segunda-feira, setembro 19, 2005

Os militares que nos cobrem de vergonha

"Nesta época de dissolução, em que tão afrouxados estão os laços da disciplina"(carta de Mouzinho de Albuquerque ao príncipe real D. Luís Filipe), o Exército português entrou ao serviço de Júlia Pinheiro e de José Castelo Branco. É de bradar aos céus. O completo achincalhamento das nossas Forças Armadas, aquilo a que se assistiu domingo à noite na TVI. Mesmo que os oficiais venham agora dizer que passaram antecipadamente à reserva, eles lá estiveram, fardados, a brincar aos exércitos com Valentina Torres e Alexandre Frota, numa televisão em vias de vir a ser espanhola. Para quê o sangue derramado em Aljubarrota e o levantamento de 1640? Para tudo acabar às ordens da mulher do burro e do consorte da lady? Haja vergonha, senhores, haja decoro! Isto não pode ficar impune.

Jorge Heitor

Lisboa

Portugal

ano de 2005

quinta-feira, setembro 15, 2005

CABINDA

Em «Unica Semper Avis» foi adicionada a seguinte referência bibliográfica na página dedicada a CABINDA, e para a qual chamamos a atenção dos nossos leitores:

PORTO, João Gomes, "Cabinda Notes on a soon-to-be-forgotten war", Occasional Paper 77, Institute for Security Studies, August 2003 [em linha]. [consulta em 15.9.2005]<http://www.iss.co.za/pubs/papers/77/Paper77.html>

quarta-feira, setembro 14, 2005

708 anos sobre o Tratado de Alcanices

Na sequência de esclarecida política diplomática, o Rei D. Dinis assinou com o Rei de Castela, em 12 de Setembro de 1297, o Tratado de Alcanices, pelo qual se fixou a fronteira entre os dois Estados peninsulares, sendo reconhecida a soberania portuguesa sobre os territórios e povoações de Riba-Côa, Ouguela, Campo Maior e Olivença.

Os limites então estabelecidos jamais sofreram qualquer alteração, assim se constituindo a mais antiga e estabilizada fronteira nacional da Europa.

Todavia, o Estado vizinho, que em diversas ocasiões e sob variadíssimas formas questionou a existência de tais limites, ocupou, em 1801, a vila portuguesa de Olivença. Ocupação esta que permanece, indignamente, apesar das determinações e acordos internacionais (designadamente o Tratado de Viena de 1815), apesar dos próprios compromissos assumidos pelo Estado espanhol, apesar do Direito
Internacional.

Na passagem de 708 anos sobre o Tratado de Alcanices, o Grupo dos Amigos de Olivença, denuncia - como sempre o fez desde a sua fundação por Ventura Ledesma Abrantes, oliventino refugiado em Portugal, há mais de 68 anos - a ocupação daquela parcela de Portugal.

Esta associação de cidadãos que não abdicam do exercício dos seus inalienáveis direitos de intervenção pública - continuando o testemunho de tantos vultos que pugnaram pela portugalidade de Olivença, como Hipólito Raposo, Hernâni Cidade, Jaime Cortesão, Queiroz Veloso, Torquato de Sousa Soares, General Humberto Delgado, Miguel Torga, Ricardo Rosa e Alberty - reclama-se, muito simplesmente, daquela que é a posição jurídico-política portuguesa, com cobertura constitucional: Portugal não reconhece legitimidade à ocupação de Olivença por Espanha, considerando que o
território é português de jure.

No momento em que se apresentam diversos candidatos a Presidente da República - garante da Independência Nacional - espera-se deles a iniciativa de trazer a debate a Questão de Olivença e a capacidade de apresentar um programa nacional para a sua resolução.

O Grupo dos Amigos de Olivença prosseguirá animosamente os seus esforços pelo reencontro com Olivença, no respeito pela História, pela Cultura, pela Moral e pelo Direito.

Que os cidadãos portugueses, por todos os meios, exijam que a Questão de Olivença seja colocada na agenda política nacional!

Lisboa, 12-09-2005.

A Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença


www.olivenca.org

terça-feira, setembro 13, 2005

Insucesso Escolar em Portugal

António da Cunha Duarte Justo(*)

A situação escolar em Portugal é catastrófica. Isto é confirmado a nível internacional pelo Estudo-PISA da OCDE e pelos últimos dados estatísticos fornecidos pelo Ministério da Educação (GLASE) sobre o insucesso escolar em Portugal nos últimos nove anos.

Os resultados do Teste PISA que compara o rendimento escolar dos alunos em 40 países tem sido sucessivamente um testemunho, a alto nível, da ineficiência do nosso sistema escolar. Portugal ocupa na lista das nações estudadas um lugar baixíssimo. Dos 40 países investigados, os alunos portugueses encontram-se no 30° lugar em Matemática, 28° em Leitura e 32° em Ciências Naturais.

Dos valores apresentados pelo ME (GLASE) relativos ao período que vaí de 1994 a 2003, a situação é gritante. Torna-se mais evidente atendendo aos destinos individuais não referidos. Assim, em 2003, do milhão e meio de estudantes do ensino básico e secundário que frequentavam as escolas portuguesas, 280.000 alunos reprovavam. A percentagem de retenção escolar no ensino básico até ao 9° ano foi constante (13%) nos 9 anos estudados.

A taxa de retenção e de desistência no ensino secundário (10.° ao 12.°) ainda foi maior, verificando-se uma média de 34,33 % relativa ao período de referência. Um em cada três alunos chumba. Em 2003 mesmo 43,5 % dos alunos do 12° não faziam todas as disciplinas, culminando o ensino tecnológico com 53,6 por cento de chumbos.

Uma Nação em agonia e ninguém se interessa

Uma catátrofe a nível individual e nacional se atendermos aos destinos individuais e aos prejuízos económicos nacionais aderentes à situação. Para quem sabe ler, isto significa um atestado de incompetência a todo o sistema escolar a nível de estruturas e de recursos humanos. Uma hipoteca para o futuro num país que irresponsavelmente tem vivido para inglês ver. Onde está a voz dos intelectuais, dos políticos e dos jornalistas? Que preparação levam os alunos para um mundo em mudança, cada vez mais competitivo e global? Que sociedade resultará de uma elite portuguesa medíocre?

No estudo nota-se um desaferimento crasso na passagem de um ciclo para o outro: se no fim do 1° ciclo do Ensino Básico (4° ano) chumbam 8,4 %, no 5° ano chumbam 14,9%; no 6° ano, fim do 2° ciclo, chumbam 14,6% e no 7°ano, início do terceiro ciclo do Ensino Básico, chumbam 24,4%; se no 9° ano ficam retidos 15%, no início do Ensino Secundário, no 10° ano, chumbam 34,8%. O que ressalta com evidência destas percentagens é a falta de aferimento e de díálogo entre as escolas (ou ciclos) que passam os seus alunos de um estabelecimento ou de um ciclo para o outro. A mão esquerda não sabe o que faz a direita.

O conjunto dos dados, tanto da Administração Portuguesa, como da organização internacional responsável por PISA, apontam para uma conclusão, ou melhor, para um diagnóstico: existe uma administração deficiente que se limita a administrar a miséria; sindicatos apenas interessados em defender os interesses pontuais dos docentes; uma classe política irresponsável e adormecida, desinteressada do futuro dos educandos e da nação.


De Crise em Crise : Tal Escola, Tal Nação
Urgência duma Comunidade Educativa

Um dos grandes males das sociedades modernas é a falta de disciplina e de conceitos concludentes. Se este é um problema internacional a questão em Portugal eleva-se à terceira potência. Vai sendo tempo de despertar, investindo na nossa identidade e deixando de olhar para os outros como exemplo, tal como faziamos nos séculos preparatórios da nacionalidade e dos descobrimentos. Para voltarmos a dar novos mundos ao mundo temos que nos deixar de estrangeirismos, tornando-nos mais portugueses, mais universais. A salvação não vem de fora nem de ladainhas muitas vezes repetidas por ideologias de segunda mão. Apostemos nas raízes da nossa cultura e na tradição que nos tornou grandes.

Um novo Perfil de Professor – Cada Escola com um Perfil próprio

Na nação como na escola não chegarão professores empenhados na sua disciplina, mas professores pessoalmente empenhados numa relação pessoal professor-aluno, numa relação pessoal de comunidades: comunidade docente e comunidade discente; não chega o diálogo é preciso relação e comunhão íntima. Na relação de um eu-tu consciente de que o próprio eu nasce de um tu.

Urge que a escola deixe de ser um sumatório de indivíduos, uma massa amorfa de pastores e ovelhas não identificados e desmotivados. A comunidade nasce de pessoas capazes de assumir responsabilidades e exercita-se na responsabilidade comunitária escolar em serviço mútuo, na autoconsciência e na capacidade de poder adiar a satisfação imediata. A comunidade escolar terá que se preocupar com a terceira coluna: a comunidade dos pais, a terceira coluna da comunidade educativa. A escola precisa de ideias claras e valores assentes; menos dever e mais ser. Todos os intervenientes terão que trabalhar na elaboração de um conceito de educação consensual à margem de partidarismos e de ideologias; neste sentido não se poderão culpar individualmente os pais pelos diferentes hábitos e sistemas educativos, atendendo a que partidos e ciência os tem considerado cobaias e presas. Cada escola precisa de menos regulamentação e de um perfil que a distinga das outras, com um sentimento de pertença, uma identidade própria, em que alunos e professores falem da sua escola de modo semelhante ao daqueles que falam do seu grupo de futebol ou do seu grupo de música. A falta de perfil das escolas é uma consequência de responsabilidades delegadas e deve-se tanto à rotina como a ideologias da moda assim como a um experimentalismo leviano, tudo isto baseado no abdicar da própria identidade.

Nesta Europa desorientada e confusa e em Portugal não há um consenso político nem científico de como educar, tornando-se a escola presa fácil de ideologias partidárias ou de experimentalismos precoces. Há muito que Portugal se encontra num processo de tranformação de valores em que, em nome de uma liberdade que não existe, se negam rituais, disciplina, ordem, educação... Parece querer-se um campo pedagógico frágil. É também fatal um espírito modernista mal entendido contra elites. Precisa-se uma nova educação: educar para elites responsáveis e não para craques ou afortunados que se alistam numa ou noutra organização, seja ela partidária, maçónica, futebolística ou religiosa; não chega uma elite de postos. Em pedagogia não há nada de novo que já não fosse expresso num ou noutro método já velho. As ciências da pedagogia e da psicologia necessitam de independência, deixando de estar ao serviço de ideologias ou modas. A escola tem qu se tornar num centro de vida e de interesses comprometedores em que a palavra relação seja honrada. O docente, mais do que um cientista, é um educador. A sua formação tem de ser mais completa e a sua escolha tem que obedecer a critérios mais rigorosos. O critério de funcionário público tornou-se anacrónico numa sociedade moderna e democrática. Não deveria ser prioritária a motivação pela segurança do funcionário público. A este sistema público estão inerentes vícios de classe acrescentados dos vícios próprios da administração que se inclina a conservar.

Saber, juventude, e um pouco de ingenuidade e de didática, não são suficientes para se formarem homens e mulheres conscientes e responsáveis na realização de um sonho e de uma realidade pessoal e nacional... Não se trata apenas de transmitir saber e de avaliar o aluno. Este tem que descobrir-se como consciência num processo de crescimento sem fim. Mais que nas classificações, o padrão de avaliação e de medição da actividade de professor/aluno deve verificar-se no desenvolvimento da personalidade e das competências específicas de cada aluno, à sua medida e da comunidade.

Rigor não exclui solicitude e encorajamento. Mais relação e respeito e menos medo e hierarquia. Um projecto consciente exige mais dos professores e dos alunos. A disciplina é a base de uma liberdade responsável.

O sentido da personalidade, o respeito mútuo, e a consciência de nos encontrarmos a caminho duma transcendência que supera a nação, são, entre outros valores cristãos, meios avalizados e provados ao longo da nossa história e que podem e devem tornar-se objecto de estudo análise e aplicação.

Um cultura iconoclasta que apenas substitui os seus santos de igreja pelos santos ou corifeus da ideologia, da literatura, da cultura ou da política, não passa de uma cultura de beatas, que se engana a si própria: imagens de imagens; e os seus corifeus: cegos guiando outros cegos...

Professores, políticos, jornalistas, já vai sendo tempo de deixarmos de jogar às escondidas com o povo e com a nação. Até quando teremos de continuar a ser um povo de fugida?...


* Professor de Língua e Cultura Portuguesas na Alemanha

quarta-feira, julho 20, 2005

Monarquia: falando de Coisas Sérias

por João Mattos e Silva

Alguma imprensa – com particular atenção de um semanário – sempre atento a tudo quanto seja polémico neste assunto – tem dado inusitada relevância aos que apelidam de monárquicos, confundindo-os com o PPM agora com visibilidade mediática graças ao seu actual Presidente e, creio que, sobretudo ao seu Vice-Presidente saído da popularucha "Quinta das Celebridades" para a política pêpemista. Ora nem o PPM representa os monárquicos – a esmagadora maioria ou milita ou vota noutros partidos – nem o actual PPM representa mais do que a cúpula que o tomou e uns tantos incautos que votaram nela.

O PPM nasceu de um grupo de monárquicos que se opunham ou discordavam do Estado Novo e que com o 25 de Abril quiseram marcar a diferença daqueles que na Causa Monárquica – onde já tinham ocorrido dissidências antes de 1974 – apoiavam o regime autoritário de Salazar, o supremo manipulador, que foi sempre alimentando a ideia de uma restauração a troco do apoio de monárquicos formados numa doutrina mal assimilada que os fez preferir a ordem a qualquer preço, sobre a liberdade dos que proclamavam que "o nosso Rei é livre e nós somos livres". Cumpriu a sua missão. Devia ter morrido aí.

A partir de então passou a ser um grupúsculo com ideias políticas de sinal contrário e ultimamente serviu para fazer, aqui e acolá, coligações com os grandes partidos, na convicção de que ascenderia ao poder, autárquico ou nacional. O PPM se já não era nada, hoje ainda o é menos, com tiradas do seu Presidente que se considera mais herdeiro dos Reis de Portugal do que o Senhor Dom Duarte de Bragança, por descender de uma Infanta casada com um Duque de Loulé e ou do seu Vice-Presidente que tendo tido a brilhante ideia de candidatar à Câmara de Cascais uma das celebridades de tal quinta, teve esta saída brilhante "Neste país pode-se ser homossexual, mas uma mulher solteira não pode ser candidata só porque teve vários homens"!

A defesa da monarquia é uma coisa muito diferente desta exposição mediática por más razões, muito diferente da defesa inglória e ridícula de uma pretensão à representação dos Reis de Portugal que a quase totalidade dos monárquicos vê com uma gargalhada, senão com comiseração pelos protagonistas atirados para a frente de guerras pessoais. É a defesa de um regime em que a Chefia do Estado e da Nação coincidem, em que o seu detentor não está dependente e prisioneiro dos votos dos partidos, em que a sua independência é garantia da estabilidade política, em que a representação exterior do País ganha outra visibilidade e outra credibilidade.

Para essa luta contribuíram e contribuem muitos portugueses de relevo, com formação ideológica e política, com convicções, no anonimato muitas vezes, sem parangonas nos jornais das intrigas políticas e da vida social, que só lhes interessa o apoucamento de luta pela Monarquia ou o seu lado "folclórico", das celebridades e dos aristocratas do "socialite".

A defesa da Monarquia é uma coisa séria. Não uma brincadeira de quem, sem saber como, se apanhou na ribalta política e dela fez trampolim para as suas "causas" pessoais.


Fonte: Diário Digital, 20 de Julho de 2005.

terça-feira, julho 19, 2005

O país que não merece ser desenvolvido

por João César das Neves

Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem. Esta é a conclusão de um relatório internacional recente sobre o desenvolvimento português. Havia até agora no mundo países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Trata-se de regiões que fizeram tudo o que podiam para estragar o seu processo de desenvolvimento e... falharam.

Hoje são países industrializados e modernos, mas por engano. Segundo a fundação europeia que criou esta nova classificação, no estudo a que o DN teve acesso, este grupo de países especiais é muito pequeno. Alias, tem mesmo um só elemento: Portugal.

A Fundação Richard Zwentzerg (FRZ), iniciou há uns meses um grande trabalho sobre a estratégia económica de longo prazo. Tomando a evolução global da segunda metade do século XX, os cientistas da FRZ procuraram isolar as razões que motivavam os grandes falhanços no progresso. O estudo, naturalmente, pensava centrar-se nos países em decadência. Mas, para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinham também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso.

Desconcertados, acabam de publicar, à margem da cimeira de Lisboa, os seus resultados num pequeno relatório bem eloquente, intitulado: "O País Que Não Devia Ser Desenvolvido - O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses".

Num primeiro capítulo, o relatório documenta o notável comportamento da economia portuguesa no último meio século. De 1950 a 2000, o nosso produto aumentou quase nove vezes, com uma taxa de crescimento anual sustentada de 4,5 por cento durante os longos 50 anos. Esse crescimento aproximou-nos decisivamente do nível dos países ricos. Em 1950, o produto de Portugal tinha uma posição a cerca de 35 por cento do valor médio das regiões desenvolvidas. Hoje ultrapassa o dobro desse nível, estando acima dos 70 por cento, apesar do forte crescimento que essas economias também registaram no período. Na generalidade dos outros indicadores de bem-estar, a evolução portuguesa foi também notável.

Temos mais médicos por habitante que muitos países ricos. A mortalidade infantil caiu de quase 90 por mil, em 1960, para menos de sete por mil agora. A taxa de analfabetismo reduziu-se de 40 por cento em 1950 para dez por cento.

Actualmente a esperança de vida ao nascer dos portugueses aumentou 18 anos no mesmo período. O relatório refere que esta evolução é uma das mais impressionantes, sustentadas e sólidas do século XX. Ela só foi ultrapassada por um punhado de países que, para mais, estão agora alguns deles em graves dificuldades no Extremo Oriente. Portugal, pelo contrário, é membro activo e empenhado da União Europeia, com grande estabilidade democrática e solidez institucional. Segundo a FRZ, o nosso país tem um dos processos de desenvolvimento mais bem sucedidos no mundo actual. Mas, quando se olha paraa estratégia económica portuguesa, tudo parece ser ao contrário do que deveria ser. Segundo a Fundação, Portugal, com as políticas e orientações que seguiu nas últimas décadas, deveria agora estar na miséria. O nosso país não pode ser desenvolvido. Quais são os factores que, segundo os especialistas, criam um desenvolvimento equilibrado e saudável? Um dos mais importantes é, sem dúvida, a educação.

Ora Portugal tem, segundo o relatório, um sistema educativo horrível e que tem piorado com o tempo. O nível de formação dos portugueses é ridículo quando comparado com qualquer outro país sério. As crianças portuguesas revelam níveis de conhecimentos semelhante às de países miseráveis. Há falta gritante de quadros qualificados. É evidente que, com educação como esta, Portugal não pode ter tido o desenvolvimento que teve. Um outro elemento muito referido nas análises é a liberdade económica e a estabilidade institucional. Portugal tem, tradicionalmente, um dos sectores públicos mais paternalista, interventor e instável do mundo, segundo a FRZ. Desde o "condicionamento industrial" salazarista às negociações com grupos económicos actuais, as empresas portuguesas vivem num clima de intensa discricionariedade, manipulação, burocracia e clientelismo. O sistema fiscal português é injusto, paralisante e está em crescimento explosivo. A regulamentação económica é arbitrária, omnipresente e bloqueante.

É óbvio que, com autoridades económicas deste calibre, diz o relatório, o crescimento português tinha de estar irremediavelmente condenado desde o
início. O estudo da Fundação continua o rol de aselhices, deficiências e incapacidades da nossa economia. Da falta de sentido de mercado dos empresários e gestores à reduzida integração externa das empresas; da paralisia do sistema judicial à inoperância financeira; do sistema arcaico de distribuição à ausência de investigação em tecnologias. Em todos estes casos, e em muitos outros, a conclusão óbvia é sempre a mesma: Portugal não pode ser um país em forte desenvolvimento.

Os cientistas da Fundação não escondem a sua perplexidade. Citando as próprias palavras do texto: "Como conseguiu Portugal, no meio de tanta asneira, tolice e desperdício, um tal nível de desenvolvimento? A resposta, simples, é que ninguém sabe.

Há anos que os intelectuais portugueses têm dito que o País está a ir por mau caminho. E estão carregados de razão. Só que, todos os anos, o País cresce mais um bocadinho. "A única explicação adiantada pelo texto, mas que não é satisfatória, é a incrível capacidade de improvisação, engenho e "desenrascanço" do povo português. "No meio de condições que, para qualquer outra sociedade, criariam o desastre, os portugueses conseguem desembrulhar-se de forma incrível e inexplicável." O texto termina dizendo: "O que este povo não faria se tivesse uma estratégia certa?".

sábado, julho 16, 2005

«Acredito na ideia do Quinto Império»

Dom Duarte de Bragança, herdeiro do trono de Portugal, afirmou em entrevista a um semanário:

"Desde criança que acredito na ideia do Quinto Império. Uma época em que os governantes actuariam sempre com base na Justiça e nos princípios do Espírito Santo."

Eis alguns excertos da entrevista:

...

- Sente-se rei de Portugal?

Não. Mas, em certa medida, sinto-me rei dos portugueses.

- Em que sentido?

Tenho um dever para com o país. Se os portugueses me quiserem, aceito as minhas responsabilidades políticas. Se não quiserem, ou não puderem exprimir-se, assumo da mesma forma os meus deveres morais, culturais e sociais.

...

- Porque razão um rei nunca demitiria um primeiro-ministro?

Porque o rei respeita o Parlamento e considera que os deputados estão ali em representação do povo.

...

- Quem gostaria de ver em Belém?

Não posso dizer. Mas preferia um militar. têm um sentido da dignidade do Estado e de independência em relação às forças políticas que os aproxima mais da tradição monárquica.

- Duas das premissas da democracia são a igualdade de direitos e de oportunidades entre todos. A monarquia não é o oposto de tudo isto?

Em teoria, a república é mais perfeita como regime democrático. Mas o que interessa no funcionamento dos Estados é a prática. E os reis, muitas vezes, defendem melhor as liberdades democráticas do que os presidentes. Por outro lado, a sucessão não é automática. O rei tem de ser aprovado pelo parlamento. Os perigos aparentes da monarquia estão previstos e controlados pela lei.

- Não pode chegar ao trono alguém manifestamente incapaz?

E o presidente da república pode ser um louco e estar ligado a narcotraficantes. Pode ser completamente incapaz e ser eleito. Basta que tenha dinheiro e uma boa equipa de publicitários brasileiros. Não há testes psicotécnicos para os candidatos a presidente.

Quais são neste momento os principais problemas que Portugal enfrenta?

- O primeiro é a falta de raciocínio lógico. No sistema de educativo não se treina a lógica, e isso leva a que não se compreenda a importância do civismo. A falta de lógica faz também com que os governantes ainda não tenham definido um modelo de desenvolvimento para o país. Vai variando por modas e por interesses de grupos. (...)

...

- Na semana passada, em Londres, assistimos a mais um atentado terrorista. Esta espiral de violência pode ser vista como uma guerra entre o Ocidente e o Islão?

É, de facto, uma guerra. Faz-me alguma impressão ver certos políticos, com ar de virgens ofendidas, queixar-se da cobardia dos bombistas que se suicidam. Podem ser muitas coisas mas cobardes não são. Só se matam porque acreditam que estão a lutar por uma causa justa. É complicado dizer isto mas nós, portugueses, também estivemos envolvidos numa guerra terrorista durante dez anos. Uma guerra que ganhámos militarmente mas que perdemos no aspecto político.

...

"D. Duarte. «Bombistas suicidas não são cobardes»; «Sinto-me rei dos portugueses»" , entrevista de José Eduardo Fialho Gouveia e fotografia de João Cortesão Gomes in O Independente, 15 de Julho de 2005, p. 1; 24-25.

Ver reprodução integral das palavras de Dom Duarte, Duque de Bragança, em
http://www.lusitana.org/causa_dd_2005_entrev_indepen.htm

quinta-feira, julho 14, 2005

Henrique Barrilaro Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003)

... a Lei deixou de ser expressão do Bem Comum para tornar-se imposição do grupo mais forte.

Dois anos após a morte de Henrique Barrilaro Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003), actualizamos o nosso espaço com o texto de uma palestra com especial significado e importância para a compreensão do pensamento deste nosso querido Mestre de Esperança: D. MIGUEL I E O PROBLEMA DA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA: http://www.lusitana.org/il_br_1971_dom_miguel.htm .

Quereis desfazer um erro? Nada mais que um erro? Lançai-vos numa aventura republicana. Quereis desfazer outro erro? Experimentai de novo uma aventura republicana. Se quiserdes combater ao mesmo tempo os dois erros, já tereis, provavelmente, de encomendar o feito a uma república de mentalidade monárquica.
Mas, se quereis construir; se é de edificar que se trata; se estais decididos a servir uma verdade que só se pode alcançar depois de vencidos os obstáculos do erro - então, aclamai o Rei!

Henrique Barrilaro Ruas in "D. Miguel I e o problema da Constituição Histórica", A Liberdade e o Rei, Lisboa, 1971, p. 165

quarta-feira, julho 13, 2005

TACANHÊS E PARTIDARITE ESTRANGULAM LÍNGUA PORTUGUESA

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

Estamos todos bem lembrados das arrebatadas declarações de amor à língua portuguesa desde o PR até ao mais insignificante secretário de estado, dos ministros ao mais obscuro diplomata. Quem os acreditasse pensaria que o ensino do português no estrangeiro é uma conquista que deveríamos à competência, à inteligência, ao espírito de bem comum dos oradores partidários. Nada mais longe da realidade Poderia até ser ridículo, se não representasse um embuste e um atentado aos valores da Pátria.
A triste verdade é que, do mesmo modo que Portugal nunca teve uma política de Emigração e de Imigração, também nunca teve política definida em relação ao ensino da língua e da história portuguesa nas comunidades emigrantes. Os 30 anos que passaram saldam-se por um somatório de contradições e confusões, de incompetências e oportunismos, onde têm medrado os aventureiros que se sentam nas cadeiras do poder e os que vivem parasitariamente à sombra destes. Um belíssimo caldo de cultura para os que vivem de e para a partidarite, boçalmente indiferentes aos danos causados ao país e aos dramas humanos e profissionais que geram.
Aos olhos do cidadão comum parece lógico que tudo quanto respeita ao ensino, designadamente ao ensino da língua portuguesa, deve ser programado, tutelado e mantido pelo Ministério da Educação. Mas, segundo a visão tacanha dos sucessivos governos, quem fornece coordenadores e professores de língua portuguesa é o Ministério da Educação, mas quem no terreno controla (e não poucas vezes sabota) os coordenadores, fora do país, é o Ministério dos Negócios Estrangeiros – esse que nem representações diplomáticas tem conseguido fazer funcionar satisfatoriamente, e quem sofre o mau serviço dos consulados bem o sabe, quanto mais saber seja o que for na área do ensino por parte de diplomatas de torna viagem que, em muitos casos, nem nas suas funções dão prova de competência. Foi com esta enxada malfazeja que os sucessivos governos levaram o ensino da língua portuguesa no estrangeiro a um pântano onde só as ratazanas engordam.
A situação, contudo, tende a piorar, a ficar sem saída possível.
Como, depois dum regabofe impune de 30 anos, a hora é de apertar o cinto, o estado (a que chegámos) tenciona em breve poupar dinheiro passando as coordenações para os consulados, ficando os coordenadores equiparados a técnicos consulares, a funcionários consulares, dando como pretexto os coordenadores ficarem mais perto das comunidades. Pretexto esfarrapado de quem tem a consciência de mal agir porquanto parece óbvio que se pretende tornar airosa a onda de saneamentos que aí vem, de modo a poderem ser colocados os amigos, os parentes e os aderentes do partido governamental. Para um governo que afirmou querer dignificar a língua portuguesa, aqui está uma medida bem pouco dignificante, pois bem se sabe que caos e que corrupção foram as escolas portuguesas, quando o assunto estava entregue a funcionários consulares (na maior parte admitidos por cunha e compadrio): uma auditoria severa demonstraria como foram indevidamente oficializadas algumas escolas, como foram reformadas por inteiro pessoas que faziam trabalho de secretaria e não pedagógico, como colecções inteiras de livros enviadas pelo governo português foram parar a casas particulares ou desavergonhadamente vendidas por bom preço, como subsídios dados a escolas noutro tempo foram aliviar os depauperados cofres de certos clubes, etc., etc. Ninguém acredita, ainda hoje, que esses “serviços” tenham sido prestados gratuitamente. Os coordenadores puseram ordem nesta desordem, e só por isso merecem bem o que ganham. Até agora têm prestado contas ao Ministério da Educação e ao embaixador da área a que pertencem. Daqui em diante a quem vão prestar contas: ao Ministério da Educação, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, aos embaixadores e aos cônsules que não tem formação pedagógica e não percebem nada do assunto, aos membros do Conselho das Comunidades (em que tantos há que mal sabem escrever uma carta para a família), aos directores das Regiões Autónomas que frequentemente, de forma abusiva e descarada, invadem terreno que é pelouro da República com o fito único de se exibirem em períodos pré-eleitorais ou para promoverem amigos ambiciosos, ou a todos ao mesmo tempo? Quem sai a perder desta futura salganhada? A língua portuguesa, as comunidades emigrantes e o país. Nem duvidem. O espantoso, o escandaloso, é que estas medidas sejam tomadas por governantes que, das comunidades portuguesas, apenas conhecem as viagens gratuitas que fazem à roda do mundo, com muita lagosta e condecorações a granel pelo meio, e as mordomias de que gozam nesses cargos. Nada mais sabem das comunidades. Se soubessem, certamente responderiam às cartas e relatórios enviados pelos coordenadores, pois não será por falta de boas maneiras que assim procedem. Nem ao menos têm a decência de ver o que se passa com o ensino de outras línguas europeias: têm técnicos apetrechados nos consulados, mas não dispensam, nas embaixadas, o responsável máximo representando o ministério da educação.
Curiosamente, ou talvez não, quem anda a congeminar estas mudanças iníquas não fala nos conselheiros culturais das embaixadas, em geral uns verbos de encher que não têm habilitações para o lugar que exercem, num tempo em que já há formação universitária na área da Cultura e da dinamização cultural. Nem fala dos conselheiros sociais que, por inerência de funções deveriam estar sempre próximos das comunidades, mas que diplomatas de vistas curtas desviam para tarefas burocráticas em lugar de se fazer o levantamento sério das necessidades e situações junto dos portugueses.
Que confusão vem a ser esta, sob a forma de “reformas do ensino”? Porque quer o ministério dos Negócios Estrangeiros controlar tudo, dominar tudo? Porque não fazem o que outros paises fazem: os diplomatas políticos dependem do embaixador, os diplomatas com pastas específicas devem articular o trabalho com o embaixador, mas respeitando a política do governo português. O conselheiro cultural deveria ser tutelado pelo ministério da Cultura, o conselheiro do ensino seria tutelado pelo ministério da Educação, o conselheiro social pelo ministério dos Assuntos Sociais, e assim por diante. Não se percebe como se colocam estas matérias nas mãos de embaixadores e cônsules, quantas vezes contrariando as políticas do governo. O resultado é confrangedor: é o governo a puxar para um lado e os “reizinhos” em terra alheia a criarem as suas estratégias de actuação em benefício da sua própria carreira. É comum os coordenadores reunirem com cônsules que nem lhes perguntam qual é a política do ministério da Educação para o ensino da língua portuguesa, embora se desdobrem em opiniões e sentenças sobre o assunto. Há cônsules, por vezes bem grosseiros, que apenas querem proteger escolas comunitárias de amigos e conterrâneos, outros que ficam surpreendidos por estar o ministério da Educação representado no local, outros querem fazer tudo e mais alguma coisa sem perceberem patavina do terreno onde se metem. Quem dá a estes diplomatas o direito de ditarem sentenças sobre o ensino de português, quando isso não faz parte dos conhecimentos deles?
Chegámos a ponto de todo o bicho careta tratar da língua portuguesa, num disparate pegado que não leva o ensino a lado nenhum. Há quem acredite que todas as mudanças a vir visam colocar o ensino do português sob a alçada dos conselheiros culturais, exímios artistas oriundos do Instituto Camões que muito têm contribuído para a desgraça em que se encontra esse organismo, pelas ruas da amargura e sem trabalho feito no terreno. Representantes do Instituto Camões deveriam ser pessoas com experiência de ensino universitário, com provas dadas no âmbito da investigação, do conhecimento das universidades e do que elas devem fazer em prol do mundo lusófono. Pode aceitar-se, nos dias de hoje e com milhões de portugueses radicados no estrangeiro, que esses representantes sejm licendiados em Direito ou História?
Acresce que, segundo consta nos bastidores, medra a ideia de os coordenadores não serem recrutados por concurso e sim por nomeação. E isso diz bem do desprezo que tem quem manda pelo profissionalismo e competência. Não há que saber: o governo prepara um saneamento geral para colocar os seus companheiros políticos, os amigalhaços, a parentela.
Tivessem eles amor verdadeiro à Pátria que não tratavam tão mal a sua língua e cultura.

sábado, julho 09, 2005

Ver, ouvir e sentir em português

por Jorge Heitor

O jornalista vê, ouve e sente tudo o que o rodeia, não lhe devendo ser indiferente a sua nacionalidade nem o meio em que está inserido. A um jornalista português o que mais deve interessar é a pátria portuguesa, a Península Ibérica, o Brasil, os países africanos que ainda há 32 anos eram administrados a partir de Lisboa, Timor-Leste e a Região Especial de Macau. E de modo algum a Turquia, o Uzbequistão, o Laos ou o Vietname. São estas as nossas prioridades. Ver e ouvir o que se passa na Cova da Beira, nos Açores, na Catalunha, em Cabo Verde. E só depois disso ter tempo para as vastidões da Sibéria ou para as arbitrariedades que se cometem na Birmânia. A um jornalista de Portugal pede-se em primeiro lugar que conheça Castela, Borgonha, Sabóia e outros locais relacionados com a gesta do seu povo, antes de começar a especializar-se na Tchetchénia, no Tadjiquistão ou na Mongólia. Ou seja, partir com os pés bem assentes na terra, para não tropeçar. Quem o não fizer, não está em verdadeira sintonia com os herdeiros da Ala dos Namorados e da dinastia de Aviz, que nos levou a Arzila, à foz do Zaire e a Moçambique. E não pode compreender devidamente o imenso mundo lusófono, desde a Amazónia ao pico do Ramelau, no território timorense.
Não é muito admissível que se vá passar férias à Tailândia antes de se conhecer toda a imensidão do Alqueva ou as vinhas do Pico. Ou que se ande à cata de novos escritores norte-americanos antes de se ler muito bem a Mensagem ou o Só.

8 de Julho de 2005

quarta-feira, julho 06, 2005

Hipocrisia e alguma ignorância

por Manuel Carvalho da Silva

Uma das expressões significativas dos défices mais profundos da sociedade portuguesa situa- -se na crónica fraca valorização do trabalho e na pouca dignidade com que se tratam os trabalhadores e, por consequência, as suas organizações e os seus representantes.

Não foi por acaso que o País sofreu nas últimas décadas, quase pacificamente, uma profunda destruição do aparelho produtivo, uma perda de qualificações identificada no desaparecimento de trabalhadores com profissões que foram apelidadas de velhas e hoje fazem imensa falta. Não é por acaso que não se avança, de forma sólida, na efectivação da formação profissional e continuamos com dificuldades de inovar e reestruturar as empresas e, em geral, a economia do País.

Hoje, na Europa, há sobreocupação de trabalho nas siderurgias e no sector de reparação e construção naval, ao mesmo tempo que se reclama uma profunda revolução nos meios de transporte, reforçando o papel dos caminhos-de-ferro e do transporte marítimo.

Entretanto, em Portugal, assistimos ao fecho da única siderurgia que tínhamos, ao encerramento da Lisnave, ao desaparecimento da metalomecânica pesada. E outros sectores fragilizaram-se profundamente, como as pescas, a agricultura, a cerâmica ou o sector alimentar. Em simultâneo, desbarataram-se, ou foram desviados para fortunas pessoais, milhões e milhões oriundos dos fundos comunitários e do Orçamento do Estado.

Tudo isso foi feito em nome da modernidade, caluniando trabalhadores e sindicalistas que lutaram contra essas desastrosas opções e que denunciaram as razões e as negociatas que suportavam muitos desses processos.

Sejamos claros, podem apresentar-se muitos projectos inovadores e sugestões de novas profissões mas, mantendo-se esta cultura, serão raros, embora honrosos, os casos que vingam.

Os que agora lançam calúnias sobre os sindicalistas e os trabalhadores "privilegiados" (slogan hoje mais aplicado aos trabalhadores da administração pública, mas que também pretendem aplicar aos do sector privado) são os mesmos que foram e são incapazes, por ignorância ou opção de classe, de fazerem uma análise séria dos problemas e baterem-se de forma empenhada pelo cumprimento da legalidade, da justiça social, da efectiva solidariedade e do desenvolvimento do País.

Se o fizessem, também saberiam defender uma verdadeira reforma da administração pública, cuja essência é de ordem estrutural e organizacional, o que implica definição clara de objectivos e criação de uma justa e funcional cadeia de responsabilização nos mais diversos sectores, valorizando, dignificando e responsabilizando todos os trabalhadores. É dessa reforma, feita para assegurar uma relação saudável com os cidadãos, para garantir funções e direitos sociais a todos, para apoiar e responsabilizar as empresas e a generalidade das organizações da sociedade e para promover políticas de desenvolvimento, que o País precisa.

Por hipocrisia, escamoteiam a verdade sobre a acção sindical e até lhes repugna a referência a qualquer das inúmeras e fundamentadas propostas e trabalhos que os sindicatos fazem, designadamente sobre o desenvolvimento, o emprego, a Segurança social, a saúde, o ensino, a formação profissional, a higiene, saúde e segurança no trabalho, a justiça, a igualdade, a imigração.

Qualquer "bicho-careta" com fraca ou apenas pontual experiência do mundo do trabalho e sem qualquer estudo, quer sobre as questões da estruturação e organização das empresas e do trabalho, quer sobre a regulação e regulamentação do trabalho, dá doutas orientações sobre o que devem fazer os trabalhadores e sindicalistas, sobre como se devem comportar face à actuação do capital, ou dos governantes, receitando sempre, em função do que está na "moda", as receitas do poder económico e financeiro.

O que o capitalismo neoliberal tem em marcha é a pretensão de impor as precariedades e a desregulação como regra na generalidade da prestação do trabalho, criando, a partir daí, a ideia de que os direitos no trabalho são privilégios.

O sindicalismo e os sindicalistas que, embora conhecendo bem o mundo do trabalho e a sociedade, têm lacunas e défices que vão procurando suprir, não vão desarmar nos seus objectivos a favor dos trabalhadores, da sociedade e até de muitos dos que os caluniam.

(in Diário de Notícias, 6 de Julho de 2005)

segunda-feira, julho 04, 2005

Bento Bembe

Editorial em Ibinda.com

Rui Neumann

Bento Bembe foi detido quando multiplicava esforços para a resolução pacífica do conflito em Cabinda. Uma prova clara que Angola não está disposta a qualquer negociação que conduza à paz em Cabinda, assim como é uma prova que os Estados Unidos da América (EUA) aprovam e caucionam em absoluto os excessos do Governo de Angola em Cabinda.

Contrariamente às contas secretas na Suíça, Inglaterra e na Madeira (entre muitas outras) que vários membros do Governo angolano possuem, contrariamente também às comissões secretas que vários estrangeiros e eminências pardas recebem do Governo de Angola, contrariamente à opacidade da governação angolana, Bento Bembe nunca se escondeu nem nunca viveu em secretismo, nasceu pobre e nunca conheceu a riqueza financeira, devido ao seu empenho e dedicação à luta de libertação do povo binda, tal como no passado fizeram Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, pelos seus próprios povos.

Bento Bembe estava em Haia para falar de paz. «Paz», uma palavra que perde completamente o seu significado e valor, quando a comunidade internacional toma uma postura de indiferença total, quando homens de coragem pretendem que «paz» não seja só três letras, mas sim uma realidade assente solidamente em três pilares.

Bento Bembe foi detido na Holanda e não em Cabinda, uma prova evidente da proliferação das mentiras de destruição massiva do Governo de Angola, pois Angola afirma que controla todo o território de Cabinda. Porém, Bento Bembe é detido na Holanda, um verdadeiro paradoxo para reflectir.

Outro paradoxo desta detenção é o facto de ter sido efectuada a pedido dos Estados Unidos, dado que foram os mesmos EUA que ajudaram financeiramente, directamente e através da ChevronTexaco, a FLEC durante longos anos. Mas o valor do ouro negro é mais forte que a dignidade.

Não é por acaso que a detenção de Bento Bembe ocorre num momento em que várias testemunhas afirmam que Angola prepara uma importante ofensiva em Cabinda, evidentemente negada por Angola, como também não é por acaso que a detenção ocorre quando Angola se prepara para eventuais eleições, e Cabinda será o «caso bicudo» tal como aconteceu em 1992. Estas faltas de «acaso» são uma prova acrescida que Angola não controla a situação em Cabinda, mas acima de tudo que Angola teme a resistência e a revolta crescente no território, daí como não pode esmagar eternamente e consecutivamente o povo, ataca os seus chefes, por intermédio dos EUA, numa tentativa ilusória de decapitar a vontade de um povo e o percurso irreversível da historia.

A detenção de Bento Bembe não é uma vitória para Angola ou para os EUA, é sim a capitulação da réstia dos argumentos destes dois países que se afirmam como paladinos da paz.




fonte: Ibinda.com

quinta-feira, junho 30, 2005

NO FIO DA NAVALHA

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão

O governo minoritário do Canadá, liberal e presidido por Paul Martin, exigiu o prolongamento das sessões parlamentares por entender que era urgente, prioritário e importante votar a proposta de lei sobre o “casamento” dos gays. A lei foi aprovada por 158 votos a favor e 133 contra, tendo-se abstido 25 deputados liberais, faltado 5 da mesma bancada e pedido a demissão um ministro. Os votos a favor foram do Partido Liberal, do Bloc Quebequois (separatista) e do New Democratic Party (socialista). Por conseguinte, os únicos que votaram contra foram os do Partido Conservador.
Esta foi a quadragésima vitória de um governo que, por ser minoritário, tem sido alvo de uma marcação cerrada por parte das oposições. Mas esta vitória foi obtida ao arrepio das grandes religiões monoteístas – cristã, maometana e judaica – que, antes e depois da votação, se manifestaram de modo incisivo quanto ao insulto feito ao casamento de homens e mulheres, uma instituição milenar com foros de sacramento.
A excepção foram franjas residuais de alguns credos protestantes que, servidos por folclóricos pastores agindo em causa própria, têm realizado “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo, depois difundidos pela comunicação social. Paul Martin, o primeiro ministro, justificou a lei e a pressa afirmando que o Canadá é feito por minorias e que estas devem ser respeitadas, o que parece uma empatia de minoritário por minoritário, já que, as estatísticas o provam, há no território nacional todo 3% de homossexuais e lésbicas.
Nunca a legalização da união de facto de gays foi contestada, sendo geralmente aceite que os parceiros teriam iguais direitos sociais. O que sempre dividiu a opinião pública foi o “casamento”. De tal modo a animosidada pública era visível que o primeiro ministro anterior, Jean Chrétien, também liberal e velha raposa política, passou o caso ao Supremo Tribunal, no que foi entendido como um ganhar de tempo por estar a terminar o mandato e uma rasteira ao novo governo deixando-lhe a batata quente. A magistratura, repetindo Pilatos, afirmou não ter competência para resolver aquilo que só ao parlamento federal incumbia.
Assim se chegou à aprovação de uma lei que, curiosamente, tem contra si muitos homossexuais de boa educação e vida discreta. O governo não aceitou a sugestão de um referendo nacional que lhe foi feita pelos representantes de várias religiões. A opinião pública acha que, em referendo, a lei não seria aprovada. Está, pois, aberta a porta a uma contestação elaborada em profundidade, olhos postos nas próximas eleições federais. E é aí que já soam as campaínhas de alarme. Estando as religiões dispostas a lutar contra a lei e tendo o Partido Conservador garantido que vai ser o seu leit motiv nas eleições que aí vêm, não se estranhará que, horas depois da votação, os evangélicos tenham vindo a público afirmar que apoiariam quem estivesse disposto a derrubar esta lei que consideram iníqua.
Em resumo: se o povo não tiver serenidade, se der largas aos impulsos emocionais, o Canadá pode vir a ter um regime como o dos americanos, uma cega união entre religião e política. Só não terá se, acima de tudo, lembrar a antipatia que tem pelo regime político do vizinho sul e a completa aversão pelo líder dos conservadores, Steven Harper, a quem sem cerimónia nenhuma chamam de “fascista”.
Esta nova lei vai trazer tempos intensos e agitados ao Canadá. E por esse domingo podemos tirar os dias santos do que, dentro de poucos anos, será o entupimento dos tribunais com pedidos de divórcio e o seu cortejo de partilhas, pensões de alimentos, brigas descomunais. Vai ser um ensaio geral do dia de juízo. Dentro de cinco anos, no máximo, não haverá gay que queira casar por ter aprendido na pele o que isso custa. E se assim for, terá acertado em cheio um sacerdote de uma secularmente prestigiada ordem religiosa que mo disse a rir, numa das conversas que temos ao longo do ano...
Para já, calhando, vai aumentar o turismo. Quando as uniões de facto eram reconhecidas no civil, com papel passado, pela City Hall de Toronto, foi um mundão de candidatos que aí apareceram vindos dos Estados Unidos da América e doutros países. Até duas bombeiras de Leiria vieram a Toronto com esse fim. Vai ser bonito agora...

sexta-feira, junho 24, 2005

24 DE JUNHO - DUAS EFEMÉRIDES

Hoje, 24 de Junho, é dia de São João Baptista. E, na História de Portugal, há pelo menos duas efemérides a não esquecer:

- Recontro de São Mamede (1128).

- Nascimento de D. Nuno Álvares Pereira (1360).

Celebrando tais acontecimentos marcantes da nossa História, editamos hoje um breve texto de Henrique Barrilaro Ruas refutando a ideia de que D. Afonso Henriques teria batido na Mãe.

http://www.lusitana.org/il_br_1999_afonso_henriques.htm

domingo, junho 19, 2005

IMIGRAÇÃO= PÃO E JUSTIÇA

CARTA DO CANADÁ

por Fernanda Leitão


O século XX, devido a guerras e revoluções, originou os maiores movimentos migratórios de sempre, a deslocação de milhões de pessoas que, acossadas pela violência ou pela fome, partiram para onde julgaram encontrar segurança e pão. Foi assim na Europa, na África, na Ásia, na América Latina. Esta foi, sem dúvida alguma, a mais pesada herança recebida pelo séxulo XXI, a par dos crimes ecológicos perpetrados por países dominados pelo obscurantismo e ela ganância pura e simples. Os organismos internacionais, em que todas as nações estão representadas, mal puderam usar os mecanismos básicos da justiça que deveria ser imposta aos países prevaricadores porque se viram literalmente inundados por milhões de desalojados famintos, despojados do que de mais elementar é dado ao homem para sobreviver.
Essas multidões de deserdados têm rumado a países mais prósperos e seguros, onde deitaram raízes e construíram a vida, porque as organizações internacionais e as chamadas grandes potências mundiais não souberam, ou puderam, evitar o êxodo promovendo o desenvolvimento, económico e social, nos países em crise. Em vários países ditos desenvolvidos, o capitalismo selvagem viu com gula a chegada dessa mão de obra faminta e pouco exigente quanto a condições de vida. Foi assim que, em vários países, nasceram e cresceram os bairros da lata que passaram a ser tristes guetos de marginais porquanto, por falha do país de acolhimento, as crianças e jovens se viram condenados a viver a mesma pobreza que escorraçou os pais dos países de origem. Esta ausência de política imigratória, a total falta de educação ministrada a crianças e jovens com o objectivo da sua completa integração no país em que nasceram de famílias emigrantes, foi o mais perfeito caldo de cultura para o desabrochar da criminalidade e do desespero. Não podem autoproclamar-se de cristãos ou defensores dos Direitos do Homem os países que, por inépcia ou erro de cálculo, propiciaram este estado de coisas.
Digamos que, em vários países onde este erro foi cometido, a massa informe de imigrantes não integrados constitui uma bomba-relógio. Mas, a exemplo do que acontece com as bombas propriamente ditas, esta pode ser despoletada por meio de uma acção social de grande envergadura, feita em profundidade e não à laia de penso rápido. Uma acção dessas implica a mobilização de toda a população e dos imigrantes já integrados, e também os sectores missionários da Igreja.
Opor a este fenómeno manifestações racistas, com o nojento folclore dos símbolos nazis e fascistas a denunciar o seu escondido objectivo, é opor uma boçalidade à boçalidade de nada ter sido feito para integrar os imigrantes. Ou dito de forma mais clara, duas boçalidades de sentido contrário por muito cultos e finos que se possam clamar os seus ideólogos.
Numa democracia, há liberdade para se manifestarem em público a extrema-direita e a extrema-esquerda – como, há dias, se manifestaram em Lisboa os que, quadradamente, pensam resolver o caso da imigração com insultos, expulsões, espancamentos e braços ao alto, numa estafada repetição do que praticava Hitler ou Mussolini, ou os que, estupidamente, procuraram endeusar dois políticos mortos que, todos o sabemos, não foram mais do que instrumentos servis de criminosos como Lenine e Estaline. Numa democracia cabem todos, incluindo os quadrados e os estúpidos, os que nunca aprenderam nada, os que nunca vão aprender nada. Mas como democracia implica vigilância, é obrigatório que as autoridades sigam de perto as movimentações desses extremos e a comunicação social, especialmente a televisão, tenham seriedade e decência. Para não dizer mais.
As generalizações são sempre injustas, mas passam a criminosas quando se fazem sobre a Imigração. No Canadá há 40 portugueses presos por crimes cometidos e, entre os milhares de ilegais portugueses que desde há tempos têm arribado a esta margem, sabe-se que há criminosos, alguns até foragidos da justiça lusa. Este painel, mais coisa, menos coisa, é o que se verifica em todas as grandes comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Os emigrantes portugueses não têm sido insultados por manifestantes de rua. Não seria justo. Os departamentos de Justiça e de Imigração fazem o seu trabalho, sem pressa, com todo o cuidado. Serão deportados os que tiverem de o ser. Mas ninguém insulta o português que faz o trabalho que o canadiano deixou de fazer. Ninguém devia insultar os imigrantes que, em Portugal, fazem o trabalho que os portugueses há muito deixaram de fazer (como estamos todos fartos de saber, desde que apareceu o maná das baixas prolongadas, dos subsídios de desemprego que se podem prolongar, dos pseudo-cursos de aperfeiçoamento, etc. etc.).
Devo acrescentar que, no Canadá e em muitos outros países, há todo um programa de apoio aos recém-chegados que abrange a escola, os serviços de saúde, o alojamento, o enquadramento comunitário.
A democracia portuguesa tem ainda muito que aprender e é bom que aprenda depressa para o povo não ter de sofrer a boçalidade, o atraso de vida de uma ditadura de extrema-direita ou de extrema-esquerda.