quarta-feira, abril 19, 2006

OLHA BEM PARA ISTO, ROSA!

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

Há muitos anos atrás, passei uma Páscoa com a Rosa Ramalho no seu pequeno lugarejo perto de São Martinho de Galegos, a um tiro de Barcelos. Cumpria, honradamente, uma promessa que a barrista me tinha arrancado a ferros, porque esse era um tempo de juventude, de jornais, de viagens, de agenda cheia. Ficámos amigas, já nem sei desde quando, e a verdade é que morríamos uma pela outra.
Dias fascinantes aqueles, com o Minho a explodir em verdes tenros e flores, o céu azul, o sol esplendoroso. O que nós vadiámos por aquele Minho, com a Rosa sempre a parar para abraçar pessoas, de todas as camadas sociais, que lhe queriam bem, metidas em mercados e igrejinhas lindas de morrer, abancadas em lugares risonhos onde nos serviam cabrito assado com grelos salteados, ou papas de serrabulho, ou bacalhaus de antologia, tudo regado a verde tinto bebido por malgas de loiça. Porque a Rosa se me tinha queixado que andava em baixo, com “uma gastura no estâmado que tu nem queiras saber”, e eu levei-a ao médico que diagnosticou cansaço e receitou descanso, passeata, e “coma-lhe e beba-lhe, Tia Rosa”. Para encurtar razões, aviámos a receita.
Num dia em que regressámos da passeata, havia uma encomenda à espera da Rosa: pessoa de bom estatuto, em Viana do Castelo, pedia por tudo que lhe fizesse uma Última Ceia para levar de oferta no estrangeiro. Essas ceias feitas pela Rosa eram rectangulares, em barro verde, constando de uma mesa comprida, Jesus ao meio e os discípulos distribuídos à esquerda e à direita. À frente de Nosso Senhor, um prato com um peixe, um pão e um cálice. À frente dos outros, um pãozinho muito redondinho. A artista, que era pequenina, sentou-se num banquinho, frente a uma banca de trabalho, e ali ficou a modelar figura por figura, sempre a cantarolar. Eu, muda, extasiada, comovida, porque, para mim, o acto da criação artística é um momento em que se tocam os dedos de Deus e do artista. Mas quando a Rosa deu por terminado o trabalho, reparei que havia um discípulo sem pãozinho. Solícita, e estúpida, chamei a atenção da Rosa. E ela, a cravar em mim aqueles belos olhos negros cheios de força, espantou-se: “Tu julgas-me capaz de pôr pão ao filho da p. do Judas?”. Fiquei transida de admiração perante aquele desamor fundo como uma raíz, igualzinho ao de outro minhoto e querido amigo, o escritor Tomás de Figueiredo, de quem o David Mourão Ferreira às vezes me dizia “ah, que ódio aquele, tão saudável”. Agora parece que se diz tão assumido...
E não é que, nesta Páscoa de 2006, tem sido uma badalação mediática à escala planetária por causa de uns papiros datados de 400 anos após a morte de Cristo na cruz, segundo os quais Judas teria sido um sujeito óptimo e até parceiro de Jesus nisso de ajeitar factos às profecias? Tem sido uma algazarra, mesmo antes de se saber, de ciência certa, se vale a pena perder tempo com o achado.
Nunca pensei que o Judas tivesse tantos amigos dispostos a, mais uma vez, atacarem a Igreja. Olha bem para isto, Rosa!

domingo, abril 02, 2006

«Temos Rei: Dom Duarte de Bragança»

A revista Magazine publica no seu último número (nº 5, Abril de 2006) uma Grande Entrevista sob o título de capa "Temos Rei: Dom Duarte de Bragança".

No interior, o destaque vai para a seguinte frase de S. A. R.: "É preciso uma revolução cultural", mas Dom Duarte aborda também outros temas: vantagens de ter um rei no século XXI, a preparação dos príncipes, elementos do seu percurso biográfico -nascimento na embaixada portuguesa na Suiça, visitas clandestinas a Portugal, a sua passagem pelo Colégio Militar e pela Força Aérea, uma conversa com Salazar, a sua expulsão de Angola no tempo de Marcello Caetano, etc., etc. A não perder.

Está em linha, no lugar habitual...


Magazine Grande Informação, Abril 2006, pp. 16-27.

sábado, abril 01, 2006

Aquilo que Jesus não é

por C. S. Lewis


Deus deu à espécie humana aquilo que eu chamo bons sonhos: quero dizer, histórias piegas espalhadas pelas religiões pagãs acerca de um deus que morre e regressa à vida e, pela sua morte, de algum modo, dá vida nova ao homem. Ele também escolheu um povo particular e gastou vários séculos a martelar nas suas cabeças o tipo de Deus que Ele era - que Ele era Um e que Ele se preocupava com a boa conduta. Essa gente eram os Judeus e o Velho Testamento dá-nos conta do processo da martelada.

É aí que entra o verdadeiro choque. Entre estes Judeus, de repente há um homem que começa a falar como se Ele fosse Deus. Ele diz que perdoa os pecados. Ele diz que Ele existiu sempre. Ele diz que vem para julgar o mundo no fim dos tempos. Aqui tenhamos isto claro. Entre os Panteístas, como os Indianos, qualquer um pode dizer que é uma parte de Deus, ou um com Deus: isto não será nada estranho. Mas este homem, que era Judeu, não podia querer dizer que era esse tipo de Deus. Deus na língua daquela gente, significava o Ser fora do mundo que tinha feito o mundo e que era infinitamente diferente de qualquer outra coisa. E quando se percebe isto, pode-se ver como o que aquele homem dizia era, simplesmente, a coisa mais chocante alguma vez sussurrada por lábios humanos.

Uma parte da pretensão tende a passar ao nosso lado despercebida porque a ouvimos tantas vezes que já não sabemos de que se trata. Estou a falar da pretensão de perdoar os pecados: quaisquer pecados. A não ser que quem diz isto seja Deus, isto é tão prepóstero como cómico. Todos podemos compreender como um homem perdoa as ofensas contra si próprio. Pisas-me o dedo do pé e eu desculpo-te, roubas-me o dinheiro e eu desculpo-te.

Mas o que pensar de um homem, que não foi roubado ou pisado, que anunciou que te perdoou por ter pisado os dedos do pé de outro homem e roubado o dinheiro de outro homem? Fatuidade asinina é a descrição mais moderada que daríamos a esta conduta. Contudo, isto é o que Jesus fez. Ele disse às pessoas que os seus pecados estavam perdoados sem nunca ter esperado para consultar todas as outras pessoas a quem aqueles pecados tinham sem dúvida prejudicado. Ele comportava-se deliberadamente como se Ele fosse a principal parte interessada, a pessoa mais gravemente ofendida com todas as ofensas. Isto só faz sentido se Ele for realmente o Deus cujas leis são quebradas e cujo amor é ferido com cada pecado. Na boca de quem quer que não seja Deus estas palavras implicariam o que eu só consigo classificar como tontice e presunção nunca antes rivalizadas por qualquer personagem na história.

Porém (e isto é a coisa estranha e significativa) mesmo os Seus inimigos quando liam as Escrituras, não ficavam usualmente com a impressão de tontice e presunção. Ainda menos ficarão os leitores sem preconceito. Cristo diz que Ele é humilde e doce e nós acreditamo-lO, não reparando, que se Ele fosse meramente um homem, humildade e doçura são das últimas características que poderíamos atribuir a algumas das Suas palavras.

Estou a tentar aqui evitar que alguém diga a coisa realmente idiota que as pessoas dizem muitas vezes d'Ele: 'Estou pronto a aceitar Jesus como um grande mestre de moral, mas não aceito a Sua pretensão de ser Deus.' Esta é a coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse meramente homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre de moral. Seria ou um lunático - ao nível de um homem que diz que é um ovo escalfado - ou então seria o Diabo do Inferno.

Temos que fazer a nossa escolha. Ou este homem era, e é, o Filho de Deus ou então é um louco ou qualquer coisa pior. Pode-se ignorá-lo como um louco, pode-se cuspir-Lhe e matá-Lo como um demónio; ou pode-se cair a Seus pés e chamar-Lhe Deus e Senhor. Mas deixemo-nos de vir com disparates condescendentes acerca d'Ele ser um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa saída. Ele não fez tenções disso.

quinta-feira, março 23, 2006

23 de Março de 2006 - 10º Aniversário do Príncipe D. Afonso de Santa Maria

A Família Dinástica


por Mário Saraiva



Com a vinda a nós do Príncipe D. Afonso de Santa Maria, um inédito, resplendente e fixo clarão jubilosamente iluminou de confiante esperança quantos a aguardavam com fremente ansiedade e fé inabalável.

A multidão imensa, compacta, que no baptizado envolvia a Sé de Braga, estrondeante de entusiasmo, bradando "vivas", agitando bandeiras — flâmulas altas da Restauração — deram a imagem do sentir unânime e do querer do povo português. Digamos que, na ardência vibrante dos clamores, transparecia a vontade democrática dos portugueses.

Deixando para trás um espaço penoso de inquietação e de apreensiva expectativa, o nosso Príncipe veio dissipar as sombras dramáticas de dúvida e de incerteza que nos apoquentavam. Por enquanto no mínimo, eis que se completou a Família Real, sem a qual não teria todo o sentido o pensamento monárquico.

Li, algures num ilustre escritor (Augusto de Castro) que todavia não figura como monárquico, o eloquente comentário: — « O grande privilégio do princípio dinástico, essência da monarquia, é atribuir a uma família, na dignidade como nas grandes provas nacionais, a síntese e os atributos da suprema representação política que a História lhe confere.

A História e a fidelidade à sua missão


Em rigorosa verdade doutrinária o Rei é o chefe de Estado pela circunstancia de ser chefe da Família Dinástica. Isso o distancia do Presidente vitalício. Muito para além do Estado, existe a Nação com prerrogativas próprias, uma das quais é, necessariamente, a existência de uma chefia nacional. Não a pode exercer um Presidente, pela natureza partidária que a eleição incute.

Só pela sucessão dinástica se concebe o carácter nacional do poder. A diferença de representação entre o Rei e o Presidente está aí, cheia de consequências. Confronta-se entre o Presidente, indivíduo institucionalmente celibatário (pois que a sua família nada significa oficialmente) e a Dinastia cuja história é comum à Nação.

A distinção é evidente a qualquer mediana inteligência, como são visíveis as vantagens nacionais da Realeza. Mencioná-las seria desfiar um sem número de alegações, que perante a escabrosa e péssima política em que se afunda esta 3ª República, vão dia a dia adquirindo mais ingente importância. Num ponto, apenas, desejamos parar. Com um Presidente a República conta com um indivíduo apenas, improvisado em funções, partidário e sem significativos relacionamentos internacionais. Com a Dinastia, a República conta uma Família, toda ela especializada no ofício (Rei - Rainha, Príncipe, Infantes) e relacionados por laços de sangue com outras famílias reinantes. Num e noutro caso bem se vê que as possibilidades de servir a Pátria são incomparáveis. E todavia o superior préstimo da Família Real sai mais económico ao País.

De facto no continente europeu todas as Casas Reais se sustentam com votações orçamentais inferiores à votação atribuída à Presidência da República portuguesa.

No ponto de vista económico tenha-se ainda presente que as eleições periódicas à chefia do Estado tornam-se encargos muito pesados para o país que, por ser pobre, não pode dar-se ao luxo de gastar superfluamente em obediência a idealismos retrógrados.

Não seja esquecido que a regra da hereditariedade monárquica — digamo-lo sempre! — foi uma opção histórica em face dos prejuízos eleitoralistas verificados nas repúblicas primitivas. Da primeira fase de Presidências vitalícias, e dadas as perturbações, por vezes graves, da disputa à sucessão electiva passou-se à sucessão hereditária nas primeiras repúblicas.

A hereditariedade monárquica teve, assim, na origem republicana por emenda ao comprovado e nefasto erro dos repetidos actos eleitorais. Aliás a teoria votista de escolher entre todos os cidadãos "o melhor" é uma fantasia que já não ilude ninguém.

Concebe-se a eleição de "chefe" em nacionalidades em formação, ou em decadência. Não se concebe em nações antigas de uma forte expressão histórica, que cumpre respeitar. Está aí, clarividentemente, o lugar da Família Dinástica.



M. S.

[ Mário Saraiva ]



(In Consciência Nacional, nº 190, 25º Ano, Jun/Jul 1996, pp. 1-2.)

segunda-feira, março 20, 2006

São Francisco de Paula

São Francisco de Paula (27 de Março de 1416 - 2 de Abril de 1507) nasceu em Paola, na Calábria, Itália, e faleceu em Plessis-les-Tours.

Foi franciscano, fundador da Ordem dos Mínimos. Luís XI chamou-o para junto do seu leito de morte.

Eis um excerto de uma das cartas dirigidas por São Francisco de Paula a Simão Ximenes, português, de 1445 a 1462:

"Vossa santa geração será maravilhosa sobre a Terra, entre a qual virá um de vossos descendentes, que será como o sol entre as estrelas. (...) Reformará a Igreja de Deus. (...) Fará o domínio do mundo temporal e espiritual, e regerá a Igreja de Deus. (...) ...se vai aproximando a hora, em que a Divina Majestade visitará o mundo com a "Nova Religião dos Santos Crucíferos"... (...)... purificará a Humanidade, convertendo todos à lei de Deus; será fundador do reino universal de Deus na terra ou da Nova Religião, em que todos adorarão o Verdadeiro Deus. (...)

Na última carta, referindo-se ao Imperador universal, que vaticina será português, diz que será "fundador de uma religião como nunca houve."


In No Claro-Escuro das Profecias, de Ferreira Gomes.


A Comunidade de Paola, na Calábria, está a preparar a celebração do V Centenário da sua morte:

http://www.sanfrancescodipaola.calabria.it/


FRANCESCO D'ALESSIO:

(S.Francesco), nacque il 27 marzo 1416 e mori a Tour (Francia) il 2 aprile 1507. Visse vita eremitica praticamente sino alla morte. Ritiratosi a 14 anni in una grotta a nord di Paola, in prossimità del torrente Isca, ne uscì all'età di 19 per riunire i primi seguaci. Nella zona dei luoghi di penitenza costruì il primo convento dove la gente si recava da ogni parte per ricevere da lui il miracolo e per sentirne la parola di conforto. Fondatore dell'Ordine dei Minimi, caratterizzò la propria Famiglia religiosa con l'osservanza del voto quaresimale, secondo cui i frati non avrebbero dovuto mangiare la carne e i suoi derivati. L'uomo di Dio fu un gigante di spiritualità che riuscì a trasmettere anche nella Regola dettata per i suoi confratelli. Sostenitore e difensore dei deboli e degli oppressi, costituì un ostacolo di fatto al potere regio del tempo incarnato da Ferrante 1 D'Aragona. Essendo giunta la sua fama di miracolatore sino in Francia, il Re Luigi XI, sofferente e superstizioso, lo volle presso di sé, tramite il Papa Sisto IV, per ottenere la guarigione; cosa che il Frate non operò, perché si limitò ad assistere il Monarca a morire cristianamente. Francesco rimase, comunque, in Francia anche dopo la morte del Re e divenne, pur vivendo da eremita fuori dalla Corte, il consigliere della Dinastia reale. Il suo Ordine si diffuse quasi in tutta Europa, ed in particolare, in Italia, Francia, Germania e Spagna.

http://www.comune.paola.cs.it/master.php?pagina=illustri&illustri=lista&header=citta&menu_sx=citta&smenu=storia

quarta-feira, março 15, 2006

I ENCONTROS AÇORIANOS DA LUSOFONIA

5-7 Maio 2006

AÇORES: a insularidade e o isolamento, factores de preservação da língua portuguesa no mundo

I ENCONTROS AÇORIANOS DA LUSOFONIA 2006 com o apoio da Câmara Municipal da Ribeira Grande
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Centro Cultural Salão-Teatro Ribeira-grandense - Ribeira Grande, S. Miguel, Açores integrado nas celebraçoes do 6 aniversário da re-inauguração do Salão-Teatro

Quando em 2001 preparamos o início dos COLÓQUIOS ANUAIS da LUSOFONIA - sob a égide do nosso patrono EMBAIXADOR PROFESSOR DOUTOR JOSÉ AUGUSTO SEABRA - queríamos provar que era possível descentralizar a realização destes eventos e que era possível realizá-los sem sermos subsídio-dependentes. O ponto de partida foi a descentralização da discussão da língua portuguesa e as problemáticas da língua portuguesa no mundo. De 2002 em diante os Colóquios realizaram-se em Bragança, ainda na base da descentralização, mas sobretudo devido à insularidade em termos culturais. Portugal, como toda a gente sabe, é um país macrocéfalo; existe Lisboa e o resto continua a ser paisagem. É muito raro os locais do interior, os locais mais remotos como Bragança, poderem ter acesso a debates de considerável importância sobre o futuro da língua. Estes colóquios são a única coisa que se tem feito concreta e regularmente em Portugal nos últimos cinco anos sobre esta temática. Os Colóquios são independentes de quaisquer forças políticas ou institucionais e asseguram essa sua “independência” através das inscrições dos participantes contando com o apoio, ao nível logístico, da autarquia que fez a sua aposta cultural na divulgação e realização deste importante evento anual.

Agora vamos tentar criar um ponto de encontro anual para debater os problemas típicos da identidade açoriana no contexto da Lusofonia. Pretendemos trazer a este fórum escritores expatriados nas Américas e no Resto do Mundo para conjuntamente com os que vivem nestas nove ilhas possam falar da identidade açoriana, da sua escrita, das suas lendas e tradições. Iremos aprender e estudar a influência que os factores da insularidade e do isolamento tiveram na preservação do carácter açoriano nos quatro cantos do mundo. Iremos descobrir que factores exógenos e endógenos permeiam essa açorianidade lusófona.

A intenção destes encontros visa proporcionar um local permanente de debate de ideias e de experiências entre os açorianos residentes, os açorianos expatriados e todos aqueles que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística e à história dos Açores. O desconhecimento a nível do Continente da realidade insular combate-se levando a cabo iniciativas como esta. Estes Encontros visam igualmente divulgar o nome dos Açores e a sua presença no seio de uma Lusofonia alargada com mais de duzentos milhões de lusofalante, deste modo aproximando povos e culturas no seio da grande nação dos lusofalantes, independentemente da sua nacionalidade ou ponto de residência, unidos pelo falarmos todos uma mesma língua.
Por outro lado, a componente lúdica destes Colóquios pretende induzir uma confraternização cordial, aberta, franca e informal entre oradores e participantes presenciais, em que do convívio sairão reforçados os elos entre as pessoas, que se poderão manter a nível pessoal e profissional. Os participantes poderão trocar impressões, falar de projectos, partilhar ideias e metodologias, fazer conhecer as suas vivências e pontos de vista, mesmo fora do ambiente mais formal dos Encontros.
Quanto ao futuro da língua portuguesa no mundo, peça chave da linha multicultural da nossa visão duma Lusofonia alargada e abrangente, não hesito em afirmar que “de momento está salvaguardado através do seu enriquecimento pelas línguas autóctones e pelos crioulos, que têm o português como língua de partida. Enquanto a maior parte das línguas tende a desaparecer visto que não há influências novas, o português revela nalguns locais do mundo uma vitalidade fora do normal. A miscigenação com os crioulos e com os idiomas locais vai permitir o desenvolvimento desses crioulos e a preservação do português”. Por isso “não devemos ter medo do futuro do português no mundo porque ele vai continuar a ser falado, e a crescer nos restantes países”.
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I: TEMAS

Para 2006 o tema central destes I ENCONTROS AÇORIANOS DA LUSOFONIA é: a insularidade e o isolamento factores de preservação da língua portuguesa no mundo

Tema 1: Tradições açorianas

Tema 2: Açorianos no mundo

2.1. Identidade açoriana, uma matriz de insularidade
2.2. Escrita açoriana. Tendências e projecção
2.3. O carácter açoriano nos quatro cantos do mundo. Factores exógenos e endógenos que permeiam essa açorianidade lusófona

Tema 3: Outros Temas (ex.º Tradução / Contos Infantis/ Ensino, etc.)

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II: PRAZOS DE INSCRIÇÃO E PAGAMENTO

1. INSCRIÇÕES - DATAS LIMITES

2.1. Data limite de envio de propostas de trabalho a apresentar 30 Março 2006
2.2. Comunicação de aceitação de oradores: 15 Abril 2006
2.3. Data limite de recepção de trabalhos finais pronto para publicação 30 Abril 2006

2. PAGAMENTO:

2.1. ORADORES COM COMUNICAÇÃO, dentro dos prazos € 20.00
2.2. ORADORES COM COMUNICAÇÃO, fora dos prazos € 30.00
2.3. PRESENCIAIS MADRUGADORES (PARTICIPANTES sem comunicação) Pagamento até 15 ABRIL 2006 € 15.00

2.4. PRESENCIAIS RETARDATÁRIOS (PARTICIPANTES sem comunicação) Pagamento após 15 ABRIL 2006: € 20.00

2.5. Estudantes da Universidade dos Açores (com comprovativo) € 10.00
3. PAGAMENTO POR DEPÓSITO DIRECTO:
Nome da conta: COLÓQUIO ANUAL DA LUSOFONIA
BANCO: Banco BPI (Agência do Monte dos Burgos, Porto, Portugal)
Endereço Banco: Rua Monte dos Burgos 1111/1119; 4250-320 PORTO
Fax do Banco: (+351) 22 8315225
Telefone do Banco: (+351) 808200510

Conta de depósito n.º #9-2738093.000.002

# NIB 0010 0000 27380930002 42
# IBAN (International Bank Account Number): PT 50 0010 0000 2738 0930 0024 2
SWIFT CODE: BBPIPTPL

N.B. Se não quiser ou não puder efectuar o seu pagamento num Multibanco/Caixa Automática/Banco e efectuar pagamentos por cheque deve acrescentar € 5.00 para despesas de processamento

Enviar por correio electrónico Ficha de Inscrição+ Comprovativo de pagamento, para lusofoniazores@sapo.pt

Na internet: http://LUSOFONIAZORES2006.com.sapo.pt

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III. COMISSÕES
COMISSÃO ORGANIZADORA

• Ricardo José Moniz da Silva, Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande
• Dra. Catarina Albergaria, Adjunta Para A Cultura E Assuntos Sociais, C.M. Ribeira Grande
• Dr. Mário Moura, Director da Casa da Cultura da C.M. Ribeira Grande
• Dr Chrys Chrystello (MA)

COMISSÃO CIENTÍFICA
• Professora Doutora Graça Castanho (Universidade Dos Açores)
• Professor Daniel De Sá
• Dr Sá Couto (Escola Secundária Gb Antero De Quental)
• Professor Doutor Luciano José Dos Santos Baptista Pereira (Vice-Presidente Do Conselho Directivo, Escola Superior De Educação De Setúbal, Instituto Politécnico De Setúbal)
• Dr Chrys Chrystello (MA)
• Dra. Helena Chrystello (Mestre) Escola EB1 Maia (S. Miguel, Açores)
• Dr. João Caravaca, Universidade Católica (Porto), Escola EB Nordeste (S. Miguel, Açores)

COMISSÃO EXECUTIVA
Presidente - Dr CHRYS CHRYSTELLO (MA)
Vogais
• Dra Catarina Albergaria, Adjunta Para A Cultura E Assuntos Sociais, Cm Ribeira Grande
• Professora Doutora Graça Castanho (Universidade Dos Açores)
• Dr Manuel Sá Couto (Escola Secundária Gb Antero De Quental)
• Dra. Helena Chrystello, (Mestre) Escola EB1 Maia (S. Miguel, Açores)

SECRETARIADO E APOIO LOGÍSTICO
PRESIDIDO POR HELENA CHRYSTELLO COM O APOIO DA DIVISÃO DE CULTURA DA CMRG e do DR. MÁRIO MOURA DA CASA DA CULTURA DA C.M. DA RIBEIRA GRANDE


IV. - INSTRUÇÕES PARA PUBLICAÇÃO

1. Importante: Deve enviar o trabalho completo a apresentar/publicar por correio electrónico (ou em disquete/CD) para o Comité Científico/Secretariado dentro das datas indicadas, no caso de pretender que seja incluído nas ACTAS/CD. Caso os trabalhos não sejam recebidos dentro das datas indicadas, o Comité não garante a sua publicação nas Actas/CD do Colóquio.

2. Formato: Microsoft Word (97, 2000, XP, ou MSWord 2003)
3. Tipo de letra (Font): ARIAL 9
4. Número de páginas: Máximo 10 páginas (espaçamento 1.5) incluindo notas de rodapé e de fim e gráficos.
5. Título: letras maiúsculas, tipo negrito; não centrar.
6. Autor(es): letras maiúsculas, incluir nome que quer ver utilizado,
7. Instituição Ensino/Trabalho: espaçamento simples entre o nome do autor e o da instituição; não centrar.
8. Sinopse: Deve seguir-se ao cabeçalho em itálico. Máximo de 300 palavras. Deve ser escrita em Português.
9. Subtítulos: letras negrito; não centrar. Use algarismos árabes com decimais.
10. Outras divisões: negrito; não centrar. Use algarismos árabes com decimais.
11. Citações e referências: autor, data de publicação, vírgula e número(s) de página(s): i.e. como Sager afirma (1998:70-71) ARIAL tamanho 8

Referências Bibliográficas:

• Livro: Melby, Alan K. (1995) The Possibility of Language, Amsterdam: John Benjamin's.
• Artigo sobre livros: Bessé, Bruno. (1997) ‘Terminological Definitions’. In Sue Ellen Wright and Gerhard Budin (eds.) Handbook of Terminology Management. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamin's Publishing Company.
• Artigos de jornal/revista: Corbeil, Jean-Claude (1991) "Terminologie et banques de données d'information scientifique et technique" in Meta Vol. 36-1, 128-134.
• Internet: Pym, A (1999) ‘Training Translators and European Unification: A Model of the Market’ in ‘Translation Theory and practice' - seminars organised by the Translation Service of the EC. Disponível em http://europa.eu.int/comm/translation/theory/gambier.htm

Notas: incluídas no fim do texto.

Gráficos e tabelas: numeradas consecutivamente. Deve ser feita menção ao seu título no texto.
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V. ACTIVIDADES PARALELAS:

1. ARTES (Coordenação da Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Ribeira Grande)
MOSTRA de AUTORES AÇORIANOS: DE LIVROS, ARTESANATO E MÚSICA
2. COMPONENTE LÚDICA (Coordenação da Divisão de Cultura da Câmara Municipal da Ribeira Grande)
Roteiro turístico da Ribeira Grande (S. Miguel, Açores). Visita a locais de relevo: as fábricas de chá, as praias e os montes, caldeiras da Ribeira Grande

VI: HORÁRIO DAS SESSÕES

DIA 5 MAIO 2006 (6ª Fª) TEMA 1. TRADIÇÕES E EXPATRIADOS
09.30 REGISTO DE PRESENÇAS
10.00 CERIMÓNIA OFICIAL DE ABERTURA DOS TRABALHOS com a presença do Presidente da Câmara Municipal Da Ribeira Grande e entidades convidadas
Sessão 1
10.30 Orador 1
11.15 Orador 2
12.00 Orador 3
12.45 DEBATE
13.15 PAUSA PARA ALMOÇO
15.30 VIAGEM turística na ilha de S. Miguel
19.30 FIM DAS ACTIVIDADES LÚDICAS
DIA 6 MAIO 2006 (SÁBADO) TEMA 2. AÇORIANOS NO MUNDO
09.30 REGISTO DE PRESENÇAS
Sessão 2
10.15 Orador 4
11.00 Orador 5
11.45 Orador 6
12.15 DEBATE
12.45 PAUSA PARA ALMOÇO
15.30 VIAGEM turística na ilha de S. Miguel
19.30 FIM DAS ACTIVIDADES LÚDICAS
DIA 7 MAIO 2006 (DOMINGO) TEMA 2. AÇORIANOS NO MUNDO
09.30 REGISTO DE PRESENÇAS
Sessão 3
10.00 Orador 7
10.45 Orador 8
11.15 Orador 9
12.00 DEBATE
12.30 PAUSA PARA ALMOÇO
Sessão 4
15.00 Orador 10
15.45 Orador 11
16.15 Orador 12
17.00 DEBATE FINAL.
18.00 Encerramento das sessões com a presença do Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande e entidades convidadas


contacto. [lusofoniazores@sapo.pt ]

TODOS OS CONTACTOS relativos aos ENCONTROS DEVEM SER DIRIGIDOS A

ENCONTROS AÇORIANOS DA LUSOFONIA,
Presidente da Comissão Executiva
J. CHRYS CHRYSTELLO

Telefone: (351) 296 446940
Telemóvel: (+ 351) 91 9287816 / 91 6755675
E-fax (E-mail fax): + (00) 1 630 563 1902
E-mail: lusofoniazores@sapo.pt

Página da internet: http://LUSOFONIAZORES2006.com.sapo.pt

Local do colóquio: Centro Cultural Salão-Teatro Ribeira-grandense – 5-7 Maio 2006

terça-feira, março 14, 2006

Religiões, guerra e paz

José Manuel Barroso

Jornalista


Duas notícias recentes dão nota da importante questão das religiões no mundo contemporâneo - algo que, afinal, é apenas uma transposição para a actualidade do que se passou ao longo da história da humanidade. A primeira notícia, mais antiga, refere o envolvimento dos serviços secretos da então União Soviética, o KGB, na tentativa de assassínio do Papa João Paulo II. Outra, de há dias, dá conta do apelo do Papa Bento XVI para que África seja uma prioridade para a Igreja Católica europeia. Se a isto juntarmos as questões referentes ao islamismo e ao mundo ocidental e cristão, tão na ordem do dia, constamos quanto a complexa teia feita de religião, sociedade e História se faz e refaz. E de quanto a força das religiões está presente, mesmo num mundo onde uma nova religião - a do laicismo (que não é igual a sociedade laica) e dos seus valores do "politicamente correcto" - tende a impor-se ao cristianismo, nas sociedades democráticas ocidentais.
Nada espanta na questão da falhada tentativa de matar João Paulo II através dos serviços secretos búlgaros, a mando do KGB. Na sua tradicional visão do mundo, baseada na relação de forças e de poder, os comunistas entenderam, como ninguém, quanto a eleição de um Papa polaco - o mais católico dos países do bloco comunista - representava um perigo real para o futuro do império soviético. A antena polaca do KGB descreveu, então, a Moscovo os perigos dessa eleição. E, depois da queda do Muro de Berlim, o Presidente soviético Gorbachev confirmou-o, ao afirmar que "tudo o que aconteceu nos países do Leste europeu, nestes últimos anos [anos 80], teria sido impossível sem a eleição deste Papa". O desaparecimento do homem que, mais do que qualquer outro, contribuiu para a queda do totalitarismo comunista era necessário, para os assassinos, porque ele era um líder religioso e porque essa religião, o catolicismo, era capaz de movimentar consciências e massas. Tal como hoje, massas e consciências são movimentadas pelos líderes radicais do islamismo, na luta contra os valores do Ocidente democrata e cristão.
O apelo de Bento XVI, quanto à importância de África para a Europa e para o Ocidente, inscreve-se nesta grande luta de religiões e de civilizações e não é novo, como raciocínio lógico e político. Lenine defendia que o cerco à Europa passava por África. O último grande czar comunista, Brejnev, entendeu-o bem, avançando para o domínio do Continente Negro nos anos 60 e 70. Quando perdeu a Guerra Fria para o Ocidente, a União Soviética perdeu também os territórios onde exercia já profunda influência - e, entre eles, os do ex-império português. Só isso, de resto, permitiu o rápido processo de reconciliação e de democratização na África do Sul.
Mas a grande verdade - independentemente da colonização e da missionação - é que a África próxima dos valores do Ocidente é a que resulta dos avanços do cristianismo (e, mais ainda, do catolicismo, que tem, sobre as restantes religiões de raiz cristã, a vantagem de se inscrever numa Igreja hierarquizada, força centrípeta e não centrífuga, em termos nacionais).
Ora a mensagem de Bento XVI tem tudo a ver com essa relação Ocidente-África e com a actual luta de civilizações, entre os valores do cristianismo e os do islamismo. O avanço do islamismo na África a sul do Sara é enorme. Apoiados por países islâmicos, os missionários da religião de Maomé instalam-se cada vez mais nas regiões urbanas e mais pobres das grandes urbes africanas, procurando novos adeptos e, decerto, novos guerreiros. Um dos exemplos mais recentes - e mais "nosso" - é o do que se vai passando em Angola e, nomeadamente, em Luanda, onde a preocupação, não publicamente confessada, das autoridades cresce, face ao avanço da doutrinação nos musseques da capital.
Independentemente do posicionamento de cada um perante a religião, é incontestável que a raiz dos valores essenciais das nossas sociedades tem a ver com o cristianismo. A luta da Europa pelos seus valores - o que não significa guerra de civilizações, mas não impede choque de civilizações - é vital para a manutenção desses valores. Incluindo os da sociedade laica, só presentes nas sociedades de raiz cristã. A arquitectura cultural, social, jurídica e política do nosso mundo baseia-se neste legado.
Missionar África, no sentido moderno do termo, o qual inclui mais do que mera difusão de religiões, é um objectivo tão actual hoje como o foi ontem. Bento XVI tem razão. Sem isso, a Europa será cercada. Não pelo leninismo, mas pelo fundamentalismo islâmico. Bento XVI, como João Paulo II, vê mais longe. Quer queiramos quer não, a religião e a Igreja continuam a ser muito mais importantes do que se pensa.


In Diário de Notícias, 14 de Março de 2006

http://dn.sapo.pt/2006/03/14/opiniao/religioes_guerra_e_paz.html

segunda-feira, março 06, 2006

O respeito pelo sagrado

é algo que a cultura não pode pôr em questão

Patriarca de Lisboa, na homilia de Quarta-feira de Cinzas

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"A Quaresma é, para a Igreja, um tempo de verdade e de graça"

Homilia de Quarta-Feira de Cinzas

Sé Patriarcal, 1 de Março de 2006

1. Iniciamos, hoje, mais uma Quaresma, a primeira depois daqueles dias tão belos e tão repletos de um novo entusiasmo, que foi o Congresso para a Nova Evangelização. Para mim, como cristão e como vosso Bispo, este é um tempo de esperança e de temor. A esperança de que seja um tempo de renovação espiritual para a nossa Igreja diocesana, tempo de conversão e de fidelidade, tornando-a mais profundamente Povo do Senhor. Mas o receio de que seja apenas mais uma Quaresma, que corre veloz com a velocidade do tempo, sem pararmos para confrontar toda a nossa vida com Deus e com a Páscoa do Seu Filho Jesus Cristo. Receio que a Páscoa nos surpreenda na rotina da nossa vida. Que não tomemos a sério a advertência do Apóstolo Paulo: "Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação" (2Cor. 6,2).
Que significado tem a Quaresma no contexto da nossa sociedade contemporânea, onde muitos não acreditam em Deus, onde, mesmo muitos cristãos, não cultivam a fé como relação viva e confiante com Ele, onde a Sua Palavra não é luz que ilumina a vida, onde a Sua Lei não interpela a liberdade, onde a doutrina da Igreja é pura sugestão? A Quaresma é, para a Igreja, um momento de verdade, de se assumir como "resto fiel", Povo que o Senhor escolheu e conduz. É tempo para assumirmos corajosamente a nossa diferença, no mundo em que vivemos: diferença na fé, nas motivações e nos critérios. É tempo de penetrar no desígnio de Deus a nosso respeito, de percebermos que Ele tem uma vontade para o Seu Povo, onde revela os caminhos da vida e que nos fortalece, com o Seu Espírito, para os podermos percorrer. Tomemos consciência de que a Quaresma tem de ser, para nós, tempo de discernimento e de fidelidade.

2. A primeira interpelação da Quaresma é a de tomarmos Deus mais a sério. É o grito, em tom dramático, do Profeta Joel: "Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração, não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor vosso Deus" (Jl. 2,12-13). E São Paulo, em tom igualmente sério, escreve aos Coríntios: "Nós vos pedimos, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus" (2Cor. 5,20). Se nós, os cristãos, não acolhemos estes apelos, quem os há-de ouvir?
Este é o maior problema espiritual, com consequências morais, da nossa cultura contemporânea: relativizou-se Deus. Está na moda fazer profissão de fé de agnosticismo; o homem, considerado como individuo e não como pessoa, necessariamente comprometido com uma comunidade, tornou-se o único critério de verdade e de discernimento ético; Deus deixou de ter lugar na história. Apesar do apregoado respeito pelas religiões e pela fé de quem acredita, alguns não hesitam em brincar com o sagrado; chegou-se mesmo a apregoar, em nome da liberdade, o direito à blasfémia. Fiquem sabendo que para nós que buscamos o rosto de Deus e procuramos viver a vida em diálogo com Ele, isso nos indigna e magoa, porque temos gravado no nosso coração aquele mandamento primordial: "não invocarás o Santo Nome de Deus em vão". Como afirmou um prestigiado colunista, que aliás se confessa descrente, com o sagrado não se brinca. O respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade. A todos esses que sentem não acreditar em Deus, eu digo em nome do povo crente: a vossa dificuldade em acreditar em Deus, não toca na realidade insofismável de Deus. Nós respeitamos a vossa descrença, e não hesitamos em dar-vos as mãos em todas as lutas pelo bem e por causas justas. Mas respeitai a nossa fé, mesmo no exercício da vossa liberdade; sobretudo respeitai Deus em quem acreditamos.
Mas o grande desafio da Palavra da Eucaristia é dirigido a nós, os crentes: convertei-vos ao Senhor, nosso Deus, tomai Deus mais a sério, como o fez Jesus Cristo, que em solidariedade com toda a humanidade, obedeceu a Deus, Seu Pai, até à morte e morte na Cruz.
A primeira manifestação desse "tomar Deus a sério", é redescobrir a Sua Lei, a santa Lei de Deus. Ele tem uma vontade a nosso respeito, que é um desígnio de amor, que nos revela pela Sua Palavra. A Lei de Deus é revelação e chamamento e o exercício da nossa liberdade só pode ser uma obediência a essa Palavra. Esse caminho de obediência é difícil e exigente, mas é possível com a força do Seu amor. Só Deus torna possível a nossa fidelidade, vivendo a vida segundo a Sua vontade, percorrendo os caminhos do Seu desígnio.
Isto exige de nós, os cristãos, que completemos a lógica da natureza com a lógica da graça. Com que facilidade deixamos reduzir o nosso ideal de vida à ordem natural, contentando-nos com o que a natureza oferece. Os dons da Natureza são apenas o anúncio de uma plenitude definitiva, que é como uma segunda criação, um "nascer de novo", cujo horizonte de plenitude ultrapassa a felicidade que naturalmente podemos desejar e realizar. E esse novo horizonte de vida é-nos revelado por Deus, em Jesus Cristo, que o inaugurou na Sua Páscoa, tornando-se as "primícias" do homem futuro e do futuro do homem.
Este horizonte da graça não anula a natureza, antes a liberta do risco de ficar prisioneira da sua finitude e fragilidade e revela-lhe o esplendor da árvore de que ela é apenas a semente.
A Quaresma é um tempo em que somos chamados a viver ao ritmo da graça, recorrendo a todas as ajudas que, para isso, Deus nos dá, por Jesus Cristo, através da força sacramental da Igreja. Não tenhamos ilusões: muitas das fragilidades dos cristãos devem-se ao facto de reduzirem a sua vida à ordem da natureza, esquecendo que a rectidão natural, mesmo que se consiga, não é ainda a santidade.

3. Este naturalismo como perspectiva de vida é a principal causa e, porventura, expressão dos nossos pecados. É assim no amor, na busca da verdade que inspira os critérios morais e o sentido da vida; é assim num individualismo autista, que nos corta da densidade de corresponsabilidade com os outros; é assim na ganância e na indisponibilidade para a partilha; é assim na busca do rosto de Deus, glorificando-o com a nossa vida e experimentando a comunhão com Ele na oração.
A Quaresma contém uma forte interpelação à conversão, o que significa aceitar os nossos pecados e a confiança na misericórdia transformadora de Deus. Não tenhamos ilusões, irmãos: somos todos pecadores e talvez o nosso principal drama seja o já não identificarmos os nossos pecados, no concreto da nossa vida. E essa situação só mudará, se nos convertermos ao Deus Vivo e voltarmos a amar a Sua Lei. A conversão é uma experiência de realismo e de confiança: realismo de quem reconhece o seu pecado, confiança na infinita misericórdia de Deus: "Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete" (Jl. 2,13).

4. A caminhada da Quaresma não pode ser só individual. Os caminhos da conversão devem ser percorridos em Igreja e pela Igreja. A conversão do Seu Povo é o grande desejo de Deus, pois só isso não tornará inútil a morte de Jesus Cristo. A expressão comunitária tem de envolver e fortalecer a caminhada individual. Ouçamos o apelo do Profeta e demos-lhe concretização nos caminhos da Igreja: "Tocai a trombeta sagrada. Reuni o Povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças" (Jl. 2,15-16).
Tenho esperança que a Igreja de Lisboa, dinamizada para a missão, viva profundamente esta Quaresma, como caminho de conversão e de graça. Quero fazer esta caminhada convosco, rezo por vós.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

QUE REGIME É ESTE?

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


No princípio foi um golpe militar que, em pouco tempo, ficou na posse de um grupo de políticos civis. Estes, despudorados e enlouquecidos pelo poder, instalaram uma ditadura dos partidos. Foi assim que o país entrou numa guerra mundial que ceifou milhares de jovens portugueses, que deixou estropiados e gaseados outros milhares. O pão escasseava na mesa do povo. O desemprego era em massa. Os governos instalavam-se e caíam num rodopio. Padres e religiosos foram presos, enxovalhados, expulsos. Os bens da Igreja eram transformados em negócios de meia dúzia (dali a pouco tempo os bolchevistas haviam de fazer o mesmo na Rússia). Os opositores eram mortos ou partiam para o degredo. Os barcos levavam milhares de homens para a emigração, já que camponeses e operários estavam reduzidos à miséria. A liberdade de expressão existia para insultos, calúnias e outras perfídias, por parte dos jornais seguidistas dos governos, ao passo que os independentes eram atacados à bomba. Havia revoltas e tiros todos os dias. A dívida pública era medonha. O descrédito internacional do país, era um facto. O ultramar, semi-abandonado, era inundado por “professores laicos”, de garantido servilismo ao regime, enquanto que eram expulsos os missionários e destruída a sua obra de muitas dezenas de anos.
Outro golpe militar destronou o anterior. Em pouco tempo, transformou-se numa ditadura civil de direita, ao gosto do que se passava na Itália, Alemanha e Espanha. Ditadura respaldada por forças armadas despromovidas por um pretorianismo funesto, por uma hierarquia católica de vistas curtas, por uma élite empresarial sem rasgo e avessa ao risco, por uma polícia política boçal e poderosa. Respaldada, até, a ditadura, por uma oposição que levou anos a escrever cartas e manifestos, ao mesmo tempo que tomava o poder na área da cultura, com o que fez uma ditadura paralela à governamental, uma oposição burguesa, instalada, na maior parte dos casos orquestrada pelos interesses internacionais. Por ausência de diálogo e de planificação progressista, os cofres públicos encheram-se, o ultramar tornou-se vulnerável, a economia era coutada de meia dúzia de famílias, no ensino era a paz podre, a guerra colonial aconteceu, a emigração em massa foi um facto. Quando a ditadura apanhou com um ramo de cravos pela cara, caíu de costas, desamparada, já que tinha contra si a esmagadora maioria da população.
Novo golpe militar tomou o poder para logo, por inépcia, dar origem a uma curta mas inesquecível ditadura pró-comunista. Inesquecível pela brutalidade, pela incompetência, pelo abuso, pelo desrespeito aos direitos do homem, pela sanha persecutória e até pela mais alarve falta de educação. Durou o tempo necessário e suficiente para se entregar o ultramar inteiro a grupos que garantissem, mano a mano, a fidelidade à então União Soviética e às multinacionais de rapina. Cerca de um milhão de pessoas, desmunidas de tudo, rumou ao exílio. Centenas de milhar de mortos empaparam de sangue as antigas colónias, trazendo para o terreno a fome crónica, as doenças já erradicadas, o tribalismo cego e desenfreado. Ao mesmo tempo, procedeu-se à nacionalização de tudo quando parecia aos novos senhores luzir de opulência. A emigração voltou a ser um facto. O ensino ficou de rastos, graças a aventureiros que dele fizeram trampolim político, um ano atrás do outro, até se chegar ao pormenor de tirar as cruzes das escolas, enquanto que, no tão falado império da Língua Portuguesa, se trabalhava em faz de conta, promovendo compinchas incompetentes, proporcionando a muitos reformas escandalosamente fraudulentas, espezinhando ou ignorando aqueles que, em silenciosa coragem, tudo faziam para salvar do naufrágio, nas comunidades, a língua de Camões.
De inépcia em inépcia, de compadrio em compadrio, o desemprego tornou-se crónico, a produtividade quase nula, a habitação uma agonia para quem tem os bancos à perna por dezenas de anos, a saúde um total descalabro. Ganhou-se em corrupção e roubalheira o que se perdeu em moral e dignidade colectivas. A emigração voltou a acelerar. O descrédito da coisa pública é completo, indo de alto a baixo na hierarquia do regime, para o que muito tem contribuído uma justiça que nem ao de leve incomoda os criminosos. A completa desmoralizção do povo é um facto, graças a uma política de constante circo, ampliada pelas facécias dos cómicos do regime, mancomunados com os fregueses das revistas do chamado jet set. Ninguém acredita em nada.
Que regime é este? É aquele que saíu inteirinho do crime cobarde cometido, na rua do Arsebal, nas pessoas do Rei e do Príncipe herdeiro. Aquele a que Eça de Queiroz chamava “balbúrdia sanguinolenta”, aquele que a essa dívida de sangue juntou as dívidas de todos os crimes posteriormente cometidos. É a República Portuguesa. Ou à portuguesa.

sábado, fevereiro 18, 2006

Guerras «religiosas», não obrigado!

Por Jaime Nogueira Pinto

Os que temos fé - e aqueles que não a tendo, têm o sentido do sagrado e do respeito pelo sagrado dos que estão connosco nesta «civitas», que é o mundo - não nos podemos deixar, como nos Balcãs, arrastar para uma guerra «religiosa», provocada e chefiada por ateus!


UM tempo «pós-moderno» que quer acabar e acha que acabou com a religião, que desconstrói os mitos e os símbolos, que dessacraliza e desencanta o mundo e a História, não ao modo dos grandes revoltados, de Sade a Nietzsche e Marx, mas de uma forma pícara, ordinária, patética, de pensadores «soft», de sibaritas pedófilos, de humoristas boçais, vê-se, de repente, confrontado com o «choque das civilizações».

Bons, Maus e Vilões

E que civilizações? O cliché dos fazedores de «opinião» direitinhos é de um lado a civilização esclarecida, aberta, democrática, com todos os «valores bons» - o humanismo laico, a democracia participativa, a cidadania vigilante, os direitos do homem! E do outro os fanáticos do mundo árabe, mergulhados na Idade Média, no obscurantismo, na religião, governados por autocratas, a queimarem bandeiras da UE, a apedrejarem consulados, de barbas, mal vestidos, aos gritos de Alá é grande!
Contente, o comentador de serviço arranja os bons, os maus e os vilões da história:
Os bons são os progressistas de todos os quadrantes, que têm o valor de não ter valor nenhum, que absolutizam o relativo; que não acreditam em nada. Mas incomodam-se por o Papa mandar na Igreja, por os «gays» não poderem adoptar, por o Inferno se manter.

Os maus são os tais árabes tradicionalistas, religiosos, nacionalistas e todos os povos que ainda não abraçaram o modo de vida preconizado pelos bons.
Finalmente, os vilões, os piores de todos, são os ocidentais - americanos, europeus, católicos, protestantes, agnósticos - que não seguem o pronto-a-pensar humanitário e globalizante do «só é proibido proibir». Os que entendem que para haver civilização e política - que vêm de cidade («civitas», «polis») - é preciso haver valores objectivos, mitos e ritos, convicções, hierarquias, fronteiras, exércitos. E que dizem que a utopia libertária é a receita para os demagogos, para a anomia, para o vale tudo e para a tirania que se lhe segue.

Mas a História não é um filme cor-de-rosa em que o que vem é sempre melhor que o que foi, como julgam os que se admiram de os Romanos pensarem e terem água corrente, acham que a razão começou no mundo com Voltaire e a Revolução Francesa e em Portugal com os capitães de Abril e o dr. Soares. Para trás, só trevas!

Os crentes no Deus do Livro - cristãos, muçulmanos, judeus - têm um sentido do sagrado que é, coerentemente, o seu primeiro valor. Respeitam e amam Deus sobre todas as coisas e os valores - políticos, de família, de amizade, de solidariedade - são para eles um reflexo e uma continuação dessa ligação ao divino. Por isso, uma ofensa à religião como representar Deus, Cristo ou Maomé grotescamente, é uma ofensa pessoal ao que têm de mais querido.

A terra e os céus

No Ocidente, a separação do Estado e da Igreja, do político e do religioso, vem da Reforma e da construção do Estado moderno, ficando o poder político desligado do poder espiritual como condição da paz civil. Foi assim de Nantes a Vestfália e até hoje. E demo-nos bem com a receita.

Mas a descristianização na Europa e o «progressismo» secularizante querem transformar a Igreja numa espécie de Liga do bem-fazer ou agência humanitária tipo UNESCO, retirando-lhe o seu papel de mediadora do sagrado, entre a Terra e o Céu. Para isto contam também a falta de coragem e os complexos de muitos cristãos. O que não se passa nos Estados Unidos, nem nas igrejas novas das Américas e de África ou nas igrejas perseguidas e de missão das comunidades minoritárias na Ásia.

No mundo islâmico, o renascimento religioso, aliado a um sentimento político de nacionalismo defensivo e solidário - na linha dos Irmãos Muçulmanos - está a levar ao poder grupos como o Hamas, com que os ocidentais vão ter que contar.

Porque a partir do fenómeno árabe corânico - das cidades da Síria e do Iémen e do nomadismo do centro da Península arábica - floresceram culturas fortes militarmente, que fundaram impérios, que chegaram à Península Ibérica, que tiveram a sua tecnologia e a sua literatura. A decadência política dos Estados islâmicos, a partir do século XVIII incapazes de enfrentar a dinâmica político-militar ocidental, é sentida pelas novas elites do mundo islâmico, como um estigma a superar. A ideia de que os ocidentais lhes querem impor os seus «não-valores», o secularismo e o hedonismo das massas que é o consumismo, torna-nos odiosos aos seus olhos!

Não percebemos estas reacções, porque no Ocidente nos habituámos a deixar agredir os nossos valores cristãos naqueles «media» públicos, pagos (também) com os nossos impostos, ou, ironia suprema em Portugal, num canal originalmente católico, onde hoje num programa de «soft-porno», a despropósito, se faz uma palhaçada patética do Pai Nosso!

Não podemos deixar que as manipulações da rua árabe - orientadas por radicais cínicos sem crença alguma - e as provocações dos fundamentalistas laicos do Oeste, nos envolvam, a cristãos e muçulmanos, numa guerra religiosa.

Os que temos fé - e aqueles que não a tendo, têm o sentido do sagrado e do respeito pelo sagrado dos que estão connosco nesta «civitas», que é o mundo - não nos podemos deixar, como nos Balcãs, arrastar para uma guerra «religiosa», provocada e chefiada por ateus!

fonte: Expresso, 18 de Fevereiro de 2005

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A Cruz profanada em Espanha

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 7 de fevereiro de 2006 (ZENIT.org).- Após o assassinato de um sacerdote católico na Turquia, segundo os primeiros indícios no contexto do protesto pela publicação de charges sobre Maomé, o jornal da Santa Sé propõe um exame de consciência sobre a liberdade de expressão e liberdade à ofensa dos sentimentos religiosos.

Esta análise, afirma «L’Osservatore Romano», deveria envolver todos os meios de comunicação e todos os países, citando explicitamente o caso da Espanha, onde um espetáculo teatral ridiculariza o Papa, ameaça os católicos e incita à apostasia, ou onde um programa de televisão explicou «Como cozinhar um crucifixo».

«É lícito, em nome da liberdade de pensamento, ferir o sentimento religioso de quem pertence a uma determinada confissão? Onde começa o direito de expressão e onde começa a ofensa às convicções interiores dos demais?», pergunta Francesco M. Valiante, na edição italiana de 6-7 de fevereiro do jornal.

«Qual é a fronteira entre sátira e escárnio, entre ingênuo e ultraje, entre ironia e blasfêmia?», segue perguntando o autor como parte deste exame de consciência.

Trata-se de um debate, reconhece, entre quem «invoca o direito a caricaturar a Deus» e quem considera as charges como «um erro», «uma provocação», «uma difamação», «um ato blasfemo».

«Na questão se mesclam e, em ocasiões, confundem-se níveis diferentes: o jurídico, o cultural e o ético», constata.

«Não há dúvida de que o direito a manifestar o próprio pensamento e o direito a professar livremente uma religião formam parte a pleno título dos direitos humanos fundamentais e irrenunciáveis universalmente reconhecidos» desde há 60 anos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Ao mesmo tempo, acrescenta, «é indubitável que toda genuína expressão do primeiro destes direitos encontra na plena e integral realização do segundo um limite, por chamá-lo, de algum modo, natural».

«A tão louvada “laicidade” da sociedade moderna não deveria encontrar um dos pontos cardeais de referência precisamente na compreensão e no respeito das convicções do “outro”, ainda que sejam diferentes e antiéticas das próprias?», pergunta o autor do artigo.

«Que progresso social, que meta civil supõe ridicularizar os símbolos da fé de um crente, independentemente da religião à qual pertence?».

«Não estamos falando, como é óbvio, da crítica legítima, da polêmica argumentada, da dissensão expressa inclusive de maneira radical --declara o texto--. Nenhuma Igreja ou confissão pode pretender privilégios e imunidade».

«Mas pode, e mais, deve exigir respeito quando estão em jogo a verdade e a dignidade de uma experiência como a religiosa, que pertence à dimensão mais íntima e fundamental da pessoa humana», citando depois outras, como a familiar.

O artigo define a função pedagógica e moral da sátira com o antigo provérbio latino «castigat ridendo mores» (castigue os costumes rindo).

O texto louva a sátira, por exemplo, «quando fustigou os maus costumes e denunciou as injustiças de toda época, desmascarando a idolatria dos “poderosos”, desnudando-a desse ar sacro e artificioso que com freqüência escondia os vícios e a corrupção».

Mas isto, acrescenta, não tem nada a ver com as «baixas posturas “sacrílegas”. Quando ignora os valores e os símbolos do religioso, do que é sagrado em sentido e indefectível, perde inevitavelmente sua natureza e sua função».

«Ao ficar privada de toda finalidade crítica ou educativa, converte-se em mera agressão. Transforma-se em vulgaridade gratuita», denuncia.

E no caso das charges de Maomé ou das blasfêmias contra o crucifixo na Espanha, segundo o jornal, não fica claro «o valor artístico e cultural, ou simplesmente “satírico”».

«Fica obscura inclusive sua pretensão de ser uma expressão de liberdade ou de “laicidade”. Mas, neste caso, infelizmente, o sentido comum tem pouco a ver. Ante a vulgaridade, ante o insulto e a blasfêmia, a inteligência da razão se vê obrigada a claudicar».

O artigo conclui constatando que o sucedido na Espanha não parece «que tenha suscitado particular desdém na opinião pública. Contudo, entre os excessos do ruído mediático e o silêncio condescendente --reconhece--, fica a dignidade ofendida, a consciência ferida».

«Nessa Cruz --sinal por excelência do Amor universal-- profanada por uma repugnante mescla de miséria e obscenidade, fica agravada e cravada toda a humanidade», assegura.

sábado, fevereiro 04, 2006

GRAÇAS SEM GRAÇA

CARTA DO CANADÁ
Fernanda Leitão

A propósito da celeuma internacional em que acabou a publicação de caricaturas jocosas de Maomé por jornais diários de vários países ocidentais, ocorrem-me episódios comigo passados.
Foi num Setembro soalheiro e ameno, em Cernache do Bonjardim. Eu era uma adolescente e estava de férias em casa da minha avó Maria, que era pequenina, magra e rija, de olhos azuis e nariz arrebitado, com uma linha de queixo que não deixava margem a dúvidas quanto ao seu voluntarismo. Já não me lembro porquê, eu disse uma parvoeira qualquer que metia Deus, à hora do jantar. Minha avó pousou o talher, encarou-me de frente e disparou secamente: “Minha menina, graças a Deus, muitas; graças com Deus, nenhumas!”.
Senti-me um pequeno grão de ervilha diante de um velho e enorme carvalho. Nunca mais pude esquecer.
Há uns bons pares de anos, sentava-se a meu lado, numa escola canadiana, uma jovem mãe do Iraque, de véu e embiocada num tchador negro, o corpo todo coberto pelas vestes escuras. Era inteligente e educada. Conversávamos no intervalo. Umas carteiras adiante sentavam-se duas jovens mães egípcias, ambas em carreiras ligadas ao turismo, absolutamente ocidentalizadas no vestir, no falar e na ausência de religião. Eram alegres e bem dispostas. Na altura do Ramadão, a iraquiana, mal conseguia vencer o sono nas aulas. Eu metia-me com ela: “Levas a noite a comer e depois vens dormir para aqui... Se calhar até bebeste vinho, anda lá, confessa...”. Ela ria-se. Um dia as egípcias resolveram pegar no mote e espinafraram a iraquiana com umas graças pesadas. Ela levantou-se, numa fúria, e pôs as outras em sentido. Surpreendidas, desabafaram: “Mas a Fernanda está sempre a brincar contigo, tu não te zangas e ela é cristã, porque é que te zangas connosco se somos árabes como tu?”. A resposta surpreendente veio de chofre: “Ela tem Deus, vocês não têm”.
Em anos mais recentes, por causa de umas pessoas politicamente correctas, grande foi a zanga no prédio em que vivo porque, tendo uma senhora decorado a árvore de Natal do hall de entrada com um belo anjo no topo, foi convidada a retirá-lo... para não ofender as pessoas de outras religiões.
Os cristãos do prédio tiveram de perguntar às tais porque é que iam à parada do Natal, porque é que mandavam e recebiam cartões de boas festas, porque frequentavam os concertos de Natal e porque é que tentavam negar que o Canadá é um país de raíz cristã. Em contrapartida, na consoada desse Natal, tendo partilhado o bacalhau, o vinho e o bolo rei com amigos, em minha casa, bateram-me à porta mais de uma vez. Amigos muçulmanos vieram desejar boas festas por saberem que era um dia importante para nós. Comeram bolo rei e chá, porque eu não ia certamente servir-lhes uma bebida que eles seriam obrigados a rejeitar. As crianças ficaram extasiadas com o presépio e eu fiquei tocada pela maneira como aqueles pais lhes explicaram a importância de Jesus Cristo e de Maria, citados no Corão da sua fé. Todos ali tínhamos Deus.
O Canadá, que é um país de emigrantes e para emigrantes, tem o maior cuidado com estas questões. Nas escolas canadianas para emigrantes chegados de fresco, todos são convidados a serem educados, correctos e prestáveis, nos lugares de trabalho, nos transportes, na via pública, sendo especialmente recomendado que não abordem a religião e a política por serem questões do foro íntimo das pessoas. Posso testemunhar que assim acontece: num país de gente simpática e descontraída, todos os dias falo com desconhecidos acerca de uma coisa e outra. De política e religião, só falamos quando somos amigos e já nos conhecemos bem.
Trata-se de uma sociedade baseada no respeito mútuo.
Para ser franca, não estou surpreendida com a reacção dos islâmicos às tais caricaturas, o que não me impede de rejeitar por náusea o fundamentalismo, venha ele donde vier. Nem me deixo levar por essa treta da liberdade de expressão, que tresanda a politicamente correcto e a uma só via. O que me surpreende, e muito, é que os católicos e os cristãos em geral não reajam fortemente quando jornais, filmes, comédias teatrais e cantigas, metem a ridículo, a maior parte das vezes tocando o insulto boçal, Deus, Nossa Senhora, o Espírito Santo, os símbolos sagrados de um bilião de crentes.
Andamos todos a precisar de uma grande vergastada que nos tire da moleza e da cegueira.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O ASSASSINATO DE D. CARLOS

LEMBRAR UM ACTO TERRORISTA CONTRA O ESTADO PORTUGUÊS

EM EVENTO ADIADO DURANTE 98 ANOS!


João Mendes Rosa*

Cumprir-se-á, dentro de escassos dois anos, o primeiro centenário do assassinato do Rei D. Carlos e do seu filho D. Luís Filipe. Face à lucidez que a distância dos anos proporciona aos juízos e análises, expurgadas as paixões que turvam as consciências e encolerizações que aviltam os factos, é hoje indubitável que D. Carlos – «O Martirizado», no categórico cognome que lhe outorgou ad semper Ramalho Ortigão –, foi (a despeito da propaganda jacobinizante do tempo, que ainda hoje tem por aí serôdios resquícios) modelo de Homem e exemplo de Chefe de Estado: na sua personalidade convergia o cientista laborioso e probo, o pintor de merecido reconhecimento, o desportista habilíssimo, o diplomata de nomeada internacional.

No passado dia 1 de Fevereiro, passou mais um aniversário do duplo crime do Terreiro do Paço. Mas desta vez, e com um atraso de precisamente 98 anos, foi descerrada, no fatídico local, uma lápide que assinala o nefando episódio. Bem andou pois a Real Associação de Lisboa ao promover um acto com tamanha transcendência. Portugal cumpre assim o duplo dever de condenar um acto terrorista num contexto internacional de unânime reprovação dessa prática e, também, de memoriar D. Carlos – uma das mais belas expressões de humanista na Europa do seu tempo.

E a simbologia deste acto tanto mais se avulta à luz dos acontecimentos ocorridos após o Regicídio quanto se sabe que uma iniciativa congénere constituiu a derradeira bandeira do hoje injustamente esquecido Conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Melo), secretário particular de D. Carlos, escritor, jornalista, cronista, dramaturgo; um dos mais íntimos amigos de Eça de Queiroz (Cf. «Correspondência») e com ele membro dos «Vencidos da Vida» – plêiade que considerava de resto D. Carlos como seu «confrade suplente» (Cf. o nosso livro «Das Conferências do Casino aos Vencidos da Vida», 1998). Foi pois o Conde de Arnoso – em diligência desesperada, arrojada e solitária – quem, logo desde 1908, instou no Parlamento (ante a placidez e cobardia da generalidade dos políticos, entre eles o nefando Amaral, que ele repreendeu publicamente e lhe vaticinou 'remorsos'), para que, ao menos, se colocasse «uma lápide» no local do crime evocando o assassinato do rei e do príncipe. Mas foi tal a celeuma que este simples gesto levantou, que logo os illuminati, mormente a ala radical orquestrada a partir dos conciliábulos havidos n' O Mundo, montaram uma forte campanha de miserável jocosidade, passando a chamá-lo invariavelmente de «Conde da Lápide». Arnoso, todos os dias (no dizer de Rocha Martins) recebia «maços de cartas anónimas com ameaças; umas escritas a tinta vermelha, traziam punhais e mais desenhos cabalísticos, falavam de morte e de lhe fazerem voar o palacete pela dinamite».

Para a opinião pública mais desavisada, o talentoso autor de «Jornadas pelo Mundo», o intelectual e elevadíssimo Conde de Arnoso que Eça chamava de «delicado», morreria sendo apenas o… «Conde da Lápide». Sobreviveu apenas três anos ao seu chorado rei e amigo, passando os últimos tempos da sua vida em profundo abatimento e absolutamente desapontado com o seu próprio país.

Suponho que com este passo, a sociedade portuguesa assume, frontalmente, ante a comunidade internacional o acto terrorista de 1908. É que não se tratou de um crime fortuito, pensado por dois indivíduos anarquistas, como romanticamente ainda corre; tratou-se antes, como o expressou ao tempo a voz enfurecida e solitária de Arnoso na Câmara do Pares, de «um verdadeiro bando de assassinos a desfechar carabinas e revolveres sobre a carruagem real». Foi obra de uma terrível e autêntica organização terrorista, rigidamente hierarquizada e com aderentes dos mais variados sectores sociais: a Carbonária Portuguesa. Dos estudos que temos envidado até ao momento (Cf. o nosso livro «Pad'Zé – O Cavaleiro da Utopia», 2000) apurámos o nome de onze regicidas, mas estima-se que o seu número fosse muito superior. Era uma autêntica milícia de intervenção em que os seus elementos, postados em vários pontos do trajecto previsto para a passagem do landau, dariam morte, de uma forma ou de outra, à Família Real.

A acção militar secreta da Carbonária tem sido tratada de uma forma incompreensivelmente benévola. Uma impunidade que transitou do foro judicial para os compêndios de história! Urdindo uma intrincada trama de conspirações e atentados, muitas malfeitorias estão ainda por deslindar: umas acobertadas em suicídios duvidosos e mortes de causas muito dúbias; outras branqueadas ao tempo por uma poderosa instrumentalização das instituições.

O hediondo «Crime de Cascais» (1909) que nós próprios dissecámos no livro atrás citado é indesmentivelmente, entre outros, um dos mais formidáveis actos terroristas perpetrados em solo português, que alguns ainda agora pretendem apócrifo. É indubitável que o muito documentado fabrico de bombas (duas delas explodiram acidentalmente durante a sua confecção mas deixaram Lisboa em pânico), o tráfico de explosivos e armas, a disciplina inflexível infligida aos membros daquela organização, influiu decisivamente no curso da História de Portugal do século passado. Recordem-se as palavras de António José de Almeida: «Sem Carbonária não há revolução». Depois, o insuspeito Fialho de Almeida não hesitou em condenar a triste imagem que Portugal estava a transmitir (após 1910), ao aceitar constituir governos com manuseadores de bombas!

A «lápide» evoca a memória de um rei modelar e de um príncipe promissor vítimas do fanatismo e do fundamentalismo. Mas é também a reprovação cabal do terrorismo.



*Historiador; Universidade de Salamanca

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Carta-Resposta do Dr. Augusto Ferreira do Amaral ao semanário «O Independente»

Ex.ma Senhora
Drª Inês Serra Lopes
Ilustre Directora de
O INDEPENDENTE


Lisboa, 29 de Janeiro de 2006

Excelentíssima Senhora Directora

O número 924, de 27 de Janeiro de 2006 do afamado semanário que V. Exª dirige, inclui na página 43 a carta duma leitora identificada como "Isabel Silva", intitulada "Duarte Pio: Sua Alteza Real ilegítima", eivada de erros, que pela presente corrijo, em breve síntese. Como o Independente preza a verdade na informação, peço que esta minha carta seja publicada, a fim de que os vossos leitores, e entre eles a referida, não continuem a laborar nos mesmos erros.
1 – O Rei D. Miguel não foi filho bastardo.
A leitora invoca uma afirmação de Raul Brandão no livro El-Rei Junot como único fundamento para a afirmação caluniosa de que D. Miguel seria fruto de adultério da Rainha D. Carlota Joaquina e, portanto, não seria filho do Rei D. João VI. Simplesmente, como se lê na nota introdutória à edição de 1982 do dito livro, este, «mais que uma obra histórica, é uma obra literária». As referências a D. João VI são «pontos negativos para a definição da imagem do verdadeiro historiador»; e o comentador duvida de que Raul Brandão tenha «alguma vez pretendido sê-lo». Ora nunca foi consistentemente posto em causa que D. Miguel fosse filho de D. João VI. Nem mesmo seu irmão D. Pedro IV, comandando a guerra civil contra ele, invocou tal fundamento para sustentar que D. Miguel era usurpador do trono. De resto D. Miguel, ainda mesmo que não tivesse sido filho fisiológico de D. João VI, foi sempre, para a ordem jurídica portuguesa, filho legítimo, e não bastardo perfilhado.
2 – D. Duarte Pio é legítimo representante dos reis de Portugal.
Trata-se de um juízo consensual, em Portugal e no estrangeiro.
E decorre, sem qualquer margem para dúvidas, do capítulo IV, título V, da Carta Constitucional, que regia a sucessão do trono no termo da vigência da Monarquia.
Aí não existia, como em nenhuma outra norma portuguesa formalmente constitucional, qualquer preceito excluindo da sucessão no trono de Portugal D. Miguel, ou a sua descendência.
Com a morte de El-Rei D. Manuel II, em 1932, deixou de haver vivos descendentes legítimos portugueses de D. Maria II e de D. Pedro IV.
Assim, conforme o art. 88º da Carta, a sucessão na qualidade de Chefe da Casa Real passou à linha colateral. E na sucessão por linha colateral aplicavam-se os seguintes princípios:
- não podia suceder estrangeiro algum, e
- a sucessão haveria de ser deferida «pela ordem regular da primogenitura e representação, preferindo sempre a linha anterior às posteriores.»
Em 1932 a linha anterior era a da descendentes legítimos de D. Miguel I, visto que este foi, além de D. Pedro IV, o único filho varão de D. João VI com descendência.
Ora na descendência de D. Miguel I, o português primogénito varão, por linha anterior, era D. Duarte Nuno, filho do 2º casamento de D. Miguel (chamado D. Miguel II), que era filho primogénito varão de D. Miguel I.
Assim, coube a D. Duarte Nuno a chefia da Casa Real Portuguesa depois de 1932 - como foi, de resto, geral e pacificamente reconhecido - até morrer, em 1976.
D. Duarte Pio é português e filho primogénito de D. Duarte Nuno. Como tal, sucedeu-lhe nessa chefia a partir de 1976.
No entanto, mesmo que se entendesse – ao arrepio do direito constitucional vigente em 4 de Outubro de 1910 – que a linha da descendência de D. Miguel I não poderia suceder na referida chefia, mesmo assim, D. Duarte sempre teria a chefia da mesma casa, por ser o de melhor direito entre os descendentes portugueses de D. Pedro IV - por sua Mãe, D. Maria Francisca de Orléans e Bragança, filha do Chefe da Casa Imperial do Brasil, e por isso legítima trineta de D. Pedro IV, falecida em 1968.
3 – D. Duarte não aufere rendimentos da Fundação da Casa de Bragança.
A Casa de Bragança possuía um acervo grande de bens vinculados, que assim permaneceram, excluídos das regras gerais da sucessão, depois da abolição do morgadio e mesmo durante a 1ª República, que os respeitou. Quando D. Manuel II morreu, Salazar prepotentemente subtraiu esses bens ao seu normal e correcto destino e transmitiu-os para uma fundação, que instituiu por Decreto – a Fundação da Casa de Bragança – gerida por pessoas nomeadas pelos Governos e cujos rendimentos deixaram de ser fruídos, como deviam, pelo Chefe daquela Casa ou pela Família a quem, como bens privados, pertenciam.
D. Duarte não vive pois à conta de rendimentos daquela fundação, como seria seu direito se o ditador os não tivesse confiscado em 1933 por essa insólita arbitrariedade.
D. Duarte também não aufere de qualquer fonte pública os seus rendimentos.
Nada recebe do erário público. Ao invés: tem aplicado boa parte do seu rendimento pessoal em serviço do País, em causas de grande relevância nacional, como foi, exemplarmente, toda a persistente e intensa actividade que ao longo de anos desenvolveu, quase sozinho, pela causa da liberdade de Timor.
Compreendo que se seja adversário do pretendente ao trono. Não aceito é que calunie D. Duarte, imputando-se-lhe vantagens que ele não aufere nem nunca auferiu e negando-se-lhe o justo reconhecimento do muito que, pelo contrário, em termos nacionais, o País é credor de D. Duarte.

Antecipadamente grato, aproveito o ensejo para apresentar a V. Exª os meus melhores cumprimentos.

a) Augusto Ferreira do Amaral

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A surpreendente encíclica de Bento XVI

Entrevista com o padre Thomas Williams, decano de Teologia

ROMA, quinta-feira, 26 de janeiro de 2006 (ZENIT.org).- O tema que Bento XVI escolheu para sua primeira encíclica, o «amor», surpreendeu tanto seus admiradores como seus críticos, constata o decano de Teologia da Universidade «Regina Apostolorum» de Roma.

O padre Thomas D. Williams L.C., comentou a Zenit o conteúdo e a originalidade de «Deus caritas est» («Deus é amor»), publicada essa quarta-feira no Vaticano.

--Por que é tão importante esta encíclica?

--Padre Williams: Os observadores vaticanos sublinham a importância da primeira encíclica de qualquer Papa --uma carta doutrinal da mais alta autoridade eclesial--, como um indicador fiável do tom e da direção que seguirá um determinado pontificado.

A eleição do «amor» por parte de Bento XVI, como ponto central desta importante tomada de posição, desmente os críticos que etiquetaram este Papa como «duro».

--Mas com tantas preocupações práticas como a Igreja enfrenta, os temas de bioética, as questões ecumênicas e o terrorismo, por que o Papa quis escolher um tema tão etéreo?

--Padre Williams: Obviamente, o Santo Padre considera que o ponto do amor está acima de tudo. Recordar o amor de Deus e ao próximo é o núcleo da mensagem do Evangelho.

O amor é o princípio iluminador para avaliar outros importantes temas, como os que você menciona. Se amamos bem, toda a orientação de nossa existência encaixa com o plano de Deus para nossas vidas e no autêntico bem da humanidade.

--O que o senhor entende por «amar bem»?

--Padre Williams: O amor tem muitos significados diferentes e facilmente pode-se rebaixar e deixar a perder.

Como reconhece Bento XVI, já ao início de sua carta, falamos de amor à pátria, de amor pela profissão ou o trabalho, de amor entre amigos, entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, do amor ao próximo e do amor a Deus.

Também, as pessoas com freqüência associam o amor com meros sentimentos que vão e vem, ou com egoísmo e desejo.

Nesta carta, Bento XVI insiste em que o amor significa mais que isto, e eventualmente leva à entrega de si mesmo, exemplificada no sacrifício redentor de Cristo.

--Então o amor, no sentido cristão, não tem nada a ver com o amor como o mundo entende?

--Padre Williams: Não é isso. A compreensão cristã do amor compreende e ultrapassa as noções mundanas ou meramente «humanas» do amor.

Em sua encíclica, Bento XVI rejeita uma polarização entre o «eros», amor de atração, e o «ágape», amor de entrega, como se o «eros» fosse pagão e o «ágape» cristão, e argumenta ao contrário que estes dois tipos de amor estão inter-relacionados.


O «eros», diz, «está arraigado na verdadeira natureza do homem». Ao mesmo tempo, para ser plenamente humano, o «eros» deve amadurecer no «ágape», a noção cristã de caridade ou de entrega aos demais, conformada com Cristo.

Não é suficiente para nós «sentir» amor, temos de «eleger» amar como decisão livre.

--Poderia qualificar esta encíclica como «teológica»?

--Padre Williams: Bento XVI faz um enfoque profundamente teológico e bíblico do tema do amor cristão.

A reabilitação do amor, indica o Papa, requer um retorno a suas origens divinas. Para compreender a natureza do amor, devemos voltar o olhar a Deus que é o próprio amor.

Ao mesmo tempo, a encíclica é profundamente «humana». A teologia cristã concebe a pessoa humana como criada à imagem e semelhança de Deus. Amar e ser amado é o verdadeiro sentido da existência humana. Por conseguinte, redescoberta do amor quer dizer redescoberta da humanidade.

Também, Bento XVI dedica toda a segunda parte da encíclica à questão prática do dever de caridade da Igreja para com os pobres e vulneráveis, como parte essencial da identidade eclesial.

--Considera que é casual a data eleita para publicar a encíclica?

--Padre Williams: Poeticamente falando, esta encíclica coincide com os nove meses de pontificado de Bento XVI, permitindo uma inevitável comparação com o nascimento de uma criança.

A primogênita de Bento toma a forma de reflexão de 78 páginas, um texto curto se comparado às encíclicas de João Paulo II, que normalmente tinham o dobro da extensão.

Ainda que seja um bebê pequenino, segundo os padrões culturais, a encíclica aborda questões difíceis e compensa em profundidade o que faltaria em amplitude.

--Há grandes surpresas no documento?

--Padre Williams: Desde sua eleição, o Papa Bento XVI foi uma surpresa tanto para quem o apoiava como para os críticos.

Quando Joseph Ratzinger sucedeu João Paulo II como Papa, em abril passado, muitos acreditavam que seria alguém que viria fazer uma limpeza eclesial. Não foi o caso.

A entrega da primeira encíclica do Papa fará só ainda mais ridícula esta qualificação de Bento XVI como «duro» tanto doutrinal como disciplinarmente.

Bento usou seu primeiro grande momento magisterial para lançar uma mensagem de esperança e não para censurar. «Deus caritas est» centra-se no amor de Deus que todos nós estamos chamados a aceitar e imitar.

Se, como muitos suspeitam, esta primeira encíclica constitui a «declaração da missão» como Papa de Bento XVI, podemos esperar mais surpresas ao longo deste pontificado.


fonte: www.zenit.org