segunda-feira, janeiro 23, 2006

AMOR

Bento XVI apresenta a encíclica «Deus é amor» ao intervir perante um congresso organizado pelo Conselho Pontifício «Cor Unum»


CIDADE DO VATICANO, Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2006


Esta Segunda-feira, o Papa Bento XVI pronunciou as seguintes palavras perante os participantes do encontro:

«(…) mas a maior de todas elas é a caridade» (1 Cor 13, 13).

A viagem cósmica na qual Dante, em sua «Divina Comédia», quer envolver o leitor, termina ante a Luz perene que é o próprio Deus, ante essa Luz que ao mesmo tempo é o amor que «move o sol e as estrelas» (Paraíso XXXIII, v. 145). Luz e amor são uma só coisa. São a potência primordial criadora que move o universo. Se estas palavras do poeta deixam transluzir o pensamento de Aristóteles, que via no «eros» a potência que move o mundo, o olhar de Dante, no entanto, percebe algo totalmente novo e inimaginável para o filósofo grego. A Luz eterna não só se apresenta com os três círculos dos que fala com estes densos versos que conhecemos:

«Ó eterna Luz que repousas só em Ti; a Ti só entendes e, por Ti entendida, respondes ao amor que te sorri!» (Paraíso, XXXIII, versículos 124-126).

Na realidade, a percepção de um rosto humano - o rosto de Jesus Cristo - que Dante vê no círculo central da luz é mais comovedora ainda que esta revelação de Deus como círculo trinitário de conhecimento e de amor. Deus, Luz infinita, cujo mistério incomensurável havia sido intuído pelo filósofo grego, este Deus tem um rosto humano e - podemos acrescentar - um coração humano. Nesta visão de Dante mostra-se, por uma parte, a continuidade entre a fé cristã em Deus e a busca promovida pela razão e pelo mundo das religiões; ao mesmo tempo, no entanto, nela se aprecia também a novidade que supera toda busca humana, a novidade que somente o próprio Deus podia revelar-nos: a novidade de um amor que levou Deus a assumir um rosto humano, e mais, a assumir a carne e o sangue, todo o ser humano. O «eros» de Deus não é só força cósmica primordial, é amor que criou o homem e que se inclina ante ele, como se inclinou o bom samaritano ante o homem ferido, vítima dos ladrões, que jazia na margem da estrada que descia de Jerusalém a Jericó.

A palavra «amor» hoje está tão sem brilho, tão remexida e tão abusada, que quase dá medo de pronunciá-la com os próprios lábios. E, no entanto, é uma palavra primordial, expressão da realidade primordial; não podemos simplesmente abandoná-la, temos de retomá-la, purificá-la e dar-lhe novamente seu esplendor originário, para que possa iluminar nossa vida e conduzi-la pelo caminho correto. Esta consciência me levou a escolher o amor como tema de minha primeira encíclica. Gostaria de tentar expressar a nosso tempo e a nossa existência algo do que Dante recapitulou de forma audaz em sua visão. Fala de sua «vista» que «se enriquecia» ao olhá-la, transformando-o interiormente (Cf. Paraíso, XXXIII, versículos 112-114). Trata-se precisamente disto: de que a fé se converta em uma visão-compreensão que nos transforma. Gostaria de sublinhar a centralidade da fé em Deus, nesse Deus que assumiu um rosto humano e um coração humano. A fé não é uma teoria que alguém pode assumir ou descartar. É algo muito concreto: é o critério que decide nosso estilo de vida. Em uma época em que a hostilidade e a avidez converteram-se em superpotências, em uma época em que assistimos ao abuso da religião até chegar à apoteose do ódio, a racionalidade neutra por si só não é capaz de proteger-nos. Temos necessidade de Deus vivo que nos amou até a morte.

Deste modo, nesta encíclica, os temas «Deus», Cristo» e «Amor» se fundem, como guia central da fé cristã. Quis mostrar a humanidade da fé, da que forma parte o «eros», o «sim» do homem a sua corporeidade criada por Deus, um «sim» que no matrimônio indissolúvel entre o homem e a mulher encontra sua raiz na criação. E nele, o «eros» transforma-se em «ágape», o amor pelo outro que já não busca a si mesmo, mas que se converte em preocupação com o outro, disponibilidade a sacrificar-se por ele e abertura ao dom de uma nova vida humana. O «ágape» cristão, o amor pelo próximo no seguimento de Cristo não é algo alheio, posto de um lado ou que inclusive vá contra o «eros»; pelo contrário, com o sacrifício que Cristo fez de si mesmo pelo homem, ofereceu uma nova dimensão que, na história da entrega caritativa dos cristãos aos pobres e aos que sofrem, foi-se desenvolvendo cada vez mais.

Uma primeira leitura da encíclica poderia suscitar talvez a impressão de que está quebrada em duas partes, que não têm muita relação entre si: uma primeira parte, teórica, que fala da essência do amor, e uma segunda parte que trata da caridade eclesial, das organizações caritativas. No entanto, o que a mim interessava era precisamente a unidade dos dois temas, que somente podem compreender-se adequadamente se se vêem como uma só coisa. Antes de tudo era necessário afrontar a essência do amor como se nos apresenta à luz do testemunho bíblico. Partindo da imagem cristã de Deus, era necessário mostrar que o homem está criado para amar e que este amor, que em um primeiro momento se manifesta sobretudo como «eros» entre o homem e a mulher, tem que transformar-se interiormente depois em «ágape», em dom de si ao outro, para responder precisamente à autêntica natureza do «eros». Com este fundamento, havia que clarificar depois que a essência do amor de Deus e do próximo descrito na Bíblia é o centro da existência cristã, é fruto da fé. Em seguida, era necessário sublinhar em uma segunda parte que o ato totalmente pessoal do «ágape» não pode permanecer em algo meramente individual, mas que, pelo contrário, tem de converter-se também em um ato essencial da Igreja como comunidade: quer dizer, necessita-se também de uma forma institucional que se expressa na ação comunitária da Igreja. A organização eclesial da caridade não é uma forma de assistência social que se sobrepõe por casualidade à realidade da Igreja, uma iniciativa que também outros poderiam tomar. Pelo contrário, forma parte da natureza da Igreja. Assim como ao «Logos» divino corresponde o anúncio humano, a palavra de fé, assim também ao «Ágape», que é Deus, tem de lhe corresponder o «ágape» da Igreja, sua atividade caritativa. Esta atividade, ademais de seu primeiro significado sumamente concreto de ajuda ao próximo, comunica também aos demais o amor de Deus, que nós mesmos recebemos. Em certo sentido, tem de fazer visível o Deus vivo. Deus e Cristo na organização caritativa não têm de ser palavras raras; na realidade, indicam o manancial originário da caridade eclesial. A força da «Caritas» depende da força da fé de todos seus membros e colaboradores.

A cena do homem que sofre toca nosso coração. Mas o compromisso caritativo tem um sentido que vai muito além da mera filantropia. Deus mesmo nos empurra em nosso interior a aliviar a miséria. Deste modo, em definitivo, levamo-lo ao mundo que sofre. Quanto mais o levarmos consciente e claramente como dom, mais eficazmente transformará nosso amor e despertará a esperança, uma esperança que vai para além da morte.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O valoroso assalto ao castelo e as complicações da vida

por Carlos Romero

O "milagre das rosas" de Alegre. Os slogans assassinos contra Soares. O cartaz anti-Cavaco. O didactismo sem retorno de Louçã. O objectivo improvável de Jerónimo. E Garcia Pereira

A vida está a complicar-se para todos, à medida que a campanha avança inexoravelmente para o seu fim. Complica-se, antes de mais, para o bolso dos portugueses automobilizados, com um dos maiores aumentos de combustíveis dos últimos anos. Complicou-se, ontem, para um irritadíssimo José Sócrates, confrontado publicamente pelo ex-líder do seu bem amado Plano Tecnológico, José Tavares, que apontou o dedo a um ainda incógnito ministro socialista que estará a travar um projecto de parceria com o Massachusetts Institute of Technology.

Complicou-se, ainda, para o candidato-poeta, que adivinha para um destes dias uma "mirabolante" sondagem que lhe dará o terceiro lugar na pugna eleitoral, um novo "milagre das rosas" que ele se dispõe a combater até ao fim, nem que seja, como diz a repórter da TVI Carla Moita, com o "voto silencioso" dos que continuam a faltar aos encontros com Alegre nas ruas e praças. Complicou-se, também, para o messiânico Cavaco Silva, cada vez mais apertado por sondagens que o encostam a uma insegura vitória à primeira e por jovens rebeldes que, em Coimbra, tentaram desfraldar um "provocatório" cartaz de contestação ao candidato, imediatamente anulados pela polícia e pela segurança do professor.

Complicou-se para Mário Soares, obrigado a engolir alguns slogans assassinos de "populares" numa feira de Famalicão - "Cavaco à primeira, bolacha à terceira" ou "Soares é fixe e o povo que se lixe" -, mas que aproveitou a deixa para marcar a diferença entre a sua tradicional capacidade de encaixe e a ausência de guarda-costas, e o apertado esquema de segurança do professor de Boliqueime. Complicou-se, enfim, para Jerónimo de Sousa, que, embalado pelo comício do Pavilhão do Atlântico, tenta convencer ser ele o que "está em melhores condições para derrotar" Cavaco. A vida complicou-se, finalmente, para Francisco Louçã, que insiste numa louvável campanha de grande didactismo e muito ligada aos "problemas reais", cada vez mais inútil à medida que aumenta o fragor da batalha pelos votos e o dramatismo das declarações contra a "hecatombe" cavaquista que ameaça o país.

De bem consigo e com os anjos, embainhada, pelo menos no dia de ontem, a espada que tem brandido contra o presidencial sampaísmo, Garcia Pereira, de visita ao berço da nacionalidade, galgou a escadaria que o levou até uma das janelas do afonsino castelo e declarou a tomada da cidade de Guimarães. Bendita campanha que tantas alegrias nos dás...



(In Público, POL nº 5776, Quinta, 19 de Janeiro de 2006 )

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Eleições Presidenciais: Uma Constatação e Um Apelo

por João Mattos e Silva

Como qualquer cidadão preocupado com o País, o seu presente de crise e o seu futuro que se apresenta nebuloso e incerto, tenho acompanhado pelos meios de comunicação social a pré-campanha e agora a campanha eleitoral para a Presidência da República, não só através das notícias mas também dos artigos que os comentadores têm vindo a escrever abundantemente.
Por mais monárquico que seja e me confesse, não posso deixar de valorizar uma eleição para uma função na hierarquia do Estado republicano, a que a Constituição da República em que infelizmente vivo atribui poderes suficientemente relevantes para ter importância na vida política nacional.
E se monárquico sou e me confesso, com esta disputa eleitoral mais monárquico me confirmo e me confesso por razões de inteligência. Porque reconfirmei, uma vez mais, que o que os republicanos semi-presidencialistas (onde pouquíssimos são excepção) pretendem para o seu presidente é os atributos de um rei constitucional: supra-partidarismo, independência, poder moderador (a que republicanamente alcunham de «magistério de influência») e se tornem depois de eleitos, por artes republicanas, «presidentes de todos os portugueses», apesar de acharem bem e natural que os presidentes sejam oriundos de partidos políticos e apoiados por partidos ou militantes, enquanto tal, de partidos políticos (é esse o supra-partidarismo), defendam ideias e políticas de uma determinada área ideológica e tenham como apoiantes expressos os nomes mais sonantes entre o patronato ou entre os sindicatos (é essa a independência).

E reconfirmei que o que os republicanos (pelo menos alguns) não querem é que o presidente possa recandidatar-se mais do que duas vezes (a partir de três é uma atitude «monárquica» no dizer do candidato-poeta Alegre) e tenha mais de 67 anos, mesmo se uma idade mais avançada e mais de dois mandatos conferirem ao candidato um acumular de experiência nas suas funções que possam ser hipoteticamente uma mais-valia.

E devo esclarecer, desde já, e sem ser entre parêntesis, que não estou a defender a candidatura do Dr. Mário Soares; nem a dele nem a de nenhum outro candidato. É, apenas, uma constatação curiosa dos conceitos de democracia e de lógica republicanos: para quem mais importante do que a qualificação pela educação (no caso dos reis) ou pelo acumular de conhecimento adquirido (no caso dos presidentes) é a «renovação política», ou seja, a sucessão de diferentes presidentes (de preferência na meia idade) que da função só conhecem o que diz a Constituição da República e que mal ficam a saber algo mais são substituídos.

São os mesmos que reclamam para todas as mais altas funções, do Estado ou da sociedade civil, cada vez mais qualificações (excepto se forem para os boys do partido, é claro).

Constatei ainda que todos os candidatos à presidência semi-presidencialista da República concorrem afinal a Primeiro-Ministro, com os seus «manifestos» que são programas de governo que sabem que não vão executar e muito menos impor aos governos deles independentes: já lá vão várias revisões constitucionais os tempos em que ao presidente era permitido nomear governos ditos de «iniciativa presidencial», fora dos partidos e de acordo com o entendimento de governação do presidente. E que dos poderes efectivos que têm pouco falaram, excepto do de dissolução, porque desse todos têm medo, especialmente os governos da área política oposta ao presidente.

E que de uma luta entre esquerda e direita se trata, mesmo se todos (os três que não são líderes partidários) se querem candidatos supra-partidários e independentes.

E a conclusão a que cheguei, meses depois da pré-campanha e dias depois de se iniciar a campanha é que os republicanos que hoje temos querem para o seu presidente é uma caricatura de um rei, com os atributos da realeza e os conceitos igualitários e de exclusiva legitimidade eleitoral da república. O que sendo uma amálgama de contraditórios se anula.

Por isso deixo aqui um apelo aos republicanos inteligentes e sensatos que tal como eu, monárquico, são antes de tudo portugueses e antepõem às suas convicções políticas o amor a Portugal e querem, acima de tudo, o bem dos portugueses: optem pelo rei como Chefe do Estado verdadeiramente independente e supra-partidário, educado para o serviço público e as funções que exerce, factor de estabilidade e experiência na chefia do Estado.

E se os seus complexos tentarem falar mais alto, olhem em redor: para a desenvolvida e moderna Espanha logo aqui ao lado, para as progressistas monarquias escandinavas, holandesa, belga, britânica e luxemburguesa. Para a estabilidade política e prestígio das suas chefias do Estado e para os níveis de desenvolvimento político, económico, social e cultural dos seus povos. A inteligência afirmará o que a emoção negar.


In Diário Digital, 12-Jan-2006

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Debate público “A relevância e Modelos de Chefia de Estado” no final do XII Congresso da Causa Real

XII Congresso da Causa Real
O Congresso realiza-se na Hotel Arts (na Expo), no próximo dia 7 de Janeiro, a partir das 10h00.

Da parte da manhã o Congresso tratará de assuntos internos da Causa Real, mas reinicia-se às 15h00 com o Debate “A relevância e Modelos de Chefia de Estado” onde a jornalista Fátima Campos Ferreira recreará o conhecido Programa “Prós e Contras” moderando um debate entre Oradores com sensibilidade monárquica e com sensibilidade presidentista. O Debate será depois alargado à assistência composta pelos Congressistas e seus convidados que beneficiarão do estatuto de Observadores.

Os Congressistas devem inscrever quanto antes os simpatizantes e amigos que queiram convidar a assistir ao Debate da tarde - o Auditório do Hotel Arts tem cerca de 180 lugares e só poderão ser aceites inscrições até esse limite. As inscrições podem ser feitas no Secretariado do Congresso: no Porto, Leonor Kendall, tel. 22 6175719; e em Lisboa, Helena Mendonça, tel. 21 3428115.

O Congresso termina com a Sessão de Conclusões e Encerramento que, como habitualmente, contará com a presença de SAR o Duque de Bragança e se inicia por volta das 18h30 m.

HOMENS DE BOA VONTADE

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Neste começo de ano creio que será útil pensarmos a sério nos grandes desafios que a humanidade enfrenta. Desafios globais que exigem a mobilização de todos nós na busca de soluções que travem a marcha para o abismo.
São eles a pandemia de qualquer doença infecciosa, seja ela gripe das aves ou sida; o aquecimento da crosta terreste que já está a provocar calamidades naturais devastadoras, ao mesmo que torna real a desertificação de grandes manchas de terra, o que afugenta pessoas e animais, que vão em busca de comida e água onde a encontrarem; a pobreza galopante, em muitos países, reduzindo os seus povos à escravatura dos que produzem e vendem droga, dos que produzem e vendem armas; analfabetismo endémico, ou mesmo crónico, em muitos países do mundo, que assim servem de carne para canhão dos arautos do capitalismo selvagem (como outrora o foram do capitalismo de estado, ou comunismo); a tomada de poder, por interpostos candidatos, de associações criminosas ou seitas secretas, algumas vezes de ambas, que em poucos anos rasgam e pisam os valores morais e cívicos daqueles que subjugam por meio de solapadas ditaduras, em grande parte veiculadas por uma comunicação social que não pode ser independente por estar dependente do grande capital, seja ele privado, seja ele público; a massificação e imbecilização de povos inteiros por meio do pão e circo, que os torna materialistas, gananciosos, individualistas, numa palavra, sem espiritualidade.
Sendo globais, estes desafios exigem tomadas de posição globais, através de foruns mundiais. Mas, sendo ponto assente que os povos têm também desafios específicos dentro dos seus países, parece claro que as pessoas têm de dar passos pequenos, mas certos, mas apressados.
Talvez gostem de saber o que vos vou contar.
Farouk Jiwa é um homem de 31 anos, nascido no Quénia, que veio para o Canadá onde, em universidades diferentes, Queen´s (Kingston), Toronto, York (Toronto) e Mcguill (Montréal), fez sucessivamente o bacharelato, a licenciatura e o doutoramento em ciências ambientais. Em lugar de ficar acomodado num lugar burocrático, gizou um plano de desenvolvimento dos meios rurais do seu país: reflorestação de áreas devastadas, com grande número de árvores e arbustos cuja floração fosse adequada à criação de abelhas. Obteve um empréstimo de uma organização de apoio dinamarquesa, e pôs a funcionar um plano piloto na sua terra africana, dirigido e monitorizado por técnicos de uma ONG. O mel produzido, e a produção é no Quénia de quatro vezes por ano, foi todo vendido à organização que Farouk criou, para tornar real e fácil a comercialização do produto no estrangeiro. Os pequenos agricultores viram as suas lavouras a prosperar, receberam pelo seu trabalho muito mais do que tinham anteriormente, e ficaram descansados por não soferem as agruras de uma comercialização que não sabem fazer. Após este passo, Farouk obteve o apoio do Canadá e o plano está a estender-se a vários países da África oriental. Ao mesmo tempo, foram instaladas escolas e postos médicos.
“É possível, afirma Farouk, lançar negócios que sejam geradores de bem estar social e ambiental, que promovam valores susceptíveis de ajudar os países em vias de desenvolvimento”.
Este é um homem de boa vontade e, estou certa, muitos outros de boa vontade se juntarão a ele ou seguirão o seu exemplo. Será o conjunto das boas vontades, sejam elas cristãs ou islâmicas, crentes ou agnósticas, a alavanca para um mundo melhor.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

A pureza do artificial

por Nuno Pombo


Parece-me que os Portugueses, fartos de viver o Presente, ignoram o Passado para se agarrarem ao Futuro. Só aparentemente este sentimento é sinal de esperança. Não cravamos os olhos no Futuro como testemunho de Fé em nós próprios e no que somos capazes de fazer. Pomos os olhos além do tempo para que eles não nos castiguem com o que lobrigam aqui, agora. O Futuro que fingimos fitar não é senão a desistência do Presente e o esquecimento do Passado. E o Passado que a nossa Pátria edificou foi honroso e digno, sendo que o politicamente correcto já não nos impede de dizer isto mesmo. Honroso porque nos permitiu ser credores do unânime reconhecimento dos demais Povos, digno porque foi fruto de nós mesmos. Da nossa coragem, da nossa valentia. Da nossa vontade. Do nosso espírito e da nossa Fé. Cobardes sempre os houve, também entre nós. Desertores sempre existiram. Traidores também. Mas as excepções sempre visaram a confirmação das regras. E a nossa regra sempre foi outra.
Não vou cometer a desonestidade intelectual de considerar que o estado de alma que atravessamos é resultado da miseranda implantação da república. Mas não assino o dislate de pensar que a forma como nos organizamos politicamente é indiferente. Na verdade, penso que os próceres republicanos, do alto da sua ingente demagogia, aprisionaram-nos numa redoma estéril de uma representação juridicamente pura mas completamente artificial. E os Portugueses, de há muito a esta parte, dançam a música que lhes tocam e não se dão ao trabalho de constatar que os músicos, por muito boas pessoas que possam ser, e alguns serão, são péssimos, na medida em que não servem a necessária Restauração de Portugal, e a canção, estridente, é um chilrear de interesses inconfessados, assobiado por famintas clientelas várias. Os Portugueses, ao que parece, cansaram-se. Desistiram de querer mais e melhor.

A representação nacional oferecida pelo sistema republicano é, como disse, juridicamente pura. Aliás, não são poucos os juristas que se deixam encadear pela ideia de que, por decreto, tudo se resolve. Do insucesso escolar à Religião, tudo o decreto pode abolir. Mas o decreto é bem mais destro a extinguir, a obliterar, a suprimir do que a edificar, a erigir, a construir. A pureza jurídica desta representação não resulta apenas do sufrágio directo e universal mas sobretudo da capacidade eleitoral passiva. Todos podemos ser chefes do Estado. Esta asserção é inebriante e só aparentemente generosa, porque com ela não se quer elevar todo e qualquer um à suprema magistratura do País, pretendendo-se apenas franquear as suas portas a um punhado de notáveis cujo mérito, nalguns casos, mais frequentes do que a dignidade de Portugal faria prever, é mais do que duvidoso.

Evidente que esta chispa romântica perde o calor e brilho na crua fogueira das evidências. Nem todos podem ser chefes do Estado. Só aqueles que, nos partidos, fazem carreiras brilhantes podem ambicionar (e como ambicionam) esse estatuto. Basta recordar os principais candidatos presidenciais. Todos foram, (ou são!!!) chefes de partidos. Todos menos um, que bem tentou sê-lo, mas agora poeticamente transforma a pretérita derrota em trunfo eleitoral. Por isso, essa representação, sendo pura, será sempre artificial. Como podem os chefes dos partidos esquecer durante uns tempos essa qualidade e assumirem-se como imparciais intérpretes das angústias nacionais? Até quando vamos continuar condenados à pureza do artificial?


Texto publicado no Diário Digital em 21 de Dezembro de 2005

sábado, dezembro 03, 2005

Liberdade e religião

por João Carlos Espada

«A exclusão das referências religiosas da praça pública não é condição da liberdade ou da tolerância


Parece que, na semana passada, terá chegado às escolas estatais uma ordem do Ministério da Educação para remover os crucifixos das salas de aula.

Não deixa de ser curioso que, pela mesma altura em que este gesto gratuito era noticiado, o tema da religião e da liberdade tenha ocupado vários jornais estrangeiros, designadamente ingleses. Uma breve incursão pode ser sugestiva.

Umberto Eco No «Sunday Telegraph» de domingo último, Umberto Eco publicou um artigo sobre religião. Explica que foi educado como católico e que depois abandonou a Igreja. Mas que, neste Natal, voltará a fazer o Presépio com o seu neto, tal como o seu avô fazia com ele. Explica que tem o maior respeito pelas tradições cristãs e que vê nelas fonte de sabedoria e moderação. Em contrapartida, vê com crescente preocupação o ataque ao cristianismo em nome do laicismo. E diz que esse ataque cria um vazio em que o cristianismo tende a ser substituído pela superstição e o paganismo. Não resisto a citar esta passagem:

«Como filho do Iluminismo e crente nos valores iluministas da verdade, do inquérito aberto e da liberdade, fico deprimido com aquela tendência. Isto não se deve apenas à associação passada entre o oculto e o nazismo e o fascismo - e essa associação era muito forte (...). O oculto continua a fascinar os neofascistas no meu país. E hoje, quando passeamos pelas prateleiras das livrarias dedicadas ao oculto, encontramos os habituais volumes sobre os templários, os cabalistas, obviamente o Código Da Vinci, de Dan Brown, ao lado de panfletos anti-semitas como Os Protocolos dos Velhos do Sião.»

Cameron e Blair Na semana anterior, o candidato favorito à liderança do Partido Conservador britânico, David Cameron, fora entrevistado na BBC pelo inevitável Jeremy Paxon. Com a agressividade habitual, Paxman perguntou a Cameron se ele também falava com Deus (a piada favorita das «chattering classes» sobre George W. Bush). Tranquilamente, Cameron respondeu que acreditava em Deus, ia à Igreja mais vezes do que pelo Natal e a Páscoa, embora talvez menos do que deveria ir, mas que não tinha uma «linha directa» para Deus.

Dir-se-á que é uma resposta normal de um líder conservador. Mas este é o primeiro líder conservador, desde a sra. Thatcher, a afirmar claramente a sua fé cristã. E o que talvez seja menos conhecido entre nós é que o líder trabalhista, Tony Blair, afirma abertamente a sua fé cristã (anglicana), tal como a sua mulher - que é católica.

William F. Deedes Também o meu cronista preferido, o nonagenário W. F. (Lord) Deedes, escreveu sobre religião no «Telegraph» da semana passada. Referiu-se precisamente às tentativas de apagar símbolos cristãos de locais públicos, como as escolas, e observou que isso raramente tem a ver com o respeito pelas outras religiões. Resulta muito mais do sectarismo dos que são contra todas as religiões. E o que advogou Deedes em resposta a essas medidas? Recordou uma reportagem que fizera, mesmo antes do milénio, a países onde a religião cristã era ou tinha sido severamente reprimida: Rússia, Cuba, Sudão e Paquistão. Eis o que Deedes observou:

«Todos estes países ilustravam de diferentes maneiras a indestrutibilidade do cristianismo. Quanto mais pequena a minoria, quanto mais severas as punições ou as ameaças, mais forte era a fé. (...) Estes cristãos recordam-nos gentilmente que não é o fim do mundo se a nossa junta de freguesia insiste em substituir as ‘luzes de Natal’ pelas ‘luzes de Inverno’.»

Finalmente, a rainha Também a rainha de Inglaterra falou de religião na semana passada. Dirigindo-se ao Sínodo da Igreja Anglicana, sublinhou o carácter único da fé cristã:

«Para os cristãos, o elevado ritmo de mudança em que vivemos é uma oportunidade. Quando tanta coisa está em fluxo, quando uma quantidade sem limites de informação, muita dela efémera, está instantaneamente acessível, existe uma fome renovada daquilo que persiste e dá sentido. A Igreja cristã pode falar de forma única a essa necessidade, porque no coração da nossa fé está a convicção de que todas as pessoas, independentemente da sua raça, origem social ou circunstâncias, podem encontrar significado e propósito no Evangelho de Jesus Cristo.»

Pluralismo Pode agora perguntar-se aonde desejo chegar com todas estas referências. Em boa verdade, a lado nenhum obrigatoriamente. Cada um pode reflectir sobre estes tópicos à sua maneira. Eles não conduzem a uma conclusão única. Mas negam uma conclusão única: a de que a exclusão das referências religiosas da praça pública é condição da liberdade ou da tolerância.

Monismo dogmático Em boa verdade, essa conclusão única é unicamente devedora da pobre cultura política francesa. E o que essa pobre cultura política tem de mais pernicioso é a busca da uniformidade. Para cada problema, ela imagina que existe uma e uma só solução perfeita. Menos do que a perfeição não a satisfaz. E imagina que a solução perfeita se obtém através de um raciocínio dedutivo elaborado pelos chamados «especialistas». Uma vez desenhada a solução perfeita, ela deve ser uniforme e centralizadamente imposta a todas as realidades locais, a todas as circunstâncias particulares, a todos os modos de vida que não foram centralmente desenhados de acordo com a solução perfeita.

Michael Oakeshott, Isaiah Berlin e Anthony Quinton chamaram a isso «política de perfeição». E avisaram sobre as suas consequências: em nome da liberdade, restringe-se e desprestigia-se a liberdade; e fomenta-se radicalismos de sinal contrário.

jcespada@netcabo.pt


(In Expresso, 3 de Dezembro de 2005)

quarta-feira, novembro 30, 2005

COISAS QUE PARECEM EVIDENTES

CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão


Acompanhar o mundo através dos meios da comunicação social, nos dias que correm, é um exercício de sofrimento a que não nos podemos furtar sem sentirmos culpa. Em todos os continentes, pelo que vimos e lemos, povos inteiros sofrem guerra, fome, doença sem assistência, privação de liberdade, risco de vida quando tentam a emigração clandestina, revoltas em guetos suburbanos, todo este calvário humano emoldurado na pastosa da retórica que é de uso entre políticos e outros mentirosos.
É este um garantido e estranho sofrimento, principalmente para os que, independentemente da religião que pratiquem, ou que não pratiquem nenhuma, pautam o sentido da sua vida pelo respeito que é devido à pessoa humana e à Natureza.
De facto, a pessoa humana tem direito aos bens básicos: saúde, habitação, educação, trabalho e liberdade de expressão e associação, e atmosfera limpa. Nos poucos países onde estes direitos estão garantidos, os povos não agradecem aos políticos nem lhes fazem vénia pela simples razão de lhes terem dado o pedido voto para que realizassem essa tarefa nobre de garantirem e respeitarem o direito natural dos povos. Nos poucos países que gozam desta normalidade, os povos não baixam a cabeça diante dos políticos, olham nos olhos dos eleitos, com simpatia se eles se portarem bem, com desprezo se eles tentaram caminhos ínvios. Nesses países, os políticos são empregados do povo, e apenas isso: dá-se-lhes uma tarefa e espera-se que cumpram. Para isso o povo lhes paga. E por isso, através de eleições, os povos despedem quem não serve.
Infelizmente, são em maior número os países em que os políticos se consideram uma casta, uns seres predestinados que podem usar e abusar do dinheiro e da paciência do povo, sem darem contas nem mostrarem contrição quando apanhados em falta. Há mesmo países tão atrasados que neles vicejam, enriquecem e se perpetuam aqueles que mais mentiram e roubaram. É, entre outros casos de democracia mal entendida,
a situação em países de África, América do Sul e Ásia, e mesmo entre as ex-colónias da União Soviética e o Médio Oriente, onde os povos emigram aos milhões... muitas vezes para países onde políticos e outros mentirosos têm vindo a apoiar, por anos a fio, os seus comparsas a quem sobra em impiedade e estupidez aquilo que lhes falta em respeito por si mesmos e pelos povos que dominam em vez de servirem.
Esta cumplicidade tenebrosa é a causa das vagas de emigrantes desesperados que morrem em barcos de acaso nos mares ou que se esfarrapam em muros de arame farpado, todos acossados pela fome, pela guerra, pela doença, pela ausência de liberdade e de respeito nos seus países. Ninguém emigra por gosto ou por desporto.
A emigração é uma provação enorme que parte o coração de qualquer um. Quem disser o contrário, não sabe o que está a dizer. Só há uma solução, talvez utópica, para dar ao mundo a paz de que ele precisa urgentemente: em vez de esmolas que quantas vezes se perdem em bolsos corruptos, os povos precisam de ter terra sua para lavrar, minas para explorar, mares para pescar, escolas para formar gerações, hospitais dignos desse nome. Esse é o grande desafio que se põe aos países em que se respeitam os direitos básicos do seu próprio povo, à custa da rapina, mais ou menos solapada, que exercem em países que desrespeitam esses direitos básicos através da cumplicidade que tecem com os políticos locais – esses seres espantosos que vestem Pierre Cardin e têm filhos a estudar nas capitais europeias, enquanto o seu povo anda andrajoso, esfomeado e sem direito a nada. Será uma utopia desejar isto, mas se a humanidade perder a capacidade de sonhar, a vida não tem sentido.
Nós, portugueses, sempre que sonhámos grande, fizemos algumas coisas de mérito que a História registou. Nós, portugueses, sempre que fomos assumidamente humildes, ganhámos o mundo e o respeito dos outros povos. Perante a mediocridade e mentira que somos obrigados a suportar, só temos um saída: sonhar grande, com humildade e fé, agir de boa fé e sem medo. Agora mesmo.

sábado, novembro 26, 2005

Sobre a Decadência do Debate de Ideias

Com a devida vénia, reproduzimos da página da Associação dos Professores de História ( http://www.aph.pt/opiniao/index.html):

Sobre a Decadência do Debate de Ideias
Por Paulo Guinote

«A apresenta uma opinião, enquanto B pensa na que irá injectar logo que possa, de forma decente. Isto é uma troca no sentido em que “trocamos” saudações: oferecemos uma fórmula e é-nos oferecida outra, mas geralmente vamo-nos embora com a nossa

J. Barzun, The House of Intelect, p. 63.


Há mais de quatro décadas, Jacques Barzun ocuparia boa parte de um dos capítulos da sua obra The House of Intelect (1959, 22002) lamentando o declínio da conversa como forma privilegiada para o debate de ideias e para o exercício produtivo das nossas capacidades intelectuais. Segundo ele o hábito de conversar intelectualmente desapareceu quase por completo na sociedade ocidental. Em vez de construirmos uma conversa, articulando o nosso raciocínio no dos nossos interlocutores, analisando argumentos, avançando para novas ideias, limitamo-nos a "trocar ideias", no sentido comercial do termo. Toma lá a minha opinião, dá cá a tua, e pronto, já está, ficamos à mesma na nossa e tudo fica na mesma.

A razão para esta situação, segundo Barzun, está naquilo a que chama a ascensão das “maneiras” dos “bons modos” que, a coberto de pretensos ideais democráticos, parece querer a todo o custo evitar os problemas e os confrontos, em busca de um consenso que a ninguém desagrade e a todos satisfaça.

Realmente, embora escrito em 1959, isto retrata a actualidade da nossa vida intelectual e académica de forma atrozmente rigorosa. Ninguém está para pensar sobre o que os outros dizem. Apenas se aceita ou recusa, ponto final, sem mais elaboração. E quando as ideias diferem, o mais habitual é uma de duas soluções, ou ignorar as opiniões adversas ou então atacá-las como ofensivas sem discutir os seus argumentos. Agora discutir ideias, analisá-las, aperfeiçoá-las, modificá-las perante os outros, isso é que não porque parece ser sinal de fraqueza das nossas próprias convicções ou crenças.

Esta atitude traduz-se, na prática, numa crescente esterilidade do que passam por ser os “debates” de ideias no nosso país da vida política à académica mas passando por quase todos os aspectos da nossa vida. Os danos que este autismo traz manifestam-se, em minha opinião, em duas situações de igual modo prejudiciais ao desenvolvimento intelectual da nossa sociedade:


Por um lado, a cristalização das divisões entre as várias áreas científicas ou disciplinares em que o conhecimento humano se foi fragmentando, particularmente após a crítica pós-moderna ao paradigma herdado do positivismo. Da macro-divisão primordial entre as chamadas ciências físico-naturais, ditas “exactas”, e as ciências sociais e humanas, às subdivisões no interior de cada disciplina/ciência, o conhecimento humano foi ficando cada vez mais compartimentado e foram ficando cada vez mais reduzidas as possibilidades de debate de ideias em virtude dos antagonismos desenvolvidos pela competição entre as cada vez mais especializadas micro-áreas do conhecimento. Apenas a título de exemplo, recuperemos o movimento de progressivo estilhaçamento das Ciências Sociais e Humanas que, da autonomização dos campos próprios da Sociologia, da Antropologia ou mesmo da Psicologia em relação à Filosofia, à História ou mesmo à Geografia, passou para um mosaico quase infindável de micro-variantes que, mesmo quando ditas transversais e transdisciplinares, só sentem que a sua identidade está construída quando delimitam ferozmente as suas fronteiras e uma linguagem própria em relação aos campos do saber mais próximos. Aqueles que pretendem, sob o manto da construção de um “novo paradigma” ou de um “paradigma emergente”, alcançar uma nova unificação do saber recuperando o “senso comum” como via válida para o conhecimento científico, parecem esquecer que um paradigma não é meramente uma nova teoria concorrente às preexistentes, mas sim o conjunto de teorias que, de uma forma mais ou menos articulada, constituem o corpo de “conhecimento” aceite enquanto tal pela maioria da comunidade científica num dado período. E, neste sentido, estamos actualmente, muito longe de um paradigma aceite pacificamente pela maioria de uma comunidade científica fragmentada e pouco dialogante.

Por outro lado, a inutilidade de muitos encontros ditos “científicos” entre especialistas de determinadas temáticas em que cada um se apresenta munido das suas opiniões, as quais são expostas com maior ou menor rigor e/ou brilhantismo mas que, em boa verdade, acabam por nunca ser verdadeiramente contraditadas mas meramente trocadas. Se não são apenas sumariamente elogiadas, por obrigação formal da ocasião, são criticadas pelos seus oponentes mas de uma forma que inviabiliza o seu eventual aperfeiçoamento através de um debate sério. Neste caso, as divisões de carácter disciplinar dão lugar à competição entre especialidades e, muito mais grave, às inimizades pessoais que se traduzem num isolamento de grupos de indivíduos com interesses comuns, que lutam por um melhor posicionamento na comunidade intelectual/académica, degladiando-se entre si sem nunca confrontar verdadeiramente as respectivas posições.

No caso da História, que aqui mais nos interessa e ocupa, este movimento para a hiper-especialização começou por cruzar a segmentação cronológica de maior ou menor amplitude com as divisões temáticas de maior (História Social, História Económica, História Política, História Cultural, História Institucional, etc, etc) ou aparente menor ambição (História dos Descobrimentos, História das Mulheres, História das Técnicas, História deste ou daquele conflito militar, entre muitos exemplos possíveis).

Um pouco à semelhança das clivagens políticas, à medida que a fragmentação cresce, maiores são os muros que se levantam contra o exterior, e quanto mais específica a área de estudo (por exemplo, a penetração dos Jesuítas no Tibete entre 1570 e 1580) maior é a animosidade contra a concorrência próxima (a influência franciscana no Tibete entre 1575 e 1585, continuando no nosso exemplo caricatural). E também à imagem da vida política, acaba tudo por culminar no plano pessoal do relacionamento entre investigadores de uma mesma micro-área de trabalho ou de micro-áreas contíguas.

Nunca encontrei reacções tão negativas e violentas ou atitudes de mais ostensiva ignorância mútua como entre estudiosos de um mesmo tema que, sentindo-se ameaçados, baseiam o seu comportamento em estratégias de uma agressividade mais activa (ataque pessoal sem debate de ideias) ou passiva (manifestação de desconhecimento do trabalho de outrém como forma de evitar a sua discussão).

Esta atomização, por paradoxal que pareça, é reforçada pelos comportamentos de grupo em que os investigadores se envolvem como mecanismo de defesa perante o que acham ser ameaças externas. Funcionando em grupo num sistema que lembra as velhas clientelas romanas, os indivíduos sentem-se mais protegidos e, em simultâneo, mais poderosos, conforme a notoriedade do(s) seu(s) patrono(s). Neste sistema, como parece natural, a protecção é muitas vezes feita à custa de um pouco da nossa liberdade (neste caso, a intelectual) e as heterodoxias são duramente punidas.

A tradução prática deste tipo de comportamentos, para além da trivial e secular pura maledicência mais ou menos dissimulada, encontra-se na forma como funcionam as poucas revistas da especialidade que sobrevivem entre nós (com dificuldades nascidas do público diminuto de fiéis a que se dirigem), nos mecanismos de selecção de colaboradores ou mesmo da redacção de recensões ou de divulgação de projectos de investigação em curso. Como é óbvio, seleccionam-se e divulgam-se apenas os “nossos”, a menos que seja para sumariamente criticar de forma destrutiva os “outros”, para isso servindo o mais ligeiro pretexto ou lapso encontrado. No caso particular das recensões, é curioso como as feitas sobre as obras dos “nossos” são meros resumos encomiásticos do seu conteúdo, quase podendo ter sido feitas pelos próprios autores para colocar na contra-capa do livro a pedido da editora, enquanto as que são feitas sobre os “outros” passam quantas vezes apenas por detectar o pequeno pormenor errado ou a velada acusação de ignorância e incompetência. Apenas para exemplificar, há um ano ou dois, numa revista da especialidade, três bons investigadores com responsabilidades na História da Expansão Portuguesa envolveram-se em dura polémica sobre a qualidade da respectiva competência científica, usando como argumentos fundamentais para a “discussão” questões de favores pessoais concedidos/recebidos, mas raramente confrontando ideias, conceitos ou métodos de trabalho.

Esta agressividade é o reverso da atitude que postula o silêncio sobre a “concorrência” como forma de a tornar invisível. Neste caso, os exemplos seriam ainda mais fáceis de encontrar, desde os casos em que um(a) especialista de determinada área de estudo é convidado a apresentar um ponto da situação da pesquisa realizada à mera leitura das bibliografias de obras tidas como “de referência”.
Em qualquer dos casos, aquilo a que se procura fugir é a um verdadeiro confronto de ideias, ao debate em torno de concepções diferentes sobre um mesmo fenómeno ou assunto e a uma eventual reavaliação das nossas próprias convicções perante o seu confronto com outras alternativas, em resumo, é a fuga exactamente ao que devia constituir o cerne do trabalho intelectual. O contraditório não é necessariamente uma ameaça, mas antes um mecanismo indispensável para o progresso.

Infelizmente, tanto a agressividade crítica não fundamentada como o ignorar ostensivo das vozes discordantes, só agravam o isolamento paroquial a que se têm vindo a votar muitas das áreas de especialização não só da História como do próprio conjunto das Ciências Sociais e Humanas, ainda seduzidas pelo brilho retórico do paradigma pós-moderno e incapazes de ultrapassar o seu relativismo, mesmo quando recorrem às mais elaboradas construções teóricas para esconder o vazio do seu conteúdo. Aliás, talvez a decadêncida do debate de ideias seja consequência directa e inevitável desse mesmo vazio.

Paulo Guinote

segunda-feira, novembro 21, 2005

Querem República? Paguem-na!

por Dom Vasco Teles da Gama

O colapso da Europa está em curso, curiosamente, na pátria da república e em parte por causa dela. Pasme-se! Os tumultos nos arredores de Paris não foram pronta e firmemente reprimidos pelo Estado de Direito, porque o Presidente em final de mandato está sem poder real e o Ministro do Interior do Governo é um dos pré-candidatos à sucessão, contra o actual Primeiro-Ministro. Assim, quanto pior for o desempenho deste, mais hipóteses terá o outro. Quanto a ética, estamos conversados.
Em Espanha, nasceu uma princesa. Para quem, como eu, ainda não esqueceu os Filipes que por cá reinaram, Leonor é uma boa notícia, não vá a História repetir-se.

Cá pelo burgo, apesar do pânico da gripe das aves, entrámos em pré-campanha para eleger mais um presidente. A previsível opção será entre o "profissional" que sabe de humanidades e tem a inegável vantagem da experiência, mas já tinha direito a reforma, mesmo ao abrigo da nova legislação socrática, ou o não profissional assumido, que sabe de finanças, seja lá para o que tais atributos nos venham a servir.

Mas ao pensar que, com o mesmo orçamento, os Espanhóis têm uma Família Real e com menos, têm os Belgas outra, pergunto-me se, constantemente forçados a apertar o cinto pela escassez de meios, não teremos escolhido (?) o sistema errado. Se ao orçamento juntarmos as despesas eleitorais e os custos políticos da divisão que ocorre em cada cinco anos, entre os portugueses, o valor agrava-se. "Last but not least", a tudo isto somam-se as reformas pagas a ex-chefes de Estado, mais as respectivas instalações (para o Dr. Sampaio já está em obras o atelier de pintura da Rainha D. Amélia, no Jardim das Necessidades), Secretárias, carro com motorista e seguranças.

Alguém nos explica que contrapartidas dão estes ilustres reformados à Nação, pelas regalias de que auferem? Não seria mais barato pagar-se-lhes um subsídio de reintegração, a reforma que já recebem e devolvê-los em paz para donde vieram? Como é que podemos pagar tão variados e elevados custos, com uma instituição que nos divide e cujo exercício nos tem demonstrado, como temos abundantemente verificado, que serve alternadamente de força de bloqueio ou de válvula de protecção à actuação dos governos, conforme eles sejam ou não do partido que os elegeu?

A estas perguntas, respondem os políticos com uma blindagem da Constituição, que nos obriga à forma republicana de governo, quer queiramos, quer não.

Querem república? Então paguem-na!

(In Diário Digital, em 21 de Novembro de 2005)

sexta-feira, novembro 18, 2005

Três jovens pesquisadores premiados por Bento XVI

Por sua contribuição na promoção do humanismo cristão

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 17 de novembro de 2005 (ZENIT.org).- Bento XVI premiou a pesquisa de três jovens intelectuais por sua contribuição na promoção do humanismo cristão.

O vencedor desta edição do Prémio das Academias Pontifícias, instituído há dez anos por João Paulo II, foi o doutor Giovanni Catapano, de Pordenone, por sua obra «O conceito de filosofia nos primeiros escritos de Santo Agostinho. Análise dos passos metafilosóficos desde o “Contra Academicos” ao “De vera religione”».

Bento XVI, que também fez a sua tese sobre Santo Agostinho, reconhece em uma mensagem enviada à Sessão Pública anual das Academias Pontifícias, celebrada na terça-feira passada, 15 de Novembro, que a pesquisa de Catapano «indaga adequadamente na concepção filosófica do “primeiro” Agostinho em seus aspectos mais originais».

O prémio, entregue no Vaticano, foi proposto ao Papa pelo Conselho de Coordenação das Academias Pontifícias, cujo presidente é o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura.

Giovanni Catapano doutorou-se em 1999 em filosofia na Universidade de Pádua e dedica-se à filosofia moral e à história da filosofia e patrística.

Por sugestão do próprio Conselho de Coordenação, o Papa --«como sinal de apreço e alento»-- entregou também duas medalhas pontifícias a outros dois jovens pesquisadores.

Trata-se, em primeiro lugar, do doutor Massimiliano Marianelli, da Universidade de Perúgia, por sua obra «A metáfora reencontrada. Mitos e símbolos na filosofia de Simone Weil», publicada na Itália por «Città Nuova».

O outro premiado com a medalha do Papa é um sacerdote e professor da Universidade Pontifícia da Santa Cruz, Santiago Sanz Sánchez, originário de Talavera da Rainha (Toledo, Espanha), por seu estudo sobre «A relação criação e aliança na teologia contemporânea».

terça-feira, novembro 15, 2005

DE PAPOILA AO PEITO

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

Estando o céu bem disposto com o Canadá, os primeiros dias de Novembro em Toronto vêm soalheiros e macios, honrando assim a tradição do Verão dos Indios, que vem a ser como o portuguesíssimo Verão de S. Martinho. Um sol especialmente brilhante, que acaricia e não queima, perde-se por entre as derradeiras árvores quase despidas do dourado esplendor do Outono, e torna quase irreais os longos tapetes de folhas caídas ao longo dos jardins e parques que voam ao de leve sob a brisa que, delicadamente, avisa que o Inverno vem a caminho.
Nesses dias poucas são as lapelas e botoeiras que não ostentam uma rubra papoila que centenas de voluntários do Salvation Army e de outras instituições cívicas põem ao peito dos que depositam nas suas caixas a contribuição para as associações dos antigos combatentes. Nas horas de ponta, quando as multidões fazem rios caudalosos, as papoilas correm, reflectem-se nas vidraças, dobram esquinas, sobem escadas rolantes, enchem os transportes, tomam conta da cidade, como se esta fora uma seara abundante. Na Primeira Guerra Mundial, um poeta soldado anglo-saxónico, em combate na Flandres, ficou emocionado ao encontrar papoilas nos vastos campos sulcados de trincheiras, entre pedras, em tufos de perdido trigo. Escreveu um poema que para sempre ficou como memória dos milhares de homens que o Canadá e os Estados Unidos perderam em campos de batalha da Europa em guerra.
As papoilas saltaram dos versos para as lapelas e botoeiras dos que fizeram do Norte da América o lar que os seus países não lhes puderam ou souberam dar.
Resulta natural que, de papoila ao peito, desde a Governadora Geral até ao mais humilde cidadão, todos participem, no dia 11 de Novembro às 11 horas, das cerimónias provinciais em memória dos que tombaram nas guerras, desde a primeira até às actuais. E que todos sigam pela televisão as cerimónias em Otava, na colina onde está o parlamento federal. Cerimónias que, contando com a oração pública dos chefes das grandes religiões e com a deposição de coroas de flores nos monumentos dedicados aos combatentes, exibem um cortejo de guardas da Raínha, dos regimentos escoceses e dos batalhões actuais, com as suas bandeiras e fanfarras. A nota emocionante é a do cortejo que se lhe segue, os antigos combatentes, eles mesmos, fardados e com as medalhas, muitos deles em cadeiras de rodas, mas todos de cabeça erguida e a postura humilde de quem serviu bem. Ao longo das ruas, dezenas de milhares de pessoas, aplaudindo. Mares de crianças com bandeiras do Canadá, muitas delas agitando bandeirolas onde se pode ler THANK YOU. Crianças a quem foi ensinado que devemos a nossa liberdade e bem estar àqueles homens e mulheres que arriscaram a vida na luta contra a besta sanguinária e tirana, dizem OBRIGADO. O Canadá não é um país militarista, antes é um país de paz que conta com forças armadas de grande profissionalismo e dedicação, com abundantes provas dadas em missões um pouco por todo o mundo.
Nem eu, que escrevo estas linhas, sou militarista. Mas, porque a História é quem manda, sei bem que Portugal foi fundado por um Príncipe e seus próximos, pelos servidores da Igreja e pelos militares. Não é um país de acaso. É um país com destino marcado. Os militares portugueses foram estimados pelo povo sempre que este se revia neles, e daí vinha a sua força. A sua fraqueza adveio da fatalidade de, no curto espaço de pouco mais de meio século, terem sido pretorianos de um regime ditatorial, de que se tentaram redimir fazendo o golpe militar de 25 de Abril de 1974. Passada a euforia, um bando de militares vendidos a partidos e interesses internacionais, caíram na fraqueza de serem a guarda pretoriana do novo totalitarismo, desta vez, comunista. Toda a Nação sofreu com isso, e ainda sofre. Penso, no entanto, que estes 31 anos de novo regime deram razão aos militares que se rebelaram ou afastaram, servindo de crua lição a todos os militares jovens. É esta ala jovem a força das actuais forças armadas. Do mesmo modo que a juventude remoça e fortalece a Igreja.
Creio ser tempo de se ensinar às crianças o que quer dizer um OBRIGADO que contempla a força subterrânea de um povo sofrido, mal amado, mas em quem a esperança não desfaleceu ainda.

domingo, novembro 06, 2005

JOSEPH PEARCE EM PORTUGAL (9-13 Novembro 2005)

Biógrafo de Tolkien, Chesterton, CS Lewis, Oscar Wilde, etc.

9 Novembro, 4ª fª, 18h00 – “Modernism and Catholicism”Conferência a alunos de Mestrado e Doutoramento da Universidade Católica Portuguesa (UCP)

Sala de Exposições

Entrada Livre



10 Novembro, 5ª fª, 18h00 – “Catholic thought and Culture”

Conferência integrada no ICNE

UCP, Anfiteatro A1

Entrada Livre



11 Novembro, 6ª fª, 19h30 – “G K Chesterton: Wisdom and Innocence

Conferência promovida pelo Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, integrada no ICNE

UCP, Anfiteatro A1

Entrada Livre


12 Novembro, sábado, 10h30 – “CS Lewis and The Chronicles of Narnia”

Tertúlia na sala 1 do Cinema Londres, no âmbito da rubrica do Magnolia Caffé “Cultura ao Pequeno Almoço”, com a colaboração do Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano.

Poderá ser adquirida a edição portuguesa, da Editorial Presença, de “As Crónicas de Nárnia”, cuja adaptação ao cinema foi feita pela Disney e estreará em Portugal no dia 8 de Dezembro.

quinta-feira, outubro 27, 2005

ELEIÇÕES E OUTRAS RALAÇÕES

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


Na Pátria julga-se que os emigrantes, abanando a árvore das patacas como modo de vida, estão irremediavelmente longe da realidade nacional pelo que será fácil aos políticos, que aterram nas comunidades como os milhafres quando é caso disso, obterem adesão e votos em troca de promessas eleiçoeiras. Os portugueses que não saíram do país têm um retrato falseado do que de facto pensam e sentem os emigrantes, graças a diplomatas relapsos, a deputados pela emigração mentirosos ou omissos por conveniência, devidamente ajudados por uns quantos correspondentes da LUSA que, embora pagos pelo dinheiro que os contribuintes são obrigados a esportular para manter essa agência noticiosa estadual, tratam de servir apenas, e só, os partidos a quem devem o tacho. Retrato falseado que, por inércia, a comunicação social veicula, sem curar de saber o que realmente se passa. A formidável abstenção eleitoral na emigração seria um cartão vermelho incontornável, a exigir urgente e aprofundado estudo, se Portugal tivesse a dirigir os seus destinos políticos sérios e decentes. Mas não é, infelizmente, o caso. Portugal está a asfixiar num novelo de faz conta, tecido e mantido pela camarilha partidocrática e pelos aproveitadores de todos os regimes.
Tem-se como assente, na Pátria, que o emigrante é um pouca-coisa que só lê a BOLA. De facto, esse é o jornal nacional mais distribuído nas comunidades emigrantes. Mas não se diz, por ignorância ou má fé, que o emigrante lê, e avidamente, a imprensa regional – aquela que lhe diz concretamente o que se passa na sua região e no país. Ao que deve acrescentar-se a internet, sobretudo na área dos blogs, o telefonema semanal para a família e amigos, e também a RTP-Internacional que lhe mostra o estendal abominável da coisa pública porque as imagens falam por si, nem é preciso dar-se atenção à conversa para se perceber que tudo aquilo é uma peixeirada em pátio de cantigas. Politicamente falando, para os emigrantes o longe faz-se perto. Anda de olhos abertos e não vai na arenga das delegações partidárias locais nem nas postas de prosa corrompida e medíocre de jornais que vivem na babugem do subsídio ou do encosto que o deputado da emigração prometeu.
A proclamada parranice dos emigrantes foi chão que deu uvas porque, para além do mais, vai a Portugal uma vez por ano. E de ano para ano, vem mais desencantado, mais zangado. Zangadíssimo, nos últimos anos que, no dizer castiço do homem da rua, têm sido de pouca vergonha político-partidária. Ao que é prudente acrescentar as mentiras que o escarmentam, bacoradas por uns que prometem mundos e fundos aos antigos combatentes, sabendo que o país está em péssima situação financeira, por outros que se julgam apetrechados a botar sentença sobre o ensino da língua portuguesa no estrangeiro, pelos que garantem a melhoria de serviços consulares, pelos que fazem ouvidos de mercador ao abandono jurídico daqueles emigrantes que são vigarizados em compras de imóveis ou em maus serviços bancários, etc., etc, etc. Um muro de lamentações maior que o de Jerusalém.
Há momentos em que os emigrantes se identificam com António Nobre, quando no SÓ exclamou amargurado: “amigos, que desgraça nascer em Portugal”. Mas são mais os momentos em que se indignam, se revoltam, porque esperam o regresso de Portugal a si mesmo, à sua vocação centenária de modéstia e honradez, de frugalidade e verdade.
Por isso mesmo ainda têm uma centelha de esperança quando um ministro que não pode ser acusado de corrupto ou de incompetente, no caso o dos Negócios Estrangeiros, promete limpar consulados e embaixadas dos parasitas que os enxameiam por via da colocação política. Será um pequeno passo, mas é um passo no bom sentido. Como podemos ficar indiferentes à nomeação de um biólogo para o cargo de conselheiro social, que sabe tanto dessa área como eu de lagares de azeite? É o caso, nos dias que correm, em Otava, onde passa férias pagas pelo erário público um funcionário do Ministério do Ambiente, apenas e só porque é amigalhaço do secretário de estado das Comunidades e foi membro do gabinete de Sócrates quando o actual primeiro ministro passou por essa pasta. E dum outro que lê livros sem parar perante uma turma de adultos, autoproclamado professor de Português graças ao laxismo do Instituto Camões. Ou de outro, que desde a África do Sul só participa em banquetes e jantaradas, sem que tenha feito nada pelo ensino da língua portuguesa, mas está pago como tal por todos nós. Enquando estes parasitas refocilam, num fartar vilanagem, quem é competente, honesto e cumpridor, é saneado disfarçadamente, como quem não quer a coisa, por uns pedreiras de serviço à partidocracia reles que está a desgraçar o país.
Eleições? As autárquicas, vistas deste lado, puseram o cidadão comum sem fé nenhuma na justiça portuguesa, essa que faz greve porque lhe buliram nas regalias, mas a quem devemos os Isaltinos, os Ferreiras Torres, as Fátimas de Felgueiras e companhia, essa que nunca ressarciu e dignificou os emigrantes roubados pela Caixa Económica Faialense mas inocentou quem participou da quadrilha. As presidenciais, trazem ao menos a concordância de todos nós com a propaganda que grita que Mário Soares é o espelho do regime. Nada mais verdadeiro. Ao menos isso. Estamos fartos de saber que assim é, mas sempre é bom que outros o digam. O PS pode limpar as mãos à parede. Pensa-se que ganhará Cavaco Silva, mas sobretudo porque se demarcou dum PSD atirado à sarjeta pelos Barrosos, os Santanas Lopes, os Cesários, as Manuelas Aguiares, essa pandilha toda. O tempo dirá.