Por Manuel Alves
No princípio, as leis da Cidade Antiga não tinham preâmbulos. Era Platão quem dizia que obedecer às leis era obedecer aos deuses; o rei era um pontífice, o magistrado um sacerdote, a lei uma fórmula sagrada.
A cidade antiga não se formava lentamente por agregação de famílias ou de indivíduos. Estabelecia-se num só dia e por confederação de grupos. Na base, estava a família e a religião do lar, com o seu chefe, o seu deus e o seu altar. Acima da família estava a fratria, com um deus guardando as várias famílias. A seguir estava a tribo, e o deus da tribo. Por fim, quando as tribos resolviam fundar uma cidade concebia-se um deus cuja providência a todas abrangesse.
A cidade antiga não se formava sem o sopro de uma ideia religiosa. Antes de ser uma comunidade política, a cidade era uma comunidade religiosa. Eram os deuses domésticos e as divindades políadas que geravam o direito a que o cidadão submetia a sua alma, o seu corpo e o seu património.
Foi a aristocracia quem começou por retirar a autoridade política aos reis. Depois, libertados os clientes, criou-se a plebe que vai participar no governo da cidade. O sistema de governo na cidade antiga passou então a poder tomar vários nomes: monarquia, aristocracia e democracia. No Ocidente, esses nomes já pouco nos podem dizer: a monarquia não é mais o governo de um só; é interdito impedir o acesso ao poder dos medíocres; em nenhuma parte o poder é exercido pela maioria dos cidadãos. E, no entanto, há uma receita que continua a ter seguidores: “Se se quiser fundar a democracia – escreveu Aristóteles na Política (VI, 2, II) – far-se-á o que Clístenes praticou entre os atenienses: estabelecer-se-ão novas tribos e novas fratrias; os sacrifícios hereditários das famílias, substituí-los-emos por sacrifícios aos quais todos os homens serão admitidos; confundam-se, tanto quanto possível, as relações dos homens entre si, tendo o cuidado de destruir todas as associações anteriores”.
Estabelecida a democracia antiga, confundidas as relações dos homens entre si, destruídas todas as associações anteriores, estava aberto o caminho para o governo daqueles que se contentavam com o epíteto de tiranos. Enquanto os reis haviam retirado a sua autoridade do culto do lar; os tiranos eram apenas chefes políticos, com uma autoridade assente na força ou na eleição.
A democracia antiga acrescentou direitos políticos aos cidadãos, como poder votar-se na nomeação de alguns magistrados, mas nem um só direito individual conquistou o poder de resistir ao Estado. O Estado continuava a ser omnipotente na vida privada, na educação, na religião. Sócrates foi condenado à morte porque cometeu a grande impiedade de duvidar da Atena Políada. Anaxágoras teve o mesmo fim, depois de tornar pública a sua concepção do Deus-Inteligência.
Face à omnipotência de um tal Estado, percebe-se bem a importância, para cada homem, de possuir direitos políticos: só possuindo alguma parte da soberania podia o homem ser alguma coisa. Os cidadãos não estavam interessados na liberdade, queriam possuir algo que os outros homens pudessem ter em consideração. A segurança e a dignidade do homem consistia em ser membro de uma soberania.
A democracia de Atenas, exemplar a muitos títulos, não o era menos pelo apreciável número de magistrados: o arconte, que velava pelos cultos domésticos; o rei, que realizava os sacrifícios; o polemarca, que chefiava o exército e julgava os estrangeiros; os tesmótetas, que presidiam aos julgamentos; os adivinhos que consultavam os oráculos; os que acompanhavam o arconte e o rei nas cerimónias; os atlótetas, que preparavam as festas quadrianuais de Atenas; os prítanes que vigiavam pela manutenção do fogo público e sagrado; os estrategos, que cuidavam dos negócios da guerra e da política; os astínomos, que cuidavam da polícia; os agoránomos, que vigiavam os mercados da urbe e do Pireu; os metrónomos, que verificavam pesos e medidas; os guardas do tesouro; os recebedores de impostos; os encarregados da execução das sentenças...
Os membros do Senado – o mais importante dos órgãos políticos da cidade - eram sorteados, bem como a maioria dos magistrados. Os atenienses queriam o seu quinhão de soberania, mas desconfiavam muito dos caprichos do sufrágio universal. Só os magistrados que não exerciam funções de ordem pública eram eleitos, e só entravam na eleição aqueles que se submetiam à observação e ao interrogatório do Senado e do Areópago. Com a excepção dos atlótetas, as restantes magistraturas eram normalmente anuais, responsáveis e revogáveis a qualquer momento. Porque a maior parte destas magistraturas se repetia em cada uma das tribos e dos demos, era praticamente impossível dar um passo na cidade ou no campo, sem logo se topar com algum magistrado.
Apesar de tão grande número de magistrados, e da igualdade no acesso, nem por isso as guerras civis deixaram de avassalar a Grécia. Obtida a igualdade política da democracia, ficou sublinhada a desigualdade das riquezas, passando os homens a guerrear-se por interesses. Segundo os testemunhos de Aristóteles (Política, V, 7, 19) e de Plutarco (Lisandro, 19), os ricos nunca perderam o hábito de pronunciar entre si o seguinte juramento: «Juro ser sempre inimigo do povo, e fazer-lhe todo o mal que puder». E, em todas as guerras civis, diz Políbio (XV, 21, 3; VII, 10), tratava-se de deslocar as fortunas. Desde a guerra do Peloponeso até à conquista da Grécia pelos romanos, as inúmeras guerras civis oscilaram sempre entre as que espoliavam os ricos e as que os reintegravam na posse dos bens. Todo o demagogo fazia como esse Molpágoras de Cios que entregava à multidão os que possuíam dinheiro, massacrava uns, exilava outros, e distribuía os seus bens pelos pobres.
Tucídides, apesar de não morrer de amores pela democracia, considerava que “o regime democrático era necessário para que os pobres tivessem um amparo e os ricos um freio”. Preocupava-se com os meios capazes de assegurar a paz civil; o amparo dos pobres, num sociedade em que o trabalho era uma indignidade, era o seu direito de viver do sufrágio, fazendo-se pagar para assistir à assembleia, para votar, para testemunhar, ou para julgar nos tribunais (Aristóteles, Política, II, 9, 3; Aristófanes, Cavaleiros, 51, 255; Vespas, 682).
Quando os ricos estavam no poder, a democracia era uma oligarquia. A democracia dos pobres, essa, era invariavelmente uma tirania. O tirano começava sempre por ser um demagogo saído do partido popular. O meio de obter o poder estava em ganhar-se a confiança da multidão, e ganhava-se essa confiança declarando-se inimigo dos ricos. Assim o fizeram Pisístrato em Atenas, Teágenes em Mégara e Dionísio em Siracusa (Política, V, 8, 2-3; V, 4, 5).
Mas, e apesar da frequência das conspirações e das guerras civis, não esteve apenas na cupidez dos pobres e no medo dos ricos a causa da ruína da democracia grega e, por fim, da própria Grécia Antiga.
Quando os convencionais da União Europeia nos recordam a oração fúnebre de Péricles, na boca de Tucídides (II, 37) - «A nossa Constituição ... chama-se "democracia" porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos» – não desconhecem decerto as profundas diferenças políticas e sociais que nos separam do mundo antigo, mas recordam-nos, talvez sem o desejar, que Péricles defendeu ali a Constituição de Atenas enunciando um novo tipo de "patriotismo" ao serviço de um projecto imperial.
Na oração fúnebre, as palavras de Péricles dirigem-se tanto a nativos como a estrangeiros, apresentando a democracia de Atenas como «um padrão de referência», como um modelo a imitar por todas as cidades gregas: porque «há igualdade perante a lei»; porque «dá aos homens a liberdade e a todos abre caminho das honras»; porque «mantém a ordem pública, assegura aos magistrados a autoridade, protege os fracos, e dá a todos espectáculos e festas que são educação da alma»; e, ao concluir, «Eis aqui porque os nossos guerreiros preferiam morrer heroicamente a deixar que lhes tirassem esta pátria; eis ainda porque quantos sobrevivem estão sempre prontos a sofrer por Atenas e a consagrarem-se-lhe.»
Para Péricles, a pátria deixara de merecer ser amada por nela estar o lar de seus pais, pela sua religião e pelos seus deuses. A pátria merecia ser amada pelas suas leis, pelas suas instituições e pelos seus direitos. O cidadão ainda tinha deveres e ainda se podia sacrificar pela sua cidade, mas porque nela usufruía de instituições que lhe davam vantagens.
O patriotismo mudara de natureza. No lugar do patriotismo da piedade e da fé dos primórdios da cidade, surgia o patriotismo das leis, das instituições, dos direitos e da segurança. O patriotismo tornava-se um sentimento variável, dependendo das circunstâncias e das incertezas das leis e do governo. Só se amava a pátria pelo seu regime político, e, se as leis eram más, o cidadão já nada mais encontrava a liga-lo à pátria.
No tempo de Péricles, havia na verdade um novo tipo de “patriotismo” dando os primeiros passos no palco da História – o patriotismo das ideologias. A Ideia de cada um tornava-se mais importante e mais sagrada do que o bem da sua própria pátria; o triunfo da sua ideologia, do seu partido, da sua facção, tornava-se-lhe mais querida do que o bem da sua cidade. Doravante, a cidade natal podia ser preterida por outra na qual se encontrassem as instituições de que se gostava. O exílio deixava de ser temido, podendo ser mesmo motivo de orgulho e de jactância. E daqui a armarem-se contra a própria pátria, não foi grande distância; muitos se passaram a aliar à cidade inimiga para, na sua cidade, fazer triunfar o seu partido. Esparta tinha partidários em todas as cidades jónicas. Atenas tinha partidários em todas as cidades do Peloponeso. Para terem a constituição que queriam, muitos gregos sacrificaram a independência da cidade a que pertenciam.
Moribundo o culto dos antepassados que fundara a cidade, enfraquecido o espírito municipal, por toda a parte os gregos passaram a lutar pelo estabelecimento de uma constituição do seu agrado, por uma constituição que consagrasse a hegemonia da cidade que tomavam como modelo. Não foi outro o teor do “patriotismo” de que Tucídides (III, 69-72, 82; IV, 46-48) nos deu demoradamente conta para mostrar como essa nova tendência dos espíritos contribuiu de forma decisiva para gerar e fazer durar a guerra do Peloponeso.
A mentira procura sempre imitar a verdade, mas não poucas vezes a verdade lhe responde com zombaria: no patriotismo das leis de Péricles está já bem presente a tendência do espírito, o «élan», que fez a fortuna dos conquistadores romanos.
Nos liberi sumus; Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt... [Nós somos livres; nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram...]
quarta-feira, setembro 17, 2003
segunda-feira, julho 28, 2003
PERDOAR
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Uma destacada figura do nosso palco político, para justificar as suas posições mais extremas, começou por anunciar “não sou cristão, não esqueço, nem perdoo”. Perguntamo-nos, com espanto, o que fará então? Exigirá justiça? Ou vingança?
Sem o saber (ou talvez não...) indicou (por bravata?) uma das características fundamentais do cristão: perdoar, perdoar sempre, não só sete vezes mas setenta vezes sete, nas palavras de Jesus.
Quem não perdoar está paredes meias com a violência e com a vingança. Substituir o perdão pela justiça, isto é pelo “justo” castigo, é caminho apertado, encostado perigosamente à violência. Não será a prisão uma violência? Violência legal... A pena de morte, essa, então...
O direito é uma das invenções mais extraordinárias do espírito romano, esses tão mal tratados romanos, no que diz respeito às outras suas invenções, aventuras, feitos e descobertas. Imaginar o direito ao direito, na organização e apaziguamento da sociedade dos homens, sempre dispostos a arreganhar os dentes, a concretizar a sua fúria, a matar, até, é um dos feitos históricos mais marcantes da civilização.
Para acompanhar o pensamento lúcido do antropólogo francês René Girard em relação à violência, sempre presente e sempre prestes a eclodir na comunidade humana, teremos de decidir se a violência não estará também presente na justiça? A canalização da violência sobre o bode expiatório, presente nos processos sumários de linchamento, na justiça “por nossas próprias mãos”, tem sido veementemente apelidada de criminosa e automaticamente banida do viver social. Mas está presente, afinal, como diria Girard, com todo o seu poder contagiante, contido pela estrutura frágil das leis.
Ao chamado Estado de direito pede-se-lhe tudo. E até, às vezes, perdoar, como acontece nas diminuições de pessoas, nas amnistias concedidas em comemorações importantes e até na prescrição de longos litígios nos tribunais.
Diante deste aparelho judicial intimidante, parece, de facto, não existir lugar para o perdão cristão. Não é preciso. Tudo se resolve a contento de todos. Já não são necessárias “moralidades”, tão votadas ao desprezo pelos ditadores racionalistas. Será assim?
Aquilo que se passa actualmente em Portugal, com juízes e advogados em plano maior, sujeitos a julgamentos populares, por causa da sua administração da justiça, que aparece ora litigante ora confiante, em maquinações de poder, seja ele político, social ou mesmo o próprio poder judicial, tem gerado um desconforto profundo que faria empalidecer Montesquieu que tão sabiamente preconizou a separação dos poderes para se alcançar paz social....
Será a sociedade racional, à maneira da Luzes, a sociedade última e perfeita? Apesar dos embaraços no caminho, as luzes iluminam o futuro, um futuro laico que ignora a sua herança cristã, como hoje faz a Convenção europeia, ditando uma Constituição muito racionalmente construída, acima das emoções e das recordações das gentes. A filiação cristã, reconhecida e ouvida, daria outra consistência ao planeado, fazendo aparecer, em transparência, o antigo perdão do Evangelho com o seu esquecimento adstrito. Mas não é tida em consideração.
Tanto se fala na “perda de valores” mas ninguém os quantifica e descrimina, com receio de cair no “moralismo” evangélico, fora de moda. Pois lá estão, o perdão e o esquecimento.
Os antigos, com o estabelecimento da lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”, tentaram um abrandamento da violência social. A garantia de uma vingança ou de um castigo “justos”, isto é, que não ultrapassassem o peso da ofensa que é justo vingar, foi um grande avanço no regulamento da vivência dos homens uns com os outros. O prazer maléfico que existe em toda a vingança que for pior do que crime, cria uma espiral de violência, sucedendo-se a si própria, sem fim. Esta espiral, encontramo-la nos “acertos de contas” das famílias, mafiosas ou não.
Mas na aplicação das leis, multas ou penas de prisão, não existirá violência? O que é estar preso? Aqui se evoca, de novo, o perdão e o esquecimento recusados a priori pelo nosso exigente político.
Perdoar é também esquecer, como ele reconheceu. Quem esquece? O preso libertado que já pagou “a sua dívida à sociedade” como dizem os bons espíritos, tem dificuldades em nela se reintegrar, o antigo Pide não recebeu a condecoração pelas suas actuais e muito virtuosas acções, o antigo nazi não pode ser presidente da Áustria, Mitterand afinal estava presente em Vichy e logo acabou o mito do tonton Mitterand. Não há esquecimento porque não houve perdão. O ódio, o ressentimento, a desconfiança, a má vontade, o cheiro pegajoso da vingança não desapareceu mesmo com justiça feita. Não há paz.
Um lavrador alentejano, familiar muito próximo, ao receber de volta, pelas mãos dos trabalhadores, a herdade que eles tinham ocupado durante cinco anos, a favor da Reforma Agrária socialista, ao perceber que teria de ouvir confidências maldosas, sobre o que este fez e o que aquele disse, convocou o pessoal e, apesar dos maus tratos que a terra tinha levado, advertiu-o de que, dali em diante não ouviria nada de ninguém, mesmo havendo razões concretas para denúncias. Era preciso recomeçar como se nada tivesse acontecido. E houve paz.
Quando consideramos essa Terra a que chamamos Santa e assistimos à disputa de direitos, entre os dois ofendidos, Sharon e Arafat, cada povo com as suas razões, as suas queixas, a sua ferocidade, as suas naturais vinganças, sentimos que só o perdão e o esquecimento fariam a paz.
Assim, sem esquecer nada, os dois povos, o judeu e o palestino, continuarão a agredir-se mutuamente, carregados de ódio, de frustração, de ressentimento que são como cordas que os amarram e impedem de avançar com as mãos abertas e o espírito lavado.
O perdão cristão e o esquecimento que lhe está associado não são um “truque bonzinho”, feito de moleza e cobardia, mas são urgente e corajosa chamada a uma ultrapassagem espiritual, com efeitos benéficos na sociedade humana, no encontro do homem com o homem, de cara a cara, quando se descobrem e mutuamente se aceitam, em aprendizagem e acolhimento. Como diria Levinas, o indivíduo tem a responsabilidade do seu perseguidor. Por isso, no Evangelho, se pede a seguir ao perdão “amai os vossos inimigos”.
Perdoar é ser livre.
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Uma destacada figura do nosso palco político, para justificar as suas posições mais extremas, começou por anunciar “não sou cristão, não esqueço, nem perdoo”. Perguntamo-nos, com espanto, o que fará então? Exigirá justiça? Ou vingança?
Sem o saber (ou talvez não...) indicou (por bravata?) uma das características fundamentais do cristão: perdoar, perdoar sempre, não só sete vezes mas setenta vezes sete, nas palavras de Jesus.
Quem não perdoar está paredes meias com a violência e com a vingança. Substituir o perdão pela justiça, isto é pelo “justo” castigo, é caminho apertado, encostado perigosamente à violência. Não será a prisão uma violência? Violência legal... A pena de morte, essa, então...
O direito é uma das invenções mais extraordinárias do espírito romano, esses tão mal tratados romanos, no que diz respeito às outras suas invenções, aventuras, feitos e descobertas. Imaginar o direito ao direito, na organização e apaziguamento da sociedade dos homens, sempre dispostos a arreganhar os dentes, a concretizar a sua fúria, a matar, até, é um dos feitos históricos mais marcantes da civilização.
Para acompanhar o pensamento lúcido do antropólogo francês René Girard em relação à violência, sempre presente e sempre prestes a eclodir na comunidade humana, teremos de decidir se a violência não estará também presente na justiça? A canalização da violência sobre o bode expiatório, presente nos processos sumários de linchamento, na justiça “por nossas próprias mãos”, tem sido veementemente apelidada de criminosa e automaticamente banida do viver social. Mas está presente, afinal, como diria Girard, com todo o seu poder contagiante, contido pela estrutura frágil das leis.
Ao chamado Estado de direito pede-se-lhe tudo. E até, às vezes, perdoar, como acontece nas diminuições de pessoas, nas amnistias concedidas em comemorações importantes e até na prescrição de longos litígios nos tribunais.
Diante deste aparelho judicial intimidante, parece, de facto, não existir lugar para o perdão cristão. Não é preciso. Tudo se resolve a contento de todos. Já não são necessárias “moralidades”, tão votadas ao desprezo pelos ditadores racionalistas. Será assim?
Aquilo que se passa actualmente em Portugal, com juízes e advogados em plano maior, sujeitos a julgamentos populares, por causa da sua administração da justiça, que aparece ora litigante ora confiante, em maquinações de poder, seja ele político, social ou mesmo o próprio poder judicial, tem gerado um desconforto profundo que faria empalidecer Montesquieu que tão sabiamente preconizou a separação dos poderes para se alcançar paz social....
Será a sociedade racional, à maneira da Luzes, a sociedade última e perfeita? Apesar dos embaraços no caminho, as luzes iluminam o futuro, um futuro laico que ignora a sua herança cristã, como hoje faz a Convenção europeia, ditando uma Constituição muito racionalmente construída, acima das emoções e das recordações das gentes. A filiação cristã, reconhecida e ouvida, daria outra consistência ao planeado, fazendo aparecer, em transparência, o antigo perdão do Evangelho com o seu esquecimento adstrito. Mas não é tida em consideração.
Tanto se fala na “perda de valores” mas ninguém os quantifica e descrimina, com receio de cair no “moralismo” evangélico, fora de moda. Pois lá estão, o perdão e o esquecimento.
Os antigos, com o estabelecimento da lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”, tentaram um abrandamento da violência social. A garantia de uma vingança ou de um castigo “justos”, isto é, que não ultrapassassem o peso da ofensa que é justo vingar, foi um grande avanço no regulamento da vivência dos homens uns com os outros. O prazer maléfico que existe em toda a vingança que for pior do que crime, cria uma espiral de violência, sucedendo-se a si própria, sem fim. Esta espiral, encontramo-la nos “acertos de contas” das famílias, mafiosas ou não.
Mas na aplicação das leis, multas ou penas de prisão, não existirá violência? O que é estar preso? Aqui se evoca, de novo, o perdão e o esquecimento recusados a priori pelo nosso exigente político.
Perdoar é também esquecer, como ele reconheceu. Quem esquece? O preso libertado que já pagou “a sua dívida à sociedade” como dizem os bons espíritos, tem dificuldades em nela se reintegrar, o antigo Pide não recebeu a condecoração pelas suas actuais e muito virtuosas acções, o antigo nazi não pode ser presidente da Áustria, Mitterand afinal estava presente em Vichy e logo acabou o mito do tonton Mitterand. Não há esquecimento porque não houve perdão. O ódio, o ressentimento, a desconfiança, a má vontade, o cheiro pegajoso da vingança não desapareceu mesmo com justiça feita. Não há paz.
Um lavrador alentejano, familiar muito próximo, ao receber de volta, pelas mãos dos trabalhadores, a herdade que eles tinham ocupado durante cinco anos, a favor da Reforma Agrária socialista, ao perceber que teria de ouvir confidências maldosas, sobre o que este fez e o que aquele disse, convocou o pessoal e, apesar dos maus tratos que a terra tinha levado, advertiu-o de que, dali em diante não ouviria nada de ninguém, mesmo havendo razões concretas para denúncias. Era preciso recomeçar como se nada tivesse acontecido. E houve paz.
Quando consideramos essa Terra a que chamamos Santa e assistimos à disputa de direitos, entre os dois ofendidos, Sharon e Arafat, cada povo com as suas razões, as suas queixas, a sua ferocidade, as suas naturais vinganças, sentimos que só o perdão e o esquecimento fariam a paz.
Assim, sem esquecer nada, os dois povos, o judeu e o palestino, continuarão a agredir-se mutuamente, carregados de ódio, de frustração, de ressentimento que são como cordas que os amarram e impedem de avançar com as mãos abertas e o espírito lavado.
O perdão cristão e o esquecimento que lhe está associado não são um “truque bonzinho”, feito de moleza e cobardia, mas são urgente e corajosa chamada a uma ultrapassagem espiritual, com efeitos benéficos na sociedade humana, no encontro do homem com o homem, de cara a cara, quando se descobrem e mutuamente se aceitam, em aprendizagem e acolhimento. Como diria Levinas, o indivíduo tem a responsabilidade do seu perseguidor. Por isso, no Evangelho, se pede a seguir ao perdão “amai os vossos inimigos”.
Perdoar é ser livre.
segunda-feira, julho 21, 2003
HENRIQUE RUAS
-IN MEMORIAM –
Por Teresa Maria Martins de Cavalho
O primeiro sentimento que nos apanhou de chofre ao saber da morte de Henrique Ruas foi o de terrível orfandade, dor oca da falta sem remédio, de tal modo ele era para nós a referência do pensamento político, o ponto fixo da tradição e da inteligência, o eixo movente da história com os seus acontecimentos, a meditar, a colaborar, a contradizer.
Irmanava-se com todos nós, seus companheiros, participantes do seu amor a Portugal e às coisas portuguesas e do seu pasmo ante o mistério do homem, e à sua atenção à chamada permanente para descobrir, pensando, direcções de acção, à beira da verdade.
Exemplo raro de alguém, trabalhado pela vida, com épocas difíceis, duras até, que foi sempre animado pela Fé, confortado pela cultura e pela roda dos amigos e admiradores.
Ciente do próprio valor, era generoso na dádiva do seu saber e do seu tempo, em gesto incrível de humildade na admiração pelos outros e no optimismo cristão de que estamos neste mundo com as mãos prontas para tarefas e projectos que nos pedem, nos envolvem, nos entusiasmam, enquanto houver forças, até ao fim...
Como disse o Bispo D. Manuel Clemente na Missa de Corpo Presente, devemos dar graças a Deus por Henrique Ruas ter existido, tal a sua qualidade em tantos aspectos. E, acrescentamos nós, por o termos conhecido, este português cristão, por termos apreciado e sentido a força do seu espírito e o calor humano do seu coração, termos ganho a sua bondosa amizade e a riqueza da sua convivência.
“Felizes os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos porque as suas obras os seguem” (Ap. 14, 13). Esta sentença que se foi buscar ao Livro do Apocalipse, Livro com tão má fama de exóticas catástrofes mas que é, afinal, o livro da esperança. A esperança. É esse o sinal indelével que ele nos deixou, depois do susto e das lágrimas.
“Há pessoas que não deviam morrer”, dizia alguém, acusando essa orfandade tão ressentida que a morte de Henrique Ruas nos causou. Esta pequena homenagem que aqui gravamos em sua memória é assim esperança para continuarmos nos caminhos em que nos acompanhou, caminhos por ele desbravados, continuar porque a sua memória tão forte ser-nos há presença. Pequena homenagem esta, muito pequena. Sempre connosco.
-IN MEMORIAM –
Por Teresa Maria Martins de Cavalho
O primeiro sentimento que nos apanhou de chofre ao saber da morte de Henrique Ruas foi o de terrível orfandade, dor oca da falta sem remédio, de tal modo ele era para nós a referência do pensamento político, o ponto fixo da tradição e da inteligência, o eixo movente da história com os seus acontecimentos, a meditar, a colaborar, a contradizer.
Irmanava-se com todos nós, seus companheiros, participantes do seu amor a Portugal e às coisas portuguesas e do seu pasmo ante o mistério do homem, e à sua atenção à chamada permanente para descobrir, pensando, direcções de acção, à beira da verdade.
Exemplo raro de alguém, trabalhado pela vida, com épocas difíceis, duras até, que foi sempre animado pela Fé, confortado pela cultura e pela roda dos amigos e admiradores.
Ciente do próprio valor, era generoso na dádiva do seu saber e do seu tempo, em gesto incrível de humildade na admiração pelos outros e no optimismo cristão de que estamos neste mundo com as mãos prontas para tarefas e projectos que nos pedem, nos envolvem, nos entusiasmam, enquanto houver forças, até ao fim...
Como disse o Bispo D. Manuel Clemente na Missa de Corpo Presente, devemos dar graças a Deus por Henrique Ruas ter existido, tal a sua qualidade em tantos aspectos. E, acrescentamos nós, por o termos conhecido, este português cristão, por termos apreciado e sentido a força do seu espírito e o calor humano do seu coração, termos ganho a sua bondosa amizade e a riqueza da sua convivência.
“Felizes os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos porque as suas obras os seguem” (Ap. 14, 13). Esta sentença que se foi buscar ao Livro do Apocalipse, Livro com tão má fama de exóticas catástrofes mas que é, afinal, o livro da esperança. A esperança. É esse o sinal indelével que ele nos deixou, depois do susto e das lágrimas.
“Há pessoas que não deviam morrer”, dizia alguém, acusando essa orfandade tão ressentida que a morte de Henrique Ruas nos causou. Esta pequena homenagem que aqui gravamos em sua memória é assim esperança para continuarmos nos caminhos em que nos acompanhou, caminhos por ele desbravados, continuar porque a sua memória tão forte ser-nos há presença. Pequena homenagem esta, muito pequena. Sempre connosco.
segunda-feira, julho 07, 2003
POR UMA IDENTIDADE NACIONAL ABERTA
Por José Adelino Maltez
Ser Portugal não é apenas conservar Portugal; não é apenas cultivarmos os nossos jardins à beira mar plantados, com as sementes e as ferramentas que os outros nos emprestarem. Isso é aposentar Portugal.
Continuar Portugal terá de ser, forçosamente, reinventar Portugal. Sem as euforias adolescentes do tudo, nem os pessimismos gerontocráticos do nada.
Parafraseando Almada Negreiros, poderemos dizer que, apesar de já estarem escritas todas as frases que hão-se salvar Portugal, continua a faltar uma coisa: salvar mesmo Portugal.
E salvar Portugal será salvá-lo, em primeiro lugar, da própria utopia da salvação, revistam os salvadores a forma de pessoas - por mais carismáticas que seja, - ou apareçam disfarçadas em doutrinas e ideologias - por mais científicas ou revolucionárias que possam parecer.
Uma comunidade política de corpo inteiro, esse algo que vai além do Estado e que procura assumir-se afectiva e culturalmente como uma pátria, um povo ou uma nação, é, sobretudo, uma comunidade de pessoas que partilham significações comuns. Tenta ser mais do que uma simples soma de “eus”, dado procurar atingir a dimensão do “nós”, quando cada um dos membros dessa comunidade consegue identificar-se com o todo, ao comungar símbolos mobilizadores.
Aplicando o princípio enunciado, podemos dizer que, há pouco mais de vinte e cinco anos, os portugueses eram portugueses porque, por exemplo, sentiam de forma idêntica Amália Rodrigues e Eusébio da Silva Ferreira, duas das significações partilhadas geradas pelo ambiente do “Portugal do Minho a Timor” que, mal ou bem, formatou a maioria dos portugueses de hoje. Esse imaginário assentava no tímido esboço de um lusotropicalismo multicultural sonhado por uma minoria de visionários, mas que não conseguiu driblar os ventos da história da guerra colonial e da posterior descolonização pretensamente exemplar.
Outro foi o discurso justificador da pós-revolução, quando, correndo para a integração europeia, nos orgulhámos da “Europa connosco” e de uma unidade nacional assente em bases de homogeneidade etno-histórica, sem os problemas das minorias que afectavam os outros europeus. Até se disse que os portugueses padeciam de uma espécie de “hiper-identidade”, muito especialmente quando nos comparávamos ao Estado Espanhol.
É natural que continuemos a padecer de uma chamada crise de identidade. Porque temos cerca de oito séculos de autonomia temos uma inevitável complexidade quanto aos mecanismos de identidade, dado que esta última sempre foi sendo reinventada ao longo da nossa história.
Talvez seja urgente recordar que, na Idade Média, cerca de um quinto dos portugueses reais seriam mouros e judeus. Saltando alguns séculos, podemos também lembrar que, na região da Grande Lisboa, ainda no século XVIII, existiriam cerca de dez por cento de negros.
Por outras palavras, o mais permanecente dos Estados europeus e a nação mais antiga deste Continente, partiram, afinal, de uma base multicultural e apenas se identificaram unitariamente por terem praticado inquisitorialmente uma espécie de genocídio doce. Mesmo nestes últimos dois séculos, já sem judeus nem mouros, continuámos na mesma senda de construtivismo nacional centralista, quando programámos e aplicámos um modelo de assimilacionismo exacerbado tanto na metrópole como no espaço imperial.
Aliás, importa também assinalar que muito do nacionalismo português do século XX, esse que se baseia no neogarrettismo e no saudosismo, permitindo o patriotismo da I República e do Estado Novo, constitui mera reinvenção de marca estrangeirada, influenciada pelo nacionalismo místico da III República Francesa, onde até nos inspirámos para o neo-imperialismo colonialista.
Feliz ou infelizmente, depois de 1974, não podendo nacionalizar tendências importadas, até porque a nossa descolonização foi atípica e não acompanhou o ritmo europeu, tanto o do modelo francês, entre o socialismo de Mendes-France e o patriotismo gaullismo, como o do modelo britânico, marcado pelo cepticismo conservador da cedência aos winds of change, eis que nos sentimos náufragos no tocante à habitual inspiração estrangeirada.
Feliz ou infelizmente, tivemos que viajar dentro de nós e, sem grandes teorizações e as consequentes vulgatas ideológicas, experimentando o nosso modo de estar no mundo, antes de o julgarmos e reconstruindo uma nova comunidade nacional sem obediência a prévios programas vanguardistas.
Feliz ou infelizmente, o Portugal a que chegámos acabou por ser escrito por aquela mão invisível, segundo a qual o mundo é mais produto da acção dos homens do que resultado das boas ou más intenções de alguns deles.
Tenho, pois, de concluir que os portugueses de hoje, se quiserem continuar portugueses, têm que ter a coragem de reinventar Portugal. Têm que reorganizar a nova comunidade de significações partilhadas que, conservando o essencial da tradição universalista dos nossos oito séculos de história, seja capaz de a enriquecer-se, de alargar-se em novos círculos concêntricos de uma mais complexa identidade. Por isso, tanto rejeito a ilusão assimilacionista dos que querem conservar o que já não há, como me revolto contra o paternalismo de certos pretensos reconstrutores que esquecem as nossas raízes e não conseguem compreender a base do nosso universalismo.
De uma forma radicalmente liberal, direi que não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história, mas sem saber que efectiva história vai fazendo. Com efeito, há sempre uma chamada mão invisível que nos condiciona. Porque a polis, a respublica, o regnum ou o Estado, resultam sempre de uma tensão entre os modelos da racionalidade técnica e da racionalidade ética, entre a racionalidade dos fins (a Zweckrationalitat de Weber) e a racionalidade dos valores (a Wertrationalitat).
Tal como o homem não é apenas inteligência e vontade, mas também imaginação e emoção, também as comunidades políticas precisam de conjugar a ética da responsabilidade com a ética da convicção, a frieza da razão do Estado com a emoção da Nação libertadora, a consciência com a memória e a autonomia com a identidade.
Para que Portugal continue a querer viver como pensa, para que os portugueses continuem a querer a independência, importa que, no espaço da memória, essa inteligência que visa a autonomia possa ser compensada por uma reinvenção da identidade que, longe de conservar o que já não há, assuma a criatividade das saudades do futuro, através uma identidade nacional aberta às novas circunstâncias.
Por José Adelino Maltez
Ser Portugal não é apenas conservar Portugal; não é apenas cultivarmos os nossos jardins à beira mar plantados, com as sementes e as ferramentas que os outros nos emprestarem. Isso é aposentar Portugal.
Continuar Portugal terá de ser, forçosamente, reinventar Portugal. Sem as euforias adolescentes do tudo, nem os pessimismos gerontocráticos do nada.
Parafraseando Almada Negreiros, poderemos dizer que, apesar de já estarem escritas todas as frases que hão-se salvar Portugal, continua a faltar uma coisa: salvar mesmo Portugal.
E salvar Portugal será salvá-lo, em primeiro lugar, da própria utopia da salvação, revistam os salvadores a forma de pessoas - por mais carismáticas que seja, - ou apareçam disfarçadas em doutrinas e ideologias - por mais científicas ou revolucionárias que possam parecer.
Uma comunidade política de corpo inteiro, esse algo que vai além do Estado e que procura assumir-se afectiva e culturalmente como uma pátria, um povo ou uma nação, é, sobretudo, uma comunidade de pessoas que partilham significações comuns. Tenta ser mais do que uma simples soma de “eus”, dado procurar atingir a dimensão do “nós”, quando cada um dos membros dessa comunidade consegue identificar-se com o todo, ao comungar símbolos mobilizadores.
Aplicando o princípio enunciado, podemos dizer que, há pouco mais de vinte e cinco anos, os portugueses eram portugueses porque, por exemplo, sentiam de forma idêntica Amália Rodrigues e Eusébio da Silva Ferreira, duas das significações partilhadas geradas pelo ambiente do “Portugal do Minho a Timor” que, mal ou bem, formatou a maioria dos portugueses de hoje. Esse imaginário assentava no tímido esboço de um lusotropicalismo multicultural sonhado por uma minoria de visionários, mas que não conseguiu driblar os ventos da história da guerra colonial e da posterior descolonização pretensamente exemplar.
Outro foi o discurso justificador da pós-revolução, quando, correndo para a integração europeia, nos orgulhámos da “Europa connosco” e de uma unidade nacional assente em bases de homogeneidade etno-histórica, sem os problemas das minorias que afectavam os outros europeus. Até se disse que os portugueses padeciam de uma espécie de “hiper-identidade”, muito especialmente quando nos comparávamos ao Estado Espanhol.
É natural que continuemos a padecer de uma chamada crise de identidade. Porque temos cerca de oito séculos de autonomia temos uma inevitável complexidade quanto aos mecanismos de identidade, dado que esta última sempre foi sendo reinventada ao longo da nossa história.
Talvez seja urgente recordar que, na Idade Média, cerca de um quinto dos portugueses reais seriam mouros e judeus. Saltando alguns séculos, podemos também lembrar que, na região da Grande Lisboa, ainda no século XVIII, existiriam cerca de dez por cento de negros.
Por outras palavras, o mais permanecente dos Estados europeus e a nação mais antiga deste Continente, partiram, afinal, de uma base multicultural e apenas se identificaram unitariamente por terem praticado inquisitorialmente uma espécie de genocídio doce. Mesmo nestes últimos dois séculos, já sem judeus nem mouros, continuámos na mesma senda de construtivismo nacional centralista, quando programámos e aplicámos um modelo de assimilacionismo exacerbado tanto na metrópole como no espaço imperial.
Aliás, importa também assinalar que muito do nacionalismo português do século XX, esse que se baseia no neogarrettismo e no saudosismo, permitindo o patriotismo da I República e do Estado Novo, constitui mera reinvenção de marca estrangeirada, influenciada pelo nacionalismo místico da III República Francesa, onde até nos inspirámos para o neo-imperialismo colonialista.
Feliz ou infelizmente, depois de 1974, não podendo nacionalizar tendências importadas, até porque a nossa descolonização foi atípica e não acompanhou o ritmo europeu, tanto o do modelo francês, entre o socialismo de Mendes-France e o patriotismo gaullismo, como o do modelo britânico, marcado pelo cepticismo conservador da cedência aos winds of change, eis que nos sentimos náufragos no tocante à habitual inspiração estrangeirada.
Feliz ou infelizmente, tivemos que viajar dentro de nós e, sem grandes teorizações e as consequentes vulgatas ideológicas, experimentando o nosso modo de estar no mundo, antes de o julgarmos e reconstruindo uma nova comunidade nacional sem obediência a prévios programas vanguardistas.
Feliz ou infelizmente, o Portugal a que chegámos acabou por ser escrito por aquela mão invisível, segundo a qual o mundo é mais produto da acção dos homens do que resultado das boas ou más intenções de alguns deles.
Tenho, pois, de concluir que os portugueses de hoje, se quiserem continuar portugueses, têm que ter a coragem de reinventar Portugal. Têm que reorganizar a nova comunidade de significações partilhadas que, conservando o essencial da tradição universalista dos nossos oito séculos de história, seja capaz de a enriquecer-se, de alargar-se em novos círculos concêntricos de uma mais complexa identidade. Por isso, tanto rejeito a ilusão assimilacionista dos que querem conservar o que já não há, como me revolto contra o paternalismo de certos pretensos reconstrutores que esquecem as nossas raízes e não conseguem compreender a base do nosso universalismo.
De uma forma radicalmente liberal, direi que não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história, mas sem saber que efectiva história vai fazendo. Com efeito, há sempre uma chamada mão invisível que nos condiciona. Porque a polis, a respublica, o regnum ou o Estado, resultam sempre de uma tensão entre os modelos da racionalidade técnica e da racionalidade ética, entre a racionalidade dos fins (a Zweckrationalitat de Weber) e a racionalidade dos valores (a Wertrationalitat).
Tal como o homem não é apenas inteligência e vontade, mas também imaginação e emoção, também as comunidades políticas precisam de conjugar a ética da responsabilidade com a ética da convicção, a frieza da razão do Estado com a emoção da Nação libertadora, a consciência com a memória e a autonomia com a identidade.
Para que Portugal continue a querer viver como pensa, para que os portugueses continuem a querer a independência, importa que, no espaço da memória, essa inteligência que visa a autonomia possa ser compensada por uma reinvenção da identidade que, longe de conservar o que já não há, assuma a criatividade das saudades do futuro, através uma identidade nacional aberta às novas circunstâncias.
segunda-feira, junho 30, 2003
A CASA LUSITANA
Por Teresa Martins de Carvalho
«Todas as nações são mistérios» - Fernando Pessoa
Para nós, portugueses, o ano de 1999 foi inesquecível.
Verão fora, percorreu o país uma vaga imparável de excitação, de apreensão, de alegria incontida, de raiva impotente, uma paixão avassaladora que remexeu toda a gente, dando-lhe uma só voz a gritar por Timor, pela vitória, pela tragédia, pela esperança. Há muitos anos que tal não acontecia, os portugueses todos unidos por uma causa. Nem no 25 de Abril, tenham paciência... Talvez estremeção semelhante se tenha dado com a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou, mais atrás, em 1890, quando do ultimato. Há mais de cem anos...
Mesmo já sem Império (ou quase, faltava Macau) ainda lutávamos pelo Império. E não me venham cá com histórias de solidariedade na luta pela democracia ou revoada de ajuda humanitária, coisas dessas. Portugal estremeceu até ao fundo do seu ser. Num assomo de responsabilidade? Sim, profunda, bem sentida. Profundo afecto, profunda saudade. Como se, de repente, se tivesse reencontrado consigo próprio, renascido da «vil tristeza», da chateza dos dias, das abstenções eleitorais, de governos cinzentos, de horizontes limitados pelo futebol e por Bruxelas.
Segundo o mais conceituado intelectual da nossa praça, Portugal criou-se como destino, desenhando para si desígnios de grandeza excessiva, de expansão no mundo desmesurado e esgotante, um Quinto Império feito de ilusão. Caídos agora na realidade, teríamos de olhar a nação, órfã do Império, de modo mais lúcido e humilde. Seremos o Senhor Oliveira da Figueira, esse português que aparece nas aventuras do Tim Tim, comerciante obsequioso que vende tudo pelas sete partidas do mundo, conta histórias tristes, chora e serve vinho da terra? Felizmente para o orgulho nacional, está sempre do lado dos bons...
Não estou de acordo com Eduardo Lourenço na sua desmistificação do sonho português e da cura que lhe propõe. Quem aceita ser português e ser lúcido? «Pelo sonho é que vamos» nos dizia Sebastião da Gama. «Cada vez que um homem sonha/ o mundo pula e avança» como cantava António Gedeão. O novo horizonte é sempre o sonho, ilhéus apertados entre o mar e as Espanhas. Neste imenso cais de despedida que é Portugal, os emigrantes pobres saem para a Europa, os mais inteligentes vão estudar para a América e por lá ficam.
Em 1961, quando começou a guerra colonial, dizia-me uma camponesa alentejana, analfabeta, bem estabelecida na sua charneca: «E agora se nos tiram Angola para onde é que nós vamos?»
Com o arriar da bandeira portuguesa em Macau, perdemos o resto do Oriente, esse Oriente onde a língua portuguesa chegou a ser língua franca. Perdemos o Oriente... Nas genealogias das famílias portuguesas do século XVI lá se menciona, insistentemente, «falecido no Oriente...», «Desaparecido no Oriente...». Não há mais Oriente para ir morrer.
O que nos resta? Redescobrir de novo a hispanidade dentro da Europa para equilíbrio das nações concordes num futuro comum? Apostar forte na lusofonia, na missão de cooperação e missão evangelizadora? Aprofundar a ligação ibero-americana numa «globalização» que iniciamos há séculos?
Nunca houve em Portugal tantos e tão bons poetas como no século que acabou, como se esta florescência final de um destino de devoradores de sonhos nos agarrasse a esta nesga de terra, irmã da saudosa Galiza que é guardiã de Compostela, o rumo espiritual dos europeus durante séculos. Finis terra. Um destino espiritual comum, Compostela-Fátima, numa Europa que perde a sua alma...
Como diz o Poeta:
«Cumpriu-se o mar.
O Império se desfez.
Senhor! Falta cumprir-se Portugal!»
Por Teresa Martins de Carvalho
«Todas as nações são mistérios» - Fernando Pessoa
Para nós, portugueses, o ano de 1999 foi inesquecível.
Verão fora, percorreu o país uma vaga imparável de excitação, de apreensão, de alegria incontida, de raiva impotente, uma paixão avassaladora que remexeu toda a gente, dando-lhe uma só voz a gritar por Timor, pela vitória, pela tragédia, pela esperança. Há muitos anos que tal não acontecia, os portugueses todos unidos por uma causa. Nem no 25 de Abril, tenham paciência... Talvez estremeção semelhante se tenha dado com a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou, mais atrás, em 1890, quando do ultimato. Há mais de cem anos...
Mesmo já sem Império (ou quase, faltava Macau) ainda lutávamos pelo Império. E não me venham cá com histórias de solidariedade na luta pela democracia ou revoada de ajuda humanitária, coisas dessas. Portugal estremeceu até ao fundo do seu ser. Num assomo de responsabilidade? Sim, profunda, bem sentida. Profundo afecto, profunda saudade. Como se, de repente, se tivesse reencontrado consigo próprio, renascido da «vil tristeza», da chateza dos dias, das abstenções eleitorais, de governos cinzentos, de horizontes limitados pelo futebol e por Bruxelas.
Segundo o mais conceituado intelectual da nossa praça, Portugal criou-se como destino, desenhando para si desígnios de grandeza excessiva, de expansão no mundo desmesurado e esgotante, um Quinto Império feito de ilusão. Caídos agora na realidade, teríamos de olhar a nação, órfã do Império, de modo mais lúcido e humilde. Seremos o Senhor Oliveira da Figueira, esse português que aparece nas aventuras do Tim Tim, comerciante obsequioso que vende tudo pelas sete partidas do mundo, conta histórias tristes, chora e serve vinho da terra? Felizmente para o orgulho nacional, está sempre do lado dos bons...
Não estou de acordo com Eduardo Lourenço na sua desmistificação do sonho português e da cura que lhe propõe. Quem aceita ser português e ser lúcido? «Pelo sonho é que vamos» nos dizia Sebastião da Gama. «Cada vez que um homem sonha/ o mundo pula e avança» como cantava António Gedeão. O novo horizonte é sempre o sonho, ilhéus apertados entre o mar e as Espanhas. Neste imenso cais de despedida que é Portugal, os emigrantes pobres saem para a Europa, os mais inteligentes vão estudar para a América e por lá ficam.
Em 1961, quando começou a guerra colonial, dizia-me uma camponesa alentejana, analfabeta, bem estabelecida na sua charneca: «E agora se nos tiram Angola para onde é que nós vamos?»
Com o arriar da bandeira portuguesa em Macau, perdemos o resto do Oriente, esse Oriente onde a língua portuguesa chegou a ser língua franca. Perdemos o Oriente... Nas genealogias das famílias portuguesas do século XVI lá se menciona, insistentemente, «falecido no Oriente...», «Desaparecido no Oriente...». Não há mais Oriente para ir morrer.
O que nos resta? Redescobrir de novo a hispanidade dentro da Europa para equilíbrio das nações concordes num futuro comum? Apostar forte na lusofonia, na missão de cooperação e missão evangelizadora? Aprofundar a ligação ibero-americana numa «globalização» que iniciamos há séculos?
Nunca houve em Portugal tantos e tão bons poetas como no século que acabou, como se esta florescência final de um destino de devoradores de sonhos nos agarrasse a esta nesga de terra, irmã da saudosa Galiza que é guardiã de Compostela, o rumo espiritual dos europeus durante séculos. Finis terra. Um destino espiritual comum, Compostela-Fátima, numa Europa que perde a sua alma...
Como diz o Poeta:
«Cumpriu-se o mar.
O Império se desfez.
Senhor! Falta cumprir-se Portugal!»
segunda-feira, junho 23, 2003
DA DIGNIDADE DA POLÍTICA
Por Henrique Barrilaro Ruas
A crise da Política vem de Maquiavel: não apenas distinta, mas separada da Religião, deixou de ser «arte régia» para se reduzir a mera técnica. A partir daí, todas as desgraças lhe podiam acontecer – desde a insuportável arrogância, até à definitiva humilhação.
Quando Pascal, aceitando o golpe cartesiano e apoiando-se em terminologia matemática, estabelece a teoria das «ordens», faz da helénica «arte régia», já abençoada pelo Espírito de Cristo, nada mais que um «reino da concupiscência». Falsa imagem, ou caricatura, do «Reino da Caridade», a que só Deus preside, a Política não vai além de um pobre sistema de relações entre o Príncipe, que é dono dos bens desejados pelos súbditos, e os pobres súbditos, cuja condição se define pelo desejo desses bens.
O Iluminismo, que transforma as mentalidades, preparando a era das ideologias, confunde as realidades e os problemas, diviniza o humano, humaniza o divino, e destrói a ordem das faculdades humanas.
Quando o imenso progresso das ciências físicas torna mais necessário um sistema de valores, é que o antropocentrismo de raiz renascentista rejeita a tradição teocêntrica. Então, o homem individual deixa de ser olhado como pessoa, sede e fonte de valores espirituais, imagem e semelhança do Criador, para surgir, ou como sol absoluto, ou como simples átomo da natureza.
A política perdeu, assim, a sua dignidade. O individualismo filosófico vai conduzir, quer ao liberalismo inquieto, quer ao totalitarismo massificante.
A humanidade de hoje tem necessidade de tomar consciência dos valores políticos, integrados num autêntico humanismo. Como ensinou S. Tomás de Aquino, a Política deve – e pode – preparar as comunidades para a salvação. Não tem poder salvífico; mas é propedêutica da salvação.
Por Henrique Barrilaro Ruas
A crise da Política vem de Maquiavel: não apenas distinta, mas separada da Religião, deixou de ser «arte régia» para se reduzir a mera técnica. A partir daí, todas as desgraças lhe podiam acontecer – desde a insuportável arrogância, até à definitiva humilhação.
Quando Pascal, aceitando o golpe cartesiano e apoiando-se em terminologia matemática, estabelece a teoria das «ordens», faz da helénica «arte régia», já abençoada pelo Espírito de Cristo, nada mais que um «reino da concupiscência». Falsa imagem, ou caricatura, do «Reino da Caridade», a que só Deus preside, a Política não vai além de um pobre sistema de relações entre o Príncipe, que é dono dos bens desejados pelos súbditos, e os pobres súbditos, cuja condição se define pelo desejo desses bens.
O Iluminismo, que transforma as mentalidades, preparando a era das ideologias, confunde as realidades e os problemas, diviniza o humano, humaniza o divino, e destrói a ordem das faculdades humanas.
Quando o imenso progresso das ciências físicas torna mais necessário um sistema de valores, é que o antropocentrismo de raiz renascentista rejeita a tradição teocêntrica. Então, o homem individual deixa de ser olhado como pessoa, sede e fonte de valores espirituais, imagem e semelhança do Criador, para surgir, ou como sol absoluto, ou como simples átomo da natureza.
A política perdeu, assim, a sua dignidade. O individualismo filosófico vai conduzir, quer ao liberalismo inquieto, quer ao totalitarismo massificante.
A humanidade de hoje tem necessidade de tomar consciência dos valores políticos, integrados num autêntico humanismo. Como ensinou S. Tomás de Aquino, a Política deve – e pode – preparar as comunidades para a salvação. Não tem poder salvífico; mas é propedêutica da salvação.
segunda-feira, junho 16, 2003
O PERFIL DA EUROPA
Por Manuel Alves
1º PROJECTO DE TEXTO DE PREÂMBULO (28 de Maio de 2003)
A nossa Constituição chama-se "democracia" porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas de todo o povo. Tucídides II, 37.
Conscientes de que a Europa é um continente portador de civilização; de que os seus habitantes, vindos em vagas sucessivas desde os primórdios da humanidade, aqui desenvolveram progressivamente os valores em que se funda o humanismo: igualdade dos seres, liberdade, respeito pela razão,
Inspirando-se nas heranças culturais, religiosas e humanistas da Europa, que, alimentadas primeiro pelas civilizações helénica e romana, marcadas pelo elã espiritual que a percorreu e que continua a estar presente no seu património, e depois pelas correntes filosóficas do Século das Luzes, enraizaram na vida da sociedade a sua percepção do papel central da pessoa humana e dos seus direitos invioláveis e inalienáveis, bem como do respeito pelo direito,
Convencidos de que a Europa doravante reunida tenciona prosseguir esta trajectória de civilização, de progresso e de prosperidade a bem de todos os seus habitantes, incluindo os mais frágeis e os mais desprotegidos, quer continuar a ser um continente aberto à cultura, ao saber e ao progresso social, e deseja aprofundar o carácter democrático e transparente da sua vida pública e actuar em prol da paz, da justiça e da solidariedade no mundo,
Persuadidos de que os povos da Europa, continuando embora orgulhosos da sua identidade e da sua história nacional, estão decididos a ultrapassar as antigas discórdias e unidos por laços cada vez mais estreitos, a forjar o seu destino comum,
Certos de que, "Unida na diversidade", a Europa lhes oferece as melhores possibilidades de, respeitando os direitos de cada um e estando cientes das suas responsabilidades para com as gerações futuras e para com a Terra, prosseguir a grande aventura que faz dela um espaço privilegiado de esperança humana,
Gratos aos membros da Convenção Europeia por terem elaborado a presente Constituição em nome dos cidadãos e dos Estados da Europa,
2º PROJECTO DE TEXTO DE PREÂMBULO (12 de Junho de 2003)
A nossa Constituição chama-se "democracia" porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos. Tucídides II, 37
Conscientes ... (idem)
Inspirando-se nas heranças culturais, religiosas e humanistas da Europa, que, ainda e sempre presentes no seu património, enraizaram na vida da sociedade a sua percepção do papel central da pessoa humana e dos seus direitos invioláveis e inalienáveis, bem como do respeito pelo direito,
Convencidos ... (idem)
Persuadidos ... (idem)
Certos de que ... (idem)
Gratos ... (idem)
[Os quais, depois de terem trocado os seus plenos poderes reconhecidos em boa e devida forma, acordaram nas disposições seguintes:]
(Traduções apresentadas pela Convenção Europeia)
***
NO PASSADO DIA 28 DE MAIO, o Praesidium da Convenção Europeia apresentou aos seus membros o 1º projecto de texto de Preâmbulo do Tratado que instituirá a Constituição da União Europeia.
Os preâmbulos das leis são sempre importantes porque proporcionam um rigoroso sentido a todo o articulado jurídico, reduzindo as dúvidas e servindo de guia aos interpretes. Os preâmbulos das Constituições são ainda mais importantes; tratando-se de articulados de normas jurídico-políticas, obrigam os interpretes a utilizar critérios fieis à vontade do constituinte.
O conteúdo da 1ª proposta de Preâmbulo era tudo menos ambíguo, revelando-nos que os convencionais estavam bem conscientes e certos do que queriam. O teor da 2ª proposta, apresentada em 12 de Junho, reforça-nos essa ideia.
No início, lia-se na epígrafe inspiradora: «A nossa Constituição chama-se "democracia" porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas de todo o povo.»
Tratando-se de uma definição de «democracia», expressa por intermédio de uma oposição de relativos (Aristóteles, Organon, I, 10 ) - "o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas de todo o povo" -, é o próprio paralogismo dessa primeira versão a revelar-nos, sem sofisma, a intenção presidentista dos convencionais.
Sendo certo que o "povo" para Tucídides não incluía a maioria dos habitantes da Cidade - excluíndo os metecos, os escravos e as mulheres - ao substituir-se "todo o povo" por "um maior número de cidadãos" ficam a História e a Lógica respeitadas, e nos leitores a impressão de que os convencionais evitaram a tempo a mofa do público: o contrário ou oposto de uma minoria, tanto na Grécia antiga como na actual, nunca podia ser uma totalidade. Nada indica, no entanto, que os presidentistas venham a abandonar a defesa da ideia segundo a qual o "presidente da Europa será o presidente de todos os europeus".
Desde Maastricht, a descristianização da Europa e a destruição das Pátrias têm sido dois pontos essenciais do programa "civilizacional" da União Europeia. Todavia, entre a 1ª e a 2ª versão do Preâmbulo, dir-se-ia que os convencionais abandonaram o "elã espiritual" que vem das civilizações helénica e romana, e que foi continuado "depois pelas correntes filosóficas do Século das Luzes". Quando ainda ecoavam na imprensa as incisivas e duras palavras de Monsenhor Josef Homeyer - "Ricordare la responsabilitá davanti a Dio, l'umanitá e la creazione, significherebbe mostrare in maniera inequivocabile che il potere pubblico non é assoluto." (L'Osservatore Romano, 7 Giugno 2003) - que outra opção lhes restava, a não ser apagar, esconder, insular um tal "elã espiritual"?
Não, não creio que riscar um tal "elã" signifique fraqueza ou desejo de compromisso. Olhando ao conteúdo do vastíssimo articulado jurídico-político proposto, ter-se-á tratado antes de uma retirada para as sombras, na senda exemplar de Jean Monnet: "Não tenho nenhum gosto pela sombra, mas se fôr pagando o preço da obscuridade que se pode fazer melhor as coisas, então escolho as sombras".
O que singulariza o conceito de Europa do Praesidium da Convenção, ficou bem afirmado na 1ª proposta e não foi desmentido na 2ª. A ausência de uma referência ao período medieval - ao período da res publica christiana - é por demais evidente e esclarecedora.
Existiu um Iluminismo alemão, italiano, espanhol, mesmo português, mas todos tardios e subsidiários do francês e da sua vocação redentora: retirar os povos das trevas religiosas e políticas medievais, levando-as para a terra prometida da razão e da filantropia. Os governantes, é claro, tinham por missão levar a felicidade aos povos libertos da ascética cristã, que inculcava a austeridade de costumes e a submissão aos valores somáticos e espirituais.
No centro do Iluminismo sempre esteve uma intenção polémica contra o cristianismo. As luzes da razão vinham substituir a fé. Doravante, a sociedade, o Estado, a arte, a moral, a própria religião, deviam ser racionais e não mais que racionais. Tudo se podia compreender e houve iluministas, e seus descendentes, que acreditaram tudo poder compreender, como Hegel no seu idealismo absoluto, Marx no seu materialismo dialectico, Lenine na sua teoria da revolução, Mussolini na sua doutrina do Estado.
Quero crer que os convencionais não se revêm em alguma descendência do Iluminismo. Mas talvez, por hipótese, se revejam naqueles que hoje atribuem à Europa um perfil cultural que terá sido desenhado desde Cícero a Erasmo, de Lutero a Winckelman e a Göethe, de Hölderlin a Nietzsche e a Heidegger. Nessa visão da cultura europeia, o Cristianismo que se expressou em autores como S. Agostinho (354- 430), S. Isidoro de Sevilha (?560-636), S. Anselmo (1033-1109), S. Boaventura (1221-1274), S. Tomás de Aquino (1225/27-1274), Francisco Suárez (1548-1617) , é no fundo entendido como uma violência contra as consciências porque, em nome de uma revelação, se arrogaria o privilégio e o direito de dizer o verdadeiro e o universal.
Qualquer que seja o galho da árvore frondosa do Iluminismo a partir do qual olhem para a Europa, para a maioria dos convencionais Deus continua a ser a palavra interdita.
A herança europeia inclui, para além da filosofia grega, do direito romano e do próprio Iluminismo, as estruturas sociais e as tradições germânicas, a revelação cristã e a sua doutrina humanista. Incluir no preâmbulo da Constituição europeia uma referência ao humanismo cristão e à responsabilidade do homem perante Deus, seria aceitar o que há de infindável e de incomensurável na alma dos povos e nações desta península do continente asiático a que chamamos Europa; seria admitir que o humanismo cristão é parte essencial da herança e actualidade da Europa; seria reconhecer, afinal, que existe uma personalidade europeia e ocidental aspirando à unidade na diversidade. Ora é isso que os convencionais não admitem. Os convencionais não querem admitir que a Constituição da União Europeia possa visar a concretização de uma Europa das Pátrias ao serviço de um projecto de paz e de universalidade.
Os convencionais, filhos do Iluminismo, nominalistas em filosofia, não podem naturalmente reconhecer nem entender o que seja uma tradição nacional, viva e complexa. Para eles nada há de essencial nas sociedades, como nada há de essencial nos homens. Se ainda admitem as nações, admitem-nas apenas como peças de museu, rejeitando que na Europa do futuro possa haver europeus que queiram continuar a colocar a sua terra antes da sua província, a sua província antes da sua pátria, a sua pátria antes da Europa, e, acima de todas as pátrias terrenas, a Cidade de Deus.
Segundo o Praesidium da Convenção Europeia, as Nações da Europa nada mais são do que Estados, e os Estados nada mais são do que colégios de cidadãos eleitores agregados ou a agregar. No Direito Europeu que querem definir, só a lei positiva terá lugar. Cegos para o que de substancial existe nos homens e nos povos, a sua vontade é inequívoca: pretendem criar na Europa um poder público absoluto; um poder público absolutamente alicerçado no produto do acordo momentâneo de vontades individuais.
terça-feira, junho 10, 2003
QUANDO FLORESCEM OS JACARANDÁS
Por Fernando Quintais
Teve o Centro Nacional de Cultura a excelente ideia de lançar agora uma campanha tendo como tema Os Jacarandás de Lisboa. Isso me trouxe à lembrança um texto que escrevi, faz agora anos:
Faz agora anos. Na Avenida Dom Carlos floresciam os jacarandás. Tal como hoje, também naquele ano estava quente o mês de Maio em Lisboa, e apesar da crise económica que se instalara, ia uma invulgar azáfama na cidade.
É que, Sábado, dia 13 - 78º aniversário das maravilhosas aparições de Fátima - ia casar o Senhor Dom Duarte, Príncipe da Beira, com Dona Isabel de Herédia.
O anúncio do auspicioso casamento alegrou o coração de todos os portugueses que, vivendo em república, entendem que a Dinastia é indispensável ao seu equilíbrio espiritual. Sabem que Dom Duarte é a reserva moral deste Povo, e em horas de dúvida é nele que se revêem para aferir os seus próprios padrões.
Como português não pude deixar de me alegrar com o anúncio das bodas. Ia ser um acontecimento memorável que permaneceria na recordação de todos nós, quer para os que iam ter a felicidade de estar presentes na cerimónia, quer para todos aqueles que em todo o mundo, graças à Televisão Internacional, iam acompanhá-lo em tempo real, pois seria especialmente transmitido para toda a diáspora.
Para além do quanto seria precioso para o nosso Príncipe e sua Noiva, o casamento iria dar motivo de renovada esperança a tantos milhões de portugueses, dos quais alguns menos pacientes já desesperavam de assistir às Núpcias Reais anunciadoras do acontecimento mais desejado nestes últimos anos: a existência de um sucessor, legítimo herdeiro do trono de Portugal.
A imprensa, a rádio e a televisão - os "media" como hoje comunmente se diz, deram uma cobertura completa ao anúncio do noivado, e nunca se viram nas bancas das revistas e jornais, tão maciçamente repetidas, fotografias oficiais de personalidades ou factos, como aconteceu naqueles dias com o Duque de Bragança e sua linda noiva, D. Isabel de Herédia.
Houve quem pretendesse oferecer avultadas quantias pelo privilégio de um convite para a cerimónia religiosa no Mosteiro dos Jerónimos, e até apareceram convites falsificados, tendo-se, todavia, agido benevolamente sobre os portadores destes.
Fenómeno de espanto nesta república, os portugueses disputavam o direito de presença na cerimónia, ainda que soubessem que para a maioria deles essa “presença” seria apenas simbólica.
O comércio aproveitou bem a altura para fazer o seu negócio, especialmente as casas de modas e joalheiros.
Uma antiga fábrica de porcelanas apresentou um belo serviço de jantar para 48 pessoas, que esteve aberto à subscrição pública para presente de casamento dos Reais Noivos, e que foi rapidamente subscrito. Foi esta uma interessante iniciativa que permitiu a muitos simpatizantes anónimos contribuir com a oferta de uma peça, que iria integrar uma baixela de fina porcelana onde foi dado realce às armas reais de Portugal.
Além de se tratar da notícia de um acontecimento social e nacional de enorme impacto, também na Europa os media lhe deram grande cobertura.
Haja em vista a capa e as oito páginas de fotografias e texto publicados logo em 23 de Maio pela revista belga Point de Vue, de grande circulação nos meios monárquicos europeus.
A toda a largura das duas primeiras páginas daquela revista, foi publicada uma bela fotografia dos noivos com a legenda ao fundo:
Dom Duarte et Dona Isabel
MARIAGE ROYAL AU PORTUGAL
No canto superior esquerdo as armas dos noivos e por baixo o comentário:
"Deux mois après l´Espagne, le Portugal s´est offert son "mariage du siècle". Ce 13 mai, Dom Duarte a uni son destin à Dona Isabel de Herédia. Un événement royal qui a ravis les monarchistes du pays et le gotha européen."
E no canto superior direito o apontamento:
"Il avais promis d´être marié pour ses cinquante ans. Deux jours avant la date fatidique, le duc de Bragance, chef de la maison royale de Portugal a épousé Isabel de Herédia, vingt-huit ans."
Seguem-se seis páginas de magníficas fotografias, em que se destaca a presença do Presidente da República e de sua mulher, o momento em que Dom Duarte beija o anel do Patriarca D. António Ribeiro, uma bela imagem dos convidados, entre eles o Príncipe Pedro d´Orleans-Bragança, a Condessa de Paris, a Princesa Thérése d´Orleans_Bragança, as rainhas Giovanna e Margarita da Bulgária, o Arquiduque Otão, da Austria, o Grão-duque herdeiro do Luxemburgo, o Príncipe Philippe da Bélgica, a Infanta Margarida de Espanha com seu marido, o Dr. Carlos Zurita.
A página seguinte é totalmente ocupada por uma bela fotografia do interior dos Jerónimos, vendo-se os noivos de joelhos em frente do altar e do celebrante, o Cardeal D. António, e do lado de trás do altar os representantes da Igreja, entre eles o Núncio Apostólico, o Arcebispo de Braga, os bispos do Porto e Bragança, o Revº Cónego Marques da Silva, da Sé Patriarcal, Padre Mário Cunha, da paróquia do Santo Condestável, Frei Elias de Gusmão, da Fundação de S. Martinho do Lima e o Pe. João Seabra, Capelão da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Esta página contém ainda uma legenda atribuída à noiva:
«É um amigo da minha família desde sempre. Já nem me recordo da primeira vez que vi Duarte. Fui seduzida pela sua bondade, a sua tolerância e o seu sentido de humor».
Outra página espectacular é a seguinte, que apresenta os noivos a cortar o bolo, uma peça excelente de doçaria regional do Algarve, com cerca de 100 quilos, oferecido pela Real Associação do Algarve.
As três páginas seguintes são dedicadas ao texto, e a mais fotografias, sendo a última a dos noivos recebendo a homenagem de um grupo de danças de Timor, aquela pequena ilha do oceano Índico tão cara ao coração de D. Duarte.
Ao longo da última quinzena de Maio multiplicaram-se as edições de livros e revistas, com documentos biográficos e reportagens do casamento.
Pela sua qualidade merecem destaque seis daquelas publicações: o número comemorativo de aniversário da revista Eles e Elas, dirigida por Maria da Luz de Bragança, com uma ampla reportagem fotográfica de cerca de 200 clichés; o magnífico livro Diálogos com o Duque de Bragança, da autoria de Clara Picão Fernandes e as não menos notáveis edições das biografias do Senhor Dom Duarte, da autoria, uma delas, do jornalista Jorge de Morais e outra, DUARTE E ISABEL - DUQUES DE BRAGANÇA, Biografia Autorizada, da autoria de Nuno Canas Mendes.
Ainda em Maio, publicou a Textual uma excelente colectânea de entrevistas efectuadas ao Senhor Dom Duarte, pela jornalista Manuela Gonzaga: O PASSADO DE PORTUGAL NO SEU FUTURO, através da qual se pode apreciar quão claro e transparente é o pensamento do Rei sobre o futuro de Portugal.
Finalmente, em princípio de Setembro, o Professor Dr. Henrique Barrilaro Ruas, coordena e dá à estampa um magnífico álbum com o título UM CASAMENTO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL.
Nesta magnífica obra de fino gosto e grande rigor histórico, realça-se a escolha das genealogias mais representativas já definitivamente estabelecidas, tanto dos reis de Portugal como do Duque de Bragança.
Apresenta um belo desenho em desdobrável de uma árvore genealógica crescendo pelo duplo critério biológico e sucessório, da raiz dos condes D. Henrique e D. Tereza até ao Senhor Dom Duarte, no topo da geração.
Entre as mulheres, na genealogia varonil de D. Duarte, pela linha mais longa, destaco D. Joana de Castro (Portugal) casada em 1429 com D. Fernando de Bragança, o segundo no nome.
A parte final do álbum é enriquecida com as mais belas fotografias da reportagem que Homem Cardoso fez deste acontecimento.
* * *
Alguns anos passaram. Deu-nos Deus, através da descendência de S.A.R os Duques de Bragança, a legítima esperança de que o Reino de Portugal se prolongará através da sua geração: Dom Afonso de Santa Maria, D. Maria Francisca e D. Diniz.
No princípio do Terceiro Milénio esperam os Portugueses poder ver no trono o legítimo Herdeiro dos Reis de Portugal.
E de uma família que deu Reis a Portugal durante 600 anos não será demais esperar que assim continue, pelo menos, por outros mil.
Que o Anjo de Portugal favoreça os esposos, e com eles todos os portugueses, nas suas legítimas esperanças de que este casamento seja o alvorecer de uma nova era de redenção para Portugal.
Teve o Centro Nacional de Cultura a excelente ideia de lançar agora uma campanha tendo como tema Os Jacarandás de Lisboa. Isso me trouxe à lembrança um texto que escrevi, faz agora anos:
Faz agora anos. Na Avenida Dom Carlos floresciam os jacarandás. Tal como hoje, também naquele ano estava quente o mês de Maio em Lisboa, e apesar da crise económica que se instalara, ia uma invulgar azáfama na cidade.
É que, Sábado, dia 13 - 78º aniversário das maravilhosas aparições de Fátima - ia casar o Senhor Dom Duarte, Príncipe da Beira, com Dona Isabel de Herédia.
O anúncio do auspicioso casamento alegrou o coração de todos os portugueses que, vivendo em república, entendem que a Dinastia é indispensável ao seu equilíbrio espiritual. Sabem que Dom Duarte é a reserva moral deste Povo, e em horas de dúvida é nele que se revêem para aferir os seus próprios padrões.
Como português não pude deixar de me alegrar com o anúncio das bodas. Ia ser um acontecimento memorável que permaneceria na recordação de todos nós, quer para os que iam ter a felicidade de estar presentes na cerimónia, quer para todos aqueles que em todo o mundo, graças à Televisão Internacional, iam acompanhá-lo em tempo real, pois seria especialmente transmitido para toda a diáspora.
Para além do quanto seria precioso para o nosso Príncipe e sua Noiva, o casamento iria dar motivo de renovada esperança a tantos milhões de portugueses, dos quais alguns menos pacientes já desesperavam de assistir às Núpcias Reais anunciadoras do acontecimento mais desejado nestes últimos anos: a existência de um sucessor, legítimo herdeiro do trono de Portugal.
A imprensa, a rádio e a televisão - os "media" como hoje comunmente se diz, deram uma cobertura completa ao anúncio do noivado, e nunca se viram nas bancas das revistas e jornais, tão maciçamente repetidas, fotografias oficiais de personalidades ou factos, como aconteceu naqueles dias com o Duque de Bragança e sua linda noiva, D. Isabel de Herédia.
Houve quem pretendesse oferecer avultadas quantias pelo privilégio de um convite para a cerimónia religiosa no Mosteiro dos Jerónimos, e até apareceram convites falsificados, tendo-se, todavia, agido benevolamente sobre os portadores destes.
Fenómeno de espanto nesta república, os portugueses disputavam o direito de presença na cerimónia, ainda que soubessem que para a maioria deles essa “presença” seria apenas simbólica.
O comércio aproveitou bem a altura para fazer o seu negócio, especialmente as casas de modas e joalheiros.
Uma antiga fábrica de porcelanas apresentou um belo serviço de jantar para 48 pessoas, que esteve aberto à subscrição pública para presente de casamento dos Reais Noivos, e que foi rapidamente subscrito. Foi esta uma interessante iniciativa que permitiu a muitos simpatizantes anónimos contribuir com a oferta de uma peça, que iria integrar uma baixela de fina porcelana onde foi dado realce às armas reais de Portugal.
Além de se tratar da notícia de um acontecimento social e nacional de enorme impacto, também na Europa os media lhe deram grande cobertura.
Haja em vista a capa e as oito páginas de fotografias e texto publicados logo em 23 de Maio pela revista belga Point de Vue, de grande circulação nos meios monárquicos europeus.
A toda a largura das duas primeiras páginas daquela revista, foi publicada uma bela fotografia dos noivos com a legenda ao fundo:
Dom Duarte et Dona Isabel
MARIAGE ROYAL AU PORTUGAL
No canto superior esquerdo as armas dos noivos e por baixo o comentário:
"Deux mois après l´Espagne, le Portugal s´est offert son "mariage du siècle". Ce 13 mai, Dom Duarte a uni son destin à Dona Isabel de Herédia. Un événement royal qui a ravis les monarchistes du pays et le gotha européen."
E no canto superior direito o apontamento:
"Il avais promis d´être marié pour ses cinquante ans. Deux jours avant la date fatidique, le duc de Bragance, chef de la maison royale de Portugal a épousé Isabel de Herédia, vingt-huit ans."
Seguem-se seis páginas de magníficas fotografias, em que se destaca a presença do Presidente da República e de sua mulher, o momento em que Dom Duarte beija o anel do Patriarca D. António Ribeiro, uma bela imagem dos convidados, entre eles o Príncipe Pedro d´Orleans-Bragança, a Condessa de Paris, a Princesa Thérése d´Orleans_Bragança, as rainhas Giovanna e Margarita da Bulgária, o Arquiduque Otão, da Austria, o Grão-duque herdeiro do Luxemburgo, o Príncipe Philippe da Bélgica, a Infanta Margarida de Espanha com seu marido, o Dr. Carlos Zurita.
A página seguinte é totalmente ocupada por uma bela fotografia do interior dos Jerónimos, vendo-se os noivos de joelhos em frente do altar e do celebrante, o Cardeal D. António, e do lado de trás do altar os representantes da Igreja, entre eles o Núncio Apostólico, o Arcebispo de Braga, os bispos do Porto e Bragança, o Revº Cónego Marques da Silva, da Sé Patriarcal, Padre Mário Cunha, da paróquia do Santo Condestável, Frei Elias de Gusmão, da Fundação de S. Martinho do Lima e o Pe. João Seabra, Capelão da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Esta página contém ainda uma legenda atribuída à noiva:
«É um amigo da minha família desde sempre. Já nem me recordo da primeira vez que vi Duarte. Fui seduzida pela sua bondade, a sua tolerância e o seu sentido de humor».
Outra página espectacular é a seguinte, que apresenta os noivos a cortar o bolo, uma peça excelente de doçaria regional do Algarve, com cerca de 100 quilos, oferecido pela Real Associação do Algarve.
As três páginas seguintes são dedicadas ao texto, e a mais fotografias, sendo a última a dos noivos recebendo a homenagem de um grupo de danças de Timor, aquela pequena ilha do oceano Índico tão cara ao coração de D. Duarte.
Ao longo da última quinzena de Maio multiplicaram-se as edições de livros e revistas, com documentos biográficos e reportagens do casamento.
Pela sua qualidade merecem destaque seis daquelas publicações: o número comemorativo de aniversário da revista Eles e Elas, dirigida por Maria da Luz de Bragança, com uma ampla reportagem fotográfica de cerca de 200 clichés; o magnífico livro Diálogos com o Duque de Bragança, da autoria de Clara Picão Fernandes e as não menos notáveis edições das biografias do Senhor Dom Duarte, da autoria, uma delas, do jornalista Jorge de Morais e outra, DUARTE E ISABEL - DUQUES DE BRAGANÇA, Biografia Autorizada, da autoria de Nuno Canas Mendes.
Ainda em Maio, publicou a Textual uma excelente colectânea de entrevistas efectuadas ao Senhor Dom Duarte, pela jornalista Manuela Gonzaga: O PASSADO DE PORTUGAL NO SEU FUTURO, através da qual se pode apreciar quão claro e transparente é o pensamento do Rei sobre o futuro de Portugal.
Finalmente, em princípio de Setembro, o Professor Dr. Henrique Barrilaro Ruas, coordena e dá à estampa um magnífico álbum com o título UM CASAMENTO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL.
Nesta magnífica obra de fino gosto e grande rigor histórico, realça-se a escolha das genealogias mais representativas já definitivamente estabelecidas, tanto dos reis de Portugal como do Duque de Bragança.
Apresenta um belo desenho em desdobrável de uma árvore genealógica crescendo pelo duplo critério biológico e sucessório, da raiz dos condes D. Henrique e D. Tereza até ao Senhor Dom Duarte, no topo da geração.
Entre as mulheres, na genealogia varonil de D. Duarte, pela linha mais longa, destaco D. Joana de Castro (Portugal) casada em 1429 com D. Fernando de Bragança, o segundo no nome.
A parte final do álbum é enriquecida com as mais belas fotografias da reportagem que Homem Cardoso fez deste acontecimento.
* * *
Alguns anos passaram. Deu-nos Deus, através da descendência de S.A.R os Duques de Bragança, a legítima esperança de que o Reino de Portugal se prolongará através da sua geração: Dom Afonso de Santa Maria, D. Maria Francisca e D. Diniz.
No princípio do Terceiro Milénio esperam os Portugueses poder ver no trono o legítimo Herdeiro dos Reis de Portugal.
E de uma família que deu Reis a Portugal durante 600 anos não será demais esperar que assim continue, pelo menos, por outros mil.
Que o Anjo de Portugal favoreça os esposos, e com eles todos os portugueses, nas suas legítimas esperanças de que este casamento seja o alvorecer de uma nova era de redenção para Portugal.
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