DESENVOLVIMENTO E PAZ
por Virgílio de Carvalho
A encíclica "Populorum Progressio" de 1967, do papa Paulo VI, alertou contra graves injúrias à dignidade humana, de que poderiam decorrer tentações de lhes pôr fim pela violência. O que, estando já a dar-se, pode levar muitos crentes a tomá-la por aviso divino. Entre os temas dela, constam os seguintes, cuja realização a actual era da globalização facilita: todo o homem tem o direito de encontrar na Terra o que lhe é necessário, pelo que é bom que aos povos da fome seja facultado o que precisam, na certeza de que tal não será fruto de generosidade dos ricos, mas do direito de todos usufruírem do que também lhes pertence; a actual questão social pede uma acção global de justiça; o Mundo está doente, sendo o seu mal falta de diálogo fraterno; "O desenvolvimento é o novo nome da paz" é a conclusão da encíclica.
A Europa foi pacificada e democratizada com o Plano Marshal de desenvolvimento económico. Já o plano do israelita Shimon Peres, prémio Nobel da Paz, para pôr fim à questão Palestina-Israel, em que este país seria locomotiva de desenvolvimento tecnológico e económico duma federação dos dois e da Jordânia, falhou, mas continua a parecer boa estratégia para evitar perigosas guerras no Médio Oriente e no Mundo.
Lembro-me de, finda a Guerra Fria, se ter falado duma associação não concretizada EUA-URSS - D. Barroso (DB) para desenvolver e pacificar a África Austral. Se DB (incitado por George W. Bush via Tony Blair, e com a promessa já feita por Jacques Chirac de a França ser fiel à OTAN), for eleito presidente da Comissão Europeia, poderá pugnar por uma nova ordem multipolar com a associação América do Norte-UE como pilar vital para equilibrar, desenvolver e pacificar o Mundo. Associação benéfica para a UE e para um Portugal cujo posicionamento central transatlântico, coesivo para o seu fragmentário território quase-arquipelágico, é vital para se desenvolver em segurança.
Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
segunda-feira, julho 12, 2004
sexta-feira, julho 09, 2004
NOTA TRISTE
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Henrique Mendes foi a sepultar no dia 9 de Julho. Tinha-lhe sido diagnosticado cancro um mês antes. Contra o que era a sua maneira de ser, saíu da vida sem se despedir de Portugal e dos amigos que tem espalhados pelo mundo. Não teve tempo. Por isso todos os amigos estão ainda mais desolados, porque a surpresa também destrói.
Não posso dizer que o Henrique Mendes e eu fomos amigos muito próximos. Mas estou em posição de saber que nos respeitávamos e estimávamos. Não me lembro de algum dia ter tomado uma refeição com ele, ao contrário do que, nos saudosos tempos da RINA, no Bairro Alto, sucedeu com Artur Agostinho – que ali ia uma vez por semana jantar com a rapaziada do RECORD, logo se misturando com os comensais diários (uma massa colorida e piadista de gente dos jornais, da rádio, da TV, do teatro, das cantigas, das touradas, das artes, do corpo diplomático, que só a paciência da Rina, a dona da casa, aturava com bonomia). O Artur Agostinho que os revolucionários prenderam alarvemente e empurraram para o exílio no Brasil. Não me lembro sequer de ter tomado café com o Henrique Mendes, como aconteceu com o Pedro Moutinho, outro grande senhor da rádio e TV que os revolucionários sanearam. Ou de termos conversado com um whiskey à frente no SNOB, essa outra praça forte dos jornalistas, como aconteceu com o Mário Meunier e a Luísa Pinho em noites inesquecíveis (e cuja lembrança hoje faz doer, quando penso que o Mário se suicidou em Washington, para onde a abrilada de 1974 o empurrou e onde anos depois chegou o braço comprido e horrendo da intolerância e da injustiça que certos “democratas” praticam).
E no entanto, o Henrique teve dois gestos de grande carinho por mim. Quando soube que eu vinha para Toronto, pediu-me que passasse pela Rádio Renascença, onde voltou a trabalhar depois de ter estado exilado no Canadá durante os quatro anos de maior loucura revolucionária. Para me dizer como era a cúpula desta comunidade portuguesa e me avisar, de modo claro, acerca de dois padres muito infelizes por terem enormes contas a prestar a Deus, já que é tenebroso pecado causar escândalo entre o povo e afastá-lo da sua Igreja por revolta ou desalento. Foi preciosa a informação e pude eu mesma avaliar in loco a extensão do estrago.
Muitos anos depois teve comigo outro gesto de carinho: mandou-me o seu livro, com uma muito afectuosa dedicatória. De vez em quando mandava-me um e-mail com uma graça ou com uma curiosidade.
Era assim o Henrique Mendes. Delicado, bom, cuidadoso com os amigos, sofrido sem se queixar, leal e sensato. E um grande profissional da televisão, um verdadeiro profissional pois que falava um português escorreito, era culto e elegante, não dizia palavrões nem era grosseiro ou vulgar, tratava com toda a cortesia os convidados dos seus programas. Era, em suma, o oposto de vários que trabalham na TV e rádio.
Quando a intolerância de meia dúzia de mentecaptos o empurrou para o exílio com a sua exemplar e talentosa mulher, a actriz Glória de Matos, o Canadá abriu-lhes os braços. Trabalharam ambos muito e muito bem nesta terra. Deixaram bom nome. Por isso pairam acima de intrigas e aleivosias cobardes que a ingratidão sempre gera. Foi um nosso amigo comum que lhes pôs fim ao exílio, o Raúl Solnado. Um socialista. Aponto este pormenor para que quem me lê perceba que já vi e vivi o suficiente para saber que há muita gente boa na esquerda e há muito bastardo à direita. Não quero saber de rótulos como nunca quis saber de partidos. Quero saber de pessoas com carácter, com palavra, com coração.
Temos ainda, o Henrique e eu, outro amigo comum muito querido, o Alfredo Marques da Costa, que por mais de 30 anos foi quadro superior da Canadian Pacific. O Santo Alfredo, como lhe chamam emigrantes, que ele tem ajudado aos milhares.
Posso medir, nesta hora triste, a desolação do Solnado e do Marques da Costa pela que sinto perante este desaparecimento tão rápido do Henrique Mendes.
Que ao menos o Céu nos garanta uma vasta nuvem para a tertúlia da eternidade. Amen.
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Henrique Mendes foi a sepultar no dia 9 de Julho. Tinha-lhe sido diagnosticado cancro um mês antes. Contra o que era a sua maneira de ser, saíu da vida sem se despedir de Portugal e dos amigos que tem espalhados pelo mundo. Não teve tempo. Por isso todos os amigos estão ainda mais desolados, porque a surpresa também destrói.
Não posso dizer que o Henrique Mendes e eu fomos amigos muito próximos. Mas estou em posição de saber que nos respeitávamos e estimávamos. Não me lembro de algum dia ter tomado uma refeição com ele, ao contrário do que, nos saudosos tempos da RINA, no Bairro Alto, sucedeu com Artur Agostinho – que ali ia uma vez por semana jantar com a rapaziada do RECORD, logo se misturando com os comensais diários (uma massa colorida e piadista de gente dos jornais, da rádio, da TV, do teatro, das cantigas, das touradas, das artes, do corpo diplomático, que só a paciência da Rina, a dona da casa, aturava com bonomia). O Artur Agostinho que os revolucionários prenderam alarvemente e empurraram para o exílio no Brasil. Não me lembro sequer de ter tomado café com o Henrique Mendes, como aconteceu com o Pedro Moutinho, outro grande senhor da rádio e TV que os revolucionários sanearam. Ou de termos conversado com um whiskey à frente no SNOB, essa outra praça forte dos jornalistas, como aconteceu com o Mário Meunier e a Luísa Pinho em noites inesquecíveis (e cuja lembrança hoje faz doer, quando penso que o Mário se suicidou em Washington, para onde a abrilada de 1974 o empurrou e onde anos depois chegou o braço comprido e horrendo da intolerância e da injustiça que certos “democratas” praticam).
E no entanto, o Henrique teve dois gestos de grande carinho por mim. Quando soube que eu vinha para Toronto, pediu-me que passasse pela Rádio Renascença, onde voltou a trabalhar depois de ter estado exilado no Canadá durante os quatro anos de maior loucura revolucionária. Para me dizer como era a cúpula desta comunidade portuguesa e me avisar, de modo claro, acerca de dois padres muito infelizes por terem enormes contas a prestar a Deus, já que é tenebroso pecado causar escândalo entre o povo e afastá-lo da sua Igreja por revolta ou desalento. Foi preciosa a informação e pude eu mesma avaliar in loco a extensão do estrago.
Muitos anos depois teve comigo outro gesto de carinho: mandou-me o seu livro, com uma muito afectuosa dedicatória. De vez em quando mandava-me um e-mail com uma graça ou com uma curiosidade.
Era assim o Henrique Mendes. Delicado, bom, cuidadoso com os amigos, sofrido sem se queixar, leal e sensato. E um grande profissional da televisão, um verdadeiro profissional pois que falava um português escorreito, era culto e elegante, não dizia palavrões nem era grosseiro ou vulgar, tratava com toda a cortesia os convidados dos seus programas. Era, em suma, o oposto de vários que trabalham na TV e rádio.
Quando a intolerância de meia dúzia de mentecaptos o empurrou para o exílio com a sua exemplar e talentosa mulher, a actriz Glória de Matos, o Canadá abriu-lhes os braços. Trabalharam ambos muito e muito bem nesta terra. Deixaram bom nome. Por isso pairam acima de intrigas e aleivosias cobardes que a ingratidão sempre gera. Foi um nosso amigo comum que lhes pôs fim ao exílio, o Raúl Solnado. Um socialista. Aponto este pormenor para que quem me lê perceba que já vi e vivi o suficiente para saber que há muita gente boa na esquerda e há muito bastardo à direita. Não quero saber de rótulos como nunca quis saber de partidos. Quero saber de pessoas com carácter, com palavra, com coração.
Temos ainda, o Henrique e eu, outro amigo comum muito querido, o Alfredo Marques da Costa, que por mais de 30 anos foi quadro superior da Canadian Pacific. O Santo Alfredo, como lhe chamam emigrantes, que ele tem ajudado aos milhares.
Posso medir, nesta hora triste, a desolação do Solnado e do Marques da Costa pela que sinto perante este desaparecimento tão rápido do Henrique Mendes.
Que ao menos o Céu nos garanta uma vasta nuvem para a tertúlia da eternidade. Amen.
quinta-feira, julho 08, 2004
AO CUIDADO DO DR. JORGE SAMPAIO...
por João Titta Maurício*
Exmo. Senhor Dr. Jorge Sampaio,
Nestes tempos de transição entre Governos (e que alguns querem apelidar de “crise”), muitas serão as solicitações e preocupações que, pelo cargo que ocupa, lhe são exigidas. Por isso, hesitei antes de atrever-me chamar-lhe à atenção para um conjunto de considerações e de ousar pedir-lhe que, rapidamente, obvie à propagação de “soluções” que, acredito, V. Exa. (como eu e muitos) considera erradas.
O nosso modelo governativo-constitucional é semi-presidencialista. Que se distingue dos sistemas parlamentares (onde a legitimidade do Governo decorre exclusivamente da vontade política do Parlamento, e ao Chefe de Estado não são cometidas competências que lhe permitam obstaculizar a escolha), e do sistema presidencial (onde há uma confusão entre a chefia do Estado e o exercício do poder Executivo, cabendo o poder Legislativo ao Parlamento, o qual não pode por aquele ser dissolvido).
Como saberá V. Exa., ambas as opções possuem virtudes e defeitos.
A opção parlamentar exclui o Chefe de Estado do processo de selecção do Governo, reservando-lhe meras tarefas protocolares de sancionar a decisão. Porém, porque o Chefe de Estado não pode, por motu proprio, dissolver o Parlamento, se neste não se encontrar uma solução governativa maioritária, estável e coerente, só o bom-senso do líder do partido mais votado poderá resolver esse “não regular funcionamento das instituições”!
Desse mal não sofre o sistema presidencial, pois a coincidência na mesma pessoa da chefia do Estado e do Governo impossibilita-o! Porém, como as competências típicas do poder legislativo por decreto são muito diminutas e limitadas, o sistema só funciona se houver compatibilidade e coerência entre a Presidência e a maioria parlamentar! Em caso de conflito, há impasse: nem o Presidente pode dissolver o Parlamento, nem este pode demitir o órgão que exerce o poder executivo... porque é o Presidente.
O sistema semi-presidencialista português procurou, racionalizando, obviar a estes problemas.
Faz o Governo depender de uma dupla legitimidade política: perante o PR e perante a AR. No primeiro, limitou o poder fiscalizador formal do PR à verificação da existência do «necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas». Perante a AR apenas se exige que esta não rejeite o programa do Governo ou não aprove uma moção de censura. Parece-nos que V. Exa. concordará – e, se sim, para evitar os males pretendidos pelo extremismo populista da esquerda, deve disso dar rápido conhecimento ao País –, que o sistema constitucional português opta claramente pela estabilidade. Que elege como decisiva a protecção à possibilidade de o país ter uma estável solução de Governo.
Mais: para obviar aos impasses típicos do sistema parlamentar com multipartidarismo, a CRP dotou o órgão PR do poder excepcional de dissolução da AR. Excepcional, porque o seu uso não pode ser banalizado pela frequência. Excepcional, porque sujeito à verificação de condições de circunstância, pois, salvo melhor opinião, se a demissão do Governo (órgão que não possui legitimação popular directa) está condicionada à verificação do «necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas», como compreender que fosse irrestrito o exercício do poder de dissolução da AR (órgão dotado de uma legitimidade que advém directamente do Povo)?
Por isso, manifesto a V. Exa. as minhas mais profundas dúvidas sobre a opinião daqueles que afirmam que, na presente situação política e de acordo com o actual sistema político, nomear um novo Governo ou dissolver a AR são opções que, nos pratos da balança, se encontram em equilíbrio de legitimidade jurídico-constitucional.
Aliás, a dissolução da AR sempre seria entendida como a “presidencialização” do regime e a comprovação da teoria de que a presidência seria um instrumento de tutela política ilegítima que a esquerda usaria para impedir o centro-direita e a direita de governarem segundo o apoio eleitoral que obtêm nas urnas!
E se o fundamento invocado (nem que ao de leve) fosse que em eleições legislativas se escolhem Primeiros-Ministros e não deputados, entrar-se-ia então no reino da “fulanização política” e a vitória da demagogia seria total! Seria a derrota da Democracia representativa (onde as decisões do Povo são tomadas a um tempo e o governo da “coisa pública” é por todos consentido e respeitado durante o período do mandato legítimo)! Seria retirar à AR o poder de co-participar na escolha e legitimação do Governo. Seria esvaziar as competências dos Deputados (os representantes do Povo). Seria subverter todo o nosso sistema constitucional. E seria a vitória da demagogia patrocinada pela extrema-esquerda e acolhida como boa por uma anacrónica esquerda soixante-huitard, que (juntos) procuram que as mais fundamentais decisões do país passem a ser encontradas com recurso à mais recente (e conveniente) medição em sondagens ou décibeis!
Senhor Dr. Jorge Sampaio, julgo que partilhará comigo a convicção de que os poderes presidenciais de excepção (como o é a dissolução da AR) são para serem usados... excepcionalmente! E não acredito que ache justificação de excepcionalidade bastante o haver uma maioria governativa, estável e coerente.
Uma maioria legítima, estável e coerente e que só compriu metade do tempo do mandato que o Povo lhe conferiu. Até porque julgo saber, que V. Exa. sabe, que todos os portugueses sabem... que, devido à situação de pântano que herdou, a actual maioria só pode cumprir a primeira parte das responsabilidades que assumiu ao não recusar, como outros, o governo de Portugal. E tenho a certeza que V. Exa., um conhecido adepto do nosso Sporting, não gostaria de ser recordado como o árbitro que decidiu em benefício do infractor...
Sinceramente, não creio que dê crédito à leviandade política de alguns que sugerem que V. Exa. , por razões pessoais e sem se verificar uma situação de excepcionalidade extrema, pode recusar um nome indicado pelo partido mais votado e pela maioria parlamentar que se propõe apoiar o elenco e o programa que por este fôr presente! Àqueles acredito que V. Exa. já terá esclarecido que o PR não tem um programa político alternativo à maioria parlamentar. E que tal transformaria o sistema num “quase modelo de chanceler” (onde a legitimidade do PM decorre apenas da confiança política do Chefe de Estado).
Também lhes deverá chamar à atenção que, se o Chefe de Estado recusasse a indigitação do nome indicado pela maioria, seria a ele que seria imputada a responsabilidade pela crise política decorrente. E que, se a maioria fosse mantida ou ampliasse o seu score eleitoral, não era às “pitonisas” mas ao PR himself, a quem a maioria sempre deveria pedir que analisasse e concluísse o que o Povo havia dito, e agisse em conformidade com o comportamento de humildade democrática que para tais ocasiões é exigido!
* titamau@netcabo.pt
Prof. Universitário
por João Titta Maurício*
Exmo. Senhor Dr. Jorge Sampaio,
Nestes tempos de transição entre Governos (e que alguns querem apelidar de “crise”), muitas serão as solicitações e preocupações que, pelo cargo que ocupa, lhe são exigidas. Por isso, hesitei antes de atrever-me chamar-lhe à atenção para um conjunto de considerações e de ousar pedir-lhe que, rapidamente, obvie à propagação de “soluções” que, acredito, V. Exa. (como eu e muitos) considera erradas.
O nosso modelo governativo-constitucional é semi-presidencialista. Que se distingue dos sistemas parlamentares (onde a legitimidade do Governo decorre exclusivamente da vontade política do Parlamento, e ao Chefe de Estado não são cometidas competências que lhe permitam obstaculizar a escolha), e do sistema presidencial (onde há uma confusão entre a chefia do Estado e o exercício do poder Executivo, cabendo o poder Legislativo ao Parlamento, o qual não pode por aquele ser dissolvido).
Como saberá V. Exa., ambas as opções possuem virtudes e defeitos.
A opção parlamentar exclui o Chefe de Estado do processo de selecção do Governo, reservando-lhe meras tarefas protocolares de sancionar a decisão. Porém, porque o Chefe de Estado não pode, por motu proprio, dissolver o Parlamento, se neste não se encontrar uma solução governativa maioritária, estável e coerente, só o bom-senso do líder do partido mais votado poderá resolver esse “não regular funcionamento das instituições”!
Desse mal não sofre o sistema presidencial, pois a coincidência na mesma pessoa da chefia do Estado e do Governo impossibilita-o! Porém, como as competências típicas do poder legislativo por decreto são muito diminutas e limitadas, o sistema só funciona se houver compatibilidade e coerência entre a Presidência e a maioria parlamentar! Em caso de conflito, há impasse: nem o Presidente pode dissolver o Parlamento, nem este pode demitir o órgão que exerce o poder executivo... porque é o Presidente.
O sistema semi-presidencialista português procurou, racionalizando, obviar a estes problemas.
Faz o Governo depender de uma dupla legitimidade política: perante o PR e perante a AR. No primeiro, limitou o poder fiscalizador formal do PR à verificação da existência do «necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas». Perante a AR apenas se exige que esta não rejeite o programa do Governo ou não aprove uma moção de censura. Parece-nos que V. Exa. concordará – e, se sim, para evitar os males pretendidos pelo extremismo populista da esquerda, deve disso dar rápido conhecimento ao País –, que o sistema constitucional português opta claramente pela estabilidade. Que elege como decisiva a protecção à possibilidade de o país ter uma estável solução de Governo.
Mais: para obviar aos impasses típicos do sistema parlamentar com multipartidarismo, a CRP dotou o órgão PR do poder excepcional de dissolução da AR. Excepcional, porque o seu uso não pode ser banalizado pela frequência. Excepcional, porque sujeito à verificação de condições de circunstância, pois, salvo melhor opinião, se a demissão do Governo (órgão que não possui legitimação popular directa) está condicionada à verificação do «necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas», como compreender que fosse irrestrito o exercício do poder de dissolução da AR (órgão dotado de uma legitimidade que advém directamente do Povo)?
Por isso, manifesto a V. Exa. as minhas mais profundas dúvidas sobre a opinião daqueles que afirmam que, na presente situação política e de acordo com o actual sistema político, nomear um novo Governo ou dissolver a AR são opções que, nos pratos da balança, se encontram em equilíbrio de legitimidade jurídico-constitucional.
Aliás, a dissolução da AR sempre seria entendida como a “presidencialização” do regime e a comprovação da teoria de que a presidência seria um instrumento de tutela política ilegítima que a esquerda usaria para impedir o centro-direita e a direita de governarem segundo o apoio eleitoral que obtêm nas urnas!
E se o fundamento invocado (nem que ao de leve) fosse que em eleições legislativas se escolhem Primeiros-Ministros e não deputados, entrar-se-ia então no reino da “fulanização política” e a vitória da demagogia seria total! Seria a derrota da Democracia representativa (onde as decisões do Povo são tomadas a um tempo e o governo da “coisa pública” é por todos consentido e respeitado durante o período do mandato legítimo)! Seria retirar à AR o poder de co-participar na escolha e legitimação do Governo. Seria esvaziar as competências dos Deputados (os representantes do Povo). Seria subverter todo o nosso sistema constitucional. E seria a vitória da demagogia patrocinada pela extrema-esquerda e acolhida como boa por uma anacrónica esquerda soixante-huitard, que (juntos) procuram que as mais fundamentais decisões do país passem a ser encontradas com recurso à mais recente (e conveniente) medição em sondagens ou décibeis!
Senhor Dr. Jorge Sampaio, julgo que partilhará comigo a convicção de que os poderes presidenciais de excepção (como o é a dissolução da AR) são para serem usados... excepcionalmente! E não acredito que ache justificação de excepcionalidade bastante o haver uma maioria governativa, estável e coerente.
Uma maioria legítima, estável e coerente e que só compriu metade do tempo do mandato que o Povo lhe conferiu. Até porque julgo saber, que V. Exa. sabe, que todos os portugueses sabem... que, devido à situação de pântano que herdou, a actual maioria só pode cumprir a primeira parte das responsabilidades que assumiu ao não recusar, como outros, o governo de Portugal. E tenho a certeza que V. Exa., um conhecido adepto do nosso Sporting, não gostaria de ser recordado como o árbitro que decidiu em benefício do infractor...
Sinceramente, não creio que dê crédito à leviandade política de alguns que sugerem que V. Exa. , por razões pessoais e sem se verificar uma situação de excepcionalidade extrema, pode recusar um nome indicado pelo partido mais votado e pela maioria parlamentar que se propõe apoiar o elenco e o programa que por este fôr presente! Àqueles acredito que V. Exa. já terá esclarecido que o PR não tem um programa político alternativo à maioria parlamentar. E que tal transformaria o sistema num “quase modelo de chanceler” (onde a legitimidade do PM decorre apenas da confiança política do Chefe de Estado).
Também lhes deverá chamar à atenção que, se o Chefe de Estado recusasse a indigitação do nome indicado pela maioria, seria a ele que seria imputada a responsabilidade pela crise política decorrente. E que, se a maioria fosse mantida ou ampliasse o seu score eleitoral, não era às “pitonisas” mas ao PR himself, a quem a maioria sempre deveria pedir que analisasse e concluísse o que o Povo havia dito, e agisse em conformidade com o comportamento de humildade democrática que para tais ocasiões é exigido!
* titamau@netcabo.pt
Prof. Universitário
terça-feira, julho 06, 2004
DO ORÁCULO DA POLIS
Por Paulo Teixeira Pinto
As perguntas difíceis são as que concitam mais respostas. Assim também os maiores desafios são os que reclamam os homens melhores.
O maior segredo político de todos os tempos oculta-se sob uma única palavra: confiança. Mas o que pode levar alguém a confiar em outrem ao ponto de o escolher para mandar em si próprio?
Só há uma boa a razão para eleger um líder: conquistar e exercer o poder. Tudo o resto que venha a ser alcançado poderá ser muito meritório mas é evidentemente irrelevante para este jogo. E quem falha no essencial também não serve para o acessório.
Política é a distância que vai da mera gestão da conveniência pessoal ou tribal à real opção pelo bem comum. Assente isto, haja ânimo. Sem esquecer que também na política o exemplo é a melhor de entre todas as lições.
Há duas categorias de problemas que não devem interessar à política: aqueles que o tempo resolve e aqueles que nem o tempo resolve.
A política é talvez a única actividade humana em que a estupidez é tão ou mais perigosa e nociva do que a maldade.
Primeiro devem identificar-se os adversários políticos. Só depois se podem reconhecer os amigos. Porque só estes sabem que persistir significa fazer o que é devido. E que lealdade não quer dizer que sim a tudo.
No fundo comum que habita na universalidade dos homens, regista-se o facto de cada um se acreditar como diferente de todos os outros. Mas esta realidade óbvia esconde-se no labirinto das impossibilidades em que uns e outros sonhamos.
É na sua concepção antropológica, ou seja, na imagem que o homem político tem de si mesmo, que se funda o núcleo da missão que ele se propõe dedicar a toda a sociedade.
Nunca há guerras boas. Mas todas começam por ter as suas causas. Que, aos olhos de quem as empreende, as tornam úteis ou necessárias. Para alguns poderão até ser justas. Mas são sempre más. Especialmente quando se perde a memória do porquê de terem começado.
A geopolítica perde sempre quando o que está em causa é mais do que a terra, a riqueza ou a força.
Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem político é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador.
Sem dúvida que as paixões aquecem os fundos do coração. Mas toldam os contrastes da visão. E o brilho da compreensão. Na política e também no resto.
Nenhuma revisão de regime ou mudança de sistema poderá mais do que o respeito pelos adversários contribuir para o restabelecimento de uma credibilidade mínima da política.
Ensina a natureza humana que também a política goza de uma face dupla – enquanto uns se comportam bem porque acreditam que o bem existe, e aceitam-no como princípio natural, outros só o fazem se e enquanto não puderem escolher o mal.
Na política só um conselho é útil: não abrandar nunca o exercício do que se é suposto dever fazer, nem por mau tempo ou má sorte. Mesmo com o óbice da inconveniência ou a dor da contestação. Porque os compromissos estão para os interesses como as consequências para as causas.
Assim como as convicções de cada um não podem ser um dogma para os demais, também uma criatura sem convicções seria como uma palavra sem letras.
Consta da própria definição das regras do jogo político que não há nunca empates. Só há dois resultados possíveis: perder ou ganhar. E o que se ganha é sempre algo que a prazo, por natureza, estará também inelutavelmente perdido - o poder.
Nada há de mais transitivo do que a sublimação da glória efémera. Quando se trata do poder só uma inocência comovente ou uma ambição doente conseguem ignorar esta precariedade.
Caminho recomendado: em vez do desvio das dificuldades e adversidades óbvias, que qualquer um sabe dizer onde estão, seguir directamente contra tais obstáculos.
Quando a matriz do que está em causa é inconciliável, só a mera coexistência pacífica pode ser erigida em ambição cimeira. Mas esta não é ainda a paz desejável. E, no entanto, tal requisito, que fica aquém do desejo, permanece para além do provável.
Há concepções políticas tão úteis como um relógio parado – embora este pelo menos esteja certo duas vezes por dia.
Nem sempre se pode ter razão. Os erros são uma fatalidade. Mas em política deve sempre saber-se o que se quer e só querer o que se sabe ou pode fazer. As hesitações ou inflexões não são sinal de ponderação mas quase sempre da sua falta.
O exercício do poder também se aprende - havendo bom senso.
Até à data, nenhum político terá ficado conhecido como formiga ou abelha, em símbolo perene da sua natureza laboriosa. Mas muitos são reconhecidos enquanto membros de um género. Desde os cães de guarda, pela protecção que conferem aos seus donos, às víboras, pelo veneno que destilam e pela forma sinuosa como se movem. E também há camaleões, dadas as mudanças de tonalidade conferidas pelo ambiente onde se escondem. Sem falar dos falcões e das pombas. Mas o caso mais estranho é o de uns que se transformam em quase-ciclóstomos, bichos sem coluna.
Por razões com aparência de algum mistério, a imagem do poder surge invariavelmente associada ao cavalo. Seja qual for o perfil dos detentores desse poder ou o teor das suas políticas. A expressão é sempre correcta e, consequentemente, nunca muda – “o cavalo do poder”. É pacífico que não resultaria bem ouvir confessar a ambição de montar o “burro do poder” ou o “porco do poder”.
A realidade política nunca pode ser a preto e branco – porque o branco não existe, pois que é o conjunto de todas as cores.
A verdade da política não reside em nenhuma imagem – está na velocidade que lhes dá movimento.
É louvável viver com e para a política. É censurável sobreviver só da política.
Também na política não há nada mais difícil do que a simplicidade.
A mais nobre das dimensões a que a política pode almejar é aquela mesma que radica na defesa do Homem enquanto tal. Porque não pode haver em nenhuma agenda política algum tópico mais relevante do que a pessoa humana.
Cada dia, uma acção útil para todos, todos os dias.
Dilema permanente: pode ser conveniente o que é desnecessário; mas o necessário pode ser altamente inconveniente. Posto isto, à questão sobre o que se ganha com o procedimento de optar pelas atitudes necessárias, a resposta certa é: nada, absolutamente nada, custe o que custar, a não ser o respeito devido aos outros mas também a si próprio.
Não há políticos bons que não sejam pessoas de bem. E estas não mandam dizer por terceiros o que não podem dizer por si, nem se escondem sob o silêncio ou o anonimato, porque têm rosto e nome próprios.
Os resultados das eleições frequentemente cominam a condenação de muitas promessas. Em resultado desta sentença, está sempre a aumentar o clube dos políticos que têm um grande futuro atrás de si.
As evidências não se declaram – ou se reconhecem, ou não. Mesmos nos dias pouco propícios a tais pronunciamentos de carácter e de simples lucidez.
Como em qualquer actividade humana, em política tudo pode ser copiado. Tudo, menos o talento, a sensibilidade e a vontade.
Hoje, a informação pode ser de todos. A imaginação permanecerá para sempre como exclusivo de uns raros.
Quem não souber conhecer o sofrimento solitário poderá provavelmente sobreviver por si, mas não saberá certamente viver solidário para com os outros.
É nos princípios que residem os fins últimos da Política.
Por Paulo Teixeira Pinto
As perguntas difíceis são as que concitam mais respostas. Assim também os maiores desafios são os que reclamam os homens melhores.
O maior segredo político de todos os tempos oculta-se sob uma única palavra: confiança. Mas o que pode levar alguém a confiar em outrem ao ponto de o escolher para mandar em si próprio?
Só há uma boa a razão para eleger um líder: conquistar e exercer o poder. Tudo o resto que venha a ser alcançado poderá ser muito meritório mas é evidentemente irrelevante para este jogo. E quem falha no essencial também não serve para o acessório.
Política é a distância que vai da mera gestão da conveniência pessoal ou tribal à real opção pelo bem comum. Assente isto, haja ânimo. Sem esquecer que também na política o exemplo é a melhor de entre todas as lições.
Há duas categorias de problemas que não devem interessar à política: aqueles que o tempo resolve e aqueles que nem o tempo resolve.
A política é talvez a única actividade humana em que a estupidez é tão ou mais perigosa e nociva do que a maldade.
Primeiro devem identificar-se os adversários políticos. Só depois se podem reconhecer os amigos. Porque só estes sabem que persistir significa fazer o que é devido. E que lealdade não quer dizer que sim a tudo.
No fundo comum que habita na universalidade dos homens, regista-se o facto de cada um se acreditar como diferente de todos os outros. Mas esta realidade óbvia esconde-se no labirinto das impossibilidades em que uns e outros sonhamos.
É na sua concepção antropológica, ou seja, na imagem que o homem político tem de si mesmo, que se funda o núcleo da missão que ele se propõe dedicar a toda a sociedade.
Nunca há guerras boas. Mas todas começam por ter as suas causas. Que, aos olhos de quem as empreende, as tornam úteis ou necessárias. Para alguns poderão até ser justas. Mas são sempre más. Especialmente quando se perde a memória do porquê de terem começado.
A geopolítica perde sempre quando o que está em causa é mais do que a terra, a riqueza ou a força.
Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem político é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador.
Sem dúvida que as paixões aquecem os fundos do coração. Mas toldam os contrastes da visão. E o brilho da compreensão. Na política e também no resto.
Nenhuma revisão de regime ou mudança de sistema poderá mais do que o respeito pelos adversários contribuir para o restabelecimento de uma credibilidade mínima da política.
Ensina a natureza humana que também a política goza de uma face dupla – enquanto uns se comportam bem porque acreditam que o bem existe, e aceitam-no como princípio natural, outros só o fazem se e enquanto não puderem escolher o mal.
Na política só um conselho é útil: não abrandar nunca o exercício do que se é suposto dever fazer, nem por mau tempo ou má sorte. Mesmo com o óbice da inconveniência ou a dor da contestação. Porque os compromissos estão para os interesses como as consequências para as causas.
Assim como as convicções de cada um não podem ser um dogma para os demais, também uma criatura sem convicções seria como uma palavra sem letras.
Consta da própria definição das regras do jogo político que não há nunca empates. Só há dois resultados possíveis: perder ou ganhar. E o que se ganha é sempre algo que a prazo, por natureza, estará também inelutavelmente perdido - o poder.
Nada há de mais transitivo do que a sublimação da glória efémera. Quando se trata do poder só uma inocência comovente ou uma ambição doente conseguem ignorar esta precariedade.
Caminho recomendado: em vez do desvio das dificuldades e adversidades óbvias, que qualquer um sabe dizer onde estão, seguir directamente contra tais obstáculos.
Quando a matriz do que está em causa é inconciliável, só a mera coexistência pacífica pode ser erigida em ambição cimeira. Mas esta não é ainda a paz desejável. E, no entanto, tal requisito, que fica aquém do desejo, permanece para além do provável.
Há concepções políticas tão úteis como um relógio parado – embora este pelo menos esteja certo duas vezes por dia.
Nem sempre se pode ter razão. Os erros são uma fatalidade. Mas em política deve sempre saber-se o que se quer e só querer o que se sabe ou pode fazer. As hesitações ou inflexões não são sinal de ponderação mas quase sempre da sua falta.
O exercício do poder também se aprende - havendo bom senso.
Até à data, nenhum político terá ficado conhecido como formiga ou abelha, em símbolo perene da sua natureza laboriosa. Mas muitos são reconhecidos enquanto membros de um género. Desde os cães de guarda, pela protecção que conferem aos seus donos, às víboras, pelo veneno que destilam e pela forma sinuosa como se movem. E também há camaleões, dadas as mudanças de tonalidade conferidas pelo ambiente onde se escondem. Sem falar dos falcões e das pombas. Mas o caso mais estranho é o de uns que se transformam em quase-ciclóstomos, bichos sem coluna.
Por razões com aparência de algum mistério, a imagem do poder surge invariavelmente associada ao cavalo. Seja qual for o perfil dos detentores desse poder ou o teor das suas políticas. A expressão é sempre correcta e, consequentemente, nunca muda – “o cavalo do poder”. É pacífico que não resultaria bem ouvir confessar a ambição de montar o “burro do poder” ou o “porco do poder”.
A realidade política nunca pode ser a preto e branco – porque o branco não existe, pois que é o conjunto de todas as cores.
A verdade da política não reside em nenhuma imagem – está na velocidade que lhes dá movimento.
É louvável viver com e para a política. É censurável sobreviver só da política.
Também na política não há nada mais difícil do que a simplicidade.
A mais nobre das dimensões a que a política pode almejar é aquela mesma que radica na defesa do Homem enquanto tal. Porque não pode haver em nenhuma agenda política algum tópico mais relevante do que a pessoa humana.
Cada dia, uma acção útil para todos, todos os dias.
Dilema permanente: pode ser conveniente o que é desnecessário; mas o necessário pode ser altamente inconveniente. Posto isto, à questão sobre o que se ganha com o procedimento de optar pelas atitudes necessárias, a resposta certa é: nada, absolutamente nada, custe o que custar, a não ser o respeito devido aos outros mas também a si próprio.
Não há políticos bons que não sejam pessoas de bem. E estas não mandam dizer por terceiros o que não podem dizer por si, nem se escondem sob o silêncio ou o anonimato, porque têm rosto e nome próprios.
Os resultados das eleições frequentemente cominam a condenação de muitas promessas. Em resultado desta sentença, está sempre a aumentar o clube dos políticos que têm um grande futuro atrás de si.
As evidências não se declaram – ou se reconhecem, ou não. Mesmos nos dias pouco propícios a tais pronunciamentos de carácter e de simples lucidez.
Como em qualquer actividade humana, em política tudo pode ser copiado. Tudo, menos o talento, a sensibilidade e a vontade.
Hoje, a informação pode ser de todos. A imaginação permanecerá para sempre como exclusivo de uns raros.
Quem não souber conhecer o sofrimento solitário poderá provavelmente sobreviver por si, mas não saberá certamente viver solidário para com os outros.
É nos princípios que residem os fins últimos da Política.
segunda-feira, julho 05, 2004
O LADO PELICANO DO HOMEM
Por Paulo Teixeira Pinto
I. Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador. Daí resulta que o homem que se dá ao próximo está desde logo a doar uma benfeitoria primeira a si mesmo. E se o fizer com sacrifício próprio isso apenas quer dizer que foi capaz de se dar até para além do último limite. Isto é, aquele que o liberta da derradeira amarra à condição animal.
II. A mãe dos pobres aprendeu, da boca de um moribundo que lhe pendia dos braços, nas miseráveis ruas de Calcutá, que era possível viver como um cão para vir a morrer como um anjo. Por isso ensinou que o sentido único da vida não é outro que não o de dar. Dar quanto? A resposta foi clara: “dar até que doa”.
III. Na verdade, quando um homem é capaz de se dar com radicalidade, ou seja, até à raiz, essa atitude resulta do sofrido domínio da vontade sobre o instinto. Mas é aí, nesse preciso instante em que se alcança aquela prevalência, que a capacidade para pensar se funde com a liberdade para dar. E enquanto dura tal momento o homem é-o plenamente, deixando de ser só um animal racional.
IV. Porque não acredito no mito do bom selvagem, tenho uma concepção pessimista do estado humano natural. Não é, evidentemente, a sociedade que perverte o homem, ao invés do que julgava a ingenuidade iluminista. Mas é devido aos outros, mais do que a si próprios, que os homens modernos são animais domesticados e não puros selvagens. Ainda e sempre capazes de todos os horrores, com toda a certeza. Mas também, por vezes, capazes da generosidade. E são estas oportunidades, mesmo que raras, que fazem toda a diferença. Tenho por isso, apesar de tudo, uma atitude optimista perante a vida.
V. Mas mesmo quando procura o bem, o homem só o faz, normalmente, porque foi educado para tal ou porque atendeu a uma inclinação para aquilo que o transcende. Ao contrário do pelicano, a quem a simbologia profana ou sagrada venera pela sua natural apetência para o sacrifício de si em benefício de outrem. Porque quando o pelicano bica a própria carne para dar de comer às crias do seu sangue, não o faz por sacrifício. É assim a sua natureza. E esta é, nessa medida, superior à do bom selvagem que se julga naturalmente bom.
Por Paulo Teixeira Pinto
I. Aquilo que mais distingue o homem não é apenas a sua capacidade para pensar mas também a sua liberdade para dar. Logo, o homem é tanto mais humano quanto mais capaz for de, pela sua vontade livre, ultrapassar a condição bestial que o aprisiona como predador. Daí resulta que o homem que se dá ao próximo está desde logo a doar uma benfeitoria primeira a si mesmo. E se o fizer com sacrifício próprio isso apenas quer dizer que foi capaz de se dar até para além do último limite. Isto é, aquele que o liberta da derradeira amarra à condição animal.
II. A mãe dos pobres aprendeu, da boca de um moribundo que lhe pendia dos braços, nas miseráveis ruas de Calcutá, que era possível viver como um cão para vir a morrer como um anjo. Por isso ensinou que o sentido único da vida não é outro que não o de dar. Dar quanto? A resposta foi clara: “dar até que doa”.
III. Na verdade, quando um homem é capaz de se dar com radicalidade, ou seja, até à raiz, essa atitude resulta do sofrido domínio da vontade sobre o instinto. Mas é aí, nesse preciso instante em que se alcança aquela prevalência, que a capacidade para pensar se funde com a liberdade para dar. E enquanto dura tal momento o homem é-o plenamente, deixando de ser só um animal racional.
IV. Porque não acredito no mito do bom selvagem, tenho uma concepção pessimista do estado humano natural. Não é, evidentemente, a sociedade que perverte o homem, ao invés do que julgava a ingenuidade iluminista. Mas é devido aos outros, mais do que a si próprios, que os homens modernos são animais domesticados e não puros selvagens. Ainda e sempre capazes de todos os horrores, com toda a certeza. Mas também, por vezes, capazes da generosidade. E são estas oportunidades, mesmo que raras, que fazem toda a diferença. Tenho por isso, apesar de tudo, uma atitude optimista perante a vida.
V. Mas mesmo quando procura o bem, o homem só o faz, normalmente, porque foi educado para tal ou porque atendeu a uma inclinação para aquilo que o transcende. Ao contrário do pelicano, a quem a simbologia profana ou sagrada venera pela sua natural apetência para o sacrifício de si em benefício de outrem. Porque quando o pelicano bica a própria carne para dar de comer às crias do seu sangue, não o faz por sacrifício. É assim a sua natureza. E esta é, nessa medida, superior à do bom selvagem que se julga naturalmente bom.
domingo, julho 04, 2004
DE PORTUGAL AO SANTANAL
Por José Adelino Maltez
Depois da ilusão de chegarmos ao céu, voltámos ao purgatório, e corremos o risco do inferno, neste day after de um Euro 2004, onde, apesar de tudo, Barroso, já sem Durão, mas com José Manuel, conseguiu vencer os luxemburgueses, através de uma táctica, mais chinesa do que brasileira, aproveitando a janela de oportunidade dessa coligação negativa que gerou a falta de comparência dos grandes e a ilusão dos vitorinos. Isto é, sem assumir a agressividade balofa dos pretensos tomba-gigantes, e mostrando um confuciano sorriso de plástico, quando estava a ser violentado, acabou por ir, de derrota em derrota, até à vitória final. Foi ele que foi! Não fomos nós, que não passamos de insignes ficantes.
Neste dia seguinte, os tais nós que não soubemos cultivar o espírito da Maratona que marca os donos do Olimpo, vamos, agora, ter que conjugar os nomes de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, procurando saber se o árbitro constitucional vai, ou não, adiar o inevitável jogo eleitoral. Porque, depois do fado, futebol, e fátima do Ancien Régime, com Amália, Eusébio e Salazar, ter sido, brevemente, substituído por Nelly Furtado, Filipão Scolari e Figo agarrado a uma imagem da Senhora de Fátima, apenas desejo que não se caia no original da monarquia napolitana, onde os três efes, eram, afinal, feste, frumento, forca...
Ora, se não subscrevo os comentários de José Pacheco Pereira sobre o actual presidente do PSD, nem por isso simpatizo com a solução da cadeira do poder que ameaça partir-nos a cabeça, sem cheque de compensação e com o risco dos cobradores do fraque. Apesar de nada me mover pessoalmente contra o edil lisboeta, habitual semeador de palmeiras na Figueira e de buracos na Rotunda, não posso deixar de reconhecer que ele não passa de uma ilusão, dado tratar-se de mera consequência do actual paralelograma de forças vivas que nos enreda. Apesar de lhe reconhecer inteligência, intuição, faro político e inegáveis capacidades comunicativas, bem como franca originalidade, considero que ele pode sul-americanizar a nossa democracia, misturando o estilo de Carlos Menem com algo de Color de Melo.
Se o presidente Sampaio, virando rainha de Inglaterra, permitir que esse modelo de direita sem princípios, sem futuro e sem moral assuma a liderança do país, desconfio que será facilmente domada uma direita sociológica ávida de forças motrizes que, em nome da acção, desprezará o pensamento e os valores.
Pedro Santana Lopes, produto de um PPD profundo e histórico, revela a originalidade de quem assenta na rede da aristocracia partidária local, num aparelhismo que vem de baixo para cima e não das habituais nomenclaturas aparelhísticas dos barões centrais. Sendo mais homem de terreno que de secretaria, assente no vitalismo predador dos jotas, é natural que tenha sido imediatamente estimulado por Alberto João Jardim, Luís Filipe Menezes e Pinto da Costa. Apenas faltou Avelino Ferreira Torres e Fátima Felgueiras e quem o convidou para director da Amostra, sucedendo a Paulo Portas.
Mais grave foi que tenham vindo a público os apoios de formas inorgânicas da recente união dos interesses económicos, desse patronato da economia mística, sempre ávido de feitores que sejam capazes de controlar a sede de justiça dos povos, dando-lhes circo e a ilusão de pão e luxo, de acordo com o ritmo desta sociedade de casino.
Com efeito, neste ambiente de utilitarismo que Cavaco Silva semeou, proclamando que tem razão quem vence, torna-se grave que as encenações do Estado-Espectáculo acabem por prevalecer e que o Portugal político possa cair na tentação de Vale e Azevedo, face a este crescendo do indiferentismo e da apatia, aliado ao assustador desenvolvimento da corrupção e do clientelismo.
Apenas espero que um presidente eleito por sufrágio directo e universal não queira transformar-se num venerando manequim não fardado, como Carmona. Não me apetece ver grego, admitindo cavalos de Tróia na cidade. Prefiro resistir, estar de acordo comigo mesmo, ainda que esteja em desacordo com a maioria. Não é por só haver doentes no mundo que a saúde deixa de ser um bem...
Por José Adelino Maltez
Depois da ilusão de chegarmos ao céu, voltámos ao purgatório, e corremos o risco do inferno, neste day after de um Euro 2004, onde, apesar de tudo, Barroso, já sem Durão, mas com José Manuel, conseguiu vencer os luxemburgueses, através de uma táctica, mais chinesa do que brasileira, aproveitando a janela de oportunidade dessa coligação negativa que gerou a falta de comparência dos grandes e a ilusão dos vitorinos. Isto é, sem assumir a agressividade balofa dos pretensos tomba-gigantes, e mostrando um confuciano sorriso de plástico, quando estava a ser violentado, acabou por ir, de derrota em derrota, até à vitória final. Foi ele que foi! Não fomos nós, que não passamos de insignes ficantes.
Neste dia seguinte, os tais nós que não soubemos cultivar o espírito da Maratona que marca os donos do Olimpo, vamos, agora, ter que conjugar os nomes de Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, procurando saber se o árbitro constitucional vai, ou não, adiar o inevitável jogo eleitoral. Porque, depois do fado, futebol, e fátima do Ancien Régime, com Amália, Eusébio e Salazar, ter sido, brevemente, substituído por Nelly Furtado, Filipão Scolari e Figo agarrado a uma imagem da Senhora de Fátima, apenas desejo que não se caia no original da monarquia napolitana, onde os três efes, eram, afinal, feste, frumento, forca...
Ora, se não subscrevo os comentários de José Pacheco Pereira sobre o actual presidente do PSD, nem por isso simpatizo com a solução da cadeira do poder que ameaça partir-nos a cabeça, sem cheque de compensação e com o risco dos cobradores do fraque. Apesar de nada me mover pessoalmente contra o edil lisboeta, habitual semeador de palmeiras na Figueira e de buracos na Rotunda, não posso deixar de reconhecer que ele não passa de uma ilusão, dado tratar-se de mera consequência do actual paralelograma de forças vivas que nos enreda. Apesar de lhe reconhecer inteligência, intuição, faro político e inegáveis capacidades comunicativas, bem como franca originalidade, considero que ele pode sul-americanizar a nossa democracia, misturando o estilo de Carlos Menem com algo de Color de Melo.
Se o presidente Sampaio, virando rainha de Inglaterra, permitir que esse modelo de direita sem princípios, sem futuro e sem moral assuma a liderança do país, desconfio que será facilmente domada uma direita sociológica ávida de forças motrizes que, em nome da acção, desprezará o pensamento e os valores.
Pedro Santana Lopes, produto de um PPD profundo e histórico, revela a originalidade de quem assenta na rede da aristocracia partidária local, num aparelhismo que vem de baixo para cima e não das habituais nomenclaturas aparelhísticas dos barões centrais. Sendo mais homem de terreno que de secretaria, assente no vitalismo predador dos jotas, é natural que tenha sido imediatamente estimulado por Alberto João Jardim, Luís Filipe Menezes e Pinto da Costa. Apenas faltou Avelino Ferreira Torres e Fátima Felgueiras e quem o convidou para director da Amostra, sucedendo a Paulo Portas.
Mais grave foi que tenham vindo a público os apoios de formas inorgânicas da recente união dos interesses económicos, desse patronato da economia mística, sempre ávido de feitores que sejam capazes de controlar a sede de justiça dos povos, dando-lhes circo e a ilusão de pão e luxo, de acordo com o ritmo desta sociedade de casino.
Com efeito, neste ambiente de utilitarismo que Cavaco Silva semeou, proclamando que tem razão quem vence, torna-se grave que as encenações do Estado-Espectáculo acabem por prevalecer e que o Portugal político possa cair na tentação de Vale e Azevedo, face a este crescendo do indiferentismo e da apatia, aliado ao assustador desenvolvimento da corrupção e do clientelismo.
Apenas espero que um presidente eleito por sufrágio directo e universal não queira transformar-se num venerando manequim não fardado, como Carmona. Não me apetece ver grego, admitindo cavalos de Tróia na cidade. Prefiro resistir, estar de acordo comigo mesmo, ainda que esteja em desacordo com a maioria. Não é por só haver doentes no mundo que a saúde deixa de ser um bem...
sábado, julho 03, 2004
O BÚZIO DE CÓS
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho 95
Sophia de Mello Breyner Andresen
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho 95
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, julho 01, 2004
O DESAFIO
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Nunca escrevi sobre futebol. Não vou ao futebol e nem o sigo na televisão ou muito menos ouço os relatos na rádio, em sonolentas tardes de Domingo. Não sei distinguir um centro de um fora de jogo. Só sei o que é um golo que é para se ganhar ou perder. Quero que ganhe Portugal (ou o Sporting...), é evidente. Mais nada.
Mas hoje escrevo. Com estes triunfos nacionais, endeusando atletas do pontapé na bola para a meter na tenda de rede, diante da qual está um fulano, cheio de angústia antes do penalty, alguma gente há, “superior às outras”, que desdenha as alturas a que chegou, no mundo, tal prática tão pouco interessante e profunda. É apenas um recreio popular, sem grande valor (apesar de manusear milhões...). Enfim, circo. Uma distracção para a plebe que não é exemplo a dar à juventude que sobe. Ser “estrela” não é meta de vida que se aconselhe a ninguém. O reverso da medalha que acompanha o “estrelato” mediático, sabendo nós a curta vida útil do atleta, pode ser terrível, com problemas de alcoolismo, depressão ou droga. Felizmente há o Figo e o Victor Baía que ajudam as crianças em perigo. Estes gestos que muitos tomam como propaganda (ah! A inveja...), aliás pegados a todas as figuras públicas mas que chamam tecnicamente de “promoção” como para os detergentes, são sempre, no entanto, gestos úteis e generosos.
Mas aqui a verdade é outra. Por menos que me interesse o futebol, há características suas, aliás semelhantes às de muitos outros desportos, que são exemplos a dar, urgentemente, à nossa juventude, a todas as juventudes e não só...
Em primeiro lugar, vem à tona da fala, o treino. Só o que esta palavra revela de disciplina, esforço, persistência, valorização pessoal, verdade (não vale a dopagem!). Vem depois, em campo, a necessidade de espírito de equipa. Já se cá sabe que uma equipa formada só por “estrelas” não leva a sítio nenhum. Logo, a humildade.
É certo que esta mão-cheia de qualidades se requerem para uma finalidade, por tanta gente considerada menor... Ou seja consiste em meter mais vezes a bola na baliza do adversário do que na nossa e ganhar o jogo. Estou a lembrar-me dos gregos que tanto glorificavam os seus atletas (Píndaro e C.ia tão bem traduzido, agora, para português). O jogo não é uma distracção vulgar pois até serve de locus philosophiae a alguns filósofos que sobre ele dissertaram, desde apontando a recriação da eternidade (o vai-vem do balouço infantil...) como pensa Gadamer até ao domínio necessário da violência social, sempre latente entre os homens, transpondo-a para uma actividade lúdica, inofensiva, opinião mais corriqueira mas nem por isso menos verdadeira.
E depois o desafio que é a meta da coragem. Nem sempre estes desafios são... Ora! Viva Portugaaaaaal !
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Nunca escrevi sobre futebol. Não vou ao futebol e nem o sigo na televisão ou muito menos ouço os relatos na rádio, em sonolentas tardes de Domingo. Não sei distinguir um centro de um fora de jogo. Só sei o que é um golo que é para se ganhar ou perder. Quero que ganhe Portugal (ou o Sporting...), é evidente. Mais nada.
Mas hoje escrevo. Com estes triunfos nacionais, endeusando atletas do pontapé na bola para a meter na tenda de rede, diante da qual está um fulano, cheio de angústia antes do penalty, alguma gente há, “superior às outras”, que desdenha as alturas a que chegou, no mundo, tal prática tão pouco interessante e profunda. É apenas um recreio popular, sem grande valor (apesar de manusear milhões...). Enfim, circo. Uma distracção para a plebe que não é exemplo a dar à juventude que sobe. Ser “estrela” não é meta de vida que se aconselhe a ninguém. O reverso da medalha que acompanha o “estrelato” mediático, sabendo nós a curta vida útil do atleta, pode ser terrível, com problemas de alcoolismo, depressão ou droga. Felizmente há o Figo e o Victor Baía que ajudam as crianças em perigo. Estes gestos que muitos tomam como propaganda (ah! A inveja...), aliás pegados a todas as figuras públicas mas que chamam tecnicamente de “promoção” como para os detergentes, são sempre, no entanto, gestos úteis e generosos.
Mas aqui a verdade é outra. Por menos que me interesse o futebol, há características suas, aliás semelhantes às de muitos outros desportos, que são exemplos a dar, urgentemente, à nossa juventude, a todas as juventudes e não só...
Em primeiro lugar, vem à tona da fala, o treino. Só o que esta palavra revela de disciplina, esforço, persistência, valorização pessoal, verdade (não vale a dopagem!). Vem depois, em campo, a necessidade de espírito de equipa. Já se cá sabe que uma equipa formada só por “estrelas” não leva a sítio nenhum. Logo, a humildade.
É certo que esta mão-cheia de qualidades se requerem para uma finalidade, por tanta gente considerada menor... Ou seja consiste em meter mais vezes a bola na baliza do adversário do que na nossa e ganhar o jogo. Estou a lembrar-me dos gregos que tanto glorificavam os seus atletas (Píndaro e C.ia tão bem traduzido, agora, para português). O jogo não é uma distracção vulgar pois até serve de locus philosophiae a alguns filósofos que sobre ele dissertaram, desde apontando a recriação da eternidade (o vai-vem do balouço infantil...) como pensa Gadamer até ao domínio necessário da violência social, sempre latente entre os homens, transpondo-a para uma actividade lúdica, inofensiva, opinião mais corriqueira mas nem por isso menos verdadeira.
E depois o desafio que é a meta da coragem. Nem sempre estes desafios são... Ora! Viva Portugaaaaaal !
quarta-feira, junho 30, 2004
EXAME POLÍTICO
Por Paulo Teixeira Pinto
Não há política sem acção. Mas agir sem pensamento não é política. Como não é político o pensamento inconsequente.
A política exige, por conseguinte, acção. Mas antes desta deve vir a intenção.
Ora, se o homem político deve sempre pensar para agir, e não deve nunca agir sem pensar, é importante que o faça nas duas dimensões de si. Quer dizer, que procure saber em primeiro lugar e com exactidão o que defende para os outros, para o apresentar como ideal comum. Em nome do qual exercerá pessoalmente, ou pretenderá exercer, um poder democrático, ou seja, em nome de todos. Esta é a correspondência da sua única face visível, daquilo a que se poderia apelidar como o lado extra da política.
Porém, também subsiste uma face oculta, aquela que só o próprio agente político poderá conhecer. Desde que a procure. Com esforço dorido e sinceridade crua. Esta dimensão íntima, escondida, é o lado intrapolítico.
A forma de o descobrir passa por cada sujeito político se sujeitar a um escrutínio interior. A um auto-exame. Que poderá passar por responder a si mesmo às questões que de seguida se enunciam:
Eu e os Outros – a acção política
· Quem vão ser os beneficiários desta acção ou omissão? E quem é que vai ser prejudicado?
· O que é que sucede se não for adoptada esta decisão?
· Qual é a finalidade essencial que se pretende visar com esta concreta iniciativa?
· Foram devidamente ponderadas todas as eventuais alternativas possíveis à minha escolha?
· Que custos indirectos pode provocar esta opção?
· Como se enquadra esta medida no programa a que se deve submeter? Representa a quebra ou desvio de algum compromisso eleitoral?
Eu e Eu – a intenção política
· Acredito em tudo o que faço?
· Lembro-me todos os dias de que os assuntos mais importantes devem ter prioridade sobre os mais urgentes?
· As minhas opções podem causar alguma dificuldade comprometedora para outro membro da equipa a que pertenço?
· Tenho a certeza, ou pelo menos um razoável grau de convencimento, de que posso cumprir tudo o que anuncio ou prometo?
· Faço sempre o que é preciso, mesmo quando com o custo da minha popularidade pessoal?
· Tenho sempre presente, antes de decidir, que o poder não é meu, e que tenho estrita obrigação de o usar o melhor possível, em nome e no interesse daqueles que mo delegaram?
· O critério principal que motiva todas as minhas acções ou omissões é o da convicção que publicamente proclamo ou o da minha conveniência pessoal que escondo?
· Sinto-me realmente capacitado para exercer com dignidade e lealdade as responsabilidades que me foram confiadas?
· Persigo a excelência? Procuro constantemente um grau superlativo de cumprimento ou contento-me com a mediocridade que se pareça com suficiência?
· Penso com regularidade no que fariam no meu lugar aqueles que intimamente sei serem melhores do que eu?
· Quando nomeio alguém escolho por regra aqueles que penso serem os mais aptos e qualificados, com carácter e independência intelectual? Ou prefiro aqueles a quem devo ajudas e favores, ou que me são elogiosos e incondicionais?
· Sou submisso e dócil com tudo quanto me dizem aqueles que têm mais poder do que eu, ainda que não concorde com as suas posições ou comportamentos, apenas para gerir a minha carreira?
· Trato com desdém e aparente superioridade aqueles que dependem directamente de mim?
· Insinuei ou repeti algo que sei não ser verdadeiro com o intuito de atacar um adversário político ou pessoal?
· Fui cobarde e pedi para ser citado sob anonimato?
· Prefiro proteger a minha imagem mediática com prejuízo da solidariedade que devo a outros?
· Acuso ou denuncio falsamente aqueles que concorrem directamente comigo para discussão de algum cargo?
· Percebo que quando duas pessoas concordam absolutamente em tudo é porque uma delas ou não pensa ou está a fingir?
· Respeito sempre a diversidade de juízos, mesmo quando injustamente críticos das minhas decisões? Obrigo-me a respeitar que tudo quanto não constitui uma certeza objectiva é falível e, portanto, livremente opinável?
· Sei porque é que poder e a glória são verdadeiramente diferentes e não apenas nomes distintos da mesma realidade?
· Acredito sinceramente que o poder não é um fim em si? E que nenhum fim político justifica quaisquer meios que atentem contra os princípios?
· Mereci conquistar o poder?
· Estou sempre preparado para considerar cada momento como o último em que posso deter o poder? E estou pronto para o abandonar sem tristeza ou rancor?
Por Paulo Teixeira Pinto
Não há política sem acção. Mas agir sem pensamento não é política. Como não é político o pensamento inconsequente.
A política exige, por conseguinte, acção. Mas antes desta deve vir a intenção.
Ora, se o homem político deve sempre pensar para agir, e não deve nunca agir sem pensar, é importante que o faça nas duas dimensões de si. Quer dizer, que procure saber em primeiro lugar e com exactidão o que defende para os outros, para o apresentar como ideal comum. Em nome do qual exercerá pessoalmente, ou pretenderá exercer, um poder democrático, ou seja, em nome de todos. Esta é a correspondência da sua única face visível, daquilo a que se poderia apelidar como o lado extra da política.
Porém, também subsiste uma face oculta, aquela que só o próprio agente político poderá conhecer. Desde que a procure. Com esforço dorido e sinceridade crua. Esta dimensão íntima, escondida, é o lado intrapolítico.
A forma de o descobrir passa por cada sujeito político se sujeitar a um escrutínio interior. A um auto-exame. Que poderá passar por responder a si mesmo às questões que de seguida se enunciam:
Eu e os Outros – a acção política
· Quem vão ser os beneficiários desta acção ou omissão? E quem é que vai ser prejudicado?
· O que é que sucede se não for adoptada esta decisão?
· Qual é a finalidade essencial que se pretende visar com esta concreta iniciativa?
· Foram devidamente ponderadas todas as eventuais alternativas possíveis à minha escolha?
· Que custos indirectos pode provocar esta opção?
· Como se enquadra esta medida no programa a que se deve submeter? Representa a quebra ou desvio de algum compromisso eleitoral?
Eu e Eu – a intenção política
· Acredito em tudo o que faço?
· Lembro-me todos os dias de que os assuntos mais importantes devem ter prioridade sobre os mais urgentes?
· As minhas opções podem causar alguma dificuldade comprometedora para outro membro da equipa a que pertenço?
· Tenho a certeza, ou pelo menos um razoável grau de convencimento, de que posso cumprir tudo o que anuncio ou prometo?
· Faço sempre o que é preciso, mesmo quando com o custo da minha popularidade pessoal?
· Tenho sempre presente, antes de decidir, que o poder não é meu, e que tenho estrita obrigação de o usar o melhor possível, em nome e no interesse daqueles que mo delegaram?
· O critério principal que motiva todas as minhas acções ou omissões é o da convicção que publicamente proclamo ou o da minha conveniência pessoal que escondo?
· Sinto-me realmente capacitado para exercer com dignidade e lealdade as responsabilidades que me foram confiadas?
· Persigo a excelência? Procuro constantemente um grau superlativo de cumprimento ou contento-me com a mediocridade que se pareça com suficiência?
· Penso com regularidade no que fariam no meu lugar aqueles que intimamente sei serem melhores do que eu?
· Quando nomeio alguém escolho por regra aqueles que penso serem os mais aptos e qualificados, com carácter e independência intelectual? Ou prefiro aqueles a quem devo ajudas e favores, ou que me são elogiosos e incondicionais?
· Sou submisso e dócil com tudo quanto me dizem aqueles que têm mais poder do que eu, ainda que não concorde com as suas posições ou comportamentos, apenas para gerir a minha carreira?
· Trato com desdém e aparente superioridade aqueles que dependem directamente de mim?
· Insinuei ou repeti algo que sei não ser verdadeiro com o intuito de atacar um adversário político ou pessoal?
· Fui cobarde e pedi para ser citado sob anonimato?
· Prefiro proteger a minha imagem mediática com prejuízo da solidariedade que devo a outros?
· Acuso ou denuncio falsamente aqueles que concorrem directamente comigo para discussão de algum cargo?
· Percebo que quando duas pessoas concordam absolutamente em tudo é porque uma delas ou não pensa ou está a fingir?
· Respeito sempre a diversidade de juízos, mesmo quando injustamente críticos das minhas decisões? Obrigo-me a respeitar que tudo quanto não constitui uma certeza objectiva é falível e, portanto, livremente opinável?
· Sei porque é que poder e a glória são verdadeiramente diferentes e não apenas nomes distintos da mesma realidade?
· Acredito sinceramente que o poder não é um fim em si? E que nenhum fim político justifica quaisquer meios que atentem contra os princípios?
· Mereci conquistar o poder?
· Estou sempre preparado para considerar cada momento como o último em que posso deter o poder? E estou pronto para o abandonar sem tristeza ou rancor?
terça-feira, junho 29, 2004
A CASTIGADA MINORIA
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
A partir de hoje o Canadá tem um governo federal minoritário do Partido Liberal (centro esquerda), liderado por Paul Martin – primeiro ministro em exercício depois da retirada, por limite de idade, de Jean Chrétien. Fica com 136 assentos no parlamento, enquanto os conservadores têm 94, os socialistas (New Democratic Party) 23 e os separatistas do Quebeque 55.
Não é possível uma aliança com os conservadores ou os separatistas, devido a diferendos ideológicos intransponíveis, pelo que se adivinham alianças pontuais com os socialistas, que estes logicamente aproveitarão para apoiarem as causas sociais que são um investimento no seu futuro político.
Todo este cenário era previsível. Paul Martin, o ministro das Finanças do governo Chrétien que acabou com o défice e passou a registar um superavit substancial por anos seguidos, fez a vida difícil a Chrétien por ambição de chegar a primeiro ministro, querendo seguir as pisadas do pai, que foi o ministro e autor da legislação do sistema de saúde, inteiramente estadual, que ainda perdura. Foi visivelmente pouco correcto com Chrétien, um homem de Trudeau com grandes serviços prestados ao país, alcandorou-se a presidente do Partido Liberal e deixou na opinião pública a imagem de uma encapotada traição. Acresce que, sendo o multimilionário dono de uma próspera empresa de transportes marítimos, se viu confrontado com relatos de imprensa que davam essa companhia como fugindo ao fisco por meio de negócios fixos em paraísos fiscais das Caraíbas. Jean Chrétien retirou-se, magoado mas digno, e Paul Martin seguiu-se-lhe no cargo interinamente por acordo da Governadora Geral, Adrienne Clarckson, que representa no terreno a chefe do estado, a Raínha Isabel II de Inglaterra. Um ano depois, a auditora geral do Canadá (que responde à Coroa e não aos governos ou partidos) descobriu, ao peritar as contas públicas, que o governo federal tinha propiciado uma hemorragia de quase 200 milhões de dólares em benefício de agências de publicidade do Quebeque, muitas delas conotadas com os separatistas. O país, pouco habituado a corrupções deste jaez, acordou estremunhado mas depressa recuperou o sangue frio para exigir o completo apuramento do que se passou. A investigação continua, a cargo de um juíz nomeado pela Coroa. Foi então que Paul Martin cometeu dois erros tão primários que só se podem atribuir ao seu intenso desejo de ser primeiro ministro e à sua já provecta idade: negou ter tido conhecimento do assunto, muito embora fosse o responsável pela pasta das Finanças, e não teve o aprumo de guardar o pedido de eleições gerais à Governadora apenas para depois de toda a investigação estar terminada.
Se tivesse procedido de forma mais correcta, talvez viesse a ser o chefe do governo daqui a um ano. Assim, o eleitorado penalizou-o com um governo minoritário que, visivelmente, não vai durar muito para além do termo da investigação criminal. E entretanto fica refém dos socialistas, sob marcação cerrada de um Partido Conservador seguidista da administração americana e dum partido separatista, dirigido e manipulado por um antigo militante comunista, que vive no sonho de fazer do Quebeque uma república à cubana.
A única novidade destas eleições é a vitória do primeiro português que vai sentar-se no parlamento federal, Mário Silva, um açoreano que há vários anos tem vindo a ser vereador da câmara de Toronto. Ganhou confortavelmente a dois candidatos também portugueses, no círculo torontino de Davenport: Rui Pires, socialista, e Teresa Rodrigues, conservadora. É uma estreia honrosa para a comunidade portuguesa, embora esta não espere muito dum político pouco experiente que cairá quando o governo minoritário caír.
Apesar deste contratempo e de o Canadá ser um país difícil de governar, pela sua extensão desmesurada, os seus invernos glaciais, os seus 33 milhões de habitantes oriundos de 160 países, o país não está em crise. Tem a sorte de contar com uma máquina administrativa montada peça a peça, desde a fundação, pelos ingleses – com tudo o que isto significa de rigor, frugalidade e simplicidade. Os políticos podem desatinar, mas a máquina fica firme, o país continua a ser um dos que tem melhor qualidade de vida, um dos mais prestáveis nas causas humanitárias de que o mundo sofre, um dos mais livres e respeitadores da pessoa humana, mas um dos menos obedientes ao credo da admnistração dos Estados Unidos da América. Quando Bush convocou o Canadá para a aventura do Iraque, com a mesma ligeireza e desplante com que acaba de proclamar que apoia a entrada da Turquia na União Europeia, o governo Chrétien deu-lhe um completo e redondo não, mostrou-lhe que os Estados Unidos não são donos do mundo. Blair, um político da Commonwealth, enguliu em seco.
Enfim, a vida continua. Os deputados sabem o que os eleitores querem. Porque escolheram a profissão de políticos têm de fazer o que os eleitores querem. E nós, os que votámos na segunda-feira, deixamos essas tarefas aos nossos delegados por termos outras coisas a fazer. Por cá não se come e bebe e respira política 365 dias no ano, 24 horas por dia. Trabalha-se. E por isso se pedem severas contas aos políticos que não trabalham ou que trabalham mal.
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
A partir de hoje o Canadá tem um governo federal minoritário do Partido Liberal (centro esquerda), liderado por Paul Martin – primeiro ministro em exercício depois da retirada, por limite de idade, de Jean Chrétien. Fica com 136 assentos no parlamento, enquanto os conservadores têm 94, os socialistas (New Democratic Party) 23 e os separatistas do Quebeque 55.
Não é possível uma aliança com os conservadores ou os separatistas, devido a diferendos ideológicos intransponíveis, pelo que se adivinham alianças pontuais com os socialistas, que estes logicamente aproveitarão para apoiarem as causas sociais que são um investimento no seu futuro político.
Todo este cenário era previsível. Paul Martin, o ministro das Finanças do governo Chrétien que acabou com o défice e passou a registar um superavit substancial por anos seguidos, fez a vida difícil a Chrétien por ambição de chegar a primeiro ministro, querendo seguir as pisadas do pai, que foi o ministro e autor da legislação do sistema de saúde, inteiramente estadual, que ainda perdura. Foi visivelmente pouco correcto com Chrétien, um homem de Trudeau com grandes serviços prestados ao país, alcandorou-se a presidente do Partido Liberal e deixou na opinião pública a imagem de uma encapotada traição. Acresce que, sendo o multimilionário dono de uma próspera empresa de transportes marítimos, se viu confrontado com relatos de imprensa que davam essa companhia como fugindo ao fisco por meio de negócios fixos em paraísos fiscais das Caraíbas. Jean Chrétien retirou-se, magoado mas digno, e Paul Martin seguiu-se-lhe no cargo interinamente por acordo da Governadora Geral, Adrienne Clarckson, que representa no terreno a chefe do estado, a Raínha Isabel II de Inglaterra. Um ano depois, a auditora geral do Canadá (que responde à Coroa e não aos governos ou partidos) descobriu, ao peritar as contas públicas, que o governo federal tinha propiciado uma hemorragia de quase 200 milhões de dólares em benefício de agências de publicidade do Quebeque, muitas delas conotadas com os separatistas. O país, pouco habituado a corrupções deste jaez, acordou estremunhado mas depressa recuperou o sangue frio para exigir o completo apuramento do que se passou. A investigação continua, a cargo de um juíz nomeado pela Coroa. Foi então que Paul Martin cometeu dois erros tão primários que só se podem atribuir ao seu intenso desejo de ser primeiro ministro e à sua já provecta idade: negou ter tido conhecimento do assunto, muito embora fosse o responsável pela pasta das Finanças, e não teve o aprumo de guardar o pedido de eleições gerais à Governadora apenas para depois de toda a investigação estar terminada.
Se tivesse procedido de forma mais correcta, talvez viesse a ser o chefe do governo daqui a um ano. Assim, o eleitorado penalizou-o com um governo minoritário que, visivelmente, não vai durar muito para além do termo da investigação criminal. E entretanto fica refém dos socialistas, sob marcação cerrada de um Partido Conservador seguidista da administração americana e dum partido separatista, dirigido e manipulado por um antigo militante comunista, que vive no sonho de fazer do Quebeque uma república à cubana.
A única novidade destas eleições é a vitória do primeiro português que vai sentar-se no parlamento federal, Mário Silva, um açoreano que há vários anos tem vindo a ser vereador da câmara de Toronto. Ganhou confortavelmente a dois candidatos também portugueses, no círculo torontino de Davenport: Rui Pires, socialista, e Teresa Rodrigues, conservadora. É uma estreia honrosa para a comunidade portuguesa, embora esta não espere muito dum político pouco experiente que cairá quando o governo minoritário caír.
Apesar deste contratempo e de o Canadá ser um país difícil de governar, pela sua extensão desmesurada, os seus invernos glaciais, os seus 33 milhões de habitantes oriundos de 160 países, o país não está em crise. Tem a sorte de contar com uma máquina administrativa montada peça a peça, desde a fundação, pelos ingleses – com tudo o que isto significa de rigor, frugalidade e simplicidade. Os políticos podem desatinar, mas a máquina fica firme, o país continua a ser um dos que tem melhor qualidade de vida, um dos mais prestáveis nas causas humanitárias de que o mundo sofre, um dos mais livres e respeitadores da pessoa humana, mas um dos menos obedientes ao credo da admnistração dos Estados Unidos da América. Quando Bush convocou o Canadá para a aventura do Iraque, com a mesma ligeireza e desplante com que acaba de proclamar que apoia a entrada da Turquia na União Europeia, o governo Chrétien deu-lhe um completo e redondo não, mostrou-lhe que os Estados Unidos não são donos do mundo. Blair, um político da Commonwealth, enguliu em seco.
Enfim, a vida continua. Os deputados sabem o que os eleitores querem. Porque escolheram a profissão de políticos têm de fazer o que os eleitores querem. E nós, os que votámos na segunda-feira, deixamos essas tarefas aos nossos delegados por termos outras coisas a fazer. Por cá não se come e bebe e respira política 365 dias no ano, 24 horas por dia. Trabalha-se. E por isso se pedem severas contas aos políticos que não trabalham ou que trabalham mal.
segunda-feira, junho 28, 2004
PORTUGUESES DE SEQUEIRO
Por Virgílio de Carvalho*
Portugueses de sequeiro são os que, por falha do nosso ensino, não dão ao mar (que Unamuno disse ser o que faz Portugal, isto é, que nos dá individualidade de país numa Península em que o resto são nações apenas com identidade), o valor de "cluster" (vantagem competitiva) vital, a ter de figurar na Constituição como "interesse nacional". Isto a par de uma UE tipo EFTA simétrica da NAFTA da América do Norte (Canadá, EUA, México) como componentes de uma nova OTAN a ser elemento fundamental de uma nova ordem internacional (NOI) multipolar. Uma NOI para que o Mundo já se dirige devido à visível incapacidade dos EUA para imporem outra coisa à China (a maior importadora de armas), e à Rússia (a maior exportadora delas), que manterá Portugal marítimo país central, não periférico. Para não falar da recente proposta do PR do Brasil, em Pequim, para uma associação de grandes potências emergentes, a incluir também a Índia e a África do Sul (e decerto o Brasil), a terem lugar no Conselho de Segurança da ONU.
Nós somos tão marítimos e centrais na OTAN como a velha aliada Inglaterra que, por isso, é mais soberana e influente numa UE continentalista que possa virar anti-OTAN . Mas à Espanha histórica anti-atlantista convém-lhe um Portugal "periférico" de sequeiro para explorar o nosso "cluster" mar com um megaeroporto em Badajoz, um TGV de Madrid a Sines e o aeroporto de Lisboa a ir para a Ota, visando participar no grande projecto mundial de megaeroportos e portos de águas profundas à nossa custa. Surpreendidos com a elevação dos petrolíferos Golfo da Guiné e mar de Angola, a vital alternativa ao petróleo do Médio Oriente, e de S.Tomé e Príncipe a uma espécie de Diego Garcia "ianque" para a sua protecção, resta-nos a nós, e ao Brasil, procurar cooperar com os EUA para, ao menos, salvar a lusófona "civilização de afecto " de que falava Agustina Bessa-Luís. E passar a dedicar a necessária atenção a Cabo Verde.
* Comandante da Marinha Portuguesa, Professor convidado na Universidade Lusófona.
Por Virgílio de Carvalho*
Portugueses de sequeiro são os que, por falha do nosso ensino, não dão ao mar (que Unamuno disse ser o que faz Portugal, isto é, que nos dá individualidade de país numa Península em que o resto são nações apenas com identidade), o valor de "cluster" (vantagem competitiva) vital, a ter de figurar na Constituição como "interesse nacional". Isto a par de uma UE tipo EFTA simétrica da NAFTA da América do Norte (Canadá, EUA, México) como componentes de uma nova OTAN a ser elemento fundamental de uma nova ordem internacional (NOI) multipolar. Uma NOI para que o Mundo já se dirige devido à visível incapacidade dos EUA para imporem outra coisa à China (a maior importadora de armas), e à Rússia (a maior exportadora delas), que manterá Portugal marítimo país central, não periférico. Para não falar da recente proposta do PR do Brasil, em Pequim, para uma associação de grandes potências emergentes, a incluir também a Índia e a África do Sul (e decerto o Brasil), a terem lugar no Conselho de Segurança da ONU.
Nós somos tão marítimos e centrais na OTAN como a velha aliada Inglaterra que, por isso, é mais soberana e influente numa UE continentalista que possa virar anti-OTAN . Mas à Espanha histórica anti-atlantista convém-lhe um Portugal "periférico" de sequeiro para explorar o nosso "cluster" mar com um megaeroporto em Badajoz, um TGV de Madrid a Sines e o aeroporto de Lisboa a ir para a Ota, visando participar no grande projecto mundial de megaeroportos e portos de águas profundas à nossa custa. Surpreendidos com a elevação dos petrolíferos Golfo da Guiné e mar de Angola, a vital alternativa ao petróleo do Médio Oriente, e de S.Tomé e Príncipe a uma espécie de Diego Garcia "ianque" para a sua protecção, resta-nos a nós, e ao Brasil, procurar cooperar com os EUA para, ao menos, salvar a lusófona "civilização de afecto " de que falava Agustina Bessa-Luís. E passar a dedicar a necessária atenção a Cabo Verde.
* Comandante da Marinha Portuguesa, Professor convidado na Universidade Lusófona.
POLÍTICA, ESTRATÉGIA E DEFESA NACIONAL
Por Virgílio de Carvalho
Os países precisam de Objectivos Nacionais Permanentes (ONP), representativos de interesse nacional inscritos na sua Constituição, para poderem ter estratégias adequadas a eles, exequíveis e sustentáveis; e também aceitáveis, isto é, que o que possa perder-se com elas seja compensável com o que possa ganhar-se.
Após a vitória das potências marítimas na Segunda Guerra Mundial, o marechal Montgomery veio propor-nos termos poder marítimo e aeromarítimo para mantermos a segurança delas no nosso mar. Não o fizemos.
E a Espanha aprestou-se a encarregar-se disso, jogando com o seu poder aéreo e naval (que inclui um porta-aviões), pondo em risco a nossa individualidade de país.
O que nos impõe lembrar que países que se têm sentido ameaçados pelos que dispõem de porta-aviões, como a URSS e a China na Guerra Fria, têm recorrido a submarinos para os manter em respeito.
E até a própria Inglaterra, que recorreu a um submarino na crise das Malvinas para, obrigando o porta-aviões argentino a quedar-se na sua base, poder ter superioridade aérea para vencer.
E nós, o único país com a individualidade em risco na União Europeia, somos o que temos tido menos submarinos.
Por o interesse nacional estar também em risco pela nossa frágil cultura (histórico-estratégica, geopolítica e militar), entendemos precisarmos de, para além de interessar universidades nela, um Colégio de Defesa (talvez no IDN), para eméritos civis (diplomatas, cientistas, empresários, políticos, jornalistas, etc.) frequentarem, em conjunto com os oficiais dos cursos superiores dos três ramos das Forças Armadas, a parte respeitante à apreciação dos cenários internacionais.
E precisamos, também, de dotar o Exército com uma força especial de intervenção externa rápida com militares tipo marine (agregando comandos, pára-quedistas e fuzileiros), a transportar por ar ou por mar.
Neste caso, a transportar pelo futuro navio logístico polivalente para cuja protecção, como para outros navios de alto valor estratégico, os submarinos são os melhores escoltadores.
União. Entretanto, com a «invasão ianque» do mar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), do petróleo de São Tomé e Princípe e de Angola, que visa criar, com o da Nigéria e da Guiné Equatorial, alternativa segura ao do Médio Oriente (que já começou a ser finalmente posto em risco com a esperada ofensiva Ben Laden contra a governação da Arábia Saudita) é de lembrar ao Brasil o aviso do seu geopolitólogo Golbery do Couto e Silva para se juntar a Portugal, visando defender o valioso património cultural e económico da Lusofonia, inclusive a língua portuguesa.
Talvez como o Brasil fez na Segunda Guerra Mundial , aliando-se aos EUA para não lhes ceder bases, ou procurando, no mínimo, participar com Portugal na guarnição do navio logístico polivalente daquela superpotência que, com base em São Tomé e Princípe, é agora sede do comando NATO do Atlântico todo.
Acossados. É que precisamos também de defender a CPLP de «nova invasão» da África pela Europa, idêntica à provocada pela Revolução Industrial do século XIX, principalmente por França e Alemanha no âmbito do conceito geopolítico, geocultural e geoeconómico «Euro-África», para assegurarem recursos minerais e económicos naturais de que carecem.
É, no entanto, justo lembrar que os Estados Unidos da América não costumam ficar em países que têm defendido de cobiças alheias, e que o porto de abrigo para eles favorecerá a soberania santomense face aos mais perigosos adversários dela (o colosso vizinho Nigéria e a Guiné Equatorial), tal como sucede com Portugal quase-arquipelágico face à vizinha Espanha.
E que a dispersão de dependências externas de petróleo, e de outros recursos económicos, poderá levar ao aparecimento de Nova Ordem Mundial multipolar de equilíbrio global de poderes.
Uma nova ordem mundial que seja favorável à solução de conflitos graves pelo diálogo e pela diplomacia, como defendemos num dos nossos livros, e o Brasil e a própria União Europeia começaram a preconizar.
Por Virgílio de Carvalho
Os países precisam de Objectivos Nacionais Permanentes (ONP), representativos de interesse nacional inscritos na sua Constituição, para poderem ter estratégias adequadas a eles, exequíveis e sustentáveis; e também aceitáveis, isto é, que o que possa perder-se com elas seja compensável com o que possa ganhar-se.
Após a vitória das potências marítimas na Segunda Guerra Mundial, o marechal Montgomery veio propor-nos termos poder marítimo e aeromarítimo para mantermos a segurança delas no nosso mar. Não o fizemos.
E a Espanha aprestou-se a encarregar-se disso, jogando com o seu poder aéreo e naval (que inclui um porta-aviões), pondo em risco a nossa individualidade de país.
O que nos impõe lembrar que países que se têm sentido ameaçados pelos que dispõem de porta-aviões, como a URSS e a China na Guerra Fria, têm recorrido a submarinos para os manter em respeito.
E até a própria Inglaterra, que recorreu a um submarino na crise das Malvinas para, obrigando o porta-aviões argentino a quedar-se na sua base, poder ter superioridade aérea para vencer.
E nós, o único país com a individualidade em risco na União Europeia, somos o que temos tido menos submarinos.
Por o interesse nacional estar também em risco pela nossa frágil cultura (histórico-estratégica, geopolítica e militar), entendemos precisarmos de, para além de interessar universidades nela, um Colégio de Defesa (talvez no IDN), para eméritos civis (diplomatas, cientistas, empresários, políticos, jornalistas, etc.) frequentarem, em conjunto com os oficiais dos cursos superiores dos três ramos das Forças Armadas, a parte respeitante à apreciação dos cenários internacionais.
E precisamos, também, de dotar o Exército com uma força especial de intervenção externa rápida com militares tipo marine (agregando comandos, pára-quedistas e fuzileiros), a transportar por ar ou por mar.
Neste caso, a transportar pelo futuro navio logístico polivalente para cuja protecção, como para outros navios de alto valor estratégico, os submarinos são os melhores escoltadores.
União. Entretanto, com a «invasão ianque» do mar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), do petróleo de São Tomé e Princípe e de Angola, que visa criar, com o da Nigéria e da Guiné Equatorial, alternativa segura ao do Médio Oriente (que já começou a ser finalmente posto em risco com a esperada ofensiva Ben Laden contra a governação da Arábia Saudita) é de lembrar ao Brasil o aviso do seu geopolitólogo Golbery do Couto e Silva para se juntar a Portugal, visando defender o valioso património cultural e económico da Lusofonia, inclusive a língua portuguesa.
Talvez como o Brasil fez na Segunda Guerra Mundial , aliando-se aos EUA para não lhes ceder bases, ou procurando, no mínimo, participar com Portugal na guarnição do navio logístico polivalente daquela superpotência que, com base em São Tomé e Princípe, é agora sede do comando NATO do Atlântico todo.
Acossados. É que precisamos também de defender a CPLP de «nova invasão» da África pela Europa, idêntica à provocada pela Revolução Industrial do século XIX, principalmente por França e Alemanha no âmbito do conceito geopolítico, geocultural e geoeconómico «Euro-África», para assegurarem recursos minerais e económicos naturais de que carecem.
É, no entanto, justo lembrar que os Estados Unidos da América não costumam ficar em países que têm defendido de cobiças alheias, e que o porto de abrigo para eles favorecerá a soberania santomense face aos mais perigosos adversários dela (o colosso vizinho Nigéria e a Guiné Equatorial), tal como sucede com Portugal quase-arquipelágico face à vizinha Espanha.
E que a dispersão de dependências externas de petróleo, e de outros recursos económicos, poderá levar ao aparecimento de Nova Ordem Mundial multipolar de equilíbrio global de poderes.
Uma nova ordem mundial que seja favorável à solução de conflitos graves pelo diálogo e pela diplomacia, como defendemos num dos nossos livros, e o Brasil e a própria União Europeia começaram a preconizar.
domingo, junho 27, 2004
O BECO REPUBLICANO
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Esta República, a quem o povo português deve favores que a História registará, um deles foi a “descolonização exemplar” e outro foram as “nacionalizações de roubo”, a que se deve acrescentar o abandalhamento do ensino e a corrupção mais elaborada, desembocou num beco mal afamado e sem saída. Durão Barroso, que vem da escola comunista do maoísmo e foi promovido por Cavaco Silva, mexeu os pauzinhos todos que lhe permitam fugir do país, pela porta da frente, de modo a não ter de dar contas dos abusos, incompetências e coisas nada sérias do seu governo de coligação. Uma coligação ostensivamente protagonizada por um Paulo Portas que, goste ele ou não, está irremediavelmente queimado desde o caso da Moderna. Não se surpreendem os emigrantes portugueses do Canadá com esta fuga, tão descarada, porque, quando em Toronto tivemos a epidemia da gripe SARS, Durão Barroso cancelou a sua presença na festa de homenagem aos pioneiros que chegaram a este país há 50 anos, tendo o topete de se ficar por Otava, entre banquetes e limousines governamentais. A comunidade portuguesa colou-lhe o rótulo inapagável de cobarde. Foi o mínimo que lhe chamaram, à boca cheia, os portugueses deste lado do mundo.
Obriga-me a verdade e a memória a dizer que não me surpreendo por mais este acto de fujão e a explicar porquê. Há anos atrás foi cônsul de Portugal em Toronto um António Tânger Correia que, além de ter apanhado aos incautos dois barcos com o pretexto de ir ás Olimpíadas de Seul, o que logo foi desmentido pelo Comité português, deu outras “palmadas” por aí, abandonou o posto diplomático para velejar na Europa, meteu-se em aventuras galantes que deviam ter dado uma inspecção rigorosa se o Ministério dos Negócios Estrangeiros fosse respeitável, ia para o consulado algumas vezes bastante bêbado, e foi nesse estado que expulsou um honrado trabalhador com 29 anos de casa, a quem o estado português nunca fez justiça, etc. etc. etc. Um escândalo, uma lama, uma lástima que nos envergonhou a todos. Era ministro dos Negócios Estrangeiros o Sr. Durão Barroso. Como eu conhecia o Tânger desde catraio e calhou de ir a Lisboa, avisei a sua progenitora quanto ao melindre da situação por ele criada, sugerindo que pedisse ao ministro para o tirar de Toronto. Respondeu-me que não podia ser porque o dito ministro e o delicioso filhinho eram amigos unha e carne. E adiantou uma expressão que me ficou colada na memória: “São dois garotões”.
Porque havia eu de me admirar das piruetas do Durão Barroso nos dias que correm?
Temos, pois, que Durão Barroso está de malas feitas para Bruxelas, numa fuga precipitada, e que sugere para seu sucessor Santana Lopes, o célebre Pedrocas das Larocas, que tem boas razões para fugir da borrada que deixa na Câmara de Lisboa e é íntimo do nunca por demais celebrado Paulo Portas. Este é um beco sujo, mal cheiroso e mal afamado.
Portugal tanto pode estar à beira de varrer a testada e limpar uma boa parte da casa política, como pode estar quase a transformar-se naquilo a que Guerra Junqueiro chamou “uma enxerga podre cheia de percevejos”, quando, arrependido e envergonhado por ter louvado os malditos regicidas, viu no que tinha dado a balbúrdia republicana.
Tudo agora depende do Presidente da República. Este, como é de seu natural, não perdeu as estribeiras, pediu tempo para reflectir e aconselhar-se, recomendou prudência e pequenos passos. Está a ser bastante criticado por isso, com uma paixão a condizer com estes exaltados dias de campeonato de futebol. E no entanto, o PR está certo ao proceder assim. Precisamente por ser Presidente da República. Porque o Presidente da República é em geral proposto e apoiado por um partido, embora seja depois votado por todos aqueles que, mesmo pertencendo a outros partidos ou a nenhum, lhe dão a sua simpatia ou o benefício da dúvida. Quando surge uma situação de encurralamento político, como esta que foi provocada pela Direita Situacionista, a Direita Aproveitadora, o PR tem de ser extremamente cauteloso na solução do problema para não ser acusado de estar a favorecer a formação ideológica de que é oriundo. Frente ao desconchavo criado pela rapaziada dos Jaguares, Copos, Tipas & Ofícios Correlativos, é evidente que apetece convocar eleições antecipadas e pôr tudo a claro, virado da cabeça para os pés. Mas, como em tudo, é preciso perguntar quem é o primeiro beneficiário. E aí é que bate o ponto. Portanto, Jorge Sampaio tem de ser prudente e aconselhar prudência. E o povo, consciente desta realidade, tem de fazer saber ao PR que pode contar com o seu apoio. Porque a situação é séria, é o país que está em jogo com milhões de almas dentro, não é hora de levar isto no calembourg, na risada ou no esfregar contente de mãos. O país acima de tudo.
O Rei não tem estes problemas de suspeição em relação a partidos. Pode cortar a direito. E mandar varrer os cacos. Quanto mais o tempo passa mais as pessoas são obrigadas a pensar nestes termos.
CARTA DO CANADÁ
por Fernanda Leitão
Esta República, a quem o povo português deve favores que a História registará, um deles foi a “descolonização exemplar” e outro foram as “nacionalizações de roubo”, a que se deve acrescentar o abandalhamento do ensino e a corrupção mais elaborada, desembocou num beco mal afamado e sem saída. Durão Barroso, que vem da escola comunista do maoísmo e foi promovido por Cavaco Silva, mexeu os pauzinhos todos que lhe permitam fugir do país, pela porta da frente, de modo a não ter de dar contas dos abusos, incompetências e coisas nada sérias do seu governo de coligação. Uma coligação ostensivamente protagonizada por um Paulo Portas que, goste ele ou não, está irremediavelmente queimado desde o caso da Moderna. Não se surpreendem os emigrantes portugueses do Canadá com esta fuga, tão descarada, porque, quando em Toronto tivemos a epidemia da gripe SARS, Durão Barroso cancelou a sua presença na festa de homenagem aos pioneiros que chegaram a este país há 50 anos, tendo o topete de se ficar por Otava, entre banquetes e limousines governamentais. A comunidade portuguesa colou-lhe o rótulo inapagável de cobarde. Foi o mínimo que lhe chamaram, à boca cheia, os portugueses deste lado do mundo.
Obriga-me a verdade e a memória a dizer que não me surpreendo por mais este acto de fujão e a explicar porquê. Há anos atrás foi cônsul de Portugal em Toronto um António Tânger Correia que, além de ter apanhado aos incautos dois barcos com o pretexto de ir ás Olimpíadas de Seul, o que logo foi desmentido pelo Comité português, deu outras “palmadas” por aí, abandonou o posto diplomático para velejar na Europa, meteu-se em aventuras galantes que deviam ter dado uma inspecção rigorosa se o Ministério dos Negócios Estrangeiros fosse respeitável, ia para o consulado algumas vezes bastante bêbado, e foi nesse estado que expulsou um honrado trabalhador com 29 anos de casa, a quem o estado português nunca fez justiça, etc. etc. etc. Um escândalo, uma lama, uma lástima que nos envergonhou a todos. Era ministro dos Negócios Estrangeiros o Sr. Durão Barroso. Como eu conhecia o Tânger desde catraio e calhou de ir a Lisboa, avisei a sua progenitora quanto ao melindre da situação por ele criada, sugerindo que pedisse ao ministro para o tirar de Toronto. Respondeu-me que não podia ser porque o dito ministro e o delicioso filhinho eram amigos unha e carne. E adiantou uma expressão que me ficou colada na memória: “São dois garotões”.
Porque havia eu de me admirar das piruetas do Durão Barroso nos dias que correm?
Temos, pois, que Durão Barroso está de malas feitas para Bruxelas, numa fuga precipitada, e que sugere para seu sucessor Santana Lopes, o célebre Pedrocas das Larocas, que tem boas razões para fugir da borrada que deixa na Câmara de Lisboa e é íntimo do nunca por demais celebrado Paulo Portas. Este é um beco sujo, mal cheiroso e mal afamado.
Portugal tanto pode estar à beira de varrer a testada e limpar uma boa parte da casa política, como pode estar quase a transformar-se naquilo a que Guerra Junqueiro chamou “uma enxerga podre cheia de percevejos”, quando, arrependido e envergonhado por ter louvado os malditos regicidas, viu no que tinha dado a balbúrdia republicana.
Tudo agora depende do Presidente da República. Este, como é de seu natural, não perdeu as estribeiras, pediu tempo para reflectir e aconselhar-se, recomendou prudência e pequenos passos. Está a ser bastante criticado por isso, com uma paixão a condizer com estes exaltados dias de campeonato de futebol. E no entanto, o PR está certo ao proceder assim. Precisamente por ser Presidente da República. Porque o Presidente da República é em geral proposto e apoiado por um partido, embora seja depois votado por todos aqueles que, mesmo pertencendo a outros partidos ou a nenhum, lhe dão a sua simpatia ou o benefício da dúvida. Quando surge uma situação de encurralamento político, como esta que foi provocada pela Direita Situacionista, a Direita Aproveitadora, o PR tem de ser extremamente cauteloso na solução do problema para não ser acusado de estar a favorecer a formação ideológica de que é oriundo. Frente ao desconchavo criado pela rapaziada dos Jaguares, Copos, Tipas & Ofícios Correlativos, é evidente que apetece convocar eleições antecipadas e pôr tudo a claro, virado da cabeça para os pés. Mas, como em tudo, é preciso perguntar quem é o primeiro beneficiário. E aí é que bate o ponto. Portanto, Jorge Sampaio tem de ser prudente e aconselhar prudência. E o povo, consciente desta realidade, tem de fazer saber ao PR que pode contar com o seu apoio. Porque a situação é séria, é o país que está em jogo com milhões de almas dentro, não é hora de levar isto no calembourg, na risada ou no esfregar contente de mãos. O país acima de tudo.
O Rei não tem estes problemas de suspeição em relação a partidos. Pode cortar a direito. E mandar varrer os cacos. Quanto mais o tempo passa mais as pessoas são obrigadas a pensar nestes termos.
sexta-feira, junho 25, 2004
PLÍNIO SALGADO - UM PENSADOR CRISTÃO
Por Fernando Rodrigues*
A tragédia de nossos dias é a mais angustiosa - afirmava o gênio elevado de
Leonel Franca -, porquanto, segundo o mesmo autor, as almas nobres e
reflexivas, mesmo as que, em momentos de exaltação entoam hinos de louvor à
vida, acabam imergindo nas sombras de um pessimismo sem esperanças.
Diante das angústias da hora presente, Schopenhauer talvez seja uma das
impressões mais lancinantes de uma alma que desconhece seu destino; ou mesmo
Nietzsche; ou Pirandello, quando é taxativo: "no ha la vita un fruto,
Inutile miseria"; ou até mesmo Gabriel D'annuzio, ao externar melancólico:
"diante de mim na sombra, está a morte sem flâmula. Eu morrerei em vão".
Que homem, digno deste nome, poderia se conformar com os fatos que marcam
nosso tempo? Leon Bloy, Baudelaire, Bernanos, Chesterton, Pio XII, Maurice
Blondel, Gustav Thibon, Plínio Salgado... Este último - cuja página
dedicamos -, fez de seu verbo inflamado a espada afiada contra as doutrinas
deletérias; e vendo a mocidade sofrer o influxo da degradação de tais
doutrinas, concitava-os ao que ele chamava de "Revolução Inteiror".
Depois do contato com as doutrinas materialistas e revolucionárias de Sorel,
Marx, Trotski, Feuerbach, Plínio vai encontrar o clarão da fé nas palavras
de fogo de Jackson de Figueiredo, e sobretudo na filosofia do cearense
Farias Brito, este mestre que concorreu com seu esforço para por á cobro a
faina demolidora do materialismo e iniciar a grande obra reconstrutiva.
Farias Brito inconcussamente o grande precursor da renovação do pensamento
que à época deste ilustre pensador predominava, vale dizer, o positivismo de
Augusto Comte e o pragmatismo de Stuart Mill, tendo como representantes em
nosso país [Brasil], figuras do mais alto valor intelectual, tais como, Benjamim
Constant; Teixeira Mendes; Miguel Couto; Tobias Barreto; Fausto Cardoso com
seu haeckelianismo sociológico, entre outros. Cabe ressaltar, que na França
e na Itália o papel de salvaguadar os valores espirítuais em contrapartida
ao dogmatismo materialista, era exercido por pensadores do estofo de um
Boutroux - chamado pelo próprio Fárias Brito de pensador valiosíssimo a
todos os títulos - e de um Bergson; de um Spaventa e de um Benetto Croce -
consoante ensinamento de Miguel Reale.
A síntese do pensamento de Plínio Salgado consiste no apelo do autor da
"Vida de Jesus", à Revolução Interior, como já citado. Á essa luz, de uma
feita, dizia Pèguy: "as verdadeiras revoluções consistem essencialmente em
mergulharmos nas inesgotáveis fontes da vida interior. Não são homens
superficiais que podem por em marcha tais revoluções - mas homens capazes de
ver e de falar em profundidade". E Plínio era um desses homens, pois, -
como afirma o historiador lusitano João Ameal - "no calor e no fervor de sua
evocação parecia um contemporâneo de Cristo".
Em Portugal, na data da comemoração do Condestável, Nun'Alvares, Plínio
proferiu linhas luminosas que expressam o que foi sua vida, de filósofo; de
sociólogo; de político; de apóstolo:
"Ensinou-nos Nun'Alvares que o supremo destino da criatura humana está em
Deus; que as riquezas mais ricas, e as glórias mais gloriosas, e o poder
mais poderoso que seja, não passam de bens passageiros, que terminam bem
depressa, cumprindo-nos, portanto, fazer deles instrumento de trabalho com
que servir Aquele que constitui o Bem que não acaba. Lutar pela Pátria,
lutar em prol da comunidade, infatigavelmente, é digno e belo; mas fazer
dessa mesma luta o cilício de nossa lama, o meio de santificação, é ainda
mais belo. Porque existe, além das muitas formas de santidade, uma que
poderemos chamar "santidade política", e essa conhecem os que sofreram, pela
felicidade publica, os agravos do tempo e as injúrias dos homens, que afinal
são também, uns e outros, passageiros como os bens, já que tudo passa na
terra e eterno no Céu".
Malgrado todos os sofismas que norteiam sua vida e sua obra, diante das
paisagens e escombros se levanta sua mensagem indelével como anunciação
promissora. Cheio de fé em nossa destinação histórica, Plínio, parafraseava
Camões: "Depois de procelosa tempestade, noturna treva e silibante vento,
traz a manhã serena, claridade, esperança de porto e salvamento".
Em uma das peças de Gil Vicente, surge um Cruzado e, então, é dito que o
Cruzado vai direto para o céu, porque se bateu por uma Boa Causa.
Plínio foi um dos grandes Cruzados, com que o Século XX nos galardoou,
pensador exímio, defendeu seu pensamento com intrepidez, não obstante
possuísse uma alma franciscana, porquanto, Plínio foi um desses homens, que
merecem a sentença de Dante Aliguieri - autor da Divina Comédia - para quem,
mais alto que o entendimento, o Amor se levanta, - o Amor que faz mover "il
sole e I'altre stelle" e pelo qual o nosso destino terrestre consegue sair
triunfante dos combates terríveis da Alma e do Mundo.
*Acadêmico de Direito - Foz do Iguaçu-Pr
www.pliniosalgado.cjb.net
Por Fernando Rodrigues*
A tragédia de nossos dias é a mais angustiosa - afirmava o gênio elevado de
Leonel Franca -, porquanto, segundo o mesmo autor, as almas nobres e
reflexivas, mesmo as que, em momentos de exaltação entoam hinos de louvor à
vida, acabam imergindo nas sombras de um pessimismo sem esperanças.
Diante das angústias da hora presente, Schopenhauer talvez seja uma das
impressões mais lancinantes de uma alma que desconhece seu destino; ou mesmo
Nietzsche; ou Pirandello, quando é taxativo: "no ha la vita un fruto,
Inutile miseria"; ou até mesmo Gabriel D'annuzio, ao externar melancólico:
"diante de mim na sombra, está a morte sem flâmula. Eu morrerei em vão".
Que homem, digno deste nome, poderia se conformar com os fatos que marcam
nosso tempo? Leon Bloy, Baudelaire, Bernanos, Chesterton, Pio XII, Maurice
Blondel, Gustav Thibon, Plínio Salgado... Este último - cuja página
dedicamos -, fez de seu verbo inflamado a espada afiada contra as doutrinas
deletérias; e vendo a mocidade sofrer o influxo da degradação de tais
doutrinas, concitava-os ao que ele chamava de "Revolução Inteiror".
Depois do contato com as doutrinas materialistas e revolucionárias de Sorel,
Marx, Trotski, Feuerbach, Plínio vai encontrar o clarão da fé nas palavras
de fogo de Jackson de Figueiredo, e sobretudo na filosofia do cearense
Farias Brito, este mestre que concorreu com seu esforço para por á cobro a
faina demolidora do materialismo e iniciar a grande obra reconstrutiva.
Farias Brito inconcussamente o grande precursor da renovação do pensamento
que à época deste ilustre pensador predominava, vale dizer, o positivismo de
Augusto Comte e o pragmatismo de Stuart Mill, tendo como representantes em
nosso país [Brasil], figuras do mais alto valor intelectual, tais como, Benjamim
Constant; Teixeira Mendes; Miguel Couto; Tobias Barreto; Fausto Cardoso com
seu haeckelianismo sociológico, entre outros. Cabe ressaltar, que na França
e na Itália o papel de salvaguadar os valores espirítuais em contrapartida
ao dogmatismo materialista, era exercido por pensadores do estofo de um
Boutroux - chamado pelo próprio Fárias Brito de pensador valiosíssimo a
todos os títulos - e de um Bergson; de um Spaventa e de um Benetto Croce -
consoante ensinamento de Miguel Reale.
A síntese do pensamento de Plínio Salgado consiste no apelo do autor da
"Vida de Jesus", à Revolução Interior, como já citado. Á essa luz, de uma
feita, dizia Pèguy: "as verdadeiras revoluções consistem essencialmente em
mergulharmos nas inesgotáveis fontes da vida interior. Não são homens
superficiais que podem por em marcha tais revoluções - mas homens capazes de
ver e de falar em profundidade". E Plínio era um desses homens, pois, -
como afirma o historiador lusitano João Ameal - "no calor e no fervor de sua
evocação parecia um contemporâneo de Cristo".
Em Portugal, na data da comemoração do Condestável, Nun'Alvares, Plínio
proferiu linhas luminosas que expressam o que foi sua vida, de filósofo; de
sociólogo; de político; de apóstolo:
"Ensinou-nos Nun'Alvares que o supremo destino da criatura humana está em
Deus; que as riquezas mais ricas, e as glórias mais gloriosas, e o poder
mais poderoso que seja, não passam de bens passageiros, que terminam bem
depressa, cumprindo-nos, portanto, fazer deles instrumento de trabalho com
que servir Aquele que constitui o Bem que não acaba. Lutar pela Pátria,
lutar em prol da comunidade, infatigavelmente, é digno e belo; mas fazer
dessa mesma luta o cilício de nossa lama, o meio de santificação, é ainda
mais belo. Porque existe, além das muitas formas de santidade, uma que
poderemos chamar "santidade política", e essa conhecem os que sofreram, pela
felicidade publica, os agravos do tempo e as injúrias dos homens, que afinal
são também, uns e outros, passageiros como os bens, já que tudo passa na
terra e eterno no Céu".
Malgrado todos os sofismas que norteiam sua vida e sua obra, diante das
paisagens e escombros se levanta sua mensagem indelével como anunciação
promissora. Cheio de fé em nossa destinação histórica, Plínio, parafraseava
Camões: "Depois de procelosa tempestade, noturna treva e silibante vento,
traz a manhã serena, claridade, esperança de porto e salvamento".
Em uma das peças de Gil Vicente, surge um Cruzado e, então, é dito que o
Cruzado vai direto para o céu, porque se bateu por uma Boa Causa.
Plínio foi um dos grandes Cruzados, com que o Século XX nos galardoou,
pensador exímio, defendeu seu pensamento com intrepidez, não obstante
possuísse uma alma franciscana, porquanto, Plínio foi um desses homens, que
merecem a sentença de Dante Aliguieri - autor da Divina Comédia - para quem,
mais alto que o entendimento, o Amor se levanta, - o Amor que faz mover "il
sole e I'altre stelle" e pelo qual o nosso destino terrestre consegue sair
triunfante dos combates terríveis da Alma e do Mundo.
*Acadêmico de Direito - Foz do Iguaçu-Pr
www.pliniosalgado.cjb.net
quinta-feira, junho 24, 2004
PORQUE FUI VOTAR
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Não gosto muito de partidos políticos. Em vez de serem, como deviam ser, organizações que proporcionam aos cidadãos vulgares voz e opinião, alguma cultura política. Pelo contrário, pouco servem ou formam os cidadãos para a participação pública.
Não são porta-vozes de ninguém, a não ser deles próprios. São colégios de políticos de profissão, os «boys».
Não é só de hoje o complicado problema da representação política. Mas é assim... Tenho de ter as cores desta direita, deste socialismo, deste comunismo, para que dê certo o que penso com que pensa o político e o que vai fazer com o poder que lhe pus nas mãos. A ideologia representativa tende a “formatar” os seus eleitores. No entanto, na situação actual, muitos deles desinteressam-se, sentem-se defraudados, mal representados. É por isso que a abstenção é tão grande...
O triste espectáculo na Lota de Matosinhos deu-nos a noção de que, quando se trata de votar, mesmo que a campanha fosse para as eleições europeias, as lutas do poder local sobrepõe-se à Europa. É natural, aparte a má educação. Conheço o presidente da Câmara. Não conheço a Constituição Europeia que afinal é um Tratado.
É verdade que estando os partidos políticos tão dentro de si próprios, mesmo que seja para a eleição de deputados europeus, ela decorre nos mesmos infelizes moldes de todas as outras eleições.
Assuntos europeus? Que é isso? As campanhas eleitorais, que deviam ser cordatas e dar bons exemplos, não explicaram nada e deram maus exemplos.
Mas eu fui votar. É verdade. Apesar de tudo. Ao contrário disto, sempre achei que o futuro de Portugal se afirmaria, muito mais logicamente – para não dizer sentimentalmente – ao lado do futuro do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Timor, de Cabo Verde. Mas esse sonho não se proporciona e a comunidade lusófona marca passo... Neste contexto globalizado e globalizador, em que os formidáveis meios de comunicação, a fácil mobilidade e deslocação das empresas e dos seus agentes, meteram as economias e a sobrevivência dos países limítrofes num jogo tal de forças e influências que quase automaticamente os gruda uns aos outros.
Estamos na Europa como ela se vem definindo, alargando-se, tentando sobreviver às investidas comerciais da Ásia, para se impor como unidade cultural, como criatividade própria em todos os domínios.
Não é muito promissor o futuro identitário dos países pequenos, entre os quais nos encontramos mas a Europa é só realmente Europa, trazendo às costas as 25 identidades, respeitando-as e considerando-as como a sua maior riqueza.
Aparecerão, como têm aparecido, muitos problemas de ordem política e económica. É difícil a elaboração de um tratado geral. Que representação para o Parlamento europeu? É óbvio que o projecto europeu terá imensos percalços e alçapões mas não posso admitir que, estando lá Portugal, não esteja minimamente representado, não dificulte, não fale, não apareça... Tem de estar presente.
Neste caso, sendo as coisas como são, eu fui votar.
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Não gosto muito de partidos políticos. Em vez de serem, como deviam ser, organizações que proporcionam aos cidadãos vulgares voz e opinião, alguma cultura política. Pelo contrário, pouco servem ou formam os cidadãos para a participação pública.
Não são porta-vozes de ninguém, a não ser deles próprios. São colégios de políticos de profissão, os «boys».
Não é só de hoje o complicado problema da representação política. Mas é assim... Tenho de ter as cores desta direita, deste socialismo, deste comunismo, para que dê certo o que penso com que pensa o político e o que vai fazer com o poder que lhe pus nas mãos. A ideologia representativa tende a “formatar” os seus eleitores. No entanto, na situação actual, muitos deles desinteressam-se, sentem-se defraudados, mal representados. É por isso que a abstenção é tão grande...
O triste espectáculo na Lota de Matosinhos deu-nos a noção de que, quando se trata de votar, mesmo que a campanha fosse para as eleições europeias, as lutas do poder local sobrepõe-se à Europa. É natural, aparte a má educação. Conheço o presidente da Câmara. Não conheço a Constituição Europeia que afinal é um Tratado.
É verdade que estando os partidos políticos tão dentro de si próprios, mesmo que seja para a eleição de deputados europeus, ela decorre nos mesmos infelizes moldes de todas as outras eleições.
Assuntos europeus? Que é isso? As campanhas eleitorais, que deviam ser cordatas e dar bons exemplos, não explicaram nada e deram maus exemplos.
Mas eu fui votar. É verdade. Apesar de tudo. Ao contrário disto, sempre achei que o futuro de Portugal se afirmaria, muito mais logicamente – para não dizer sentimentalmente – ao lado do futuro do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Timor, de Cabo Verde. Mas esse sonho não se proporciona e a comunidade lusófona marca passo... Neste contexto globalizado e globalizador, em que os formidáveis meios de comunicação, a fácil mobilidade e deslocação das empresas e dos seus agentes, meteram as economias e a sobrevivência dos países limítrofes num jogo tal de forças e influências que quase automaticamente os gruda uns aos outros.
Estamos na Europa como ela se vem definindo, alargando-se, tentando sobreviver às investidas comerciais da Ásia, para se impor como unidade cultural, como criatividade própria em todos os domínios.
Não é muito promissor o futuro identitário dos países pequenos, entre os quais nos encontramos mas a Europa é só realmente Europa, trazendo às costas as 25 identidades, respeitando-as e considerando-as como a sua maior riqueza.
Aparecerão, como têm aparecido, muitos problemas de ordem política e económica. É difícil a elaboração de um tratado geral. Que representação para o Parlamento europeu? É óbvio que o projecto europeu terá imensos percalços e alçapões mas não posso admitir que, estando lá Portugal, não esteja minimamente representado, não dificulte, não fale, não apareça... Tem de estar presente.
Neste caso, sendo as coisas como são, eu fui votar.
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