes que se alimentam do sangue do sacrifício, oculto na cinza dos mortos.
Com o pasmo de quem admirasse alheias gentes, vimos há três dias passar, cantar e bailar na alegria da sua pobreza, o povo de Portugal, Portugal-português, Portugal gil-vicentino de pastores, cavadores e pescadores, erguendo-se em aparições inesperadas de vivos que pareciam a ressurreição de mortos de todos os séculos e lugares da Nação.
Estes nos ensinam a manter a solidariedade das ideas e dos sentimentos por cima da dispersão do barro humano, porque os vivos são sombras fugidias e só os mortos triunfam da sucessão da vida. Meditando hoje nos exemplos que nos deixaram os crentes e idealistas da linhagem de Gil Vicente, sentimos que o passado em nós se prolonga, em demanda do futuro; e fortalecemo-nos na certeza jocunda de que assim alcançamos a plenitude da consciência da nação, emquanto outros, infiéis da Pátria, negadores e insultadores da história, não partilham da nossa comunidade moral, e verdadeiramente não vivem, apenas subsistem, para mastigar o seu rancor anti-português e deshumano.
E aceitando para inspiração da vossa conduta e reclamando para as realizações colectivas o influxo dos que nos altos céus da Pátria são os nossos tutelares e nos deixaram a herança da terra que temos e da formosa língua que falamos, esteja sempre vigilante o nosso instinto de defesa, certo de que, quando os nossos mortos não falarem através dos vivos, já mandarão nos portugueses os estranjeiros.
Com a crença em tais votos, seja esta a lembrança que de mim vos fique no breve (ou longo) recado que vos dou, por justiça ao Poeta, por amor da mocidade e por honra e louvor de Portugal !
(Palavras proferidas na récita escolar no Teatro Nacional Almeida Garrett, em Lisboa, aos 2 de Junho de 1937.)
sábado, junho 17, 2006
TRADIÇÃO
A TRADIÇÃO NÃO É A TRANSMISSÃO DE COISAS OU PALAVRAS, UMA COLECÇÃO DE COISAS MORTAS.
A TRADIÇÃO É O RIO VIVO QUE NOS LIGA ÀS ORIGENS, O RIO VIVO NO QUAL AS ORIGENS ESTÃO SEMPRE PRESENTES. O GRANDE RIO QUE NOS CONDUZ AO PORTO DA ETERNIDADE
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 26 de Abril de 2006
A comunhão no tempo: a Tradição
"Queridos irmãos e irmãs!
Obrigado pelo vosso afecto! Com a nova série de catequeses, iniciada há pouco tempo, procuramos compreender o desígnio originário da Igreja querida pelo Senhor, para assim compreender melhor também a nossa colocação, a nossa vida cristã, na grande comunhão da Igreja. Até agora compreendemos que a comunhão eclesial é suscitada e alimentada pelo Espírito Santo, guardada e promovida pelo ministério apostólico. E esta comunhão, a que nós chamamos Igreja, não se alarga só a todos os crentes de um certo momento histórico, mas abraça também todos os tempos e todas as gerações. Por conseguinte, temos uma dupla universalidade: a universalidade sincrónica estamos unidos com os crentes de todas as partes do mundo e também uma universalidade chamada diacrónica, isto é: todos os tempos nos pertencem, também os crentes do passado e os crentes do futuro formam connosco uma única grande comunhão. É o Espírito quem garante a presença activa do mistério na história, Aquele que garante a sua realização ao longo dos séculos. Graças ao Paráclito a experiência do Ressuscitado, feita pela comunidade apostólica nas origens da Igreja, poderá ser sempre vivida pelas gerações sucessivas, porque transmitida e actualizada na fé, no culto e na comunhão do Povo de Deus, peregrino no tempo. E assim nós agora, no tempo pascal, vivemos o encontro com o Ressuscitado, não só como uma coisa do passado, mas na comunhão presente da fé, da liturgia, da vida da Igreja. A Tradição apostólica da Igreja consiste nesta transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a actualização permanente, na força do Espírito, da comunhão originária. Ela é chamada assim porque surgiu do testemunho dos Apóstolos e da comunidade dos discípulos no tempo das origens, foi entregue sob a guia do Espírito Santo nos textos do Novo Testamento e na vida sacramental, na vida da fé, e a ela a esta tradição, que é toda a realidade sempre actual do dom de Jesus a Igreja refere-se continuamente como ao seu fundamento e à sua norma através da sucessão ininterrupta do mistério apostólico.
Jesus, ainda na sua vida histórica, limitava a sua missão à casa de Israel, mas já fazia compreender que o dom era destinado não só ao povo de Israel, mas a todo o mundo e a todos os tempos. Depois, o Ressuscitado confia explicitamente aos Apóstolos (cf. Lc 6, 13) a tarefa de fazer discípulos de todas as nações, garantindo a sua presença e a sua ajuda até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 19s.). O universalismo da salvação exige, entre outras coisas, que o memorial da Páscoa seja celebrado sem interrupção na história até à vinda gloriosa de Cristo (cf. 1 Cor 11, 26). Quem actualizará a presença salvífica do Senhor Jesus mediante o ministério dos apóstolos chefes do Israel escatológico (cf. Mt 19, 28) e através de toda a vida do apóstolo da nova aliança? A resposta é clara: o Espírito Santo. Os Actos dos Apóstolos em continuidade com o desígnio do Evangelho de Lucas apresentam ao vivo a compenetração entre o Espírito, os enviados de Cristo e a comunidade por eles reunida. Graças à acção do Paráclito os Apóstolos e os seus sucessores podem realizar no tempo a missão recebida do Ressuscitado: "Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu..." (Lc 24, 48s.). "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo" (Act 1, 8). E esta promessa, no início incrível, já se realizou no tempo dos Apóstolos: "E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem" (Act 5, 32).
Portanto, é o próprio Espírito que, mediante a imposição das mãos e a oração dos Apóstolos, consagra e envia os novos missionários do Evangelho (assim, por exemplo, em Act 13, 3s. e 1 Tm 4, 14). É interessante observar que, enquanto em alguns trechos se diz que Paulo estabelece os presbíteros nas Igrejas (cf. Act 14, 23), noutras partes afirma-se que é o Espírito quem constitui os pastores do rebanho (cf. Act 20, 28). A acção do Espírito e a de Paulo sobressaem profundamente compenetradas. No momento das decisões solenes para a vida da Igreja, o Espírito está presente para a guiar. Esta presença-guia do Espírito Santo sente-se particularmente no Concílio de Jerusalém, em cujas palavras conclusivas ressoa a afirmação: "O Espírito Santo e nós próprios resolvemos..." (Act 15, 28); a Igreja cresce e caminha "no temor do Senhor e, com a assistência do Espírito Santo..." (Act 9, 31). Esta actualização permanente da presença activa de Jesus Senhor no seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja através do ministério apostólico e a comunhão fraterna, é aquilo que em sentido teológico se quer dizer com a palavra Tradição: ela não é a simples transmissão material de quanto foi doado no início aos Apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade por ele reunida.
A Tradição é a comunhão dos fiéis à volta dos legítimos Pastores no decorrer da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta garantindo a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na originária comunidade dos discípulos, e a experiência actual de Cristo na sua Igreja. Por outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, erigido sobre o fundamento dos Apóstolos e reunido pela pedra angular, Cristo, mediante a acção vivificante do Espírito: "Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito" (Ef 2, 19-22). Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos Apóstolos e dos seus sucessores, a água da vida que saiu do lado de Cristo e o seu sangue saudável alcançam as mulheres e os homens de todos os tempos. Assim, a Tradição é a presença permanente do Salvador que vem encontrar-se connosco, redimir-nos e santificar-nos no Espírito mediante o ministério da sua Igreja, para glória do Pai.
Concluindo e resumindo, podemos afirmar portanto que a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma colecção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E sendo assim, neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor, que no início ouvimos dos lábios do leitor: "E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 29, 20)."
A TRADIÇÃO É O RIO VIVO QUE NOS LIGA ÀS ORIGENS, O RIO VIVO NO QUAL AS ORIGENS ESTÃO SEMPRE PRESENTES. O GRANDE RIO QUE NOS CONDUZ AO PORTO DA ETERNIDADE
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 26 de Abril de 2006
A comunhão no tempo: a Tradição
"Queridos irmãos e irmãs!
Obrigado pelo vosso afecto! Com a nova série de catequeses, iniciada há pouco tempo, procuramos compreender o desígnio originário da Igreja querida pelo Senhor, para assim compreender melhor também a nossa colocação, a nossa vida cristã, na grande comunhão da Igreja. Até agora compreendemos que a comunhão eclesial é suscitada e alimentada pelo Espírito Santo, guardada e promovida pelo ministério apostólico. E esta comunhão, a que nós chamamos Igreja, não se alarga só a todos os crentes de um certo momento histórico, mas abraça também todos os tempos e todas as gerações. Por conseguinte, temos uma dupla universalidade: a universalidade sincrónica estamos unidos com os crentes de todas as partes do mundo e também uma universalidade chamada diacrónica, isto é: todos os tempos nos pertencem, também os crentes do passado e os crentes do futuro formam connosco uma única grande comunhão. É o Espírito quem garante a presença activa do mistério na história, Aquele que garante a sua realização ao longo dos séculos. Graças ao Paráclito a experiência do Ressuscitado, feita pela comunidade apostólica nas origens da Igreja, poderá ser sempre vivida pelas gerações sucessivas, porque transmitida e actualizada na fé, no culto e na comunhão do Povo de Deus, peregrino no tempo. E assim nós agora, no tempo pascal, vivemos o encontro com o Ressuscitado, não só como uma coisa do passado, mas na comunhão presente da fé, da liturgia, da vida da Igreja. A Tradição apostólica da Igreja consiste nesta transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a actualização permanente, na força do Espírito, da comunhão originária. Ela é chamada assim porque surgiu do testemunho dos Apóstolos e da comunidade dos discípulos no tempo das origens, foi entregue sob a guia do Espírito Santo nos textos do Novo Testamento e na vida sacramental, na vida da fé, e a ela a esta tradição, que é toda a realidade sempre actual do dom de Jesus a Igreja refere-se continuamente como ao seu fundamento e à sua norma através da sucessão ininterrupta do mistério apostólico.
Jesus, ainda na sua vida histórica, limitava a sua missão à casa de Israel, mas já fazia compreender que o dom era destinado não só ao povo de Israel, mas a todo o mundo e a todos os tempos. Depois, o Ressuscitado confia explicitamente aos Apóstolos (cf. Lc 6, 13) a tarefa de fazer discípulos de todas as nações, garantindo a sua presença e a sua ajuda até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 19s.). O universalismo da salvação exige, entre outras coisas, que o memorial da Páscoa seja celebrado sem interrupção na história até à vinda gloriosa de Cristo (cf. 1 Cor 11, 26). Quem actualizará a presença salvífica do Senhor Jesus mediante o ministério dos apóstolos chefes do Israel escatológico (cf. Mt 19, 28) e através de toda a vida do apóstolo da nova aliança? A resposta é clara: o Espírito Santo. Os Actos dos Apóstolos em continuidade com o desígnio do Evangelho de Lucas apresentam ao vivo a compenetração entre o Espírito, os enviados de Cristo e a comunidade por eles reunida. Graças à acção do Paráclito os Apóstolos e os seus sucessores podem realizar no tempo a missão recebida do Ressuscitado: "Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu..." (Lc 24, 48s.). "Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo" (Act 1, 8). E esta promessa, no início incrível, já se realizou no tempo dos Apóstolos: "E nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus tem concedido àqueles que lhe obedecem" (Act 5, 32).
Portanto, é o próprio Espírito que, mediante a imposição das mãos e a oração dos Apóstolos, consagra e envia os novos missionários do Evangelho (assim, por exemplo, em Act 13, 3s. e 1 Tm 4, 14). É interessante observar que, enquanto em alguns trechos se diz que Paulo estabelece os presbíteros nas Igrejas (cf. Act 14, 23), noutras partes afirma-se que é o Espírito quem constitui os pastores do rebanho (cf. Act 20, 28). A acção do Espírito e a de Paulo sobressaem profundamente compenetradas. No momento das decisões solenes para a vida da Igreja, o Espírito está presente para a guiar. Esta presença-guia do Espírito Santo sente-se particularmente no Concílio de Jerusalém, em cujas palavras conclusivas ressoa a afirmação: "O Espírito Santo e nós próprios resolvemos..." (Act 15, 28); a Igreja cresce e caminha "no temor do Senhor e, com a assistência do Espírito Santo..." (Act 9, 31). Esta actualização permanente da presença activa de Jesus Senhor no seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja através do ministério apostólico e a comunhão fraterna, é aquilo que em sentido teológico se quer dizer com a palavra Tradição: ela não é a simples transmissão material de quanto foi doado no início aos Apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade por ele reunida.
A Tradição é a comunhão dos fiéis à volta dos legítimos Pastores no decorrer da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta garantindo a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na originária comunidade dos discípulos, e a experiência actual de Cristo na sua Igreja. Por outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, erigido sobre o fundamento dos Apóstolos e reunido pela pedra angular, Cristo, mediante a acção vivificante do Espírito: "Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito" (Ef 2, 19-22). Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos Apóstolos e dos seus sucessores, a água da vida que saiu do lado de Cristo e o seu sangue saudável alcançam as mulheres e os homens de todos os tempos. Assim, a Tradição é a presença permanente do Salvador que vem encontrar-se connosco, redimir-nos e santificar-nos no Espírito mediante o ministério da sua Igreja, para glória do Pai.
Concluindo e resumindo, podemos afirmar portanto que a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma colecção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E sendo assim, neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor, que no início ouvimos dos lábios do leitor: "E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 29, 20)."
sexta-feira, junho 16, 2006
10 de Junho
por Paulo Teixeira Pinto
Hoje é Dia de Portugal.
Hoje não é o dia deste País.
Portugal não é “este País”.
E é hoje, dia 10 de Junho, dia de Portugal, que cumpre homenagear os nossos combatentes. Os que lutaram por Portugal, não por um regime, não por uma ideologia, não por uma estratégia, não por um interesse. Sim, por Portugal.
A maior de todas as homenagens que fazer se possa aos nossos combatentes – em especial por parte de alguém como eu que nunca foi combatente (eu tinha 13 anos e vivia em Angola quando terminou a guerra) –, a maior homenagem, dizia, é reconhecer que se Portugal é o que hoje é, e é uma das mais antigas Nações de todo o mundo, é porque muita gente ao longo de séculos lutou e morreu para que este dia possa continuar a ser assinalado.
Já se disse que um povo sem memória é um povo sem futuro. Poderemos mesmo dizer que seria um povo já sem presente. Mas também sem identidade, porque esta não pode subsistir sem reconhecimento. E este obriga a que o sangue dos que morreram em nome de todos seja causa de honra dos que sobrevivem.
Certo é que a História não regista nenhum caso de um Estado eterno. Mas ao fim de novecentos anos de história, a cada geração cabe assegurar que a próxima não seja a última a poder comemorar o dia de Portugal. De Portugal repito, não da Pátria, da Nação, ou do País.
Mais se impõe também ter presente que numa sociedade democrática, madura, aberta e plural, o que deve ser esperado de todos os cidadãos – porque afinal, os verdadeiros detentores do poder político são eles e não aqueles outros que em cada momento exerçam a titularidade dos órgãos de Estado – é que sejam activos combatentes pelos direitos de cidadania. E que cumpram também os deveres que a mesma impõe. Por isso, neste sentido, combatentes já não são só os militares em cumprimento do seu ofício.
Hoje, dia de Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes, é bom ter desde já presente que a missão que deles agora se espera já não é fazer a guerra mas estar sempre em prontidão para defender a Paz. E esta deve ser garantida, e activamente promovida, não só no território nacional, mas também em todas as geografias onde os nossos interesses estratégicos, nomeadamente os resultantes de compromissos internacionais – de que é expoente maior a NATO – a isso obriguem.
Hoje, dia de Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes, é também bom recordar que combatentes são de igual modo aqueles que com os nossos combateram. E sei, porque já o vi e senti, que ninguém mais do que um verdadeiro combatente sabe respeitar o combatente que o defronta. Porque depois do confronto é mais aquilo que os une do que o que os separou.
Homenagear os nossos combatentes é, por conseguinte, celebrar Portugal. Sem ideologias, sem facciosismos, sem antagonismos. Porque Portugal somos todos, mesmo aqueles que sendo portugueses dizem dele não gostar e até aqueles que por Portugal recusariam lutar. Porque Portugal é, enfim, a raiz da nossa filiação comunitária. Porque o dia 10 de Junho é o dia dos Portugueses. Todos.
Celebrar Portugal significa então recordar que somos, de entre todos os Estados soberanos da Europa, aquele que no espaço primeiro encontrou os seus próprios limites de fronteira terrestre. E que espera – isto é, aguarda com esperança – nunca chegar a descobrir no tempo as cérceas que delimitam o fim da sua Idade, porquanto sucede que a soberania portuguesa é, ela mesma, não apenas o selo que certifica a sua independência mas também, e em especial, a sua própria causa de ser. Desta sorte, a soberania nacional, na particular condição de Portugal, é muito mais do que um simples atributo de Estado: é a emanação de uma vontade de Nação. Portugal não é só um Estado soberano. Portugal é um Estado Nacional.
Portugal é uma Nação que, de frente para o mar e de costas para terra, descobriu terra para além do mar. Uma Nação que encontrou o oriente indo para Ocidente. Faltando ao encontro com a sua vocação faltaria ao cumprimento da sua missão.
Portugal é um ancoradouro onde diversas gentes se encontraram como um só povo que se identifica com uma só língua perante a memória de uma história comum e o sonho de um futuro também comum. Portugal foi cantado por Camões como porto de partida para a Ilha dos Amores e para o Reino do Prestes João. Mas descobrir o mundo todo não seria nada se esse mundo fosse só, ao contrário do verso de Pessoa, o mítico nada que é tudo. Não. O lugar português não é o da utopia. É o do mundo inteiro. De nada vale ser finis terrae se não se divisar para além do fim que pode ser pela vista alcançado. Portugal significa universal.
Portugal teve por destino a descoberta e o encontro com outros povos. Para com eles viver e com eles repartir o que nós somos. Nunca fomos menos por sermos também os outros. Mas fomos sempre mais quando demos mais. Quanto mais formos outros mais os outros serão também portugueses. A Portugalidade só se realiza com os outros e nunca contra ninguém. E é por isso mesmo que Portugal tem de significar o maior contrário de racismo ou xenofobia. A dimensão de um povo não é mensurável pelo número de coisas de que é senhor mas pela intenção e pela intensidade do que seja capaz de dar aos outros povos. Posto isto, tal como há portugueses em todas as dobras do mundo, é bom que os que cá permanecem saibam ser solidários com o sacrifício dos que partiram, acolhendo com a mesma dignidade aqueles outros que vindos do mesmo mundo escolheram cá viver connosco.
Portugal é um Estado e é uma Nação. Mas é também uma Mátria. Terra Mãe de demandas sem fim para no fim voltar ao princípio de outra procura infinita. Porque só o infinito é o tempo e o espaço onde cabe a universalidade. Lugar e momento daqueles que nos outros procuram o encontro consigo mesmos. Fizemo-nos assim. Sobrevivemos assim. Seremos ainda assim enquanto a nossa vontade nos permitir continuar assim. Até que sim. Porque o nosso fado não se chama destino mas liberdade. E então a nossa saudade não será do passado mas clamará pelo futuro. Que só é possível porque houve gente, de gerações e gerações, que combateu para nos permitir estar hoje aqui a falar de esperança no futuro.
Obrigado Combatentes!
E que viva Portugal!
10 de Junho de 2006
Paulo Teixeira Pinto
Hoje é Dia de Portugal.
Hoje não é o dia deste País.
Portugal não é “este País”.
E é hoje, dia 10 de Junho, dia de Portugal, que cumpre homenagear os nossos combatentes. Os que lutaram por Portugal, não por um regime, não por uma ideologia, não por uma estratégia, não por um interesse. Sim, por Portugal.
A maior de todas as homenagens que fazer se possa aos nossos combatentes – em especial por parte de alguém como eu que nunca foi combatente (eu tinha 13 anos e vivia em Angola quando terminou a guerra) –, a maior homenagem, dizia, é reconhecer que se Portugal é o que hoje é, e é uma das mais antigas Nações de todo o mundo, é porque muita gente ao longo de séculos lutou e morreu para que este dia possa continuar a ser assinalado.
Já se disse que um povo sem memória é um povo sem futuro. Poderemos mesmo dizer que seria um povo já sem presente. Mas também sem identidade, porque esta não pode subsistir sem reconhecimento. E este obriga a que o sangue dos que morreram em nome de todos seja causa de honra dos que sobrevivem.
Certo é que a História não regista nenhum caso de um Estado eterno. Mas ao fim de novecentos anos de história, a cada geração cabe assegurar que a próxima não seja a última a poder comemorar o dia de Portugal. De Portugal repito, não da Pátria, da Nação, ou do País.
Mais se impõe também ter presente que numa sociedade democrática, madura, aberta e plural, o que deve ser esperado de todos os cidadãos – porque afinal, os verdadeiros detentores do poder político são eles e não aqueles outros que em cada momento exerçam a titularidade dos órgãos de Estado – é que sejam activos combatentes pelos direitos de cidadania. E que cumpram também os deveres que a mesma impõe. Por isso, neste sentido, combatentes já não são só os militares em cumprimento do seu ofício.
Hoje, dia de Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes, é bom ter desde já presente que a missão que deles agora se espera já não é fazer a guerra mas estar sempre em prontidão para defender a Paz. E esta deve ser garantida, e activamente promovida, não só no território nacional, mas também em todas as geografias onde os nossos interesses estratégicos, nomeadamente os resultantes de compromissos internacionais – de que é expoente maior a NATO – a isso obriguem.
Hoje, dia de Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes, é também bom recordar que combatentes são de igual modo aqueles que com os nossos combateram. E sei, porque já o vi e senti, que ninguém mais do que um verdadeiro combatente sabe respeitar o combatente que o defronta. Porque depois do confronto é mais aquilo que os une do que o que os separou.
Homenagear os nossos combatentes é, por conseguinte, celebrar Portugal. Sem ideologias, sem facciosismos, sem antagonismos. Porque Portugal somos todos, mesmo aqueles que sendo portugueses dizem dele não gostar e até aqueles que por Portugal recusariam lutar. Porque Portugal é, enfim, a raiz da nossa filiação comunitária. Porque o dia 10 de Junho é o dia dos Portugueses. Todos.
Celebrar Portugal significa então recordar que somos, de entre todos os Estados soberanos da Europa, aquele que no espaço primeiro encontrou os seus próprios limites de fronteira terrestre. E que espera – isto é, aguarda com esperança – nunca chegar a descobrir no tempo as cérceas que delimitam o fim da sua Idade, porquanto sucede que a soberania portuguesa é, ela mesma, não apenas o selo que certifica a sua independência mas também, e em especial, a sua própria causa de ser. Desta sorte, a soberania nacional, na particular condição de Portugal, é muito mais do que um simples atributo de Estado: é a emanação de uma vontade de Nação. Portugal não é só um Estado soberano. Portugal é um Estado Nacional.
Portugal é uma Nação que, de frente para o mar e de costas para terra, descobriu terra para além do mar. Uma Nação que encontrou o oriente indo para Ocidente. Faltando ao encontro com a sua vocação faltaria ao cumprimento da sua missão.
Portugal é um ancoradouro onde diversas gentes se encontraram como um só povo que se identifica com uma só língua perante a memória de uma história comum e o sonho de um futuro também comum. Portugal foi cantado por Camões como porto de partida para a Ilha dos Amores e para o Reino do Prestes João. Mas descobrir o mundo todo não seria nada se esse mundo fosse só, ao contrário do verso de Pessoa, o mítico nada que é tudo. Não. O lugar português não é o da utopia. É o do mundo inteiro. De nada vale ser finis terrae se não se divisar para além do fim que pode ser pela vista alcançado. Portugal significa universal.
Portugal teve por destino a descoberta e o encontro com outros povos. Para com eles viver e com eles repartir o que nós somos. Nunca fomos menos por sermos também os outros. Mas fomos sempre mais quando demos mais. Quanto mais formos outros mais os outros serão também portugueses. A Portugalidade só se realiza com os outros e nunca contra ninguém. E é por isso mesmo que Portugal tem de significar o maior contrário de racismo ou xenofobia. A dimensão de um povo não é mensurável pelo número de coisas de que é senhor mas pela intenção e pela intensidade do que seja capaz de dar aos outros povos. Posto isto, tal como há portugueses em todas as dobras do mundo, é bom que os que cá permanecem saibam ser solidários com o sacrifício dos que partiram, acolhendo com a mesma dignidade aqueles outros que vindos do mesmo mundo escolheram cá viver connosco.
Portugal é um Estado e é uma Nação. Mas é também uma Mátria. Terra Mãe de demandas sem fim para no fim voltar ao princípio de outra procura infinita. Porque só o infinito é o tempo e o espaço onde cabe a universalidade. Lugar e momento daqueles que nos outros procuram o encontro consigo mesmos. Fizemo-nos assim. Sobrevivemos assim. Seremos ainda assim enquanto a nossa vontade nos permitir continuar assim. Até que sim. Porque o nosso fado não se chama destino mas liberdade. E então a nossa saudade não será do passado mas clamará pelo futuro. Que só é possível porque houve gente, de gerações e gerações, que combateu para nos permitir estar hoje aqui a falar de esperança no futuro.
Obrigado Combatentes!
E que viva Portugal!
10 de Junho de 2006
Paulo Teixeira Pinto
quinta-feira, junho 15, 2006
Violência nas Escolas
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Recentemente, a RTP-Internacional transmitiu para todas as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo uma reportagem sobre a violência nas escolas, seguida de um debate entre Fátima Bonifácio, Eduardo Sá, Isabel Cluny e Jorge Pedreira, respectivamente professora universitária, psicólogo clínico, professora do ensino secundário e secretário do estado a que a educação chegou em Portugal. Antes de mais nada, apraz referir a excelente moderação feita por José Alberto de Carvalho.
A reportagem, realizada a partir de máquinas de filmar dissimuladas em salas de aula, com consentimento pleno dos conselhos de professores, é tão real e forte que faz doer. No caso de nós outros, os residentes nestas paragens, fez doer e muito. É verdade que amigos e familiares, trabalhando no ensino em Portugal, muitas vezes se nos queixaram da violência dos alunos, do desamparo em que trabalham, do desespero que os invade cada manhã, mas nunca realizámos que a situação fosse tão séria e degradante. Foi um grande choque para os emigrantes. E uma vergonha, depois de 32 anos de promessas ocas, sobretudo se pensarmos que os imigrantes de vários países que rumaram a Portugal têm de sujeitar os seus filhos a tão bárbaro ambiente. Que lástima os emigrantes portugueses terem de lamentar os imigrantes que vivem em Portugal!
A violência das crianças, como muito bem apontaram o psicólogo clínico e a (inteligentíssima e corajosa) Fátima Bonifácio, tem sempre origem na violência familiar, na aridez do afecto, no abandono sofrido diariamente. É óbvio que as crianças e os jovens descarregam a raiva e o desconforto onde calha e em cima de quem calha. Neste caso, os professores e eles mesmos uns com os outros. Aos professores, neste tempo de descalabro, tem cabido aguentar uma dupla violência: a dos alunos e a dum ministério que, nunca indo à raíz dos problemas, tem a desumanidade de atribuir aos professores o insucesso escolar, numa generalização absolutamente assassina. Mas de quem traz o ensino do português no estrangeiro em completo desamparo, a ponto de sanear os melhores coordenadores para manter em lugares autênticos aventureiros, de quem procede assim, espera-se tudo. Até que, à falta de melhor tarefa, faça retirar das escolas portuguesas as cruzes, sabe-se lá a mando de quem. Há horas no mundo em que nos países anda o diabo à solta. Tempos da Besta.
O ministério da Educação tem sido, desde 1974, palco dos maiores desconchavos, das maiores corrupções e compadrios, dos mais completos festivais de incompetência e arrivismo. Basta lembrarmos os ministros e secretários de estado que por lá têm passado. Que bom seria se este fosse o único ministério a sofrer de tão prolongada mazela, mas ainda assim, basta este exemplo para avaliarmos de quão pouca importância este regime tem dado à educação, ao saber, à cultura, enfim ao único capital que não se perde nem se esgota.
Fátima Bonifácio, com evidente aprovação da professora Cluny e do psicólogo Eduardo Sá, entende que as crianças violentas não podem continuar a ser violentadas por famílias que não o sabem ser. E entende bem. O tumor tem de ser arrancado duma vez e em cirurgia social sem peias. Está em jogo toda uma geração e também o futuro de Portugal.
Os professores, excepto aquela minoria que vive de cunhas e de baixas fraudulentas (algumas a partir do estrangeiro) e de outras golpadas sujas, os professores, dizíamos, estão a ser queimados pelo próprio ministério. E todo o povo tem de saber isto. Precisam de apoio e não de censuras descabidas.
Resumindo (em calão académico): o Jorge Calhau estendeu-se ao comprido, para ficar bem no retrato com a ministra. Que remodelação ministerial tão necessária!
por Fernanda Leitão
Recentemente, a RTP-Internacional transmitiu para todas as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo uma reportagem sobre a violência nas escolas, seguida de um debate entre Fátima Bonifácio, Eduardo Sá, Isabel Cluny e Jorge Pedreira, respectivamente professora universitária, psicólogo clínico, professora do ensino secundário e secretário do estado a que a educação chegou em Portugal. Antes de mais nada, apraz referir a excelente moderação feita por José Alberto de Carvalho.
A reportagem, realizada a partir de máquinas de filmar dissimuladas em salas de aula, com consentimento pleno dos conselhos de professores, é tão real e forte que faz doer. No caso de nós outros, os residentes nestas paragens, fez doer e muito. É verdade que amigos e familiares, trabalhando no ensino em Portugal, muitas vezes se nos queixaram da violência dos alunos, do desamparo em que trabalham, do desespero que os invade cada manhã, mas nunca realizámos que a situação fosse tão séria e degradante. Foi um grande choque para os emigrantes. E uma vergonha, depois de 32 anos de promessas ocas, sobretudo se pensarmos que os imigrantes de vários países que rumaram a Portugal têm de sujeitar os seus filhos a tão bárbaro ambiente. Que lástima os emigrantes portugueses terem de lamentar os imigrantes que vivem em Portugal!
A violência das crianças, como muito bem apontaram o psicólogo clínico e a (inteligentíssima e corajosa) Fátima Bonifácio, tem sempre origem na violência familiar, na aridez do afecto, no abandono sofrido diariamente. É óbvio que as crianças e os jovens descarregam a raiva e o desconforto onde calha e em cima de quem calha. Neste caso, os professores e eles mesmos uns com os outros. Aos professores, neste tempo de descalabro, tem cabido aguentar uma dupla violência: a dos alunos e a dum ministério que, nunca indo à raíz dos problemas, tem a desumanidade de atribuir aos professores o insucesso escolar, numa generalização absolutamente assassina. Mas de quem traz o ensino do português no estrangeiro em completo desamparo, a ponto de sanear os melhores coordenadores para manter em lugares autênticos aventureiros, de quem procede assim, espera-se tudo. Até que, à falta de melhor tarefa, faça retirar das escolas portuguesas as cruzes, sabe-se lá a mando de quem. Há horas no mundo em que nos países anda o diabo à solta. Tempos da Besta.
O ministério da Educação tem sido, desde 1974, palco dos maiores desconchavos, das maiores corrupções e compadrios, dos mais completos festivais de incompetência e arrivismo. Basta lembrarmos os ministros e secretários de estado que por lá têm passado. Que bom seria se este fosse o único ministério a sofrer de tão prolongada mazela, mas ainda assim, basta este exemplo para avaliarmos de quão pouca importância este regime tem dado à educação, ao saber, à cultura, enfim ao único capital que não se perde nem se esgota.
Fátima Bonifácio, com evidente aprovação da professora Cluny e do psicólogo Eduardo Sá, entende que as crianças violentas não podem continuar a ser violentadas por famílias que não o sabem ser. E entende bem. O tumor tem de ser arrancado duma vez e em cirurgia social sem peias. Está em jogo toda uma geração e também o futuro de Portugal.
Os professores, excepto aquela minoria que vive de cunhas e de baixas fraudulentas (algumas a partir do estrangeiro) e de outras golpadas sujas, os professores, dizíamos, estão a ser queimados pelo próprio ministério. E todo o povo tem de saber isto. Precisam de apoio e não de censuras descabidas.
Resumindo (em calão académico): o Jorge Calhau estendeu-se ao comprido, para ficar bem no retrato com a ministra. Que remodelação ministerial tão necessária!
quarta-feira, junho 14, 2006
Artistas Viajantes e o Brasil no século XIX
A Galeria de Pintura do Rei D. Luís tem patente ao público uma exposição subordinada ao tema Artistas Viajantes e o Brasil no século XIX, uma iniciativa conjunta do Instituto Português de Museus e do Instituto Português do Património Arquitectónico constituída por um acervo de cerca de 122 obras pertencentes à Coleção Brasiliana / Fundação Estudar, sediada em S. Paulo, no Brasil.
A exposição, composta por um conjunto de pinturas, aguarelas, desenhos e gravuras datadas, na sua maioria, do século XIX, compõe uma visão do país a partir de três grandes temas: o Rio de Janeiro e a corte, o registo dos viajantes e a paisagem brasileira.
O olhar atento de artistas/viajantes e cientistas/naturalistas, curiosos e investigadores, impregnado pelo espírito aventureiro e a mentalidade romântica tão peculiar à época, deixou uma quantidade considerável de publicações e imagens. Estas “imagens” testemunham a vida da corte portuguesa no Brasil que ali se instalou em consequência das Invasões Francesas, a diversidade da cultura brasileira formada por portugueses, escravos africanos, nativos indígenas e mestiços e, por último, as imponentes paisagens de uma luxuriante vegetação.
Este imenso legado, hoje conhecido por “Brasiliana”, é uma contribuição inestimável para o estudo e conhecimento da história e da arte do Brasil.
Às obras provenientes da Coleção Brasiliana foram associadas peças provenientes dos acervos dos Palácios Nacionais e da Biblioteca da Ajuda, referentes à Família Real de Portugal e Imperial do Brasil.
No âmbito desta exposição, o Instituto Português do Património Arquitectónico e o Instituto Português de Museus organizam um Curso Livre a decorrer no dia 22 de Junho e que conta com a participação de especialistas da época em estudo. Os temas contemplados serão na área da História Cultural, Política e Social.
Curso Livre no âmbito da exposição
Artistas Viajantes e o Brasil no século XIX
10h30 “D. Pedro IV, um monarca entre dois mundos”
Prof. Doutor Eugénio dos Santos
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
11h30 “Gentes e Paisagem no Romantismo Brasileiro”
Prof. ª Doutora Vânia Chaves Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
12h30 ALMOÇO
14h30 “Corte e Nobrezas:
uma monarquia entre dois continentes”
Prof. Doutor Nuno Monteiro
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
15h30 “O Marquês de Fronteira:
um aristocrata no Cabralismo”
Prof. ª Doutora Fátima Bonifácio
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
16h30 Pausa para café
16h45 “Domingos António Sequeira:
um pintor dos exílios”
Prof.ª Doutora Raquel Henriques da Silva
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Universidade Nova de Lisboa
17h45 “Música ao tempo de D. João VI”
Prof. Doutor Rui Vieira Nery
Departamento de Artes da Universidade de Évora
18h45 Lançamento do livro O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança (1842-1843) – A «Bela Chica», pela Editora Alêtheia.
A obra será apresentada pelo Dr. José Alberto Ribeiro
Na ocasião do lançamento será servido um cocktail.
contactos:
Galeria de Pintura do Rei D. Luís, Palácio Nacional da Ajuda
1349-021 Lisboa
Telefones: 21 361 4340/44/46
Fax: 21 362 5641
galeria@ippar.pt
Almoço na esplanada do Restaurante Estufa Real (20€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
Inscrições prévias pelos telefones: 21 361 4340 / 21 361 4346
A exposição, composta por um conjunto de pinturas, aguarelas, desenhos e gravuras datadas, na sua maioria, do século XIX, compõe uma visão do país a partir de três grandes temas: o Rio de Janeiro e a corte, o registo dos viajantes e a paisagem brasileira.
O olhar atento de artistas/viajantes e cientistas/naturalistas, curiosos e investigadores, impregnado pelo espírito aventureiro e a mentalidade romântica tão peculiar à época, deixou uma quantidade considerável de publicações e imagens. Estas “imagens” testemunham a vida da corte portuguesa no Brasil que ali se instalou em consequência das Invasões Francesas, a diversidade da cultura brasileira formada por portugueses, escravos africanos, nativos indígenas e mestiços e, por último, as imponentes paisagens de uma luxuriante vegetação.
Este imenso legado, hoje conhecido por “Brasiliana”, é uma contribuição inestimável para o estudo e conhecimento da história e da arte do Brasil.
Às obras provenientes da Coleção Brasiliana foram associadas peças provenientes dos acervos dos Palácios Nacionais e da Biblioteca da Ajuda, referentes à Família Real de Portugal e Imperial do Brasil.
No âmbito desta exposição, o Instituto Português do Património Arquitectónico e o Instituto Português de Museus organizam um Curso Livre a decorrer no dia 22 de Junho e que conta com a participação de especialistas da época em estudo. Os temas contemplados serão na área da História Cultural, Política e Social.
Curso Livre no âmbito da exposição
Artistas Viajantes e o Brasil no século XIX
10h30 “D. Pedro IV, um monarca entre dois mundos”
Prof. Doutor Eugénio dos Santos
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
11h30 “Gentes e Paisagem no Romantismo Brasileiro”
Prof. ª Doutora Vânia Chaves Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
12h30 ALMOÇO
14h30 “Corte e Nobrezas:
uma monarquia entre dois continentes”
Prof. Doutor Nuno Monteiro
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
15h30 “O Marquês de Fronteira:
um aristocrata no Cabralismo”
Prof. ª Doutora Fátima Bonifácio
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
16h30 Pausa para café
16h45 “Domingos António Sequeira:
um pintor dos exílios”
Prof.ª Doutora Raquel Henriques da Silva
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Universidade Nova de Lisboa
17h45 “Música ao tempo de D. João VI”
Prof. Doutor Rui Vieira Nery
Departamento de Artes da Universidade de Évora
18h45 Lançamento do livro O Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança (1842-1843) – A «Bela Chica», pela Editora Alêtheia.
A obra será apresentada pelo Dr. José Alberto Ribeiro
Na ocasião do lançamento será servido um cocktail.
contactos:
Galeria de Pintura do Rei D. Luís, Palácio Nacional da Ajuda
1349-021 Lisboa
Telefones: 21 361 4340/44/46
Fax: 21 362 5641
galeria@ippar.pt
Almoço na esplanada do Restaurante Estufa Real (20€)
Jardim Botânico da Ajuda, Calçada da Ajuda
Inscrições prévias pelos telefones: 21 361 4340 / 21 361 4346
sábado, junho 10, 2006
Anjos, Mensageiros e Protectores
Peregrinação Nacional das Crianças a Fátima recorda os anjos, mensageiros e protectores
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Teve início há minutos, no Santuário de Fátima, a celebração Eucarística da Peregrinação Nacional das Crianças, presidida pelo Administrador Apostólico da Diocese de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva.
A peregrinação das crianças marca visualmente a diferença em relação a outras grandes celebrações. A presença de milhares de peregrinos a usarem camisolas, bonés e fitas de cores vivas, com mensagem que apelam à paz e a oração não é novidade no Santuário, contudo, a diferença, a 9 e 10 de Junho de cada ano, está em que nestes dias os peregrinos são crianças e jovens.
Desde ontem, dia 9 de Junho, que o Altar do Recinto está escondido por um painel gigante com o símbolo e o tema da peregrinação deste ano em que se celebra o 90.º aniversário da aparição do Anjo em Fátima – Não temais, sou o anjo da paz. A ilustração do painel, que mostra um anjo com as asas aberta sem sinal de protecção, é da autoria de Emília Nadal, artista e presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Na colunata do lado norte uma faixa horizontal branca inicia a oração que é terminada em outra faixa igual colocada na colunata sul “Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-vos”.
Duas outras faixas colocadas também em ambas as colunatas do Recinto do Santuário têm inscrito, no sentido vertical “Eu sou o anjo da guarda”, “O anjo de Portugal”.
Na noite de ontem, o Recinto do Santuário de Fátima mostrava esta particularidade da peregrinação das Crianças. Grandes grupos de meninos e meninas entraram no Santuário acompanhados pelos seus catequistas e educadores. Juntaram-se a eles outros grupos de crianças acompanhados de seus pais e também outros grupos de peregrinos adultos em peregrinação a Fátima.
Após a explicação do tema da peregrinação, as crianças foram convidadas a oferecer a flor que traziam para entregar Nossa Senhora em primeiro lugar ao amigo que se encontrava ao seu lado. Depois as flores foram recolhidas em açafates e levadas até junto da Imagem de Nossa Senhora, na Capelinha.
“Sabem que os anjos estão junto de Deus para colaborarem com Ele, cantam a sua glória, adoram-No, são seus mensageiros e guardam-nos a nós. Deus gosta tanto de nós que nos deu a cada um ano para nos guardar, para nos proteger, para nos guiar nos caminhos, para nos ajudar a ser felizes”, explicou o P. José Baptista, director do Serviço de Pastoral Litúrgica do Santuário.
Iniciada a oração do Rosário, foram recordados os momentos da vida da Sagrada família em que os anjos intervieram para anunciar a boa nova, como mensageiros de Deus. Dois ecrãs gigantes, colocados detrás da Capelinha das Aparições ilustravam cada momento de reflexão e de oração com imagens de anjos.
No final do terceiro mistério as crianças foram convidadas a seguir em procissão a Imagem da Virgem Peregrina de Nossa Senhora, que foi levada da Capelinha em direcção ao altar montado no Recinto, e a sentarem-se na escadaria.
A luz, símbolo de Cristo, marcou o momento seguinte. As crianças levantaram as velas acesas, o Santíssimo Sacramento foi trazido, descendo a escadaria, ladeado por archotes de luz levados por crianças, e uma luz forte incidiu sobre a custódia.
Assim que terminou a oração do Rosário, no Altar da peregrinação, um grupo de crianças do Colégio do Sagrado Coração de Maria apresentou uma encenação com a representação das três aparições do Anjo em Fátima a Francisco, Jacinta e Lúcia. Seguiu-se depois o tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento, em ambiente de recolhimento, apenas com a repetição pela assembleia das orações.
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Leopoldina Simões
10/06/2006
Santuário de Fátima
Copyright© Agência Ecclesia
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Teve início há minutos, no Santuário de Fátima, a celebração Eucarística da Peregrinação Nacional das Crianças, presidida pelo Administrador Apostólico da Diocese de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva.
A peregrinação das crianças marca visualmente a diferença em relação a outras grandes celebrações. A presença de milhares de peregrinos a usarem camisolas, bonés e fitas de cores vivas, com mensagem que apelam à paz e a oração não é novidade no Santuário, contudo, a diferença, a 9 e 10 de Junho de cada ano, está em que nestes dias os peregrinos são crianças e jovens.
Desde ontem, dia 9 de Junho, que o Altar do Recinto está escondido por um painel gigante com o símbolo e o tema da peregrinação deste ano em que se celebra o 90.º aniversário da aparição do Anjo em Fátima – Não temais, sou o anjo da paz. A ilustração do painel, que mostra um anjo com as asas aberta sem sinal de protecção, é da autoria de Emília Nadal, artista e presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Na colunata do lado norte uma faixa horizontal branca inicia a oração que é terminada em outra faixa igual colocada na colunata sul “Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-vos”.
Duas outras faixas colocadas também em ambas as colunatas do Recinto do Santuário têm inscrito, no sentido vertical “Eu sou o anjo da guarda”, “O anjo de Portugal”.
Na noite de ontem, o Recinto do Santuário de Fátima mostrava esta particularidade da peregrinação das Crianças. Grandes grupos de meninos e meninas entraram no Santuário acompanhados pelos seus catequistas e educadores. Juntaram-se a eles outros grupos de crianças acompanhados de seus pais e também outros grupos de peregrinos adultos em peregrinação a Fátima.
Após a explicação do tema da peregrinação, as crianças foram convidadas a oferecer a flor que traziam para entregar Nossa Senhora em primeiro lugar ao amigo que se encontrava ao seu lado. Depois as flores foram recolhidas em açafates e levadas até junto da Imagem de Nossa Senhora, na Capelinha.
“Sabem que os anjos estão junto de Deus para colaborarem com Ele, cantam a sua glória, adoram-No, são seus mensageiros e guardam-nos a nós. Deus gosta tanto de nós que nos deu a cada um ano para nos guardar, para nos proteger, para nos guiar nos caminhos, para nos ajudar a ser felizes”, explicou o P. José Baptista, director do Serviço de Pastoral Litúrgica do Santuário.
Iniciada a oração do Rosário, foram recordados os momentos da vida da Sagrada família em que os anjos intervieram para anunciar a boa nova, como mensageiros de Deus. Dois ecrãs gigantes, colocados detrás da Capelinha das Aparições ilustravam cada momento de reflexão e de oração com imagens de anjos.
No final do terceiro mistério as crianças foram convidadas a seguir em procissão a Imagem da Virgem Peregrina de Nossa Senhora, que foi levada da Capelinha em direcção ao altar montado no Recinto, e a sentarem-se na escadaria.
A luz, símbolo de Cristo, marcou o momento seguinte. As crianças levantaram as velas acesas, o Santíssimo Sacramento foi trazido, descendo a escadaria, ladeado por archotes de luz levados por crianças, e uma luz forte incidiu sobre a custódia.
Assim que terminou a oração do Rosário, no Altar da peregrinação, um grupo de crianças do Colégio do Sagrado Coração de Maria apresentou uma encenação com a representação das três aparições do Anjo em Fátima a Francisco, Jacinta e Lúcia. Seguiu-se depois o tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento, em ambiente de recolhimento, apenas com a repetição pela assembleia das orações.
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Leopoldina Simões
10/06/2006
Santuário de Fátima
Copyright© Agência Ecclesia
domingo, junho 04, 2006
Os soldados de Portugal
Por António Sampaio e Paulo Rego, da Agência Lusa.
Díli, 04 Jun (Lusa) - Centenas de timorenses receberam hoje com gritos efusivos, bandeiras e cachecóis de Portugal os 120 militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) que chegavam ao bairro Kuluhun, na entrada em Díli, capital de Timor-Leste, uma recepção que revela a confiança da população nos agentes portugueses.
Na ponte de Becora, jovens e velhos, os primeiros com bandeiras e gritos de Viva Portugal, os outros em palmas e animação, acolheram a coluna que partiu ao início da tarde de hoje de Baucau, 120 quilómetros a leste de Díli. À semelhança do que já tinha ocorrido na passagem por Manatuto e Metinaro, no caminho para a capital, também em Díli a população ladeava as ruas, saudando os militares.
Espantados, sem perceber o que se passava, seis soldados australianos, em patrulha na zona, param para ver a coluna passar e um deles, em dúvida, perguntou ao timorense mais próximo: "O que é isto?".
"São os soldados de Portugal", disse o jovem, em inglês.
Maria da Piedade, bebé ao colo, furou a multidão, e conseguiu aproximar-se o suficiente de um dos carros da coluna para entregar a um militar português um ramo de "bungha", uma flor rosa tradicional de Timor-Leste. E emocionada disse: "Estou muito alegre porque os soldados de Portugal estão agora em Díli. Agora vai haver paz".
De trás, mais flores caíam sobre as carrinhas da coluna, formada por viaturas da cooperação portuguesa, camiões de caixa aberta carregados com o equipamento da GNR e carros e motas de timorenses que se juntaram na entrada em Díli.
Díli, 04 Jun (Lusa) - Centenas de timorenses receberam hoje com gritos efusivos, bandeiras e cachecóis de Portugal os 120 militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) que chegavam ao bairro Kuluhun, na entrada em Díli, capital de Timor-Leste, uma recepção que revela a confiança da população nos agentes portugueses.
Na ponte de Becora, jovens e velhos, os primeiros com bandeiras e gritos de Viva Portugal, os outros em palmas e animação, acolheram a coluna que partiu ao início da tarde de hoje de Baucau, 120 quilómetros a leste de Díli. À semelhança do que já tinha ocorrido na passagem por Manatuto e Metinaro, no caminho para a capital, também em Díli a população ladeava as ruas, saudando os militares.
Espantados, sem perceber o que se passava, seis soldados australianos, em patrulha na zona, param para ver a coluna passar e um deles, em dúvida, perguntou ao timorense mais próximo: "O que é isto?".
"São os soldados de Portugal", disse o jovem, em inglês.
Maria da Piedade, bebé ao colo, furou a multidão, e conseguiu aproximar-se o suficiente de um dos carros da coluna para entregar a um militar português um ramo de "bungha", uma flor rosa tradicional de Timor-Leste. E emocionada disse: "Estou muito alegre porque os soldados de Portugal estão agora em Díli. Agora vai haver paz".
De trás, mais flores caíam sobre as carrinhas da coluna, formada por viaturas da cooperação portuguesa, camiões de caixa aberta carregados com o equipamento da GNR e carros e motas de timorenses que se juntaram na entrada em Díli.
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