Peter Weigel, autor de TESTEMUNHO DE ESPERANÇA: A BIOGRAFIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Segunda-feira, 4 de Abril de 2005
Cinco dias antes de ter deixado a Polónia para o conclave que o elegeria Papa, o cardeal Karol Wojtyla assistiu a uma celebração do vigésimo aniversário da sua consagração como bispo. A residência em Cracóvia dos seus amigos Gabriel e Bozena Turowski estava decorada com dezenas de fotografias tiradas, ao longo de um quarto de século, de Wojtyla a pedir boleia, a esquiar e a andar de caiaque com os Turowskis e outros amigos laicos, que ainda chamavam ao cardeal “Wujek” (tio), o nome de guerra que lhe tinham dado quando era um jovem capelão na Polónia estalinista. Por cima das fotografias estava um dístico caseiro a dizer “Wujek continuará a ser Wujek” — precisamente o que Wojtyla dissera aos amigos quando regressara a uma viagem de caiaque interrompida em 1958 pela notícia de que fora nomeado bispo.
Mais de um quarto de século depois, o homem que o mundo conhece como João Paulo II está ainda a ser Wujek. Durante estas semanas da sua doença, todas as espécies de perguntas foram feitas. Viria o Papa a considerar a abdicação? O que é que aconteceria se ficasse gravemente incapacitado durante um longo período de tempo? Estas questões não são sem interesse, mas falham o ponto mais importante do drama. O mundo está a ver um homem a viver, até ao fim, uma das convicções que modelaram a sua vida e o seu impacto na história: a convicção de que a luz da Páscoa é sempre precedida pela escuridão da Sexta-Feira Santa, não só no calendário, mas no reino do espírito.
A cultura ocidental contemporânea não se casa bem com o sofrimento. Evitamo-lo, se possível. Sequestramo-lo quando se torna inevitável. Quantos de nós morreremos em casa? Abraçar o sofrimento é um conceito que nos é estranho. E, no entanto, o sofrimento abraçado em obediência à vontade de Deus está no centro da cristandade. O Cristo cuja paixão mais de 1500 milhões de cristãos comemoraram há pouco não está retratado nos Evangelhos como alguém a quem o sofrimento tenha meramente acontecido — um profeta com a sua dose típica de má sorte. O Cristo dos Evangelhos abraça o sofrimento como o seu destino, a sua vocação — e é recompensado por esse sacrifício na Páscoa.
É isso que João Paulo II — não um velho teimoso mas um verdadeiro discípulo cristão — tem vindo a fazer neste último mês: a ser testemunho da verdade de que o sofrimento encarado com obediência e amor pode ser redentor.
Há dias, em Roma, quando perguntei ao cardeal nigeriano Francis Arinze o que é que esta fase do notável pontificado de João Paulo II significava, o cardeal sugeriu que, do seu leito de hospital, o Papa estava a colocar algumas graves questões na agenda mundial: o sofrimento significa alguma coisa, ou é simplesmente um absurdo? O sofrimento contribui de algum modo para o resto de nós? Existe dignidade na velhice?
Na mente do cardeal Arinze o exemplo de João Paulo II oferece uma resposta a estas perguntas. Sim, o sofrimento pode ter significado. Sim, esse sofrimento pode-nos ensinar: recorda-nos que não podemos controlar as nossas vidas, e estimula uma compaixão que nos enobrece. Para além disso, sugeriu o cardeal, João Paulo II, na sua fraqueza e sofrimento, foi um tremendo encorajamento para os idosos, os doentes, os diminuídos e os moribundos, que encontram força e esperança no seu exemplo.
O mundo perdeu muito da história de Karol Wojtyla nos seus 26 anos como Papa porque o mundo tenta compreendê-los em termos políticos, como apenas outro jogador na cena global. Não há dúvida de que João Paulo II tem sido o Papa politicamente mais influente desde há séculos, mas isso não é o que ele é no mais profundo do seu ser. As suas recentes hospitalizações e a sua luta para estar à altura do compromisso que assumiu ao ser eleito em 1978 deve recordar a toda a gente que este homem é, acima de tudo, um pastor cristão que vai desafiar-nos até ao fim com a mensagem da cruz — a mensagem da Sexta-Feira Santa e da Páscoa.
Tal como Hanna Suchocka, a antiga primeira-ministra polaca, me disse recentemente, o Papa “está a viver a sua via sacra”. Não é algo que o mundo, desde há muito tempo, tenha visto um Papa fazer. Devemos reconhecê-lo pelo que ele é, e estar gratos pelo exemplo.
Fonte: Público
Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
segunda-feira, abril 04, 2005
sábado, abril 02, 2005
JOÃO PAULO II
Um dom de Deus à humanidade
"NÃO TENHAIS MEDO!" foi o primeiro apelo do Papa João Paulo II. Ao recebermos a notícia da sua morte, damos graças a Deus por o ter tido entre nós transmitindo um tão profundo e intenso testemunho de Esperança.
Hoje é dia de recolhimento e oração. Aos leitores que nos visitam em busca de algumas palavras de reflexão, deixamos o texto «João Paulo II», de Teresa Martins de Carvalho, aqui publicado em 20 de Outubro de 2003:
É já considerado o Papa mais importante do século XX, não só por causa da extensão do seu pontificado mas sobretudo pelo vigor de muitos dos seus gestos e ditos, clamorosos, inéditos ou que vieram completar, estrondosamente, os gestos, proféticos, iniciados por João XXIII e Paulo VI, seus antecessores.
A insistência no perdão, na paz, na união, no derrubar de muros, na reparação de rompimentos e de ódios, na salvaguarda da família e da vida, cria-lhe temas extremos que terá de desenvolver segundo a fé e que explicam a velocidade de um pontificado que também se pode exprimir em números: tantas viagens, tantas canonizações, tantas beatificações, tantos discursos, tantas encíclicas, tantas intervenções...
Um Papa polaco? Quando o soube, Brejnev, o ditador de serviço na União Soviética, exclamou: - Agora há-de querer ir à Polónia... Vai tudo acabar, então...
A queda do muro de Berlim e a reunificação da Europa começa aí, com um Papa polaco. E não sabia da missa a metade... A compleição de um atleta, a força física patente de quem pratica desporto ao ar livre, a sensibilidade do artista, a ternura de quem foi privado da família desde cedo, o gosto pela festa, o bom humor, são qualidades que outras pessoas porventura compartilharão com ele. Parece-nos que aquilo que faz a força do Santo Padre se considera melhor noutra dimensão: a coerência. Coerência firme, resoluta, corajosa, entre aquilo em que acredita, a sua fé e o que pensa, diz, faz... É raríssimo encontrar um espécimen humano com tal grau de unidade da mente, coração, inteligência, vontade. Essa força espiritual transforma-se nele em poder quase mágico, contagiante, o do orante contemplativo que recorda a fascinação que exerce nos crentes o staretz russo, o santo eremita, característica única da intensa espiritualidade eslava. Este carisma excepcional que atrai multidões, conquista os jovens, ele, o papa “sempre juvenil” mesmo agora, já velho e tão doente, arrastando-se numa Via Sacra interminável, imagem do seu modelo Jesus Cristo, dando-se até à Cruz.
Num mundo onde os corpos jovens dominam a sociedade, sociedade em que os velhos são “descartáveis”, esta visão do Papa moribundo incomoda. Ela anuncia quem está saudável mentalmente, mesmo sem quase poder mexer-se nem por isso deverá desligar-se da sua vocação, religiosa ou humana. Persistência e coragem mais uma vez por mostrar-se assim diminuído, aos olhos de todos, ele, o antigo atleta. «É quando sou fraco que sou forte» diz-nos S. Paulo (2 Cor 12, 10). Belo exemplo para todos os fracos, os velhos e os doentes que sofrem a tentação de desistir de viver, de cumprir até ao fim a sua chamada a este mundo.
São inumeráveis os pontos em que assentou a sua força e a sua verdade mas talvez o que mais marcará a sua passagem na Cadeira de Pedro é o abrir os braços aos outros cristãos separados, na busca da unidade, aos crentes de outras religiões, começando pelos judeus, “nossos irmãos mais velhos”, o chamado espirito de Assis, onde por duas vezes, na terra de S. Francisco, foi o anfitrião humilde dos crentes de todos os quadrantes, na oração comum pela paz.
Este Papa universal que transita de século e de milénio, como quem abre portas, é uma figura luminosa, ponto de referência e de acolhimento.
«Vós sois o sal da terra e a luz do mundo» disse o Senhor aos seus seguidores (Mt 5, 13-16). Na sociedade ocidental em perda de valores, que já não é cristã, nem sequer de inspiração cristã, sociedade do simulacro, da vitória da aparência sobre o ser, percebe-se que tal homem, como João Paulo II, marque o seu tempo como figura insigne, perpassada de mistério e de intensa humanidade.
A beatificação de Madre Teresa de Calcutá, que tão ardentemente ansiava realizar, obtendo que o processo galgasse trâmites e tempo, ver-se-á sempre como o encontro desejado e culminante entre duas figuras maiores do século XX, ambos transportando consigo, nas suas vidas, o radicalismo evangélico. O Papa tão criticado por ser político, a religiosa tão criticada por não ter sido política.
Dons de Deus à humanidade.
"NÃO TENHAIS MEDO!" foi o primeiro apelo do Papa João Paulo II. Ao recebermos a notícia da sua morte, damos graças a Deus por o ter tido entre nós transmitindo um tão profundo e intenso testemunho de Esperança.
Hoje é dia de recolhimento e oração. Aos leitores que nos visitam em busca de algumas palavras de reflexão, deixamos o texto «João Paulo II», de Teresa Martins de Carvalho, aqui publicado em 20 de Outubro de 2003:
É já considerado o Papa mais importante do século XX, não só por causa da extensão do seu pontificado mas sobretudo pelo vigor de muitos dos seus gestos e ditos, clamorosos, inéditos ou que vieram completar, estrondosamente, os gestos, proféticos, iniciados por João XXIII e Paulo VI, seus antecessores.
A insistência no perdão, na paz, na união, no derrubar de muros, na reparação de rompimentos e de ódios, na salvaguarda da família e da vida, cria-lhe temas extremos que terá de desenvolver segundo a fé e que explicam a velocidade de um pontificado que também se pode exprimir em números: tantas viagens, tantas canonizações, tantas beatificações, tantos discursos, tantas encíclicas, tantas intervenções...
Um Papa polaco? Quando o soube, Brejnev, o ditador de serviço na União Soviética, exclamou: - Agora há-de querer ir à Polónia... Vai tudo acabar, então...
A queda do muro de Berlim e a reunificação da Europa começa aí, com um Papa polaco. E não sabia da missa a metade... A compleição de um atleta, a força física patente de quem pratica desporto ao ar livre, a sensibilidade do artista, a ternura de quem foi privado da família desde cedo, o gosto pela festa, o bom humor, são qualidades que outras pessoas porventura compartilharão com ele. Parece-nos que aquilo que faz a força do Santo Padre se considera melhor noutra dimensão: a coerência. Coerência firme, resoluta, corajosa, entre aquilo em que acredita, a sua fé e o que pensa, diz, faz... É raríssimo encontrar um espécimen humano com tal grau de unidade da mente, coração, inteligência, vontade. Essa força espiritual transforma-se nele em poder quase mágico, contagiante, o do orante contemplativo que recorda a fascinação que exerce nos crentes o staretz russo, o santo eremita, característica única da intensa espiritualidade eslava. Este carisma excepcional que atrai multidões, conquista os jovens, ele, o papa “sempre juvenil” mesmo agora, já velho e tão doente, arrastando-se numa Via Sacra interminável, imagem do seu modelo Jesus Cristo, dando-se até à Cruz.
Num mundo onde os corpos jovens dominam a sociedade, sociedade em que os velhos são “descartáveis”, esta visão do Papa moribundo incomoda. Ela anuncia quem está saudável mentalmente, mesmo sem quase poder mexer-se nem por isso deverá desligar-se da sua vocação, religiosa ou humana. Persistência e coragem mais uma vez por mostrar-se assim diminuído, aos olhos de todos, ele, o antigo atleta. «É quando sou fraco que sou forte» diz-nos S. Paulo (2 Cor 12, 10). Belo exemplo para todos os fracos, os velhos e os doentes que sofrem a tentação de desistir de viver, de cumprir até ao fim a sua chamada a este mundo.
São inumeráveis os pontos em que assentou a sua força e a sua verdade mas talvez o que mais marcará a sua passagem na Cadeira de Pedro é o abrir os braços aos outros cristãos separados, na busca da unidade, aos crentes de outras religiões, começando pelos judeus, “nossos irmãos mais velhos”, o chamado espirito de Assis, onde por duas vezes, na terra de S. Francisco, foi o anfitrião humilde dos crentes de todos os quadrantes, na oração comum pela paz.
Este Papa universal que transita de século e de milénio, como quem abre portas, é uma figura luminosa, ponto de referência e de acolhimento.
«Vós sois o sal da terra e a luz do mundo» disse o Senhor aos seus seguidores (Mt 5, 13-16). Na sociedade ocidental em perda de valores, que já não é cristã, nem sequer de inspiração cristã, sociedade do simulacro, da vitória da aparência sobre o ser, percebe-se que tal homem, como João Paulo II, marque o seu tempo como figura insigne, perpassada de mistério e de intensa humanidade.
A beatificação de Madre Teresa de Calcutá, que tão ardentemente ansiava realizar, obtendo que o processo galgasse trâmites e tempo, ver-se-á sempre como o encontro desejado e culminante entre duas figuras maiores do século XX, ambos transportando consigo, nas suas vidas, o radicalismo evangélico. O Papa tão criticado por ser político, a religiosa tão criticada por não ter sido política.
Dons de Deus à humanidade.
Isaías 44
21 Lembra-te destas coisas, ó Jacó, e Israel, porquanto és meu servo; eu te formei, meu servo és, ó Israel, näo me esquecerei de ti.
22 Apaguei as tuas transgressöes como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi.
23 Cantai alegres, vós, ó céus, porque o SENHOR o fez; exultai vós, as partes mais baixas da terra; vós, montes, retumbai com júbilo; também vós, bosques, e todas as suas árvores; porque o SENHOR remiu a Jacó, e glorificou-se em Israel.
24 Assim diz o SENHOR, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo;
25 Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, e converto em loucura o conhecimento deles;
26 Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas;
27 Que digo à profundeza: Seca-te, e eu secarei os teus rios.
28 Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado.
22 Apaguei as tuas transgressöes como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi.
23 Cantai alegres, vós, ó céus, porque o SENHOR o fez; exultai vós, as partes mais baixas da terra; vós, montes, retumbai com júbilo; também vós, bosques, e todas as suas árvores; porque o SENHOR remiu a Jacó, e glorificou-se em Israel.
24 Assim diz o SENHOR, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo;
25 Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, e converto em loucura o conhecimento deles;
26 Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas;
27 Que digo à profundeza: Seca-te, e eu secarei os teus rios.
28 Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado.
domingo, março 27, 2005
O misterioso «big bang» da origem do cristianismo
Entrevista com o vaticanista Andréa Tornielli, autor de um livro sobre a ressurreição :
ROMA, domingo, 27 de março de 2005 (ZENIT.org).- Sem a ressurreição de Cristo não é possível compreender os inícios do cristianismo, afirma o jornalista italiano Andréa Tornielli, que acaba de dedicar um livro ao estudo de sua historicidade.
O volume, «Investigação sobre a Ressurreição. Mistérios, lendas e verdade. Dos Evangelhos ao Código Da Vinci», foi distribuído na quarta-feira passada em italiano em todas as bancas da Itália, junto ao jornal «Il Giornale».
No prólogo do livro, Dom Gianfranco Ravasi, prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão e professor de Exegese do Antigo Testamento na Faculdade Teológica da Itália Setentrional, explica que «no momento da Ressurreição aparecem testemunhas, consideradas então pouco confiáveis, como as mulheres, que não podiam declarar em um tribunal porque sua palavra não tinha nenhum valor».
Ravasi sustenta que «um indício importante da Ressurreição é a mudança inexplicável de postura dos apóstolos: desorientados, aterrorizados, derrotados após a morte de seu Messias. De repente, este grupinho de pessoas sente-se revestido de uma incrível fortaleza para iniciar sua pregação no mundo, anunciando que Jesus ressuscitou».
«Nenhuma das pessoas que nega a historicidade da Ressurreição conseguiu explicar como se produziu esta mudança radical de postura, em pessoas muito realistas, nem possuídas nem visionárias, que pelo contrário, ao princípio, duvidavam do que viam. Há um misterioso “big bang” na origem do cristianismo».
Nesta entrevista concedida a Zenit, Andréa Tornielli explica os motivos que o impulsionaram a escrever um livro sobre este tema.
--Por que seguir pesquisando sobre a ressurreição de Cristo?
--Tornielli: É um trabalho que continua. Sigo investigando os indícios de historicidade dos Evangelhos. Na atualidade sublinha-se, demasiado com freqüência, inclusive na Igreja, o aspecto simbólico, ou o núcleo da mensagem pascal. Está bem, mas não devemos esquecer nunca que o cristianismo procede de um fato, um acontecimento que se produz em um momento bem determinado da história. E os Evangelhos não contêm uma filosofia ou conselhos para viver bem, mas narram como se produziu este fato. Por isto é importante a historicidade.
--De que provas e indícios dispomos para ilustrar a ressurreição de Jesus?
--Tornielli: Os Evangelhos canônicos, ao contrário dos apócrifos, que são sempre fantásticos e repletos de imaginação, não nos descrevem o momento da Ressurreição, mas nos falam, mediante testemunhos confiáveis, do sepulcro vazio, e, sobretudo, do fato de que Jesus se deixou ver e tocar por seus discípulos depois da Ressurreição.
São Paulo escreve, na primeira carta aos Coríntios, que viram Jesus mais de «quinhentos irmãos» juntos, alguns dos quais já haviam morrido, enquanto que «muitos vivem ainda». É como se o apóstolo dos gentis nos dissesse: podeis ir comprovar e perguntar a eles. Impressiona-me muito o fato de que as primeiras pessoas que viram Cristo ressuscitado são as mulheres que correram ao sepulcro. Encontramos aqui outro significativo indício de historicidade: as mulheres, na sociedade judaica da época, eram consideradas testemunhas sem credibilidade já que não podiam apresentar-se ante um tribunal. Se os Evangelhos, como afirmam alguns, foram a piedosa invenção de um grupo de possuídos que construíram, planejaram, uma nova religião, por que haveriam elegido testemunhas tão pouco estimadas por aquela sociedade?
--Como podemos saber que os apóstolos não eram uns visionários?
--Tornielli: Neles se produz o processo exatamente inverso ao dos visionários. Estes, em um primeiro momento, estão muito convencidos e são entusiastas, e pouco a pouco começam a duvidar da visão. Os discípulos de Jesus, ao contrário, ao princípio duvidam. Não crêem em seguida na Ressurreição. Tomé não se fia da palavra dos demais e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria era pescador, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas após a morte de Jesus. Nunca haveriam chegado por si só a um autoconvencimento de sua Ressurreição. Renderam-se a uma evidência concreta e experimentável.
ROMA, domingo, 27 de março de 2005 (ZENIT.org).- Sem a ressurreição de Cristo não é possível compreender os inícios do cristianismo, afirma o jornalista italiano Andréa Tornielli, que acaba de dedicar um livro ao estudo de sua historicidade.
O volume, «Investigação sobre a Ressurreição. Mistérios, lendas e verdade. Dos Evangelhos ao Código Da Vinci», foi distribuído na quarta-feira passada em italiano em todas as bancas da Itália, junto ao jornal «Il Giornale».
No prólogo do livro, Dom Gianfranco Ravasi, prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão e professor de Exegese do Antigo Testamento na Faculdade Teológica da Itália Setentrional, explica que «no momento da Ressurreição aparecem testemunhas, consideradas então pouco confiáveis, como as mulheres, que não podiam declarar em um tribunal porque sua palavra não tinha nenhum valor».
Ravasi sustenta que «um indício importante da Ressurreição é a mudança inexplicável de postura dos apóstolos: desorientados, aterrorizados, derrotados após a morte de seu Messias. De repente, este grupinho de pessoas sente-se revestido de uma incrível fortaleza para iniciar sua pregação no mundo, anunciando que Jesus ressuscitou».
«Nenhuma das pessoas que nega a historicidade da Ressurreição conseguiu explicar como se produziu esta mudança radical de postura, em pessoas muito realistas, nem possuídas nem visionárias, que pelo contrário, ao princípio, duvidavam do que viam. Há um misterioso “big bang” na origem do cristianismo».
Nesta entrevista concedida a Zenit, Andréa Tornielli explica os motivos que o impulsionaram a escrever um livro sobre este tema.
--Por que seguir pesquisando sobre a ressurreição de Cristo?
--Tornielli: É um trabalho que continua. Sigo investigando os indícios de historicidade dos Evangelhos. Na atualidade sublinha-se, demasiado com freqüência, inclusive na Igreja, o aspecto simbólico, ou o núcleo da mensagem pascal. Está bem, mas não devemos esquecer nunca que o cristianismo procede de um fato, um acontecimento que se produz em um momento bem determinado da história. E os Evangelhos não contêm uma filosofia ou conselhos para viver bem, mas narram como se produziu este fato. Por isto é importante a historicidade.
--De que provas e indícios dispomos para ilustrar a ressurreição de Jesus?
--Tornielli: Os Evangelhos canônicos, ao contrário dos apócrifos, que são sempre fantásticos e repletos de imaginação, não nos descrevem o momento da Ressurreição, mas nos falam, mediante testemunhos confiáveis, do sepulcro vazio, e, sobretudo, do fato de que Jesus se deixou ver e tocar por seus discípulos depois da Ressurreição.
São Paulo escreve, na primeira carta aos Coríntios, que viram Jesus mais de «quinhentos irmãos» juntos, alguns dos quais já haviam morrido, enquanto que «muitos vivem ainda». É como se o apóstolo dos gentis nos dissesse: podeis ir comprovar e perguntar a eles. Impressiona-me muito o fato de que as primeiras pessoas que viram Cristo ressuscitado são as mulheres que correram ao sepulcro. Encontramos aqui outro significativo indício de historicidade: as mulheres, na sociedade judaica da época, eram consideradas testemunhas sem credibilidade já que não podiam apresentar-se ante um tribunal. Se os Evangelhos, como afirmam alguns, foram a piedosa invenção de um grupo de possuídos que construíram, planejaram, uma nova religião, por que haveriam elegido testemunhas tão pouco estimadas por aquela sociedade?
--Como podemos saber que os apóstolos não eram uns visionários?
--Tornielli: Neles se produz o processo exatamente inverso ao dos visionários. Estes, em um primeiro momento, estão muito convencidos e são entusiastas, e pouco a pouco começam a duvidar da visão. Os discípulos de Jesus, ao contrário, ao princípio duvidam. Não crêem em seguida na Ressurreição. Tomé não se fia da palavra dos demais e quer tocar o corpo de Cristo ressuscitado. Assim eram aqueles homens: simples, concretos, realistas. A maioria era pescador, não eram nem visionários nem místicos. Um grupo de pessoas abatidas, aterrorizadas após a morte de Jesus. Nunca haveriam chegado por si só a um autoconvencimento de sua Ressurreição. Renderam-se a uma evidência concreta e experimentável.
domingo, março 20, 2005
Não esquecer África - «A Persistência da História»
Ciências Sociais - Título: “A Persistência da História” - Organizadores: Clara Carvalho e João de Pina Cabral - Editor: Imprensa de Ciências Sociais - Págs. 394.
Trabalhos de Wilson Trajano Filho, Ricardo Roque, Cristiana Bastos e João Vasconcelos, entre outros, preenchem esta antologia de estudos ora lançada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sobre o passado e a contemporaneidade na África onde se fala o português, designadamente Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Estes ensaios começaram por ser apresentados num colóquio que a Brown University, dos Estados Unidos, organizou há três anos, pois que do outro lado do Atlântico também se promove a discussão sobre o papel jogado desde o século XV por Portugal nas relações entre a Europa e o continente que começa em Ceuta, para só ir acabar no Índico, depois de dobrado o Cabo da Boa Esperança. Neles se chega à complexidade do processo de exploração e dominação dos povos africanos, antes e depois de terem alcançado a sua actual independência.
Jorge Heitor
Trabalhos de Wilson Trajano Filho, Ricardo Roque, Cristiana Bastos e João Vasconcelos, entre outros, preenchem esta antologia de estudos ora lançada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sobre o passado e a contemporaneidade na África onde se fala o português, designadamente Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Estes ensaios começaram por ser apresentados num colóquio que a Brown University, dos Estados Unidos, organizou há três anos, pois que do outro lado do Atlântico também se promove a discussão sobre o papel jogado desde o século XV por Portugal nas relações entre a Europa e o continente que começa em Ceuta, para só ir acabar no Índico, depois de dobrado o Cabo da Boa Esperança. Neles se chega à complexidade do processo de exploração e dominação dos povos africanos, antes e depois de terem alcançado a sua actual independência.
Jorge Heitor
quinta-feira, março 17, 2005
O PACOTE
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Envelhecer trouxe-me algumas coisas menos boas fisicamente, mas algumas muito boas no que diz respeito ao espírito. Uma delas foi ficar com a certeza de que se aprende muito ouvindo com atenção as pessoas simples, os desconhecidos de acaso, aqueles que nos prestam serviços e a quem nós não sei se servimos para alguma coisa.
Gosto de conversar com o porteiro do prédio em que vivo, uma unidade cooperativa no centro histórico de Toronto em que habitam mais de 200 pessoas, de várias idades e estados, entre as quais 15 crianças, algumas já aqui nascidas entre nós. É uma comunidade em que cada qual goza a absoluta privacidade do seu apartamento e o respeito da organização para a qual contribuímos através de grupos de trabalho, que vão desde o apoio a pessoas doentes até ao (belíssimo) jardim que temos no terraço sobre o Lago Ontário, passando pela organização de festas e um jornal (de que fiz parte até há pouco tempo). Trabalha-se bastante e ganha-se muito mais do que dinheiro, porque é a satisfação e a harmonia que recolhemos connosco. Os prémios anuais dados pela federação são um suplemento agradável, mas não um objectivo.
Sou a única portuguesa no prédio de 14 andares e 140 apartamentos. Sabe-me bem conversar em espanhol com o Luiz, assim se chama o porteiro, que é um exilado chileno desde que Allende foi morto e Pinochet subiu ao poder. Temos pontos em comum, para além do sange latino e da fala meridional. Não somos comunistas, abominamos ditaduras de qualquer cor, temos pena que o mundo não seja melhor, gostamos de rir, de boas piadas, de sangria e duns petiscos à nossa maneira, e em geral não temos pressa que a terra dê a volta. Aconteceu-nos vir parar a este país, que tão bem nos tem tratado, aceitamos a situação com realismo. Mas Pátria é Pátria, tal como Mãe é Mãe. Só há uma.
Como o leitor calcula, o Luiz e eu falamos muito de política. Contamos um ao outro factos passados, sonhos desfeitos dos nossos povos, façanhas de políticos. Sobretudo antes ou depois de eleições, sejam elas do Canadá ou dos nossos países, dá-nos para uns balanços sofridos. Criticamos esquerdas e direitas naquilo que parece ter passado a ser um denominador comum mundial: a corrupção, o laxismo, a irresponsabilidade.
Esta manhã o Luiz disse-me:
- Sabe, o problema com isto das eleições é que não podemos votar por parcelas. Temos de comprar o pacote todo. Vem de tudo e tudo misturado. El problema, señora, es el pacote.
Tenho pacote, ou lição, sem esperar. Surpreendo-me ao pensar que os povos, embora de forma difusa e remota, parecem sentir a nostalgia das democracias directas, das cortes em que, de facto, o povo tinha voz, lado a lado com as outras classes. E por isso formavam um todo, uma unidade, uma força. Quando luzia um ideal, todos se empolgavam. Quando surgia o inimigo, todos à uma o escorraçavam.
Era assim quando Portugal batia o pé à Espanha.
País de partidos divididos entre si e dentro de si, país partido, em que independentistas espanhóis já vêm ao beija-mão do patriarca das entregas sem consulta, enquanto os usurários e outros salafrários invadem a economia, aflitos com um dia a dia cada vez mais de circo e menos de pão, os portugueses precisam de um Ideal. Tanto quanto de chuva. Assim o Céu oiça.
por Fernanda Leitão
Envelhecer trouxe-me algumas coisas menos boas fisicamente, mas algumas muito boas no que diz respeito ao espírito. Uma delas foi ficar com a certeza de que se aprende muito ouvindo com atenção as pessoas simples, os desconhecidos de acaso, aqueles que nos prestam serviços e a quem nós não sei se servimos para alguma coisa.
Gosto de conversar com o porteiro do prédio em que vivo, uma unidade cooperativa no centro histórico de Toronto em que habitam mais de 200 pessoas, de várias idades e estados, entre as quais 15 crianças, algumas já aqui nascidas entre nós. É uma comunidade em que cada qual goza a absoluta privacidade do seu apartamento e o respeito da organização para a qual contribuímos através de grupos de trabalho, que vão desde o apoio a pessoas doentes até ao (belíssimo) jardim que temos no terraço sobre o Lago Ontário, passando pela organização de festas e um jornal (de que fiz parte até há pouco tempo). Trabalha-se bastante e ganha-se muito mais do que dinheiro, porque é a satisfação e a harmonia que recolhemos connosco. Os prémios anuais dados pela federação são um suplemento agradável, mas não um objectivo.
Sou a única portuguesa no prédio de 14 andares e 140 apartamentos. Sabe-me bem conversar em espanhol com o Luiz, assim se chama o porteiro, que é um exilado chileno desde que Allende foi morto e Pinochet subiu ao poder. Temos pontos em comum, para além do sange latino e da fala meridional. Não somos comunistas, abominamos ditaduras de qualquer cor, temos pena que o mundo não seja melhor, gostamos de rir, de boas piadas, de sangria e duns petiscos à nossa maneira, e em geral não temos pressa que a terra dê a volta. Aconteceu-nos vir parar a este país, que tão bem nos tem tratado, aceitamos a situação com realismo. Mas Pátria é Pátria, tal como Mãe é Mãe. Só há uma.
Como o leitor calcula, o Luiz e eu falamos muito de política. Contamos um ao outro factos passados, sonhos desfeitos dos nossos povos, façanhas de políticos. Sobretudo antes ou depois de eleições, sejam elas do Canadá ou dos nossos países, dá-nos para uns balanços sofridos. Criticamos esquerdas e direitas naquilo que parece ter passado a ser um denominador comum mundial: a corrupção, o laxismo, a irresponsabilidade.
Esta manhã o Luiz disse-me:
- Sabe, o problema com isto das eleições é que não podemos votar por parcelas. Temos de comprar o pacote todo. Vem de tudo e tudo misturado. El problema, señora, es el pacote.
Tenho pacote, ou lição, sem esperar. Surpreendo-me ao pensar que os povos, embora de forma difusa e remota, parecem sentir a nostalgia das democracias directas, das cortes em que, de facto, o povo tinha voz, lado a lado com as outras classes. E por isso formavam um todo, uma unidade, uma força. Quando luzia um ideal, todos se empolgavam. Quando surgia o inimigo, todos à uma o escorraçavam.
Era assim quando Portugal batia o pé à Espanha.
País de partidos divididos entre si e dentro de si, país partido, em que independentistas espanhóis já vêm ao beija-mão do patriarca das entregas sem consulta, enquanto os usurários e outros salafrários invadem a economia, aflitos com um dia a dia cada vez mais de circo e menos de pão, os portugueses precisam de um Ideal. Tanto quanto de chuva. Assim o Céu oiça.
quarta-feira, março 16, 2005
«O Código Da Vinci»... histórias sem História
Cardeal de Génova promove debate sobre O Código Da Vinci
O Cardeal Tarcisio Bertone, arcebispo de Génova, promove hoje um encontro-debate sobre o livro “O Código Da Vinci”, best-seller de Dan Brown.
A iniciativa, intitulada “O Código Da Vinci... histórias sem História”, é organizada pelo Departamento para a Cultura e a Universidade da arquidiocese de Génova com a participação de Massimo Introvigne, fundador e director do Centro de Estudos sobre as Novas Religiões (CESNUR). O Cardeal Tarcisio Bertone revelou ao periódico italiano “Il Giornale” estar “atónito e preocupado” por “tantas pessoas acreditarem nas mentiras” do romance.
Para o Cardeal, esta obra mostra que o “anti-catolicismo é o último dos preconceitos que a sociedade admite livremente”. Em entrevista à Rádio Vaticano, o arcebispo de Génova lamenta que “circule uma ideia nas escolas de que só consegue perceber as dinâmicas da História e todas as manipulações nela efectuadas pela Igreja quem ler este livro”.
Massimo Introvigne referiu à agência Zenit que “é necessário desmentir os enormes erros históricos do livro, pois, ainda que seja uma novela, contém uma página sobre informações históricas na qual afirma que ‘todas as descrições’ de documentos e ritos secretos contidos nesta novela reflectem a realidade”.
O “Código Da Vinci” dá a entender, entre outras coisas, que o Opus Dei é uma “seita que entrou em conflito com a Igreja pois conheceria a verdade sobre o Priorado de Sião”. Introvigne recorda que o Opus Dei, “onde entre outras coisas não há ‘monges’, ao contrário do que pensa Dan Brown”, “é uma instituição que está canonicamente aprovada e louvada pela Igreja Católica, e o seu fundador, S. Josemaría Escriva (1902-1975), foi canonizado pelo Papa em 2002”.
Introvigne explica o enorme êxito de vendas de “O Código Da Vinci” ao constatar que “une dois tipos de modas muito difundidas: a dos complôs e sociedades secretas que dominariam o mundo e a de um anti-catolicismo cada vez mais claro e virulento”.
fonte: ecclesia
O Cardeal Tarcisio Bertone, arcebispo de Génova, promove hoje um encontro-debate sobre o livro “O Código Da Vinci”, best-seller de Dan Brown.
A iniciativa, intitulada “O Código Da Vinci... histórias sem História”, é organizada pelo Departamento para a Cultura e a Universidade da arquidiocese de Génova com a participação de Massimo Introvigne, fundador e director do Centro de Estudos sobre as Novas Religiões (CESNUR). O Cardeal Tarcisio Bertone revelou ao periódico italiano “Il Giornale” estar “atónito e preocupado” por “tantas pessoas acreditarem nas mentiras” do romance.
Para o Cardeal, esta obra mostra que o “anti-catolicismo é o último dos preconceitos que a sociedade admite livremente”. Em entrevista à Rádio Vaticano, o arcebispo de Génova lamenta que “circule uma ideia nas escolas de que só consegue perceber as dinâmicas da História e todas as manipulações nela efectuadas pela Igreja quem ler este livro”.
Massimo Introvigne referiu à agência Zenit que “é necessário desmentir os enormes erros históricos do livro, pois, ainda que seja uma novela, contém uma página sobre informações históricas na qual afirma que ‘todas as descrições’ de documentos e ritos secretos contidos nesta novela reflectem a realidade”.
O “Código Da Vinci” dá a entender, entre outras coisas, que o Opus Dei é uma “seita que entrou em conflito com a Igreja pois conheceria a verdade sobre o Priorado de Sião”. Introvigne recorda que o Opus Dei, “onde entre outras coisas não há ‘monges’, ao contrário do que pensa Dan Brown”, “é uma instituição que está canonicamente aprovada e louvada pela Igreja Católica, e o seu fundador, S. Josemaría Escriva (1902-1975), foi canonizado pelo Papa em 2002”.
Introvigne explica o enorme êxito de vendas de “O Código Da Vinci” ao constatar que “une dois tipos de modas muito difundidas: a dos complôs e sociedades secretas que dominariam o mundo e a de um anti-catolicismo cada vez mais claro e virulento”.
fonte: ecclesia
segunda-feira, março 14, 2005
“A Eucaristia e a Verdade da Igreja”
Catequese do 5º Domingo da Quaresma
(Excerto)
(...) O que é que é mais importante no Cristianismo, a proclamação e a defesa da verdade ou o amor com as suas exigências e loucuras? A resposta só a encontram aqueles que perceberam, no mais íntimo do seu coração, que, em Jesus Cristo, a verdade e o amor são a mesma realidade, que brota da comunhão vital com Cristo. E a Eucaristia é o caminho para essa descoberta e o sacramento dessa harmonia. O mesmo Senhor que afirmou “Eu sou a Verdade” também nos disse que é a Vida. Ele, a Palavra eterna, o Verbo do Pai, só é verdade para nós quando nos unimos a Ele na comunhão de amor. Quando nos unimos a Ele nessa união vital, brota para nós uma luz nova sobre Deus, sobre o homem, sobre o caminho da vida. Para o cristão, a verdade é a luz que brilha no rosto de Cristo ressuscitado e nos faz ver de novo todas as coisas.
Esta é a luz da fé, que nos garante não nos desviarmos da Verdade. O Concílio Vaticano II afirmou que o Povo de Deus, guiado pelo sentido da fé, nunca se desviará da verdade, de tal modo que esse “sensus fidei” se torna critério e referência na explicitação da Verdade vivida e acreditada pela Igreja. Ora na Eucaristia só a luz da fé nos conduz à verdade que é vivida e experimentada na densidade do amor. Na Eucaristia, a glória de Cristo, que se manifestou na luminosidade da transfiguração e da ressurreição, “está velada”. O sacramento eucarístico é o “mistério da fé” por excelência. E, todavia, precisamente através deste sacramento da sua total ocultação, Cristo torna-se mistério de luz, mediante o qual o fiel é introduzido na profundeza da vida divina. A Eucaristia, sacramento do amor, revela-nos a dimensão mística da verdade cristã. A verdade é recebida e acolhida como revelação de Deus, que é sempre uma expressão do seu amor infinito.
Quando digo que a Eucaristia é momento de revelação, não quero sugerir que Deus pode revelar coisas novas. A sua revelação está completa no dom do seu Filho Jesus Cristo, Palavra eterna de Deus. Mas essa plenitude da revelação de Deus, em Jesus Cristo, pode ser acolhida, por nós, na Eucaristia, como surpresa amorosa de Deus. Se a Eucaristia é a actualização da Páscoa, que se torna presente em cada celebração, porque não o há-de ser da revelação de Deus? Aí podemos mergulhar, sempre de novo, no insondável abismo do coração de Deus.
A Eucaristia, enquanto momento de revelação da verdade e do amor, começa na maneira como acolhemos, em cada celebração, a Palavra de Deus. Nesse contexto, a proclamação da Palavra tem uma especial densidade de amor pessoal de Jesus Cristo. “É o próprio Cristo que fala quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura”. E isto é possível, porque a assembleia eucarística é congregada pela fé e pelo amor a Jesus Cristo. O Senhor que procuramos, para com Ele celebrar a Páscoa, abre-nos o seu coração e revela-nos a Palavra do Reino e dos caminhos da vida.
Esta dimensão mística da verdade, graça própria da Eucaristia, não é alheia a todos os outros caminhos de recepção e proclamação da verdade revelada. Ela ajudará os catequistas, os pregadores, os teólogos, a nunca isolarem a verdade do amor e a não caírem em visões abstractas da verdade, que podem ser acolhidas como doutrina, mas não desencadeiam as exigências da caridade. Toda a luz de Cristo que, na Eucaristia, ilumina o nosso coração, vem carregada de sugestões para a prática da caridade, tanto como adoração de Deus, como amor dos irmãos. Só a verdade de Deus, que resplandece no rosto eucarístico de Cristo, nos impede de confundir a caridade com as expressões naturais do amor, tantas vezes desfiguradas pelo pecado; só o amor exigirá de nós que não façamos da verdade revelada uma afirmação fria de princípios, mas a luz que nos revela os caminhos da caridade e nos conduz ao amor.
Sé Patriarcal, 13 de Março de 2005
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
(Excerto)
(...) O que é que é mais importante no Cristianismo, a proclamação e a defesa da verdade ou o amor com as suas exigências e loucuras? A resposta só a encontram aqueles que perceberam, no mais íntimo do seu coração, que, em Jesus Cristo, a verdade e o amor são a mesma realidade, que brota da comunhão vital com Cristo. E a Eucaristia é o caminho para essa descoberta e o sacramento dessa harmonia. O mesmo Senhor que afirmou “Eu sou a Verdade” também nos disse que é a Vida. Ele, a Palavra eterna, o Verbo do Pai, só é verdade para nós quando nos unimos a Ele na comunhão de amor. Quando nos unimos a Ele nessa união vital, brota para nós uma luz nova sobre Deus, sobre o homem, sobre o caminho da vida. Para o cristão, a verdade é a luz que brilha no rosto de Cristo ressuscitado e nos faz ver de novo todas as coisas.
Esta é a luz da fé, que nos garante não nos desviarmos da Verdade. O Concílio Vaticano II afirmou que o Povo de Deus, guiado pelo sentido da fé, nunca se desviará da verdade, de tal modo que esse “sensus fidei” se torna critério e referência na explicitação da Verdade vivida e acreditada pela Igreja. Ora na Eucaristia só a luz da fé nos conduz à verdade que é vivida e experimentada na densidade do amor. Na Eucaristia, a glória de Cristo, que se manifestou na luminosidade da transfiguração e da ressurreição, “está velada”. O sacramento eucarístico é o “mistério da fé” por excelência. E, todavia, precisamente através deste sacramento da sua total ocultação, Cristo torna-se mistério de luz, mediante o qual o fiel é introduzido na profundeza da vida divina. A Eucaristia, sacramento do amor, revela-nos a dimensão mística da verdade cristã. A verdade é recebida e acolhida como revelação de Deus, que é sempre uma expressão do seu amor infinito.
Quando digo que a Eucaristia é momento de revelação, não quero sugerir que Deus pode revelar coisas novas. A sua revelação está completa no dom do seu Filho Jesus Cristo, Palavra eterna de Deus. Mas essa plenitude da revelação de Deus, em Jesus Cristo, pode ser acolhida, por nós, na Eucaristia, como surpresa amorosa de Deus. Se a Eucaristia é a actualização da Páscoa, que se torna presente em cada celebração, porque não o há-de ser da revelação de Deus? Aí podemos mergulhar, sempre de novo, no insondável abismo do coração de Deus.
A Eucaristia, enquanto momento de revelação da verdade e do amor, começa na maneira como acolhemos, em cada celebração, a Palavra de Deus. Nesse contexto, a proclamação da Palavra tem uma especial densidade de amor pessoal de Jesus Cristo. “É o próprio Cristo que fala quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura”. E isto é possível, porque a assembleia eucarística é congregada pela fé e pelo amor a Jesus Cristo. O Senhor que procuramos, para com Ele celebrar a Páscoa, abre-nos o seu coração e revela-nos a Palavra do Reino e dos caminhos da vida.
Esta dimensão mística da verdade, graça própria da Eucaristia, não é alheia a todos os outros caminhos de recepção e proclamação da verdade revelada. Ela ajudará os catequistas, os pregadores, os teólogos, a nunca isolarem a verdade do amor e a não caírem em visões abstractas da verdade, que podem ser acolhidas como doutrina, mas não desencadeiam as exigências da caridade. Toda a luz de Cristo que, na Eucaristia, ilumina o nosso coração, vem carregada de sugestões para a prática da caridade, tanto como adoração de Deus, como amor dos irmãos. Só a verdade de Deus, que resplandece no rosto eucarístico de Cristo, nos impede de confundir a caridade com as expressões naturais do amor, tantas vezes desfiguradas pelo pecado; só o amor exigirá de nós que não façamos da verdade revelada uma afirmação fria de princípios, mas a luz que nos revela os caminhos da caridade e nos conduz ao amor.
Sé Patriarcal, 13 de Março de 2005
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
terça-feira, março 08, 2005
8 de Março - Festa de Santo Português - S. João de Deus
por Maria das Dores Folque
"É pelo fruto que se conhece a árvore." Mt 12,33b
O Santo de hoje é muito conhecido, sobretudo no mundo português. É São João de Deus, português, nascido em Montemor-o-Novo (1495) e falecido em Granada (Espanha, a 8 de Março de 1550).
De seu nome João Cidade conta-se que, tendo transportado aos ombros um menino andrajoso que com dificuldade se deslocava, este lhe mostrou uma granada ou romã, com uma representação da Santa Cruz e, referindo-se à cidade espanhola com esse nome, lhe disse: "Granada será a tua Cruz". A seguir desapareceu.
A primeira parte da vida deste santo foi marcada por aventuras, algumas até curiosas.
Abandonou a casa paterna aos oito anos. Fez-se soldado. Trabalhou em hospitais, como simples servente. Foi criado e comerciante. Manteve um pequeno negócio de livros. Ouvindo um sermão de São João d' Ávila sentiu-se tocado. Desfez-se de todos os seus bens. Reuniu esmolas e foi cuidar de doentes, especialmente dos loucos e dos incuráveis. Entre eles, como ele próprio conta, havia paralíticos, leprosos e até mudos. "Nas horas difíceis - dizia João de Deus - é Jesus Cristo quem provê tudo e dá de comer aos meus queridos doentes".
Mantinha ele mais de oitenta hospitais, que fundara só em Espanha. Por isso, tornou-se também o Fundador dos Irmãos dos Enfermos. E foi declarado patrono dos hospitais por Leão XIII.
"É pelo fruto que se conhece a árvore." Mt 12,33b
O Santo de hoje é muito conhecido, sobretudo no mundo português. É São João de Deus, português, nascido em Montemor-o-Novo (1495) e falecido em Granada (Espanha, a 8 de Março de 1550).
De seu nome João Cidade conta-se que, tendo transportado aos ombros um menino andrajoso que com dificuldade se deslocava, este lhe mostrou uma granada ou romã, com uma representação da Santa Cruz e, referindo-se à cidade espanhola com esse nome, lhe disse: "Granada será a tua Cruz". A seguir desapareceu.
A primeira parte da vida deste santo foi marcada por aventuras, algumas até curiosas.
Abandonou a casa paterna aos oito anos. Fez-se soldado. Trabalhou em hospitais, como simples servente. Foi criado e comerciante. Manteve um pequeno negócio de livros. Ouvindo um sermão de São João d' Ávila sentiu-se tocado. Desfez-se de todos os seus bens. Reuniu esmolas e foi cuidar de doentes, especialmente dos loucos e dos incuráveis. Entre eles, como ele próprio conta, havia paralíticos, leprosos e até mudos. "Nas horas difíceis - dizia João de Deus - é Jesus Cristo quem provê tudo e dá de comer aos meus queridos doentes".
Mantinha ele mais de oitenta hospitais, que fundara só em Espanha. Por isso, tornou-se também o Fundador dos Irmãos dos Enfermos. E foi declarado patrono dos hospitais por Leão XIII.
domingo, março 06, 2005
O Papa visto por um filósofo: um retorno ao essencial
Entrevista com Rodrigo Guerra, especialista na obra de Karol Wojtyla
João Paulo II quebrou em cada um dos vinte cinco anos de seu pontificado o silêncio sobre o essencial, as questões transcendentes que afectam o homem e a mulher, e que com frequência ficam esquecidas pela sociedade consumista. Assim constata nesta entrevista o filósofo mexicano Rodrigo Guerra López, especialista na obra intelectual de Karol Wojtyla, cujo livro «Voltar à Pessoa», editado na Espanha por Caparrós, vai caminhando para converter-se em referência obrigatória no que se refere ao «método Wojtyla».
--É possível fazer um balanço do Pontificado de João Paulo II em seu 25º Aniversário?
--Rodrigo Guerra: Não é fácil. Contudo, creio que seu pontificado foi um esforço para voltar a visão para o essencial, ou seja, ajudar o mundo e a Igreja a reencontrar na humanidade de Jesus o caminho para descobrir aquilo que transborda o humano: Deus existe e está no meio de nós.
--Parece que há um paradoxo: a figura do Papa fascina as multidões e os meios de comunicação e ao mesmo tempo parece que sua voz não é ouvida. A que se deve isso?
--Rodrigo Guerra: João Paulo II é vigário de Cristo e, como tal, não pode fazer mais que uma proposta ao anunciar que ser cristão tem sentido. A liberdade é uma condição essencial para a recepção da verdade do Evangelho. Quando existe liberdade existe também o risco de não acolher a proposta. Contudo, o que convém destacar é que o esforço que João Paulo II realiza consiste precisamente em afirmar que Jesus não esquece ninguém, ainda quando as pessoas em certas ocasiões lhe voltam as costas. A fascinação que o Papa suscita me parece que não se deve à sua personalidade, à sua oratória ou ao «marketing», mas que a verdade do Evangelho desafia a consciência e a comove. Que esta verdade não seja ouvida em certos ambientes tenho a impressão que se deve mais à incoerência dos cristãos. Muitas vezes não cremos que o amor, a comunhão e o perdão são verdadeira fonte de renovação pessoal e social. O Papa sim cumpriu sua parte. Pergunto-me se nós o fizemos.
--Que tipo de renovação pessoal João Paulo II promoveu durante seu pontificado?
--Rodrigo Guerra: Estamos em uma época de mudanças globais rápidas e profundas. O «renovar-se para colocar-se em dia» é um lugar-comum. João Paulo II, contudo, não usa alguma moda administrativa ou algum humanismo “light” para promover a mudança. Neste tema é fácil ver como o Papa volta ao essencial: o núcleo afectivo da pessoa, o coração, somente pode transbordar em suas expectativas com um encontro definitivo. A hipótese cristã corresponde ao anseio mais fundo do coração. Contudo, o coração, por seu próprio ímpeto não pode, é incapaz!, de alcançar o que mais deseja. Este é o momento de descobrir a importância da gratidão, a primazia da Graça. A pessoa se renova com a graça. Ela é a que faz crescer em virtude e não vice-versa, como querem alguns neopelagianos.
--E no âmbito social, onde, talvez, foi menos escutada sua proposta de voltar ao essencial, de voltar à primazia da pessoa?
--Rodrigo Guerra: No âmbito sócio-político sucede algo análogo: quem assume o poder muitas vezes se torna medida de si mesmo. Escutar e aprender do outro lhes resulta difícil porque o poder exalta a eficácia e obscurece a capacidade para ler o qualitativo, o humano, o autenticamente «digno». A nova síntese da Doutrina Social da Igreja, articulada por João Paulo II, sustenta justamente que o Estado e o mercado somente podem servir e viver se a pessoa, seus direitos e sua cultura são colocados no centro. Não basta afirmar com a palavra que a pessoa é digna. É necessário entender como a Doutrina Social da Igreja pode ser usada como teoria crítica no momento de se traçar, por exemplo, políticas públicas.
--Esta «nova síntese da Doutrina Social da Igreja» é parte do legado de João Paulo II para a posteridade?
--Rodrigo Guerra: Com efeito, o fracasso especulativo e prático tanto dos coletivismos como dos neoliberalismos mostra, de maneira eloqüente, que não basta a boa intenção e uma certa capacidade técnica para a transformação do Estado e da sociedade. Os mais pobres não podem continuar esperando. Facilmente a anarquia e o sem-sentido podem emergir no cenário público quando não nos atrevemos a substituir o Estado-liberal-de-Direito por um Estado-social-de-Direito. João Paulo II através de seu Magistério deu uma contribuição qualitativamente nova e interior da controvérsia sobre o Estado; o Estado tem de se rearticular com a cultura para, assim, colocar o social como eixo substantivo.
--Onde se mostra com maior clareza esta postura do Santo Padre?
--Rodrigo Guerra: No capítulo quinto da encíclica «Centesimus annus». Ali se mostra que o Estado e seus homens devem adquirir capacidade para «ler» o social em termos culturais. Evidentemente, não nos referimos à cultura entendida como museus, concertos e balé. Nos referimos à cultura como «ethos» de um povo: valores, símbolos, crenças, história. Nos referimos aos motivos qualitativos que fazem que uma sociedade possa ser «sujeito» e não «objeto» do poder. O Papa lhe chama a este desafio: necessidade de criar «subjectividade social».
(Entrevista realizada por Jaime Septién, director de El Observador)
João Paulo II quebrou em cada um dos vinte cinco anos de seu pontificado o silêncio sobre o essencial, as questões transcendentes que afectam o homem e a mulher, e que com frequência ficam esquecidas pela sociedade consumista. Assim constata nesta entrevista o filósofo mexicano Rodrigo Guerra López, especialista na obra intelectual de Karol Wojtyla, cujo livro «Voltar à Pessoa», editado na Espanha por Caparrós, vai caminhando para converter-se em referência obrigatória no que se refere ao «método Wojtyla».
--É possível fazer um balanço do Pontificado de João Paulo II em seu 25º Aniversário?
--Rodrigo Guerra: Não é fácil. Contudo, creio que seu pontificado foi um esforço para voltar a visão para o essencial, ou seja, ajudar o mundo e a Igreja a reencontrar na humanidade de Jesus o caminho para descobrir aquilo que transborda o humano: Deus existe e está no meio de nós.
--Parece que há um paradoxo: a figura do Papa fascina as multidões e os meios de comunicação e ao mesmo tempo parece que sua voz não é ouvida. A que se deve isso?
--Rodrigo Guerra: João Paulo II é vigário de Cristo e, como tal, não pode fazer mais que uma proposta ao anunciar que ser cristão tem sentido. A liberdade é uma condição essencial para a recepção da verdade do Evangelho. Quando existe liberdade existe também o risco de não acolher a proposta. Contudo, o que convém destacar é que o esforço que João Paulo II realiza consiste precisamente em afirmar que Jesus não esquece ninguém, ainda quando as pessoas em certas ocasiões lhe voltam as costas. A fascinação que o Papa suscita me parece que não se deve à sua personalidade, à sua oratória ou ao «marketing», mas que a verdade do Evangelho desafia a consciência e a comove. Que esta verdade não seja ouvida em certos ambientes tenho a impressão que se deve mais à incoerência dos cristãos. Muitas vezes não cremos que o amor, a comunhão e o perdão são verdadeira fonte de renovação pessoal e social. O Papa sim cumpriu sua parte. Pergunto-me se nós o fizemos.
--Que tipo de renovação pessoal João Paulo II promoveu durante seu pontificado?
--Rodrigo Guerra: Estamos em uma época de mudanças globais rápidas e profundas. O «renovar-se para colocar-se em dia» é um lugar-comum. João Paulo II, contudo, não usa alguma moda administrativa ou algum humanismo “light” para promover a mudança. Neste tema é fácil ver como o Papa volta ao essencial: o núcleo afectivo da pessoa, o coração, somente pode transbordar em suas expectativas com um encontro definitivo. A hipótese cristã corresponde ao anseio mais fundo do coração. Contudo, o coração, por seu próprio ímpeto não pode, é incapaz!, de alcançar o que mais deseja. Este é o momento de descobrir a importância da gratidão, a primazia da Graça. A pessoa se renova com a graça. Ela é a que faz crescer em virtude e não vice-versa, como querem alguns neopelagianos.
--E no âmbito social, onde, talvez, foi menos escutada sua proposta de voltar ao essencial, de voltar à primazia da pessoa?
--Rodrigo Guerra: No âmbito sócio-político sucede algo análogo: quem assume o poder muitas vezes se torna medida de si mesmo. Escutar e aprender do outro lhes resulta difícil porque o poder exalta a eficácia e obscurece a capacidade para ler o qualitativo, o humano, o autenticamente «digno». A nova síntese da Doutrina Social da Igreja, articulada por João Paulo II, sustenta justamente que o Estado e o mercado somente podem servir e viver se a pessoa, seus direitos e sua cultura são colocados no centro. Não basta afirmar com a palavra que a pessoa é digna. É necessário entender como a Doutrina Social da Igreja pode ser usada como teoria crítica no momento de se traçar, por exemplo, políticas públicas.
--Esta «nova síntese da Doutrina Social da Igreja» é parte do legado de João Paulo II para a posteridade?
--Rodrigo Guerra: Com efeito, o fracasso especulativo e prático tanto dos coletivismos como dos neoliberalismos mostra, de maneira eloqüente, que não basta a boa intenção e uma certa capacidade técnica para a transformação do Estado e da sociedade. Os mais pobres não podem continuar esperando. Facilmente a anarquia e o sem-sentido podem emergir no cenário público quando não nos atrevemos a substituir o Estado-liberal-de-Direito por um Estado-social-de-Direito. João Paulo II através de seu Magistério deu uma contribuição qualitativamente nova e interior da controvérsia sobre o Estado; o Estado tem de se rearticular com a cultura para, assim, colocar o social como eixo substantivo.
--Onde se mostra com maior clareza esta postura do Santo Padre?
--Rodrigo Guerra: No capítulo quinto da encíclica «Centesimus annus». Ali se mostra que o Estado e seus homens devem adquirir capacidade para «ler» o social em termos culturais. Evidentemente, não nos referimos à cultura entendida como museus, concertos e balé. Nos referimos à cultura como «ethos» de um povo: valores, símbolos, crenças, história. Nos referimos aos motivos qualitativos que fazem que uma sociedade possa ser «sujeito» e não «objeto» do poder. O Papa lhe chama a este desafio: necessidade de criar «subjectividade social».
(Entrevista realizada por Jaime Septién, director de El Observador)
quinta-feira, março 03, 2005
EUA - O Supremo Tribunal de Justiça declarou inconstitucional a sentença de morte a menores de 18 anos
WASHINGTON, quarta-feira, 2 de março de 2005.
A Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos aplaudiu a sentença do Supremo Tribunal de Justiça desse país, que esta terça-feira declarou inconstitucional a sentença de morte a menores de 18 anos.
A decisão, aprovada com cinco votos a favor e quatro contra, anula as sentenças de morte ditadas contra 72 condenados actualmente presos nas prisões do país. Estas sentenças eram aplicadas em 19 Estados.
A Conferência Episcopal, que há 25 anos está fazendo apelos para acabar com a pena de morte, «sente-se muito alentada pelo fato de que o Tribunal Supremo tenha reconhecido que executar menores é de fato algo cruel», afirma um comunicado.
O texto, firmado pelo bispo Nicholas DiMarzio, presidente da Comissão de Política Interior do episcopado americano, considera que «esta sentença confirma a posição mantida por uma corrente transversal de denominações religiosas, grupos de defesa de menores e de organizações legais e médicas».
«Enquanto seguimos trabalhando por opor-nos a todo uso da pena capital pelo que faz contra a vida humana», afirma o comunicado episcopal, alegramo-nos ao ver que o Tribunal Supremo confirmou que «os critérios de decência evoluíram e que os Estados Unidos se uniram ao restante do mundo ao proscrever as execuções daqueles menores que cometem crimes», afirmou Dom DiMarzio.
fonte: www.zenit.org
A Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos aplaudiu a sentença do Supremo Tribunal de Justiça desse país, que esta terça-feira declarou inconstitucional a sentença de morte a menores de 18 anos.
A decisão, aprovada com cinco votos a favor e quatro contra, anula as sentenças de morte ditadas contra 72 condenados actualmente presos nas prisões do país. Estas sentenças eram aplicadas em 19 Estados.
A Conferência Episcopal, que há 25 anos está fazendo apelos para acabar com a pena de morte, «sente-se muito alentada pelo fato de que o Tribunal Supremo tenha reconhecido que executar menores é de fato algo cruel», afirma um comunicado.
O texto, firmado pelo bispo Nicholas DiMarzio, presidente da Comissão de Política Interior do episcopado americano, considera que «esta sentença confirma a posição mantida por uma corrente transversal de denominações religiosas, grupos de defesa de menores e de organizações legais e médicas».
«Enquanto seguimos trabalhando por opor-nos a todo uso da pena capital pelo que faz contra a vida humana», afirma o comunicado episcopal, alegramo-nos ao ver que o Tribunal Supremo confirmou que «os critérios de decência evoluíram e que os Estados Unidos se uniram ao restante do mundo ao proscrever as execuções daqueles menores que cometem crimes», afirmou Dom DiMarzio.
fonte: www.zenit.org
quarta-feira, março 02, 2005
Cabinda - EUA voltam a confirmar violações de direitos humanos
Washington - Ao longo de 2004, membros das Forças Armadas Angolanas (FAA) continuaram a ser responsáveis por assassinatos, torturas e «outras formas de tratamento cruel e degradante», incluindo violação, em Cabinda, revela o relatório anual do Departamento de Estado norte-americano sobre a situação dos direitos humanos em Angola, divulgado esta segunda-feira. O documento acusa ainda o Governo angolano de infringir continuamente os direitos civis.
No capítulo dedicado a Angola do relatório anual sobre a violação de direitos humanos no Mundo, os Estados Unidos da América (EUA) referem que apesar das melhorias registadas em algumas áreas, há ainda «sérios problemas». A começar pelo direito dos cidadãos a mudar de Governo, «que continuou restringido devido ao adiamento das eleições», lê-se no documento.
Tal como no relatório anterior, o Departamento de Estado chama a atenção para os assassinatos e torturas cometidos por membros das forças de segurança, «que foram responsáveis por desaparecimentos, torturas, maus-tratos, violações e outros abusos», mantendo-se a «impunidade», é ainda salientado.
Os EUA fazem referência a documentos - como o relatório sobre a situação dos direitos humanos no enclave publicado pela Mpalabanda - Associação Cívica de Cabinda (MACC) - que provam que forças militares executaram civis em Cabinda.
«Continuaram os conflitos entre tropas do Governo e a Frente de Libertação de Cabinda - Forças Armadas de Cabinda (FLEC-FAC)», é sublinhado no mesmo relatório, que acusa Luanda de contribuir para o número de mortes civis. «Em Janeiro, dois civis morreram em Mikuma, Cabinda, durante um combate entre a FLEC e as FAA», lê-se no texto, que também atribui aos independentistas alguns casos de violação de direitos dos cidadãos.
Segundo a mesma fonte, a Polícia foi também «frequentemente acusada» de usar métodos de confissão baseados na tortura durante investigações. «Pessoas suspeitas de terem ligações à Frente de Libertação de Cabinda (FLEC) foram alegadamente sujeitas a formas brutais de interrogatório», salienta.
O Departamento de Estado dos EUA refere ainda o desaparecimento de pessoas sob a custódia da polícia, sobretudo em zonas rurais. «Organizações de direitos humanos em Cabinda denunciaram vários desaparecimentos de pessoas detidas durante o ano por forças governamentais por alegadas ligações aos independentistas da FLEC», aponta.
No que concerne às detenções arbitrárias, pouco ou nada mudou em relação ao ano anterior. «A Polícia Nacional foi a principal fonte de abusos durante o ano; contudo, denúncias de detenções efectuadas pelas FAA continuaram em Cabinda», confirma o relatório. Como exemplo é apontado o caso, ocorrido em Março, de um homem detido pelas autoridades em Cabinda por ter obtido informação sobre a FLEC na Internet.
Além de infringir os direitos dos cidadãos, o Governo angolano é acusado de restringir a liberdade de expressão e de imprensa e de ter «abusado, espancado e detido jornalistas». Por vezes, acrescenta o relatório, o Executivo também impõe restrições à liberdade de associação.
«O Governo começou a implementar uma lei que pode aumentar as restrições a organizações não governamentais (ONG’s)», revela o documento, que também critica o Executivo angolano por «nem sempre respeitar os direitos dos trabalhadores».
fonte: PNN Portuguese News Network
No capítulo dedicado a Angola do relatório anual sobre a violação de direitos humanos no Mundo, os Estados Unidos da América (EUA) referem que apesar das melhorias registadas em algumas áreas, há ainda «sérios problemas». A começar pelo direito dos cidadãos a mudar de Governo, «que continuou restringido devido ao adiamento das eleições», lê-se no documento.
Tal como no relatório anterior, o Departamento de Estado chama a atenção para os assassinatos e torturas cometidos por membros das forças de segurança, «que foram responsáveis por desaparecimentos, torturas, maus-tratos, violações e outros abusos», mantendo-se a «impunidade», é ainda salientado.
Os EUA fazem referência a documentos - como o relatório sobre a situação dos direitos humanos no enclave publicado pela Mpalabanda - Associação Cívica de Cabinda (MACC) - que provam que forças militares executaram civis em Cabinda.
«Continuaram os conflitos entre tropas do Governo e a Frente de Libertação de Cabinda - Forças Armadas de Cabinda (FLEC-FAC)», é sublinhado no mesmo relatório, que acusa Luanda de contribuir para o número de mortes civis. «Em Janeiro, dois civis morreram em Mikuma, Cabinda, durante um combate entre a FLEC e as FAA», lê-se no texto, que também atribui aos independentistas alguns casos de violação de direitos dos cidadãos.
Segundo a mesma fonte, a Polícia foi também «frequentemente acusada» de usar métodos de confissão baseados na tortura durante investigações. «Pessoas suspeitas de terem ligações à Frente de Libertação de Cabinda (FLEC) foram alegadamente sujeitas a formas brutais de interrogatório», salienta.
O Departamento de Estado dos EUA refere ainda o desaparecimento de pessoas sob a custódia da polícia, sobretudo em zonas rurais. «Organizações de direitos humanos em Cabinda denunciaram vários desaparecimentos de pessoas detidas durante o ano por forças governamentais por alegadas ligações aos independentistas da FLEC», aponta.
No que concerne às detenções arbitrárias, pouco ou nada mudou em relação ao ano anterior. «A Polícia Nacional foi a principal fonte de abusos durante o ano; contudo, denúncias de detenções efectuadas pelas FAA continuaram em Cabinda», confirma o relatório. Como exemplo é apontado o caso, ocorrido em Março, de um homem detido pelas autoridades em Cabinda por ter obtido informação sobre a FLEC na Internet.
Além de infringir os direitos dos cidadãos, o Governo angolano é acusado de restringir a liberdade de expressão e de imprensa e de ter «abusado, espancado e detido jornalistas». Por vezes, acrescenta o relatório, o Executivo também impõe restrições à liberdade de associação.
«O Governo começou a implementar uma lei que pode aumentar as restrições a organizações não governamentais (ONG’s)», revela o documento, que também critica o Executivo angolano por «nem sempre respeitar os direitos dos trabalhadores».
fonte: PNN Portuguese News Network
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Paul Claudel (1868-1955), o «gigante invisível»
Entrevista com Andrea Monda
ROMA, segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005 (ZENIT.org).- Em 23 de fevereiro próximo acontece em Roma a VI Jornada de reflexão sobre «Catolicismo e literatura no século XX», promovida pelo Conselho Pontifício da Cultura, em colaboração com a Associação Teatral Italiana e a Fundação Primoli.
A edição deste ano tratará a figura literária de Paul Claudel (1868-1955), no quinquagésimo aniversário da morte deste grande escritor francês, ocorrida em 23 de fevereiro.
Zenit entrevistou Andrea Monda, um dos organizadores do encontro.
--Porque é que a eleição deste ano recaiu em Claudel?
--Monda: A relação com Deus e com a fé cristã são sem dúvida a raiz profunda da obra de alguns protagonistas fundamentais da literatura do século XX, e esta ainda vale mais para Claudel e seu catolicismo que, a partir do célebre episódio da conversão, ocorrida o Natal de 1886, na catedral de Notre Dame de Paris, será para o artista uma fonte contínua de inspiração. É interessante como Claudel chega a sua fé de rocha através de um caminho original.
E em 1886 descobre as «Iluminations» de um grande poeta --e controvertido-- Arthur Rimbaud, e este descobrimento se revelará decisivo para a formação poética de Claudel, que por fim poderá sair da «prisão» do determinismo do século XIX e encaminhar-se para o sobrenatural.
Neste sentido, Claudel é um formidável símbolo, entre esses dois séculos dramáticos, e portanto pareceu oportuno não fazer que caia no esquecimento o quinquagésimo aniversário de sua morte.
Enquanto nas anteriores edições se meditou em particular sobre as tradições literárias de algumas zonas geográficas como França, Europa Oriental ou os países de língua espanhola, na actual edição a perspectiva se concentrou em uma figura individual, cuja enorme «estatura» já se revela no título.
--Que significa este título, o gigante invisível?
--Monda: Duas coisas: de uma parte Claudel é um gigante, um monumento da literatura do século XX, mas diria mais, da cultura e da história do século XX. Trata-se, com efeito, de um génio multiforme e polivalente: escritor, poeta, dramaturgo, crítico e teórico de arte, diplomata.
Como escreveu o poeta e professor de literatura francês Valerio Magrelli em «Il Corriere della Sera» de 16 de fevereiro passado, Claudel é uma espécie de «nó inextricável». O homem de teatro e o diplomata, o conservador e o seguidor de Rimbaud, o católico intolerante e o amante das culturas orientais, o filósofo e o amigo-inimigo de Gide. É impossível tratar de harmonizar aspectos tão distintos.
Por outra parte, ao acentuar todas estas contradições, converteu-se objetivo dos ataques dos surrealistas. «Não se pode ser ao mesmo tempo embaixador da França e poeta». Contudo, Claudel foi ambas coisas.
Parece-me muito interessante este aspecto: o homem, cada homem, é um conjunto de contradições que não podem ser simplificadas, radicalizadas, absolutizadas. Para dizer religiosamente: cada homem é um mistério. O cristão sabe bem disso porque o cristão é um mistério ainda maior e sempre representa um enigma para o mundo que com freqüência não o compreende, e não o acolhe.
Vem-me à memória o que escrevia o teólogo Harvey Cox há 40 anos em seu ensaio «O cristão como rebelde»: «Os cristãos não se podem explicar com termos do mundo, porque não vivem para sua classe ou sua raça, para seus interesses nacionais ou sexuais. Eles propõem ao mundo um enigma, algo inexplicável pelo que o povo finalmente tem de perguntar».
--Porque é que este gigante é invisível?
--Monda: Hoje Claudel se converteu em invisível. É um monumento transparente. Uma montanha da qual se perdeu a memória. Desde há muitos anos Claudel e sua vasta obra vivem uma estação de esquecimento e «marginalização». Vai-se hoje às livrarias para adquirir um livro de Claudel, um qualquer, e a resposta sempre será a mesma: «Claudel? Quem é esse?».
É praticamente impossível encontrar um livro seu em circulação. Talvez o caráter «monolítico» da fé experimentada e praticada por Claudel tenha provocado esta eliminação, não saberei dizê-lo. Certamente Claudel representa de modo eficaz toda uma grande estação da cultura francesa do século XX que alcançou não só níveis altíssimos na literatura e que hoje parece algo antiquada, arqueológica.
Vêm-me à mente nomes como Mauriac, Bernanos, Peguy, Bloy, mas também filósofos como Marcel, Maritain, Mounier, Guitton e a teologia com os grandes franceses como Congar, De Lubac, Danielou. Trata-se de uma estação excepcional cuja herança jaz, mas está como que enterrada pela cinza da indiferença, fenómeno talvez mais insidioso que o ateísmo militante.
Penso na França de hoje que proíbe o véu e o crucifixo e tenta apagar cada marca exterior de religiosidade em nome de uma mal-entendida ideia de laicidade que sabe muito de laicismo e me pergunto: que sucedeu com a lição daqueles grandes espíritos franceses da primeira metade do século XX?
ROMA, segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005 (ZENIT.org).- Em 23 de fevereiro próximo acontece em Roma a VI Jornada de reflexão sobre «Catolicismo e literatura no século XX», promovida pelo Conselho Pontifício da Cultura, em colaboração com a Associação Teatral Italiana e a Fundação Primoli.
A edição deste ano tratará a figura literária de Paul Claudel (1868-1955), no quinquagésimo aniversário da morte deste grande escritor francês, ocorrida em 23 de fevereiro.
Zenit entrevistou Andrea Monda, um dos organizadores do encontro.
--Porque é que a eleição deste ano recaiu em Claudel?
--Monda: A relação com Deus e com a fé cristã são sem dúvida a raiz profunda da obra de alguns protagonistas fundamentais da literatura do século XX, e esta ainda vale mais para Claudel e seu catolicismo que, a partir do célebre episódio da conversão, ocorrida o Natal de 1886, na catedral de Notre Dame de Paris, será para o artista uma fonte contínua de inspiração. É interessante como Claudel chega a sua fé de rocha através de um caminho original.
E em 1886 descobre as «Iluminations» de um grande poeta --e controvertido-- Arthur Rimbaud, e este descobrimento se revelará decisivo para a formação poética de Claudel, que por fim poderá sair da «prisão» do determinismo do século XIX e encaminhar-se para o sobrenatural.
Neste sentido, Claudel é um formidável símbolo, entre esses dois séculos dramáticos, e portanto pareceu oportuno não fazer que caia no esquecimento o quinquagésimo aniversário de sua morte.
Enquanto nas anteriores edições se meditou em particular sobre as tradições literárias de algumas zonas geográficas como França, Europa Oriental ou os países de língua espanhola, na actual edição a perspectiva se concentrou em uma figura individual, cuja enorme «estatura» já se revela no título.
--Que significa este título, o gigante invisível?
--Monda: Duas coisas: de uma parte Claudel é um gigante, um monumento da literatura do século XX, mas diria mais, da cultura e da história do século XX. Trata-se, com efeito, de um génio multiforme e polivalente: escritor, poeta, dramaturgo, crítico e teórico de arte, diplomata.
Como escreveu o poeta e professor de literatura francês Valerio Magrelli em «Il Corriere della Sera» de 16 de fevereiro passado, Claudel é uma espécie de «nó inextricável». O homem de teatro e o diplomata, o conservador e o seguidor de Rimbaud, o católico intolerante e o amante das culturas orientais, o filósofo e o amigo-inimigo de Gide. É impossível tratar de harmonizar aspectos tão distintos.
Por outra parte, ao acentuar todas estas contradições, converteu-se objetivo dos ataques dos surrealistas. «Não se pode ser ao mesmo tempo embaixador da França e poeta». Contudo, Claudel foi ambas coisas.
Parece-me muito interessante este aspecto: o homem, cada homem, é um conjunto de contradições que não podem ser simplificadas, radicalizadas, absolutizadas. Para dizer religiosamente: cada homem é um mistério. O cristão sabe bem disso porque o cristão é um mistério ainda maior e sempre representa um enigma para o mundo que com freqüência não o compreende, e não o acolhe.
Vem-me à memória o que escrevia o teólogo Harvey Cox há 40 anos em seu ensaio «O cristão como rebelde»: «Os cristãos não se podem explicar com termos do mundo, porque não vivem para sua classe ou sua raça, para seus interesses nacionais ou sexuais. Eles propõem ao mundo um enigma, algo inexplicável pelo que o povo finalmente tem de perguntar».
--Porque é que este gigante é invisível?
--Monda: Hoje Claudel se converteu em invisível. É um monumento transparente. Uma montanha da qual se perdeu a memória. Desde há muitos anos Claudel e sua vasta obra vivem uma estação de esquecimento e «marginalização». Vai-se hoje às livrarias para adquirir um livro de Claudel, um qualquer, e a resposta sempre será a mesma: «Claudel? Quem é esse?».
É praticamente impossível encontrar um livro seu em circulação. Talvez o caráter «monolítico» da fé experimentada e praticada por Claudel tenha provocado esta eliminação, não saberei dizê-lo. Certamente Claudel representa de modo eficaz toda uma grande estação da cultura francesa do século XX que alcançou não só níveis altíssimos na literatura e que hoje parece algo antiquada, arqueológica.
Vêm-me à mente nomes como Mauriac, Bernanos, Peguy, Bloy, mas também filósofos como Marcel, Maritain, Mounier, Guitton e a teologia com os grandes franceses como Congar, De Lubac, Danielou. Trata-se de uma estação excepcional cuja herança jaz, mas está como que enterrada pela cinza da indiferença, fenómeno talvez mais insidioso que o ateísmo militante.
Penso na França de hoje que proíbe o véu e o crucifixo e tenta apagar cada marca exterior de religiosidade em nome de uma mal-entendida ideia de laicidade que sabe muito de laicismo e me pergunto: que sucedeu com a lição daqueles grandes espíritos franceses da primeira metade do século XX?
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
O lado pelicano do homem
por Paulo Teixeira Pinto
I. Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar, mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador. Daí resulta que o homem que se dá ao próximo está desde logo a doar uma benfeitoria primeira a si mesmo. E se o fizer com sacrifício próprio isso apenas quer dizer que foi capaz de se dar até para além do último limite. Isto é, aquele que o liberta da derradeira amarra à condição animal.
II. A mãe dos pobres aprendeu, da boca de um moribundo que lhe pendia dos braços, nas miseráveis ruas de Calcutá, que era possível viver como um cão para vir a morrer como um anjo. Por isso ensinou que o sentido único da vida não é outro que não o de dar. Dar quanto? A resposta foi clara: «dar até que doa».
III. Na verdade, quando um homem é capaz de se dar com radicalidade, ou seja, até à raiz, essa atitude resulta do sofrido domínio da vontade sobre o instinto. Mas é aí, nesse preciso instante em que se alcança aquela prevalência, que a capacidade para pensar se funde com a liberdade para dar. E enquanto dura tal momento o homem é-o plenamente, deixando de ser só um animal racional.
IV. Porque não acredito no mito do bom selvagem, tenho uma concepção pessimista do estado humano natural. Não é, evidentemente, a sociedade que perverte o homem, ao invés do que julgava a ingenuidade iluminista. Mas é devido aos outros, mais do que a si próprios, que os homens modernos são animais domesticados e não puros selvagens. Ainda e sempre capazes de todos os horrores, com toda a certeza. Mas também, por vezes, capazes da generosidade. E são estas oportunidades, mesmo que raras, que fazem toda a diferença. Tenho por isso, apesar de tudo, uma atitude optimista perante a vida. Mas mesmo quando procura o bem, o homem só o faz, normalmente, porque foi educado para tal ou porque atendeu a uma inclinação para aquilo que o transcende. Ao contrário do pelicano, a quem a simbologia profana ou sagrada venera pela sua natural apetência para o sacrifício de si em benefício de outrem. Porque quando o pelicano bica a própria carne para dar de comer às crias do seu sangue, não o faz por sacrifício. É assim a sua natureza. E esta é, nessa medida, superior à do bom selvagem que se julga naturalmente bom. Felizmente que algumas vezes o homem também é pelicano.
31-01-2005
I. Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar, mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador. Daí resulta que o homem que se dá ao próximo está desde logo a doar uma benfeitoria primeira a si mesmo. E se o fizer com sacrifício próprio isso apenas quer dizer que foi capaz de se dar até para além do último limite. Isto é, aquele que o liberta da derradeira amarra à condição animal.
II. A mãe dos pobres aprendeu, da boca de um moribundo que lhe pendia dos braços, nas miseráveis ruas de Calcutá, que era possível viver como um cão para vir a morrer como um anjo. Por isso ensinou que o sentido único da vida não é outro que não o de dar. Dar quanto? A resposta foi clara: «dar até que doa».
III. Na verdade, quando um homem é capaz de se dar com radicalidade, ou seja, até à raiz, essa atitude resulta do sofrido domínio da vontade sobre o instinto. Mas é aí, nesse preciso instante em que se alcança aquela prevalência, que a capacidade para pensar se funde com a liberdade para dar. E enquanto dura tal momento o homem é-o plenamente, deixando de ser só um animal racional.
IV. Porque não acredito no mito do bom selvagem, tenho uma concepção pessimista do estado humano natural. Não é, evidentemente, a sociedade que perverte o homem, ao invés do que julgava a ingenuidade iluminista. Mas é devido aos outros, mais do que a si próprios, que os homens modernos são animais domesticados e não puros selvagens. Ainda e sempre capazes de todos os horrores, com toda a certeza. Mas também, por vezes, capazes da generosidade. E são estas oportunidades, mesmo que raras, que fazem toda a diferença. Tenho por isso, apesar de tudo, uma atitude optimista perante a vida. Mas mesmo quando procura o bem, o homem só o faz, normalmente, porque foi educado para tal ou porque atendeu a uma inclinação para aquilo que o transcende. Ao contrário do pelicano, a quem a simbologia profana ou sagrada venera pela sua natural apetência para o sacrifício de si em benefício de outrem. Porque quando o pelicano bica a própria carne para dar de comer às crias do seu sangue, não o faz por sacrifício. É assim a sua natureza. E esta é, nessa medida, superior à do bom selvagem que se julga naturalmente bom. Felizmente que algumas vezes o homem também é pelicano.
31-01-2005
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Homilia DO CARDEAL-PATRIARCA NAS EXÉQUIAS DA IRMÃ LÚCIA
Sé Nova de Coimbra, 15 de Fevereiro de 2005
A morte da irmã Lúcia era inevitável. É um momento de comoção. E até com uma certa surpresa agradável, verificámos que foram poucos os portugueses que lhe ficaram indiferentes. E, no entanto, esta cerimónia solene que estamos a celebrar não é especial porque a irmã Lúcia era especial. Ela é a liturgia da Igreja para um crente que viveu a sua vida procurando seguir o Senhor na fidelidade, percebendo a sua vontade e o seu desígnio, à busca do seu rosto.
E, por isso mesmo, este é talvez um momento privilegiado para percebermos que o que de extraordinário aconteceu na vida desta mulher, se insere na normalidade de uma vocação cristã. Porque aquilo de extraordinário que ao nível da fé e da religiosidade acontece, se não se inserir na normalidade da vocação cristã, corre o risco de não ser verdadeiro.
Tudo começa numa escolha e num chamamento. A fé cristã começa sempre numa eleição de predilecção, numa palavra escutada, numa mensagem de amor consentida e sentida, num desejo de Deus acerca de nós. Começa tudo quando uma experiência do divino se torna tão forte que não a podemos ignorar, tão enraizada na nossa consciência que nem as nossas dúvidas a podem anular. Quando um projecto de Deus é anunciado com tal clareza, só me resta procurar segui-lo e ser-lhe fiel. E toda a vida cristã, para aqueles que procuram ser fiéis a este chamamento, é essa longa espera, essa longa caminhada daquelas virgens fiéis e prudentes, que a parábola do Evangelho nos aponta simbolicamente, e que aguentam – em todas as vicissitudes, em todas as dificuldades, porventura em todas as trevas –, a sua luz acesa à espera que venha o seu Senhor. Até àquele dia – como dizia a primeira leitura do Profeta – em que então, num face a face, serão enxugadas todas as lágrimas, anuladas todas as dores, cumuladas todas as tristezas. E o Profeta não se refere apenas às dores físicas e humanas, que sabemos serem inerentes ao próprio existir humano. Refere-se também às tribulações da fé. Porque esta caminhada de fé é tantas vezes uma caminhada sofrida, experimentada pela dúvida, pela tentação, pela busca. E, sabemos pela história da irmã Lúcia – ela própria o testemunhou nas suas Memórias –, nem ela foi dispensada desse tributo à dor, à obscuridade, à busca aflita da luz de Deus.
Logo numa das primeiras aparições – talvez na segunda, falo de memória –, Lúcia, em nome dos três, pergunta a Nossa Senhora: "E Vocemecê quem é, e o que quer de nós?"
Esta pergunta que dirige a Nossa Senhora, exprime o grito ansioso de todos os crentes, tantas vezes dirigido ao nosso Deus, a Jesus Cristo, a quem entregámos a vida, na profundidade da nossa fé: "E tu quem és, Senhor, e o que queres de mim?" É uma pergunta que tem sempre uma resposta, uma resposta que se vai aprofundando, que se vai radicalizando, que se vai porventura iluminando até àquele dia – que neste momento Lúcia já conhece – em que a resposta será dada definitivamente.
A uma vocação corresponde normalmente uma missão. Deus chama-nos e confia em nós, Deus chama-nos e envia-nos. E na maneira como Lúcia narra nas suas Memórias as aparições de Nossa Senhora, na sua simplicidade de criança, é tão claro que as crianças recebem aquela visita inesperada do Céu, como uma missão, como algo que o Senhor tinha para lhes pedir a elas. Uma missão que tem a ver com a missão da Igreja, que tem a ver com aquele mistério que atravessa a história dos homens, que é um projecto de bondade e de amor transformador para todos quantos se quiserem abrir a ela. Uma missão que tem em comum a própria intuição do Evangelho: "Arrependei-vos e acreditai!" Uma missão que cada um deles exerce à sua maneira.
Um dia, Lúcia perguntou a Nossa Senhora se o Francisco e a Jacinta iam para o Céu. E Nossa Senhora disse-lhes que sim, que os viria buscar muito brevemente para o Céu, mas que a ela lhe pedia que ficasse mais algum tempo, dando-lhe a entender que a sua missão não tinha acabado.
Há uma parte desta missão específica da irmã Lúcia que conhecemos: ela foi a porta-voz, a mensageira das revelações. Francisco era um contemplativo, só gostava de estar calado a adorar o Senhor. Jacinta, na sua emotividade de criança, ficava de tal maneira comovida e possuída pelo que via e ouvia, mas não dizia nada: ofereceu-se. São lindas, as poucas palavras que lhe conhecemos, já em Lisboa, no Hospital da Estefânia, onde entrega a sua vida. Lúcia é sempre quem fala com Nossa Senhora.
Hoje, na liturgia, lemos um texto do Livro do Êxodo, em que Moisés diz a Deus, quando este o envia para enfrentar o Faraó: "Mas eu não sou bom falador. Eu não sei falar." E Deus diz-lhe: "Tu vais e Aarão falará por ti. A missão é tua, mas Aarão falará." Lúcia é aquela que fala, que comunica e que tem de tal maneira isto a peito, como missão, que comunica incansavelmente. Espero que muito brevemente possamos ter acesso, através de publicações bem preparadas para o povo de Deus, a esse manancial imenso de doutrina espiritual na linha da mensagem de Fátima que esta mulher tão simples, mas tão grande de coração, escreveu. Foi uma missão incansável. É uma parte da sua missão que levou para o Céu, no seu coração. Porque a mensagem de Fátima é um desafio à penitência, à conversão e à contemplação. Não foi por acaso que mudou de Ordem Religiosa e foi para o Carmelo. Penso que na última parte da sua vida, assumiu claramente a oração como missão.
Estamos comovidos porque a irmã Lúcia é a irmã Lúcia. Com ela viva, todos os acontecimentos de Fátima eram nossos contemporâneos. A sua morte marca uma fronteira. A partir deste momento, Fátima é um grande Santuário, uma grande mensagem, uma grande tradição espiritual que recebemos deles, que recebemos de gerações e gerações de peregrinos, penitentes e orantes, que tomaram a sério, contra tudo e contra todos, a simplicidade de uma mensagem. Estamos comovidos não tanto porque ela morreu. Estamos comovidos porque hoje, entre Fátima e o Céu, uma nova ponte se estabeleceu.
Termino esta homilia como comecei: a morte de Lúcia comoveu-nos e sensibilizou-nos. Pessoalmente, fui particularmente tocado pelo volume das reacções e mensagens que inesperadamente surgiram de todos os quadrantes. Queria aqui agradecer, em nome da Igreja, a todos aqueles, pessoas e instituições, que me fizeram chegar mensagens escritas, tiveram gestos e tomaram decisões, fizeram declarações em público, manifestaram, cada um à sua maneira, mas todos com grande respeito, que sentiram na morte desta mulher qualquer coisa que tocava Portugal.
E quando uma comunidade nacional é capaz de reconhecer na simplicidade de uma religiosa discreta, mas na grandeza de uma espiritualidade vivida, um símbolo que fala a todos, este é certamente, para nós, um sinal de esperança. Lúcia, hoje junto de Deus, certamente terá perguntado pela última vez a Nossa Senhora: "E Vocemecê o que quer?" Oxalá ela lhe pergunte, não tanto acerca dela, mas que lhe diga: "Mas Vocemecê o que quer deste Portugal, desta terra de Santa Maria?"
Coimbra, 15 de Fevereiro de 2005
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
A morte da irmã Lúcia era inevitável. É um momento de comoção. E até com uma certa surpresa agradável, verificámos que foram poucos os portugueses que lhe ficaram indiferentes. E, no entanto, esta cerimónia solene que estamos a celebrar não é especial porque a irmã Lúcia era especial. Ela é a liturgia da Igreja para um crente que viveu a sua vida procurando seguir o Senhor na fidelidade, percebendo a sua vontade e o seu desígnio, à busca do seu rosto.
E, por isso mesmo, este é talvez um momento privilegiado para percebermos que o que de extraordinário aconteceu na vida desta mulher, se insere na normalidade de uma vocação cristã. Porque aquilo de extraordinário que ao nível da fé e da religiosidade acontece, se não se inserir na normalidade da vocação cristã, corre o risco de não ser verdadeiro.
Tudo começa numa escolha e num chamamento. A fé cristã começa sempre numa eleição de predilecção, numa palavra escutada, numa mensagem de amor consentida e sentida, num desejo de Deus acerca de nós. Começa tudo quando uma experiência do divino se torna tão forte que não a podemos ignorar, tão enraizada na nossa consciência que nem as nossas dúvidas a podem anular. Quando um projecto de Deus é anunciado com tal clareza, só me resta procurar segui-lo e ser-lhe fiel. E toda a vida cristã, para aqueles que procuram ser fiéis a este chamamento, é essa longa espera, essa longa caminhada daquelas virgens fiéis e prudentes, que a parábola do Evangelho nos aponta simbolicamente, e que aguentam – em todas as vicissitudes, em todas as dificuldades, porventura em todas as trevas –, a sua luz acesa à espera que venha o seu Senhor. Até àquele dia – como dizia a primeira leitura do Profeta – em que então, num face a face, serão enxugadas todas as lágrimas, anuladas todas as dores, cumuladas todas as tristezas. E o Profeta não se refere apenas às dores físicas e humanas, que sabemos serem inerentes ao próprio existir humano. Refere-se também às tribulações da fé. Porque esta caminhada de fé é tantas vezes uma caminhada sofrida, experimentada pela dúvida, pela tentação, pela busca. E, sabemos pela história da irmã Lúcia – ela própria o testemunhou nas suas Memórias –, nem ela foi dispensada desse tributo à dor, à obscuridade, à busca aflita da luz de Deus.
Logo numa das primeiras aparições – talvez na segunda, falo de memória –, Lúcia, em nome dos três, pergunta a Nossa Senhora: "E Vocemecê quem é, e o que quer de nós?"
Esta pergunta que dirige a Nossa Senhora, exprime o grito ansioso de todos os crentes, tantas vezes dirigido ao nosso Deus, a Jesus Cristo, a quem entregámos a vida, na profundidade da nossa fé: "E tu quem és, Senhor, e o que queres de mim?" É uma pergunta que tem sempre uma resposta, uma resposta que se vai aprofundando, que se vai radicalizando, que se vai porventura iluminando até àquele dia – que neste momento Lúcia já conhece – em que a resposta será dada definitivamente.
A uma vocação corresponde normalmente uma missão. Deus chama-nos e confia em nós, Deus chama-nos e envia-nos. E na maneira como Lúcia narra nas suas Memórias as aparições de Nossa Senhora, na sua simplicidade de criança, é tão claro que as crianças recebem aquela visita inesperada do Céu, como uma missão, como algo que o Senhor tinha para lhes pedir a elas. Uma missão que tem a ver com a missão da Igreja, que tem a ver com aquele mistério que atravessa a história dos homens, que é um projecto de bondade e de amor transformador para todos quantos se quiserem abrir a ela. Uma missão que tem em comum a própria intuição do Evangelho: "Arrependei-vos e acreditai!" Uma missão que cada um deles exerce à sua maneira.
Um dia, Lúcia perguntou a Nossa Senhora se o Francisco e a Jacinta iam para o Céu. E Nossa Senhora disse-lhes que sim, que os viria buscar muito brevemente para o Céu, mas que a ela lhe pedia que ficasse mais algum tempo, dando-lhe a entender que a sua missão não tinha acabado.
Há uma parte desta missão específica da irmã Lúcia que conhecemos: ela foi a porta-voz, a mensageira das revelações. Francisco era um contemplativo, só gostava de estar calado a adorar o Senhor. Jacinta, na sua emotividade de criança, ficava de tal maneira comovida e possuída pelo que via e ouvia, mas não dizia nada: ofereceu-se. São lindas, as poucas palavras que lhe conhecemos, já em Lisboa, no Hospital da Estefânia, onde entrega a sua vida. Lúcia é sempre quem fala com Nossa Senhora.
Hoje, na liturgia, lemos um texto do Livro do Êxodo, em que Moisés diz a Deus, quando este o envia para enfrentar o Faraó: "Mas eu não sou bom falador. Eu não sei falar." E Deus diz-lhe: "Tu vais e Aarão falará por ti. A missão é tua, mas Aarão falará." Lúcia é aquela que fala, que comunica e que tem de tal maneira isto a peito, como missão, que comunica incansavelmente. Espero que muito brevemente possamos ter acesso, através de publicações bem preparadas para o povo de Deus, a esse manancial imenso de doutrina espiritual na linha da mensagem de Fátima que esta mulher tão simples, mas tão grande de coração, escreveu. Foi uma missão incansável. É uma parte da sua missão que levou para o Céu, no seu coração. Porque a mensagem de Fátima é um desafio à penitência, à conversão e à contemplação. Não foi por acaso que mudou de Ordem Religiosa e foi para o Carmelo. Penso que na última parte da sua vida, assumiu claramente a oração como missão.
Estamos comovidos porque a irmã Lúcia é a irmã Lúcia. Com ela viva, todos os acontecimentos de Fátima eram nossos contemporâneos. A sua morte marca uma fronteira. A partir deste momento, Fátima é um grande Santuário, uma grande mensagem, uma grande tradição espiritual que recebemos deles, que recebemos de gerações e gerações de peregrinos, penitentes e orantes, que tomaram a sério, contra tudo e contra todos, a simplicidade de uma mensagem. Estamos comovidos não tanto porque ela morreu. Estamos comovidos porque hoje, entre Fátima e o Céu, uma nova ponte se estabeleceu.
Termino esta homilia como comecei: a morte de Lúcia comoveu-nos e sensibilizou-nos. Pessoalmente, fui particularmente tocado pelo volume das reacções e mensagens que inesperadamente surgiram de todos os quadrantes. Queria aqui agradecer, em nome da Igreja, a todos aqueles, pessoas e instituições, que me fizeram chegar mensagens escritas, tiveram gestos e tomaram decisões, fizeram declarações em público, manifestaram, cada um à sua maneira, mas todos com grande respeito, que sentiram na morte desta mulher qualquer coisa que tocava Portugal.
E quando uma comunidade nacional é capaz de reconhecer na simplicidade de uma religiosa discreta, mas na grandeza de uma espiritualidade vivida, um símbolo que fala a todos, este é certamente, para nós, um sinal de esperança. Lúcia, hoje junto de Deus, certamente terá perguntado pela última vez a Nossa Senhora: "E Vocemecê o que quer?" Oxalá ela lhe pergunte, não tanto acerca dela, mas que lhe diga: "Mas Vocemecê o que quer deste Portugal, desta terra de Santa Maria?"
Coimbra, 15 de Fevereiro de 2005
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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