por João César das Neves
Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem. Esta é a conclusão de um relatório internacional recente sobre o desenvolvimento português. Havia até agora no mundo países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Trata-se de regiões que fizeram tudo o que podiam para estragar o seu processo de desenvolvimento e... falharam.
Hoje são países industrializados e modernos, mas por engano. Segundo a fundação europeia que criou esta nova classificação, no estudo a que o DN teve acesso, este grupo de países especiais é muito pequeno. Alias, tem mesmo um só elemento: Portugal.
A Fundação Richard Zwentzerg (FRZ), iniciou há uns meses um grande trabalho sobre a estratégia económica de longo prazo. Tomando a evolução global da segunda metade do século XX, os cientistas da FRZ procuraram isolar as razões que motivavam os grandes falhanços no progresso. O estudo, naturalmente, pensava centrar-se nos países em decadência. Mas, para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinham também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso.
Desconcertados, acabam de publicar, à margem da cimeira de Lisboa, os seus resultados num pequeno relatório bem eloquente, intitulado: "O País Que Não Devia Ser Desenvolvido - O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses".
Num primeiro capítulo, o relatório documenta o notável comportamento da economia portuguesa no último meio século. De 1950 a 2000, o nosso produto aumentou quase nove vezes, com uma taxa de crescimento anual sustentada de 4,5 por cento durante os longos 50 anos. Esse crescimento aproximou-nos decisivamente do nível dos países ricos. Em 1950, o produto de Portugal tinha uma posição a cerca de 35 por cento do valor médio das regiões desenvolvidas. Hoje ultrapassa o dobro desse nível, estando acima dos 70 por cento, apesar do forte crescimento que essas economias também registaram no período. Na generalidade dos outros indicadores de bem-estar, a evolução portuguesa foi também notável.
Temos mais médicos por habitante que muitos países ricos. A mortalidade infantil caiu de quase 90 por mil, em 1960, para menos de sete por mil agora. A taxa de analfabetismo reduziu-se de 40 por cento em 1950 para dez por cento.
Actualmente a esperança de vida ao nascer dos portugueses aumentou 18 anos no mesmo período. O relatório refere que esta evolução é uma das mais impressionantes, sustentadas e sólidas do século XX. Ela só foi ultrapassada por um punhado de países que, para mais, estão agora alguns deles em graves dificuldades no Extremo Oriente. Portugal, pelo contrário, é membro activo e empenhado da União Europeia, com grande estabilidade democrática e solidez institucional. Segundo a FRZ, o nosso país tem um dos processos de desenvolvimento mais bem sucedidos no mundo actual. Mas, quando se olha paraa estratégia económica portuguesa, tudo parece ser ao contrário do que deveria ser. Segundo a Fundação, Portugal, com as políticas e orientações que seguiu nas últimas décadas, deveria agora estar na miséria. O nosso país não pode ser desenvolvido. Quais são os factores que, segundo os especialistas, criam um desenvolvimento equilibrado e saudável? Um dos mais importantes é, sem dúvida, a educação.
Ora Portugal tem, segundo o relatório, um sistema educativo horrível e que tem piorado com o tempo. O nível de formação dos portugueses é ridículo quando comparado com qualquer outro país sério. As crianças portuguesas revelam níveis de conhecimentos semelhante às de países miseráveis. Há falta gritante de quadros qualificados. É evidente que, com educação como esta, Portugal não pode ter tido o desenvolvimento que teve. Um outro elemento muito referido nas análises é a liberdade económica e a estabilidade institucional. Portugal tem, tradicionalmente, um dos sectores públicos mais paternalista, interventor e instável do mundo, segundo a FRZ. Desde o "condicionamento industrial" salazarista às negociações com grupos económicos actuais, as empresas portuguesas vivem num clima de intensa discricionariedade, manipulação, burocracia e clientelismo. O sistema fiscal português é injusto, paralisante e está em crescimento explosivo. A regulamentação económica é arbitrária, omnipresente e bloqueante.
É óbvio que, com autoridades económicas deste calibre, diz o relatório, o crescimento português tinha de estar irremediavelmente condenado desde o
início. O estudo da Fundação continua o rol de aselhices, deficiências e incapacidades da nossa economia. Da falta de sentido de mercado dos empresários e gestores à reduzida integração externa das empresas; da paralisia do sistema judicial à inoperância financeira; do sistema arcaico de distribuição à ausência de investigação em tecnologias. Em todos estes casos, e em muitos outros, a conclusão óbvia é sempre a mesma: Portugal não pode ser um país em forte desenvolvimento.
Os cientistas da Fundação não escondem a sua perplexidade. Citando as próprias palavras do texto: "Como conseguiu Portugal, no meio de tanta asneira, tolice e desperdício, um tal nível de desenvolvimento? A resposta, simples, é que ninguém sabe.
Há anos que os intelectuais portugueses têm dito que o País está a ir por mau caminho. E estão carregados de razão. Só que, todos os anos, o País cresce mais um bocadinho. "A única explicação adiantada pelo texto, mas que não é satisfatória, é a incrível capacidade de improvisação, engenho e "desenrascanço" do povo português. "No meio de condições que, para qualquer outra sociedade, criariam o desastre, os portugueses conseguem desembrulhar-se de forma incrível e inexplicável." O texto termina dizendo: "O que este povo não faria se tivesse uma estratégia certa?".
Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
terça-feira, julho 19, 2005
sábado, julho 16, 2005
«Acredito na ideia do Quinto Império»
Dom Duarte de Bragança, herdeiro do trono de Portugal, afirmou em entrevista a um semanário:
"Desde criança que acredito na ideia do Quinto Império. Uma época em que os governantes actuariam sempre com base na Justiça e nos princípios do Espírito Santo."
Eis alguns excertos da entrevista:
...
- Sente-se rei de Portugal?
Não. Mas, em certa medida, sinto-me rei dos portugueses.
- Em que sentido?
Tenho um dever para com o país. Se os portugueses me quiserem, aceito as minhas responsabilidades políticas. Se não quiserem, ou não puderem exprimir-se, assumo da mesma forma os meus deveres morais, culturais e sociais.
...
- Porque razão um rei nunca demitiria um primeiro-ministro?
Porque o rei respeita o Parlamento e considera que os deputados estão ali em representação do povo.
...
- Quem gostaria de ver em Belém?
Não posso dizer. Mas preferia um militar. têm um sentido da dignidade do Estado e de independência em relação às forças políticas que os aproxima mais da tradição monárquica.
- Duas das premissas da democracia são a igualdade de direitos e de oportunidades entre todos. A monarquia não é o oposto de tudo isto?
Em teoria, a república é mais perfeita como regime democrático. Mas o que interessa no funcionamento dos Estados é a prática. E os reis, muitas vezes, defendem melhor as liberdades democráticas do que os presidentes. Por outro lado, a sucessão não é automática. O rei tem de ser aprovado pelo parlamento. Os perigos aparentes da monarquia estão previstos e controlados pela lei.
- Não pode chegar ao trono alguém manifestamente incapaz?
E o presidente da república pode ser um louco e estar ligado a narcotraficantes. Pode ser completamente incapaz e ser eleito. Basta que tenha dinheiro e uma boa equipa de publicitários brasileiros. Não há testes psicotécnicos para os candidatos a presidente.
Quais são neste momento os principais problemas que Portugal enfrenta?
- O primeiro é a falta de raciocínio lógico. No sistema de educativo não se treina a lógica, e isso leva a que não se compreenda a importância do civismo. A falta de lógica faz também com que os governantes ainda não tenham definido um modelo de desenvolvimento para o país. Vai variando por modas e por interesses de grupos. (...)
...
- Na semana passada, em Londres, assistimos a mais um atentado terrorista. Esta espiral de violência pode ser vista como uma guerra entre o Ocidente e o Islão?
É, de facto, uma guerra. Faz-me alguma impressão ver certos políticos, com ar de virgens ofendidas, queixar-se da cobardia dos bombistas que se suicidam. Podem ser muitas coisas mas cobardes não são. Só se matam porque acreditam que estão a lutar por uma causa justa. É complicado dizer isto mas nós, portugueses, também estivemos envolvidos numa guerra terrorista durante dez anos. Uma guerra que ganhámos militarmente mas que perdemos no aspecto político.
...
"D. Duarte. «Bombistas suicidas não são cobardes»; «Sinto-me rei dos portugueses»" , entrevista de José Eduardo Fialho Gouveia e fotografia de João Cortesão Gomes in O Independente, 15 de Julho de 2005, p. 1; 24-25.
Ver reprodução integral das palavras de Dom Duarte, Duque de Bragança, em
http://www.lusitana.org/causa_dd_2005_entrev_indepen.htm
"Desde criança que acredito na ideia do Quinto Império. Uma época em que os governantes actuariam sempre com base na Justiça e nos princípios do Espírito Santo."
Eis alguns excertos da entrevista:
...
- Sente-se rei de Portugal?
Não. Mas, em certa medida, sinto-me rei dos portugueses.
- Em que sentido?
Tenho um dever para com o país. Se os portugueses me quiserem, aceito as minhas responsabilidades políticas. Se não quiserem, ou não puderem exprimir-se, assumo da mesma forma os meus deveres morais, culturais e sociais.
...
- Porque razão um rei nunca demitiria um primeiro-ministro?
Porque o rei respeita o Parlamento e considera que os deputados estão ali em representação do povo.
...
- Quem gostaria de ver em Belém?
Não posso dizer. Mas preferia um militar. têm um sentido da dignidade do Estado e de independência em relação às forças políticas que os aproxima mais da tradição monárquica.
- Duas das premissas da democracia são a igualdade de direitos e de oportunidades entre todos. A monarquia não é o oposto de tudo isto?
Em teoria, a república é mais perfeita como regime democrático. Mas o que interessa no funcionamento dos Estados é a prática. E os reis, muitas vezes, defendem melhor as liberdades democráticas do que os presidentes. Por outro lado, a sucessão não é automática. O rei tem de ser aprovado pelo parlamento. Os perigos aparentes da monarquia estão previstos e controlados pela lei.
- Não pode chegar ao trono alguém manifestamente incapaz?
E o presidente da república pode ser um louco e estar ligado a narcotraficantes. Pode ser completamente incapaz e ser eleito. Basta que tenha dinheiro e uma boa equipa de publicitários brasileiros. Não há testes psicotécnicos para os candidatos a presidente.
Quais são neste momento os principais problemas que Portugal enfrenta?
- O primeiro é a falta de raciocínio lógico. No sistema de educativo não se treina a lógica, e isso leva a que não se compreenda a importância do civismo. A falta de lógica faz também com que os governantes ainda não tenham definido um modelo de desenvolvimento para o país. Vai variando por modas e por interesses de grupos. (...)
...
- Na semana passada, em Londres, assistimos a mais um atentado terrorista. Esta espiral de violência pode ser vista como uma guerra entre o Ocidente e o Islão?
É, de facto, uma guerra. Faz-me alguma impressão ver certos políticos, com ar de virgens ofendidas, queixar-se da cobardia dos bombistas que se suicidam. Podem ser muitas coisas mas cobardes não são. Só se matam porque acreditam que estão a lutar por uma causa justa. É complicado dizer isto mas nós, portugueses, também estivemos envolvidos numa guerra terrorista durante dez anos. Uma guerra que ganhámos militarmente mas que perdemos no aspecto político.
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"D. Duarte. «Bombistas suicidas não são cobardes»; «Sinto-me rei dos portugueses»" , entrevista de José Eduardo Fialho Gouveia e fotografia de João Cortesão Gomes in O Independente, 15 de Julho de 2005, p. 1; 24-25.
Ver reprodução integral das palavras de Dom Duarte, Duque de Bragança, em
http://www.lusitana.org/causa_dd_2005_entrev_indepen.htm
quinta-feira, julho 14, 2005
Henrique Barrilaro Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003)
... a Lei deixou de ser expressão do Bem Comum para tornar-se imposição do grupo mais forte.
Dois anos após a morte de Henrique Barrilaro Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003), actualizamos o nosso espaço com o texto de uma palestra com especial significado e importância para a compreensão do pensamento deste nosso querido Mestre de Esperança: D. MIGUEL I E O PROBLEMA DA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA: http://www.lusitana.org/il_br_1971_dom_miguel.htm .
Quereis desfazer um erro? Nada mais que um erro? Lançai-vos numa aventura republicana. Quereis desfazer outro erro? Experimentai de novo uma aventura republicana. Se quiserdes combater ao mesmo tempo os dois erros, já tereis, provavelmente, de encomendar o feito a uma república de mentalidade monárquica.
Mas, se quereis construir; se é de edificar que se trata; se estais decididos a servir uma verdade que só se pode alcançar depois de vencidos os obstáculos do erro - então, aclamai o Rei!
Henrique Barrilaro Ruas in "D. Miguel I e o problema da Constituição Histórica", A Liberdade e o Rei, Lisboa, 1971, p. 165
Dois anos após a morte de Henrique Barrilaro Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003), actualizamos o nosso espaço com o texto de uma palestra com especial significado e importância para a compreensão do pensamento deste nosso querido Mestre de Esperança: D. MIGUEL I E O PROBLEMA DA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA: http://www.lusitana.org/il_br_1971_dom_miguel.htm .
Quereis desfazer um erro? Nada mais que um erro? Lançai-vos numa aventura republicana. Quereis desfazer outro erro? Experimentai de novo uma aventura republicana. Se quiserdes combater ao mesmo tempo os dois erros, já tereis, provavelmente, de encomendar o feito a uma república de mentalidade monárquica.
Mas, se quereis construir; se é de edificar que se trata; se estais decididos a servir uma verdade que só se pode alcançar depois de vencidos os obstáculos do erro - então, aclamai o Rei!
Henrique Barrilaro Ruas in "D. Miguel I e o problema da Constituição Histórica", A Liberdade e o Rei, Lisboa, 1971, p. 165
quarta-feira, julho 13, 2005
TACANHÊS E PARTIDARITE ESTRANGULAM LÍNGUA PORTUGUESA
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Estamos todos bem lembrados das arrebatadas declarações de amor à língua portuguesa desde o PR até ao mais insignificante secretário de estado, dos ministros ao mais obscuro diplomata. Quem os acreditasse pensaria que o ensino do português no estrangeiro é uma conquista que deveríamos à competência, à inteligência, ao espírito de bem comum dos oradores partidários. Nada mais longe da realidade Poderia até ser ridículo, se não representasse um embuste e um atentado aos valores da Pátria.
A triste verdade é que, do mesmo modo que Portugal nunca teve uma política de Emigração e de Imigração, também nunca teve política definida em relação ao ensino da língua e da história portuguesa nas comunidades emigrantes. Os 30 anos que passaram saldam-se por um somatório de contradições e confusões, de incompetências e oportunismos, onde têm medrado os aventureiros que se sentam nas cadeiras do poder e os que vivem parasitariamente à sombra destes. Um belíssimo caldo de cultura para os que vivem de e para a partidarite, boçalmente indiferentes aos danos causados ao país e aos dramas humanos e profissionais que geram.
Aos olhos do cidadão comum parece lógico que tudo quanto respeita ao ensino, designadamente ao ensino da língua portuguesa, deve ser programado, tutelado e mantido pelo Ministério da Educação. Mas, segundo a visão tacanha dos sucessivos governos, quem fornece coordenadores e professores de língua portuguesa é o Ministério da Educação, mas quem no terreno controla (e não poucas vezes sabota) os coordenadores, fora do país, é o Ministério dos Negócios Estrangeiros – esse que nem representações diplomáticas tem conseguido fazer funcionar satisfatoriamente, e quem sofre o mau serviço dos consulados bem o sabe, quanto mais saber seja o que for na área do ensino por parte de diplomatas de torna viagem que, em muitos casos, nem nas suas funções dão prova de competência. Foi com esta enxada malfazeja que os sucessivos governos levaram o ensino da língua portuguesa no estrangeiro a um pântano onde só as ratazanas engordam.
A situação, contudo, tende a piorar, a ficar sem saída possível.
Como, depois dum regabofe impune de 30 anos, a hora é de apertar o cinto, o estado (a que chegámos) tenciona em breve poupar dinheiro passando as coordenações para os consulados, ficando os coordenadores equiparados a técnicos consulares, a funcionários consulares, dando como pretexto os coordenadores ficarem mais perto das comunidades. Pretexto esfarrapado de quem tem a consciência de mal agir porquanto parece óbvio que se pretende tornar airosa a onda de saneamentos que aí vem, de modo a poderem ser colocados os amigos, os parentes e os aderentes do partido governamental. Para um governo que afirmou querer dignificar a língua portuguesa, aqui está uma medida bem pouco dignificante, pois bem se sabe que caos e que corrupção foram as escolas portuguesas, quando o assunto estava entregue a funcionários consulares (na maior parte admitidos por cunha e compadrio): uma auditoria severa demonstraria como foram indevidamente oficializadas algumas escolas, como foram reformadas por inteiro pessoas que faziam trabalho de secretaria e não pedagógico, como colecções inteiras de livros enviadas pelo governo português foram parar a casas particulares ou desavergonhadamente vendidas por bom preço, como subsídios dados a escolas noutro tempo foram aliviar os depauperados cofres de certos clubes, etc., etc. Ninguém acredita, ainda hoje, que esses “serviços” tenham sido prestados gratuitamente. Os coordenadores puseram ordem nesta desordem, e só por isso merecem bem o que ganham. Até agora têm prestado contas ao Ministério da Educação e ao embaixador da área a que pertencem. Daqui em diante a quem vão prestar contas: ao Ministério da Educação, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, aos embaixadores e aos cônsules que não tem formação pedagógica e não percebem nada do assunto, aos membros do Conselho das Comunidades (em que tantos há que mal sabem escrever uma carta para a família), aos directores das Regiões Autónomas que frequentemente, de forma abusiva e descarada, invadem terreno que é pelouro da República com o fito único de se exibirem em períodos pré-eleitorais ou para promoverem amigos ambiciosos, ou a todos ao mesmo tempo? Quem sai a perder desta futura salganhada? A língua portuguesa, as comunidades emigrantes e o país. Nem duvidem. O espantoso, o escandaloso, é que estas medidas sejam tomadas por governantes que, das comunidades portuguesas, apenas conhecem as viagens gratuitas que fazem à roda do mundo, com muita lagosta e condecorações a granel pelo meio, e as mordomias de que gozam nesses cargos. Nada mais sabem das comunidades. Se soubessem, certamente responderiam às cartas e relatórios enviados pelos coordenadores, pois não será por falta de boas maneiras que assim procedem. Nem ao menos têm a decência de ver o que se passa com o ensino de outras línguas europeias: têm técnicos apetrechados nos consulados, mas não dispensam, nas embaixadas, o responsável máximo representando o ministério da educação.
Curiosamente, ou talvez não, quem anda a congeminar estas mudanças iníquas não fala nos conselheiros culturais das embaixadas, em geral uns verbos de encher que não têm habilitações para o lugar que exercem, num tempo em que já há formação universitária na área da Cultura e da dinamização cultural. Nem fala dos conselheiros sociais que, por inerência de funções deveriam estar sempre próximos das comunidades, mas que diplomatas de vistas curtas desviam para tarefas burocráticas em lugar de se fazer o levantamento sério das necessidades e situações junto dos portugueses.
Que confusão vem a ser esta, sob a forma de “reformas do ensino”? Porque quer o ministério dos Negócios Estrangeiros controlar tudo, dominar tudo? Porque não fazem o que outros paises fazem: os diplomatas políticos dependem do embaixador, os diplomatas com pastas específicas devem articular o trabalho com o embaixador, mas respeitando a política do governo português. O conselheiro cultural deveria ser tutelado pelo ministério da Cultura, o conselheiro do ensino seria tutelado pelo ministério da Educação, o conselheiro social pelo ministério dos Assuntos Sociais, e assim por diante. Não se percebe como se colocam estas matérias nas mãos de embaixadores e cônsules, quantas vezes contrariando as políticas do governo. O resultado é confrangedor: é o governo a puxar para um lado e os “reizinhos” em terra alheia a criarem as suas estratégias de actuação em benefício da sua própria carreira. É comum os coordenadores reunirem com cônsules que nem lhes perguntam qual é a política do ministério da Educação para o ensino da língua portuguesa, embora se desdobrem em opiniões e sentenças sobre o assunto. Há cônsules, por vezes bem grosseiros, que apenas querem proteger escolas comunitárias de amigos e conterrâneos, outros que ficam surpreendidos por estar o ministério da Educação representado no local, outros querem fazer tudo e mais alguma coisa sem perceberem patavina do terreno onde se metem. Quem dá a estes diplomatas o direito de ditarem sentenças sobre o ensino de português, quando isso não faz parte dos conhecimentos deles?
Chegámos a ponto de todo o bicho careta tratar da língua portuguesa, num disparate pegado que não leva o ensino a lado nenhum. Há quem acredite que todas as mudanças a vir visam colocar o ensino do português sob a alçada dos conselheiros culturais, exímios artistas oriundos do Instituto Camões que muito têm contribuído para a desgraça em que se encontra esse organismo, pelas ruas da amargura e sem trabalho feito no terreno. Representantes do Instituto Camões deveriam ser pessoas com experiência de ensino universitário, com provas dadas no âmbito da investigação, do conhecimento das universidades e do que elas devem fazer em prol do mundo lusófono. Pode aceitar-se, nos dias de hoje e com milhões de portugueses radicados no estrangeiro, que esses representantes sejm licendiados em Direito ou História?
Acresce que, segundo consta nos bastidores, medra a ideia de os coordenadores não serem recrutados por concurso e sim por nomeação. E isso diz bem do desprezo que tem quem manda pelo profissionalismo e competência. Não há que saber: o governo prepara um saneamento geral para colocar os seus companheiros políticos, os amigalhaços, a parentela.
Tivessem eles amor verdadeiro à Pátria que não tratavam tão mal a sua língua e cultura.
por Fernanda Leitão
Estamos todos bem lembrados das arrebatadas declarações de amor à língua portuguesa desde o PR até ao mais insignificante secretário de estado, dos ministros ao mais obscuro diplomata. Quem os acreditasse pensaria que o ensino do português no estrangeiro é uma conquista que deveríamos à competência, à inteligência, ao espírito de bem comum dos oradores partidários. Nada mais longe da realidade Poderia até ser ridículo, se não representasse um embuste e um atentado aos valores da Pátria.
A triste verdade é que, do mesmo modo que Portugal nunca teve uma política de Emigração e de Imigração, também nunca teve política definida em relação ao ensino da língua e da história portuguesa nas comunidades emigrantes. Os 30 anos que passaram saldam-se por um somatório de contradições e confusões, de incompetências e oportunismos, onde têm medrado os aventureiros que se sentam nas cadeiras do poder e os que vivem parasitariamente à sombra destes. Um belíssimo caldo de cultura para os que vivem de e para a partidarite, boçalmente indiferentes aos danos causados ao país e aos dramas humanos e profissionais que geram.
Aos olhos do cidadão comum parece lógico que tudo quanto respeita ao ensino, designadamente ao ensino da língua portuguesa, deve ser programado, tutelado e mantido pelo Ministério da Educação. Mas, segundo a visão tacanha dos sucessivos governos, quem fornece coordenadores e professores de língua portuguesa é o Ministério da Educação, mas quem no terreno controla (e não poucas vezes sabota) os coordenadores, fora do país, é o Ministério dos Negócios Estrangeiros – esse que nem representações diplomáticas tem conseguido fazer funcionar satisfatoriamente, e quem sofre o mau serviço dos consulados bem o sabe, quanto mais saber seja o que for na área do ensino por parte de diplomatas de torna viagem que, em muitos casos, nem nas suas funções dão prova de competência. Foi com esta enxada malfazeja que os sucessivos governos levaram o ensino da língua portuguesa no estrangeiro a um pântano onde só as ratazanas engordam.
A situação, contudo, tende a piorar, a ficar sem saída possível.
Como, depois dum regabofe impune de 30 anos, a hora é de apertar o cinto, o estado (a que chegámos) tenciona em breve poupar dinheiro passando as coordenações para os consulados, ficando os coordenadores equiparados a técnicos consulares, a funcionários consulares, dando como pretexto os coordenadores ficarem mais perto das comunidades. Pretexto esfarrapado de quem tem a consciência de mal agir porquanto parece óbvio que se pretende tornar airosa a onda de saneamentos que aí vem, de modo a poderem ser colocados os amigos, os parentes e os aderentes do partido governamental. Para um governo que afirmou querer dignificar a língua portuguesa, aqui está uma medida bem pouco dignificante, pois bem se sabe que caos e que corrupção foram as escolas portuguesas, quando o assunto estava entregue a funcionários consulares (na maior parte admitidos por cunha e compadrio): uma auditoria severa demonstraria como foram indevidamente oficializadas algumas escolas, como foram reformadas por inteiro pessoas que faziam trabalho de secretaria e não pedagógico, como colecções inteiras de livros enviadas pelo governo português foram parar a casas particulares ou desavergonhadamente vendidas por bom preço, como subsídios dados a escolas noutro tempo foram aliviar os depauperados cofres de certos clubes, etc., etc. Ninguém acredita, ainda hoje, que esses “serviços” tenham sido prestados gratuitamente. Os coordenadores puseram ordem nesta desordem, e só por isso merecem bem o que ganham. Até agora têm prestado contas ao Ministério da Educação e ao embaixador da área a que pertencem. Daqui em diante a quem vão prestar contas: ao Ministério da Educação, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, aos embaixadores e aos cônsules que não tem formação pedagógica e não percebem nada do assunto, aos membros do Conselho das Comunidades (em que tantos há que mal sabem escrever uma carta para a família), aos directores das Regiões Autónomas que frequentemente, de forma abusiva e descarada, invadem terreno que é pelouro da República com o fito único de se exibirem em períodos pré-eleitorais ou para promoverem amigos ambiciosos, ou a todos ao mesmo tempo? Quem sai a perder desta futura salganhada? A língua portuguesa, as comunidades emigrantes e o país. Nem duvidem. O espantoso, o escandaloso, é que estas medidas sejam tomadas por governantes que, das comunidades portuguesas, apenas conhecem as viagens gratuitas que fazem à roda do mundo, com muita lagosta e condecorações a granel pelo meio, e as mordomias de que gozam nesses cargos. Nada mais sabem das comunidades. Se soubessem, certamente responderiam às cartas e relatórios enviados pelos coordenadores, pois não será por falta de boas maneiras que assim procedem. Nem ao menos têm a decência de ver o que se passa com o ensino de outras línguas europeias: têm técnicos apetrechados nos consulados, mas não dispensam, nas embaixadas, o responsável máximo representando o ministério da educação.
Curiosamente, ou talvez não, quem anda a congeminar estas mudanças iníquas não fala nos conselheiros culturais das embaixadas, em geral uns verbos de encher que não têm habilitações para o lugar que exercem, num tempo em que já há formação universitária na área da Cultura e da dinamização cultural. Nem fala dos conselheiros sociais que, por inerência de funções deveriam estar sempre próximos das comunidades, mas que diplomatas de vistas curtas desviam para tarefas burocráticas em lugar de se fazer o levantamento sério das necessidades e situações junto dos portugueses.
Que confusão vem a ser esta, sob a forma de “reformas do ensino”? Porque quer o ministério dos Negócios Estrangeiros controlar tudo, dominar tudo? Porque não fazem o que outros paises fazem: os diplomatas políticos dependem do embaixador, os diplomatas com pastas específicas devem articular o trabalho com o embaixador, mas respeitando a política do governo português. O conselheiro cultural deveria ser tutelado pelo ministério da Cultura, o conselheiro do ensino seria tutelado pelo ministério da Educação, o conselheiro social pelo ministério dos Assuntos Sociais, e assim por diante. Não se percebe como se colocam estas matérias nas mãos de embaixadores e cônsules, quantas vezes contrariando as políticas do governo. O resultado é confrangedor: é o governo a puxar para um lado e os “reizinhos” em terra alheia a criarem as suas estratégias de actuação em benefício da sua própria carreira. É comum os coordenadores reunirem com cônsules que nem lhes perguntam qual é a política do ministério da Educação para o ensino da língua portuguesa, embora se desdobrem em opiniões e sentenças sobre o assunto. Há cônsules, por vezes bem grosseiros, que apenas querem proteger escolas comunitárias de amigos e conterrâneos, outros que ficam surpreendidos por estar o ministério da Educação representado no local, outros querem fazer tudo e mais alguma coisa sem perceberem patavina do terreno onde se metem. Quem dá a estes diplomatas o direito de ditarem sentenças sobre o ensino de português, quando isso não faz parte dos conhecimentos deles?
Chegámos a ponto de todo o bicho careta tratar da língua portuguesa, num disparate pegado que não leva o ensino a lado nenhum. Há quem acredite que todas as mudanças a vir visam colocar o ensino do português sob a alçada dos conselheiros culturais, exímios artistas oriundos do Instituto Camões que muito têm contribuído para a desgraça em que se encontra esse organismo, pelas ruas da amargura e sem trabalho feito no terreno. Representantes do Instituto Camões deveriam ser pessoas com experiência de ensino universitário, com provas dadas no âmbito da investigação, do conhecimento das universidades e do que elas devem fazer em prol do mundo lusófono. Pode aceitar-se, nos dias de hoje e com milhões de portugueses radicados no estrangeiro, que esses representantes sejm licendiados em Direito ou História?
Acresce que, segundo consta nos bastidores, medra a ideia de os coordenadores não serem recrutados por concurso e sim por nomeação. E isso diz bem do desprezo que tem quem manda pelo profissionalismo e competência. Não há que saber: o governo prepara um saneamento geral para colocar os seus companheiros políticos, os amigalhaços, a parentela.
Tivessem eles amor verdadeiro à Pátria que não tratavam tão mal a sua língua e cultura.
sábado, julho 09, 2005
Ver, ouvir e sentir em português
por Jorge Heitor
O jornalista vê, ouve e sente tudo o que o rodeia, não lhe devendo ser indiferente a sua nacionalidade nem o meio em que está inserido. A um jornalista português o que mais deve interessar é a pátria portuguesa, a Península Ibérica, o Brasil, os países africanos que ainda há 32 anos eram administrados a partir de Lisboa, Timor-Leste e a Região Especial de Macau. E de modo algum a Turquia, o Uzbequistão, o Laos ou o Vietname. São estas as nossas prioridades. Ver e ouvir o que se passa na Cova da Beira, nos Açores, na Catalunha, em Cabo Verde. E só depois disso ter tempo para as vastidões da Sibéria ou para as arbitrariedades que se cometem na Birmânia. A um jornalista de Portugal pede-se em primeiro lugar que conheça Castela, Borgonha, Sabóia e outros locais relacionados com a gesta do seu povo, antes de começar a especializar-se na Tchetchénia, no Tadjiquistão ou na Mongólia. Ou seja, partir com os pés bem assentes na terra, para não tropeçar. Quem o não fizer, não está em verdadeira sintonia com os herdeiros da Ala dos Namorados e da dinastia de Aviz, que nos levou a Arzila, à foz do Zaire e a Moçambique. E não pode compreender devidamente o imenso mundo lusófono, desde a Amazónia ao pico do Ramelau, no território timorense.
Não é muito admissível que se vá passar férias à Tailândia antes de se conhecer toda a imensidão do Alqueva ou as vinhas do Pico. Ou que se ande à cata de novos escritores norte-americanos antes de se ler muito bem a Mensagem ou o Só.
8 de Julho de 2005
O jornalista vê, ouve e sente tudo o que o rodeia, não lhe devendo ser indiferente a sua nacionalidade nem o meio em que está inserido. A um jornalista português o que mais deve interessar é a pátria portuguesa, a Península Ibérica, o Brasil, os países africanos que ainda há 32 anos eram administrados a partir de Lisboa, Timor-Leste e a Região Especial de Macau. E de modo algum a Turquia, o Uzbequistão, o Laos ou o Vietname. São estas as nossas prioridades. Ver e ouvir o que se passa na Cova da Beira, nos Açores, na Catalunha, em Cabo Verde. E só depois disso ter tempo para as vastidões da Sibéria ou para as arbitrariedades que se cometem na Birmânia. A um jornalista de Portugal pede-se em primeiro lugar que conheça Castela, Borgonha, Sabóia e outros locais relacionados com a gesta do seu povo, antes de começar a especializar-se na Tchetchénia, no Tadjiquistão ou na Mongólia. Ou seja, partir com os pés bem assentes na terra, para não tropeçar. Quem o não fizer, não está em verdadeira sintonia com os herdeiros da Ala dos Namorados e da dinastia de Aviz, que nos levou a Arzila, à foz do Zaire e a Moçambique. E não pode compreender devidamente o imenso mundo lusófono, desde a Amazónia ao pico do Ramelau, no território timorense.
Não é muito admissível que se vá passar férias à Tailândia antes de se conhecer toda a imensidão do Alqueva ou as vinhas do Pico. Ou que se ande à cata de novos escritores norte-americanos antes de se ler muito bem a Mensagem ou o Só.
8 de Julho de 2005
quarta-feira, julho 06, 2005
Hipocrisia e alguma ignorância
por Manuel Carvalho da Silva
Uma das expressões significativas dos défices mais profundos da sociedade portuguesa situa- -se na crónica fraca valorização do trabalho e na pouca dignidade com que se tratam os trabalhadores e, por consequência, as suas organizações e os seus representantes.
Não foi por acaso que o País sofreu nas últimas décadas, quase pacificamente, uma profunda destruição do aparelho produtivo, uma perda de qualificações identificada no desaparecimento de trabalhadores com profissões que foram apelidadas de velhas e hoje fazem imensa falta. Não é por acaso que não se avança, de forma sólida, na efectivação da formação profissional e continuamos com dificuldades de inovar e reestruturar as empresas e, em geral, a economia do País.
Hoje, na Europa, há sobreocupação de trabalho nas siderurgias e no sector de reparação e construção naval, ao mesmo tempo que se reclama uma profunda revolução nos meios de transporte, reforçando o papel dos caminhos-de-ferro e do transporte marítimo.
Entretanto, em Portugal, assistimos ao fecho da única siderurgia que tínhamos, ao encerramento da Lisnave, ao desaparecimento da metalomecânica pesada. E outros sectores fragilizaram-se profundamente, como as pescas, a agricultura, a cerâmica ou o sector alimentar. Em simultâneo, desbarataram-se, ou foram desviados para fortunas pessoais, milhões e milhões oriundos dos fundos comunitários e do Orçamento do Estado.
Tudo isso foi feito em nome da modernidade, caluniando trabalhadores e sindicalistas que lutaram contra essas desastrosas opções e que denunciaram as razões e as negociatas que suportavam muitos desses processos.
Sejamos claros, podem apresentar-se muitos projectos inovadores e sugestões de novas profissões mas, mantendo-se esta cultura, serão raros, embora honrosos, os casos que vingam.
Os que agora lançam calúnias sobre os sindicalistas e os trabalhadores "privilegiados" (slogan hoje mais aplicado aos trabalhadores da administração pública, mas que também pretendem aplicar aos do sector privado) são os mesmos que foram e são incapazes, por ignorância ou opção de classe, de fazerem uma análise séria dos problemas e baterem-se de forma empenhada pelo cumprimento da legalidade, da justiça social, da efectiva solidariedade e do desenvolvimento do País.
Se o fizessem, também saberiam defender uma verdadeira reforma da administração pública, cuja essência é de ordem estrutural e organizacional, o que implica definição clara de objectivos e criação de uma justa e funcional cadeia de responsabilização nos mais diversos sectores, valorizando, dignificando e responsabilizando todos os trabalhadores. É dessa reforma, feita para assegurar uma relação saudável com os cidadãos, para garantir funções e direitos sociais a todos, para apoiar e responsabilizar as empresas e a generalidade das organizações da sociedade e para promover políticas de desenvolvimento, que o País precisa.
Por hipocrisia, escamoteiam a verdade sobre a acção sindical e até lhes repugna a referência a qualquer das inúmeras e fundamentadas propostas e trabalhos que os sindicatos fazem, designadamente sobre o desenvolvimento, o emprego, a Segurança social, a saúde, o ensino, a formação profissional, a higiene, saúde e segurança no trabalho, a justiça, a igualdade, a imigração.
Qualquer "bicho-careta" com fraca ou apenas pontual experiência do mundo do trabalho e sem qualquer estudo, quer sobre as questões da estruturação e organização das empresas e do trabalho, quer sobre a regulação e regulamentação do trabalho, dá doutas orientações sobre o que devem fazer os trabalhadores e sindicalistas, sobre como se devem comportar face à actuação do capital, ou dos governantes, receitando sempre, em função do que está na "moda", as receitas do poder económico e financeiro.
O que o capitalismo neoliberal tem em marcha é a pretensão de impor as precariedades e a desregulação como regra na generalidade da prestação do trabalho, criando, a partir daí, a ideia de que os direitos no trabalho são privilégios.
O sindicalismo e os sindicalistas que, embora conhecendo bem o mundo do trabalho e a sociedade, têm lacunas e défices que vão procurando suprir, não vão desarmar nos seus objectivos a favor dos trabalhadores, da sociedade e até de muitos dos que os caluniam.
(in Diário de Notícias, 6 de Julho de 2005)
Uma das expressões significativas dos défices mais profundos da sociedade portuguesa situa- -se na crónica fraca valorização do trabalho e na pouca dignidade com que se tratam os trabalhadores e, por consequência, as suas organizações e os seus representantes.
Não foi por acaso que o País sofreu nas últimas décadas, quase pacificamente, uma profunda destruição do aparelho produtivo, uma perda de qualificações identificada no desaparecimento de trabalhadores com profissões que foram apelidadas de velhas e hoje fazem imensa falta. Não é por acaso que não se avança, de forma sólida, na efectivação da formação profissional e continuamos com dificuldades de inovar e reestruturar as empresas e, em geral, a economia do País.
Hoje, na Europa, há sobreocupação de trabalho nas siderurgias e no sector de reparação e construção naval, ao mesmo tempo que se reclama uma profunda revolução nos meios de transporte, reforçando o papel dos caminhos-de-ferro e do transporte marítimo.
Entretanto, em Portugal, assistimos ao fecho da única siderurgia que tínhamos, ao encerramento da Lisnave, ao desaparecimento da metalomecânica pesada. E outros sectores fragilizaram-se profundamente, como as pescas, a agricultura, a cerâmica ou o sector alimentar. Em simultâneo, desbarataram-se, ou foram desviados para fortunas pessoais, milhões e milhões oriundos dos fundos comunitários e do Orçamento do Estado.
Tudo isso foi feito em nome da modernidade, caluniando trabalhadores e sindicalistas que lutaram contra essas desastrosas opções e que denunciaram as razões e as negociatas que suportavam muitos desses processos.
Sejamos claros, podem apresentar-se muitos projectos inovadores e sugestões de novas profissões mas, mantendo-se esta cultura, serão raros, embora honrosos, os casos que vingam.
Os que agora lançam calúnias sobre os sindicalistas e os trabalhadores "privilegiados" (slogan hoje mais aplicado aos trabalhadores da administração pública, mas que também pretendem aplicar aos do sector privado) são os mesmos que foram e são incapazes, por ignorância ou opção de classe, de fazerem uma análise séria dos problemas e baterem-se de forma empenhada pelo cumprimento da legalidade, da justiça social, da efectiva solidariedade e do desenvolvimento do País.
Se o fizessem, também saberiam defender uma verdadeira reforma da administração pública, cuja essência é de ordem estrutural e organizacional, o que implica definição clara de objectivos e criação de uma justa e funcional cadeia de responsabilização nos mais diversos sectores, valorizando, dignificando e responsabilizando todos os trabalhadores. É dessa reforma, feita para assegurar uma relação saudável com os cidadãos, para garantir funções e direitos sociais a todos, para apoiar e responsabilizar as empresas e a generalidade das organizações da sociedade e para promover políticas de desenvolvimento, que o País precisa.
Por hipocrisia, escamoteiam a verdade sobre a acção sindical e até lhes repugna a referência a qualquer das inúmeras e fundamentadas propostas e trabalhos que os sindicatos fazem, designadamente sobre o desenvolvimento, o emprego, a Segurança social, a saúde, o ensino, a formação profissional, a higiene, saúde e segurança no trabalho, a justiça, a igualdade, a imigração.
Qualquer "bicho-careta" com fraca ou apenas pontual experiência do mundo do trabalho e sem qualquer estudo, quer sobre as questões da estruturação e organização das empresas e do trabalho, quer sobre a regulação e regulamentação do trabalho, dá doutas orientações sobre o que devem fazer os trabalhadores e sindicalistas, sobre como se devem comportar face à actuação do capital, ou dos governantes, receitando sempre, em função do que está na "moda", as receitas do poder económico e financeiro.
O que o capitalismo neoliberal tem em marcha é a pretensão de impor as precariedades e a desregulação como regra na generalidade da prestação do trabalho, criando, a partir daí, a ideia de que os direitos no trabalho são privilégios.
O sindicalismo e os sindicalistas que, embora conhecendo bem o mundo do trabalho e a sociedade, têm lacunas e défices que vão procurando suprir, não vão desarmar nos seus objectivos a favor dos trabalhadores, da sociedade e até de muitos dos que os caluniam.
(in Diário de Notícias, 6 de Julho de 2005)
segunda-feira, julho 04, 2005
Bento Bembe
Editorial em Ibinda.com
Rui Neumann
Bento Bembe foi detido quando multiplicava esforços para a resolução pacífica do conflito em Cabinda. Uma prova clara que Angola não está disposta a qualquer negociação que conduza à paz em Cabinda, assim como é uma prova que os Estados Unidos da América (EUA) aprovam e caucionam em absoluto os excessos do Governo de Angola em Cabinda.
Contrariamente às contas secretas na Suíça, Inglaterra e na Madeira (entre muitas outras) que vários membros do Governo angolano possuem, contrariamente também às comissões secretas que vários estrangeiros e eminências pardas recebem do Governo de Angola, contrariamente à opacidade da governação angolana, Bento Bembe nunca se escondeu nem nunca viveu em secretismo, nasceu pobre e nunca conheceu a riqueza financeira, devido ao seu empenho e dedicação à luta de libertação do povo binda, tal como no passado fizeram Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, pelos seus próprios povos.
Bento Bembe estava em Haia para falar de paz. «Paz», uma palavra que perde completamente o seu significado e valor, quando a comunidade internacional toma uma postura de indiferença total, quando homens de coragem pretendem que «paz» não seja só três letras, mas sim uma realidade assente solidamente em três pilares.
Bento Bembe foi detido na Holanda e não em Cabinda, uma prova evidente da proliferação das mentiras de destruição massiva do Governo de Angola, pois Angola afirma que controla todo o território de Cabinda. Porém, Bento Bembe é detido na Holanda, um verdadeiro paradoxo para reflectir.
Outro paradoxo desta detenção é o facto de ter sido efectuada a pedido dos Estados Unidos, dado que foram os mesmos EUA que ajudaram financeiramente, directamente e através da ChevronTexaco, a FLEC durante longos anos. Mas o valor do ouro negro é mais forte que a dignidade.
Não é por acaso que a detenção de Bento Bembe ocorre num momento em que várias testemunhas afirmam que Angola prepara uma importante ofensiva em Cabinda, evidentemente negada por Angola, como também não é por acaso que a detenção ocorre quando Angola se prepara para eventuais eleições, e Cabinda será o «caso bicudo» tal como aconteceu em 1992. Estas faltas de «acaso» são uma prova acrescida que Angola não controla a situação em Cabinda, mas acima de tudo que Angola teme a resistência e a revolta crescente no território, daí como não pode esmagar eternamente e consecutivamente o povo, ataca os seus chefes, por intermédio dos EUA, numa tentativa ilusória de decapitar a vontade de um povo e o percurso irreversível da historia.
A detenção de Bento Bembe não é uma vitória para Angola ou para os EUA, é sim a capitulação da réstia dos argumentos destes dois países que se afirmam como paladinos da paz.
fonte: Ibinda.com
Rui Neumann
Bento Bembe foi detido quando multiplicava esforços para a resolução pacífica do conflito em Cabinda. Uma prova clara que Angola não está disposta a qualquer negociação que conduza à paz em Cabinda, assim como é uma prova que os Estados Unidos da América (EUA) aprovam e caucionam em absoluto os excessos do Governo de Angola em Cabinda.
Contrariamente às contas secretas na Suíça, Inglaterra e na Madeira (entre muitas outras) que vários membros do Governo angolano possuem, contrariamente também às comissões secretas que vários estrangeiros e eminências pardas recebem do Governo de Angola, contrariamente à opacidade da governação angolana, Bento Bembe nunca se escondeu nem nunca viveu em secretismo, nasceu pobre e nunca conheceu a riqueza financeira, devido ao seu empenho e dedicação à luta de libertação do povo binda, tal como no passado fizeram Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, pelos seus próprios povos.
Bento Bembe estava em Haia para falar de paz. «Paz», uma palavra que perde completamente o seu significado e valor, quando a comunidade internacional toma uma postura de indiferença total, quando homens de coragem pretendem que «paz» não seja só três letras, mas sim uma realidade assente solidamente em três pilares.
Bento Bembe foi detido na Holanda e não em Cabinda, uma prova evidente da proliferação das mentiras de destruição massiva do Governo de Angola, pois Angola afirma que controla todo o território de Cabinda. Porém, Bento Bembe é detido na Holanda, um verdadeiro paradoxo para reflectir.
Outro paradoxo desta detenção é o facto de ter sido efectuada a pedido dos Estados Unidos, dado que foram os mesmos EUA que ajudaram financeiramente, directamente e através da ChevronTexaco, a FLEC durante longos anos. Mas o valor do ouro negro é mais forte que a dignidade.
Não é por acaso que a detenção de Bento Bembe ocorre num momento em que várias testemunhas afirmam que Angola prepara uma importante ofensiva em Cabinda, evidentemente negada por Angola, como também não é por acaso que a detenção ocorre quando Angola se prepara para eventuais eleições, e Cabinda será o «caso bicudo» tal como aconteceu em 1992. Estas faltas de «acaso» são uma prova acrescida que Angola não controla a situação em Cabinda, mas acima de tudo que Angola teme a resistência e a revolta crescente no território, daí como não pode esmagar eternamente e consecutivamente o povo, ataca os seus chefes, por intermédio dos EUA, numa tentativa ilusória de decapitar a vontade de um povo e o percurso irreversível da historia.
A detenção de Bento Bembe não é uma vitória para Angola ou para os EUA, é sim a capitulação da réstia dos argumentos destes dois países que se afirmam como paladinos da paz.
fonte: Ibinda.com
quinta-feira, junho 30, 2005
NO FIO DA NAVALHA
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
O governo minoritário do Canadá, liberal e presidido por Paul Martin, exigiu o prolongamento das sessões parlamentares por entender que era urgente, prioritário e importante votar a proposta de lei sobre o “casamento” dos gays. A lei foi aprovada por 158 votos a favor e 133 contra, tendo-se abstido 25 deputados liberais, faltado 5 da mesma bancada e pedido a demissão um ministro. Os votos a favor foram do Partido Liberal, do Bloc Quebequois (separatista) e do New Democratic Party (socialista). Por conseguinte, os únicos que votaram contra foram os do Partido Conservador.
Esta foi a quadragésima vitória de um governo que, por ser minoritário, tem sido alvo de uma marcação cerrada por parte das oposições. Mas esta vitória foi obtida ao arrepio das grandes religiões monoteístas – cristã, maometana e judaica – que, antes e depois da votação, se manifestaram de modo incisivo quanto ao insulto feito ao casamento de homens e mulheres, uma instituição milenar com foros de sacramento.
A excepção foram franjas residuais de alguns credos protestantes que, servidos por folclóricos pastores agindo em causa própria, têm realizado “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo, depois difundidos pela comunicação social. Paul Martin, o primeiro ministro, justificou a lei e a pressa afirmando que o Canadá é feito por minorias e que estas devem ser respeitadas, o que parece uma empatia de minoritário por minoritário, já que, as estatísticas o provam, há no território nacional todo 3% de homossexuais e lésbicas.
Nunca a legalização da união de facto de gays foi contestada, sendo geralmente aceite que os parceiros teriam iguais direitos sociais. O que sempre dividiu a opinião pública foi o “casamento”. De tal modo a animosidada pública era visível que o primeiro ministro anterior, Jean Chrétien, também liberal e velha raposa política, passou o caso ao Supremo Tribunal, no que foi entendido como um ganhar de tempo por estar a terminar o mandato e uma rasteira ao novo governo deixando-lhe a batata quente. A magistratura, repetindo Pilatos, afirmou não ter competência para resolver aquilo que só ao parlamento federal incumbia.
Assim se chegou à aprovação de uma lei que, curiosamente, tem contra si muitos homossexuais de boa educação e vida discreta. O governo não aceitou a sugestão de um referendo nacional que lhe foi feita pelos representantes de várias religiões. A opinião pública acha que, em referendo, a lei não seria aprovada. Está, pois, aberta a porta a uma contestação elaborada em profundidade, olhos postos nas próximas eleições federais. E é aí que já soam as campaínhas de alarme. Estando as religiões dispostas a lutar contra a lei e tendo o Partido Conservador garantido que vai ser o seu leit motiv nas eleições que aí vêm, não se estranhará que, horas depois da votação, os evangélicos tenham vindo a público afirmar que apoiariam quem estivesse disposto a derrubar esta lei que consideram iníqua.
Em resumo: se o povo não tiver serenidade, se der largas aos impulsos emocionais, o Canadá pode vir a ter um regime como o dos americanos, uma cega união entre religião e política. Só não terá se, acima de tudo, lembrar a antipatia que tem pelo regime político do vizinho sul e a completa aversão pelo líder dos conservadores, Steven Harper, a quem sem cerimónia nenhuma chamam de “fascista”.
Esta nova lei vai trazer tempos intensos e agitados ao Canadá. E por esse domingo podemos tirar os dias santos do que, dentro de poucos anos, será o entupimento dos tribunais com pedidos de divórcio e o seu cortejo de partilhas, pensões de alimentos, brigas descomunais. Vai ser um ensaio geral do dia de juízo. Dentro de cinco anos, no máximo, não haverá gay que queira casar por ter aprendido na pele o que isso custa. E se assim for, terá acertado em cheio um sacerdote de uma secularmente prestigiada ordem religiosa que mo disse a rir, numa das conversas que temos ao longo do ano...
Para já, calhando, vai aumentar o turismo. Quando as uniões de facto eram reconhecidas no civil, com papel passado, pela City Hall de Toronto, foi um mundão de candidatos que aí apareceram vindos dos Estados Unidos da América e doutros países. Até duas bombeiras de Leiria vieram a Toronto com esse fim. Vai ser bonito agora...
por Fernanda Leitão
O governo minoritário do Canadá, liberal e presidido por Paul Martin, exigiu o prolongamento das sessões parlamentares por entender que era urgente, prioritário e importante votar a proposta de lei sobre o “casamento” dos gays. A lei foi aprovada por 158 votos a favor e 133 contra, tendo-se abstido 25 deputados liberais, faltado 5 da mesma bancada e pedido a demissão um ministro. Os votos a favor foram do Partido Liberal, do Bloc Quebequois (separatista) e do New Democratic Party (socialista). Por conseguinte, os únicos que votaram contra foram os do Partido Conservador.
Esta foi a quadragésima vitória de um governo que, por ser minoritário, tem sido alvo de uma marcação cerrada por parte das oposições. Mas esta vitória foi obtida ao arrepio das grandes religiões monoteístas – cristã, maometana e judaica – que, antes e depois da votação, se manifestaram de modo incisivo quanto ao insulto feito ao casamento de homens e mulheres, uma instituição milenar com foros de sacramento.
A excepção foram franjas residuais de alguns credos protestantes que, servidos por folclóricos pastores agindo em causa própria, têm realizado “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo, depois difundidos pela comunicação social. Paul Martin, o primeiro ministro, justificou a lei e a pressa afirmando que o Canadá é feito por minorias e que estas devem ser respeitadas, o que parece uma empatia de minoritário por minoritário, já que, as estatísticas o provam, há no território nacional todo 3% de homossexuais e lésbicas.
Nunca a legalização da união de facto de gays foi contestada, sendo geralmente aceite que os parceiros teriam iguais direitos sociais. O que sempre dividiu a opinião pública foi o “casamento”. De tal modo a animosidada pública era visível que o primeiro ministro anterior, Jean Chrétien, também liberal e velha raposa política, passou o caso ao Supremo Tribunal, no que foi entendido como um ganhar de tempo por estar a terminar o mandato e uma rasteira ao novo governo deixando-lhe a batata quente. A magistratura, repetindo Pilatos, afirmou não ter competência para resolver aquilo que só ao parlamento federal incumbia.
Assim se chegou à aprovação de uma lei que, curiosamente, tem contra si muitos homossexuais de boa educação e vida discreta. O governo não aceitou a sugestão de um referendo nacional que lhe foi feita pelos representantes de várias religiões. A opinião pública acha que, em referendo, a lei não seria aprovada. Está, pois, aberta a porta a uma contestação elaborada em profundidade, olhos postos nas próximas eleições federais. E é aí que já soam as campaínhas de alarme. Estando as religiões dispostas a lutar contra a lei e tendo o Partido Conservador garantido que vai ser o seu leit motiv nas eleições que aí vêm, não se estranhará que, horas depois da votação, os evangélicos tenham vindo a público afirmar que apoiariam quem estivesse disposto a derrubar esta lei que consideram iníqua.
Em resumo: se o povo não tiver serenidade, se der largas aos impulsos emocionais, o Canadá pode vir a ter um regime como o dos americanos, uma cega união entre religião e política. Só não terá se, acima de tudo, lembrar a antipatia que tem pelo regime político do vizinho sul e a completa aversão pelo líder dos conservadores, Steven Harper, a quem sem cerimónia nenhuma chamam de “fascista”.
Esta nova lei vai trazer tempos intensos e agitados ao Canadá. E por esse domingo podemos tirar os dias santos do que, dentro de poucos anos, será o entupimento dos tribunais com pedidos de divórcio e o seu cortejo de partilhas, pensões de alimentos, brigas descomunais. Vai ser um ensaio geral do dia de juízo. Dentro de cinco anos, no máximo, não haverá gay que queira casar por ter aprendido na pele o que isso custa. E se assim for, terá acertado em cheio um sacerdote de uma secularmente prestigiada ordem religiosa que mo disse a rir, numa das conversas que temos ao longo do ano...
Para já, calhando, vai aumentar o turismo. Quando as uniões de facto eram reconhecidas no civil, com papel passado, pela City Hall de Toronto, foi um mundão de candidatos que aí apareceram vindos dos Estados Unidos da América e doutros países. Até duas bombeiras de Leiria vieram a Toronto com esse fim. Vai ser bonito agora...
sexta-feira, junho 24, 2005
24 DE JUNHO - DUAS EFEMÉRIDES
Hoje, 24 de Junho, é dia de São João Baptista. E, na História de Portugal, há pelo menos duas efemérides a não esquecer:
- Recontro de São Mamede (1128).
- Nascimento de D. Nuno Álvares Pereira (1360).
Celebrando tais acontecimentos marcantes da nossa História, editamos hoje um breve texto de Henrique Barrilaro Ruas refutando a ideia de que D. Afonso Henriques teria batido na Mãe.
http://www.lusitana.org/il_br_1999_afonso_henriques.htm
- Recontro de São Mamede (1128).
- Nascimento de D. Nuno Álvares Pereira (1360).
Celebrando tais acontecimentos marcantes da nossa História, editamos hoje um breve texto de Henrique Barrilaro Ruas refutando a ideia de que D. Afonso Henriques teria batido na Mãe.
http://www.lusitana.org/il_br_1999_afonso_henriques.htm
domingo, junho 19, 2005
IMIGRAÇÃO= PÃO E JUSTIÇA
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
O século XX, devido a guerras e revoluções, originou os maiores movimentos migratórios de sempre, a deslocação de milhões de pessoas que, acossadas pela violência ou pela fome, partiram para onde julgaram encontrar segurança e pão. Foi assim na Europa, na África, na Ásia, na América Latina. Esta foi, sem dúvida alguma, a mais pesada herança recebida pelo séxulo XXI, a par dos crimes ecológicos perpetrados por países dominados pelo obscurantismo e ela ganância pura e simples. Os organismos internacionais, em que todas as nações estão representadas, mal puderam usar os mecanismos básicos da justiça que deveria ser imposta aos países prevaricadores porque se viram literalmente inundados por milhões de desalojados famintos, despojados do que de mais elementar é dado ao homem para sobreviver.
Essas multidões de deserdados têm rumado a países mais prósperos e seguros, onde deitaram raízes e construíram a vida, porque as organizações internacionais e as chamadas grandes potências mundiais não souberam, ou puderam, evitar o êxodo promovendo o desenvolvimento, económico e social, nos países em crise. Em vários países ditos desenvolvidos, o capitalismo selvagem viu com gula a chegada dessa mão de obra faminta e pouco exigente quanto a condições de vida. Foi assim que, em vários países, nasceram e cresceram os bairros da lata que passaram a ser tristes guetos de marginais porquanto, por falha do país de acolhimento, as crianças e jovens se viram condenados a viver a mesma pobreza que escorraçou os pais dos países de origem. Esta ausência de política imigratória, a total falta de educação ministrada a crianças e jovens com o objectivo da sua completa integração no país em que nasceram de famílias emigrantes, foi o mais perfeito caldo de cultura para o desabrochar da criminalidade e do desespero. Não podem autoproclamar-se de cristãos ou defensores dos Direitos do Homem os países que, por inépcia ou erro de cálculo, propiciaram este estado de coisas.
Digamos que, em vários países onde este erro foi cometido, a massa informe de imigrantes não integrados constitui uma bomba-relógio. Mas, a exemplo do que acontece com as bombas propriamente ditas, esta pode ser despoletada por meio de uma acção social de grande envergadura, feita em profundidade e não à laia de penso rápido. Uma acção dessas implica a mobilização de toda a população e dos imigrantes já integrados, e também os sectores missionários da Igreja.
Opor a este fenómeno manifestações racistas, com o nojento folclore dos símbolos nazis e fascistas a denunciar o seu escondido objectivo, é opor uma boçalidade à boçalidade de nada ter sido feito para integrar os imigrantes. Ou dito de forma mais clara, duas boçalidades de sentido contrário por muito cultos e finos que se possam clamar os seus ideólogos.
Numa democracia, há liberdade para se manifestarem em público a extrema-direita e a extrema-esquerda – como, há dias, se manifestaram em Lisboa os que, quadradamente, pensam resolver o caso da imigração com insultos, expulsões, espancamentos e braços ao alto, numa estafada repetição do que praticava Hitler ou Mussolini, ou os que, estupidamente, procuraram endeusar dois políticos mortos que, todos o sabemos, não foram mais do que instrumentos servis de criminosos como Lenine e Estaline. Numa democracia cabem todos, incluindo os quadrados e os estúpidos, os que nunca aprenderam nada, os que nunca vão aprender nada. Mas como democracia implica vigilância, é obrigatório que as autoridades sigam de perto as movimentações desses extremos e a comunicação social, especialmente a televisão, tenham seriedade e decência. Para não dizer mais.
As generalizações são sempre injustas, mas passam a criminosas quando se fazem sobre a Imigração. No Canadá há 40 portugueses presos por crimes cometidos e, entre os milhares de ilegais portugueses que desde há tempos têm arribado a esta margem, sabe-se que há criminosos, alguns até foragidos da justiça lusa. Este painel, mais coisa, menos coisa, é o que se verifica em todas as grandes comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Os emigrantes portugueses não têm sido insultados por manifestantes de rua. Não seria justo. Os departamentos de Justiça e de Imigração fazem o seu trabalho, sem pressa, com todo o cuidado. Serão deportados os que tiverem de o ser. Mas ninguém insulta o português que faz o trabalho que o canadiano deixou de fazer. Ninguém devia insultar os imigrantes que, em Portugal, fazem o trabalho que os portugueses há muito deixaram de fazer (como estamos todos fartos de saber, desde que apareceu o maná das baixas prolongadas, dos subsídios de desemprego que se podem prolongar, dos pseudo-cursos de aperfeiçoamento, etc. etc.).
Devo acrescentar que, no Canadá e em muitos outros países, há todo um programa de apoio aos recém-chegados que abrange a escola, os serviços de saúde, o alojamento, o enquadramento comunitário.
A democracia portuguesa tem ainda muito que aprender e é bom que aprenda depressa para o povo não ter de sofrer a boçalidade, o atraso de vida de uma ditadura de extrema-direita ou de extrema-esquerda.
por Fernanda Leitão
O século XX, devido a guerras e revoluções, originou os maiores movimentos migratórios de sempre, a deslocação de milhões de pessoas que, acossadas pela violência ou pela fome, partiram para onde julgaram encontrar segurança e pão. Foi assim na Europa, na África, na Ásia, na América Latina. Esta foi, sem dúvida alguma, a mais pesada herança recebida pelo séxulo XXI, a par dos crimes ecológicos perpetrados por países dominados pelo obscurantismo e ela ganância pura e simples. Os organismos internacionais, em que todas as nações estão representadas, mal puderam usar os mecanismos básicos da justiça que deveria ser imposta aos países prevaricadores porque se viram literalmente inundados por milhões de desalojados famintos, despojados do que de mais elementar é dado ao homem para sobreviver.
Essas multidões de deserdados têm rumado a países mais prósperos e seguros, onde deitaram raízes e construíram a vida, porque as organizações internacionais e as chamadas grandes potências mundiais não souberam, ou puderam, evitar o êxodo promovendo o desenvolvimento, económico e social, nos países em crise. Em vários países ditos desenvolvidos, o capitalismo selvagem viu com gula a chegada dessa mão de obra faminta e pouco exigente quanto a condições de vida. Foi assim que, em vários países, nasceram e cresceram os bairros da lata que passaram a ser tristes guetos de marginais porquanto, por falha do país de acolhimento, as crianças e jovens se viram condenados a viver a mesma pobreza que escorraçou os pais dos países de origem. Esta ausência de política imigratória, a total falta de educação ministrada a crianças e jovens com o objectivo da sua completa integração no país em que nasceram de famílias emigrantes, foi o mais perfeito caldo de cultura para o desabrochar da criminalidade e do desespero. Não podem autoproclamar-se de cristãos ou defensores dos Direitos do Homem os países que, por inépcia ou erro de cálculo, propiciaram este estado de coisas.
Digamos que, em vários países onde este erro foi cometido, a massa informe de imigrantes não integrados constitui uma bomba-relógio. Mas, a exemplo do que acontece com as bombas propriamente ditas, esta pode ser despoletada por meio de uma acção social de grande envergadura, feita em profundidade e não à laia de penso rápido. Uma acção dessas implica a mobilização de toda a população e dos imigrantes já integrados, e também os sectores missionários da Igreja.
Opor a este fenómeno manifestações racistas, com o nojento folclore dos símbolos nazis e fascistas a denunciar o seu escondido objectivo, é opor uma boçalidade à boçalidade de nada ter sido feito para integrar os imigrantes. Ou dito de forma mais clara, duas boçalidades de sentido contrário por muito cultos e finos que se possam clamar os seus ideólogos.
Numa democracia, há liberdade para se manifestarem em público a extrema-direita e a extrema-esquerda – como, há dias, se manifestaram em Lisboa os que, quadradamente, pensam resolver o caso da imigração com insultos, expulsões, espancamentos e braços ao alto, numa estafada repetição do que praticava Hitler ou Mussolini, ou os que, estupidamente, procuraram endeusar dois políticos mortos que, todos o sabemos, não foram mais do que instrumentos servis de criminosos como Lenine e Estaline. Numa democracia cabem todos, incluindo os quadrados e os estúpidos, os que nunca aprenderam nada, os que nunca vão aprender nada. Mas como democracia implica vigilância, é obrigatório que as autoridades sigam de perto as movimentações desses extremos e a comunicação social, especialmente a televisão, tenham seriedade e decência. Para não dizer mais.
As generalizações são sempre injustas, mas passam a criminosas quando se fazem sobre a Imigração. No Canadá há 40 portugueses presos por crimes cometidos e, entre os milhares de ilegais portugueses que desde há tempos têm arribado a esta margem, sabe-se que há criminosos, alguns até foragidos da justiça lusa. Este painel, mais coisa, menos coisa, é o que se verifica em todas as grandes comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Os emigrantes portugueses não têm sido insultados por manifestantes de rua. Não seria justo. Os departamentos de Justiça e de Imigração fazem o seu trabalho, sem pressa, com todo o cuidado. Serão deportados os que tiverem de o ser. Mas ninguém insulta o português que faz o trabalho que o canadiano deixou de fazer. Ninguém devia insultar os imigrantes que, em Portugal, fazem o trabalho que os portugueses há muito deixaram de fazer (como estamos todos fartos de saber, desde que apareceu o maná das baixas prolongadas, dos subsídios de desemprego que se podem prolongar, dos pseudo-cursos de aperfeiçoamento, etc. etc.).
Devo acrescentar que, no Canadá e em muitos outros países, há todo um programa de apoio aos recém-chegados que abrange a escola, os serviços de saúde, o alojamento, o enquadramento comunitário.
A democracia portuguesa tem ainda muito que aprender e é bom que aprenda depressa para o povo não ter de sofrer a boçalidade, o atraso de vida de uma ditadura de extrema-direita ou de extrema-esquerda.
quinta-feira, junho 16, 2005
O pensamento cristão perde Paul Ricoeur
Fala o filosofo Carlos Díaz, fundador do Instituto Mounier
MADRID, quarta-feira, 15 de Junho de 2005 (ZENIT.org).- No dia 20 de maio, falecia serenamente enquanto dormia em Chatenay Malabry (Paris), aos 92 anos de idade, Paul Ricoeur, um dos maiores filósofos do século XX.
Sua morte aconteceu como ele a havia desejado, confirmaram a Zenit fontes próximas ao pensador francês: em sua casa e não no hospital, sem sofrimento traumáticos, sem perder a consciência. Os funerais foram como os pediu, discretos, em sua paróquia protestante.
Com Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de maior influência na filosofia atual, explica a Zenit o professor Carlos Díaz, fundador do Instituto Mounier, professor de fenomenologia da religião na Universidade Complutense de Madrid, que conhecia pessoalmente o filósofo.
João Paulo II entregou a Ricoeur em Julho de 2003 o qüinqüenal Prêmio Internacional Paulo VI e reconheceu que a investigação do filósofo «manifesta como é fecunda a relação entre filosofia e teologia, entre fé e cultura».
--Que se perdeu com Paul Ricoeur?
--Díaz: Com a morte de Paul Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de mais amplo alcance e de maior autoridade no pensamento filosófico mundial de hoje.
Esta aceitação deve-se fundamentalmente ao caráter hermenêutico de seu discurso, que se abre com todos os sistemas buscando o melhor deles.
O revés ou a contrapartida desta atitude paga o preço de uma certa vontade de «não querer levar razão». No pensamento contemporâneo, tal forma de enforcar os problemas resulta mais aceitável que a que se apresenta aberta e taxativamente.
--Em que se notará sua herança, e quem a levará adiante?
--Díaz: Sua herança --como se disse-- ninguém disputará exclusivamente, mais bem sua recordação será a de um pensador acolhedor e amável.
Não aparecerá com sinais destacados em nenhuma parte. Que Ricoeur seja um dos grandes filósofos do momento não significa que --em minha opinião-- vá passar às histórias da filosofia, ainda que seguramente será conhecido pelos mais especialistas. E tudo isto porque Ricoeur é mais analítico que propositivo, em minha opinião.
--Pessoalmente, que aspecto do pensador o fascina mais?
--Díaz: Primeiro a fidelidade de sua amizade e o reconhecimento do magistério que sobre ele exerceu Emmanuel Mounier.
No plano meramente humano, quando tive a sorte de encontrar-me com ele me chamou a atenção sua brincadeira, seu trato delicado, alinhado por uma certa capacidade de humor, que não desemboca contudo em mordacidade. Junto a isto, sua humildade --eu diria que até sua ternura-- para dialogar com qualquer um, inclusive com os supostos mais ignorantes.
No que se refere ao terreno intelectual, o que me chama a atenção de Ricoeur é sua capacidade de entender qualquer autor em qualquer idioma, sua inteligência para discernir analiticamente os problemas me parece quase inigualável.
--Ficamos órfãos de grandes intelectuais cristãos do nível de Ricoeur?
--Díaz: Não, de maneira alguma. Primeiro, porque já disse que sua contribuição ao cristianismo como tal não foi demasiado temática, e depois porque como caberia não esperar de entre tanto cristão a emergência de mais teólogos, ou seja, daqueles que pensam no Senhor reclinando sua cabeça no Senhor?
Fonte: www.zenit.org
MADRID, quarta-feira, 15 de Junho de 2005 (ZENIT.org).- No dia 20 de maio, falecia serenamente enquanto dormia em Chatenay Malabry (Paris), aos 92 anos de idade, Paul Ricoeur, um dos maiores filósofos do século XX.
Sua morte aconteceu como ele a havia desejado, confirmaram a Zenit fontes próximas ao pensador francês: em sua casa e não no hospital, sem sofrimento traumáticos, sem perder a consciência. Os funerais foram como os pediu, discretos, em sua paróquia protestante.
Com Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de maior influência na filosofia atual, explica a Zenit o professor Carlos Díaz, fundador do Instituto Mounier, professor de fenomenologia da religião na Universidade Complutense de Madrid, que conhecia pessoalmente o filósofo.
João Paulo II entregou a Ricoeur em Julho de 2003 o qüinqüenal Prêmio Internacional Paulo VI e reconheceu que a investigação do filósofo «manifesta como é fecunda a relação entre filosofia e teologia, entre fé e cultura».
--Que se perdeu com Paul Ricoeur?
--Díaz: Com a morte de Paul Ricoeur, vai-se uma das últimas vozes cristãs de mais amplo alcance e de maior autoridade no pensamento filosófico mundial de hoje.
Esta aceitação deve-se fundamentalmente ao caráter hermenêutico de seu discurso, que se abre com todos os sistemas buscando o melhor deles.
O revés ou a contrapartida desta atitude paga o preço de uma certa vontade de «não querer levar razão». No pensamento contemporâneo, tal forma de enforcar os problemas resulta mais aceitável que a que se apresenta aberta e taxativamente.
--Em que se notará sua herança, e quem a levará adiante?
--Díaz: Sua herança --como se disse-- ninguém disputará exclusivamente, mais bem sua recordação será a de um pensador acolhedor e amável.
Não aparecerá com sinais destacados em nenhuma parte. Que Ricoeur seja um dos grandes filósofos do momento não significa que --em minha opinião-- vá passar às histórias da filosofia, ainda que seguramente será conhecido pelos mais especialistas. E tudo isto porque Ricoeur é mais analítico que propositivo, em minha opinião.
--Pessoalmente, que aspecto do pensador o fascina mais?
--Díaz: Primeiro a fidelidade de sua amizade e o reconhecimento do magistério que sobre ele exerceu Emmanuel Mounier.
No plano meramente humano, quando tive a sorte de encontrar-me com ele me chamou a atenção sua brincadeira, seu trato delicado, alinhado por uma certa capacidade de humor, que não desemboca contudo em mordacidade. Junto a isto, sua humildade --eu diria que até sua ternura-- para dialogar com qualquer um, inclusive com os supostos mais ignorantes.
No que se refere ao terreno intelectual, o que me chama a atenção de Ricoeur é sua capacidade de entender qualquer autor em qualquer idioma, sua inteligência para discernir analiticamente os problemas me parece quase inigualável.
--Ficamos órfãos de grandes intelectuais cristãos do nível de Ricoeur?
--Díaz: Não, de maneira alguma. Primeiro, porque já disse que sua contribuição ao cristianismo como tal não foi demasiado temática, e depois porque como caberia não esperar de entre tanto cristão a emergência de mais teólogos, ou seja, daqueles que pensam no Senhor reclinando sua cabeça no Senhor?
Fonte: www.zenit.org
domingo, junho 12, 2005
O PPM morreu!
por António de Sousa-Cardoso
«Não deixaremos que, junto da opinião pública, confundam os monárquicos portugueses com o PPM»
REALIZOU-SE este fim-de-semana o Congresso Eleitoral do PPM. E é sobre as circunstâncias em que decorreu e sobre os resultados já previsíveis deste Congresso que vale a pena tirar algumas ilações
O PPM formou-se em 1974, empurrado por uma activa participação dos monárquicos na SEDES. Todos quantos trabalharam nalguma clandestinidade no período salazarista/marcelista, encontraram na formulação partidária a forma de expressarem as suas convicções na sequência da revolução dos cravos. E este erro histórico foi cometido por personalidades de grande destaque no Movimento Monárquico que, no fervilhar de uma revolução que construía então o sistema partidário, não quiseram perder por «falta de comparência». Muitos monárquicos filiaram-se entretanto noutros partidos - o próprio Francisco Sá Carneiro foi militante da Causa Monárquica - convencidos que estavam que a monarquia era uma alternativa para a questão de regime e nunca para a questão do governo.
Apesar disso, o PPM teve uma muito interessante dinâmica política e social que motivou que tivesse integrado a Aliança Democrática, num claro reconhecimento dos méritos do partido e dos seus principais dirigentes. Esta integração na lógica do poder republicano acabou por ser o começo do fim do PPM, com os seus principais intervenientes embrenhados no jogo do poder e da governação, muito pouco compatível com a defesa de um regime novo para todos os portugueses. Foi necessário encontrar bandeiras seguras da governação, como a defesa do espaço rural e do ambiente, num exemplo de grande pioneirismo dos dirigentes de então, mas claro está, no afastamento do seu principal código genético - a defesa da monarquia.
Com o desaparecimento da AD muitos dos dirigentes do PPM acabaram por sair, alguns deles fundando mais tarde um outro partido, o Partido da Terra, agregador das propostas de governação aprofundadas pelo partido. Muitos dos militantes sairiam também, percebendo o pecado original de terem optado pela formulação partidária, e reunindo-se mais tarde nas Reais Associações e na Causa Real, representativa dos monárquicos portugueses, independentemente da filiação ou sensibilidade partidária.
Desde aí que o PPM não passa de um pequeno grupelho político, de exígua expressão eleitoral e com total falta de relevância na vida nacional.
A quota marginal de relevância do PPM é, deste modo, garantida por recurso a meios mais ínvios. Ou através de manobras de diversão, tão ao gosto da nossa comunicação social, envolvendo recorrentemente a Casa Real Portuguesa que tem granjeado crescente credibilidade e notoriedade. Ou apostando na confusão que os cidadãos e até os dirigentes partidários fazem ainda, entre o PPM e os monárquicos portugueses.
As recentes diatribes de um conhecido fadista constituíram não só o condimento necessário para a ressurreição desta marginalidade política, mas ainda a prova de que o populismo e a mediocridade que lhe está associada pegaram há alguns anos de estaca no sistema partidário português, e só serão definitivamente erradicados através de um assomo genuíno de coragem política da nova geração de dirigentes políticos.
O PPM representou nas últimas eleições cerca de 12.000 votos. Um estudo recente realizado pela Causa Real com um Centro de Sondagens de reconhecida credibilidade mostra que quase 20% dos portugueses confessam convictamente a sua preferência pela instituição real. Os números dobram quando as coisas passam para o plano da simpatia e da abertura para com as vantagens da instituição real numa democracia moderna, igual à de muitos dos nossos parceiros europeus.
Quer dizer que não precisamos de falar em simpatias para afirmar que só 1 em cerca de 120 monárquicos portugueses votam hoje no PPM - se é que quem vota no PPM é monárquico, e não amante do fado ou da «Quinta das Celebridades».
Provavelmente, as diatribes dos actuais dirigentes do partido continuarão, reforçadas pelo triunfo eleitoral assegurado com o voto de 61 militantes (?) no último Congresso. Provavelmente, este estado de coisas interessa a muita gente, preocupada com a maior relevância e credibilidade que o movimento monárquico e a Casa Real portuguesa têm assumido.
Não deixaremos por isso que, junto da opinião pública, confundam os monárquicos portugueses com o PPM ou com a sua insignificante expressão eleitoral. Seria, a partir de agora, a mesma coisa que confundir os mesmos 12.000 votos do Partido da Terra com os amantes da natureza, do ambiente e do espaço rural.
O PPM - a sua história e as suas motivações mais genuínas - morreu já há alguns anos, talvez de remorso pelo pecado original inerente à sua formulação partidária. O PPM dos actuais 12.000 votos é um grupo marginal que seguramente representa sede de protagonismo e que provavelmente envolve interesses menos claros de «guetização» do movimento monárquico.
Os monárquicos portugueses de todos os partidos políticos saberão denunciar, até pela sua crescente afirmação e relevância, os aproveitamentos políticos que se fizerem sobre a respeitosa memória de um partido que já não existe entre nós.
Presidente da Causa Real
«Não deixaremos que, junto da opinião pública, confundam os monárquicos portugueses com o PPM»
REALIZOU-SE este fim-de-semana o Congresso Eleitoral do PPM. E é sobre as circunstâncias em que decorreu e sobre os resultados já previsíveis deste Congresso que vale a pena tirar algumas ilações
O PPM formou-se em 1974, empurrado por uma activa participação dos monárquicos na SEDES. Todos quantos trabalharam nalguma clandestinidade no período salazarista/marcelista, encontraram na formulação partidária a forma de expressarem as suas convicções na sequência da revolução dos cravos. E este erro histórico foi cometido por personalidades de grande destaque no Movimento Monárquico que, no fervilhar de uma revolução que construía então o sistema partidário, não quiseram perder por «falta de comparência». Muitos monárquicos filiaram-se entretanto noutros partidos - o próprio Francisco Sá Carneiro foi militante da Causa Monárquica - convencidos que estavam que a monarquia era uma alternativa para a questão de regime e nunca para a questão do governo.
Apesar disso, o PPM teve uma muito interessante dinâmica política e social que motivou que tivesse integrado a Aliança Democrática, num claro reconhecimento dos méritos do partido e dos seus principais dirigentes. Esta integração na lógica do poder republicano acabou por ser o começo do fim do PPM, com os seus principais intervenientes embrenhados no jogo do poder e da governação, muito pouco compatível com a defesa de um regime novo para todos os portugueses. Foi necessário encontrar bandeiras seguras da governação, como a defesa do espaço rural e do ambiente, num exemplo de grande pioneirismo dos dirigentes de então, mas claro está, no afastamento do seu principal código genético - a defesa da monarquia.
Com o desaparecimento da AD muitos dos dirigentes do PPM acabaram por sair, alguns deles fundando mais tarde um outro partido, o Partido da Terra, agregador das propostas de governação aprofundadas pelo partido. Muitos dos militantes sairiam também, percebendo o pecado original de terem optado pela formulação partidária, e reunindo-se mais tarde nas Reais Associações e na Causa Real, representativa dos monárquicos portugueses, independentemente da filiação ou sensibilidade partidária.
Desde aí que o PPM não passa de um pequeno grupelho político, de exígua expressão eleitoral e com total falta de relevância na vida nacional.
A quota marginal de relevância do PPM é, deste modo, garantida por recurso a meios mais ínvios. Ou através de manobras de diversão, tão ao gosto da nossa comunicação social, envolvendo recorrentemente a Casa Real Portuguesa que tem granjeado crescente credibilidade e notoriedade. Ou apostando na confusão que os cidadãos e até os dirigentes partidários fazem ainda, entre o PPM e os monárquicos portugueses.
As recentes diatribes de um conhecido fadista constituíram não só o condimento necessário para a ressurreição desta marginalidade política, mas ainda a prova de que o populismo e a mediocridade que lhe está associada pegaram há alguns anos de estaca no sistema partidário português, e só serão definitivamente erradicados através de um assomo genuíno de coragem política da nova geração de dirigentes políticos.
O PPM representou nas últimas eleições cerca de 12.000 votos. Um estudo recente realizado pela Causa Real com um Centro de Sondagens de reconhecida credibilidade mostra que quase 20% dos portugueses confessam convictamente a sua preferência pela instituição real. Os números dobram quando as coisas passam para o plano da simpatia e da abertura para com as vantagens da instituição real numa democracia moderna, igual à de muitos dos nossos parceiros europeus.
Quer dizer que não precisamos de falar em simpatias para afirmar que só 1 em cerca de 120 monárquicos portugueses votam hoje no PPM - se é que quem vota no PPM é monárquico, e não amante do fado ou da «Quinta das Celebridades».
Provavelmente, as diatribes dos actuais dirigentes do partido continuarão, reforçadas pelo triunfo eleitoral assegurado com o voto de 61 militantes (?) no último Congresso. Provavelmente, este estado de coisas interessa a muita gente, preocupada com a maior relevância e credibilidade que o movimento monárquico e a Casa Real portuguesa têm assumido.
Não deixaremos por isso que, junto da opinião pública, confundam os monárquicos portugueses com o PPM ou com a sua insignificante expressão eleitoral. Seria, a partir de agora, a mesma coisa que confundir os mesmos 12.000 votos do Partido da Terra com os amantes da natureza, do ambiente e do espaço rural.
O PPM - a sua história e as suas motivações mais genuínas - morreu já há alguns anos, talvez de remorso pelo pecado original inerente à sua formulação partidária. O PPM dos actuais 12.000 votos é um grupo marginal que seguramente representa sede de protagonismo e que provavelmente envolve interesses menos claros de «guetização» do movimento monárquico.
Os monárquicos portugueses de todos os partidos políticos saberão denunciar, até pela sua crescente afirmação e relevância, os aproveitamentos políticos que se fizerem sobre a respeitosa memória de um partido que já não existe entre nós.
Presidente da Causa Real
quinta-feira, junho 02, 2005
EM QUE CONSISTE EXACTAMENTE O PERIGO ESPANHOL
por Henrique Barrilaro Ruas
Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder
...o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, nobilíssimo) Euzkadi.
O “perigo espanhol” é doença quase endémica entre portugueses. A bem dizer, só recentemente, com o fenómeno um tanto snob do anti-nacionalismo, é que se tem perdido essa antiga sensação. Pessoalmente, com sangue materno de origem espanhola (mas andaluz – de ascendência genovesa – e basco), com uma educação de patriotismo quase romântico, com muita acentuada atenção aos factos históricos mais simbólicos, devo confessar que sempre senti esse perigo e a vontade de o enfrentar. Mas nunca deixei de ter simpatia e admiração pela Espanha, e sempre tenho procurado levar os meus amigos mais exaltadamente desconfiados e hostis a aceitarem que os Espanhóis não são um perigo por odiarem Portugal, mas por amarem Portugal inadequadamente, ou de modo insensato.
Ao longo dos tempos, o “perigo espanhol” manifestou-se de várias maneiras: desde o altivo paternalismo de Afonso VII (apesar do encontro de 4 e 5 de Outubro de 1143), até à paixão incontrolada de João I ou de Filipe II; desde o absorvente imperialismo de Filipe IV até à idolatria napoleónica de Godoy; desde o insolente intervencionismo de Afonso XIII até ao de Franco (já perto de morrer).
De todas essas modalidades, nem todas elas postas em prática ou sequer experimentadas, a mais grave terá sido a de Godoy. Porque foi então que o imperialismo castelhano (muitas vezes apenas sonhado) se conjugou com outro imperialismo mais poderoso, e um e outro decidiram acabar com Portugal. E também porque, de esse absurdo e vergonhoso conluio, fica no corpo de Portugal a “chaga do lado”: ainda hoje, Olivença está sob o domínio espanhol.
Direi, pois, que acredito no “perigo espanhol”. Direi que, para mim, o perigo espanhol está mais forte, mais opulento, mais complexo e mais extenso; porque se confunde com o que chamo o perigo europeu, que para nós, portugueses, está propriamente representado por aquele primeiro perigo. Estou convencido de que os espanhóis aceitaram facilmente o projecto europeu (que não parecia poder ser simpático ao seu profundo e sensível nacionalismo), exactamente por assim se lhes oferecer a ocasião propícia para pôr em prática o antigo sonho da unidade peninsular. Foi uma coisa que logo entendi (ou intuí) quando, em 1948, ouvi Denis de Rougemont defender, na Cidade Universitária de Paris, a tese da Federação Europeia. Proposta pelo orador a sua visão da futura Europa, a imensa maioria da larga assistência (em que havia bastantes espanhóis) votou a favor, contra dois votos (o meu e o de uma belga) e com meia dúzia de abstenções, algumas das quais eram espanholas. Nunca mais deixei de compreender como coisa natural a posição espanhola favorável à europeização crescente.
Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder. O absurdo tratado de Fontainebleau não foi avante. Mas o tratadozinho de Badajoz, que devia ser desfeito no Congresso de Viena, como primeiro ensaio da destruição de Portugal por Napoleão e Godoy, ultrapassou vitoriosamente a barreira da Política geral, e ainda hoje pesa nas relações luso-espanholas. Tal foi a força dessa coligação imperialista.
Mas eu prefiro abordar o tema numa perspectiva diferente. Não a partir de experiências, de casos concretos, de anormalidades, mas antes a pensar em grandes linhas da História. No rosto positivo da História.
O que mais importa, penso eu, é considerar o que é que está – ou pode estar – em perigo, quando se fala em “perigo espanhol”. Uma coisa é ver, conhecer o perigo em si mesmo, na matéria que o compõe, nas formas que tem assumido ou pode vir a assumir. Outra coisa, bem mais interessante, é saber em que consiste esse perigo quanto ao que é ameaçado. (Há fortíssimas tempestades que varrem os desertos e os mares e as montanhas – e que nada ou quase nada significam para a gente humana. Há tempestades – ou sismos – bem mais pequenos em si, e que provocam terríveis desastres para a humanidade.) Interessa, pois, para pesar o “perigo espanhol”, olhar claramente para aquilo que está ou pode estar em perigo.
Neste sentido, ao menos para nós, portugueses, o “perigo espanhol” ganha significado bem concreto, e revela uma inesperada transcendência.
1. “Perigo espanhol” é negar, ou contradizer, ou pôr em causa, ou desprezar a soberania do povo português. Pode ser que, para alguns grandes povos, a soberania não tenha importância essencial. Mas nós, portugueses, aqui, na Península, sempre precisámos dessa alta muralha, dessa defesa insubstituível, desse sinal esplêndido. Quisemos a independência – e não foi por capricho. Ganhámos a independência. Criámos o Pacto Sucessório, que iria permitir a D. Afonso Henriques a Conferência de Zamora e a espantosa salvação do reino quando do desastre de Badajoz.
Criámos um vasto sistema de alianças de base matrimonial, dentro e fora da Península. Criámos a Aliança Inglesa (que já tem formas vivas no primeiro reinado), que nos vai ajudar a contra-balançar o poderio castelhano ainda em tempos de D. Fernando. Organizámos as Forças Armadas com estruturas defensivas que tinham atingido, no reinado de D. Sebastião, tal densidade e qualidade que nos viriam a dar a vitória da Guerra da Restauração e nas Invasões Francesas.
2. “Perigo espanhol” é negar ou pôr em dúvida a realidade comunitária dotada de consciência “para-nacional” (Pierre David) e que constituía já uma “república” antes de assumir a forma de Estado nacional. (De certa maneira, essa comunidade tinha por fundamento os Lusitanos de Viriato e, como reino dos Suevos, chegara a aliar-se ao Império Romano do Oriente.)
3. “Perigo espanhol” é, também, negar ou contradizer, ou sobretudo, menosprezar como ornato barroco o carácter institucional permanente do centro-cume do Estado nacional: uma realeza hereditária mas aberta ao critério absoluto do Interesse Nacional, como se viu em 1245, em 1383-85, em 1640-1641, em 1667-68, em 1698, e na controvérsia de 1826-34. Abater ou conservar abatida essa instituição cria uma forma notável de “perigo espanhol”, sempre que a Espanha é regida em monarquia. Porque logo Portugal tende a ser tomado como análogo à Galiza, ao País Basco, à Catalunha... O que já tem visto e sofrido, de vários modos; por exemplo, em Santiago de Compostela, num falhado “frente a frente” do Rei de Espanha com o Presidente Jorge Sampaio.
4. “Perigo espanhol” é, também, negar, adormecer, pôr em banho-maria a indiscutível prioridade portuguesa das Descobertas marítimas, na colonização sistemática, na evangelização permanente fora da Europa. Esquecer que os arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, foram os pioneiros da Cultura Europeia (como tal nascente) na época em que o Renascimento dava aos europeus a auto-consciência.
5. “Perigo espanhol” é negar ou esquecer que foi Portugal que renovou a Historiografia europeia, dando-lhe dimensões de universalidade, apenas comparável àquela que marca os primeiros séculos do Cristianismo.
6. “Perigo espanhol” é ignorar ou desprezar a origem portuguesa de certas formas culturais que vão estar presentes do Extremo Oriente ao Extremo Ocidente e têm pontos altos o culto ao Espírito Santo, a solidariedade comunitária, o carácter festivo do bem-fazer, a igualdade social própria das Santas Casas da Misericórdia.
7. “Perigo espanhol” é fazer-se alguém surdo à língua portuguesa, nossa “pátria”, supor indiferente à riqueza da humanidade que entre os Trovadores e Rosalía de Castro se estendesse um imenso deserto de silêncio – ou de canto e discursos castelhanos -, ou se pudesse ouvir o Cancioneiro Geral, e Fernão Lopes, e o Leal Conselheiro, e a Menina e Moça, e Gil Vicente, e Barros, e Camões, e Vieira, e Rodrigues Lobo e Bocage e Garrett e Camilo...
8. “Perigo espanhol” é fazer de conta que a acção dos Portugueses foi equivalente à dos Espanhóis na América do Sul, e que só por acaso é que metade desse continente constitui o Brasil, ao passo que a outra metade se divide em nove Estados nacionais e alguns territórios mal saídos do colonialismo.
Ou seja, a visão ou descoberta do “perigo espanhol” em termos funcionais, ou de apreciação relativa, ou de dinâmica histórica, ou de polémica civilizacional, constitui virtualmente uma tragédia para a humanidade.
Se o “perigo espanhol” tivesse sido eficaz, plenamente ou quase vitorioso, não só o Povo português como, em diversos graus, muitos outros povos, vastíssimas regiões do mundo, teriam perdido ou nunca teriam alcançado certos bens políticos, económicos, culturais, espirituais, de altíssima importância. Tanto mais que não podemos esquecer o que significa prioridade portuguesa para uma Europa habituada a viver e a morrer sobre si mesma, inegavelmente engenhosa, artística, “sofisticada”, capaz de se inebriar com os perfumes do seu próprio corpo e do seu próprio espírito, provavelmente apegada para sempre à deslumbrante contemplação do umbigo...
Sem Aljubarrota, sem Montes Claros, sem as Linhas de Torres (tornadas necessárias também pela convergência do “perigo espanhol” com o, então campeante, perigo francês) a já grande ameaça que acompanha quase sempre a nossa História teria instalado no mundo um “Portugal” bem diferente, um “Portugal” paralelo, ou sombra, de Espanha.
*
Em 1949, no mês de Julho, reuniu-se perto de Salzburgo o 1º Congresso das “Nouvelles Equipes Internationales”, de raiz democrata-cristã e federalista. A convite da delegação francesa, e apesar de ter declarado não ser democrata-cristão (mas cristão social) nem federalista-europeu, desloquei-me de Paris (onde terminava dois anos de estudos) e tomei parte nos trabalhos, na qualidade de observador português. (Era, de facto, exemplar único.) Tive a oportunidade de, durante alguns dias, conviver com dois delegados do País Basco, um dos quais era irmão do Presidente Aguirre (então residente, de preferência, em Biarritz) e o outro se chamava (o nome tornou-se, há poucos anos, muito conhecido) Iñaki de Rentería. Este último tinha estado, pouco antes, nos Pirenéus, como guerrilheiro anti-franquista. Ambos me diziam (além de outras coisas que para este caso interessam menos) que o problema histórico português – o problema da sua soberania plena – era completamente diferente do problema basco. Porque Portugal sempre tivera política diplomática própria, e tambem porque havia o Ultramar. Estou a vê-los, na Áustria, e, dias depois, em Paris, na própria casa do Presidente Aguirre, a explanar estas e outras ideias claras e distintas. As fotografias que deles conservo avivam a recordação pessoal. E acentuam, em diferente perspectiva, os traços essenciais da questão que nos ocupa. Porque o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, no bilíssimo) Euzkadi.
Tal confusão (ou outras semelhantes a ela) não depende necessariamente de Espanha. Pode ser obra dos Portugueses. Como todas as versões do “perigo espanhol” que ao longo deste escrito fomos apresentando.
(In História, Novembro 2002, pp. 34-37; com algumas correcções introduzidas pelo Autor)
Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder
...o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, nobilíssimo) Euzkadi.
O “perigo espanhol” é doença quase endémica entre portugueses. A bem dizer, só recentemente, com o fenómeno um tanto snob do anti-nacionalismo, é que se tem perdido essa antiga sensação. Pessoalmente, com sangue materno de origem espanhola (mas andaluz – de ascendência genovesa – e basco), com uma educação de patriotismo quase romântico, com muita acentuada atenção aos factos históricos mais simbólicos, devo confessar que sempre senti esse perigo e a vontade de o enfrentar. Mas nunca deixei de ter simpatia e admiração pela Espanha, e sempre tenho procurado levar os meus amigos mais exaltadamente desconfiados e hostis a aceitarem que os Espanhóis não são um perigo por odiarem Portugal, mas por amarem Portugal inadequadamente, ou de modo insensato.
Ao longo dos tempos, o “perigo espanhol” manifestou-se de várias maneiras: desde o altivo paternalismo de Afonso VII (apesar do encontro de 4 e 5 de Outubro de 1143), até à paixão incontrolada de João I ou de Filipe II; desde o absorvente imperialismo de Filipe IV até à idolatria napoleónica de Godoy; desde o insolente intervencionismo de Afonso XIII até ao de Franco (já perto de morrer).
De todas essas modalidades, nem todas elas postas em prática ou sequer experimentadas, a mais grave terá sido a de Godoy. Porque foi então que o imperialismo castelhano (muitas vezes apenas sonhado) se conjugou com outro imperialismo mais poderoso, e um e outro decidiram acabar com Portugal. E também porque, de esse absurdo e vergonhoso conluio, fica no corpo de Portugal a “chaga do lado”: ainda hoje, Olivença está sob o domínio espanhol.
Direi, pois, que acredito no “perigo espanhol”. Direi que, para mim, o perigo espanhol está mais forte, mais opulento, mais complexo e mais extenso; porque se confunde com o que chamo o perigo europeu, que para nós, portugueses, está propriamente representado por aquele primeiro perigo. Estou convencido de que os espanhóis aceitaram facilmente o projecto europeu (que não parecia poder ser simpático ao seu profundo e sensível nacionalismo), exactamente por assim se lhes oferecer a ocasião propícia para pôr em prática o antigo sonho da unidade peninsular. Foi uma coisa que logo entendi (ou intuí) quando, em 1948, ouvi Denis de Rougemont defender, na Cidade Universitária de Paris, a tese da Federação Europeia. Proposta pelo orador a sua visão da futura Europa, a imensa maioria da larga assistência (em que havia bastantes espanhóis) votou a favor, contra dois votos (o meu e o de uma belga) e com meia dúzia de abstenções, algumas das quais eram espanholas. Nunca mais deixei de compreender como coisa natural a posição espanhola favorável à europeização crescente.
Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder. O absurdo tratado de Fontainebleau não foi avante. Mas o tratadozinho de Badajoz, que devia ser desfeito no Congresso de Viena, como primeiro ensaio da destruição de Portugal por Napoleão e Godoy, ultrapassou vitoriosamente a barreira da Política geral, e ainda hoje pesa nas relações luso-espanholas. Tal foi a força dessa coligação imperialista.
Mas eu prefiro abordar o tema numa perspectiva diferente. Não a partir de experiências, de casos concretos, de anormalidades, mas antes a pensar em grandes linhas da História. No rosto positivo da História.
O que mais importa, penso eu, é considerar o que é que está – ou pode estar – em perigo, quando se fala em “perigo espanhol”. Uma coisa é ver, conhecer o perigo em si mesmo, na matéria que o compõe, nas formas que tem assumido ou pode vir a assumir. Outra coisa, bem mais interessante, é saber em que consiste esse perigo quanto ao que é ameaçado. (Há fortíssimas tempestades que varrem os desertos e os mares e as montanhas – e que nada ou quase nada significam para a gente humana. Há tempestades – ou sismos – bem mais pequenos em si, e que provocam terríveis desastres para a humanidade.) Interessa, pois, para pesar o “perigo espanhol”, olhar claramente para aquilo que está ou pode estar em perigo.
Neste sentido, ao menos para nós, portugueses, o “perigo espanhol” ganha significado bem concreto, e revela uma inesperada transcendência.
1. “Perigo espanhol” é negar, ou contradizer, ou pôr em causa, ou desprezar a soberania do povo português. Pode ser que, para alguns grandes povos, a soberania não tenha importância essencial. Mas nós, portugueses, aqui, na Península, sempre precisámos dessa alta muralha, dessa defesa insubstituível, desse sinal esplêndido. Quisemos a independência – e não foi por capricho. Ganhámos a independência. Criámos o Pacto Sucessório, que iria permitir a D. Afonso Henriques a Conferência de Zamora e a espantosa salvação do reino quando do desastre de Badajoz.
Criámos um vasto sistema de alianças de base matrimonial, dentro e fora da Península. Criámos a Aliança Inglesa (que já tem formas vivas no primeiro reinado), que nos vai ajudar a contra-balançar o poderio castelhano ainda em tempos de D. Fernando. Organizámos as Forças Armadas com estruturas defensivas que tinham atingido, no reinado de D. Sebastião, tal densidade e qualidade que nos viriam a dar a vitória da Guerra da Restauração e nas Invasões Francesas.
2. “Perigo espanhol” é negar ou pôr em dúvida a realidade comunitária dotada de consciência “para-nacional” (Pierre David) e que constituía já uma “república” antes de assumir a forma de Estado nacional. (De certa maneira, essa comunidade tinha por fundamento os Lusitanos de Viriato e, como reino dos Suevos, chegara a aliar-se ao Império Romano do Oriente.)
3. “Perigo espanhol” é, também, negar ou contradizer, ou sobretudo, menosprezar como ornato barroco o carácter institucional permanente do centro-cume do Estado nacional: uma realeza hereditária mas aberta ao critério absoluto do Interesse Nacional, como se viu em 1245, em 1383-85, em 1640-1641, em 1667-68, em 1698, e na controvérsia de 1826-34. Abater ou conservar abatida essa instituição cria uma forma notável de “perigo espanhol”, sempre que a Espanha é regida em monarquia. Porque logo Portugal tende a ser tomado como análogo à Galiza, ao País Basco, à Catalunha... O que já tem visto e sofrido, de vários modos; por exemplo, em Santiago de Compostela, num falhado “frente a frente” do Rei de Espanha com o Presidente Jorge Sampaio.
4. “Perigo espanhol” é, também, negar, adormecer, pôr em banho-maria a indiscutível prioridade portuguesa das Descobertas marítimas, na colonização sistemática, na evangelização permanente fora da Europa. Esquecer que os arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, foram os pioneiros da Cultura Europeia (como tal nascente) na época em que o Renascimento dava aos europeus a auto-consciência.
5. “Perigo espanhol” é negar ou esquecer que foi Portugal que renovou a Historiografia europeia, dando-lhe dimensões de universalidade, apenas comparável àquela que marca os primeiros séculos do Cristianismo.
6. “Perigo espanhol” é ignorar ou desprezar a origem portuguesa de certas formas culturais que vão estar presentes do Extremo Oriente ao Extremo Ocidente e têm pontos altos o culto ao Espírito Santo, a solidariedade comunitária, o carácter festivo do bem-fazer, a igualdade social própria das Santas Casas da Misericórdia.
7. “Perigo espanhol” é fazer-se alguém surdo à língua portuguesa, nossa “pátria”, supor indiferente à riqueza da humanidade que entre os Trovadores e Rosalía de Castro se estendesse um imenso deserto de silêncio – ou de canto e discursos castelhanos -, ou se pudesse ouvir o Cancioneiro Geral, e Fernão Lopes, e o Leal Conselheiro, e a Menina e Moça, e Gil Vicente, e Barros, e Camões, e Vieira, e Rodrigues Lobo e Bocage e Garrett e Camilo...
8. “Perigo espanhol” é fazer de conta que a acção dos Portugueses foi equivalente à dos Espanhóis na América do Sul, e que só por acaso é que metade desse continente constitui o Brasil, ao passo que a outra metade se divide em nove Estados nacionais e alguns territórios mal saídos do colonialismo.
Ou seja, a visão ou descoberta do “perigo espanhol” em termos funcionais, ou de apreciação relativa, ou de dinâmica histórica, ou de polémica civilizacional, constitui virtualmente uma tragédia para a humanidade.
Se o “perigo espanhol” tivesse sido eficaz, plenamente ou quase vitorioso, não só o Povo português como, em diversos graus, muitos outros povos, vastíssimas regiões do mundo, teriam perdido ou nunca teriam alcançado certos bens políticos, económicos, culturais, espirituais, de altíssima importância. Tanto mais que não podemos esquecer o que significa prioridade portuguesa para uma Europa habituada a viver e a morrer sobre si mesma, inegavelmente engenhosa, artística, “sofisticada”, capaz de se inebriar com os perfumes do seu próprio corpo e do seu próprio espírito, provavelmente apegada para sempre à deslumbrante contemplação do umbigo...
Sem Aljubarrota, sem Montes Claros, sem as Linhas de Torres (tornadas necessárias também pela convergência do “perigo espanhol” com o, então campeante, perigo francês) a já grande ameaça que acompanha quase sempre a nossa História teria instalado no mundo um “Portugal” bem diferente, um “Portugal” paralelo, ou sombra, de Espanha.
*
Em 1949, no mês de Julho, reuniu-se perto de Salzburgo o 1º Congresso das “Nouvelles Equipes Internationales”, de raiz democrata-cristã e federalista. A convite da delegação francesa, e apesar de ter declarado não ser democrata-cristão (mas cristão social) nem federalista-europeu, desloquei-me de Paris (onde terminava dois anos de estudos) e tomei parte nos trabalhos, na qualidade de observador português. (Era, de facto, exemplar único.) Tive a oportunidade de, durante alguns dias, conviver com dois delegados do País Basco, um dos quais era irmão do Presidente Aguirre (então residente, de preferência, em Biarritz) e o outro se chamava (o nome tornou-se, há poucos anos, muito conhecido) Iñaki de Rentería. Este último tinha estado, pouco antes, nos Pirenéus, como guerrilheiro anti-franquista. Ambos me diziam (além de outras coisas que para este caso interessam menos) que o problema histórico português – o problema da sua soberania plena – era completamente diferente do problema basco. Porque Portugal sempre tivera política diplomática própria, e tambem porque havia o Ultramar. Estou a vê-los, na Áustria, e, dias depois, em Paris, na própria casa do Presidente Aguirre, a explanar estas e outras ideias claras e distintas. As fotografias que deles conservo avivam a recordação pessoal. E acentuam, em diferente perspectiva, os traços essenciais da questão que nos ocupa. Porque o “perigo espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o (aliás, no bilíssimo) Euzkadi.
Tal confusão (ou outras semelhantes a ela) não depende necessariamente de Espanha. Pode ser obra dos Portugueses. Como todas as versões do “perigo espanhol” que ao longo deste escrito fomos apresentando.
(In História, Novembro 2002, pp. 34-37; com algumas correcções introduzidas pelo Autor)
quinta-feira, maio 26, 2005
A Cultura Clássica
por António Sardinha
(excertos)
É um ponto este de crítica e doutrina que nós devemos examinar com cuidadosa atenção. Olhando à formação histórica do nosso país - formação medieval e toda ela motivada mais num facto instintivo de raça de que numa razão consciente de ordem política, o romanismo, nem como jurisprudência, nem como tipo de sociedade, pode constituir para Portugal uma disciplina pública de carácter imperioso e insubstituível. Pelo contrário, constitui até, no desenvolvimento acidentado da nossa pátria, um forte elemento de perturbação, que precisamos de enumerar entre as causas primaciais da sua decadência. Daí o não considerarmos a Renascença como um período de vigor e de brilho para a nacionalidade portuguesa, pois tanto intelectual, como socialmente, representa a origem fundamental de quantos desvios houvemos de sofrer nas direcções do nosso génio colectivo.
Mas se a Renascença, e com ela o ideal greco-romano, precisa de ser contada como um factor inimigo da marcha natural da nossa história, nem por isso nós condenamos a educação clássica nos domínios da pedagogia. No definhamento do gosto literário e na quebra assustadora das faculdades lógicas - características universais da barbaria contemporânea - eu não sei mesmo de outro recurso que se haja de opôr com eficácia à animalização crescente das novas gerações, em quem esmorece o enlevo das boas leituras e onde alastra, como uma nódoa deprimente, a mais vergonhosa das inabilidades no exercício da própria língua. Em Portugal hoje não se sabe redigir! Médicos terminam os seus cursos, terminam os seus cursos engenheiros. E sempre que careçam de praticar a expressão escrita, tanto em relatórios profissionais, como em trabalhos de maior fôlego, é doloroso reconhecer que claudicam indecorosamente na ignorância das mais sóbrias e mais elementares regras do estilo.
A ressurreição das humanidades no ensino secundário impõe-se, pois, como mais necessária que o semi-cientismo a que se sujeita o cérebro dos rapazes, roubando-os nesse período tão decisivo da vida à aprendizagem fundamental do pensar claro e do sentir claro. O problema, que é seriíssimo, não se resolve de forma alguma senão apelando para a educação humanista. (...)
Com a urgência duma medida de salvação nacional, o problema da educação clássica põe-se para Portugal tão inadiavelmente quase como o do regresso do Rei. A tara principal duma democracia consiste no enfraquecimento das forças do raciocínio e na confusão consequente de ideias, ainda as mais gerais. Concorre para isso sensivelmente a influência social do Parlamentarismo, apresentando como meta suprema da intelectualidade o rábula que discursa, o arengador encartado - o verbómano, numa palavra. (...)
Psicologicamente, estão já hoje estudados os efeitos destrutivos da oratória, que gera a obscuridade mental e contribui para o rebaixamento do nível comum da inteligência. Nos alvores do nosso Constitucionalismo, se tivemos parlamentares que intelectualmente significaram o que, por exemplo, significou Garrett, deve ainda à educação clássica. Nas sua maioria os grandes vultos do liberalismo português foram discípulos dos Padres do Oratório, recebendo do cultivo das humanidades a norma sadia de cultura que lhes deu sempre vivacidade e frescura ao espírito.
Já não acontece o mesmo com a camada que lhes sucedeu na herança. A depressão do gosto literário e da clareza lógica acompanhou a curva rápida da nossa desorganização, até cair na República, com os seus intelectuais semitatuados - pobres galerianos das coisas do pensamento, que hão-de passar à posteridade certamente, não como pessoas, mas como símbolos!
(...)
in Ao Ritmo da Ampulheta (negritos acrescentados).
(excertos)
É um ponto este de crítica e doutrina que nós devemos examinar com cuidadosa atenção. Olhando à formação histórica do nosso país - formação medieval e toda ela motivada mais num facto instintivo de raça de que numa razão consciente de ordem política, o romanismo, nem como jurisprudência, nem como tipo de sociedade, pode constituir para Portugal uma disciplina pública de carácter imperioso e insubstituível. Pelo contrário, constitui até, no desenvolvimento acidentado da nossa pátria, um forte elemento de perturbação, que precisamos de enumerar entre as causas primaciais da sua decadência. Daí o não considerarmos a Renascença como um período de vigor e de brilho para a nacionalidade portuguesa, pois tanto intelectual, como socialmente, representa a origem fundamental de quantos desvios houvemos de sofrer nas direcções do nosso génio colectivo.
Mas se a Renascença, e com ela o ideal greco-romano, precisa de ser contada como um factor inimigo da marcha natural da nossa história, nem por isso nós condenamos a educação clássica nos domínios da pedagogia. No definhamento do gosto literário e na quebra assustadora das faculdades lógicas - características universais da barbaria contemporânea - eu não sei mesmo de outro recurso que se haja de opôr com eficácia à animalização crescente das novas gerações, em quem esmorece o enlevo das boas leituras e onde alastra, como uma nódoa deprimente, a mais vergonhosa das inabilidades no exercício da própria língua. Em Portugal hoje não se sabe redigir! Médicos terminam os seus cursos, terminam os seus cursos engenheiros. E sempre que careçam de praticar a expressão escrita, tanto em relatórios profissionais, como em trabalhos de maior fôlego, é doloroso reconhecer que claudicam indecorosamente na ignorância das mais sóbrias e mais elementares regras do estilo.
A ressurreição das humanidades no ensino secundário impõe-se, pois, como mais necessária que o semi-cientismo a que se sujeita o cérebro dos rapazes, roubando-os nesse período tão decisivo da vida à aprendizagem fundamental do pensar claro e do sentir claro. O problema, que é seriíssimo, não se resolve de forma alguma senão apelando para a educação humanista. (...)
Com a urgência duma medida de salvação nacional, o problema da educação clássica põe-se para Portugal tão inadiavelmente quase como o do regresso do Rei. A tara principal duma democracia consiste no enfraquecimento das forças do raciocínio e na confusão consequente de ideias, ainda as mais gerais. Concorre para isso sensivelmente a influência social do Parlamentarismo, apresentando como meta suprema da intelectualidade o rábula que discursa, o arengador encartado - o verbómano, numa palavra. (...)
Psicologicamente, estão já hoje estudados os efeitos destrutivos da oratória, que gera a obscuridade mental e contribui para o rebaixamento do nível comum da inteligência. Nos alvores do nosso Constitucionalismo, se tivemos parlamentares que intelectualmente significaram o que, por exemplo, significou Garrett, deve ainda à educação clássica. Nas sua maioria os grandes vultos do liberalismo português foram discípulos dos Padres do Oratório, recebendo do cultivo das humanidades a norma sadia de cultura que lhes deu sempre vivacidade e frescura ao espírito.
Já não acontece o mesmo com a camada que lhes sucedeu na herança. A depressão do gosto literário e da clareza lógica acompanhou a curva rápida da nossa desorganização, até cair na República, com os seus intelectuais semitatuados - pobres galerianos das coisas do pensamento, que hão-de passar à posteridade certamente, não como pessoas, mas como símbolos!
(...)
in Ao Ritmo da Ampulheta (negritos acrescentados).
segunda-feira, maio 23, 2005
O Brasil restituído
Por Francisco de Elias de Tejada y Spinola
Quando se sente a cidade de Salvador da Bahia, na gozosa luminosidade de suas cores indescritíveis, tem-se a impressão de Ter topado de improviso com toda a tradição do Brasil; ou seja, com o elemento que diferencia os brasileiros dos demais grupos humanos. Ouro Preto é uma cidade portuguesa do século XVIII, acostada à sombra do Itacolumi e venturosamente respeitada pelo grande século nivelador; Congonhas do Campo e Sabará esgotam sua força evocadora nos olhos do profeta Jonas, queimados em pedra viva pela graça fulgurante de Deus, e no equilíbrio soberbo da Igreja do Carmo persuasiva de indecifráveis serenidades, respectivamente; Rio de Janeiro é a sequela de uma natureza belíssima e rica de contrastes; São Paulo, hoje, é um grande mercado internacional...
Somente aqui, na Bahia, é possível entender a alma do Brasil, com todo o colorido humano que falta em Minas Gerais e com toda a densidade humana que falta no Rio de Janeiro. As igrejas expressam no seu mudo dizer arquitetônico toda a graça do humanismo classicista da Bahia; as torres cantam a canção de um ontem que não se deixou de viver; as gentes traduzem a universal amplitude da tradição católica do Brasil e a coloração diversíssima da paisagem única. Porque na Bahia a paisagem das almas guarda correspondência com a paisagem natural, aqui a vida se prende num equilíbrio de clássicas serenidades e aqui os olhos contemplam a unidade suprema do belo segundo a fórmula platônica de uma harmonia de facetas confinante na quimera da cor.
Quando se estudou Portugal e o Brasil com profundo carinho de compreensão segura, a contemplação da Bahia adquire rasgos de entranhável emotividade. Não vejo, por isso, o mero sabor de uns pratos saborosíssimos, nem a mera expressão de um folclore típico; antes, penetro pelos caminhos recônditos da espiritualidade brasileira e vou encontrar o mesmo sentido heróico e nobre dos místicos fidalgos que cavaram os alicerces do Brasil. É que, na Bahia, não se visita um museu, como em Ouro Preto; é que na Bahia se vive o ontem eterno do Brasil. Em meus passos por todos os rincões do planeta, voltarei sempre os olhos da alma a esta terra bendita onde o brasileiro se me revelou com toda a sua dimensão ibérica e anti-européia, o que a dizer com toda sua dimensão anti-francesa e anti-norteamaricana. E constantemente sonharei com a loucura artística que fez da igreja de São Francisco uma selva tropical dourada e avassaladora, do mesmo modo pelo qual nossos pais comuns fizeram do universo uma loucura de façanhas no afã desordenadamente barroco de proclamar sua fé de fidalgos frente à fé dos mercadores que reinava ao norte dos Pireneus. Sempre, porque na Bahia se fez carne de ar e evocação de pedra a tradição universal que ata a verdura permanente do Brasil à Ihanura desértica de Castela. Quem vê o Brasil como eu o vejo, encontra renovada a festa que Lope de Veja celebrou numa comédia imortal; acha de novo, no foro íntimo da alma, o Brasil restituído.
Quando se sente a cidade de Salvador da Bahia, na gozosa luminosidade de suas cores indescritíveis, tem-se a impressão de Ter topado de improviso com toda a tradição do Brasil; ou seja, com o elemento que diferencia os brasileiros dos demais grupos humanos. Ouro Preto é uma cidade portuguesa do século XVIII, acostada à sombra do Itacolumi e venturosamente respeitada pelo grande século nivelador; Congonhas do Campo e Sabará esgotam sua força evocadora nos olhos do profeta Jonas, queimados em pedra viva pela graça fulgurante de Deus, e no equilíbrio soberbo da Igreja do Carmo persuasiva de indecifráveis serenidades, respectivamente; Rio de Janeiro é a sequela de uma natureza belíssima e rica de contrastes; São Paulo, hoje, é um grande mercado internacional...
Somente aqui, na Bahia, é possível entender a alma do Brasil, com todo o colorido humano que falta em Minas Gerais e com toda a densidade humana que falta no Rio de Janeiro. As igrejas expressam no seu mudo dizer arquitetônico toda a graça do humanismo classicista da Bahia; as torres cantam a canção de um ontem que não se deixou de viver; as gentes traduzem a universal amplitude da tradição católica do Brasil e a coloração diversíssima da paisagem única. Porque na Bahia a paisagem das almas guarda correspondência com a paisagem natural, aqui a vida se prende num equilíbrio de clássicas serenidades e aqui os olhos contemplam a unidade suprema do belo segundo a fórmula platônica de uma harmonia de facetas confinante na quimera da cor.
Quando se estudou Portugal e o Brasil com profundo carinho de compreensão segura, a contemplação da Bahia adquire rasgos de entranhável emotividade. Não vejo, por isso, o mero sabor de uns pratos saborosíssimos, nem a mera expressão de um folclore típico; antes, penetro pelos caminhos recônditos da espiritualidade brasileira e vou encontrar o mesmo sentido heróico e nobre dos místicos fidalgos que cavaram os alicerces do Brasil. É que, na Bahia, não se visita um museu, como em Ouro Preto; é que na Bahia se vive o ontem eterno do Brasil. Em meus passos por todos os rincões do planeta, voltarei sempre os olhos da alma a esta terra bendita onde o brasileiro se me revelou com toda a sua dimensão ibérica e anti-européia, o que a dizer com toda sua dimensão anti-francesa e anti-norteamaricana. E constantemente sonharei com a loucura artística que fez da igreja de São Francisco uma selva tropical dourada e avassaladora, do mesmo modo pelo qual nossos pais comuns fizeram do universo uma loucura de façanhas no afã desordenadamente barroco de proclamar sua fé de fidalgos frente à fé dos mercadores que reinava ao norte dos Pireneus. Sempre, porque na Bahia se fez carne de ar e evocação de pedra a tradição universal que ata a verdura permanente do Brasil à Ihanura desértica de Castela. Quem vê o Brasil como eu o vejo, encontra renovada a festa que Lope de Veja celebrou numa comédia imortal; acha de novo, no foro íntimo da alma, o Brasil restituído.
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